Brasil-América Latina

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By RFI Brasil
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Brasil-América Latina episodes

  • "Preso" na Venezuela, paulistano corre atrás de soluções para voltar ao Brasil

    Gustavo Feitoza chegou à Venezuela como turista, pouco antes do governo de Nicolás Maduro impor a quarentena para fear a propagação da Covid-19. Ele é um dos brasileiros que não receberam resposta do pedido de resgate enviado ao Itamaraty. Sem conseguir sair do país, ele se tornou testemunha do drama vivido pela população.

    Por Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil na Venezuela.

    Há sete meses, Gustavo Feitoza, paulistano de Campinas, vive em uma cidade do interior da Venezuela, onde chegou em plena epidemia. Rapidamente, ele fez amizade com seus vizinhos, com quem se comunica pela janela, pelo muro ou pelos aplicativos de telefone. Os relatos que ouve, diz, são emocionantes. “Um deles contou que eles mataram pombas para comer. A gente se sentiu tão chocado com essa história que dividimos nossa comida com eles”.

    Há anos a Venezuela está em hiperinflação. Isso minou o poder de compra e aumentou o empobrecimento da população. Gustavo explica que o consumo de produtos de origem animal agora é acessível a poucos. “A maioria da população aqui é vegana, não por opção, mas porque está tudo muito caro, tudo dolarizado. Comprar carne, leite ou ovos é impossível. A maioria se alimenta de grãos e de verduras, frutas e legumes”, explica.

    Gustavo está hospedado na casa de uma amiga, assim consegue equilibrar o orçamento. “Fiz toda uma manobra para esticar o dinheiro que trouxe para passar três meses aqui, mas estou há sete”, explicou. Durante todo este tempo, sem reposta do Itamaraty sobre o pedido de resgate, ele tenta buscar alternativas para voltar ao Brasil. O espaço aéreo venezuelano está fechado e não há previsões sobre quando voltará a abrir.

    Sair por terra é complexo: é necessário um documento, chamado de “salvo-conduto”, para circular pelo país durante a quarentena. Mas o problema vai além. O país, que tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, sofre com a escassez de gasolina. Uma cena comum, que pode ser observada em muitas cidades da Venezuela, é ver pessoas empurrando o carro para chegar ou sair do posto de gasolina.

    Nesta semana, chegaram três cargueiros trazendo gasolina importada do Irã. A escassez de combustível levou o governo a impor um rodízio para poder abastecer o carro de acordo com a placa. Neste contexto, as pessoas buscam alternativas para fazer os traslados, conta o brasileiro. “A falta de gasolina complica a vida de todo mundo. Aqui no bairro, ter bicicleta é um luxo. Temos que caminhar para chegar a todos os lugares que precisamos. Até tem carro aqui em casa, mas como não tem gasolina não dá para colocar o carro para rodar”.

    Sem eletricidade e sem gás

    Os moradores de Caracas são considerados privilegiados, embora a capital também tenha os mesmos problemas. Porém nada se compara ao sofrimento dos que estão no interior. Essa situação suscitou protestos em diversas cidades venezuelanas.

    Feitoza é um dos milhares que sofrem com os cortes e racionamentos de energia elétrica que há anos acontecem diariamente na Venezuela. Agora todo o país também enfrenta a escassez de gás doméstico. “Por causa da falta de gás doméstico, a gente utiliza o fogão elétrico. Mas aí a gente entra em outra problemática. Não dá para contar todos os dias com a energia elétrica. Às vezes ela é cortada sem nenhum aviso prévio”, comenta.

    Depois de tantos meses longe de casa e sem perspectiva de quando conseguirá sair da Venezuela, Gustavo diz que se sente privilegiado "porque pode comprar o arroz, o feijão, muitos não podem. É de partir o coração”. A escassez de gás doméstico levou parte da população a adotar o fogão à lenha. Essa prática tem gerado danos à saúde dos que precisam queimar madeira para preparar a comida.

    Um relatório, divulgado em abril deste ano e apoiado pela Organização das Nações Unidas, apontou que a Venezuela está em quarto lugar no índice de países com a pior crise alimentar do mundo. A situação venezuelana é mais crítica que a da Etiópia, que ficou em quinto lugar na lista.

    O documento aponta que 9,3 milhões de pessoas - quase um terço da população da Venezuela - não consumiam alimentos suficientes, adequados ao desenvolvimento humano. Cerca de 13% das crianças venezuelanas com menos de 5 anos estão raquíticas e 30%, anêmicas.

    Desvalorização do bolívar

    Um dos fatores que impede o acesso a uma alimentação adequada é a desvalorização do bolívar, a moeda venezuelana. Isso levou à dolarização da economia local. Cerca de 51% das compras de alimentos e de artigos de cuidado pessoal são feitas em dólares, de acordo com o economista Asdrubal Oliveros. “A maioria das pessoas aqui está ganhando um dólar pelos trabalhos que fazem e o dinheiro não dá para comprar o que eles querem”, conta o analista de marketing.

    No país socialista, a cotação oficial da moeda norte-americana é de 441.668 bolívares por dólar. O salário mínimo venezuelano é de 800 mil bolívares por mês, cerca de U$1,60. Para efeito de comparação, uma caixa de ovos custa cerca de Bs 1.200.000 (um milhão e duzentos mil bolívares).       

    De acordo com o Banco Central da Venezuela (BCV), a inflação acumulada de janeiro até setembro deste ano é de 844%. Porém, a Comissão de Economia e Finanças da Assembleia Nacional, de maioria opositora, informou que a inflação acumulada até agosto deste ano é de 1.079%.

     

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  • Brasileira conta como é a vida na Guiana Inglesa, um país de vanguarda econômica

    Há 14 anos Maisa Silva se casou e foi morar em uma região desconhecida para muitos. De lá pra cá, essa amazonense virou referência no mundo dos negócios na Guiana Inglesa, um país com 750 mil habitantes, “muito diferente” e que faz fronteira com Brasil, Venezuela e Suriname.

    Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

    Ela tem duas empresas. Uma dedicada ao setor de cosméticos e a outra, ao de negócios. Acostumada a prestar consultorias internacionais, Maisa tem que explicar onde mora: 

    “De onde você vem? De Gana? Não, da Guiana. Geralmente eu falo que venho do Brasil. Mas se perguntam onde eu moro, digo que no Caribe, que todo mundo sabe onde fica. Mas se falar Guiana não é todo mundo que conhece. As pessoas nem sabem que existe”.

    Maisa começou seu negócio assessorando brasileiros que queriam se estabelecer no país. Bastante comunicativa, se integrou na sociedade guianense a ponto de se mimetizar com os locais. 

    Além disso, contou com o apoio da sogra. Ela a orientava como lidar com a comunidade e os costumes locais, facilitando a adaptação a um país tão diverso e cujo idioma oficial é o inglês britânico.

    A população guianense é composta por cerca de 43% de indianos, quase 30% de afro-guianeses, 16% de guianenses mistos e 9% de indígenas. Além de estrangeiros de diversas partes do mundo   

    Fazem parte desse mosaico “três religiões muito fortes: os católicos, seguidos pelos hindus e muçulmanos”. 

    Maisa conta como é essa mistura no dia a dia:

    “Mesmo sendo muito racistas entre eles, com os negros e os indianos, nessa questão dos feriados de cada religião eles se respeitam bastante. Nessa parte eu tiro o chapéu”. 

    Na capital Georgetown moram cerca de cinco mil brasileiros. Muitos são donos de hotéis, lojas de equipamentos para mineração e restaurantes. A maioria chegou há décadas para explorar o garimpo. 

    Os brasileiros para os guianenses 

    “Os guianenses gostam de tudo que é do Brasil e que é feito no Brasil. Eles são fascinados. Existe a barreira do idioma, mas mesmo assim as brasileiras se casam com os guianenses e existe uma conexão muito grande”.

    Em Lethem, cidade guianesa a poucos quilômetros da capital de Roraima, 80% do comércio é movido por brasileiros que atravessam a fronteira para fazer compras no país vizinho. 

    Já nos garimpos, localizados no interior do país, os “brasileiros são vistos como a melhor mão-de-obra”, conta Maisa.        

    Na percepção da empresária, “os guianeses parecem não gostar do próprio país”. Na página referente à Guiana Inglesa do Portal Consular do Itamaraty, há a informação de que cerca de “45% da população vivem fora do país, principalmente no Canadá, Estados Unidos e países do Caribe”. 

    Em breve haverá um boom econômico na Guiana, mas o país ainda é pobre:

    “Temos uma infraestrutura precária, bueiros a céu aberto, a infraestrutura sanitária é horrível. Não temos hidrelétrica no país. Ainda estamos na era do gerador movido à gasolina”  

    O país recorre à queima de bagaço de cana para gerar energia ou a geradores, como explicou Maisa.   

    Nas ruas os carros dirigem em mão inglesa, quando o sentido de circulação é pelo lado esquerdo da via, e é alto o índice de acidentes fatais. “É meio arcaico. Às vezes a gente dirige no meio de burros, de cavalos, de bodes atravessando”, explica Maisa.  

    Mudanças à vista

    No início de agosto deste ano, o muçulmano Irfaan Ali, do Partido Progressista Popular (PPP, foi declarado presidente pela Comissão Eleitoral da Guiana Inglesa cinco meses após as eleições.

    “Este novo presidente não tem muita experiência na política, mas o vice-presidente tem, já que ocupou este cargo tempos atrás”, conta Maisa ao explicar que a Constituição da Guiana Inglesa não permite que a mesma pessoa volte a ocupar a cadeira presidencial.

    O país está em vias de ser um dos mais prósperos da América do Sul. Em dezembro passado começou a ser explorado uma gigantesca jazida de petróleo, encontrada na costa da Guiana em 2016. A estimativa é de que a produção local passe de 52 mil barris de petróleo por dia para 750 mil até o ano 2025. 

    Mas, por falta de tradição, “as pessoas não entendem nada do mercado petroleiro”.

    Sobre o novo presidente, que tem 40 anos e já foi ministro de Moradia, Água e Turismo, Maisa conta que “ele veio um pessoal jovem e com garra para fazer as coisas acontecerem. Ficamos admirados. As pessoas estão apostando nessa mudança”. 

    Mas para Maisa o boom econômico prestes acontecer nesta antiga colônia inglesa na América do Sul corre riscos:

    “Todo mundo tem medo de que esse dinheiro acabe nas mãos só de uns e não beneficiando os outros”.

    Pobre, porém caro

    Apesar de ainda ser pobre, a Guiana é um país caro. “Não temos indústrias, tudo é importado. E os impostos são muito altos”. 

    Um dos motores da economia local é a cana de açúcar e a exportação de arroz. Por anos a Guiana pagou com toneladas de arroz a troca de barris de petróleo que fazia com a vizinha Venezuela.

    A extração de metais preciosos, feita por empresas russas e canadenses, tem peso no país. Mas a exploração do ouro - feita por garimpeiros - tornou a Guiana “um país bastante caro”, segundo Maisa:  

    “Justamente por causa do garimpo o país ficou caro. Garimpeiro vem do mato e quer pagar tudo com ouro. As pessoas aqui falam que os garimpeiros estragaram a economia do país e por isso tudo ficou caro”.

    Desde 2019 o salário mínimo na Guiana varia entre 320 e 330 dólares, de acordo com a conversão da moeda oficial, o dólar guianense, que vale menos que a moeda dos Estados Unidos. 

    Uma cesta básica no país custa cerca de 300 dólares. É necessário o aporte de renda de três integrantes para que uma família consiga se manter. 

    Na capital Georgetown, um aluguel varia entre 300 a 1.200 dólares, ou mais, dependendo da região.     

    O futuro da Guiana

    De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), Irfaan Ali vai governar um país cuja economia registra a maior taxa de crescimento do mundo (86%), ritmo 14 vezes maior que o da China. Por sua vez o Banco Mundial reforça que a Guiana é um dos países com maior crescimento econômico este ano.

