Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Neologismo - Manuel Bandeira
    Beijo pouco, falo menos ainda
    Mas invento palavras
    Que traduzem a ternura mais funda
    E mais cotidiana
    Inventei, por exemplo o verbo teadorar
    Intransitivo;
    Teadoro, Teodora
    ---
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    2 min
  • Malibu - Jazi Rodrigues
    Olhei
    E o que era indecifrável
    Se exibia solitário
    O sol banhava a cidade
    Seus raios brigavam com nuvens
    Explicando pra mim mistérios
    Meus olhos assustados nessa comtemplação tão majestosa
    Acendeu memórias
    Despertou lembranças
    Aplacou uma certa dor
    Acionando risos, iluminando ideias
    Aquecendo esperanças, sonhos, desejos…
    E na força de seu brilho e combustão
    Incendiou tudo
    Tudo que em mim não era amor.
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    2 min
  • Miragem / Vinil / Onírico - Jazi Rodrigues
    Miragem
    Estava lá o mar
    Espuma, vento som me consolavam
    As ondas partiam e regressavasm sem ela...
    Olhando assim saudoso, melancólico
    Para o infinito das águas
    Apareceu toda azul, dançante, cabelos ao vento
    Então me afoguei de imagens e lembranças quentes
    Embriagado de memórias
    Mergulhei, nadei, cansei
    Deitei na areia do seu corpo
    Olhei para a saudade nas nuvens
    O céu desenhando seu sorriso
    Mais ondas de seus gestos
    Meu consolo foi ser espectador e cenário da falta que me féria
    Assim ensolarado, transpirei lágrimas
    Palavras
    Cartas
    Conversa comigo sem ela...
    Poemas
    Versos e metáforas
    Me diziam
    Da certeza que para sempre estarei só...
    Vinil
    Seleciono na estante
    dos sonhos impossíveis
    Sons e silêncios
    E na circunferência
    interminável dos dias
    Sinto lentamente a ponta afiada de nostálgicas memórias deslisar sobre as ranhuras da negra superfície onde o passado insiste em se vestir de presente no monótono girar das horas.
    Nessa trilha
    Onde beijos não dados
    ainda molham meus lábios
    Abraços distantes ainda aquecem instantes
    E o vibrato som de tua voz ainda ecoa
    nos lados A e B do triste Vinil
    que se tornou o meu existir.
    Onírico
    Não sei mesmo
    Está acontecendo como o amor acontece
    Real ou irreal?
    Sei de nada
    É isso aí o que sinto
    Não confio e quero
    Desconfio e aceito
    Não tem nome
    Por isso invento, crio epítetos.
    É ilógico como a vida
    Se parar de doer, se sarar ou cicatrizar:
    a Cura vir de um processo secreto
    Rasco novamente a ferida e, sigo nutrindo
    essa dor.
    Sincretismo de Metabolismo
    e metalinguagem
    Sei lá
    Sabe lá
    Se é mais corporeidade
    que intelectualidade
    Não sei
    O que talvez nem sei, é.
    Mas não deve ser
    Tem complexidade, ambiguidade,
    é plurissignificante
    Surreal
    assim Sem explicação
    e pedindo sentido
    interpretação existencial
    Ainda não me matou
    Possivelmente só estou vivo
    porque é vital
    Talvez seja isso,
    Chamemos de vida essa coisa que exige sentidos múltiplos e escapa de nomes
    É telúrico
    Fortemente lúdico, fantástico
    Espiritual e orgiáco
    causa prazer, espanto, alegria
    dói como viver
    Impossível que seja real
    Seria fantasia
    contigo, minha poesia?
    Ou é tu, menina?
    É você, amor?
    Diz, vai, amor é isso?
    É esse teu nome, Perdição?
    Jazi Rodrigues
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    10 min
  • Comumente é Assim - Maiakovski
    Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os punhos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Müller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.
    Vladimir Vladimirovitch Maiakovski (em russo: Владимир Владимирович Маяковский; Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930), também chamado de "o poeta da Revolução", foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX.
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    2 min
  • Madrigal Melancólico - Manuel Bandeira
    O que eu adoro em ti
    Não é a tua beleza
    A beleza é em nós que existe
    A beleza é um conceito
    E a beleza é triste
    Não é triste em si
    Mas pelo que há nela
    De fragilidade e incerteza
    O que eu adoro em ti
    Não é a tua inteligência
    Não é o teu espírito sutil
    Tão ágil e tão luminoso
    Ave solta no céu matinal da montanha
    Nem é a tua ciência
    Do coração dos homens e das coisas.
    O que eu adoro em ti
    Não é a tua graça musical
    Sucessiva e renovada a cada momento
    Graça aérea como teu próprio momento
    Graça que perturba e que satisfaz
    O que eu adoro em ti
    Não é a mãe que já perdi
    E nem meu pai
    O que eu adoro em tua natureza
    Não é o profundo instinto matinal
    Em teu flanco aberto como uma ferida
    Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
    O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
    O que eu adoro em ti é a vida!
    BANDEIRA, M. Antologia, Relógio de Água.
