Cafezinho

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By Luciano Pires & Café Brasil Editorial LtdaSociety & Culture
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Cafezinho episodes

  • Cafezinho 263 – A praça e os pombos

    A Praça de São Marcos em Veneza é um dos mais populares pontos turísticos do mundo. Pelo significado histórico e pelos milhares de pombos que vivem lá. De vez em quando alguém faz “buuuuu!!”, e uma pomba voa assustada e as demais seguem em revoada. E por algum tempo a praça fica vazia de pombos.

    Aos pouquinhos os pombos começam a retornar, até sentir que o perigo passou. Então a Praça continua em festa.

    A Praça, os monumentos, os moradores, todos sofrem com os pombos, mas eles são necessários. Sem pombos a praça perde o charme. E periodicamente é preciso controlar a superpopulação e alguns são abatidos. É o preço do equilíbrio no caos.

    O mercado global é como a Praça de São Marcos. E os pombos são como os investidores. São nervosos, fazem montes de cagadas e precisam de controle ou destroem tudo. E ao menor sinal de perigo, saem voando.

    Já-já a crise de confiança começa a passar, os pombos voltarão e muita gente terá encontrado oportunidades fantásticas de ganhar dinheiro. Fortunas serão criadas sobre as que foram destruídas.

    O capitalismo não morreu, o mercado não morreu. Como a Praça, estão lá à espera do retorno dos pombos.

    Um dia, num futuro distante, o mar vai tragar Veneza e a Praça de São Marcos. E os pombos buscarão outra praça.

    É assim desde sempre.

     

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    2 min
  • Cafezinho 262 – A educação dos pais

    Recebo uma mensagem com a foto de um pôster colado na parede uma escola, dizendo assim:

    Atenção senhores pais e mães! O ano letivo iniciou e é sempre bom lembrar que é em casa que as crianças devem aprender:

    01 – Bom dia,

    02 – Boa tarde,

    03 – Por favor,

    04 – Com licença,

    05 – Desculpe,

    06 – Muito obrigado

    E é em casa que também se aprende:

    01 – Ser honesto,

    02 – Ser pontual,

    03 – Não xingar,

    04 – Ser solidário,

    05 – Respeitar os alunos,

    06 – Respeitar os mais velhos,

    07 – Respeitar os professores principalmente!

    Também em casa é que se aprende:

    01 – A não falar de boca cheia,

    02 – A ser limpo,

    03 – A não jogar lixo no chão.

    Ainda em casa é que se aprende:

    01 – A ser organizado,

    02 – A cuidar das suas coisas,

    03 – E não mexer nas coisas dos outros

    Porque na escola os professores ensinam:

    Matemática, Português, História, Geografia, Inglês, Ciências e Educação Física. E reforçam o que o aluno aprendeu em casa.

    Que tal? Parece óbvio, não é? Pelo menos para um velho como eu. Mas sabe o que me chamou a atenção? O cartaz é dirigido aos senhores pais e mães, e não aos estudantes. No fundo me lembrou daqueles avisos que a gente vê no banheiro: dê a descarga, não urine fora do vaso, lave as mãos depois de usar o banheiro. Ou então aqueles outros: não buzine na frente do hospital, não pare em fila dupla, não fure o farol vermelho, respeite a faixa de pedestres…

    Existe uma frase que chegou para mim como sendo de Napoleão Bonaparte, mas eu não tenho certeza, da qual gosto muito:

    A educação de um filho deve começar 20 anos antes dele nascer.

    Preocupados demais com a educação de nossos filhos, esquecemos a dos pais…

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    3 min
  • Cafezinho 261 – O sabe tudo

    No Podsumário O Poder do Mau, que está publicado para assinantes do Café Brasil Premium, eu conto que a psicóloga norte-americana Tereza Amabile, conduziu um experimento em que colocou pessoas em frente a uma audiência, pedindo para que avaliassem o trabalho de alguém.

    Quando a pessoa achava que tinha um status mais alto que a audiência e se sentia intelectualmente segura, era generosa na avaliação. Mas quando se sentia intelectualmente insegura, com status menor que a audiência, fazia uma avaliação negativa.