    O próspero futuro e com uma população tradicionalmente emigrante, Maisa acredita que em breve o país será dos estrangeiros:  

    “Eu vejo aqui um país de estrangeiros. Um país que será esmagado por outras culturas: brasileiras, venezuelanas, cubanas... Qualquer outro país que queira e veja oportunidade de investir aqui. Então eu não vejo os guianenes como maioria”.

     

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  • “O Brasil vai virar uma Venezuela?”: Imigrantes venezuelanos no Brasil respondem

    “O Brasil vai virar uma Venezuela”. A frase se tornou corriqueira em conversas acaloradas e em postagens nas redes sociais. Comparar um país ao outro virou praticamente um bordão na boca dos brasileiros. O tom até pode ser jocoso, mas faz referência ao caos vivido por cerca de 22 milhões de pessoas que enfrentam o empobrecimento da nação que já foi uma das mais prósperas da América do Sul.

    Para saber se a comparação faz jus à realidade, a RFI Brasil conversou com alguns dos mais das 264 mil venezuelanos que foram parar, por diversos motivos, no país do samba e do futebol.

    O economista e gestor cultural Luis Volcanes nasceu em Mérida, região dos Andes venezuelanos. Por anos morou em Caracas. Apaixonado pela cultura brasileira, aprendeu português e chegou a cantar com Teresa Cristina, em 2013, e com Beth Carvalho, em 2014, no icônico Teatro Teresa Carreño, na capital venezuelana. Para ele, não é possível comparar os dois países:

    “Se um brasileiro que nunca foi ou morou, e só ouve as notícias aqui, pisar na Venezuela, só de chegar no aeroporto e perceber como o aeroporto está, eu acho que aí muda (a percepção)...”  

    Volcanes conta que “apesar dos problemas que tem, o Brasil é um paraíso”. 

    A complexidade cotidiana de quem mora na Venezuela escapa até mesmo à mente criativa de um escritor de suspense. A vida no país é uma constante surpresa, onde a ação mais básica é transformada em uma equação.

    Não à toa os índices de pessoas com depressão e os de casos de suicídio dispararam.  

    “É um paraíso ter luz em casa. É um paraíso você poder tomar um banho a qualquer hora. (Aqui) não tem hora (determinada) para tomar um banho. É um paraíso poder entrar em uma loja, uma drogaria, um supermercado e você ficar parado na frente da prateleira de arroz e ficar pensando em qual (marca) de arroz pode comprar”, detalha o gestor cultural.

    Desde 2018 no Brasil, ele ainda não se acostumou com a abundância de marcas e produtos disponíveis no comércio. Luis sempre leva uma lista para manter o foco entre tantas opções de compra.

    As lembranças do período da escassez na Venezuela ainda permeiam a memória de Volcanes:

    “Eu ainda não superei entrar no supermercado e ver tanta coisa. Para mim é como (ver) obras de arte! Arroz, carne, queijos, biscoitos, leite...”

    Ver tantas cores, produtos, cheiros e opções o deixou encantado. A experiência beira o cômico se não fosse trágico:

    “Eu lembro que da primeira vez que fui ao supermercado, quando cheguei aqui, que já não tinha que pensar (na logística das compras), eu entrei e saí sem nada. Falei: 'o que eu fiz? Eu entrei para um museu'. Eu achava que o mercado era um museu: só para ver, para olhar as coisas”.   

    Os anos entre 2013 e 2018 ficaram marcados na história venezuelana como o período de escassez. Na época, para comprar apenas um quilo de arroz era preciso madrugar na fila sem a garantia de conseguir adquirir o produto.

    A flexibilização econômica aplicada pelo governo de Nicolás Maduro em meados de 2019 terminou com o problema. No entanto, por causa da inflação, para os venezuelanos das classes D e E continua sendo impossível ter uma alimentação equilibrada.

    Agora os supermercados do país estão abastecidos com produtos importados pelos próprios comerciantes. Os preços de 27 insumos são tabelados pelo Estado, no entanto o valor varia diariamente já que são pautados pela cotação do dólar informada pelo Banco Central da Venezuela.

    Em breve abrirá no país uma rede de supermercados Megasis, com produtos importados do Irã – o principal sócio comercial da Venezuela.   

    Divisão de poderes

    Da cidade natal Caracas para a Bahia: esse foi o destino da matemática Cristina Lizana Araneda. Quando ela ouve que o Brasil está virando a Venezuela, esta professora da Universidade Federal da Bahia destaca algumas diferenças entre ambos os países:

    “Uma das maiores questões é a separação de Poderes. No Brasil, felizmente, ainda tem essa independência. O Supremo Tribunal de Justiça, os ministros, o Congresso, a Câmara dos Deputados têm autonomia. Isso não acontece na Venezuela. Lá a única instituição que foi eleita pela vontade popular foi a Assembleia Nacional”.

    O parâmetro usado por Cristina tem a ver com a reviravolta que aconteceu na vida política venezuelana depois da eleição de 2017.

    Após anos liderado pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o Parlamento venezuelano passou a ser comandado pela maioria opositora. O chavismo não gostou. Criou então a super poderosa Assembleia Nacional Constituinte sob a justificativa de reescrever a Constituição estabelecida pelo ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013). A ANC também está autorizada a governar as demais instituições estatais.

    Até o momento não há informações sobre o andamento da nova Carta Magna.

    O mandato do Parlamento, eleito em 2017, chega ao fim em dezembro deste ano. Há poucas semanas, o Supremo Tribunal de Justiça (TSJ) nomeou os novos reitores do Conselho Nacional Eleitoral sem consultar os parlamentares, sob a justificativa de que a casa está em desacato.   

    O TSJ também vem mexendo na organização dos partidos políticos. Além disso, alguns parlamentares opositores já foram presos, outros foram inabilitados politicamente e há os que preferiram fugir do país para escapar da perseguição política.

    Liberdade de informação

    As estruturas democráticas do Brasil em nada se parecem com as da Venezuela, sobretudo em relação ao acesso à informação, na opinião de Paula Ramón. Esta jornalista conhece bem os contornos da política venezuelana. Por quase oito ela cobriu para o “Últimas Notícias” (quando o jornal ainda era o de maior tiragem na Venezuela), o Congresso, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e os partidos em geral.

