O que é infraestrutura e por que ela é tão importante tanto para o design imperialista quanto para o design anticolonial? Esta aula mostra como a mesma centralização que organizou o espaço urbano colonial também organiza a distribuição de capital, conhecimento, trabalho e poder nas infraestruturas contemporâneas. A colonialidade não desapareceu com a urbanização nem com a digitalização: foi transferida para novas infraestruturas, tornando-se ainda mais eficaz e menos visível.
Descolonizar a infraestrutura exige, então, fazer o movimento contrário: tornar visível aquilo que foi projetado para desaparecer e recuperar a capacidade coletiva de decidir como nossas infraestruturas funcionam. Afinal, quem controla a infraestrutura também controla o que podemos fazer com ela. Por isso, o design da infraestrutura urbana é fundamental para o projeto de uma nação soberana.
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Gravação realizada na disciplina Tecnopolíticas Urbanas do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da PUCPR, a convite do professor Rodrigo Firmino, em 2021.
Colonização e Descolonização do Infraestrutural do Espaço Urbano MP3 50 minutos
Transcrição completa
Esta é uma aula que eu dei a convite do professor Rodrigo Firmino, da PUC do Paraná, em 2021. Na ocasião, eu não tive oportunidade de gravar essa aula, então estou gravando agora. Os slides foram preparados com a ajuda do Mateus Felipe Pelanda, que colaborava comigo à época no estudo da obra de Susan Leigh Star, autora que aborda a infraestrutura como uma forma de relação social.
Bom, essa apresentação, essa aula, tenta entender de onde vem o sentimento de culpar alguém no capitalismo e também como esse sentimento é canalizado para justificar a opressão, como se fosse algo natural. Que tipo de discursos e práticas materiais tornam a opressão uma sensação de raiva, indignação e, ao mesmo tempo, de resignação no capitalismo? E por que as pessoas acabam simplesmente culpando esse sistema gigantesco e natural, em vez de olharem para as pessoas que, de fato, reproduzem esse sistema diariamente e se beneficiam dele no espaço urbano, os capitalistas? Então, vamos tentar construir uma percepção histórica a partir das evidências que a colonização deixou, não só no Brasil, mas também na América Latina e em muitos outros lugares colonizados pelos impérios europeus.
O capitalismo pode ser entendido não como esse grande sistema monstruoso, etéreo e impossível de superar. Se você vai estudar a história do colonialismo, vai chegar à história do capitalismo. O capitalismo surgiu do colonialismo. Segundo Karl Marx, o capitalismo é um desdobramento da acumulação primitiva de capital gerada pelo mercantilismo, que era o sistema econômico das primeiras colônias fundadas pelas grandes navegações, principalmente as de Portugal e da Espanha. Essas nações não reinvestiram seus capitais e, portanto, acabaram sendo superadas por outros países, como a Inglaterra e a Holanda, que investiram em indústrias e manufaturas avançadas e passaram a revender produtos que, provenientes de matérias-primas das colônias portuguesas e espanholas, eram devolvidos aos portugueses e aos espanhóis na forma de manufatura. Com o tempo, essas nações vão disputar com Portugal e a Espanha o mundo, por meio de suas rotas comerciais e das diversas influências que vão adquirindo. Então, começam a haver ocupações britânicas e francesas e, depois, outros países vão seguir. Isso vai criar uma geopolítica imperialista em que a ocupação do mundo passa a ser uma função da ocupação territorial da própria Europa, que, nessa época, já estava chegando aos limites de exploração dos recursos materiais do seu próprio continente e precisava dar vazão, digamos, à sua necessidade de demanda para a acumulação de capital, conquistando recursos além-mar, fora do seu próprio continente.
Essa ocupação territorial da Europa ocasionou a aglutinação de grandes centros metropolitanos em torno do comércio burguês, mas também acumulou recursos provenientes das colônias. Então, a formação de grandes metrópoles está diretamente ligada à criação de colônias ao redor do mundo. O filósofo e sociólogo Henri Lefebvre vai chamar isso de revolução urbana, como o aspecto material da revolução burguesa que ocorre no século XVIII na França e se espalha para vários outros lugares do mundo. Então, essa acumulação de recursos, de materiais, de conhecimento em centros espaciais, metrópoles, vai transformar as várias relações humanas e a percepção do que é ser humano. Essa definição do ser humano, do humanismo, passa a ser pautada, então, por uma noção centralizadora do espaço e da humanidade. A Europa se coloca na posição de centro global à medida que expande seus impérios e busca trazer para si o que há de melhor nos outros espaços e locais desse mundo.
