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  • Parque nacional Nino Konis Santana "ganha nova dimensão" como reserva da biosfera da UNESCO

    Há quase 20 anos declarado como parque nacional, o parque Nino Konis Santana e as suas imediações, em Timor-Leste, foram considerados pelas UNESCO como um espaço de diversidade ecológica e cultural distinguido com título de reserva da biosfera. Esta distinção vai permitir troca de experiência, mais tecnologia e mais oportunidades para as populações locais.

    O parque nacional Nino Konis Santana, em Timor-Leste, foi classificado no início de Junho como Reserva da Biosfera da UNESCO, a primeira do país. O parque foi estabelecido em 2008 e incluiu uma área de mais de 123 mil hectares, incluindo floresta, mangais e uma parte marítima, que integra o Triângulo de Coral, o centro mundial com maior diversidade de corais e peixes de recife. Este é também um parque com um significado especial para os timorenses, já que carrega o nome de Nino Konis Santana, chefe da guerrilha FALINTIL, braço armado da FRETILIN, e resistente face à ocupação da Indonésia.

    Este reconhecimento pela UNESCO vai ajudar na preservação deste parque, mas também dar mais oportunidades às populações que vivem à sua volta, como explicou António de Sousa Abreu, director da Divisão de Ecologia e Ciências da Terra, da UNESCO, em entrevista à RFI.

    "Este parque é uma referência porque tem o nome de um herói nacional e, portanto, é, do ponto de vista cultural, do ponto de vista até político, se quisermos um elemento muito simbólico no país do ponto de vista natural. É também uma área protegida à escala nacional, com relevância internacional, uma vez que alberga uma grande diversidade de ecossistemas muito importantes e ao nível da biodiversidade, também ao nível de específico. Elementos muito importantes, portanto, sejam ecossistemas terrestres, costeiros, marinhos, desde florestas tropicais, secas, mangais, savanas, recifes de coral e zonas húmidas. Ou seja, há um trabalho já com alguns anos que Timor Leste fez em torno de uma área protegida que agora ganha uma dimensão maior e que extravasa a tradicional competência e funções de um parque. Não é o parque que é reserva da Biosfera. O parque é o motivo ao redor do qual houve uma candidatura para uma Reserva da Biosfera, que é uma classificação diferente de um parque e não é um prémio, é uma validação do trabalho que foi feito", detalhou.

    As reservas da biosfera da UNESCO são locais de "aprendizagem de desenvolvimento sustentável" e que permitem compreender como de, um lado, se pode gerir a biodiversidade e, por outro, ter em conta as populações autóctones e prevenir conflitos. Este reconhecimento serve assim para promover também a educação e envolver diferentes actores no futuro do parque Nino Konis Santana.

    "A visão que Timor-Leste assumiu implica promover a educação, a sensibilização, implica dialogar e meter na mesma mesa partes que tradicionalmente não se juntam, por exemplo, o sector privado que traz o desenvolvimento puro e duro, sem perda de identidade natural e cultural, uma vez que a natureza e a cultura fazem parte e moldam-se a si próprios. A forma, como há milhares de anos se ocupa aquele território, não obstaculizou que os valores naturais ainda lá estejam. Queremos manter o grau de conservação. Timor assumiu isso. Queremos promover sociedades mais informadas, mas também acrescentar valor", explicou António de Sousa Abreu.

    Esta é a primeira reserva da Biosfera em solo timorense e há actualmente 784 reservas em todo o Mundo, espalhadas por mais de 140 países, abrangendo mais de um milhão de quilometros quadrados.

    14 min
  • "África está a competir e a incomodar favoritos" no Mundial de Futebol 2026

    Com 10 selecções a competir, as equipas africanas têm-se destacado no Mundial de Futebol de 2026 pela sua competitividade, com as prestações a serem muitas vezes consideradas por analistas como "milagres" ou "revelações". Para Edgar Leandro, director de Marketing e Desenvolvimento de Negócios no African Union Sports Council – Região 5, trata-se de uma aposta do continente numa maior preparação técnica e da gestão da competição.

    África participa com o maior número de selecções de sempre neste Mundial e os resultados estão a surpreender o mundo do futebol, com Marrocos, Egipto, Argélia, Costa do Marfim, Gana e talvez Cabo Verde a provavelmente conseguirem apurar-se para a próxima fase da competição. Se o talento nunca esteve em causa quanto aos jogadores africanos, é a aposta do continente na preparação física, técnica e estratégica que está a fazer a diferença neste Mundial como explica Edgar Leandro, director de Marketing e Desenvolvimento de Negócios no African Union Sports Council – Região 5, em entrevista à RFI.

    "O Mundial de 2026 confirma uma mudança histórica. A África já não está apenas a participar. África está a competir, está a incomodar favoritos e a obrigar o mundo a olhar para o continente com outra seriedade. É uma mudança de percepção. Durante muito tempo, as selecções africanas entravam nas grandes competições mundiais com muito talento, com emoção, com esperança. E hoje está a ser visto neste Mundial em particular. Entram com mais organização, já têm mais maturidade competitiva, já têm uma consciência clara de que não basta apenas representar o continente, é preciso competir ao mais alto nível. Naturalmente, isso ainda a África ainda tem. Tem falhas estruturais, mas o mundo já percebeu que enfrentar hoje uma equipa africana deixou de ser um jogo previsível", indicou o dirigente angolano.

    Com a popularidade e talento das selecções africanas já confirmada neste Mundial, Edgar Leandro diz que o continente tem agora de apostar em maior financiamento para o desporto em geral.

    "África pode competir melhor do que nunca em organizações internacionais. Mas ganhar exige mais do que talento. Exige profundidade de investimento, gestão desportiva com com eficácia a gestão emocional. As federações devem estar bem organizadas. A ambição deve sair do emocional para o realismo. Nós temos, de facto, que transformar o talento em sistema, pois África produz muitos bons jogadores há muitos anos. Agora nós precisamos de começar a produzir estruturas, academias de futebol, dados, scouting. Precisamos de investir na preparação mental dos jogadores, na liderança federativa. Precisamos investir mais nas preparações técnicas para deixarmos de sair do emocional para o realismo. Se nós fizemos isso, eu tenho a plena certeza que a África vai deixar de sonhar mais alto e começar a realizar mais os seus sonhos", concluiu.

    9 min
  • Tiago Rodrigues transformou a despedida em obra de arte no Grand Palais

    "No Yogurt for the Dead", de Tiago Rodrigues & NTGent, esteve no Grand Palais, em Paris, de 18 a 20 de Junho. A peça foi escrita pelo dramaturgo e encenador português a partir dos últimos dias do pai, o jornalista Rogério Rodrigues, e do bloco de notas que ele deixou com a frase “Os mortos já não comem iogurte”. Esta é uma peça íntima e universal sobre um filho que se despede do pai com uma obra de arte. Este é também “um ensaio - colectivo - perante o adeus”, nas palavras da actriz Beatriz Brás, com quem fomos falar, na última noite no Grand Palais.

    Depois de ter dado volta ao mundo e estreado há mais de um ano na Bélgica, a peça “No Yogurt for the Dead”, do também director do Festival de Avignon, esteve, durante três noites, no majestoso Grand Palais, em Paris. Ao centro, uma pequena montanha branca, duas camas de hospital, quatro actores, duas barbas, um caderno, alguns cigarros, umas centenas de espectadores e telhados de vidro monumentais a cobrirem toda a cena. Ali se passou do riso ao pranto, do canto ao silêncio. Um ritual colectivo de despedida ou, como nos diria, depois, Beatriz Brás, uma espécie de “ensaio da despedida” de nós próprios e dos nossos entes queridos.

    Depois da homenagem à avó Cândida em “By Heart”, depois de um poema de amor à companheira em “Le Choeur des Amants”, depois da evocação poética à filha em “ La Distance”, em “No Yogurt for the Dead” o público de Tiago Rodrigues regressa a um lugar que já lhe é familiar.

    O título da peça, “No Yogurt for the Dead”, vem de um caderno de Rogério Rodrigues (“Barba Longa” no espectáculo) que o filho (“Barba Curta”) lhe levou, a seu pedido, para escrever uma reportagem sobre o que se passava no hospital. “A sua última reportagem”. No final, o caderno praticamente só tinha essa frase. Uns tempos depois, nascia o espectáculo, algures entre entre ficção e diário íntimo, entre peça de teatro e reportagem cantada pelas vozes de Beatriz Brás, Manuela Azevedo e Lisah Adeaga, acompanhadas pela guitarra discretamente omnipresente de Hélder Gonçalves.

    Aproveitámos a passagem por Paris desta peça para conversarmos com uma das actrizes, Beatriz Brás que, com Manuela Azevedo, vai trocando de barbas e vestindo a pele de um pai e a de um filho.

     

    RFI: Como é que nos poderia descrever esta peça?

    Beatriz Brás, Actriz em “No Yogurt for the Dead”: “É uma peça sobre a mortalidade e sobre como é que nós resolvemos e fazemos as pazes com a partida de alguém, com a nossa própria partida também. Muitas vezes, quando vemos partir alguém, o adeus não foi preparado. Eu acho que esta peça é sobre a preparação para esse adeus, o facto de esse adeus nunca ser perfeito e um bocado fazer as pazes com o facto de sermos humanos. Erramos, mas, no fundo, há a possibilidade de, através da arte, nos despedirmos, através da poesia, através da arte, neste caso deste espectáculo que o Tiago, apesar de ele dizer muitas vezes que isto não é um espectáculo sobre o pai e sobre ele, ou seja, só sobre ele e sobre a história dele com o pai, acaba por ser uma maneira, a meu ver, de ele fazer as pazes com a turbulência que foi a relação deles e que a doença do pai permitiu dar um fim diferente e que este espectáculo também vem dar um fim diferente.”

    É uma história íntima, mas também universal?

    “Exactamente. Eu acho que todos nós nos revemos neste ensaio perante o adeus. Isso é a primeira coisa. E também aquilo que eu estava a dizer há bocado: o adeus nunca foi preparado e então parece que ensaiamos na nossa cabeça como é que poderá ser este fim? E na questão da turbulência também acho que há relações familiares complicadas, que nos desafiam - a maioria delas, diria até. Então, eu acho que é uma coisa que o Tiago, ao falar do pai dele, possibilita-nos a nós de também nos vermos naquela história.”