    Entre idas e vindas, ela está desde 2012 em São Paulo, de onde reporta, através de uma agência de notícias, o que acontece no Brasil.   

    Dos tempos de cobertura em Caracas, ela lembra “que as instituições venezuelanas sucumbiram muito rápido ao chavismo”. Pedir algum tipo de informação ou uma entrevista através das assessorias de imprensa (estatais) ou falar com um porta-voz (de algum organismo do governo), “eu não lembro de ter conseguido alguma coisa assim na Venezuela”.

    Ela explica como conseguia para ter contato com as fontes e a alguns dados do chavismo:

    “(Na Venezuela) você tinha acesso a ministros e a políticos porque você ia e procurava eles. De tanto insistir, você conseguia coisas e aí ia conseguindo o acesso. Mas nos canais oficiais, isso deixou de existir muito rápido. No Brasil, você vê uma diferença clara. Você ainda tem acesso à informação, e é importante que isso se mantenha”.

    No sistema venezuelano faltam dados oficiais. O Banco Central da Venezuela ficou anos sem anunciar os números da inflação que assola o país. Há poucas semanas o organismo publicou, sem alarde em sua página de internet, que a inflação foi de quase 300% durante o primeiro semestre do ano. No entanto, o deputado opositor Juan Guaidó denunciou nas redes sociais que até abril deste ano a inflação foi de 341,61%.

    Até mesmo os números de casos positivos da Covid-19, diariamente divulgados por autoridades do governo de Maduro, foram questionadas pela organização Human Right Watch. A ONG internacional afirma que o número de infectados pode ser bastante superior ao que vem sendo informado.      

    No Brasil, em junho deste ano, o Ministério da Saúde começou a limitar informações sobre os casos do novo coronavírus. A opacidade de dados motivou algumas empresas de jornalismo a criar um consoórcio de imprensa para, de maneira colaborativa, buscar informações diretamente nos 26 estados e no Distrito Federal, visando noticiar à população com números atualizados.

    O Brasil passa por uma efervescência política que leva um considerável número de pessoas às ruas de diversas capitais do país que se manifestam semanalmente contra ou a favor ao governo de Jair Bolsonaro. Muitas vezes na linha de frente, reportando o que acontece, estão jornalistas e fotógrafos. Deixaram de ser raras as agressões aos profissionais de imprensa.

    “No Brasil nunca sofri agressão física, mas já vivi um episódio de tensão na rua, que mostrava um ponto de raiva, que me deixou surpreendida”, conta Paula.

    De acordo com organização Repórteres sem Fronteiras, o Brasil ocupa a posição 107; e a Venezuela o número 147 na classificação mundial 2020 da liberdade de imprensa.

    “Eu vejo o futuro repetir o passado”

    A polarização política que, sobretudo durante a Era Chávez, se estendeu a toda a sociedade venezuelana - gerando inclusive a ruptura de relações familiares - apareceu no Brasil no final do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016). 

    Para uma sociedade ser considerada saudável é adequado que exista respeito às diferenças. Neste ponto Paula identifica semelhanças entre a polarização política que surgiu na Venezuela com a figura de Hugo Chávez e o que vem acontecendo com o Brasil:  

    “Esse tema da polarização, do outro como o inimigo que não pode existir, na Venezuela era contra a oposição. O Chávez falava “não voltarão”. Esse ódio de que você tem que extirpar o outro da vida política e social do país. A mesma coisa (acontece) aqui, os seguidores do presidente Jair Bolsonaro falam para aniquilar a esquerda”.

    Gesler Paul mora desde 2017 no interior de São Paulo. Por anos trabalhou como locutor nas principais rádios da Venezuela. Ele coincorda com Paula sobre a aceitação do brasileiro escutar posições contrárias à vertente política que defende:

    “Uma das situações mais comuns hoje no Brasil é a extrema polarização política que existe. Se você critica Bolsonaro, você é comunista e te mandam morar na Venezuela. Se você diz algo mais ou menos bom sobre Bolsonaro, você é fascista, racista e até te chamam de nazista. É uma situação que conhecemos muito bem na Venezuela com os "chavistas" e "esquálidos" (opositores) durante tantos anos, e que foi um dos piores erros dos venezuelanos de ambos os lados: apoiar o presidente sem nenhuma capacidade crítica ou criticando-o e apoiando aquele que é contra ele sem pensar ou apoiar a existência de outras vias”.

    Em um país com um histórico recente de ditadura militar (1964-1985), pode ser complexo compreender a suposta liberdade pregada por alguns brasileiros, aponta o locutor:

     “É difícil entender qual é o conceito de democracia dessas pessoas, tanto de um lado como do outro. Isso é muito parecido (com a Venezuela). Você quer extirpar o outro da vida política e social."

    Gesler Paul faz um alerta sobre o uso do parâmetro venezuelano para efeitos de comparação:    

    “A Venezuela se tornou um curinga para se referir à destruição sistemática de um país. Não apenas no Brasil, buscam comparar o pior resultado possível de um país com a situação venezuelana. E é indignante, não apenas por você poder se sentir mal que te comparem sempre com o pior do pior, mas também pela falta de conhecimento do que realmente é ter vivido tudo isso na Venezuela”.

    Cristina Araneda sugere que o brasileiro tenha mais sensibilidade ao se referir à situação de um país do qual praticamente cerca de cinco milhões de pessoas se viram obrigadas a fugir: “É até indelicado dizer para um venezuelano que o Brasil virou uma Venezuela!”

     

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  • Coronavírus: Brasil e Uruguai, a fronteira onde o pior e o melhor da América Latina se encontram, entra em alerta vermelho

    Sant'Ana do Livramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai, formam uma única cidade onde o combate ao coronavírus tenta conciliar o medo e a necessidade de turistas. Neste fim de semana, a zona entrou em alerta vermelho, devido a um novo surto do lado brasileiro e foi criada a Unidade Epidemiológica Sanitária Única com medidas conjuntas com o Uruguai para conter a propagação.

    Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

    O brasileiro Fernando Ravara (50) olha com preocupação para o novo surto de coronavírus que, nesta semana, surgiu no bairro Armour de Sant'Ana do Livramento. Nos últimos três dias, 27 novos casos elevaram a 72 o total de contágios nesta cidade gaúcha. Desses, 36 estão ativos.

    O posto de saúde da zona fechou depois que 11 dos 33 funcionários testaram positivo. A cidade saiu de bandeira laranja (risco médio de contaminação) a bandeira vermelha (alto risco). Todos os comércios vão fechar e as medidas serão endurecidas.

    "Temos entre 22 e 25 respiradores na cidade. Então, a grande preocupação é que, de repente, aconteça um surto grande e não haja respiradores para todos, considerando que estamos próximos ao inverno, quando as doenças respiratórias também aumentam. Esse é o medo da população", adverte à RFI Fernando, radialista com formação em Relações Internacionais.

    A cidade brasileira de Sant'Ana do Livramento registra uma vítima fatal de coronavírus num universo de estimado de 77 mil pessoas. Os números podem não ser expressivos se comparados com a trágica realidade brasileira, mas são alarmantes para o vizinho Uruguai que, na última semana, registrou cinco dias sem nenhum novo caso de covid-19.

    O maior problema do Uruguai é hoje esta fronteira com o Brasil. É onde o pior da América Latina faz fronteira com o melhor. O pior país no combate ao coronavírus e o melhor país em controlá-lo fundem-se num único conglomerado urbano sem divisões físicas. Apenas uma linha imaginária que consiste em simplesmente atravessar uma avenida, da João Pessoa, de Sant'Ana do Livramento, à 33 Orientales, na uruguaia Rivera.

    A metodologia de combate do governo uruguaio combina liberalismo individual com consciência civil: o presidente Luís Lacalle Pou não recorreu a nenhuma quarentena obrigatória, ao contrário de toda a vizinhança. Apelou à responsabilidade cidadã de cada uruguaio e apenas recomendou as medidas sanitárias de proteção. Os uruguaios acataram.

    Enquanto o número de vítimas no Brasil marca um novo recorde a cada dia, do outro lado da fronteira, o Uruguai exibe uma realidade oposta: 847 casos dos quais 23 falecidos, dois deles em Rivera que acumula 57 casos, 13 dos quais ativos.

    Zona restrita

    Esses números levaram o governo uruguaio a blindar Rivera do resto do país através de barreiras sanitárias e controle militar nas estradas. Na cidade uruguaia, encapsulada do resto do país, vivem 103 mil pessoas.

    Mas enquanto o Uruguai preocupa-se com esta zona da fronteira, Rivera-Livramento fazem valer o título de "Fronteira da Paz". A preocupação dessas duas cidades, completamente integrada entre si é com os turistas que vêm de outras cidades brasileiras.

    "A região aqui vive harmoniosamente. As pessoas não estão preocupadas com o vizinho. Enquanto o Uruguai está preocupado com a nossa região, a nossa preocupação é com os que vêm de fora, com os que vem de outras cidades para cá porque não sabemos se estão infectados", explica Fernando Ravara.

    Olga Ortiz Abelenda (57) era a dona do Galpón, uma típica churrascaria uruguaia, referência em Rivera, que atraía uma maioria de turistas brasileiros. Com a chegada da pandemia, Olga decidiu fechar as portas para sempre. Os custos fixos sem nenhum faturamento impedem o negócio. Mesmo no futuro, uma eventual redução pela metade da capacidade de mesas significaria anular qualquer lucro.

    Para a empresária gastronômica uruguaia, mais do que a doença, a falta de trabalho é o grande risco que ameaça a conurbação binacional Rivera-Santana do Livramento.

    "A minha preocupação é o comércio de Rivera que depende exclusivamente dos brasileiros. Eu tenho medo da crise porque as pessoas já estão com problemas para pagar o aluguel, para cumprir com os seus funcionários. Os proprietários estão-se endividando e muita gente já ficou sem emprego", descreve Olga à RFI.

    Fronteira da Paz

    Olga Ortiz é um exemplo da simbiose desta região. Morava no Uruguai, onde tinha o restaurante. Casou-se com um brasileiro e vive agora do lado brasileiro, a três quarteirões da linha imaginária de fronteira. Dos três filhos, dois nasceram do lado uruguaio; um do lado brasileiro.

    Por isso, um preconceito entre brasileiros e uruguaios sobre quem pode contagiar a quem é algo impensável. Antes do surto em Sant'Ana do Livramento nesta semana, havia 114 casos de coronavírus entre as duas cidades, exatamente 57 casos para cada lado.

    "Dentro da cidade, não há preconceito. Isso é mais com os que vem de fora, mas, mesmo assim, só por parte das pessoas que não têm comércio porque aquelas que têm comércio desejam que venham pessoas de fora", compara Olga. "Ninguém está pensando tanto na doença neste momento. Existe a preocupação, sim. Mas é muito mais preocupante ficar sem trabalho", garante.

    A também uruguaia Laura Cabrera Gariglio (38) mora em Rivera, mas está reformando a sua casa em Sant'Ana do Livramento. Filha de pai uruguaio e mãe brasileira, estudou no Uruguai, mas formou-se em Contabilidade no Brasil, onde estão os seus clientes.

    Laura soma-se às críticas de preconceitos por parte dos uruguaios de Montevidéu que consideram Rivera quase um território brasileiro.

    "Entre nós aqui na fronteira, não existe preconceito. E também não existe preconceito com quem vem de fora. Existe medo de um contágio, mas não preconceito. A gente sofre preconceito por parte dos próprios uruguaios, mas não sofremos preconceito por parte dos brasileiros", garante Laura à RFI.

    "A união aqui é tanta que ninguém está comparando qual lado tem mais casos. Puxamos todos para frente juntos", afirma.

    Com os seus Free Shop, a uruguaia Rivera é uma cidade de turismo de compras que atrai muitos gaúchos da cidades vizinhas e sacoleiros, sobretudo neste momento em que a fronteira com o Paraguai está fechada.