    O crítico tentava aumentar o seu status empregando a estratégia de “ser brilhante e cruel”. Ser cáustico não traria novos amigos, mas obteria o respeito, mesmo que a crítica fosse injusta.

    Já cansei de ver crítica de gente que não tem café no bule para falar mal do que está criticando, mas mesmo assim o faz. O experimento da Tereza Amabile deu pistas para compreender por que tanta gente parte para as agressões nas mídias sociais. Eu achava que era para combater uma ideia divergente, mas agora estou convencido que muita gente quer é se sentir mais do que o outro.

    A maioria dos que criticam com acidez, ofendendo, se fazendo de sabe tudo, não está interessada em provar sua verdade, mas em aumentar o seu status ao parecer mais intelectualmente elevada do que realmente é.

    O sabe tudo, só sabe um pouquinho...

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    2 min
  • Cafezinho 260 – Sem desculpas

    Em 2014 decidi converter meus livros para e-books. Procurei alternativas de fornecedores e fui soterrado por toneladas de “veja bem”, “pode ser”, “talvez”. Pedi orçamentos, recebi loucuras. Sem contar as ameaças tipo “olha, se não fizer assim e assado, você será pirateado, sucateado, incompatibilizado”. Seis meses depois eu estava no mesmo ponto zero.

    Parti para o plano B: fornecedores de fora do Brasil. Num blog dos Estados Unidos encontrei dicas, mandei um e-mail para um recomendado que respondeu com rapidez e praticidade chocantes: dá para fazer, é assim que funciona, leva dez dias e custa entre 150 e 400 dólares. Ponto.

    Mandei os arquivos e algumas horas depois recebi por e-mail um orçamento inteligente. A cada aba, uma instrução, um download, uma explicação. Preço: 340 dólares, menos da metade do que haviam me pedido aqui no Brasil. Duas semanas depois o e-book estava pronto, sem estresse. Credibilidade. O fornecedor dos EUA acreditou em tudo que eu disse e cumpriu tudo o que prometeu. Não teve “caiu o sistema”, “o correio entrou em greve”, “fiquei sem internet”, “faltou um funcionário”, “subiu o dólar”, “o trânsito estava lento”. Não teve “não aceito PDF”, “não pode usar cores”, “foi feriado”, “me manda por motoboy” ou então “não aceito cartão de crédito”. Nada disso. Sem desculpas. Dá para fazer, é assim que se faz, custa tanto e pronto!

    Meu interlocutor sabia o que estava falando, me orientou com precisão, ofereceu todos os meios de acesso, respondeu a todas as perguntas imediatamente e quando achou que não dava disse: “Não dá”, sem “talvez”, “vou ver”, “liga mais tarde”.

    Não é fácil, hein?

    É?

    Então faça.

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    3 min
  • Cafezinho 259 – Coronavirus e as vizinhas

    Já faltam máscaras e álcool em gel nas farmácias de São Paulo. O dólar vai às alturas. Culpa de quem? Do Coronavirus, afinal, já são 80 mil casos e 3 mil mortes!

    Olha, tome alguns dados sobre doenças que são nossas vizinhas:

    Tuberculose: 10 milhões de pessoas contraíram a doença no mundo em 2018, 1,5 milhão morreram.

    Hepatites virais B e C: 325 milhões de pessoas afetadas, com 1,34 milhão de óbitos anualmente.

    HIV: desde que o vírus surgiu, são 75 milhões de infectados e 32 milhões de mortos.

    Gripe: 650 mil mortos por ano. Em 2018, com 4 mil casos, morreram 839 pessoas no Brasil. De gripe.

    Malária: 228 milhões de casos em 2018, com 405 mil mortos.

    Meningite bacteriana: 170 mil mortes por ano no mundo. Em 2018, no Brasil, 934 casos com 282 mortos.

    Cólera: em 2016 foram 132 mil casos e 2.420 mortes.

    Raiva: 59 mil mortos por ano.

    Febre amarela: 200 mil casos por ano, 30 mil mortes. O Brasil teve 483 mortes entre 2017 e 2018.

    Dengue: 390 milhões de infectados por ano. 25 mil morrem.

    Tuberculose, Hepatite, HIV, Gripe, Malária, Meningite, Cólera, Raiva, Febre Amarela e Dengue, suas vizinhas, matam por ano muito, mas muito mais que qualquer Coronavirus.

