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Um programa na região de Marselha quer conhecer e acelerar startups africanas em busca de expandir o seu negócio em França. Da economia azul à área da saúde, todas as startups podem concorrer ao Soft Landing Provence Africa Connect concebido pelo Accelerateur M, em Marselha.
O Accelerateur M, em Marselha, existe para ajudar as startups a implementarem-se na região metropolitana da cidade que engloba também Aix-en-Provence. Para além de querer acolher mais jovens empresas francesas e europeias, o Accelerateur M, liderado pelo franco-português Franck Araújo, quer acolher o talento africano e tentar fixar no Sul de França novas empresas com projectos aliciantes.
Para isso, esta entidade criou o programa Soft Landing Provence Africa Connect - Innovation que acompanha as empresas africanas a entrarem no mercado francês e a desenvolverem-se.
"O programa Soft Landing para África Connect diz respeito a qualquer empresa de qualquer país dos 54 países africanos do continente. Nem mais nem menos. Diz respeito a todos. Aliás, como é que uma startup se pode candidatar? É muito simples. No nosso website podem encontrar o link que leva à plataforma internacional F6S e a partir daí vão submeter a candidatura. Ela vai ser pré-avaliada por um comité e depois dessa pré-avaliação, algumas vão ser pré-selecionadas ou vão a um júri. Vamos seleccionar no máximo 20 startups", explicou Franck Araújo.
Uma primeira fase do programa passa-se em video-conferência, a seguir há uma imersão de uma semana em Marselha e e, numa terceira fase, as startups têm mais uma semana em França, mas em diferentes locais, consoante a especificidade do seu negócio. A experiência termina com um evento Emerging Valley para encontrar investimento e mentorias para as startups seleccionadas.
Para concorrer é preciso uma boa ideia, como explica Franck Araújo.
"Não há necessidade de ter lucros. Mas se a Prova de Conceito já estiver estabelecida, claro que vai facilitar a avaliação da candidatura e outros requisitos e até a capacidade da própria empresa para internacionalizar as actividades. Precisamos ver qual é a ambição, qual é a ambição da empresa e do projecto. Nós não vamos avaliar simplesmente a ambição de vir aqui a França. Isso não é o projecto. O projecto é qual é a sua trajetória? Onde é que quer ir e como é que nós vamos conseguir ajudar a atingir o seu objetivo?", detalhou o director do Accelerateur M.
O programa tem actualmente as inscrições encerradas e voltará a ter uma nova edição dem 2027.
"Onde nascem os pirilampos", da portuguesa Clara Vieira é uma curta metragem em competição no Festival de Cinema de Cannes. Dois adolescentes não se atrevem a assumir uma relação amorosa num filme que alerta também para a consciência ecológica. A obra integra a selecção La Cinef, consagrada aos filmes de escolas de cinema.
A realizadora, estudante da Escola Superior de Teatro e Cinema em Portugal, chega, desta feita, a um dos mais prestigiosos festivais da sétima arte do mundo. Após uma estreia no Indie Lisboa, ela começa por reagir a enfim, a esta sua selecção para Cannes.
Foi uma grande surpresa porque não estava nada à espera, não é? Isto é uma coisa que não costuma a acontecer. Então daí pronto, a minha reacção.
E então, quando surgiu a notícia, a sua sensação foi o quê? De incredulidade?
Sim, basicamente isso. Mas também porque, como estou ainda a terminar a escola, ainda tenho muitos trabalhos para fazer. Ainda tenho muita coisa a acontecer e por isso a notícia foi um bocado "overwhelming" [avassaladora] nesse sentido.
Precisamente, é um filme de escola ou porque está integrado de facto, lá onde concorrem filmes precisamente de escolas de cinema, como é o caso da sua, que é uma Escola superior de teatro e cinema. Ia perguntar-lhe para chegar a este produto final como é que foi, por exemplo, a selecção do elenco e a rodagem ?
A selecção do elenco nós fizemo-lo antes de ter o argumento escrito. Ou seja, foi um processo muito colaborativo com os actores. Por acaso, uma coisa que acontece na nossa equipa que não acontece com mais nenhuma outra equipa a nível profissional, é o facto de nós nos conhecermos há três anos, não é?
Então nós trabalhamos juntos há três anos e por isso já temos uma dinâmica de turma criada ali, relações pessoais também. E acaba o trabalho por ser muito mais fácil nesse sentido.
Quem são estes actores que estão a dar corpo ao seu filme?
O Miguel Melro é um rapper. Ele faz batalhas de rap na Liga Knock Out, mas também é actor. E depois os outros quatro são amigos mesmo. E também são actores. Tiraram a formação na Academia Contemporânea do Espectáculo, que foi onde eu também fiz teatro.
O que é que pretendeu com este argumento?
Ou seja, o que eu queria era uma forma também de documentar um grupo de amigos, porque a ideia de grupo é uma coisa que me fascina muito. Eu acho que a ideia do grupo é uma coisa forte. Ou seja, também por conhecer o trabalho de actor, não é porque também já tenho formação em teatro.
Acho que uma coisa que me interessava era trabalhar com actores no processo criativo, ou seja, o actor como criador também. E acho que isso depois sente se bastante no filme que eles fizeram parte desse processo.
Então os pirilampos produzem luz, mas sem produzir calor. Vão normalmente acasalar em Maio e Junho. E na altura, machos e fêmeas produzem luzes para comunicar. Há um fascínio enorme em relação aos pirilampos e em relação a este processo, nós vêmo-lo, aliás, no filme. O que é que pretendia efectivamente fazer em torno dos pirilampos para este filme?
A ideia dramatúrgica do filme era que nós experienciássemos o processo emocional das personagens através da luz. À ideia dos pirilampos surgiu por causa da questão ecológica que o filme também aborda. Ou seja, neste caso, a extinção dos pirilampos, que é uma coisa que está posta em causa no filme de forma um bocado subtil, mas é um factor ambiental, digamos assim, que está em causa.
E por isso pareceu-me uma boa relação. Também porque visualmente eu acho bastante mágico, na medida em que para mim, haver pirilampos é uma ideia abstracta, porque eu nunca os vi. Então também tem esse lado.
É um grupo de jovens que acampa. Nós vemo los comer, rir-se. E então o Melro de que falava vai a procura de pirilampos e leva consigo uma jovem para chegar a este produto final em Cannes. Disse que tinha também formação na área de teatro e referências cinematográficas. Quais são as que tem? O que é que gostou de ver? O que é que privilegiou em relação ao cinema que também foi consumindo para chegar agora aqui à fase final da sua formação superior?
É difícil porque para mim é mesmo uma mistura de tudo. No processo criativo não passa só pelo cinema, referências cinematográficas, passa também por referências...
Teatrais, dizia, que gostava muito...
Teatrais. Sim, também por bandas desenhadas. Muitas coisas, então. Mas eu posso assim falar, se calhar...
De Portugal, do estrangeiro ?
Sim, sim, sim. Se calhar eu posso falar de referências cinematográficas. O Apichatpong [Weeasethakul] é claramente uma grande referência para mim.
Cinema tailandês, então, não é?
Sim, também gosto muito do [Werner] Herzog. Se calhar em Portugal a Catarina Vasconcelos. Porque a mim agrada-me bastante a ideia de espiritualidade no cinema, ou seja, a ideia de acreditar em coisas que não vemos. Eu sinto que eles todos falam muito de fantasmas, menos o Herzog. O Herzog chama mais a terra. Mas há também esse contraste, que é interessante.