    Dependência dos turistas e das compras

    Os ônibus de turistas estão proibidos de entrar em Sant'Ana do Livramento, mas os carros de passeios e vans passam pelos controles sanitários nas estradas.

    Nesta semana de feriadão, muitos turistas foram à cidade para fazer compras. O intenso movimento levou a Prefeitura de Rivera a colocar barreiras sanitárias para os veículos brasileiros. Só neste sábado, foram mais de mil carros com 3.500 pessoas num único dia.

    Os habitantes locais optam por comprar carnes, vinhos, queijos e produtos de limpeza do lado uruguaio. Roupas, calçados e compras do mês nos supermercados do lado brasileiro.

    Para Laura, o perigo está justamente nesse fluxo de turistas de outras cidades brasileiras.

    "A minha preocupação é com a falta de conscientização das pessoas. Eu não entendo como pessoas de fora podem pensar em vir fazer compras com esta situação", surpreende-se Laura. "Mas tem a parte também econômica. As empresas têm de continuar a funcionar e o comércio daqui depende do estrangeiro", pondera. "Então, preocupa-me que venham pessoas de fora, mas também me preocupa que não venham", expõe o dilema que impera na região.

    População vulnerável

    Esse é o dilema que o brasileiro Rafael Castro (32) tenta decifrar. Formado em Relações Internacionais, Rafael faz um trabalho de assistência social na região, através da ONG Movimento Sal & Luz - Voluntários do Bem. O foco é na população vulnerável vítima do vírus e combustível para a propagação.

    "O coronavírus está atingindo mais as pessoas que já eram empobrecidas. Esse grupo é de risco econômico e sanitário. São pessoas que viviam de bicos, vendedores ambulantes e informais que comiam aquilo que conseguiam comprar com o que arrecadavam no dia. Ao voltarem para casa depois de se exporem durante o dia, convivem com um número elevado de pessoas numa mesma moradia pequena e precária", descreve Rafael à RFI.

    "Mas existe outro grupo que não é muito perceptível. São microempreendedores individuais ou pequenos comerciantes. São frágeis porque perdem o emprego ou precisam demitir funcionários que se tornam automaticamente empobrecidos por não terem poupança. Essas pessoas passaram a pedir cestas básicas", revela Rafael, quem até dois meses atrás foi secretário de Assistência Social de Sant'Ana do Livramento, onde 34% da população era pobre antes da pandemia.

    "O meu maior temor é que a questão sanitária vai gerar uma crise econômica profunda que, por sua vez, vai gerar uma crise social. Ao mesmo tempo, a gente não vê segurança em abrir o comércio novamente. É um dilema", conclui.

    Ação binacional

    No último dia 25 de maio, o presidente uruguaio Luís Lacalle Pou, presente pela segunda vez em Rivera, anunciava que nesta região de fronteira seria aplicado, pela primeira vez, o Tratado de Ação Binacional Sanitária. Foi depois de uma ligação ao presidente Jair Bolsonaro. Desde então, Santana do Livramento e Rivera trabalham em conjunto para combater o coronavírus.

    Nesta sexta-feira (12), diante do novo surto na zona, as equipes de Sant'Ana do Livramento e de Rivera acertaram criar uma Unidade Epidemiológica Sanitária Única com um critério comum. A Unidade aplicará, nos dois lados da fronteira, testes PCR produzidos pelo Instituto Pasteur do Uruguai e adotará medidas de prevenção e controle conjuntas.

    4 min
  • Sem representação diplomática, brasileiros aguardam resgate na Venezuela

    Os brasileiros que moram, estavam de passagem ou os que estão em prisões na Venezuela, foram pegos de surpresa pelo encerramento das atividades da embaixada e dos consulados do Brasil no país comandado por Nicolás Maduro. 

    Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil em Caracas

    Nem mesmo a quarentena imposta pela pandemia da Covid-19 fez Brasília adiar os planos divulgados em fevereiro passado. Com a radical decisão, o governo de Jair Bolsonaro congelou as atividades diplomáticas na Venezuela para isolar politicamente o governo bolivariano.

    A rusga acabou gerando um grande problema para os brasileiros. Entre eles, estão os que anseiam ser resgatados pelo Itamaraty para voltar ao Brasil.

    É o caso da cirurgiã-dentista Telma Lúcia Mota de Castro. Ela chegou na Venezuela em 27 de fevereiro para participar da formatura do filho. Quando foi ao consulado brasileiro em Caracas pedir um documento, soube que o local seria fechado.

    Tanto o consulado-geral como os três vice-consulados do Brasil na Venezuela encerraram as atividades em 26 de março deste ano. Os mais de 10 mil brasileiros inscritos no cadastro consular não foram avisados.   

    Com o voo de volta cancelado por causa da pandemia, Telma recorreu ao Itamaraty. A princípio, não obteve resposta. Dias depois, recebeu informações através do número do Gabinete de Gestão de Crise para a América do Sul.

    “Eu realmente preciso voltar. Onde eu estou não tem água; a luz vai e vem, assim como a internet. Antes a gente tinha racionamento e agora a gente está sem água, realmente. Está muito difícil", afirma ela à RFI.

    O site do Consulado-Geral do Brasil em Caracas informa que “a comunidade brasileira residente na Venezuela poderá acessar o Portal Consular do Itamaraty para obter informações sobre assistência consular”.

    Até o fechamento desta matéria, o Itamaraty não havia respondido à RFI onde os brasileiros podem fazer os trâmites consulares após o encerramento das atividades diplomáticas na Venezuela.

    No entanto, o Ministério de Relações Exteriores (MRE) informou que “temos conhecimento de nove brasileiros não residentes que lá se encontram. Há outros brasileiros, residentes permanentes no país, que procuraram o grupo especial de crise para inquirir sobre a possibilidade de apoio consular. Até o momento, sabemos de 32 nacionais nessa categoria, cujas condições estão sendo estudadas para verificarmos que tipo de auxílio pode ser prestado”.

