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  • AKAA em Paris: memória e representação atravessam a arte africana

    Da matéria vulcânica de Cabo Verde aos arquivos coloniais de Moçambique, passando pelas mulheres africanas apagadas da fotografia europeia e pela crítica política de Nu Barreto, a 11.ª edição da AKAA reúne em Paris obras que interrogam memória, identidade e poder. A feira de arte contemporânea e design africano decorre de 23 a 25 de Outubro no Carreau du Temple, em Paris.

    Para Amadeu Carvalho, estrear-se na AKAA é também levar Cabo Verde para fora do arquipélago. Na série "Retratos da ausência", o artista cabo-verdiano trabalha com pigmentos produzidos a partir de matéria vulcânica recolhida nas ilhas, num processo em que a matéria se cruza com a memória, a identidade e a experiência da diáspora. "É trazer as minhas memórias, trazer um pedaço de Cabo Verde para outros públicos", explica. A distância tornou-se, para o artista, uma forma de aproximação: "Para ver a ilha tens de estar fora da ilha." E a própria criação assumiu uma dimensão íntima: "É um processo de cura."

    Os rostos que Amadeu Carvalho pinta transportam essa relação entre presença e ausência. Em "Sentinela do Fogo", a forma remete para o vulcão da ilha do Fogo e a figura surge como um guarda: observa, protege, mas lembra também que "a qualquer momento as coisas podem mudar". O olhar atravessa toda a série e não é construído a partir de uma narrativa previamente fechada. "A pintura é uma descoberta", diz o artista. A última camada de pigmento vulcânico acaba frequentemente por definir a expressão final da obra. E, quando o quadro sai do atelier, deixa também de pertencer inteiramente a quem o criou. "A obra deve ser terminada pela pessoa que a vê", defende.

    Essa procura pela representação tem uma dimensão particularmente pessoal quando Amadeu Carvalho fala das mulheres. Cresceu, conta, "numa casa cheia de mulheres" e considera que "elas são o coração de Cabo Verde". Mas a questão ultrapassa a sua própria obra. O artista defende que chegou o momento de retirar rótulos e fazer com que artistas africanos ocupem os grandes museus pelo valor do trabalho que produzem. Recorda uma visita a um museu com a filha, que lhe disse não se sentir representada. "Os nossos filhos querem ver essas obras", sublinha.

    Também de Moçambique chega uma reflexão sobre ausência e memória. A galeria Arte de Gema, de Maputo, escolheu a AKAA para apresentar dois artistas emergentes, Mulalene e Thandi Pinto. Élia Gemuce explica que a participação em feiras internacionais responde a uma necessidade concreta, "temos um panorama artístico bastante rico, mas que carece de mais visibilidade." No trabalho de Mulalene, uma planta, a polyscia, torna-se depósito de memória familiar. Depois de o corpo do avô ter sido trasladado do quintal da família para um cemitério municipal distante, a planta ocupou simbolicamente o seu lugar e passou a acompanhar fotografias e momentos de várias gerações.

    Thandi Pinto parte, por sua vez, dos arquivos coloniais dos países de língua portuguesa. Não pretende rejeitá-los, explica Élia Gemuce, mas "questionar e trazer outras narrativas". A artista apropria-se de fotografias históricas, intervém sobre elas e altera os códigos através dos quais foram arquivadas e interpretadas. Numa imagem de uma equipa de futebol composta por portugueses em Moçambique, substitui os rostos por máscaras mapiko e introduz elementos de identidade moçambicana. Noutras obras, parte do que o arquivo deixou por explicar, quem eram aquelas pessoas, por que razão foram fotografadas e que conhecimento se perdeu quando ficaram reduzidas a uma legenda institucional. É um exercício de "reescrever a história", resgatar o material e voltar a interrogá-lo fora do olhar que originalmente o classificou.

    O arquivo e a ausência atravessam igualmente "BLOOM", projecto da artista neerlandesa Dagmar van Weeghel apresentado pela galeria portuguesa This Is Not a White Cube. A galerista Sónia Ribeiro descreve um trabalho centrado nas mulheres negras que ficaram ausentes das instituições e das narrativas visuais do século XIX. Dagmar Van Weeghel recupera técnicas fotográficas antigas, cartas de visita, objectos, vestuário e flores para colocar mulheres da diáspora africana de hoje em diálogo com figuras esquecidas do passado. O contraste entre imagens concebidas para durar e outras destinadas a desaparecer torna-se, ele próprio, uma pergunta sobre a memória, quem decide o que permanece e o que é esquecido?

    Para Sónia Ribeiro, o debate sobre a representação africana já não pode limitar-se à presença de corpos negros nas imagens. Está em causa quem produz as narrativas, quem lhes dá espaço e de que forma histórias apagadas regressam ao presente. No caso de Dagmar Van Weeghel, a artista não se coloca no lugar das mulheres retratadas, mas dá-lhes palco para que tragam as próprias experiências de diáspora, migração e racismo. "Há a questão do arquivo, da memória, da identidade."