    A Beatriz interpreta os papéis do pai e do filho. Como é que vestiu toda essa carga simbólica?

    “Bom, essa carga simbólica nunca lá esteve. Da parte do Tiago, ele sempre nos aligeirou esse peso, do género: ‘Isto não tem de ser uma coisa sobre mim, não sintam demasiado pudor com a história por ser uma coisa pessoal’. Portanto, ele tentou sempre retirar qualquer tipo de peso. Mas é claro que há essa herança, essa questão de ser uma história pessoal e o facto de trocar os papéis é um pouco um exercício de se pôr no lugar de um e no lugar do outro a meu ver. Foi um exercício que surgiu muito naturalmente.”

    Já estava escrito ou foram vocês que criaram?

    “Não. O Tiago escreve sempre durante o processo. É uma qualidade dos processos de criação do Tiago, o que é óptimo para nós porque nos dá imensa liberdade para propor coisas e para o espectáculo se ir inventando ao longo do tempo. Portanto, como ele não sabia bem quem é que ia desempenhar o Barba Longa, o Barba Curta, o Tiago ou o Rogério, íamos experimentando, entre eu e a Manuela [Azevedo], até que: ‘E se fôssemos trocando estes papéis?’ E ficou assim esta troca de papéis também um bocadinho à boleia desta questão do ensaio, não é? Ora tu fazes de mim, ora eu faço de ti. Vamos lá experimentar o que é isto de fazer uns dos outros e de se pôr nos sapatos uns dos outros’. E foi assim que ficou.”

    A própria peça é um ensaio. Não sabemos se estamos numa reportagem cantada, se estamos numa peça de teatro...

    “Pois, isto é uma reportagem sobre o final da vida do Rogério. É uma reportagem que tem tanto de ficção como de documental. Como a própria Lisa, a narradora da história, diz no início: ‘é uma reportagem que está sempre a deambular entre o teatro e o jornalismo’...

    E o diário íntimo?

    “E o diário íntimo. Não sabemos aquilo que é verdadeiro ou não. Mas claro que muitas das coisas são inspiradas na vida real do Tiago e da relação com o pai dele, da vida do pai dele, a Teresa Torga, todo aquele artigo que é lido e tudo o mais, as canções, o poema escrito pelo pai do Tiago. Portanto, há muita coisa que é real, que é verdadeira, mas há muita outra que também é ficcional e que eu acho que também é um bocadinho a qualidade dos espectáculos do Tiago, ele gosta sempre de misturar, gosta sempre de desafiar os limites daquilo que é a ficção.”

    Temos teatro, temos jornalismo, temos música. Qual é o papel da música nesta peça? A música que só se cala mesmo no fim porque há sempre as notas da guitarra eléctrica e as vossas vozes...

    “Sim. Isto não era para ter tanta música, este espectáculo. Não, de todo. Até que chegámos a um momento em que a Manuela canta a Teresa Torga e experimenta ir para cima da montanha e o Tiago diz: ‘Bom, a partir de agora isto tem de ser um musical’. E começa a escrever a pensar em musicar as letras. O Hélder foi para as férias de Natal muito preocupado porque tinha de criar as músicas para Janeiro, que foi a estreia [2025]. A música não era para ter um impacto tão grande, mas acabou por se revelar muito importante. E também acho que serve um bocado este imaginário das alucinações, do caminho até à morte, de um caminho solitário, meio deambulatório, onde há fantasmas e figuras da morte que nos visitam, figuras do passado, figuras do presente. E tudo se mistura. A lucidez começa a ficar um bocadinho mais... Bom, a própria ficção começa a entrar na realidade, se quisermos. E, portanto, acho que a música serve não só para dar um tom meio melancólico ao espectáculo -e doce ao mesmo tempo, uma melancolia doce, eu diria - mas também para dar corpo a este lado mais fantasmagórico e de alucinação e do desconhecido que é a morte, na verdade, e que nos toca a todos.”

    A Beatriz canta também “Com que voz”. Como é que surgiu este fado na peça?

    “Bem, eu já não me recordo sinceramente como é que isto surgiu. O Tiago sabe que eu gosto muito de cantar fado...”

    Já cantou em “Na Medida do Impossível”...

    “Exactamente. Bom, falamos que a Teresa Torga era fadista, que gostava de cantar fado e acho que todo esse imaginário já lá estava. Este é um fado que o Tiago gosta muito e acabou por surgir a ideia de aparecer este fado também como imaginário do próprio Rogério, não é? O Jacques Brel, o fado, são tudo repertórios que ele gostava e que acho que servem o espectáculo e que servem estas figuras, estes tais fantasmas que o vão visitando no hospital.”

    Inclusivamente aparece um adufe que é da música tradicional de Trás-os-Montes...

    “Exactamente porque o Rogério era de Trás-os-Montes e a Manuela, a uma dada altura, propôs trazer este instrumento que é tradicional de lá, então, fez todo o sentido. Também acho que é uma peça muito portuguesa, com muitas referências portuguesas, e na música também está presente.”

    A peça é portuguesa, mas o título é “No Yogurt for the Dead”. De onde vem este título? E porquê em inglês?

    “Porque o próprio Rogério escreveu ‘No Yogurt for the Dead’ no seu caderno. Esse tal caderno onde só existem rabiscos. Curiosamente, o Rogério tinha escrito em inglês e foi assim que ficou.”

    Qual é a história do iogurte?

    “Como o próprio espectáculo conta, o Rogério não gostava de iogurtes. O próprio título da reportagem que ele escolheu foi ‘No Yogurt for the Dead’. Esta questão do iogurte é uma nova paixão que o Rogério teve no hospital e que só começou a gostar quando estava no hospital e, portanto, é quase como uma metáfora para a sua nova personalidade no hospital, porque foi também no hospital e foi através da doença que se possibilitou uma reaproximação com o filho, com os entes queridos dele. É quase como ele próprio diz – ‘Pareço um miúdo, só quero dar amor e beijinhos. Já não me reconheço e gosto de iogurtes. Eu que nem gostava de iogurtes.’ Portanto, é como se surgisse uma nova personalidade no Rogério, que, para quem vê, para quem observa, também deve ser estranho, não é? Quando o Tiago, o ‘Barba Curta’, diz: ‘Não pareces tu, pai’, há uma certa estranheza. O que é que é isto agora? Mas acho que também é essa nova personagem que ele tem no hospital e que gosta de iogurtes, que permite escrever um novo capítulo para a sua despedida.”

    Até que ponto é que esta peça sugere que contar histórias é uma tentativa de vencer a morte? Até porque ele morre várias vezes durante a peça...

    “Eu não sei se é uma tentativa de vencer a morte, não sei se é resistir à morte. Sim, talvez. Não diria resistir, no sentido em que não a podemos combater, é uma inevitabilidade, mas transforma sim, isso sim há resistência, porque transforma a maneira como nos relacionamos com ela, a maneira como a memória é criada deste pai, por exemplo. Ele está a transformar a memória que tem do pai ao escrever de outra maneira a sua partida, ao inventar novas maneiras da sua partida. E então penso que é uma maneira de apaziguar a dor, talvez, ou de, pelo menos, partilhar a dor com o público e de dizermos: ‘Ok, estamos todos aqui. Às vezes, a coisa não corre bem. Às vezes, é imperfeito, mas todos nos identificamos que há sempre uma caneta preta por trazer.’ É a tal caneta preta que o Tiago traz no fim, isto é, no sentido em que há sempre uma coisa que poderia ser dita e nós todos nos relacionamos com isso, mas ao pô-lo em palco, talvez nos sintamos mais acompanhados nessa melancolia, nessa partida.”

    Em vez de uma entrega total à saudade e à tragédia tão portuguesas, há ali muito humor. O que é que o humor também traz a esta despedida?

    “Eu acho que o humor é essencial neste espectáculo porque senão seria uma coisa muito triste e muito insuportável. É uma das características dos espectáculos do Tiago é este balançar entre a tragédia e o humor. Ele fá-lo muito bem porque é sempre para aguentarmos a próxima facada, digamos assim, a próxima dor, é preciso respirar, rir um bocadinho. Toda a tragédia tem uma certa possibilidade de riso. Eu acho que o humor traz uma certa esperança à dor. Eu acho que é essa a nota final que fica. É claro que há dor, claro que há sofrimento, mas podemo-nos também rir disso e, em conjunto, z sorrir perante a partida de alguém, perante o vazio.”

    Vamos agora à nossa despedida. Trabalha com o Tiago Rodrigues há algum tempo, fez também com ele ‘Na Medida do Impossível’. Como é trabalhar com o director do Festival de Avignon e correr mundo fora com as peças que criou com ele, ele que tem tanto amor pelas palavras, pela liberdade artística e também, penso eu, vo-las dá?

    “É um prazer enorme trabalhar com o Tiago. Cada vez que trabalho com ele, como eu disse, a escrita é feita durante o processo de criação, portanto, isto dá muita liberdade aos actores. Ele convoca-nos para a própria criação, portanto, eu que tenho um passado em que criei a minha própria companhia e tudo isso, revejo-me muito nisso, identifico-me muito com esse método de trabalho em que todos estamos a contribuir para a criação. O Tiago tem sempre, apesar do estatuto de director do Festival de Avignon - que claro, está sempre muito ocupado e com as suas mil tarefas e mil emails por responder - a verdade é que ele preserva sempre uma leveza que eu invejo. É uma leveza de fazer do teatro a coisa mais fácil do mundo. Estamos a uma semana de estrear, ainda falta texto e ele diz: ‘Temos imenso tempo, uma semana é imenso tempo, podemos mudar o espectáculo todo!’. Claro que ele diz isto em tom de brincadeira, mas a verdade é que ele preserva sempre este sentido de humor, esta leveza perante o que estamos a fazer e, sobretudo, eu sinto que ele confia muito nos actores e na equipa com quem trabalha. Aliás, ele próprio diz, muitas vezes, que, mais do que ser um bom actor, ele chama pessoas com quem ele gosta de estar. Eu acho que isso se sente nos espectáculos dele e no processo. São também leves, como esta música, que é este tom melancólico, sorridente. Eu acho que também foi assim. E doce. Acho que também são assim os espectáculos e os processos de criação do Tiago.”