Essa centralização espacial está no cerne do projeto moderno, que inclui não apenas o capitalismo empresarial, mas também o imperialismo geopolítico e a colonização de novos mundos. Esse nexo entre esses três processos é muito importante e, muitas vezes, é perdido em análises espaciais e em críticas que focalizam apenas um desses sistemas, por exemplo, o capitalismo, o imperialismo ou a colonização. Na verdade, os três sistemas estão intrinsecamente ligados à história da configuração do mundo contemporâneo. Agora, o que menos se fala é do aspecto espacial dessa intersecção e articulação entre sistemas. O ponto principal na produção do espaço desses sistemas, o que há em comum entre eles, é a centralização, que, embora gere oportunidade de negócio e acumulação de capital, também estrutura a maneira como esses processos se distribuem espacialmente. As primeiras empresas vão buscar explorar as Índias. Então, veja que o capitalismo surge, de fato, a reboque do processo de colonização.
A centralização também ocorrerá no planejamento urbano diferenciado nas colônias. São as colônias que começam a implementar o grid regular, que divide a cidade em quadras mais ou menos homogêneas. As cidades na Europa, até então construídas de maneira orgânica, sem um planejamento de cima para baixo, não seguem esse padrão de grid estrito, pois cada parte da cidade era planejada de forma diferente. As colônias espanholas são as primeiras a testar o grid na América. Embora tenham conseguido promover essa revolução urbana na América, não conseguiram fazer com que ela reverberasse na própria metrópole. Então, esse capital circulou na metrópole. Eles conquistavam materiais, traziam para suas metrópoles, principalmente na forma de ouro, e não transformavam esse ouro em outros metais. Esse ouro era levado para outros países, que transformavam esse material em ganhos de produtividade, construíam máquinas, equipamentos e lógicas de trabalho mais rendosas, e esses países foram obtendo, então, uma centralização geopolítica dentro da própria Europa.
Essa urbanização intensa das cidades europeias, portanto, foi possível apenas graças ao excedente de capital acumulado pela extração de recursos naturais, baseada no trabalho escravo nas colônias. Então, é importante mencionar que esse trabalho escravo não gerava, por si só, uma acumulação local de capital; gerava uma acumulação global de capital por meio desse domínio de vários territórios. Esse trabalho era amplamente reproduzido nos próprios territórios ocupados, então não havia um custo muito elevado de investimento para manter essa força de trabalho.
Além da centralidade, o espaço urbano possui muitas outras dimensões. Henry Lefebvre escreveu sobre várias dimensões na sua obra-prima, A Produção do Espaço, mas não vou me aprofundar nela. Eu vou só me deter um pouco mais nessa questão do espaço abstrato que organiza o espaço concreto do dia por meio de uma ordem lógica. Essa ordem vai colocar as ações e atividades em função do interesse do capital ou dos capitalistas que o compõem. Por exemplo, num hospital, você vai ter uma divisão e distribuição espaciais dos leitos de acordo com a funcionalidade que eles desempenham no processo de cuidado. Então, você tem uma otimização para que o paciente fique o menor tempo possível nesse espaço, que ele dê o mínimo possível para o trabalho e que esse trabalho, se existir, seja distribuído de maneira racional para que haja menos trabalhadores cuidando desses pacientes. Então, colocar vários leitos numa mesma sala, organizados em fileiras, é uma lógica industrial num processo de cuidado, quebrando a lógica anterior ao capitalismo, em que as pessoas cuidavam de si ou dos outros por motivos diferentes, e não apenas por lucratividade.
Isso também pode ser observado em lugares e contextos -- espaços que ainda não estão tão capitalizados nem rentabilizados por meio da venda de serviços privados. Um espaço público, por exemplo, pode, sim, fazer parte de um processo de acumulação privada de capital. Por exemplo, a Praça do Japão, em Curitiba, eleva o valor dos imóveis privados ao seu redor, que são os mais caros da cidade. Antes de existir essa praça, esses imóveis ainda não tinham esse valor tão elevado. Então, a praça, embora seja um investimento público e sirva ao público, embora não seja cercada por um muro ou uma grade, ainda assim contribui para a acumulação de capital privado. Então, notem como o espaço é configurado por várias relações sociais e econômicas, difíceis de visualizar quando você visita uma praça, por exemplo. Um auditório concentra poder e atenção nas mãos das pessoas que estão no palco. Isso é um pouco óbvio: a audiência chega num auditório esperando ouvir ou ver alguma coisa, sentir algo e não se expressar de volta para quem está no palco.