    Resgate sob pressão

    Os brasileiros veem o voo de resgate como a única alternativa para voltar ao Brasil. Foi o que declarou um empresário à RFI, mas sem se identificar: “Se a gente não conseguir embarcar, vamos ficar presos aqui por tempo indeterminado”.

    O Itamaraty havia organizado apenas o voo para levar de volta os diplomatas e adidos militares que estavam em missão na Venezuela. Mas a pressão gerada pelos incessantes pedidos de resgate levou Brasília a reavaliar a situação. No avião que levou os integrantes do corpo diplomático na última sexta-feira (17), embarcaram pelo menos 14 cidadãos brasileiros.

    Outro voo organizado pelo Itamaraty para a retirada de brasileiros está sendo esperado para esta segunda-feira (20). É nele que o jogador de futebol Igor Brodani da Luz pretende voltar pra casa. Após mais de 20 dias tentando contato com o Itamaraty, foi avisado sobre o possível voo.

    O problema é que ele está em Maturin, no nordeste venezuelano e a pelo menos nove horas de estrada até Caracas. Não bastasse a distância, há outro empecilho. “Na região onde eu estou não está tendo gasolina, então estamos tentando achar alguma forma em conjunto”, diz.

    Apesar da Venezuela possuir uma das maiores reservas de petróleo do mundo, falta combustível em todo o país. As filas diante dos postos de gasolina são quilométricas. Boa parte da frota está parada.

    Por causa da rígida quarentena, o jogador do Monagas Sport Club precisa pedir um documento às autoridades venezuelanas para poder passar de um estado ao outro até chegar a Caracas, onde irá se encontrar com outros brasileiros que serão resgatados pelo Itamaraty.

    Ajuda das Forças Armadas da Venezuela

    Já Maria Luiza Rodrigues Motta, ex-funcionária do vice-consulado brasileiro em Puerto Ayacucho (no sul venezuelano), precisou recorrer à Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) para conseguir sair da Venezuela com a filha.

    Antes, porém, ela entrou em contato com a Divisão de Assistência Consular (DAC) para pedir vaga no avião da Força Aérea Brasileira (FAB), o mesmo no qual voltaram ao Brasil os funcionários do Itamaraty na Venezuela.

    “Eu tive que sair com o apoio dos militares venezuelanos, não do governo brasileiro porque eu não tive resposta de ninguém. Até cheguei, praticamente, a suplicar que me ajudassem mas, infelizmente, a ordem era retirar apenas os diplomatas. E os cidadãos brasileiras (ficaram) à deriva”. 

    Já o garimpeiro Luis Rodrigues Amorim decidiu tentar a sorte em uma nova jazida, localizada nas imediações da região amazônica de Puerto Ayacucho. Não teve sorte. “A mina era ruim”, segundo ele. Sem dinheiro para voltar para casa em Boa Vista, no norte do Brasil, graças à solidariedade de uma família brasileira ele “não dorme na rua, nem passa fome”.   

    Os recursos nesta cidade são escassos. Falta sinal de telefonia e a conexão de internet é precária.“A gente procurou o consulado, mas o consulado já estava fechado. Tinha encerrado todas as atividades. Então a gente não pôde fazer mais nada", contou.

    O brasileiro Roberto Coimbra é um publicitário renomado na Venezuela. Foi nomeado cônsul honorário do Brasil no estado Nueva Esparta (onde está a caribenha Ilha de Margarita) pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). Os seguintes presidentes brasileiros mantiveram a designação do cargo até que, em 31 de março deste ano, as funções de Roberto foram cessadas com a saída do corpo diplomático.

    Foi através da cônsul-geral do Brasil em Caracas que ele soube do encerramento das atividades diplomáticas do Brasil na Venezuela. “Oficialmente o Brasil não tem mais nenhum representante consular ou diplomático no território venezuelano. Nós, brasileiros, estamos de certa maneira esperando algum tipo de informação por parte do Brasil sobre como proceder em caso de necessidade. Ou resolver atividades corriqueiras como é tirar ou renovar um passaporte ou oficializar algum tipo de documentação”. 

    A gravidade da falta de representação diplomática representa um risco para os brasileiros, sobretudo aos que estão nas cadeias venezuelanas. Funcionários do Itamaraty faziam as visitas e os auxiliavam nos trâmites com a Justiça venezuelana.

    “Abandonam cerca de 25 presos que estão em situação catastrófica nas prisões venezuelanas, e de longe não vai ajudar em nada a resolver a situação política que a gente está enfrentando”, reitera.

    Na opinião de Roberto Coimbra, faltou informação: “Eu estou seguro de que nenhum dos brasileiros que vivem aqui receberam nenhum tipo de informação oficial sobre essa saída”. 

    Questionado pela RFI, o Itamaraty, não respondeu, até o fechamento desta reportagem, onde os brasileiros que moram na Venezuela devem se dirigir para fazer os trâmites consulares.

    Para Coimbra, “a decisão (de fechar os postos diplomáticos na Venezuela) foi precipitada porque abandona os interesses que o Brasil tem na Venezuela, de longa data. Abandona os brasileiros que estão aqui – os residentes e os em viagem”.

    Avião de guerra para diplomatas

    Um problema de logística quase colocou por água abaixo o voo que sairia esta sexta-feira com os diplomatas, adidos militares e suas respectivas famílias. Para fazer o traslado pessoal e de parte da mudança dos funcionários em missão na Venezuela, a Força Aérea Brasileira tinha previsto aterrissar um avião Hércules na Rampa Quatro, setor do principal aeroporto da Venezuela destinado a aeronaves de caráter estatal.

    No entanto, na hora do recebimento da autorização para pousar, o Ministério da Defesa venezuelano impôs empecilhos alegando que o Hércules é uma aeronave de guerra.

    5 min
  • Brasileiros descrevem situação "complicada" na Bolívia diante da epidemia de coronavírus

    A infecção viral causada pelo novo coronavírus já afetou mais de 260 pessoas e causou pelo menos 19 mortes na Bolívia. Cerca de 26 mil brasileiros residem no país, a maioria estudantes. Divididos entre a restrição de sair às ruas e o precário sistema de saúde boliviano, alguns decidiram voltar provisoriamente ao Brasil, enquanto outros preferiram ficar. A reportagem da RFI conversou com o advogado Henrique Souza e com a cabeleireira Jane Benedita da Silva que tomaram decisões opostas.