    14 min
  • Santo Antão: "A jóia de Cabo Verde"

    Em 2025, a ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, recebeu cerca de 45 mil turistas, atraídos pelos seus famosos trilhos, criados desde a época colonial, pelas praias de areia negra e pelas experiências gastronómicas. Odair Gomes, vice-presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, descreve a ilha como a «jóia» do país, destacando uma oferta turística diversificada, procurada tanto a nível internacional como nacional.

    Estamos numa ilha que está a ganhar algum dinamismo a nível do turismo. O que distingue Santo Antão?

    A ilha tem uma especialização maior no turismo de caminhadas, no turismo rural e no ecoturismo, que é um segmento que tem vindo a crescer bastante em Santo Antão.Temos uma vasta rede de trilhos que foram criados ainda no tempo colonial. Na altura, serviam para permitir a deslocação das pessoas dentro da ilha, o transporte de produtos agrícolas e a própria comunicação entre localidades.

    Hoje em dia, esses trilhos servem o turismo, embora continuem também a ser utilizados pelas comunidades do interior. Por isso, a maior parte dos turistas que vêm para Santo Antão procura precisamente explorar e caminhar nesses percursos.

    A ilha e o próprio Governo têm desenvolvido um trabalho extraordinário na sinalização dos trilhos, em parceria com organismos internacionais, como a Associação de Defesa do Património de Mértola, em Portugal, que tem ajudado a mapear e a sinalizar os percursos, de forma a garantir a segurança dos visitantes.

    É um desafio enorme manter esses trilhos. Temos uma ilha com uma orografia difícil, muito montanhosa. Santo Antão é a ilha mais montanhosa do país e nem sempre é fácil assegurar a manutenção atempada dos percursos. Esse tem sido, aliás, um dos handicaps do nosso turismo, já que a caminhada é a principal actividade turística. Por isso, a preparação e manutenção dos trilhos têm de continuar a ser uma prioridade.

    O que representa o turismo rural para a ilha de Santo Antão? E de onde vêm os turistas?

    A ilha está a crescer todos os anos e a maior parte dos turistas que recebemos são franceses. Em 2025, Santo Antão recebeu cerca de 45 mil turistas, o que representa um aumento significativo em relação ao ano anterior.

    Estamos a crescer tanto ao nível do turismo como ao nível das estruturas de alojamento e da qualificação dos profissionais. No entanto, também estamos a perder muitos profissionais, sobretudo guias turísticos. Esse deverá ser um dos próximos desafios da ilha: formar mais profissionais para o sector, não apenas para a hotelaria, mas também para o turismo de natureza e de caminhadas.

    Estão a perder guias turísticos. A que se deve essa situação?

    O turismo em Santo Antão, e em Cabo Verde de uma forma geral, continua a ser muito sazonal. A época alta começa normalmente em Novembro e prolonga-se até Abril. Nos últimos anos, tem vindo a iniciar-se ainda na segunda metade de Outubro e a estender-se até Maio.

    Apesar disso, continuamos a ter uma época baixa, e muitas pessoas dependem do turismo para viver. Quando surgem oportunidades noutras ilhas, como o Sal e a Boa Vista, que são os principais destinos turísticos do país, muitos profissionais acabam por sair.

    Além disso, há uma questão demográfica. Há cerca de quinze anos, Santo Antão tinha perto de 50 mil habitantes. Hoje temos apenas cerca de 36 mil. A ilha está a perder população de forma acelerada e nem o Governo central nem as autoridades locais têm conseguido travar essa tendência. A procura de emprego e de melhores oportunidades continua a levar muitas pessoas a emigrar.

    Muitas vezes, quando se fala de Santo Antão, fala-se do isolamento. Como se combate essa ideia?

    Eu não gosto muito do termo «isolamento», porque não considero que Santo Antão esteja isolada. Ao nível dos transportes marítimos, temos o canal mais rentável do país. Existem duas ligações de manhã e duas à tarde entre Santo Antão e São Vicente. O fluxo de pessoas e de turistas é constante.

    As ligações marítimas existentes são suficientes?

    Na época alta, nem sempre são suficientes. Sem transportes não há turismo.Seria importante que uma das embarcações estivesse sediada em Santo Antão, em vez de todas estarem baseadas em São Vicente. Ainda não acontece, mas esperamos que possa vir a acontecer no futuro. É um desejo dos santantonenses.

    Além disso, essa solução seria importante para situações de emergência. Temos um hospital na ilha, mas para tratamentos mais complexos ou situações mais graves é frequente recorrer a São Vicente. Dispor de uma embarcação permanentemente sediada em Santo Antão permitiria respostas mais rápidas, beneficiando tanto a população como o próprio turismo.

    Um barco baseado no porto de Santo Antão seria uma mais-valia e deveria constituir uma aposta dos próximos governos.

     

    Tem-se falado muito da diversificação da oferta turística. Para além do trekking, caminhadas, que outras actividades podem ser desenvolvidas na ilha?

    Em Santo Antão pode praticar-se praticamente todo o tipo de turismo. Temos praias, sobretudo no concelho do Porto Novo. A ilha está dividida em três municípios e, na costa sul, encontramos várias praias de grande beleza.

    A diversificação passa também por valorizar esse património. Temos a maior praia de areia negra do país, localizada na aldeia do Tarrafal. Paralelamente, têm vindo a ser criados novos produtos turísticos, tanto no ecoturismo como no turismo gastronómico.

    Hoje já existem experiências em que os visitantes aprendem a confeccionar pratos típicos com a ajuda de profissionais locais. Também é possível praticar canyoning, mergulho, snorkeling e BTT downhill.

    O campismo está a começar a desenvolver-se, assim como o agroturismo e o turismo comunitário. Precisamos de continuar a potenciar estes nichos, mas já existem sinais claros de diversificação da oferta.

    A par do turismo de sol e praia que caracteriza outros destinos de Cabo Verde, Santo Antão tem-se afirmado precisamente por oferecer experiências diferentes. E não é apenas o turismo internacional que procura a ilha; também o turismo interno tem vindo a crescer.

    Costumo dizer que Santo Antão é a jóia do país. Muitas pessoas visitam a ilha durante a época das chuvas, quando a paisagem ganha um verde intenso, surgem cascatas e a natureza se torna particularmente exuberante e atractiva.

     

    Quando se observam fenómenos de massificação turística e de degradação dos destinos, existe essa preocupação em Santo Antão?

    O turismo sustentável não é uma tarefa fácil. Qualquer destino que pretenda implementar um modelo sustentável tem de fazer investimentos estruturais e organizar-se adequadamente, promovendo acções de sustentabilidade a nível social, económico e ambiental.

    No entanto, ao nível ambiental têm sido dados passos interessantes. Santo Antão tem procurado afirmar-se como um exemplo de turismo sustentável e esse continua a ser um dos principais objectivos para o futuro.

    8 min
  • Cabo Verde: "O aeroporto é uma necessidade estratégica para Santo Antão"

    A ilha de Santo Antão destaca-se pela beleza natural e crescente relevância turística, sendo considerada uma das ilhas mais preservadas e autênticas de Cabo Verde.  O desenvolvimento do turismo tem trazido impactos positivos para a economia local, reconhece o presidente da câmara da Ribeira Grande, Armindo Luz, que defende a necessidade de reforçar essas condições com a construção de um aeroporto, infra-estrutura essencial para o futuro da ilha.

    A Ponta do Sol é um dos principais cartões-de-visita de Santo Antão. O que torna esta localidade tão especial para quem visita a ilha?

    A Ponta do Sol é, na verdade, a localidade mais a norte de Cabo Verde. É uma cidade voltada para o mar, com uma forte tradição piscatória. Foi também a primeira porta de entrada e saída da ilha de Santo Antão, o que lhe confere uma enorme importância histórica.

    Há aqui uma particularidade muito apreciada por quem nos visita: é possível contemplar tanto o nascer como o pôr-do-sol. Muitas pessoas passam o dia a percorrer os trilhos da ilha e regressam à Ponta do Sol ao final da tarde para pernoitar. É uma cidade histórica, com uma beleza própria e um património muito interessante.

    O próprio edifício dos Paços do Concelho tem uma história curiosa. Inicialmente, estava destinado a ser construído na cidade da Ribeira Grande, mas, devido à interpretação de um despacho régio da época, acabou por ser edificado na Ponta do Sol. Com ele foi também transferida a sede administrativa, numa altura em que esta localidade assumia um papel central na administração de Santo Antão.

    As infra-estruturas actuais - hotéis, transportes e rede viária - conseguem responder ao aumento da procura turística?

    Estamos a crescer, e isso é positivo. Ano após ano, temos registado um aumento do número de turistas. Ainda estamos longe da situação ideal, mas já se sente uma pressão significativa ao nível do alojamento.

    Há uma necessidade clara de diversificar a oferta turística e de aumentar a capacidade de resposta. Temos ainda um longo caminho a percorrer, mas estamos conscientes desse desafio e a trabalhar para lhe dar resposta.

    Tem-se falado da possibilidade de construir um aeroporto em Santo Antão. A ilha precisa dessa infra-estrutura ou as ligações marítimas são suficientes?

    Sem um aeroporto, Santo Antão terá muitas dificuldades em alcançar o desenvolvimento que ambiciona. Acredito que esta é a infra-estrutura capaz de devolver novas perspectivas de crescimento à ilha.

    Santo Antão é uma ilha ainda muito preservada. É a segunda maior ilha de Cabo Verde em área e a terceira em população. Nunca teremos turismo de massas, nem esse é o nosso objectivo. Falo particularmente do concelho da Ribeira Grande: não temos condições nem interesse em apostar nesse modelo.

    O que vemos surgir são pequenas unidades de alojamento espalhadas por toda a ilha. Mesmo na cidade da Ponta do Sol, a maior unidade turística tem uma dimensão relativamente reduzida. Encontramos sobretudo alojamentos com dois, três, quatro, dez ou doze quartos. É raro encontrar estabelecimentos com mais de vinte quartos.

    Este modelo permite oferecer uma experiência mais personalizada e, ao mesmo tempo, impulsionar outros sectores da economia. O turismo é hoje o principal motor do desenvolvimento de Santo Antão e um dos mais importantes de Cabo Verde. É através dele que valorizamos os produtos agrícolas e os recursos do mar.

    Há quem tema que um aeroporto possa afectar a paisagem natural e o equilíbrio ambiental da ilha. Como responde a essas preocupações?

    O desenvolvimento traz sempre desafios. A nossa responsabilidade é garantir que esses desafios sejam enfrentados de forma sustentável.