Bom, um dos componentes modernos do espaço abstrato que o próprio Lefebvre não tratou em muitos detalhes é a infraestrutura. Este, sim, é estudado pela socióloga Susan Leigh Star, que, aliás, é quem eu estava mencionando como objeto de estudo do Matheus Felipe Pelanda. Então, com ele, a gente tem desenvolvido uma chave de leitura para o trabalho da Star, compatível e complementar aos objetos de Lefebvre. Em vez de considerar a infraestrutura como no senso comum, a Star levou em conta o trabalho humano invisível que se faz para que esses objetos funcionem em consonância. Então, a infraestrutura é composta por vários objetos configurados para funcionar em conjunto. Mas quem faz essa configuração são pessoas que trabalham nos bastidores, por trás das cortinas, que você não vê, pessoas que às vezes são visíveis, mas são consideradas trabalhadores menos relevantes, menos importantes na nossa sociedade, e isso se reflete em salários mais baixos também.
O transporte público de Curitiba, por exemplo, que é cartão de visitas da cidade, copiado e levado para outras cidades, tem uma malha de trabalhadores e trabalhadoras que não são reconhecidos nem valorizados. Recentemente testemunhamos a automação da cobrança de passagens por meio do cartão eletrônico e a demissão em massa de cobradores e cobradoras que trabalhavam nos ônibus. Então, esses trabalhadores constituem uma parte fundamental da infraestrutura. Se eles entrarem em greve, o sistema de transporte público para de funcionar. No entanto, acabam sendo pressionados a entrar em greve por falta de condições mínimas de trabalho quando isso eventualmente ocorre.
Mais difícil ainda é observar, perceber e valorizar os trabalhadores das infraestruturas digitais, que parecem muitas coisas vindas do além, mas vêm de algum lugar e são mantidas em vários lugares. Os cabos de internet que conectam a Europa e o Brasil, que, por acaso, seguem rotas marítimas semelhantes às que as naus portuguesas percorriam para trazer e levar materiais e recursos da colônia para a metrópole, são mantidos por mergulhadores. Eles têm que ir lá limpar, tirar e completar quando há algum problema, e às vezes essa manutenção é muito cara, muito onerosa. Mesma coisa com os cabos que vão por terra: os cabos elétricos e os cabos de rede que passam pelos postes e pelas galerias subterrâneas. Todo esse trabalho acumulado é visto como algo dado, mas é realizado cotidianamente por esses trabalhadores.
A infraestrutura, para Susan Leigh Star, não é só a questão de onde ela vai estar ou o que é uma infraestrutura, mas quando ela vai se tornar uma infraestrutura para outro tipo de atividade. Então, por exemplo, qualquer coisa pode ser infraestrutura, desde que se torne uma mediação para ações coletivas em massa. Por exemplo, em Curitiba, temos algumas bibliotecas misturadas com espaço comunitário, chamadas Faróis do Saber, que podem ser infraestruturas para as escolas, compartilhadas entre diferentes escolas; infraestruturas para comunidades e associações de bairro; e também infraestruturas para campanhas políticas, como uma imagem de uma distribuição do poder público ao redor do território de uma grande cidade.
Quase esqueci de mencionar também o papel do Farol do Saber como um tipo de segurança pública, porque, a princípio, esse farol ilumina a rua e, de maneira, vamos dizer assim, ideológica, a ideia de que você vai ter alguém observando lá de cima dessa torre. Toda infraestrutura se instala sobre outras infraestruturas e herda as características da infraestrutura de base. O caso do Farol do Saber herda a infraestrutura de espaços públicos de Curitiba e vai reproduzir essa visibilidade típica desses espaços. Isso é conceituado pela Star como uma característica herdada da base instalada.
As infraestruturas também estão em constante desenvolvimento por parte dos atores humanos e não-humanos, como a Susan Leigh Star, que inclui animais e tecnologias nessas infraestruturas. Esses seres vão se relacionar como numa ecologia, de diferentes maneiras, trocando várias coisas, visando manter a estabilidade desse ecossistema. Por exemplo, se você quiser criar uma nova linha de ônibus para uma região de Curitiba, vai precisar aprender como funcionam as políticas públicas, que órgão define as rotas de ônibus, quais requisitos você vai precisar, quem vai avaliar sua proposta e como isso vai se integrar ao planejamento diário. Por exemplo, como isso vai afetar o caderno ou o mural onde está definida a rota daquele ônibus, e como isso vai chegar às mãos do motorista? Como os passageiros vão saber que a rota mudou? Então, há uma infraestrutura com muitas pessoas e objetos diferentes relacionados entre si.
Isso também vai ter relação com, como eu falei, não humanos, como, por exemplo, a chuva, a acumulação de água e a possibilidade de enchentes. Tudo isso é levado em consideração na elaboração de uma rota de ônibus. Isso também acontece nos ambientes digitais. Por exemplo, o Drupal e o WordPress são alguns dos frameworks mais usados para construir websites e aplicativos web, e todos esses aplicativos vão utilizar elementos herdados da infraestrutura de base.
