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'Rei da Noite’ traz mito carioca de Ricardo Amaral a Paris em vaudeville sobre poder e espetáculo


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Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Rei da Noite chega à capital francesa como um dos destaques da programação. O filme revisita a trajetória de Ricardo Amaral, figura central da noite carioca e internacional, transformando sua história em um retrato de época entre memória e invenção. Dirigido por Pedro Dumans, Lucas Weglinski e Cassu, o documentário atravessa décadas em que o empresário ajudou a moldar o Rio de Janeiro e projetou sua vida noturna para cidades como Paris e Nova York.

Exibido com destaque no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Rei da Noite chega à capital francesa como um retrato da cultura noturna brasileira em diálogo direto com o circuito internacional que marcou a trajetória de Ricardo Amaral. O documentário transforma a história de vida da figura central da noite carioca entre os anos 1970 e 1990 em um mosaico de memória, excesso e invenção.

“Você pega a história da vida de um homem como o Ricardo, que produziu coisas gigantescas durante muitos anos. Ele não parou de produzir”, diz o diretor Pedro Dumans.

A exibição em Paris reforça o próprio eixo geográfico da narrativa, que atravessa Rio de Janeiro, Nova York e a capital francesa — cidades onde Amaral construiu uma rede de sociabilidade e negócios ligados à vida noturna. Para Dumans, esse movimento constante define o personagem: “Ele estava sempre criando coisas novas e de vanguarda”. O filme também já passou pelo Festival do Rio e inicia sua circulação internacional antes do lançamento comercial previsto para 2026.

Mais do que reconstituir uma biografia, o longa organiza a trajetória de Amaral a partir do princípio de excesso criativo. O empresário, responsável por mais de cem empreendimentos, foi movido pela reinvenção constante. “O grande tesão dele, ele mesmo diz, era criar, criar o tempo inteiro”, afirma o diretor. Boates, restaurantes, academias e casas de espetáculo aparecem como etapas de um impulso contínuo de experimentação urbana e cultural.

De bebê Johnson a rei da noite carioca

Se a noite de Ricardo Amaral foi feita de excessos, circulação e invenção, sua biografia pessoal parece operar no mesmo registro de fabulação contínua — como se a realidade, no seu entorno, também obedecesse a uma lógica de espetáculo permanente. Ainda adolescente, ele já aparecia em zonas de destaque improváveis: “sucesso desde bebê quando ganhou o concurso de bebê Johnson”, recorda o material de divulgação, como se a ideia de notoriedade tivesse sido naturalizada desde o início.

Esse volume de histórias, no entanto, impôs um desafio central à construção do filme. “Dizer para ele que não cabia tudo foi muito doloroso durante o processo”, admite Dumans, indicando que cada exclusão poderia representar uma pequena violência contra a própria lógica do personagem. A solução veio de um processo de seleção progressiva, em que narrativas recorrentes foram ganhando centralidade.

“As histórias mais marcantes são as que acabam entrando no documentário”, explica. O resultado, segundo ele, não é arbitrário, mas quase orgânico: um filtro de memória coletiva.

A estrutura do filme se aproxima de um desfile narrativo, em que episódios reais e anedóticos se acumulam como num carnaval. “Ele era um criador de coisas, de ideias”, resume Dumans.

Ao mesmo tempo, Rei da Noite não se limita à celebração. O filme tensiona a própria imagem pública de seu protagonista, conhecido por seu domínio narrativo e carisma. “Ele é um dos melhores contadores de história que eu conheço”, diz o diretor. Justamente por isso, a estratégia foi interferir nesse domínio. “Eu queria tirar ele da zona de conforto, provocar, para ver um lado mais humano”.

Entre documento e provocação

Essa intervenção se materializa na linguagem do filme, que rompe com o documentário tradicional e incorpora uma camada performática. Inspirado pelo universo circense e pelo cinema de Federico Fellini, o projeto cria um dispositivo de provocação em cena. “A gente criou um provocador que entra em cena e tira ele da zona de conforto”, explica Dumans. O gesto, segundo o diretor, redefine o próprio gênero: “Isso, para mim, é o documentário — ver a pessoa além da imagem que ela construiu”.

A escolha estética dialoga com o universo retratado. Amaral circulava por um ambiente em que a noite era também uma forma de encenação social, reunindo nomes como Pelé, Danuza Leão, Narcisa Tamborindeguy e Nelson Motta, além de figuras internacionais como Fellini e o príncipe Charles. “Era uma época muito glamourosa”, lembra o diretor. “Não era só dinheiro — era estilo, relevância cultural”.

O filme também observa as contradições desse período, marcado por códigos sociais hoje questionados. “Era uma época mais machista, isso aparece”, reconhece Dumans, ao comentar o contexto das décadas retratadas e os depoimentos que ajudam a compor essa dimensão histórica.

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A dimensão performática, por sua vez, reforça o caráter híbrido da obra, que se aproxima de um “vaudeville tropical”. A referência ao cinema de Fellini aparece como estrutura de linguagem e não apenas citação estética. “A gente buscou referências no Fellini para trazer essa camada de vaudeville”, afirma o diretor, destacando o diálogo entre excesso biográfico e excesso formal.

Na montagem, assinada por Tom Laterza e Lucas Weglinski, o ritmo é elemento central. O excesso de histórias exigiu cortes constantes para preservar fluidez narrativa. “Por mais que sejam histórias ótimas, se quebram o ritmo, o espectador cansa”, diz Dumans. Para ele, o filme precisa se comportar como uma composição musical: “É como uma música: o ritmo precisa seguir”.

Após a estreia no Festival do Rio e exibições em eventos internacionais como o de Orlando e agora o Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o documentário tem recebido retorno positivo do público. “As pessoas falam que é um filme leve, que não cansa”, afirma o diretor. 

"Rei da Noite" é exibido na programação do festival parisiense nesta quinta-feira (9).

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