Vai a Cannes, teve tempo ou oportunidade de ver quais são as outras propostas que vão contracenar com a sua lá na Mostra La Cinef da prestigiosa selecção oficial. Há coisas que já tentou ver que vai tentar ver ?
Sim, a ideia e estamos a falar só na categoria La Cinef ou... ?
Começando pela sua categoria, sim.
Sim, a ideia é eu. Eu quero ver todos os filmes que estão na competição.
E está muito optimista, muito pessimista ? Muito "logo se vê" ? Em que estado de espírito é que está ?
Eu vi numa notícia que eu sou a realizadora mais nova. Então eu não estou propriamente com muita expectativa, porque são pessoas que estudam muitos anos cinema.
Ou seja, aqui em Portugal são só três anos. Acredito que noutros países serão mais e que se calhar também tem outros recursos e isso é uma coisa que se calhar é intimidante.
Mas não sei. Eu acho que estar lá por si só já é uma grande vitória. Mas gostava de ganhar, obviamente.
Vai tentar então ver muito cinema. E quais são assim os nomes de cineastas que vão ter filmes a serem exibidos em Cannes, que lhe chamaram mais a atenção e que porventura vai tentar privilegiar?
Eu ainda estava aqui a estudar o cartaz. Eu gosto muito da realizadora do "I saw the TV glow" [Jane Schoenbrune] sei que ela vai ter um filme, também do realizador do "Close" [Lukas Dhont]. Também é um filme que eu adoro. Mas eu quero muito ver os filmes portugueses. Estou muito entusiasmada. Quero mesmo muito ver. Eu gostei muito da premissa do do filme do Daniel.
Do Daniel Soares, que está em competição nas curtas da selecção oficial.
Sim.
O livro "Mário de Andrade écrit sur la musique populaire brésilienne" foi apresentado na Librairie de Paris, uma obra que dá a conhecer ao público francês um autor que pensou o Brasil a partir dos seus sons. O editor Pedro Fragelli descreve a obra como única, um corpo de textos que transforma a música popular num instrumento de leitura cultural, política e histórica, num momento em que essa herança corre o risco de desaparecer.
A edição publicada em francês não é uma tradução é, antes de mais, um gesto de reconstrução. “Este livro reúne uma parte importante dos escritos sobre música popular brasileira do Mário de Andrade”, explica Pedro Fragelli, sublinhando o carácter quase arqueológico do projecto.
A lacuna que vem preencher é dupla. Por um lado, “não existe fora do Brasil nenhuma edição de escritos sobre música do Mário de Andrade”; por outro, “também não existe no Brasil uma edição que reúna o essencial dos escritos musicais”.
O volume torna-se, assim, paradoxalmente, a forma mais completa de aceder a esse pensamento, mesmo para leitores brasileiros. E é precisamente essa reunião que permite algo até agora impossível: “ver uma unidade na diversidade do pensamento do Mário de Andrade”. Ao cruzar ensaio, poesia e ficção, o livro revela um autor que nunca separou formas nem disciplinas, porque também nunca separou a cultura da vida.
A música como chave para decifrar um paísEm Mário de Andrade, a música é mais do que ornamento é um método e um modo de pensar o Brasil a partir do que nele resiste, vibra e transforma. Segundo Pedro Fragelli, Mário de Andrade procurava “identificar o que ele chamava de constantes estruturais” nas múltiplas manifestações musicais do Brasil. Ou seja, não apenas recolher, mas compreender e encontrar “aspectos estruturais” comuns que pudessem sustentar uma ideia de identidade nacional.
Esse esforço tinha um horizonte ambicioso, o “estabelecer esse trânsito entre a música popular e a chamada música erudita”. Não para hierarquizar, mas para fundar uma nova linguagem, “moderna, avançada, mas nacional”.
Mais do que preservar o folclore, tratava-se de o transformar e de o fazer passar de memória a matéria activa de criação. Uma certa forma de ouvir o Brasil para o reinventar.
Contra o museu: tradição como movimentoUma das ideias mais actuais do pensamento de Mário de Andrade reside na sua recusa de uma tradição imobilizada e como sublinha Pedro Fragelli, o autor defendia “um conceito antitradicionalista de tradição”: algo que só faz sentido enquanto processo, nunca como relíquia. A tradição, dizia, deve ser “algo vivo, retrabalhado em sentido inovador”.
Por isso, a tentação de “museificar” a cultura popular surge como uma distorção. “Não se tratava de reproduzir a tradição, mas de utilizá-la em chave moderna”, insiste o editor.
E, no entanto, havia urgência. Já no seu tempo, Mário de Andrade percebia o desaparecimento iminente dessas formas culturais. “Aquela música que ele estava conhecendo naquele momento estava desaparecendo”, recorda Pedro Fragelli. Registar era, portanto, necessário, mas não como uma etapa, antes como o objectivo final: o de criar.
Se no início do século XX Mário de Andrade diagnosticava uma perda, hoje essa perda pode tornar-se maior. “A percepção da destruição da cultura popular […] hoje é muito mais aguda”, afirma Pedro Fragelli. Muitas das práticas que estudou “praticamente já desapareceram”, sobrevivendo apenas de forma residual.
O contexto mudou; a cultura popular contemporânea desenvolve-se sob o peso da indústria cultural, da tecnologia. Já não é a mesma, nem poderia ser. Ainda assim, o núcleo da proposta mantém-se pertinente. “É uma ideia necessária, um pouco esquecida, talvez”, reconhece Pedro Fragelli.
A questão não é regressar ao passado, mas repensar, hoje, o lugar do popular numa cultura cada vez mais homogénea.
Um pensador maior para além da literaturaA edição francesa vem também reafirmar a centralidade de Mário de Andrade na cultura brasileira. Para Pedro Fragelli, ele foi “uma personalidade intelectual decisiva”, não tanto por ser o mais talentoso, mas por ser “o mais interessante pela diversidade dos interesses […] e pela abrangência do pensamento”.
Essa abrangência traduz-se numa obra que atravessa literatura, música, artes plásticas e pensamento social. Mas também numa atitude por ter concebido “produção intelectual como um trabalho colectivo”. Mais do que criar sozinho, mobilizava. Mais do que escrever, Mário de Andrade organizou um campo cultural.
Pensado para leitores franceses “um público que conhece pouco ou simplesmente não conhece” nem o autor nem a música que ele estudou, esta obra não pretende ser definitivo. Pedro Fragelli admite já um próximo passo: uma edição brasileira diferente, ajustada a outro contexto e a outras necessidades. Para já, esta obra editada pela Philharmonie de Pariscumpre uma função essencial: dar a ouvir. Dar a ouvir um Brasil múltiplo, em risco e em transformação. E recordar que, por vezes, compreender uma canção, como quis Mário de Andrade, é começar a compreender um país inteiro.
O Festival Off Avignon é “uma festa popular que dura há 60 anos” conta Laurent Domingos, co-presidente deste evento paralelo ao Festival de Avignon. Todos os anos milhares de pessoas rumam a Avignon e dividem o tempo entre o “In” e o “Off”. O “In” é o festival de teatro criado por Jean Vilar há 79 anos e actualmente dirigido pelo português Tiago Rodrigues, com uma programação selecionada e financiada. O Off é o mais espontâneo, com mais de 1.400 companhias espalhadas por 141 teatros e para as quais a oportunidade de encontrar programadores pesa mais do que o risco financeiro. Neste programa, Laurent Domingos fala-nos sobre a história, as esperanças, as oportunidades e as dificuldades do Off Avignon que descreve como “uma excepção no mundo”.