Essa compreensão de infraestruturas está relacionada com um terceiro autor que a gente vai trazer aqui, que é o Álvaro Vieira Pinto e seu conceito de amanualidade ou relação do ser humano com o seu mundo. Álvaro Vieira Pinto é um filósofo brasileiro mais conhecido por dialogar e influenciar a obra de Paulo Freire, mas também por desenvolver uma filosofia da técnica que parte do conceito de trabalho e da transformação da natureza, para chegar a um conceito de amanualidade, que é a relação do mundo humano. As coisas, então, vão se tornando cada vez mais à mão do ser humano, prontas para o seu uso quando necessário, com diversas relações preparadas ou automatizadas. Então, esse ecossistema, ou ecologia, que o ser humano vai construindo ao seu redor vai assumindo a característica de um mundo próprio, às vezes tão distante dos recursos naturais que o ser humano acha que se isolou ou saiu da natureza, principalmente em um ambiente de urbanização intensa.
Mas afinal, o que seria essa amanualidade? Por que esse conceito é tão importante não só para o Álvaro Vieira Pinto, como também para a Susan Leigh Star? Bom, esse é um conceito elaborado originalmente pelo filósofo Martin Heidegger, que usa o exemplo do martelo para fixar um quadro na parede. Então, quando você está fixando um quadro na parede, você tem um objetivo, uma imagem que você coloca na cabeça que motiva a martelada do prego na parede. Se o prego estiver na posição certa, o martelo estiver funcionando e você puder bater direitinho com aquele martelo, você não vai nem pensar que está fazendo isso; você vai simplesmente se concentrar em fixar o quadro, o seu objetivo. Então, o que está à mão passa a ser transparente para a sua tarefa, para o seu projeto.
O problema acontece quando o martelo, a ferramenta, quebra e faz você pensar nela. Então, ela não está à mão; ela não está mais à mão; ela está presente. E quando elas param de funcionar, você também precisa aprender a reaprender a usar aquela ferramenta ou transformá-la ou consertá-la. Então, isso é chamado de descompasso, ou, em inglês, breakdown. É o processo de virada de modo de amanualidade, daquilo que estava à mão, ou mais enfaticamente, pronto à mão, para o modo em que as coisas estão presentes à mão e se fazendo necessárias como objetos em si. Então, aquele objetivo que você tinha lá atrás de consertar, ou melhor, de fixar o quadro, passa a ser esquecido ou colocado em segundo plano em relação ao objetivo principal de consertar o martelo.
Isso é interessante porque o descompasso pode revelar o aspecto invisível da infraestrutura: o trabalho humano que não é esquecido, mas é absolutamente essencial ao seu funcionamento. No exemplo de Martin Heidegger com o prego e o martelo, isso não fica tão evidente, mas quando a gente trata de ferramentas gigantescas compartilhadas por multidões, como é o caso dessas infraestruturas urbanas que a gente mencionou, isso fica mais evidente. Então, o trabalho humano, por exemplo, dos entregadores de correio ou dos distribuidores da nossa correspondência, vem à tona quando há greve desses trabalhadores. É isso que a Susan Leigh Star chama de inversão infraestrutural. Essa inversão valoriza o trabalhador, mas, ao mesmo tempo, interrompe o serviço e gera conflitos e descompassos na sociedade.
Da mesma maneira como a gente olha para o martelo e pensa: "Bati demais, não o mantive no lugar certo, deixei-o tomar chuva." Enfim, você se arrepende de algum trabalho invisível que negligenciou. Quando há uma greve de trabalhadores, a princípio, o objetivo é que a sociedade se arrependa de não remunerar ou cuidar dos trabalhadores invisíveis e, a partir dessa reflexão, aumente seus salários ou ofereça melhores condições de trabalho, seja por meio de pressão política ou mesmo por pressão gerencial dentro da organização da empresa. A inversão infraestrutural pode ser utilizada como recurso metodológico, não só como recurso de ativismo político na greve, mas também como uma forma de estudar as infraestruturas nessa área que a gente chama de infrologia, como um modo de revelar o trabalho invisível sem que ele pare de acontecer. Então, em vez de esperar que uma greve aconteça, vamos nos antecipar para valorizar esses trabalhos antes que eles sejam interrompidos ou se tornem visíveis.
Vieira Pinto é um autor que também falou muito sobre greve e vai problematizar essa amanualidade como algo que exige considerar a existência dos trabalhadores em questão. Então, para construir alguma infraestrutura, é necessário, portanto, colocar os seres humanos, os trabalhadores, nas mãos de outros seres humanos, que são os usuários, os proprietários ou os acionistas dessa infraestrutura. E isso configura-se como uma relação social que herda características da infraestrutura urbana anterior, considerada originalmente pela colonização.