    - Ah, então não é pra dar bola pro Coronavirus, Luciano?

    Não é isso, ô seu histérico. É para tomar os mesmos cuidados que você sempre tomou com as vizinhas.

     

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    3 min
  • Cafezinho 258 – O poder do Mau

    Olha, eu publiquei um post sobre a pobreza extrema, a democracia, a educação básica, a vacinação, a alfabetização e a mortalidade infantil no mundo nos últimos dois séculos.

    A evolução positiva é sensacional, mas não se fala disso. Por que será, hein? 

    No livro The Power Of Bad, cujo podsumário estou publicando no Café Brasil Premium, os autores fazem uma interessante observação sobre como historicamente os pesquisadores estudaram muito mais os efeitos dos maus eventos do que dos bons sobre as pessoas. É de se esperar, pois o mau causa mais impacto, não é? Mas essas pesquisas foram distorcidas quando jornalistas sedentos por manchetes, passaram a escrever centenas de histórias sobre o peso dos traumas, psicoses e depressão, e muito pouco sobre coisas preciosas como nossa resiliência mental e capacidade para obter a felicidade.

    Muita gente que passou por traumas reconhece que a má experiência as fez mais fortes, espertas, maduras, tolerantes e compreensivas. As fez pessoas melhores. No entanto, muito mais atenção é dada às síndromes pós-traumáticas, mesmo que elas atinjam apenas 20% das pessoas expostas a experiências traumáticas.

    Psicólogos e jornalistas ficam tão ocupados acentuando o negativo, que perdem a capacidade de tratar da fenomenal resiliência do ser humano. É meio burro, mas dá para entender.

    Para sobreviver, a vida tem de vencer todo dia. A morte, precisa vencer uma vez só.

     

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    3 min
  • Cafezinho 257 – O Jobs de Mogi

    Palestrei para uma multinacional num resort em Mogi das Cruzes. E ao ligar o laptop, pediram para aguardar o cara de TI.

    Quando ele chegou, no “bom dia” senti que ia dar merda. O sujeito, que devia ser alguma liderança da área de TI da empresa, se sentia o Steve Jobs de Mogi. Do alto do crachá com o nome da multinacional, era de uma petulância quântica. “Entrada HDMI”, disse. Instalei o conector e... nada de imagem. Ele mexeu no meu laptop e nada.

    O Jobs de Mogi então começou com klinguices, aquele idioma que os Klingons de TI usam e que só eles entendem, dizendo que o tipo de conector do meu computador não se adaptava ao equipamento que eles usavam. Não havia lógica na explicação dele e eu calmamente disse, “olha, eu tenho mais de 1000 palestras, nunca vi isso”. E o Klingon, grosseiro, “ah, mas aqui é assim, tem de usar outro computador.”

    E o clima ficou tenso. Eles viram a minha contrariedade, pois o risco de passar a apresentação para outro computador minutos antes da palestra é gigantesco. Perdem-se links para vídeos, há tipos de letras diferentes, formas desaparecem...

    Certo de que o Jobs não sabia do que estava falando, enquanto ele despejava klinguices para as organizadoras, eu entrei no painel de configuração do laptop, testei outras resoluções e... Pronto. Imagem na tela, tudo certo.

    O Klingon continuou agindo como se nada tivesse acontecido. Nada é mais nocivo que a ignorância que gera confiança.

    O Jobs de Mogi era só um Bozó.

     

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    3 min
  • Cafezinho 256 – Mundos Morais

     

    Cafezinho 256 – Mundos Morais

    Um amigo com quem adoro tomar um chopp é meu oposto político. Ambos queremos um mundo mais justo, mas divergimos na forma de chegar lá.

    Para mim, esse “chegar lá” significa respeitar a lei, a autoridade, a liberdade individual, reconhecer que não sei tudo, que o mundo e o homem são imperfeitos e que é impossível resolver as coisas com uma revolução. O que dá para fazer é consertar o que está errado e conservar o que está certo. Quando erro, primeiro acho que a culpa é minha e devo arcar com as consequências.