Todos os verões, os dois festivais, o IN e o Off, como são conhecidos pelo público, transformam Avignon no epicentro do teatro e das artes performativas. Este ano, a romaria cultural decorre de 4 a 25 de Julho. Neste programa falamos apenas do Off (sobre o In, pode ouvir a entrevista a Tiago Rodrigues que difundimos a 9 de Abril).
No total, o Festival Off Avignon vai ter 1.432 companhias, 7.000 artistas, 600 técnicos, 1.514 espectáculos e 27.000representações em 141 teatros e 248 salas. A grande maioria das companhias é francesa, mas também há estruturas vindas de cerca de 30 países. Avignon é a vitrina do teatro para o mundo e uma oportunidade para seduzir programadores, mas é também um grande risco financeiro, reconhece Laurent Domingos. Os desafios são muitos e este ano há menos verbas públicas, adverte o também encenador e actor com raízes portuguesas, que também lembra que “criar é cada vez mais um acto de resistência”. Esta edição marca um aniversário redondo de “uma festa que dura há 60 anos” e que “é um sopro de ar fresco num mundo muito duro e que não dá grande espaço à poesia”, acrescenta Laurent Domingos, resumindo esta “festa popular” em torno do teatro como “uma excepção no mundo”.
RFI: Qual a diferença entre o Festival de Avignon e o Festival Off Avignon?
Laurent Domingos: co-presidente do Festival Off Avignon: “O Festival Off de Avignon é um festival criado pelos próprios artistas e pelos teatros. Não é um festival organizado por um organismo público e que tem um director que escolhe as peças. Tiago Rodrigues, o director do Festival de Avignon, o chamado IN, escolhe as peças, promove a criação de algumas e produz todos os espectáculos.
No Festival Off Avignon, temos 140 teatros, 250 salas e 1.500 companhias, estas pessoas organizam-se para criar um festival e nós supervisionamos, acompanhamos todos estes artistas e todos estes teatros para que, no final, haja uma organização de festival. Ou seja, nós organizamos, mas cada um produz os espectáculos que quer produzir.
A diferença é que o nosso festival também é muito maior em termos do número de espectáculos e do número de artistas envolvidos e enche toda a cidade de Avignon.”
Todas estas salas ocupadas pelo Festival Off Avignon no verão existem ao longo do ano?
“Durante o ano, a maioria das salas tem condições para ser aberta porque tem os assentos, o palco, mas elas abrem para o que chamamos de residências, ou seja, ensaios de artistas porque não há público suficiente durante o inverno para encher 140 teatros.
Em contrapartida, existem alguns espaços, digamos uma dezena, que abrem durante o ano mas não de forma permanente. A ambição da AF&C [Avignon Off & Compagnies] e da cidade de Avignon é incentivar estes espaços a abrirem durante todo o ano, talvez até para acolher um festival ou eventos durante o inverno, e aumentar o número de ensaios e residências ao longo do ano.”
Como é que as companhias, muitas vezes pequenas, conseguem financiar-se para estar no festival?
“Na verdade, é muito caro para uma companhia vir ao Festival Off de Avignon. É um risco muito grande para a companhia. Há muitas companhias que não sobrevivem se não correr bem em Avignon. Portanto, é um risco muito grande porque envolve uma enorme quantidade de dinheiro. Por exemplo, no meu caso, para um espectáculo com cinco pessoas em palco e dois técnicos, estamos a falar de um investimento muito próximo dos 60.000 euros. Ou seja, 60.000 euros por um mês e esperamos que a venda de bilhetes ajude... Portanto, é muito complicado.”
As receitas de bilheteira não cobrem?
“Exactamente. Quando as companhias vêm a Avignon é para venderem o seu espectáculo a programadores que depois o levem em digressão durante o ano. É isso que se procura. As companhias não vão apenas para actuar no festival, vão apresentar o seu espectáculo a profissionais que o vão comprar. Mas se não conseguirem essa digressão, é um fracasso.
Este ano é ainda mais complicado porque o Ministério da Cultura francês fez cortes?
Bem, desde logo há uma verdadeira crise na distribuição em França porque há um número enorme de espectáculos que querem fazer digressões, mas muito poucos conseguem. Além disso, o financiamento público está a diminuir cada vez mais. Este ano, havia um financiamento público que ajudava as companhias e os artistas que era o FONPEPS [fundo nfrancês para o emprego na área do espectáculo] e que foi reduzido, o que vai pôr em risco muitas das companhias.”
Como é que as pequenas companhias conseguem financiar o alojamento em Avignon?
“É complicado. Tentam encontrar financiamento, fazem empréstimos. É realmente muito complicado. O alojamento é um pesadelo em Avignon porque os preços são muito inflacionados a cada ano. Não existe regulamentação, é apenas oferta e procura. Existem hotéis que são a 100 euros por noite e passam a 300 euros durante o festival. Em suma, o alojamento durante o festival tornou-se uma loucura.”
O que seria preciso fazer?
“Em França, penso que é possível, a nível do governo civil, congelar as rendas, mas é complicado. É uma questão política porque isso trava os rendimentos das pessoas que são eleitores.
O problema é que todos querem estar dentro das muralhas de Avignon, um centro pequeno, mas existem muitas cidades à volta. É preciso trabalhar nos transportes públicos, nos autocarros, comboios, mobilidade gratuita. A SNCF [companhia francesa dos caminhos-de-ferro] nem nos ajuda muito nesse sentido, mas é preciso tentar trabalhar com a Região para facilitar o acesso de quem não vive perto.”
No editorial deste ano, vocês escrevem que “o festival é um acto”, nomeadamente de “resistência, criação e liberdade”. Porquê?
“Criar está a tornar-se um acto de resistência - em França, talvez menos do que noutros lugares porque aqui ainda temos poderes políticos que nos ajudam a nível local ou nacional. Mas criar está a tornar-se um acto de resistência porque é cada vez mais difícil para os artistas expressarem-se. Há cada vez menos financiamento. Há cada vez mais autarcas que, em algumas cidades, recusam determinados espectáculos porque não estão alinhados com eles e, de certa forma, censuram espectáculos. Há muita censura e muitas dificuldades para criar espectáculos.
Criar significa enfrentar todas estas dificuldades e resistir. A cultura sempre resistiu ao longo da história, mas com diferentes graus de dificuldade e agora estamos numa fase muito complicada num mundo onde as pessoas se fecham, onde há muitas culturas que se opõem, muitas guerras, muitos problemas de poder de compra, pessoas que não se conseguem alimentar, pagar as contas. Neste contexto, montar espectáculos é complicado.”
Esta edição marca os 60 anos do Festival Off Avignon. O que representa e há temas em destaque?
“Sessenta anos representa uma imensa vontade de viver e de sobreviver dos artistas e uma riqueza da criação francesa. É impressionante que há 60 anos haja milhares de artistas a criar espectáculos populares para todos. É uma excepção no mundo, aliás não existe outro festival como este no mundo. Fala-se sempre no Festival Fringe de Edimburgo que é um grande festival, são 3.500 espectáculos, mas se contarmos o número de actuações, não sei se não somos um dos maiores.
É uma fonte de esperança porque vemos que as gerações mais jovens, as companhias mais jovens, estão a assumir o legado e vão continuar esta tradição. O Off tem um lado muito popular. Os artistas distribuem panfletos, desfilam pelas ruas. É uma festa que dura há 60 anos, é um sopro de ar fresco num mundo muito duro e que não dá grande espaço à poesia. Vivemos num mundo muito prosaico e que não é poético.”
O Laurent Domingos tem origens portuguesas...Que ligação tem com essas raízes?