Então, veja: aquela centralização, a racionalização do espaço urbano de que o Lefebvre falou, vai ser fundamental para a construção de infraestruturas gigantescas que se baseiam na concentração de capitais, de conhecimentos e de força de decisão nas mãos de poucos seres humanos. Isso é o que a gente vai chamar de colonialidade do fazer. Então, um ser que está à mão, dentro da infraestrutura, para outro ser que depende do fazer de outro ser, vai ficar evidente, como já mencionamos, na greve.
Aqui eu trago o exemplo dos infraproletariados, ou os entregadores de aplicativos. Esse ser amanualizado que está na mão dos outros não pode mais se autodeterminar, se auto-organizar e definir as finalidades do seu próprio trabalho. Fica até mais difícil, por exemplo, pela falta de um espaço compartilhado de redes de comunicação horizontais em que esses trabalhadores possam fundar um sindicato, por exemplo, e defender seus próprios interesses. A amanualidade subdesenvolvida dos trabalhadores de aplicativo também se reflete, voltando ao padrão de ocupação do espaço urbano.
Desvalorizada, essa mão de obra da cidade só consegue se instalar e se reproduzir nas periferias. No centro da cidade se concentram a cabeça de obra, os trabalhadores que têm um trabalho mais valorizado, a um nível de abstração da infraestrutura superior que exige uma formação acadêmica ou de ensino técnico, a que aqueles trabalhadores invisibilizados não têm acesso. Então, a cidade de Brasília, por mais que tenha sido projetada para ser uma capital moderna perfeita, com um planejamento de longo prazo, configurou-se como uma capital tipicamente brasileira, em que você tem periferias gigantescas com favelas e outros tipos de comunidades autodeterminadas e autoconstruídas, que dão conta do déficit habitacional decorrente da falta de valorização desse trabalho humano invisível.
Essa geografia, essa geolocalização da desigualdade da cidade vai se chamar, vai ser configurada como uma gentrificação: um processo de valorização de certos locais da cidade para os trabalhadores valorizados e de desvalorização de outros para os trabalhadores desvalorizados. Então, às vezes, há uma troca desses espaços: um espaço que antes era desvalorizado é ocupado por trabalhadores intelectuais que atuam em um nível de abstração superior, e as pessoas que não têm acesso a essa educação começam a ser empurradas para a periferia. Isso é o que a gente pode chamar de um desenvolvimento desigual da manualidade, em que a cidade passa a estar nas mãos de poucos e fica distante de muitos. Os serviços, os lugares públicos e os equipamentos públicos passam a ser de difícil acesso para a população invisibilizada.
O desenvolvimento desigual do espaço público também se reflete nas infraestruturas de informação que se interpõem cada vez mais ao espaço urbano, inclusive relacionando diferentes espaços urbanos a um padrão de colonialidade que a gente tinha identificado lá atrás. Então, essa distribuição de trabalho racializada, com a concentração do trabalho manual nas mãos das pessoas escravizadas, forçadas a vir para as colônias de outrora, ainda se mantém, com características semelhantes na distribuição do trabalho por aplicativo. Então, pessoas racializadas muitas vezes compõem grandes partes dessa mão de obra disponível a usuários que, por vezes, são brancos ou de outras maneiras privilegiados em nossa sociedade.
Então, vejam que o espaço urbano se estende também ao espaço virtual da infraestrutura. Então, a urbanização não acabou com a colonização; pelo contrário, ela manteve e transferiu essa colonialidade do fazer para o ambiente digital, aumentando sua eficácia e diminuindo sua visibilidade. Se antes a gente podia perceber a pessoa escravizada em condição de subalternidade, de inferioridade, agora é um pouco difícil perceber, porque ela aparece como uma empreendedora, como uma pessoa independente, autônoma, mas, na verdade, ela está à mercê de situações vexatórias, de desvalorização que remontam (ainda que de forma indireta) ao tempo da escravização do trabalho forçado.
Então, o que a digitalização trouxe de novo foi essa ligação direta entre infraestruturas locais, nacionais e internacionais. Se antes havia uma mediação por parte dos líderes das colônias, hoje a burguesia nacional tem muito menos poder sobre as infraestruturas locais, porque elas são, na verdade, provenientes de e oferecidas diretamente por burguesias internacionais de outros países. Então, dessa maneira, o local torna-se diretamente dependente de outro local muito distante, com o qual não há necessariamente relações de convivência ou de diplomacia.