    Estamos numa fase em que ainda é possível planear bem e integrar todas as preocupações ambientais desde o início. Temos procurado fazer esse trabalho e consideramos que isso é fundamental.

    Ao mesmo tempo, um aeroporto criaria novas oportunidades para os jovens. Seriam necessários gestores, engenheiros, técnicos especializados, economistas, informáticos e profissionais de várias áreas. Se permanecermos exactamente como estamos, muitos jovens continuarão a abandonar a ilha por falta de perspectivas de emprego.

    De que forma o turismo tem contribuído para a criação de emprego e para o desenvolvimento económico local?

    O impacto é visível em vários sectores. Na pesca, por exemplo, a procura aumentou significativamente. Isso valorizou o produto e incentivou novos investimentos.

    Na agricultura, temos assistido a melhorias importantes, nomeadamente através da introdução de sistemas de rega gota-a-gota e de técnicas de irrigação mais eficientes.

    Também na pesca se nota uma evolução. Cada vez mais pescadores investem em novas embarcações. A Câmara Municipal inaugurou recentemente um posto de abastecimento de combustível destinado exclusivamente aos pescadores e concluiu a primeira fase do complexo de pesca da Ponta do Sol, junto ao cais. Nesse espaço, os profissionais têm acesso a gelo a preços acessíveis, produzido com recurso à energia fotovoltaica.

    Além disso, temos apostado na motorização das embarcações através de linhas de financiamento em que 50% do investimento é concedido a fundo perdido e os restantes 50% através de microcrédito. Existe um período de carência de seis meses, sem encargos, antes do início da amortização.

    Estamos igualmente a incentivar a substituição gradual das embarcações mais pequenas por outras de maior dimensão, permitindo aumentar os rendimentos dos pescadores e melhorar o abastecimento da indústria conserveira de São Vicente.

    Apesar destes progressos, Santo Antão continua a perder população. Como inverter essa tendência e criar oportunidades para os mais jovens?

    A palavra-chave é conectividade. O aeroporto não é uma obra de luxo; é uma necessidade estratégica.

    Hoje, o turista que sai de Paris, Frankfurt, Lisboa ou Bruxelas quer chegar ao destino da forma mais rápida e cómoda possível. Nem todos estão disponíveis para efectuar uma travessia marítima.

    Há muitos visitantes que passam férias no Sal ou na Boa Vista e que gostariam de conhecer Santo Antão, mas não conseguem fazê-lo de forma simples devido à ausência de uma ligação aérea.

    O aeroporto permitiria ligar Santo Antão aos principais mercados emissores de turistas e reforçar a ligação às ilhas do Sal e da Boa Vista, que concentram mais de 80% das entradas turísticas em Cabo Verde.

    Acreditar que Santo Antão pode desenvolver-se apenas com as ligações marítimas é um erro. Basta olhar para o exemplo das Canárias, onde todas as ilhas possuem aeroporto e algumas têm mais do que um.

    Além disso, durante os meses de Novembro, Dezembro, Janeiro e Fevereiro, quando coincide a época alta do turismo com períodos de mar mais agitado, muitos visitantes sentem dificuldades na travessia marítima.

    O que defendemos é simples: quem quiser fazer a viagem de barco deve continuar a poder fazê-lo. Mas quem preferir chegar directamente à ilha também deve ter essa possibilidade.

    9 min
  • “Não se pode premiar quem viola a democracia”: diáspora pressiona Macron sobre condecoração a Embaló

    A diáspora guineense enviou uma carta ao Presidente francês, Emmanuel Macron, pedindo a retirada da Legião de Honra atribuída a Umaro Sissoco Embaló, alegando que o mandato do antigo Presidente da Guiné-Bissau foi marcado por violações da Constituição, repressão política e enfraquecimento das instituições democráticas. Braima Mané, economista e um dos mais de 50 signatários da iniciativa, afirma que a manutenção da condecoração contradiz os valores da democracia, dos direitos humanos e do Estado de direito que a França diz defender.

    O que é que pretendem com esta iniciativa?

    Pretendemos alertar as autoridades francesas para o facto de Umaro Sissoco Embaló não reunir as condições morais e políticas compatíveis com uma distinção como a Legião de Honra. Consideramos que a sua actuação política foi contrária aos valores que esta condecoração simboliza.

    É por essa razão que consideram que uma pessoa com este percurso não deve continuar a ser detentora da Legião de Honra francesa?

    Exactamente. Não é uma carta contra a pessoa de Umaro Sissoco Embaló; é uma carta em defesa de um princípio. Como guineenses, aspiramos ao programa maior sonhado por Amílcar Cabral, que ainda não se concretizou porque certas pessoas continuam a bloquear o processo de democratização da Guiné-Bissau.

    É necessário consolidar as instituições para, depois, lançar o país num verdadeiro processo de desenvolvimento. Entendemos que não se pode premiar quem viola esses princípios.

    Na carta falam de uma deriva autoritária. Quais são os acontecimentos mais graves que demonstram essa degradação do Estado de direito na Guiné-Bissau nos últimos anos?

    Entre 2020 e 2026, Umaro Sissoco Embaló manteve-se no poder para além do limite constitucional. Desde que assumiu funções, registaram-se episódios recorrentes de perseguição e até de tortura de activistas, adversários políticos e deputados.

    Assistimos também à captura de instituições da República, nomeadamente do Supremo Tribunal de Justiça. Todas as instituições passaram a servir exclusivamente os seus interesses.

    Nas últimas eleições, por exemplo, o candidato da plataforma PAI-Terra Ranka- Domingos Simões Pereira- foi impedido de se candidatar às eleições presidenciais sem qualquer fundamento legal. Existem ainda relatos e imagens de pessoas torturadas e até assassinadas.

    Temos também o episódio recente do alegado golpe de Estado, que consideramos ter sido um simulacro destinado a evitar a transferência do poder e a rejeitar a lógica democrática. Os seis anos de Sissoco Embaló demonstram comportamentos que não são aceitáveis numa democracia.

    No caso concreto da Guiné-Bissau, o país e o povo foram sequestrados por uma organização criminosa que se apresenta como força política, mas que, do nosso ponto de vista, não o é. Tudo isto acontece com a conivência de sectores militares. Não se trata apenas de uma questão política.

    Como avalia a situação de Domingos Simões Pereira e o impacto que ela tem na democracia do país?

    O engenheiro Domingos Simões Pereira, goste-se ou não da sua orientação política, destaca-se como uma das figuras com maior apego à democracia. Apresenta-se a eleições, vence eleições, mas não o deixam governar.

    Isto acontece porque sabem que, se lhe permitirem governar um mandato completo, a situação da Guiné-Bissau poderá mudar. A Guiné-Bissau é um dos poucos países em desenvolvimento que reúne praticamente todas as condições para prosperar, mas não o consegue porque está sequestrado.

    As pessoas que tentam concretizar o ideal de Amílcar Cabral e um projecto de desenvolvimento para o país acabam sistematicamente bloqueadas e impedidas de avançar.

    A carta refere alegadas irregularidades nas eleições presidenciais de 2025. Que elementos sustentam essas acusações?

    As irregularidades ocorreram a dois níveis. Antes das eleições, o Supremo Tribunal de Justiça, que é a mais alta instância judicial do país, não decidiu as candidaturas com base na lei. Esse foi, justamente, o mecanismo utilizado para afastar o principal adversário político de Sissoco Embaló.

    O próprio Sissoco Embaló não esperava que Fernandes Dias da Costa vencesse as eleições. No entanto, venceu, em grande medida graças ao apoio de Domingos Simões Pereira e da sua plataforma política.

    Pela primeira vez na jovem democracia guineense, um candidato venceu as eleições presidenciais à primeira volta. Toda a gente sabia o que estava a acontecer. Estiveram presentes observadores internacionais, representantes da União Africana e da CPLP.

    As eleições na Guiné-Bissau apresentam um paradoxo: são normalmente processos tranquilos, transparentes e civilizados. O povo aderiu a um projecto político e eles sabem que perderam.

    O problema é que dispõem das armas e têm utilizado esse poder para impedir a concretização da vontade popular. O que aconteceu a Domingos Simões Pereira não tem sustentação legal. Não se trata de uma detenção judicial; trata-se de um sequestro.

    São homens armados que actuam sob orientação de Sissoco Embaló, a partir do estrangeiro, com o objectivo de neutralizar ou afastar Domingos Simões Pereira da cena política.

    Como explica a reacção da comunidade internacional perante esta situação?

    É inegável que existe uma certa fadiga por parte da comunidade internacional relativamente à situação da Guiné-Bissau.

    A CEDEAO, na sua configuração actual, não tem capacidade nem credibilidade suficientes para resolver o problema. A própria organização atravessa dificuldades, agravadas pelo afastamento dos três países do Sahel. Tudo isto contribuiu para uma certa normalização da crise guineense.

    Foi criado um Conselho Nacional de Transição e adoptada uma nova Constituição sob o silêncio, ou até alguma conivência, da comunidade internacional?

    Sim. E isso não se aplica apenas às organizações africanas. Refiro-me também à União Africana, à CPLP e, em particular, a Portugal e ao Brasil, que deveriam desempenhar um papel mais activo junto das restantes organizações internacionais, nomeadamente da União Europeia.

    Existe uma preocupante indiferença. O maior perigo é o risco de resignação colectiva. Essas organizações acabam por dialogar com entidades que consideramos ilegais e inconstitucionais.

    Quem integra esse Conselho Nacional de Transição? Militares e sectores derrotados nas últimas eleições. Trata-se, no fundo, de um conselho dos derrotados.

    Quanto à nova Constituição, entendemos que foi encomendada por Sissoco Embaló quando este já exercia funções à margem da Constituição vigente. A elaboração constitucional é uma competência que pertence aos deputados.

    O objectivo é, mais uma vez, neutralizar os opositores, nomeadamente Domingos Simões Pereira, regressar triunfalmente à Guiné-Bissau, participar no simulacro eleitoral previsto para Dezembro e consolidar definitivamente um regime autocrático.

    É também por causa desse receio que enviam esta carta?

    O objectivo principal desta carta é demonstrar que a conduta e as práticas de Umaro Sissoco Embaló não são compatíveis com os valores de honra que a França procura representar.