“Sim, mas infelizmente não falo muito bem português. O meu pai é português, fui criado pelo meu avô português... Não digo que o português tenha sido a minha língua materna, mas os meus avós não falavam francês... Volto lá regularmente. Sou do sul de Portugal, sou do Algarve, de Vilarinhos que fica em São Brás de Alportel.
Lembro-me ter visto, nas ruelas de Lisboa, muitos concertos de fado nos pequenos restaurantes. Desde pequeno, vivi de perto esta coisa popular dos espectáculos. O meu avô tinha um jardim grande e toda a gente ia lá comer, lembro-me do grão-de-bico com toucinho, lembro-me das sardinhas grelhadas. E havia esta coisa muito popular, com as pessoas reunidas, em que alguém se punha a cantar, com uma guitarra. Esta coisa da festa popular foi algo que me ficou e - não digo que tenha sido por isso - mas há algo que está ligado a esta coisa popular do Festival Off.
Há muito poucas companhias portuguesas no Off. Deveria haver mais, lembro que o festival ajuda as companhias estrangeiras e as portuguesas podem tentar... Fiquei extremamente contente de ver o Tiago Rodrigues a tornar-se director do Festival de Avignon, o IN. Por vezes fazemos alusões a Portugal e é bastante curioso ver que na mesma cidade há um co-presidente de um festival e um director de um festival que são ambos portugueses.”
Estamos a poucos dias de um novo aniversário da revolução do 25 de Abril em Portugal, uma ocasião para recordarmos uma das suas figuras cimeiras, Otelo Saraiva de Carvalho, que é o objecto de uma biografia elaborada por Yves Léonard, historiador que nestas últimas três décadas publicou inúmeros livros sobre a História de Portugal.
"Otelo, la voix de la révolution des œillets", "Otelo, a voz da Revolução dos Cravos" é o nome da nova obra publicada pela Chandeigne & Lima, que Yves Léonard lançou no passado dia 15 de Abril em Paris.
Neste livro, o historiador recorda esta figura controversa do passado recente de Portugal, um capitão de Abril que, no decurso dos anos 80, foi acusado de ter ligações com grupos armados em Portugal.
Nascido a 31 de Agosto de 1936 em Maputo, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho é filho de um funcionário dos Correios e cresce no seio de uma família ligada, pelo avô, ao mundo do teatro. Depois de frequentar o ensino secundário público de Maputo, ele destina-se a uma carreira de actor, o jovem Otelo tendo veleidades de ir para o "Actor's Studio" em Nova Iorque. O destino -e sobretudo o pai- vão encarregar-se de o fazer ingressar na Academia Militar aos 19 anos.
Ele estará em serviço activo durante as guerras de libertação de Angola e na Guiné-Bissau, nos anos 60 e início de 70 Será durante os derradeiros anos desses conflitos, que vai crescer dentro dele e de outros militares o projecto de derrubar o regime fascista português.
De regresso a Portugal em 1973, envolve-se no Movimento das Forças Armadas e, juntamente com outros capitães, assume a liderança da Revolução dos Cravos a 25 de Abril de 1974.
Uma caminhada sobre a qual Yves Léonard destaca que "antes de tudo, Otelo é o homem de África" e que "isto é muito importante para compreender o personagem".
"Otelo é um militar, mas não por convicção. Penso que, antes de tudo, Otelo é um actor. Gostava muito do teatro. Otelo tem um avô que é um antigo oficial do Exército português. Portanto, tem uma grande admiração pelo avô. É importante na hora de tomar a decisão de entrar na Academia Militar e depois, nos anos 60, obviamente, é o tempo das guerras coloniais e para Otelo é um momento muito importante. Porque Otelo é um oficial intermédio, isto é, um capitão", começa por dizer o estudioso.
"Em África, durante as guerras coloniais, há uma tomada de consciência em torno do sistema salazarista com o papel muito importante das colonias. E para Otelo, há a consciência de que a guerra é o problema maior de Portugal e que a violência não é a resposta", diz o historiador.
Ao destacar o papel de Otelo durante o 25 de Abril, Yves Léonard também recorda que, depois, "durante o PREC, Processo Revolucionário em Curso, Otelo tinha um papel muito importante, porque era o chefe do COPCON e o chefe da Região Militar de Lisboa. Tem um papel muito importante durante a crise do fim de Setembro de 1974, durante a crise do 11 de Março de 1975, e depois, durante o 'Verão quente' e no mês de Novembro de 1975. Mas aí já não tinha o controlo da situação política em Portugal".
Entrevistado pela radiodifusão portuguesa precisamente um ano após a revolução, Otelo Saraiva de Carvalho não esconde a alegria e o orgulho que continua a sentir depois do 25 de Abril de 1974.
Mas efectivamente, neste período em que ele assume um papel preponderante no PREC, começam a surgir as primeiras divisões entre as correntes mais reformistas e as franjas mais à esquerda da revolução.
Estas dissensões vão culminar com a desestabilização do 25 de Novembro de 1975. A partir daí, Portugal marca uma viragem mais à direita e em 1976, o general Ramalho Eanes torna-se o primeiro Presidente eleito depois da revolução de Abril, com um pouco mais de 61% dos votos face a Otelo, cuja candidatura recolhe cerca de 16% dos votos.
Na primeira metade dos anos 80, Otelo está em ruptura total com o rumo seguido por Portugal na altura.
Ele lidera um movimento, o chamado "Projecto Global", que será acusado de ter elos com grupos armados de extrema-esquerda como as FP 25, Forças Populares do 25 de Abril, que cometem ataques semelhantes àqueles que acontecem na mesma altura na Itália ou em França.
"É difícil de dizer exactamente o que se passou, porque, por um lado, Otelo tinha vontade de fazer um projecto político com o poder popular que se chama ‘Projecto global’. É um projecto muito ambicioso. No fim dos anos 70, no início dos anos 80 e no mesmo tempo, aparece um grupo muito violento, com atentados terroristas que se chamam FP 25, Forças Populares do 25 de Abril. O problema é fazer uma ligação entre o ‘projecto global’ de Otelo e as FP 25. É muito difícil saber exactamente qual é a natureza dessa relação. Mas em Junho de 84, o poder político, o Ministério da Justiça e a polícia têm a convicção de que Otelo é o chefe, senão o inspirador das FP 25", recorda Yves Léonard.
Em 1987, Otelo é condenado a 15 anos de prisão por ser considerado responsável das actividades das FP 25.
As circunstâncias em que Otelo é condenado geram um debate de largos anos em Portugal, ao ponto que sob o impulso dos socialistas então no poder, uma maioria de parlamentares amnistia Otelo em 1996. Esta medida não deixa de gerar polémica no seio da direita que acusa a esquerda de querer "apagar" a História.
A seguir à amnistia, virá mais tarde um novo processo em 2001 durante o qual a justiça vai considerar que não existiam elementos suficientes para estabelecer que Otelo tivesse um qualquer elo com as FP 25.
"Temos um julgamento no Tribunal da Boa-Hora no início de 2001 para dizer que Otelo não é responsável, não é o inspirador, não é o chefe das FP 25. É uma decisão de Justiça. Isto é uma forma de verdade. O problema é que depois da amnistia, depois o julgamento da Boa-Hora, muitas pessoas em Portugal continuam a pensar que Otelo é o responsável das FP 25, é uma terrorista. E a imagem de Otelo é péssima", constata o universitário.
Apesar de uma decisão favorável da justiça, o nome de Otelo passou a ter um rasto de pólvora de forma duradoira.