Vemos aí o Brasil, atualmente, enfrentando situações muito complicadas em relação aos Estados Unidos, porque o Brasil depende das tecnologias digitais que os Estados Unidos disponibilizaram para o Brasil e para o mundo. Isso é muito parecido com a situação colonial. Agora mudaram-se os centros de poder, mas se mantêm relações de colonialidade do fazer. Existem vários eufemismos para descrever essa situação, né? Tecnologia da informação e da comunicação para o desenvolvimento, investimento em infraestrutura, integração nacional e internacional, privatização, antiterrorismo, cibersegurança. Pode-se dar vários nomes, mas, na prática concreta, o que está acontecendo é a manutenção das redes internacionais de colonização e imperialismo, às vezes mudando a centralização de um centro para outro, sem, porém, mudar essencialmente a lógica de centralização.
Essa colonização, de tons culturais, quer dizer que, além de envolver as tecnologias, também vai envolver a maneira como a gente se percebe enquanto sujeito, enquanto membro de uma coletividade. É o que os teóricos da colonização vão chamar de colonialidade do saber, do ser, do poder, e o que a gente chamou aqui no design de colonialidade do fazer. A infrologia já chamou a atenção para a exploração do trabalho e a invisibilização cultural dos seres humanos que trabalham à mão dos outros, porém, o que falta fazer é realizar a crítica dessa manualização de outros seres humanos, outros seres vivos também.
Eu e o Matheus Pelanda, já mencionado, entre outros companheiros e companheiras, estamos pesquisando a possibilidade de descolonizar a infrologia para apoiar projetos existenciais coletivos de colonização, autodeterminação e design autônomo de infraestruturas digitais e analógicas. E aí a gente vai trazer à baila um quarto autor, que é o Frantz Fanon, o autor que fez parte da revolução de libertação de uma colônia, a Argélia, que se libertou da França logo após a sua morte, nos anos de 1960.
Então, o Frantz Fanon vai dizer o seguinte: para a gente escapar da colonialidade do saber, que interpõe diversas mediações teóricas benéficas aos colonizadores, precisamos voltar ao que é mais concreto na relação colonial: a hierarquia entre corpos. Como se o corpo do colonizador fosse superior em termos de inteligência, força, resistência a doenças etc. Tudo isso parte de um conceito de inferiorização de outras raças.
A colonização também se baseia no conceito de que há uma única civilização humana e de que a urbanização seria o ápice dessa civilização. Jogos como Colonization ou o próprio Civilization, criados pelo designer Sid Meier, são sistemas digitais que têm vários elementos que demonstram e reúnem, numa só coisa, esse nexo, evidenciando o racismo e a superioridade ideológica, cultural e econômica que a colonização e o conceito de civilização tentam defender como naturais, necessários e inevitáveis para o desenvolvimento da sociedade.
A partir dessa hierarquia entre corpos europeus e corpos indígenas surge a gestão política dos grupos sociais que legitima a exploração do trabalho e dos recursos naturais de que esses grupos cuidavam historicamente. Então, o Fanon vai ajudar a gente a pensar sobre como o corpo passa a ser o nexo, o fundamento concreto de uma sociedade dividida não só por classes, mas também por valores. Na colonização, o colonizador troca o recurso natural extraído por meio do trabalho precarizado e invisibilizado pelo escravizado por uma promessa de desenvolvimento e civilização daquela colônia. Essa troca nunca é justa, pois está sempre carregada de ideologia e coerção. Não volta para a colônia aquilo que vai para a metrópole. Se volta, volta migalhas.
Essa diferença não é objetiva; ela não se baseia em ciência, embora muitas vezes tenham tentado criar pseudociências para justificar o racismo. Essas pseudociências, como essas ciências que mediam o tamanho das partes do corpo, que mediam a inteligência através de testes, que mediam a cor da pele e identificavam se a pessoa tinha uma raça inferior ou superior, ou se tinha uma propensão à criminalidade, vão ser ciências utilizadas para justificar a colonização, o imperialismo e o capitalismo racializado, que vai pagar menos para uma classe, para uma raça da sociedade e que muitas vezes vai até justificar a destruição de uma raça de trabalhadores por conta deles serem inferiores.
O capitalismo tem interesse em destruir os trabalhadores quando há crises econômicas e superoferta de trabalho. Uma tendência para reduzir o gasto com salários é dificultar o acesso à formação e ao próprio trabalho e fazer com que os trabalhadores competam entre si, muitas vezes com base em preconceitos raciais. Então, o trabalhador branco não quer competir com o trabalhador judeu em uma sociedade nazista. A eugenia que surge e se consolida aí no século XIX vai ser citada de vez em quando para justificar, de maneira pseudocientífica, essa invisibilização do trabalho humano em larga escala. Não se trata de algo simplesmente imoral. O nazismo transformou-se nesse sistema de destruição em massa porque gerou muito lucro para o capital, assim como o colonialismo fora da Europa.