    Mas existem também dois objectivos complementares. O primeiro é alertar a comunidade internacional para a gravidade da situação na Guiné-Bissau. O segundo é chamar a atenção para a necessidade de actuar antes das eleições.

    Se a situação continuar a deteriorar-se, existe o risco de uma escalada da violência.

    A eurodeputada portuguesa do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, pediu sanções contra a Guiné-Bissau. O que esperam dessa iniciativa?

    O Parlamento Europeu aprovou uma resolução, por larga maioria, condenando aquilo que considera ter sido um golpe e recomendando à Comissão Europeia a adopção de medidas, incluindo sanções.

    Contudo, nada aconteceu até agora.

    As sanções podem ser instrumentos muito eficazes. Essas pessoas dependem da possibilidade de viajar e de manter relações internacionais para procurarem afirmar alguma legitimidade.

    Além disso, existem mecanismos de financiamento que devem ser revistos. É necessário limitar todas essas fontes de apoio.

    Já receberam alguma resposta do Presidente francês a esta carta?

    Ainda não recebemos qualquer resposta. Estamos a aguardar.

    Gostaria de acrescentar que não ficaremos por aqui. Pretendemos dirigir iniciativas semelhantes às autoridades de Cabo Verde, uma vez que aquele país também condecorou Umaro Sissoco Embaló com a Medalha Amílcar Cabral.

    Tencionamos igualmente desenvolver diligências junto das autoridades portuguesas.

    9 min
  • G7: Irão domina a agenda, Ucrânia continua a preocupar Europa

    O acordo anunciado entre Washington e Teerão para pôr fim a mais de cem dias de guerra no Golfo chegou à véspera da abertura do G7 e mudou o centro de gravidade da cimeira. O Presidente francês queria discutir inteligência artificial, dívida dos países mais vulneráveis e tensões comerciais. Acabou confrontado com uma realidade mais incómoda: num mundo cada vez mais fragmentado, os aliados europeus continuam a assistir de fora às decisões estratégicas tomadas pelas grandes potências.

    Emmanuel Macron queria fazer da cimeira do G7 em Évian um momento de reflexão sobre os grandes desafios económicos e tecnológicos do século XXI. A agenda francesa previa debates sobre os desequilíbrios da economia mundial, as tensões comerciais e a inteligência artificial.

    À chegada dos líderes das principais democracias industrializadas, o foco das atenções deslocou-se para o Médio Oriente, após o anúncio de um entendimento preliminar de cessar-fogo entre Washington e Teerão. Para Eric Monteiro, docente de Ciências Políticas da Universidade de La Rochelle, esta mudança de prioridades é reveladora de uma transformação mais profunda.

    "O que a imprensa internacional e os países convidados abordam prioritariamente é a questão da ordem mundial que está completamente desregulada", observa o especialista, apontando o impacto das tensões no Golfo Pérsico sobre os mercados energéticos e na economia.

    A situação tem também uma dimensão política para Emmanuel Macron. Este é o último G7 do segundo mandato presidencial francês e um dos últimos momentos de afirmação internacional antes do fim do seu percurso no Eliseu. O Presidente francês pretendia colocar no centro da agenda temas estruturantes para o futuro da Europa, desde os equilíbrios económicos à inteligência artificial. Mas, como observa Eric Monteiro, "apesar da pauta ser interessante, falar das dívidas mundiais, das tensões comerciais e da inteligência artificial, isso acaba por passar para segundo plano". A sucessão de crises internacionais voltou a impor-se à agenda.

    A questão que atravessa grande parte das discussões em Évian é a relação dos aliados europeus com os Estados Unidos. Eric Monteiro recorda que Emmanuel Macron foi duramente criticado quando afirmou, em 2019, que a NATO se encontrava em "morte cerebral". A declaração provocou então "um electrochoque", mas os acontecimentos posteriores vieram, segundo o analista, reforçar parte do diagnóstico francês.

    A adesão da Finlândia e da Suécia à Aliança Atlântica, bem como o reforço dos investimentos militares europeus, reflectem uma crescente consciência de que a segurança do continente não pode depender exclusivamente de Washington. "Há um embrião de tomada de consciência de que a Europa tem que se reforçar sozinha e que não poderá mais contar só com os Estados Unidos", afirma.

    Segundo o especialista, a principal mudança resulta da imprevisibilidade da política americana. "Há uma tomada de consciência da imprevisibilidade do posicionamento da primeira potência mundial", sublinha. As decisões comerciais tomadas pelos Estados Unidos, nomeadamente em matéria de tarifas aduaneiras, alimentaram entre vários aliados europeus a percepção de que os interesses estratégicos de Washington nem sempre coincidem com os da Europa.

    Esta desconfiança estende-se ao domínio da defesa. O debate sobre a substituição dos F-16 portugueses, as reservas de alguns países europeus relativamente aos equipamentos norte-americanos e a proposta francesa de alargar a protecção da sua força de dissuasão nuclear aos parceiros europeus revelam uma reflexão mais ampla sobre autonomia estratégica. Para Eric Monteiro, a dúvida crescente em torno das garantias de segurança americanas representa "uma mudança muito importante na situação dos últimos 80 anos".

    Apesar da atenção mediática estar actualmente concentrada no Irão, a guerra na Ucrânia continua a ocupar um lugar central nas preocupações europeias. Eric Monteiro rejeita a ideia de um conflito banalizado pela sua duração. Pelo contrário, considera que a resistência ucraniana desmentiu as previsões iniciais do Kremlin. "É impressionante como todos se enganaram", afirma. "Vladimir Putin anunciava uma operação que ia ser resolvida em alguns dias ou no máximo duas semanas. Já estamos a entrar no quinto ano de guerra."

    Segundo Eric Monteiro, os Estados Unidos procuraram sempre evitar um confronto directo com a Rússia, enquanto a Europa consolidou uma posição mais firme de apoio a Kiev. "A Europa demorou algum tempo, mas foi sempre clara sobre o facto de que, se não defendermos a Ucrânia, seremos os próximos", resume. França, Reino Unido e Itália surgem, segundo o analista, entre os países que mantiveram uma linha de apoio constante à Ucrânia.

    É o dossier iraniano que domina os corredores de Évian. Para Eric Monteiro, a forma como foi anunciado o entendimento entre Washington e Teerão confirma uma lógica antiga da política externa americana. "É sempre America First. E quando é Trump, é realmente assumido e dito de maneira aberta", afirma.

    O especialista sublinha, contudo, que ainda não existe um acordo definitivo. "Por enquanto não se trata realmente de um acordo definitivo. É um memorandum of understanding", explica. O documento prevê uma trégua de 60 dias, a reabertura progressiva do estreito de Ormuz e a retoma das negociações sobre o programa nuclear iraniano. Questões centrais, como o eventual levantamento das sanções, permanecem em aberto.

    A escolha do calendário também não parece inocente. Ao anunciar o entendimento na véspera da cimeira, Donald Trump chega ao G7 apresentando-se como o homem que trouxe a paz. "Ele nunca pode aparecer como um loser. Tem que mostrar sempre que ele é que domina as coisas", observa.

    O risco, acrescenta, é que esta questão monopolize os debates. "Vai-se falar do Irão, essencialmente", prevê o analista, receando que temas considerados essenciais para o futuro europeu acabem relegados para segundo plano.

    Entre esses temas está a inteligência artificial, uma das prioridades da presidência francesa. Para Eric Monteiro, a questão tecnológica deve ser analisada como uma questão de soberania. A Europa procura reduzir a dependência dos grandes grupos americanos e, em menor grau, chineses, através do desenvolvimento de infra-estruturas próprias, centros de dados europeus e soluções tecnológicas independentes.

    "Há uma verdadeira vontade de ter data centers na Europa e aplicações que não dependam dos Estados Unidos", afirma. Para o especialista, estas questões são hoje tão estratégicas quanto as questões de defesa. "São realmente importantes para a soberania da Europa."

    O anúncio de um investimento francês suplementar de 655 milhões de euros na inteligência artificial insere-se nesta estratégia mais ampla. Eric Monteiro aponta a constelação europeia de satélites, os projectos industriais comuns e as novas parcerias entre os sectores da defesa e das tecnologias digitais como exemplos de uma Europa que procura afirmar a sua autonomia num ambiente internacional cada vez mais competitivo.

    15 min
  • Nina Laisné transforma o museu num teatro de resistências visuais e sonoras

    Neste programa, vamos conhecer o universo da artista francesa Nina Laisné que está em exposição no FRAC Franche-Comté, em Besançon, entre 14 de Junho e 3 de Janeiro. A retrospectiva chama-se “Un monde renversé” [“Um mundo derrubado” ou “virado do avesso”] e mostra obras que propõem outras formas de ver o mundo e que esbatem as fronteiras entre teatro, música, cinema e arte contemporânea.

    O mundo de Nina Laisné situa-se na intersecção entre as artes performativas e as artes visuais. As suas instalações têm uma dimensão teatral e as suas criações para a cena também se deixam contaminar pelas artes plásticas. Com a exposição “Un monde renversé”, Nina Laisné transformou o museu num vasto palco onde o público pode ver o mundo a partir de outros pontos de vista, incluindo alguns ângulos escondidos da Historia, da Arte e da História da Arte.

    Nina Laisné interessa-se por personagens, comunidades e minorias situadas à margem das narrativas oficiais e trabalha a partir de arquivos, repertórios musicais antigos e lendas populares para construir "contra-narrativas" que questionem a História que nos é ensinada nas escolas e nos museus. Também tem aprofundado questões relacionadas com colonialismo, identidade e metamorfose. É este o mundo que ela leva ao FRAC Franche-Comté, em Besançon.

    “’Un monde renversé’ significa olhar para o mundo de outro ponto de vista, ao contrário, de forma diferente, inversa (…) Nesta exposição reunimos muitas obras de várias épocas, quase dez anos, e o mais óbvio, ao reunir tudo, foi falar de minorias, de hibridação, de coisas que realmente são a essência do meu trabalho, mas que eu não percebia assim tão frontalmente. Esta oportunidade de apresentar todas estas obras juntas realmente muda a forma de ler, de receber essa mensagem. E claro, no meu mundo, sempre tem um espaço muito grande, uma importância muito grande para narrativas diferentes, narrativas contrárias, coisas que sempre ficam na sombra dos relatos oficiais, figuras marginais ou figuras que foram apagadas, silenciadas”, conta à RFI.