Paradoxalmente, ele continua a ser acarinhado no exterior, nomeadamente em França, onde várias personalidades do mundo político, nomeadamente o próprio Presidente François Mitterrand, ou artistas como o cantor popular Renaud, não escondem a sua admiração pelo militar que tem uma aura romântica. Para Yves Léonard, este fenómeno explica-se pelo facto de "a Revolução dos Cravos ter sido a última revolução do século XIX, isto é, uma revolução romântica".
A aura de Otelo e dos restantes capitães de Abril vai inspirar vários filmes, documentários e reportagens. No ano 2000, estreia o filme 'Capitães de Abril' da actriz e realizadora portuguesa Maria de Medeiros. Presente na apresentação do livro de Yves Léonard, ela recorda a figura de Otelo que conheceu quando era criança.
"Realmente eu conheci-o. Eu era muito novinha, adolescente, e lembro-me de ter dançado um rock and roll com o Otelo e era a primeira vez que eu dançava assim com os movimentos do rock and roll em Lisboa, num restaurante que é o ‘Brazuca’, que era um lugar muito importante para os capitães de Abril, onde eles se reuniam muito. Depois, quando preparei o meu filme Capitães de Abril. Obviamente, falei muito com o Otelo, também com o Salgueiro Maia e, sobretudo, passei realmente 13 anos da minha vida a fazer pesquisa e a ler tudo o que eu conseguia encontrar nessa época publicado e às vezes sem estar publicado do que eles escreveram. É um privilégio extraordinário da nossa geração, da nossa infância, de miúdos lisboetas, de muitos de nós, termos coincidido com essas figuras importantes da nossa história", diz a cineasta que lamenta a actual tentativa de minimizar o legado do 25 de Abril no espaço público em Portugal.
"Infelizmente, eu acho que estes movimentos revisionistas de extrema-direita que alastram não é uma coisa que seja, nem é nada português. Na verdade, acho que é uma importação. É como uma marca importada de outros países, porque está a acontecer por toda a parte. Os discursos são os mesmos. O descrédito atirado para cima da honra não é de quem de facto lutou. É vergonhoso", denuncia Maria de Medeiros.
Volvidos 52 anos, o campo conservador está no poder em Portugal e a extrema-direita, em posição de força na Assembleia da República, tenta corroer a herança do 25 de Abril. A questão da memória torna-se tanto mais premente que as testemunhas directas da revolução dos cravos vão partindo. Otelo faleceu a 25 de Julho de 2021, num relativo esquecimento e sem grandes homenagens nacionais.
"O que é muito importante, com o 25 de Abril é o papel dos capitães. Os grandes testemunhos da época, obviamente, 50 anos depois, os heróis desaparecem. Por exemplo, Otelo morreu cinco anos atrás, em 2021. E é difícil falar desse período sem os grandes actores do 25 de Abril. É um problema clássico na disciplina da História, a memória, os testemunhos e a história. É importante fazer e dizer a História. É um período complexo porque estamos entre a época da memória, com a presença dos grandes actores do 25 de Abril e o período da História. O problema hoje, é a tentação de dizer que o período antes do 25 de Abril não foi um período tão difícil. É um grande perigo para a democracia portuguesa", considera Yves Léonard para quem "é muito importante hoje sublinhar o papel fundamental da ruptura do 25 de Abril" que marcou "um novo tempo para Portugal, para a democracia em Portugal e para a democracia na Europa".
"Otelo, obviamente, é o homem do 25 de Abril, o instigador que simboliza os Cravos de Abril", conclui o historiador.
Em Paris, um casal de artistas transformou o seu apartamento-atelier num espaço alternativo e intimista onde se cruzam diferentes artes uma vez por mês. O projecto chama-se “salon/ensaio”, começou há dois anos e nasceu da vontade de se reinventar os "salons" franceses dos séculos XVIII e XIX. Neste programa fomos até ao 14° “salon/ensaio” de Ângelo Ferreira de Sousa e Olivia Gutherz.
Um refinado instrumento de música barroca, a viola da gamba, a acompanhar mornas cabo-verdianas foi uma das mais recentes criações nascidas e apresentadas no “salon/ensaio”. O “salon” é um “ensaio” artístico imaginado por Ângelo Ferreira de Sousa e Olivia Gutherz e que começou há dois anos no apartamento-atelier-estúdio do casal. Inspirados nos “Salons” franceses dos séculos XVIII e XIX, Ângelo e Olivia abriram as portas de casa para deixar entrar a arte sem o peso das convenções. Neste espaço intimista é assim alcançada uma proximidade entre os artistas e o público que esboça algo que Ângelo Ferreira de Sousa descreve como “revolucionário”.
“Salon é esta tradição francesa dos séculos XVIII e XIX de reunir artistas, escritores, intelectuais na sala de estar de alguém. É o que nós fazemos aqui visto que isto é o nosso ‘atelier-logement’, quer dizer que é um atelier atribuído pela Câmara de Paris a músicos e aproveitámos esta oportunidade que nos deu a Câmara para organizar o salon. O salon é um evento artístico que se organiza uma vez por mês, que reúne, pelo menos, dois artistas: pode ser um músico e um escritor, pode ser um performer vindo das artes visuais e um músico... Já houve um pouco de tudo ao longo destas 14 edições. A ideia é produzir e consumir esses produtos com muita proximidade, sem uma grande moldura pesada que afasta o público e o artista. Achamos que essa proximidade pode fazer toda a diferença e pode ser até revolucionária”, descreve o anfitrião do "salon/ensaio".
Cada “salon/ensaio” é um exemplar único e conjuga, por exemplo, música com artes visuais, literatura, performance ou outra proposta. Ângelo é artista plástico, performer e tradutor literário. Olivia é música e vem da tradição de música barroca, mas tem explorado a música improvisada no "salon" com os seus convidados. A melodia da sua viola barroca já faz parte do espírito deste estúdio da Rua Piat.
“Tivemos vontade de fazer as nossas performances, experimentar, partilhar com o público e também poder convidar outros artistas para mostrarem o seu trabalho nesta proximidade. Este espaço também nos inspirou porque é uma grande sala quadrada, insonorizada, e estamos obrigados a estar perto uns dos outros, sentados no chão. Além disso, o meu instrumento, a viola da gamba que é um instrumento da época barroca, não é um instrumento potente em termos de som e as melhores condiçoes para ser ouvido é na intimidade, na proximidade. Quanto mais próximos estivermos, mais ouvimos as cores e as nuances diferentes. Foi toda esta mistura de condições que nos deu a vontade de organizar estas reuniões”, conta Olivia Gutherz.
A artista sublinha que outra das notas fundamentais do “salon” é o facto de haver sempre pessoas novas, oriundas de vários países e que trazem esse mundo para o atelier. “Vivemos numa grande cidade, com imensas pessoas muito diferentes, mas são bastante raros os momentos em que nos encontramos numa sala, em que não conhecermos as pessoas, mas partilhamos algo”, descreve.
No “salon/ensaio” número 14, Olivia Gutherz actuou ao lado do cantor e cravista português Jorge Silva, numa noite em que se celebrou “a festa das independências" dos países africanos de língua oficial portuguesa. Houve filmes apresentados por Raquel Schefer, professora de cinema na Universidade Sorbonne-Nouvelle, e debate em torno do pai das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral. Também houve mornas imortalizadas por Cesária Évora que foram interpretadas por Jorge Silva, que tem também raízes cabo-verdianas.