A colonização criou, assim, o sistema de opressão baseado em diferenças corporais reconhecidas em diferentes relações sociais: o racismo, o classismo e também o machismo, que vai diminuir a valorização do trabalho reprodutivo das mulheres. Essa hierarquia dá origem a relações geopolíticas e ao ambiente global, bem como ao espaço local, especialmente no meio urbano, o que gera guetos e favelas. Então, a cidade, para o Henri Lefebvre, pode ser considerada uma obra coletiva produzida por um corpo coletivo, como Fanon nos ajudou a entender, racializado, e esses corpos coletivos lutam por visibilidade e poder nesse espaço urbano.
As infraestruturas são instaladas com promessas de aplacar essas lutas sociais e de distribuir o capital, o acesso aos recursos. Por exemplo, a malha ferroviária criada pelos britânicos nas Índias, ou melhor, na Índia. Só que essas infraestruturas também podem carregar o viés dos colonizadores e manter padrões centralizadores de ocupação do espaço, de acumulação de capital e de opressão de grupos historicamente oprimidos. No processo de descolonização, uma das grandes questões é o legado deixado pelos colonizadores, especialmente o infraestrutural. Será que seria melhor destruir toda a infraestrutura colonial e começar do zero para evitar a centralização? Existem várias abordagens à descolonização, que é uma luta multifacetária.
Uma das abordagens é inspirar-se nas maneiras de compreender e valorizar o conhecimento, que se chamam epistemologias do Sul e do Sul Global. Eu e o Matheus Pelanda escrevemos um artigo alguns anos atrás sobre as infraestruturas digitais sob a perspectiva de uma epistemologia indígena brasileira, o perspectivismo ameríndio. Então, observamos como as infraestruturas digitais ficaram doentes por causa de uma fumaça digital que a gente conceitua cotidianamente como fake news, e essas infraestruturas doentes passaram a justificar a morte de milhares de pessoas por conta dessa disseminação nada seletiva de notícias digitais.
Então, é necessário descolonizar o estudo das infraestruturas para perceber o aspecto ético e estético dessa colonização infraestrutural, que permite que, ainda hoje, países que são centros imperiais continuem exercendo poder sobre o Brasil, periferia do capitalismo global. Nesse artigo, a gente vai se basear no conceito de doença e fumaça dos Yanomami, que conceituam a terra como omama e pensam as relações entre seres vivos como hutukara. Porém, essa terra também pode ser assolada pelo xawara, uma doença atribuída a espíritos malignos ligados à colonização. A fumaça digital, então, ocorre quando esses espíritos buscam se vingar dos seres humanos, e aí você tem essa disseminação de notícias falsas.
Então, o cacique Davi Kopenawa, que nos escreve através da colaboração com o antropólogo Bruce Albert, vai nos inspirar a pensar a pandemia de COVID-19 também como uma pandemia de desinformação, uma pandemia de doença nas infraestruturas digitais. Então, chegamos à conclusão de que a infodemia poderia ser considerada também uma doença social de corpos coletivos, uma xawara, uma fumaça digital que faz adoecer os nossos. Entretanto, ainda há muito a fazer para descolonizar a infraestrutura de informação.
Para evitar a fumaça digital, desde o começo da década de 2000, no Brasil, discute-se a importância de dados abertos, software livre, licenças abertas, cultivos de comuns, criptografia e outros recursos de autonomização da produção de infraestruturas de informação. Entretanto, muitas vezes essa abordagem ainda mantém a colonialidade do fazer de maneira sutil. Por exemplo, o software livre carrega essa ideologia californiana, derivada de uma noção individualista de liberdade, que não precisa ser reproduzida aqui no Brasil. O problema da colonização é uma questão do corpo individual, mas também do corpo coletivo; portanto, são necessárias noções de liberdades coletivas.
Então, com o Rodrigo Gonzatto, colaborador, assim como o Matheus Pelanda e outras pessoas que estão desde a época do Instituto Faber-Ludens de Design de Interação tentando desenvolver uma ideologia de liberdade coletiva no design, nós escrevemos um livro em 2012, chamado Design Livre, e fizemos a distinção entre o design aberto, o design livre e o design libertador. A partir dessa teologia, buscamos desenvolver infraestruturas descolonizadas para a produção cultural, com uma plataforma chamada Corais, documentada no livro Coralizando, escrito e publicado em 2014.