    Nos últimos anos, a artista nascida em 1985 ganhou maior projecção em França e no estrangeiro graças ao seu trabalho em palco, nomeadamente com as colaborações com o coreógrafo francês François Chaignaud -“Romances inciertos, un autre Orlando” (2017) e “Ultimo Helecho” (2025) - que combinam canto, dança e música instrumental. Além das artes performativas, Nina Laisné é também artista plástica, música, fotógrafa, cineasta e apaixonada pela História. As suas pesquisas artísticas envolvem o estudo de arquivos históricos de diversos formatos que vão do século XV ao XIX, mas também a procura de músicas antigas, mitos populares e lendas esquecidas que depois transforma em experiências visuais, sonoras, imersivas, poéticas e políticas.

    Em Besançon, através de instalações, vídeos, esculturas, fotografias, livros, gravuras, pinturas e dispositivos sonoros, Nina Laisné propõe uma viagem por universos onde mito, memória, identidade, tradição, história e ficção se entrelaçam. Às vezes não se sabe onde fica a fronteira a realidade e a ficção. Às vezes, a lenda é a base para criar novas ficções.

    No centro deste “mundo revirado” e da sua investigação artística há lendas populares, tradições orais e repertórios musicais ancestrais que revisitam figuras híbridas ou em permanente transformação. É o caso do projecto “A mulher ursa”, que ela tem desenvolvido com a escritora Célia Houdart, a partir de lendas e tradições ouvidas em terras portuguesas, nomeadamente junto das adufeiras de Monsanto. Numa das salas do FRAC, além do adufe, há gravuras, livros, fotografias, arquivos sonoros e um vídeo que serve de prólogo ao filme que Nina Laisné está a escrever com Célia Houdart. A figura da “mulher ursa” acaba por questionar fronteiras entre humano e animal, mas também os próprios mecanismos intemporais que definem quem pertence e quem permanece à margem.

    “Estamos a escrever um filme de ficção que vai acontecer na zona de Monsanto, essa linda região da fronteira com a Espanha. É um lugar quase mitológico, por ser uma aldeia muito antiga, que tem uma história bem complexa, com muitas camadas, muitos níveis de história e também mitologia própria. Também apareceu essa tradição das adufeiras de Monsanto, um grupo de mulheres que tocam adufe e que também cantam. Eu gosto de chegar neste lugar e mudar um pouco a tradição, virar um pouco a história para abrir a outras mitologias, convidar outras histórias da Península Ibérica e, neste lugar, mudar um pouco o repertório, chegar com novas letras e também fazer aparecer nessa ficção a figura da mulher ursa, que seria uma mulher selvagem que convive com animais da montanha e, aos poucos, se aproxima dessa aldeia e começa a criar uma relação com o grupo de adufeiras”, descreve a artista.

    Nina Laisné vai à procura dos arquivos esquecidos ou censurados, de iconografias marginais, de relatos de resistência e vai destapando os silêncios da historiografia oficial. É o que acontece na sala que acolhe duas obras inéditas: uma extensão em grande formato da instalação “Na maré cheia, lá no meio da mata. Na maré baixa, surge a resistência” (2026) e a nova instalação “Portulanos virados” (2026). A primeira é constituída por duas pinturas em grande escala, frente a frente, que fazem uma releitura das imagens do Brasil colonial. Vemos escravos a trabalharem na vasta paisagem a preto e branco e vemos montanhas de vermelho-sangue, a cor extraída do pau-brasil, a invadirem a tela. No meio, estão os “Portulanos virados”, ou seja, 16 violinos abertos dentro dos quais a artista desenhou os tais “portulanos” (mapas de navegação) em que se vêem figuras da resistência à escravatura e ao colonialismo.

    “O problema é que, além de não falarmos do que aconteceu, também apagámos e silenciámos toda a memória das grandes figuras de resistência. Houve revoltas por todo o lado no Brasil, mas só se apresenta a dominação, a humilhação, coisas de violência. Só agora, nestes últimos dez anos, é que historiadores do Brasil começaram a recuperar essas histórias e a identificar gente - para além do Luís Gama e do Zumbi dos Palmares que já são ícones no Brasil - como Maria Filipa de Oliveira, que atacava barcos portugueses e franceses, ou também Zacimba Gamba que foi uma princesa da Etiópia que foi escravizada e que envenenava proprietários de fazendas. Houve muitas coisas de resistência e de criar quilombos e também as crenças de matriz africana, todas essas festas populares que hoje em dia são bem fortes no Brasil, mas que fora dessa fronteira são totalmente silenciadas”, explica.

    Nina Laisné quis lembrar também o papel de França na exploração do pau-brasil. “Já sabemos que Portugal foi muito importante nesta história e a responsabilidade é muito grande, mas nunca se fala da responsabilidade também da França na primeira época do coloniaismo. A França também foi nessas costas para roubar esse pau-brasil que foi muito usado para pinturas de tela e também na fabricação de arcos de violino”, recorda, sublinhando que o pau-brasil era comercializado pela sua capacidade tintorial e também para a produção de arcos para instrumentos de corda. 

    O título “Un monde renversé” é também uma referência a um libreto barroco do compositor Estienne Moulinié e ilustra, desde logo, a importância que a música tem na vida da artista transdisciplinar. Nesta exposição, há, de facto, repertórios das tradições ibéricas, brasileiras, venezuelanas e italianas, de tempos idos e de outros mais recentes. Uma das obras mais impressionantes no FRAC é a monumental “Arca ostinata” (2021), concebida em parceria com o músico Daniel Zapico e que reproduz, de forma imersiva, um pouco do espectáculo com o mesmo nome. A instalação é musical e transforma um  instrumento de música barroca, a teorba, numa construção escultórica em grande escala, decorada por criaturas fantásticas.

    “É verdade que esta exposição é muito musical porque, fora das imagens, a minha primeira linguagem seria a música. Especificamente, podemos falar da música tradicional, da música folclórica e da música antiga. A música antiga, para mim, é muito interessante quando tem algo popular e colectivo, seja do século XVI ou XVII. Comecei a trabalhar, a colaborar com muita gente, muitos músicos que trabalham também para recuperar músicas sobre instrumentos históricos, como a teorba, que é um instrumento europeu de corda pulsada da família do alaúde. Tem um braço muito grande, quase dois metros e é um instrumento muito híbrido, muito fascinante pelo som. Com o músico Daniel Zapico, com quem pensamos essa obra, quisemos ampliar e abrir novas portas do repertório para não ficarmos fechados no repertório barroco, e quisemos propor novas leituras de folclore sul-americano, português, italiano e também mais contemporâneo”, acrescenta Nina Laisné.

    A música também é basilar nas obras “esas lagrimas son pocas” (2015), “Marisol/Mariluz” (2015), “En présence” (2013) e “Frati Uccelli” (2023). Em todas, mais uma vez, há várias camadas de significados, muitos jogos de percepção, questionamentos e, sobretudo, o cruzamento de diferentes disciplinas artísticas.

    “Un monde renversé” é uma viagem ao labirinto teatral de várias artes, mas é também uma reflexão sobre a capacidade de a arte dar voz aos que dela foram excluídos. Algures entre arquivo e ficção, entre investigação histórica e criação poética, entre provocação e jogo, Nina Laisné constrói uma “cartografia da resistência”, um lugar mais inclusivo e assumidamente político, onde passado e presente se vêem com outros olhos.

    “O meu trabalho faz parte dessa resistência colectiva. Conecto-me a diversas resistências do passado para crescer e fabricar novos movimentos aqui, no mundo presente”, conclui.

    A exposição “Nina Laisné, un monde renversé” está patente de 14 de Junho a 3 de Janeiro de 2027.

    18 min
  • Cabo Verde estreia-se no Mundial entre orgulho nacional e o sonho de fazer história

    A selecção de Cabo Verde estreia-se esta segunda-feira, 15 de Junho, no Campeonato do Mundo de Futebol, que decorre nos Estados Unidos, Canadá e México até 19 de Julho. A inédita qualificação dos Tubarões Azuis mobilizou o país e a diáspora, alimentando um sentimento de orgulho nacional e esperança numa prestação histórica na maior competição de futebol do planeta.

    A estreia de Cabo Verde no Campeonato do Mundo de Futebol marca um dos momentos mais importantes da história desportiva do arquipélago. A participação inédita dos Tubarões Azuis na competição mundial tem sido vivida com entusiasmo em todo o país, especialmente na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, onde a qualificação continua a ser celebrada nas ruas e no comércio local.

    O impacto da presença cabo-verdiana no Mundial fez disparar a procura por camisolas da selecção. Ana Maria, proprietária de uma loja no centro de Mindelo, afirmou que as vendas aumentaram  em relação ao habitual. Segundo explicou, tanto residentes como membros da diáspora têm adquirido equipamentos para enviar a familiares no estrangeiro, enquanto turistas de várias nacionalidades também demonstram interesse pelos símbolos da selecção.

    A comerciante considerou que a qualificação projectou Cabo Verde para uma nova dimensão e descreveu o feito como motivo de enorme orgulho para um país pequeno e com recursos limitados. Na sua perspectiva, o simples facto de a selecção participar no Mundial já representa uma grande vitória, independentemente dos resultados desportivos.

    O sentimento é partilhado pelos adeptos. Tiago Cruz destacou que a presença da selecção na competição constitui um motivo de orgulho nacional e considerou que o futebol cabo-verdiano escreveu uma das páginas mais marcantes da história do país. Apesar de reconhecer a dificuldade do confronto com a Espanha, uma das favoritas ao título, mostrou esperança de que Cabo Verde consiga somar pelo menos um ponto diante da selecção europeia.

    Integrada no Grupo H, a selecção cabo-verdiana terá pela frente a Arábia Saudita, o Uruguai e a Espanha, campeã mundial em 2010. A estreia acontece esta tarde, em Atlanta, nos Estados Unidos. 

    O seleccionador nacional, Bubista, garantiu que a equipa chega ao Mundial com ambição e vontade de competir ao mais alto nível. O treinador sublinhou que Cabo Verde respeita todos os adversários, mas também pretende conquistar o respeito das restantes selecções através da organização, disciplina e força mental da equipa.

    Segundo Bubista, jogadores e equipa técnica vivem com entusiasmo a participação inédita no Mundial e acreditam ser possível alcançar resultados positivos. O técnico assegurou ainda que o principal objectivo é representar Cabo Verde com dignidade e fazer com que os cabo-verdianos se sintam orgulhosos da sua selecção.

