Dorival Caymmi era um artista de várias faces: um compositor de grandes sucessos e refrões inesquecíveis; um cronista da urbanização e da cultura baiana. No entanto, acima de tudo, ele era uma criatura do mar. Não no sentido estrito, literal, mas no nível do imaginário, onde toda a matéria se desfaz em caos e poesia.
Canta o pescador, para o qual o mar é infinito; uma distância inalcançável, que guarda riquezas e perigos além da compreensão. Cosmonauta intrépido, o navegante se joga como um grão de areia no espaço/tempo, no esforço de trazer sustento à sua família, incerto se um dia voltará ou se jazerá para sempre como parte impalpável do infinito.
Para a família, de sangue ou não, que fica, só resta o medo da ausência; o olhar vazio para a imensidão e a fé que os dedos molhados do oceano irão trazer o amor de volta. E quando não devolve o pai, irmão, filho, primo, tio, amigo, o mar não demonstra qualquer remorso e continua a beijar o continente e lavar as lágrimas esquecidas da saudade.
Caymmi é a alma dos filhos da praia, vítimas do patriarcal sistema colonial, que joga o pescador ao mar, sem amparo, para morrer e matar por pouco. Que explora a família; que, na dor, garantirá o pescado de amanhã. Caymmi é o poeta que transforma em verso e melodia a tristeza e admiração frente ao inexorável.
Neste episódio, Daniel e Gigola discutem uma peça artística que consegue decifrar o infinito, desde a maior estrela até a menor das partículas, apenas com uma voz, um gravador, e um violão.