A plataforma Corais é uma plataforma de design livre baseada em módulos do Drupal, que são infraestruturas construídas sobre outras infraestruturas. Assim como a Corais utiliza o Drupal, o Drupal utiliza outros softwares livres para se constituir nessa ecologia de pessoas, não humanos e seres vivos que potencialmente participam. Por isso ela se chama Corais, uma infraestrutura para vários tipos de seres vivos.
O Matheus Pelanda, em seu trabalho de graduação, mapeou os diversos elementos que compõem a plataforma Corais, como uma árvore de conhecimento. O ambiente de desenvolvimento de projetos, com ferramentas e módulos de software livre, proporcionou uma visualização das conexões entre os diversos projetos realizados por seus participantes. No total, havia 6.781 participantes e 572 projetos em andamento. Cada pessoa se conectava a várias pessoas em diferentes projetos, gerando uma rede baseada não em grupos, mas em projetos e realizações compartilhadas. Então, não era possível adicionar alguém por amizade na plataforma Corais para se relacionar; você precisava fazer parte de projetos em conjunto.
Investigando algumas dessas comunidades da Corais, nas quais o Design Livre possui uma dimensão, descobrimos uma dimensão mais abstrata do projeto de infraestruturas, que não costuma ser tratada na infrologia: o metaprojeto da infraestrutura. Então, dentro dos projetos da plataforma, ou mesmo na própria plataforma, havia um projeto chamado Meta Design, que é o projeto da plataforma, e qualquer participante podia participar e definir os rumos futuros da plataforma.
Então, o metadesign aparece na tendência geral à abstração da existência, tal como nas tentativas de intensificar novas infraestruturas a partir de infraestruturas existentes. A cidade, como um sistema operacional (Smart City), é outro exemplo semelhante, embora diferente da Corais. Só que o Metadesign leva a um usuarismo, à redução do cidadão a mero usuário das infraestruturas da cidade. Esse usuário não produz espaço, ou produz e não sabe que o faz; ele configura e utiliza o que acha que são seus próprios propósitos, mas, na verdade, são propósitos projetados pelos Meta Designers, que trabalham em um nível de abstração superior.
O Mark Zuckerberg e os seus designers no Facebook usam esse termo "meta" até no nome da empresa, justamente porque estão projetando esse nosso universo a partir de um lugar de abstração superior. A ele nós contrapomos o pluriverso, o metaverso do Mark Zuckerberg, que permite que a gente tenha vários universos, mas, mais do que isso, a gente também está chamando a atenção para o infraverso: a infraestrutura que permitirá que o metaverso funcione, e para todos esses trabalhadores invisibilizados.
Então, nós percebemos aí uma dialética entre a meta e a infraestrutura, que se baseia no trânsito entre diversos níveis de abstração da existência humana, visando combater a alienação cultural. Escrevemos sobre uma dialética entre a meta e a infra da plataforma Corais, entre uma ideologia do design livre e os módulos de software livre do Drupal, configurados para trocar informações e construir projetos colaborativos.
Então, por fim, a gente realizou, durante essa aula em 2021, uma oficina de mapeamento de infraestruturas existenciais no Jamboard. Pedimos que cada pessoa que participou da aula adicionasse um post-it no centro da tela com o seu nome e mapeasse todas as infraestruturas necessárias para viabilizar a sua presença nesse momento de aprendizagem, que, à época, ocorria por meio do ensino remoto emergencial; ou seja, era uma aula remota. Cada um adicionava um post-it de cor verde para a infraestrutura nacional, mas podia ser rosa para infraestrutura estrangeira e rosa para uma infraestrutura híbrida nacional e estrangeira. Depois de mapear tudo, as mais visíveis ficavam mais longe do post-it central e as menos visíveis, mais perto. Então, aquilo que era visível ia ficando mais perto, no meio, e o invisível, mais distante.
Então, a gente conseguia ver, por exemplo, que o Jamboard é uma ferramenta bem visível, está perto de mim, mas, ao mesmo tempo, é uma ferramenta estrangeira. Enquanto a internet, híbrida, brasileira e estrangeira, não está visível, está distante de mim. E a rede elétrica, mais ainda, por ser uma infraestrutura, no caso, aqui do Brasil, bastante nacional por enquanto.
É isso. Muito obrigado a quem assistiu até agora, e fica aí a dica para conhecer mais sobre as publicações mencionadas durante a apresentação.
Referências
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2005.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
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MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
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VAN AMSTEL, Frederick M. C. van; GONZATTO, Rodrigo Freese. Design livre: designing locally, cannibalizing globally. XRDS: Crossroads, The ACM Magazine for Students, v. 22, n. 4, p. 46-50, 2016. DOI: 10.1145/2930871.
VIEIRA PINTO, Álvaro. Consciência e Realidade Nacional. Volume 1: Consciência Ingênua. Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2020.