    Dirigindo-se aos adeptos, apelou à união e ao apoio contínuo à equipa, salientando que uma das principais conquistas da qualificação foi a capacidade de unir o povo cabo-verdiano dentro e fora do país.

    Também o treinador do Mindelense, Américo Medina, considerou a qualificação um sonho realizado. Américo Medina elogiou o trabalho desenvolvido por Bubista e manifestou o desejo de que esta seja apenas a primeira de muitas participações de Cabo Verde em Campeonatos do Mundo.

    Apesar de reconhecer a elevada dificuldade do grupo, sobretudo devido à presença da Espanha, Américo Medina afirmou que continua a sonhar com a passagem à fase seguinte da competição, acreditando que a selecção tem condições para lutar por esse objectivo.

    Por sua vez, o Presidente da República, José Maria Neves, reforçou a mensagem de união nacional. O chefe de Estado considerou que a presença dos Tubarões Azuis no Mundial demonstra a capacidade de superação do país e contribui para projetar Cabo Verde no cenário internacional. José Maria Neves defendeu ainda que o futebol possui uma linguagem universal capaz de aproximar os cabo-verdianos espalhados pelo mundo e apelou ao apoio colectivo à selecção durante a competição.

    Para garantir o apuramento para a fase seguinte do Mundial, Cabo Verde terá de terminar num dos dois primeiros lugares do Grupo H ou assegurar uma vaga entre os melhores terceiros classificados, dependendo dos resultados registados nos restantes grupos.

    6 min
  • Activista denuncia que morte de Lyhanna é “um escândalo de Estado” em França

    Em França, a morte de Lyhanna, uma menina de 11 anos, está a gerar uma mobilização contra a lentidão da justiça em tratar os crimes sexuais contra crianças. O suspeito da sua morte acumulava outras denúncias de violações e abusos de menores, mas nunca foi interrogado pelas autoridades. A activista Luísa Semedo denuncia um “escândalo de Estado” que “mete a nu muitas deficiências do Estado” francês, sublinha que “a cada três minutos há uma criança que é agredida sexualmente em França” e que apenas 3% dos agressores são condenados. A investigadora associa-se à mobilização que pede a adopção de uma Lei Integral de combate aos crimes sexuais e acredita que “uma parte da sociedade está a acordar”.

    Esta segunda-feira, houve manifestações em várias cidades francesas para expressar a revolta colectiva pela morte de Lyhanna e para protestar contra as falhas da Justiça e do Estado francês no que toca à protecção das crianças contra crimes sexuais. Esta quinta-feira, a indignação e a revolta chegaram ao jornal português Público com uma crónica da activista Luísa Semedo, que começa assim: “Em França, a cada três minutos, o tempo de leitura desta crónica, uma criança é vítima de agressão sexual e apenas 3% das denúncias de violação de menores resultam em condenação.” [Os números “abissais” da violência sexual sobre crianças são da Comissão [francesa] Independente sobre Incesto e Violências Sexuais contra Crianças (Ciivise).]

    Conversámos com Luísa Semedo, investigadora em Filosofia Política e Ética; que olha para a morte de Lyhanna como “a ponta do iceberg” daquilo que denuncia como “um escândalo de Estado”.

    “É um escândalo de Estado porque mete a nu muitas deficiências do Estado, justamente a vários níveis, quer seja no nível judicial, na polícia, a nível das leis, a nível dos apoios sociais, dos apoios médicos, da educação, ou seja, como é que toda a estrutura está a falhar às pessoas que são vítimas. Portanto, é de facto um escândalo de Estado. A questão que aqui se coloca não é só o que aconteceu com Lyhanna, é o facto de ter havido, durante mais de dez anos, queixas contra este o suspeito que nunca foram levadas a sério e ele nunca foi ouvido”, explica, por telefone, à RFI.

    Luísa Semedo sublinha que além de ser um “escândalo de Estado”, a morte de mais uma criança alegadamente vítima de um predador sexual revela também “um escândalo da sociedade”, pelo que é urgente “uma mudança de mentalidades”.

    “Estamos a falar de 3% de pessoas condenadas. Estamos a falar também que a cada três minutos há uma criança que é agredida sexualmente em França. Estes números são absolutamente abissais, por isso é que cada caso que aparece é só a ponta do iceberg. As pessoas que se estão a mobilizar sabem disso e querem que haja visibilidade sobre esta situação porque é uma situação que é absolutamente grave, que se passa, muitas vezes, dentro de casa ou muitas vezes com pessoas que são muito próximas. Não se trata de casos que se passam na rua, num canto escuro com um estranho ou com um estrangeiro - como nos quer fazer acreditar a extrema-direita. Não. Passa-se, sim, dentro de casa. Passa-se na escola. É uma catástrofe e um escândalo. É um escândalo de Estado. É um escândalo da sociedade. Felizmente, há uma parte da sociedade que acordou para isto”, diz Luísa Semedo.

    As associações feministas e de protecção da infância reivindicam a adopção de uma Lei Integral de combate à violência sexual contra crianças e mulheres, a qual já tinha sido apresentada por cerca de cem deputados no fim de 2025, mas que nunca foi analisada. Na concentração desta segunda-feira, em frente ao ministério da Justiça, em Paris, a polícia deteve Andréa Bescond, uma conhecida realizadora e autora de um livro (‘Les chatouilles ou la danse de la colère’) - que transformou em peça de teatro e que também deu um filme - sobre os abusos sexuais que ela própria sofreu quando era menor. Ela passou a noite na esquadra e denunciou uma detenção arbitrária. Nas redes sociais, muitos partilharam as imagens da violenta detenção de Andréa Bescond e ela também publicou fotografias das nódoas negras que daí resultaram. Luísa Semedo também ficou perplexa com o que aconteceu e pergunta-se como é que Andréa Bescond, uma vítima, “foi detida e passou toda a noite na prisão, enquanto um agressor com queixas há dez anos nunca foi sequer ouvido”.

    Por outro lado, Luísa Semedo subscreve o apelo de Andréa Bescond de concentrações pacíficas todas as segundas-feiras, às 19h, diante de todos os tribunais de França até à adopção da Lei Integral de combate às violências sexuais. “Esta Lei Integral implica vários tipos de vias para tratar esta questão da violência sexual contra as crianças e vai desde questões como a imprescritibilidade, ou seja, que não haja limite de tempo para apresentar queixa. Também aborda questões como a educação nas escolas: são as crianças que têm de ser educadas, mas também os futuros adultos (...) É uma lei cujo objectivo é fazer com que, cada vez que haja um destes casos, não seja considerado só como um ‘fait divers’ ou como um caso pontual ou ‘um disfuncionamento’, como disse o [Emmanuel] Macron, mas que faz parte de um sistema”, acrescenta a investigadora.

    Esta semana, nos protestos e até na Assembleia francesa, ouviram-se pedidos a exigir a demissão do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que rejeita deixar o cargo e aponta o dedo à justiça - ainda que o governo francês seja acusado de ter feito cortes no sector. Lecornu propôs a possibilidade de uma pena de prisão perpétua para os violadores em série contra os actuais 20 anos de prisão [para os que chegam a ser julgados] e disse querer que os inquéritos relativos a crimes contra menores sejam feitos em menos de três meses. Estas medidas são suficientes? Não, responde Luísa Semedo, sublinhando que a questão principal “não está no número de anos da pena do agressor”, mas no facto de apenas “3% dos casos de agressão sexual serem punidos”.

    No domingo, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, assinalou que existem “graves falhas” na gestão do caso do suspeito da morte de Lyhanna, e anunciou que 70 mil queixas envolvendo crimes sexuais contra menores terão de ser examinados até 14 de Julho. Mais uma vez, Luísa Semedo aponta o seu olhar crítico para este anúncio e diz: “Parece até humanamente impossível, tendo em conta que um dos problemas em França é justamente, em relação à União Europeia, a França ter menos meios, por exemplo, em procuradores do que no resto dos países europeus. Ou seja, há um problema também de meios que não vêm directamente da culpa de magistrados ou dos serviços da Justiça. Vem do Estado em geral e dos meios que são dados a estas questões e das prioridades também que estão em cima da mesa. Por exemplo, a formação de polícias é algo que é importante e também não é feito. O que este caso está a revelar é, de facto, todas as insuficiências do Estado em relação a esta questão, que é uma questão que é multifactorial e que não é só uma questão de magistrados ou só uma questão de ir ver cada caso. Claro que é importante ver cada caso e acho muito bem que se faça, mas não com este lado de 'performance', com uma data, como se fosse uma espécie de concurso. Até acho indecente e de mau gosto porque há um lado de 'performance' que não tem nada a ver com a seriedade do tema.”

    Apesar de lamentar que tanto a Justiça, quanto o Estado, quanto a Sociedade tenham falhado até agora, Luísa Semedo acredita que “uma parte da sociedade a acordar”. Por isso deixa também o apelo: “Eu acho que o apelo de se juntar todas as segundas-feiras vai ao encontro disso, ou seja, é dizer NÃO, há uma parte da sociedade que não vai deixar passar. Isto foi a gota de água. O Estado falhou. A sociedade também ainda não está completamente consciencializada para o problema, mas há uma parte que está e que vai continuar a lutar.”

     

    Luísa Semedo: A morte de Lyhanna é “um escândalo de Estado” e "talvez o início de uma revolução”

     

    RFI: Por que é que decidiu mobilizar-se e escrever num jornal português sobre a morte de Lyhanna?

    Luísa Semedo, Activista e Investigadora em Filosofia Política e Ética: “Porque em França está a ser uma situação que está a causar imensa emoção e penso que é uma questão que é universal, não é uma questão que é só importante em França, a questão da violência contra as crianças. Parece-me importante também que em Portugal se fale sobre isto porque o que se sente é que há, de facto, uma zona um pouco escondida, a questão do MeToo, da violência em geral e da violência sexual e nomeadamente contra as crianças. É como se fosse uma zona em que o problema é tão grande que parece preferir-se não se ver um problema tão grande. Neste momento, está a rebentar em França com o caso da Liana, ou seja, é a gota de água que fez com que as pessoas saíssem todas para a rua.”

    Na segunda-feira houve manifestações em várias cidades francesas para exigir medidas e está a haver uma mobilização. O que espera desta mobilização? É possível que algo mude? É preciso um tsunami? Ou, como escreve na crónica no Público, "está-se talvez a viver o início de uma revolução?”