“Foi muito espontâneo. A Olivia contactou-me, perguntou se eu tinha músicas em crioulo que eu quisesse cantar. Eu perguntei se ela tinha guitarrista porque em Cabo Verde cantam mais com guitarra, ela disse que não, mas que tinha a viola da gamba. Fizemos uma coisa assim muito natural e foi muito bonito. Mostrar músicas cabo-verdianas ou africanas com um instrumento dito barroco como é a viola da gamba acho mesmo excelente mostrar estes dois mundos. É mesmo um salão em que se pode abrir novos horizontes”, conta Jorge Silva.
O público são os amigos que trazem um amigo também e que também trazem uns comes e bebes para animar o prólogo da noite. Ana Rita Rodrigues assistiu a todas as edições desde o começo e também cantou em dois “salons”: num deles fez uma homenagem a José Afonso por ocasião do 25 de Abril e num outro propôs uma viagem cantada até ao Brasil. Para ela, o “salon” é, por excelência, o lugar onde o artista está com o público.
“Estamos com o público à nossa volta e é como se estivéssemos a cantar em casa com um grupo de amigos. Corresponde perfeitamente ao meu estilo, à minha concepção do que é a música. A música não é só um espectáculo, é também uma partilha. É como estar em casa”, explica a cantora.
"É como estar em casa", mas uma casa de portas abertas para o mundo. Raquel Estrócio é outra presença habitual do “salon”. “É sempre uma troca muito rica de imensas formas de colaborações. As trocas depois e antes, durante as 'soirées', são extremamente enriquecedoras. Acho que nos descobrimos a nós ao ouvir as outras pessoas e nestas trocas. As ideias surgem também aí: outras ideias para outros salons”, diz a arquitecta paisagista.
Em Maio, já está agendado novo “salon/ensaio”, este espaço alternativo e caseiro onde se tenta fazer e mostrar arte de forma intimista, a uma escala mais humana e sem espartilhos institucionais.
A União Europeia decidiu criar novas taxas para travar a entrada de produtos baratos vindos sobretudo da China. A França, a braços com um aumento significativo de “pequenos pacotes”, adiantou-se e começou a aplicar medidas próprias.
Desde Março que, em França, compras feitas, essencialmente, em plataformas como Shein, Temu e AliExpress passaram a pagar uma taxa de dois euros por categoria de produto. A partir de Julho, a esta taxa será acrescentada uma outra taxa europeia de três euros, o que faz subir o total para cinco euros por artigo.
O governo francês acusa estas empresas de evitarem a taxa, enviando primeiro os produtos para outros países europeus e só depois para França. Por isso, anunciou mais controlos nas fronteiras.
Ao mesmo tempo, a Shein está sob pressão na Europa. Em Fevereiro, a Comissão Europeia deu início a um processo formal contra a Shein, ao abrigo do Regulamento dos Serviços Digitais, devido à sua concepção geradora de dependência, à falta de transparência dos sistemas de recomendação, bem como à venda de produtos ilegais, incluindo material referente a abusos sexuais de crianças.
A polémica à volta da empresa de ultra fast fashion surgiu depois de ter sido apanhada a vender bonecas sexuais semelhantes a crianças no seu site em França.
Eudeline Boishult e Jan Camenzind Broomby da France 24 deslocaram-se a Cantão, na China, um dos principais pólos da indústria têxtil chinesa. Confira aqui a reportagem.
Na rubrica Vida em França desta semana, olhamos para os impactos económicos da guerra no Médio Oriente. O encerramento do estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% dos hidrocarbonetos mundiais, está a pressionar a economia global, e a França não escapa a estas repercussões. O preço do petróleo Brent do Mar do Norte, depois de atingir 116,89 dólares, está agora nos 110 dólares, ainda assim, mantém-se em níveis elevados. O preço do alumínio também subiu e as bolsas europeias continuam cautelosas. O Governo francês apresentou um plano de cerca de 70 milhões de euros, para apoiar agricultores, pescadores e transportadores mais afectados pelo aumento dos combustíveis, mas não está a ser suficiente para acalmar a contestação. O economista Pascal de Lima alerta para os impactos que já se fazem sentir na indústria, na agricultura e nos transportes, com reflexo directo no poder de compra dos franceses.
Qual o impacto que a guerra no Médio Oriente está a ter na economia francesa?
O principal canal de transmissão é claramente o petróleo e o gás. Sempre que há tensões geopolíticas, os preços das energias sobem por antecipação de uma possível redução dos stocks nos mercados, de modo geral. É preciso saber que, uma vez que o preço do petróleo é negociado através de contratos futuros, isso impacta logo os preços, porque a energia entra em todos os custos de produção, transporte, agricultura e indústria.
Portanto, temos um choque negativo da oferta, que reduz o crescimento e aumenta a inflacção. Ao mesmo tempo, é tipicamente um risco de estagflação. Isto é ainda mais impactante se o choque persistir e se as expectativas dos mercados não se inverterem.
Quais são os sectores da economia mais vulneráveis durante uma crise económica?
Podemos analisar pela exposição aos custos energéticos e à procura. Portanto, em primeiro lugar, a indústria pesada e a indústria química, muito dependentes da energia, sofrem um impacto imediato nos custos. Depois, os transportes - rodoviário, aéreo e marítimo - onde o combustível representa uma parte significativa dos custos.
O sector agroalimentar também é afectado, com impacto indirecto através do aumento do custo dos fertilizantes. Seguem-se a logística e a embalagem plástica e, por último, a distribuição. O comércio sofre um efeito de segunda ordem, devido à queda do poder de compra, sendo um sector com menor margem de manobra em relação aos preços e à crise.
Que acaba também por afectar o poder de compra dos consumidores?
Sim, tem efeitos. O primeiro efeito é o preço - combustíveis, alimentação e bens transportados - que cria também inflaçção importada. O segundo efeito é sobre o rendimento real, porque os salários não aumentam tão rapidamente como os preços, criando perda de poder de compra.
Há também os efeitos sobre o mercado de trabalho, o emprego. As empresas, sob pressão, reduzem margens e investimentos, travando novas contratações.
Fala-se que o preço da gasolina vai baixar, mas, até lá, há o risco de vermos as companhias aéreas deixarem os aviões na pista por não conseguirem suportar esta despesa?
É um choque de oferta, mas não é um choque de diminuição total dos stocks de petróleo. Muitas empresas do sector guardam uma parte importante do petróleo. Portanto, o impacto sobre os transportes existe, mas hoje em dia não há uma ruptura de abastecimento de petróleo. Acho que não pode afectar tanto o sector aéreo como se tem falado, a meu ver, é um pouco exagerado.
O primeiro-ministro francês, Sebastian Lecournu, reafirmou recentemente, diante da Assembleia Nacional, a recusa do Governo em implementar cortes nos preços dos combustíveis devido ao aumento dos custos. O que é que o governo francês está a fazer para mitigar o impacto económico da guerra no Médio Oriente?
O Governo concentra-se primeiro em apoios às famílias mais expostas e, depois, em apoios pontuais a alguns sectores, recusando subsídios generalizados.
Porquê? Porque os mecanismos generalizados de controlo de preços, ligados, por exemplo, a crises anteriores, são muito caros - dezenas de milhares de milhões de euros - e agravam a dívida pública sem resolver o problema estrutural. Portanto, os apoios são dirigidos apenas a famílias e sectores específicos.
Foi evocada a possibilidade de baixar o IVA - TVA - sobre o preço da gasolina, como fizeram as autoridades espanholas. Esta é uma solução viável?
É uma medida ineficiente e muito cara para o Estado. Beneficia tanto os agregados mais ricos como os mais modestos e pode ser absorvida pelas margens das empresas. Portanto, alivia a curto prazo, mas não é sustentável do ponto de vista orçamental.
