A sinodalidade também se manifesta naforma como a Igreja celebra sua fé. A liturgia é o lugar privilegiado dacomunhão, onde o povo de Deus se reúne para escutar a Palavra, rendergraças, oferecer a vida e receber a graça. Celebrar juntos é viver asinodalidade de forma sacramental, visível e orante.
O Concílio Vaticano II, na constituição SacrosanctumConcilium, ensinou que “as ações litúrgicas são celebrações da Igreja, queé sacramento de unidade” (SC, 26). Ou seja, a liturgia não é um ato isolado dopadre, nem um momento reservado aos ministros. É ação de todo o povo santo deDeus, reunido em Cristo e conduzido pelo Espírito.
Uma liturgia sinodal é, portanto, participativa,viva, fiel à tradição e atenta à realidade do povo. Não se trata de“animar” a missa como se fosse um espetáculo, mas de permitir que cada pessoaexperimente, com profundidade, a presença de Deus na assembleia, na Palavra, naEucaristia e na comunidade.
O Papa Francisco, na Carta Apostólica DesiderioDesideravi (2022), afirma: “A ação litúrgica pertence a todo o povo deDeus. A Igreja sinodal precisa de uma liturgia que forme para a escuta, acomunhão e a missão.” Isso implica rever posturas clericalistas e ritosfechados, e favorecer celebrações que expressem a beleza da fé compartilhada.
Uma liturgia sinodal exige formaçãolitúrgica para todos os envolvidos: padres, diáconos, ministros, leitores,músicos, assembleia. Todos precisam compreender o sentido dos gestos, dasorações, das vestes, dos símbolos. Uma Igreja que caminha junta precisacelebrar de forma consciente e participativa.
Além disso, a liturgia deve expressar avida real das comunidades. Os cantos, as preces, os símbolos, os ritmoscelebrativos devem dialogar com a cultura local, com a história do povo, com asdores e alegrias da caminhada. Isso é o que o Concílio chamou de “sadiopluralismo litúrgico”, respeitando a unidade essencial do rito.
Nas comunidades, isso se traduz emcelebrar bem, com qualidade espiritual e pastoral, sem pressa, sem improviso,sem rigidez. Significa valorizar os ministérios litúrgicos, garantir espaços deescuta da Palavra, preparar as homilias com carinho, cuidar da acolhida e daoração dos fiéis, permitir a participação de todos.
Duas ações práticas ajudam a viver asinodalidade na liturgia. A primeira é realizar escolas de formaçãolitúrgica comunitária, para todos os agentes e membros da assembleia. Asegunda é criar equipes de celebração que preparem, em espírito de oração eescuta, cada celebração importante da comunidade.
A liturgia é fonte e cume da vida cristã.E é nela que a sinodalidade se faz visível em sua expressão mais bela: opovo reunido, em comunhão, louvando a Deus e se dispondo à missão. Celebrarjuntos é antecipar o Reino, onde todos têm lugar, todos escutam a Palavra,todos recebem o Pão, todos se tornam irmãos e irmãs.
Assim, a liturgia nãoé apenas um dever dominical, mas uma escola de sinodalidade. Nela aprendemos aescutar, a esperar, a partilhar, a caminhar com os outros, e a deixar queCristo nos conduza como um só corpo. Porque quem celebra junto, caminha junto. Equem caminha com fé, celebra com alegria.