A edição de 2026 de Roland Garros fica para a história por duas razões distintas. No plano internacional, consagrou novos campeões e acelerou a renovação do ténis , com os primeiros títulos do Grand Slam de Alexander Zverev e Mirra Andreeva. Portugal confirmou a evolução do ténis português, que apresentou uma presença sem precedentes em Paris. Para Rui Machado, capitão da selecção nacional, o torneio prova que Portugal está hoje “no caminho certo”.
Quando Alexander Zverev ergueu o troféu de Roland Garros, este domingo, em Paris, fechou-se um dos capítulos mais longos do ténis. Durante anos, o alemão foi apontado como um dos jogadores mais talentosos da sua geração sem conseguir conquistar um título do Grand Slam. Aos 29 anos, a espera terminou finalmente.
Mas a consagração desportiva não encerrou todas as discussões em torno do novo campeão. Esta segunda-feira, o triunfo de Alexander Zverev continua a suscitar reacções e comentários relacionados com as acusações de violência doméstica que marcaram os últimos anos da sua carreira. Embora nunca tenha sido condenado pela justiça e rejeite todas as acusações, o caso continua a dividir opiniões no mundo do ténis, levando alguns observadores a questionar a forma como o circuito e as suas instituições lidam com este tipo de situações.
Na véspera, a russa Mirra Andreeva, de apenas 19 anos, tinha inscrito o seu nome na história ao tornar-se a campeã mais jovem do torneio desde Monica Seles. Dois vencedores que simbolizam momentos opostos de uma carreira: a recompensa da persistência e a explosão precoce do talento.
Mas para Portugal, o significado desta edição de Roland Garros ultrapassa largamente os nomes inscritos no quadro de honra. Entre quadros principais, qualificações e competições de pares, nunca tantos portugueses tinham marcado presença no torneio parisiense. Mais do que uma coincidência estatística, trata-se de um reflexo da evolução que o ténis nacional conheceu ao longo da última década.
"Foi uma participação histórica. Confirma aquilo que é o trabalho que temos vindo a fazer nos últimos anos", afirma Rui Machado, capitão da selecção portuguesa. O antigo tenista fala de um processo que começou muito antes dos resultados agora visíveis. "Esta evolução do ténis demora muito tempo, muitos anos. Por exemplo, o Henrique ou o Jaime já integram o Centro de Alto Rendimento há sete anos. É um trabalho que já vem de há muitos anos e agora confirma-se."
Os resultados obtidos em Paris ajudam a explicar o optimismo. Nuno Borges voltou a afirmar-se como a principal referência nacional no circuito ATP. Jaime Faria alcançou a terceira ronda e assinou a melhor campanha da carreira num torneio do Grand Slam. Henrique Rocha confirmou o crescimento sustentado que vinha demonstrando nos últimos anos. Francisco Cabral chegou a Roland Garros como cabeça-de-série no torneio de pares, um feito raro para um tenista português.
Mas para Rui Machado, o mais importante não está apenas nos resultados individuais. Está na origem destes jogadores. "Estou muito contente porque temos jogadores a jogar ao mais alto nível, temos muitos jogadores, uma participação histórica e jogadores que treinam em Portugal, feitos em Portugal. Isso é um motivo de orgulho para o ténis português."
A expressão surge quase como uma declaração de princípios. Feitos em Portugal. Porque, segundo o capitão da selecção, essa é precisamente a grande mudança que distingue a actual geração das anteriores. Durante décadas, os melhores jogadores portugueses procuraram no estrangeiro aquilo que Portugal ainda não conseguia oferecer. Rui Machado construiu grande parte da sua carreira em Espanha. Gastão Elias passou pelos Estados Unidos. Michelle Brito também encontrou fora de Portugal uma parte importante da sua formação. Para competir ao mais alto nível era necessário procurar outros métodos, outros contextos de treino, outras estruturas.
Hoje, a realidade é diferente. "Se há uns anos atrás, na minha geração, a maioria dos jogadores portugueses tinham sido formados muito no estrangeiro, como eu em Espanha, ou o Gastão Elias nos Estados Unidos, nós fomos à procura desse nível e desse método. Hoje em dia temos os jogadores a treinar em Portugal e a formarem-se em Portugal. Essa é a grande diferença."
A mudança é profunda porque não diz respeito apenas a um ou dois atletas de excepção. Diz respeito à capacidade do sistema produzir jogadores de forma consistente. "Estamos a produzir jogadores, estamos a trabalhar bem, temos método e estamos a trabalhar ao nível dos melhores do mundo. Isso deixa-nos confiantes para o futuro."