Quando se fala no preço dos combustíveis, a França é um dos países mais caros...
Sim, é um dos países mais caros, e isso é problemático. Há também políticas para encontrar alternativas no domínio da energia, com modelos mais sustentáveis.
Neste momento, verifica-se uma taxa de juro de 3,8% a dez anos. Quais são as implicações para a economia francesa e para o custo do crédito?
Esta taxa traduz um cenário em que o dinheiro volta a ser caro. Três consequências rápidas: para o Estado, o custo da dívida aumenta, pois a taxa a dez anos é uma referência nos mercados financeiros de dívida, diminuindo a margem orçamental.
Para as famílias, o crédito à habitação torna-se mais caro, com abrandamento do mercado e para as empresas, o crédito ao investimento passa a ser mais selectivo por parte dos bancos, travando o crescimento.
As medidas de austeridade são eficazes para combater uma crise económica em França?
Depende do ciclo económico. Se há crescimento, como houve em 2011 em Portugal, as medidas de austeridade do Fundo Monetário Internacional conseguiram reduzir a dívida e o défice. Mas hoje, sem crescimento, uma austeridade brusca - em período de choque - é contraproducente: reduz a procura e agrava o abrandamento.
Qual é a melhor estratégia?
A estratégia credível consiste em controlar despesas, mas preservar investimentos estratégicos em alternativas energéticas, inovação e soberania. Ou seja, um equilíbrio difícil entre rigor e crescimento.
Guimarães chega a Paris com reconhecimento internacional renovado e um estatuto confirmado: é Capital Verde Europeia este ano de 2026. Mais do que distinção simbólica, o município assume o título como responsabilidade política e transformação concreta. O presidente da câmara municipal, Ricardo Araújo, defende que o desafio não é apenas ambiental, mas sobretudo social: fazer da sustentabilidade um motor real de qualidade de vida.
Num tempo em que as cidades deixaram de ser cenário para passarem a ser protagonistas da crise climática, Guimarães apresenta-se em Paris com uma dupla legitimidade: a do reconhecimento internacional e a de um caminho ainda em curso. Este ano, a cidade é Capital Verde Europeia mas, para o presidente da Câmara, esse título é menos uma meta do que um compromisso exigente.
“Em primeiro lugar, é de facto também um privilégio para Guimarães, resultado de um trabalho que tem vindo a ser feito ao longo das últimas décadas, ser reconhecida pelo terceiro ano consecutivo”, afirma Ricardo Araújo, referindo-se à distinção do Projeto de Divulgação de Carbono (CDP). “Recebemos este reconhecimento juntamente com cerca de 120 cidades, num universo de cerca de 700, e isso é um orgulho neste caminho que Guimarães tem vindo a trilhar.”
Mas o tom rapidamente se afasta da celebração. “Capital Verde Europeia e esta distinção não são um ponto de partida. Esse ponto de partida já se iniciou há um tempo atrás, mas também não é de todo um ponto de chegada”, sublinha. E fixa a ideia central: “É um ponto intermédio, porque isto é acima de tudo uma responsabilidade com o presente e com o futuro.”
Essa responsabilidade ganha densidade quando colocada no contexto histórico da cidade. “Estamos a falar de um concelho que teve uma fortíssima tradição industrial, com sectores como o têxtil e o calçado, que naturalmente traziam uma pegada ecológica muito relevante.” A transformação das últimas duas décadas, na qualidade dos rios, do ar, do espaço público, é, por isso, apresentada como um processo de reconversão profunda.
Ainda assim, o objectivo não se esgota no ambiente. “Tenho dito e repetido que quero que Guimarães seja a capital verde europeia, mas se transforme na capital da qualidade de vida na Europa”, afirma. E reforça: “O ser capital verde europeia tem que estar associado à qualidade de vida das pessoas.”
A transparência como práticaUma das dimensões mais valorizadas internacionalmente é a transparência ambiental. Mas, no discurso do autarca, essa transparência só ganha sentido quando se materializa no dia-a-dia.
“Nós temos um conjunto de indicadores que estamos a monitorizar permanentemente e que queremos que estejam acessíveis a cada momento para qualquer cidadão poder verificá-lo”, explica. E concretiza: “Isto tanto se aplica na qualidade do ar, como na qualidade da água, como na gestão das nossas bacias de retenção, na gestão do estacionamento, do tráfego urbano.”
A cidade, acrescenta, tem de ser pensada como sistema inteligente, apoiado em dados e tecnologia: “Temos que utilizar as ferramentas de inteligência artificial e as ferramentas tecnológicas que temos à disposição para podermos ter uma cidade gerida de forma mais inteligente, através da recolha de dados permanente, do seu tratamento e da sua disponibilização.”
Mas a ambição não é técnica é social. “Estes dados têm que servir a decisão política, mas também o próprio cidadão, para que, no seu dia-a-dia, possa fazer melhores opções.” E dá exemplos simples: “Quando as pessoas têm que estacionar um carro, não têm que andar à procura do parque. Quando utilizam o transporte público, este tem que ser cómodo, flexível, simples.”
A advertência surge clara: “A capital verde europeia não pode ser uma capital verde das elites políticas e académicas. Eu quero que isto seja apropriado pelos nossos cidadãos.”
Entre a pedagogia e a transformação físicaO ano de 2026 é pensado em duas escalas complementares. A primeira é a da consciência. “Quero que este ano sirva para consciencializar cada vez mais a nossa população para a importância destas políticas”, afirma, sublinhando o papel da educação ambiental e do envolvimento das escolas. “A qualidade de vida do nosso futuro está intrinsecamente ligada à adoção de políticas que defendam o ambiente.”
A segunda escala é a do território. “Queremos transformar o território e aproveitar este ano para o fazer”, diz. Entre os projectos: duplicar as ecovias, reabilitar extensas zonas ribeirinhas, criar novos parques urbanos, plantar árvores.
“Guimarães é atravessada por três rios: o Selho, o Ave e o Vizela, e queremos acelerar a reabilitação dessas zonas”, explica. O território deixa de ser apenas espaço físico e passa a ser instrumento de política climática e de qualidade de vida.
E depois, a mobilidade, talvez o campo mais sensível da transformação urbana. “Nós vamos operar uma revolução na mobilidade em Guimarães”, afirma. Mas impõe uma condição decisiva: “Esta revolução tem que ser não contra as pessoas, mas a favor das pessoas.”
Os limites da mudança“Este processo tem que ser partilhado e apropriado pelos cidadãos”, insiste. E admite as tensões: “Quando reduzimos o transporte individual ou a circulação automóvel, não podemos fazer simplesmente por uma vontade do presidente ou por uma decisão académica.”
A mudança, diz, exige equilíbrio entre ambiente, economia e vida dia-a-dia. “Temos de perceber a vida normal das pessoas: o comércio, as escolas, os pais, os filhos, isto não pode ser contra uma coisa ou contra outra.”
O mesmo raciocínio aplica-se à economia. “Esta transição ecológica não pode significar uma desvantagem competitiva para as empresas”, alerta. E acrescenta: “As empresas que cumprem, que têm responsabilidade ambiental, não podem ser prejudicadas quando competem com outras que não cumprem, nomeadamente fora do espaço europeu.”
Cidades no centro do presenteEm Paris, a transformação urbana é visível: menos espaço para o automóvel, mais ciclovias, mais espaço público. Para Ricardo Araújo, esse é o sinal do tempo. “Os fenómenos a que temos assistido são uma evidência de que as alterações climáticas já não são futuro, são presente”, afirma. E a resposta, defende, tem de ser urbana.