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    3 min
  • O Garoto Suicida - Charles Bukowski
    Fui ao pior dos bares
    esperando ser
    morto.
    mas só consegui
    ficar bêbado
    de novo.
    pior, os donos do bar
    acabaram foi
    gostando de mim.
    lá eu tentei ser
    empurrado num canto
    escuro
    e acabei bebendo
    de graça
    enquanto por aí
    algum filho da mãe
    coitado estava num leito de
    hospital,
    tubos saindo dele
    lutando
    para viver.
    ninguém me ajudaria a
    morrer já que
    a bebida continuava
    vindo,
    já que o amanhã
    me esperava
    com seus grampos de aço
    seu anonimato
    fétido,
    sua atitude
    descuidada.
    a morte nem sempre
    vem correndo
    quando você
    a chama,
    nem mesmo se você
    o faz
    de um castelo
    iluminado
    ou de um transatlântico
    ou do melhor bar
    do mundo (ou
    do pior).
    tal impertinência
    só faz os deuses
    hesitarem e
    protelarem.
    pergunte-me: tenho
    72 anos.
    ---
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    3 min
  • Balada do Amor Através das Idades - Carlos Drummond
    Eu te gosto, você me gosta
    desde tempos imemoriais.
    Eu era grego, você troiana,
    troiana mas não Helena.
    Saí do cavalo de pau
    para matar seu irmão.
    Matei, brigámos, morremos.
    Virei soldado romano,
    perseguidor de cristãos.
    Na porta da catacumba
    encontrei-te novamente.
    Mas quando vi você nua
    caída na areia do circo
    e o leão que vinha vindo,
    dei um pulo desesperado
    e o leão comeu nós dois.
    Depois fui pirata mouro,
    flagelo da Tripolitânia.
    Toquei fogo na fragata
    onde você se escondia
    da fúria de meu bergantim.
    Mas quando ia te pegar
    e te fazer minha escrava,
    você fez o sinal-da-cruz
    e rasgou o peito a punhal...
    Me suicidei também.
    Depois (tempos mais amenos)
    fui cortesão de Versailles,
    espirituoso e devasso.
    Você cismou de ser freira...
    Pulei muro de convento
    mas complicações políticas
    nos levaram à guilhotina.
    Hoje sou moço moderno,
    remo, pulo, danço, boxeio,
    tenho dinheiro no banco.
    Você é uma loura notável,
    boxa, dança, luta, rema.
    Seu pai é que não faz gosto.
    Mas depois de mil peripécias,
    eu, herói da Paramount,
    te abraço, beijo e nos casamos.
    ---
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    6 min
  • Entre Cinzas e Recomeços - Jazi Rodrigues
    Olha que confusão
    Afetos
    Fusão de memórias e histórias
    Uma explosão
    Combustão
    Fumaça
    Incêndios
    Peritos tentam explicar nossa aproximação
    Pretensão de apagar
    Fogo
    Fogueira
    Brasa
    Calor
    Esse amor ensandecido
    Potencializado por uma cegueira
    Sem sentido
    Vítima dessa inclinação por sentir exagerado
    Sinestésico
    se acha e se confunde
    Perdidamente procurando o que inventou
    Vai precisar escrever pra ninguém
    dançar para a música tocar em silêncio
    Pintar para os sonhos nascerem em sensações
    Cantar para adormecer a criança interior
    Desenhar com pensamentos o encanto que acordou nesse peito
    Despertando uma impossível paixão...
    ---
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    5 min
  • Menina Má - Jazi Rodrigues
    Quando decidi
    abrir meu coração
    Saiu correndo a criança
    que sempre fui
    Braços abertos
    Parei no teu colo
    Acolhido
    Ali perdi todo medo do mundo
    Na infância o portão me prendia
    a rua me chamava
    a lua me alucinava
    Até que rua e lua
    encontrei em teu riso..
    Os portões do medo e da moral
    impulsivamente pulei
    te agarrei infantil
    sonhei nos teus braços de menina
    a garota que você é
    me tocou como vento
    me deu doce
    me embebedou precoce
    apaixonado
    tive reações
    tosse
    febre
    insônia
    delírios
    fantasias
    Hoje sem força para correr e se machucar
    a menina que você gosta de ser
    não me olha mais
    adoecido por sua ausência
    espantado com sua frieza
    sem remédio
    vivo o tédio áspera de criança
    que dorme na calçada
    agora sei sofrer esse teu querer estático
    De braços cruzados assisto tua
    doce maldade feminina,
    minha menina...
    ---
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    4 min
  • O jardim - Katherine Mansfield
    Houve em tempos um rapaz.
    Ele vinha brincar no meu jardim;
    Era bastante pálido e calado.
    Mas, quando sorria, eu sabia tudo sobre ele,
    Sabia o que trazia nos bolsos,
    E sabia o toque das suas mãos nas minhas mãos
    E as inflexões mais íntimas da sua voz.
    Levei-o por todos os caminhos secretos,
    Para lhe mostrar o esconderijo dos meus tesouros.
    Deixei-o brincar com eles, cada um deles,
    Fechei os meus pensamentos melodiosos numa gaiolinha de prata
    E dei-lhos, para que os guardasse…
    O jardim era muito escuro
    Mas nunca suficientemente escuro para nós. Atravessávamos em bicos de pés as [sombras mais profundas];
    Banhávamo-nos nos remansos de obscuridade sob as árvores,
    Fingindo que estávamos no fundo do mar.
    Uma vez – perto do limite do jardim –
    Ouvimos passos que percorriam a estrada do Mundo;
    Oh, como ficamos assustados!
    Murmurei: “Alguma vez passaste por aquela estrada?”
    Ele assentiu com a cabeça, e sacudimos as lágrimas dos nossos olhos…
    Houve em tempos um rapaz.
    Ele vinha – sempre sozinho – brincar no meu jardim;
    Era pálido e calado.
    Quando nos conhecemos, beijamo-nos,
    Mas, quando se foi embora, não nos despedimos sequer com um aceno.
    ---
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    4 min

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