Ainda assim, Rui Machado evita qualquer discurso triunfalista. O ténis continua a ser uma modalidade extremamente competitiva, onde as margens são mínimas e a evolução permanente. "O ténis está sempre a evoluir e cada vez é mais desafiante, mais exigente e mais profissional. Acho que nós demos um salto nos últimos anos na qualidade do nosso trabalho em Portugal. No entanto, é sempre um desafio."
É por isso que vê Roland Garros não como um ponto de chegada, mas como uma confirmação de que o caminho escolhido está correcto. "Este Roland Garros revela que estamos no caminho certo, mas que temos de continuar a trabalhar."
A análise estende-se também ao sector feminino, onde os progressos são evidentes mas onde os desafios continuam a ser maiores. Francisca Jorge e Matilde Jorge alcançaram vitórias históricas em provas do Grand Slam, mas Portugal continua sem uma representante no quadro principal feminino de Roland Garros.
Para Rui Machado, não existem atalhos. "Eu não acredito muito em grandes milagres. Eu acredito na consistência do trabalho." Na sua opinião, a principal prioridade passa por alargar a base competitiva. "Em Portugal ainda nos falta um bocadinho uma base maior, sobretudo no ténis feminino, para que possamos escolher mais e para que o nosso nível médio seja um bocadinho superior. Depois os melhores sobressaem um bocadinho mais."
Apesar disso, vê razões para acreditar que a situação poderá mudar nos próximos anos. "Tenho esperanças que tanto a Matilde, a Francisca ou a Angelina Voloshchuk possam vir a integrar um quadro principal. Mas eu olho para isto com uma perspectiva mais alargada. Historicamente nunca tivemos muitas jogadoras profissionais ao mesmo tempo. Não estamos ainda nessa fase, mas eu também quero sempre mais e acho que precisamos de ter mais jogadoras."
Enquanto Portugal procura consolidar a sua posição no panorama internacional, Roland Garros 2026 ficou igualmente marcado pela renovação do próprio circuito mundial. A ausência de Carlos Alcaraz, campeão das duas últimas edições, abriu espaço a um torneio mais imprevisível e a novos protagonistas.
Para Rui Machado, a vitória de Alexander Zverev não constituiu propriamente uma surpresa. "Para quem está dentro do mundo do ténis e segue de perto o circuito, nós sabemos bem o valor do Alexander Zverev e sabemos da sua qualidade."
Durante anos, o alemão viveu com o peso de uma ausência no currículo. Um dos melhores jogadores do mundo sem um Grand Slam. Um rótulo que, na opinião do capitão português, nem sempre fez justiça ao percurso construído pelo alemão. "Se calhar injustamente foi sendo classificado por nunca ter ganho um Grand Slam, mas a verdade é que está no top cinco desde que eu me lembro."
Por isso, a conquista em Paris foi recebida quase como uma inevitabilidade tardia. "A comunidade do ténis é um pouco unânime. É um título já bastante merecido. Revela aquilo que quem anda no ténis sabe bem: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Tem todo o mérito de ter continuado a perseguir esse sonho. É um título merecido e que já era esperado há muito tempo por muita gente."
No torneio feminino, a figura emergente foi Mirra Andreeva. Aos 19 anos, a russa conquistou o primeiro Grand Slam da carreira e reforçou a sensação de que poderá marcar a próxima década do ténis feminino. Rui Machado acompanha a sua evolução há vários anos e identifica uma característica que considera decisiva. "O que eu mais destaco é a sua maturidade e a sua capacidade mental em focar-se em evoluir."
Mais do que o talento técnico, é a forma como encara o crescimento pessoal e profissional que impressiona o antigo tenista. "Gosto muito de ouvir algumas conferências de imprensa dela. A abordagem que faz da evolução, não só profissional mas também pessoal, demonstra muito aquilo que tem sido o processo de trabalho dela e explica porque está a evoluir tanto nos últimos anos."
Para Rui Machado, essa capacidade de auto-análise é precisamente uma das características que distinguem os maiores campeões. "Os grandes campeões normalmente têm uma coisa em comum: são capazes de olhar para as suas coisas menos boas, enfrentá-las e melhorá-las sem problema nenhum. Acho que é isso que ela também tenta fazer e que lhe tem dado grande resultado."