    “Sim. O que eu espero é que haja uma mudança de mentalidades porque são questões tão estruturais, tão profundas na sociedade, que não é só com pequenas medidas de urgência que se vai lá. Ou seja, é uma questão que necessita que várias soluções sejam postas em prática e uma das mais importantes é talvez uma mudança de mentalidades. Ou seja, olhar para uma criança como uma pessoa é a base, perceber que é uma pessoa que tem um corpo e que tem de ter consentimento em relação ao que lhe fazem. A criança também tem de ter essa consciência e, por isso, as associações pedem muito que haja, por exemplo, uma educação sexual e afectiva nas escolas, que é uma coisa que não existe ou existe de forma muito rudimentar. Ou seja, é toda uma panóplia de soluções que devem ser feitas.”

    As associações que se têm mobilizado e participado nestes protestos reivindicam a adopção de uma proposta de lei integral de combate à violência sexual contra crianças e mulheres. A Luísa Semedo também fala nesta lei integral na sua crónica. O que é esta lei integral que chegou a ser apresentada no final de 2025 por cerca de 100 deputados, mas que nunca foi analisada?

    “Esta lei integral implica vários tipos de vias para tratar esta questão da violência sexual contra as crianças e vai desde questões como a imprescritibilidade, ou seja, que não haja limite de tempo para apresentar queixa. Também aborda questões como a educação nas escolas: são as crianças que têm de ser educadas, mas também os futuros adultos, ou seja, a questão do que é que é a dominação sobre o corpo de outro, o que é o consentimento. São questões que implicam toda a gente e, portanto, também começa na educação. Isso é muito importante.

    É uma lei cujo objectivo é fazer com que cada vez que haja um destes casos que não seja considerado só como um ‘fait divers’, só como um caso pontual ou ‘um disfuncionamento’, como disse o [Emmanuel] Macron, mas que faz parte de um sistema. E esse sistema tem de ser combatido com esta lei integral que são 78 medidas e que são medidas para enfrentar este caso de frente, ou seja, com várias leis diferentes.”

    Nos protestos em frente ao Ministério da Justiça, em Paris, a polícia deteve Andréa Bescond, realizadora e autora de um livro (‘Les chatouilles ou la danse de la colère’) - que transformou em filme e em peça de teatro - sobre os abusos sexuais que ela própria sofreu quando era menor. Ela passou a noite na esquadra e denuncia uma detenção arbitrária. Como é que vê o que aconteceu e vai seguir o apelo dela de manifestar todas as segundas-feiras em frente aos tribunais de França até à Lei Integral de protecção das vítimas de abusos sexuais ser adoptada?

    “Sim, sem dúvida. Eu sempre que posso tento acompanhar este tipo de acções que me parecem absolutamente importantes e acho que é muito reconfortante até para as vítimas. Eu própria também sou uma sobrevivente, portanto, é sempre muito forte ver estas pessoas mobilizadas. Acho que nos toca a todas as pessoas que foram de alguma forma vítimas de violência e, portanto, sim, sem dúvida. O que aconteceu com a Andréa Bescond foi, de alguma forma, uma intimidação de uma das cabeças da manifestação, que foi acompanhada também, algumas horas antes, pela proibição da manifestação à frente do Ministério da Justiça. O Estado ou o governo dá com uma mão e tira com a outra, ou seja, há ali um discurso que é bastante ambíguo em relação à questão da violência e da violência sexual contra as crianças e contra as mulheres, que já dura há bastantes anos, não é só de agora.”

    No seu texto escreve “A lei tem um prazo. O trauma não”. O que pode fazer o Estado francês para ajudar as vítimas que vivem com o trauma e para evitar futuras agressões?

    “Sim, na Lei Integral também é pedido para que haja apoio para as vítimas para as questões do trauma. Muitas das vítimas vivem o que nós chamamos de stress pós-traumático e stress pós-traumático complexo também. É, por exemplo, o acesso a profissionais de saúde da psiquiatria, psicologia e medicamentos. Há todo um acompanhamento que é necessário quando se sofre de stress pós-traumático, por exemplo. É algo que é muito complicado ainda de ter em França. Isso é um dos pedidos também da Lei Integral.

    Parece-me absolutamente essencial também ver algo que acho que faz parte da Lei Integral, que é a forma como se ouvem as crianças. Ou seja, elas serem ouvidas de forma autónoma dos adultos que, por vezes, são as pessoas que as agridem e portanto, elas terem um local seguro para serem ouvidas, para serem escutadas, para serem levadas a sério.”

    Ou seja, é todo um dispositivo que muda completamente a forma como nós vemos até agora as vítimas. Por enquanto, os agressores parecem ser mais protegidos do que as vítimas e o objectivo é que esta estrutura mude completamente, ou seja, que o centro da preocupação sejam, de facto, as vítimas e não os agressores.”

    Depois do que aconteceu, o ministro da Justiça Gérald Darmanin anunciou, no domingo, que 70.000 processos envolvendo violência sexual contra menores deverão ser examinados antes de 14 de Julho. O jornal Libération diz que o poder Executivo francês reconhece erros, mas transfere a responsabilidade da tragédia para a Justiça. Que leitura faz? E é possível estes 70.000 processos serem analisados num mês?

    “Pois, somente não me parece possível, como me parece que o que for feito vai ser mal feito porque parece até humanamente impossível, tendo em conta que um dos problemas em França é justamente, em relação à União Europeia, a França ter menos meios, por exemplo, em procuradores do que no resto dos países. Ou seja, há um problema também de meios que não vêm directamente da culpa de magistrados ou dos serviços da Justiça. Vem do Estado em geral e dos meios que são dados a estas questões e das prioridades também que estão em cima da mesa. Por exemplo, a formação de polícias é algo que é importante e também não é feito.

    O que este caso está a revelar é, de facto, todas as insuficiências do Estado em relação a esta questão, que é uma questão que é multifactorial e que não é só uma questão de magistrados ou só uma questão de ir ver cada caso. Claro que é importante ver cada caso e acho muito bem que se faça, mas não com este lado um bocado de 'performance' com uma data, como se fosse uma espécie de concurso. Até acho indecente e de mau gosto porque há um lado de 'performance' que não tem nada a ver com a seriedade do tema.”

    Ouviram-se pedidos a exigir a demissão do Primeiro-Ministro francês, não só nas manifestações, mas também na Assembleia. Sébastien Lecornu rejeita deixar o cargo e aponta o dedo à Justiça, ainda que o governo francês seja acusado de ter feito cortes no sector. Ele propôs a possibilidade de uma pena de prisão perpétua para os violadores em série, contra os actuais 20 anos de prisão (para os que chegam a ser julgados) e disse querer que os inquéritos relativos a crimes contra menores sejam feitos em menos de três meses. Estas medidas chegam?

    “Estas medidas não chegam porque há medidas que já existem. O problema é que as medidas não estão a ser cumpridas. Se só há 3% dos casos de agressão que são punidos, não tem nada a ver com a pena ser maior ou mais pequena. O que é importante é que estas pessoas sejam punidas e é importante ouvir as vítimas. Muitas das vítimas dizem: ‘O que nós queremos, o que nos vai fazer ficar em sentir insegurança e sentir reconfortados é que não haja impunidade’. Não se está à espera que haja pena de morte ou castração, ou o que quer que seja de medida cada vez mais espectacular para dar uma impressão de que se está a fazer alguma coisa. Não é isso. O facto é que só 3% de casos de agressão sexual é que são punidos, portanto, a questão está aí e não está nos anos da pena do agressor.”

    É por isso que fala num “escândalo de Estado” em relação ao caso Lyhanna?

    “Sim, sim. É um escândalo de Estado porque mete a nu muitas deficiências do Estado, justamente a vários níveis, quer seja no nível judicial, na polícia, a nível das leis, a nível dos apoios sociais, dos apoios médicos, da educação, ou seja, como é que toda a estrutura está a falhar às pessoas que são vítimas. Portanto, é de facto um escândalo de Estado sim. A questão que aqui se coloca não é só o que aconteceu com Lyhanna, é o facto de ter havido, durante mais de dez anos, queixas contra este suspeito que nunca foram levadas a sério e ele nunca foi ouvido, o que é bastante impressionante. Imagine-se que alguém com este perfil nunca foi ouvido e alguém com o perfil de Andréa Bescond, que é uma sobrevivente, foi detida e passou toda a noite na prisão, enquanto um agressor com queixas há dez anos contra ele nunca foi sequer ouvido. Portanto, já se está aqui a ver o contraste entre como é que as pessoas vítimas e activistas são tratadas e os agressores são tratados.”

    Ou seja, como escreve no artigo, “não houve aqui só uma negligência pontual, nem um simples disfuncionamento, como afirmou o Presidente Macron”, é algo mais vasto?

    “Sim, sem dúvida é algo mais vasto. Nós estamos a falar de 3% de pessoas condenadas. Estamos a falar também que a cada três minutos há uma criança que é agredida sexualmente em França. Estes números são absolutamente abissais, por isso é que cada caso que aparece é só mesmo a ponta do iceberg. As pessoas que se estão a mobilizar sabem disso e querem que haja visibilidade sobre esta situação porque é uma situação que é absolutamente grave, que se passa muitas vezes dentro de casa ou muitas vezes com pessoas que são muito próximas. Não se trata de casos que se passam na rua, num canto escuro com um estranho ou um estrangeiro - como nos quer fazer acreditar a extrema-direita. Não. Passa, sim, dentro de casa. Passa-se na escola. É uma catástrofe e é, de facto, um escândalo. É um escândalo de Estado. É um escândalo da sociedade. Felizmente, há uma parte da sociedade que acordou para isto.”

    A Justiça e o Estado falharam?

    “Sim. Falharam a Justiça, o Estado, mas a sociedade em geral também está a falhar. Felizmente, o que se está a ver nas ruas é uma parte da sociedade a acordar e a mostrar que não vai deixar passar. Eu acho que o apelo de se juntar todas as segundas-feiras vai ao encontro disso, ou seja, é dizer NÃO, há uma parte da sociedade que não vai deixar passar. Isto foi a gota de água. O Estado falhou. A sociedade também ainda não está completamente consciencializada para o problema, mas há uma parte que está e que vai continuar a lutar.”

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