    Elianah Jorge, correspondente da RFI na Bolívia

    Após o aparecimento do primeiro caso da Covid-19, no final de março, o governo provisório de Jeanine Áñez impôs o estado de emergência nacional. Policiais e militares, incluindo da Marinha, participam das operações de controle para garantir que os cidadãos saiam às ruas apenas uma vez por semana e no horário autorizado.

    A cabeleireira Jane conta como funcionam as regras de distanciamento social na Bolívia:

    “Aqui a gente tem horário e dia para sair. Você tem que ver pelo número final da identidade. A minha termina em zero e eu tenho o direito de sair toda sexta-feira, das 8h ao meio-dia.”

    Quem infringe a determinação do governo pode ir preso, além de ter que pagar uma multa. Nesta semana, o prefeito de Patacamaya, no departamento de La Paz, foi preso por ter autorizado uma festa religiosa na qual participaram cerca de 600 pessoas. Os testes realizados posteriormente em alguns participantes deram positivo para a Covid-19. 

    Outra proibição é a saída aos sábados e domingos. No entanto, por causa do feriado da Sexta-feira Santa, os cidadãos que não puderam fazer suas compras semanais ontem receberam autorização para sair neste sábado (11).

    Pelo menos em Santa Cruz de la Sierra, onde mora a brasileira Jane, o uso de carros particulares está proibido. Em caso de infração, o veículo é apreendido e será devolvido apenas no fim da quarentena. Sem transporte público e sem poder usar o carro, quem precisa ir às compras, de acordo com Jane, recorre à criatividade e usa até mesmo malas de viagem para transportar as compras.

    Produção de cana-de-açúcar participa do combate à epidemia

    Santa Cruz de la Sierra é o centro econômico da Bolívia e onde foram registrados a maioria dos casos da Covid-19, cerca de 130 até  momento. A agricultura é a principal atividade nesse departamento que faz fronteira com o Brasil. A produção de cana-de-açúcar tem possibilitado que fábricas locais contribuam no combate à epidemia de coronavírus, conforme relata a brasileira Jane:

    “Aqui tem muita plantação de cana. Eles [os empresários] estão fabricando muito álcool e álcool gel e estão vendendo com um preço bem econômico.”

    Para reduzir o risco de propagação do coronavírus, o governo determinou o uso obrigatório de máscaras. As feiras livres, chamadas de “mercados”, continuam autorizadas para a compra de alimentos frescos. Mas nas imediações dos supermercados e das feiras foram instaladas cabines onde a pessoa, ao passar, é borrifada com líquidos higienizantes.

    Durante muitos anos, o fantasma da pobreza assolou a população de cerca de 11 milhões de bolivianos. Para minimizar as consequências econômicas da quarentena, o governo provisório de Áñez autorizou a entrega de um bônus para famílias necessitadas e idosos. Em breve, a presidente anunciará benefícios aos microempresários. 

    Covid-19 atinge o país em meio à crise política

    Embora grande parte dos brasileiros que moram na Bolívia sejam estudantes de medicina, a saúde pública no país ainda deixa a desejar. Além disso, a Bolívia passa por uma delicada situação política desde a saída do ex-presidente Evo Morales (2006-2019) e as conturbadas eleições de outubro passado.

    Jane descreve a Bolívia como "um país complicado", depois da saída de Morales e da ascensão de Áñez. A brasileira soube pela televisão que as autoridades estão preparando um hospital para acolher até cem pacientes da Covid-19.

    As novas eleições estavam programadas para 3 de maio, mas por causa da pandemia elas foram adiadas. Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral apresentou um projeto para que a votação seja realizada entre junho e setembro deste ano.

    Autônoma, Jane está assustada com o impacto da pandemia em seu orçamento. Mas ela comemora a decisão do governo provisório de reduzir o valor de alguns serviços básicos:

    “A presidente fez um decreto que dá prazo de alguns meses para a gente ter um desconto na conta de luz e quem estiver devendo não poderá ter o serviço cortado”, relata.

    As contas de energia dos meses de abril, maio e junho deste ano terão descontos que variam de 20% a 100%, de acordo com a determinação presidencial.

    Ficar na Bolívia ou voltar ao Brasil?

    Natural de Campo Grande, Jane mora há mais de 20 anos na Bolívia. Por causa da estrutura familiar, ela decidiu ficar no país apesar da operação organizada pelo Consulado do Brasil em Santa Cruz de la Sierra para a retirada de brasileiros.

    Já o advogado Henrique Souza optou por voltar ao Brasil:

    “Eu decidi sair com a ajuda do consulado porque a situação começou a ficar bem mais complicada na Bolívia. O sistema de saúde brasileiro é muito melhor que o boliviano. É sempre complicado você estar em um país sendo estrangeiro. Você vai ser sempre uma não prioridade.”

    O trajeto feito por Souza, que saiu de Santa Cruz em direção ao Paraná, foi complexo e com muitas paradas, sobretudo até chegar ao território brasileiro:

    “A travessia total durou quatro dias. Foram doze horas de ônibus de Santa Cruz até Corumbá, na fronteira com Puerto Quijarro. Lá, desembarcamos do ônibus na base do um por um. A gente tomou banho com água sanitária, as malas foram fumigadas, mediram a nossa temperatura. Atravessamos a fronteira. Tínhamos que lavar as mãos, passar álcool...”

    Neste contexto excepcional, algumas políticas aplicadas pelo governo provisório de Jeanine Áñez são criticadas. A organização pró-diretos humanos Human Rights Watch afirmou que o “governo interino da Bolívia aproveita a pandemia para sancionar penalmente quem publique informações que as autoridades considerem incorretas e isso viola o direto à liberdade de expressão”, afirmou José Miguel Vivanco, diretor para as Américas do organismo internacional.

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