“Temos que repensar as cidades e o espaço público, olhar para a forma como organizamos e projectamos a cidade para usufruto dos cidadãos, dos jovens e das crianças.” Isso implica, inevitavelmente, reduzir emissões e mudar a mobilidade. “Estamos a fazer um fortíssimo investimento: a frota de transporte público de passageiros é hoje 100% elétrica.”
Mas, mais uma vez, a chave está no equilíbrio. “Retirar o transporte individual tem que ter alternativa. As pessoas têm que poder fazer a sua vida de forma normal e, de preferência, mais cómoda, mais simples e mais barata.”
No final, a ideia regressa ao essencial. “Se nos limitarmos a apregoar conceitos sem que isso se traduza numa melhoria da qualidade de vida das pessoas, não estamos a dar um bom contributo.”
A Cimeira Mundial da Energia Nuclear realizou-se em Paris na semana passada, reunindo chefes de Estado, responsáveis de organizações internacionais, instituições financeiras e líderes da indústria nuclear para discutir o papel da energia nuclear no futuro energético mundial. A reunião teve como principal objectivo reforçar a cooperação internacional e promover o desenvolvimento seguro e sustentável da energia nuclear civil, num momento em que a procura global de electricidade cresce e aumenta a pressão para reduzir as emissões de carbono. Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação do governo português e antigo director de novas tecnologias de energia na Comissão Europeia, defende que a energia nuclear é a melhor solução e explica porquê.
Por que motivo a energia nuclear volta a estar no cento do debate internacional?
A energia nuclear está a voltar ao debate nacional porque sempre foi e continua a ser o tipo de energia que resolve os problemas com os quais a humanidade está confrontada. Por ser a energia mais densa, tem maior densidade energética, não sofre de intermitência e permite, de uma forma limpa, produzir energia fiável, disponível 24 horas por dia. Estes são os grandes trunfos da energia nuclear.
Para lhe dar uma ideia, para produzir a mesma unidade de energia é necessário 20 vezes mais materiais e recursos físicos. Estamos a falar de betão, aço, cobre, vidro, de todos os tipos de materiais. Alguns deles até críticos e difíceis de obter, como as terras raras, que neste momento estão completamente controlados pela China. Com energia renovável, precisa-se de 20 vezes mais do que com energia nuclear. Por isso, em termos de densidade energética, esta tem um valor extraordinário. Com muito pouco combustível, consegue produzir muita energia, à medida das necessidades, e não à medida da meteorologia.
O objectivo é, até 2050, atingir a neutralidade carbónica e responder à procura global de electricidade. Num contexto actual, a energia nuclear é a melhor solução?
É a melhor solução. Sempre foi. No passado, a energia nuclear foi confrontada com uma campanha muito negativa. Primeiro, uma campanha intensa feita por razões geopolíticas, na altura da Guerra Fria, porque a União Soviética não queria que o Ocidente ganhasse independência através da energia nuclear, embora eles próprios a estivessem a desenvolver, criando uma campanha política contra a energia nuclear. Depois houve o acidente de Chernobyl, que também afectou gravemente a credibilidade e a percepção de segurança desta forma de energia. Houve ainda Three Mile Island e o acidente de Fukushima, mais recentemente, quando estávamos novamente numa época de renascimento nuclear.
No entanto, todos estes acidentes tiveram pouquíssimas vítimas. Apenas Chernobyl registou vítimas mortais, número que é infinitamente inferior ao que ocorre todos os anos, por exemplo, na produção de energia eléctrica a partir do carvão ou de outras fontes fósseis.
Mas também se sabe que, no processo de desmantelamento das centrais nucleares, todo aquele material demora anos até desaparecer…
Isso acontece com qualquer actividade industrial perigosa. No caso da energia nuclear, de forma muito mais controlada, os resíduos estão monitorizados e o desmantelamento é obrigatório. Há actualmente desenvolvimentos muito interessantes em novas tecnologias, como os pequenos reactores modulares.
Na cimeira falou-se do financiamento de novos projectos nucleares, incluindo os reactores tradicionais. Qual é a importância destes reactores?
Os pequenos reactores modulares existem na frota dos porta-aviões, nos submarinos nucleares e nos quebra-gelos russos, e existem também adaptados para a produção de energia civil russo e existe um novo reator deste tipo na China, no deserto de Gobi. Estes reatores são extremamente promissores e julgo totalmente possível que, nos próximos anos, apareçam pequenos reactores a produzir energia eléctrica a um valor competitivo no mercado, cerca de 30 euros por MWh.
Isso vai pôr em questão o investimento em energia eólica. Não fará já sentido económico substituir parques eólicos cuja substituição será mais cara do que esta solução. Além disso, os parques eólicos e centrais solares têm uma vida útil muito mais curta, cerca de 20 a 25 anos, enquanto uma central nuclear demora no mínimo 60 anos e pode durar até 100 anos.
Mas os países estão preparados para este desafio?
Uns estão mais preparados, outros menos, e há quem ignore o problema - é o caso de Portugal, que por enquanto não participa na Aliança Europeia dos Pequenos Reatores Modulares. Para mim, seria obrigatório estar presente, até para acompanhar o que está em desenvolvimento. A Europa não está a acompanhar o esforço desejado. Os Estados Unidos, até por razões militares, estão a investir nesta área, tal como a China e a Rússia. Para nos mantermos competitivos e atrair investimento na indústria, precisamos de uma base de energia muito competitiva. Hoje, os nossos custos são o dobro dos Estados Unidos e o triplo da China.
Nesta competição, a França pode ser um exemplo?
A França tem tentado investir nos pequenos reactores modulares com a New Board, mas sofre, como toda a Europa, de uma hiperregulação, com exigências desnecessárias que tornam a construção muito mais cara. É preciso fazer um esforço para simplificar estes processos, sem nunca pôr em causa a segurança, que deve ser sempre salvaguardada. Os Estados Unidos estão a simplificar o licenciamento de novas centrais para tornar o processo mais ágil.
A inteligência artificial tem aumentado o interesse pela energia nuclear. Como se explica este fenómeno?
A inteligência artificial requer enorme quantidade de energia para funcionar, com centros de dados que consomem tanto como países inteiros. Por isso, será indispensável utilizar energia nuclear, pois só esta combina densidade energética e fiabilidade, sem intermitência. Sem isso, estamos fora do mercado, como já aconteceu em várias indústrias que foram para a China, devido à nossa obsessão por liderar a transição climática com métodos inadequados, como a dependência excessiva das energias renováveis. Renováveis são um óptimo complemento, mas nunca podem ser o pilar; a base tem de ser nuclear. A China está a liderar todos os sectores críticos para a transição energética.
A cimeira foi marcada por críticas, nomeadamente da Greenpeace, que contesta o nuclear e alerta para riscos de segurança e dependência de cadeias de abastecimento ligadas à Rússia. A urgência de atingir a neutralidade carbónica e responder à procura de eletricidade não pode sobrepor-se aos perigos da energia nuclear?
Não. Pelo contrário, os maiores perigos estão associados à alternativa que a Greenpeace defende: energias voláteis, variáveis e incontroláveis. Isso é que constitui um grave risco ambiental. Para produzir a mesma unidade de energia, é necessário 20 vezes mais recursos, o que é insustentável ambientalmente. Além disso, é preciso armazenar energia em baterias ou barragens, duplicando o consumo de recursos. Por isso, os ambientalistas que rejeitam a energia nuclear acabam por ser os maiores inimigos do ambiente. Os verdadeiros aliados do ambiente são aqueles que defendem a energia nuclear, que é limpa, segura e competitiva.
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