    Já o meu amigo lá do “outro lado” entende que por um bem maior, a lei pode ser “contornada”. Questiona a autoridade e acha que algo que não prejudica diretamente alguém, não deve ser proibido. Quando erra, culpa fatores externos e não acha justo assumir sozinho a responsabilidade.

    Valores morais, e por consequência a ética, dependem do espaço geográfico e temporal que você ocupa. Onde e quando você está. Enquanto alguns valores morais têm raízes biológicas profundas, outros são resultado de pressões sociais, condicionamento emocional, imitação ou exposição aos grupos nos quais convivemos. Alguns têm a ver com racionalidade, outros com a natureza humana.

    Será que existem então múltiplas moralidades, hein?

    Olha, talvez vivamos em mundos morais diferentes e nenhum discurso político nos levará ao consenso.

    Quem não entender isso, vai azedar o chopp.

     

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    2 min
  • Cafezinho 255 – Melhores Inimigos

    Cafezinho 255 – Melhores inimigos

    Havia um ótimo documentário na Netflix, chamado Melhores Inimigos, que mostrava o encontro durante as prévias das eleições para presidente dos EUA em 1968, de dois intelectuais que não se suportavam. Eram o conservador William Buckley Jr. e o liberal, nos termos norte-americanos, escritor Gore Vidal numa série de dez debates exibidos pela emissora ABC.

    As exibições ao vivo eram tensas, pois os dois eram brilhantes e as discussões repletas de indiretas e ofensas. Foi um arraso de audiência, com o público saboreando o conteúdo e a forma de entrega de cada um dos debatedores.

    Lembrei disso ao ver alguns debates diários em emissoras brasileiras de rádio e TV nas últimas semanas.

    Olha, descontando que os debatedores estão a anos luz de distância da capacidade intelectual de Buckley e Vidal, o que chama a atenção é que os idiotas são colocados no mesmo patamar de quem tem conteúdo. Não há uma seleção, talvez por falta de material humano. No começo é divertido, mas chega uma hora que cansa, viu? pois os idiotas jogam o debate para baixo. E o confronto de ideias acaba, restando apenas as ofensas e a iminente agressão física conforme a temperatura aumenta.

    E isso joga a audiência para o céu, afinal, quem está interessado em debate de ideias, hein?

    Queremos é o barraco.

    Aliás, Buckley ameaçou dar um murro em Vidal ao ser chamado de cripo-nazista, mostrando que mesmo a paciência dos intelectuais, têm limite.

    Eu teria dado o murro.

    Parece que Melhores Inimigos não está mais na NetFlix. Que pena, eu mataria a saudade de um bom debate.

     

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    3 min
  • Cafezinho 254 – Morda a Isca

    Uma das bases do meu trabalho, que chamo de “fitness intelectual”, é a distribuição de “iscas intelectuais”. É isso o que faço com este cafezinho. A definição de “iscas” está no nome: iscas não matam a fome, apenas abrem o apetite. Iscas intelectuais servem, portanto, para despertar o apetite intelectual das pessoas. Um fragmento de texto, uma música, uma ideia, um argumento, um poema, uma frase… são gatilhos para quem pratica o fitness intelectual. Servem como motivação para sair atrás dos conceitos, autores, artistas e escritores citados, gente com conteúdo relevante capaz de enriquecer repertórios. E recebo constantemente mensagens de agradecimento de leitores e ouvintes, felizes com as descobertas que fazem a partir das minhas iscas.

    Mas para que as iscas funcionem, é necessária uma contrapartida do leitor ou ouvinte. Ele tem que exercer a curiosidade, mergulhar mais fundo, sair atrás. Tem que buscar compreender aquela ironia, o que há por trás daquele texto, daquela música. Tem de querer mais e sair atrás. Caso contrário, as iscas não funcionam.

    Quem morde a isca, aprende. Quem não morde corre o risco de sair da leitura ou da audição provavelmente apenas ofendidinho. Não aprende nada, não ganha nada, não aproveita nada. Fica a dica então:

    Seja sempre bem-vindo ao Cafezinho.

    Mas morda a isca.

     

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    2 min

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Uma pausa para o café com média de 2 minutos e meio de Iscas Intelectuais sobre comportamento, sociedade, política, economia, educação… tudo aquilo que envolve a complexidade de ser humano.

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