    Se memória e arquivo dominam parte da feira, Nú Barreto leva à AKAA uma leitura directamente política do presente. O artista guineense apresenta duas obras de uma série dedicada aos Estados Unidos, recorrendo à bandeira norte-americana, invertida, e a estrelas que parecem cair. "Será que ainda permanece a União?", pergunta. Nú Barreto diz olhar para o país a partir de fora e traduzir nas obras uma "decepção" perante o que considera ser a transformação política provocada pela ideologia MAGA. A imagem da queda é deliberada, "os valores estão a cair por completo", afirma.

    Nú Barreto reivindica para o artista essa capacidade de interrogar o poder. "Os artistas foram sempre e continuam a ser críticos", afirma, antes de resumir uma relação que considera inseparável, "a arte é política. A política é arte também." E, tal como Amadeu Carvalho, reclama mais espaço para os criadores africanos, mas rejeita que a visibilidade seja tratada apenas como uma concessão. "É necessário que o continente saiba e aceite o valor que tem e espelhe o valor que tem na sua promoção." Entre pigmentos vulcânicos, fotografias coloniais, memórias familiares e bandeiras invertidas, a AKAA mostra uma criação africana que não procura apenas ocupar espaço, procura também discutir quem constrói a memória, quem representa quem e a partir de que lugar se conta o presente.

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  • Amílcar Cabral em Paris: a liberdade para além da independência

    A Casa dos Mundos Africanos, MansA, em Paris, abriu esta sexta-feira, 16 de Outubro, uma exposição dedicada a Amílcar Cabral. Nove artistas revisitam o legado do líder independentista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, 53 anos depois do seu assassínio. Entre a memória colonial e os desafios do presente, Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical interroga o papel da cultura, da identidade e do conhecimento na construção da liberdade.

    Há 53 anos, Amílcar Cabral foi assassinado em Conacri, antes de ver a independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. O seu pensamento continua a atravessar gerações e fronteiras. É esse legado que a exposição Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical, inaugurada esta sexta-feira, 16 de Outubro, na Casa dos Mundos Africanos (MansA), em Paris, procura revisitar. A exposição foi criada pelas duas comissárias Armelle Dakouo e Ângela Benoliel Coutinho, a partir de uma ideia original de Paula Nascimento, e reúne trabalhos de nove artistas que estabelecem um diálogo entre a história das lutas anticoloniais e as questões contemporâneas da soberania, da identidade e da emancipação.

    "Cabral já não pertence aos guineenses, Cabral não pertence aos cabo-verdianos, Cabral pertence à esfera universal", afirma o artista plástico guineense Nú Barreto. Na obra Nha história, o artista questiona as fronteiras da identidade de Cabral, filho de pai cabo-verdiano e mãe guineense, cuja trajectória esteve ligada ao destino dos dois países. "É a ideia de falar de um homem com um pé de um lado, outro pé do outro, mas que, no fundo, está preso dentro de uma história comum da Guiné e de Cabo Verde." Para Nú Barreto, essa herança ultrapassa a dimensão política. A arte pode também intervir onde a política falha, absorvendo as contradições de uma sociedade e encontrando outras formas de as interpretar.

    Mas quem era Cabral para além do revolucionário? Ângela Benoliel Coutinho, historiadora e co-comissária da exposição, encontra uma resposta nos testemunhos de quem o conheceu. "Uma marca que está quase sempre presente nesses relatos é a sensibilidade do homem, o humanismo, o respeito pelo ser humano." Para Amílcar Cabral, a libertação nacional não significava apenas a conquista da independência política, mas a dignificação das populações. A historiadora recorda que o dirigente fazia questão de explicar aos combatentes que a luta não era contra o povo português, mas contra um sistema colonial que oprimia também os portugueses. "Pôs o ser humano, as comunidades humanas, no centro da sua acção, da sua reflexão, da sua análise", descreve.

    Essa dimensão cultural e política atravessa a série fotográfica Cabral ka morre, de Diogo Bento. Desenvolvido entre 2010 e 2012, o projecto nasceu de uma reflexão sobre o lugar de Cabral na memória portuguesa e sobre o contributo das lutas de libertação africanas para o 25 de Abril. O fotógrafo procurou vestígios dessa presença nos arquivos de Lisboa, nas comunidades cabo-verdianas e, posteriormente, em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. Encontrou-os na arquitectura, na paisagem, na música e nas pessoas. "Não queria trazer respostas, queria trazer mais perguntas, mais questionamentos", explica. Para Diogo Bento, uma das funções da exposição é precisamente "manter o pensamento de Cabral actual e trazer esse debate para a sociedade contemporânea".

    A relação entre cultura, identidade e liberdade ocupa também o trabalho do artista cabo-verdiano Yuran Henrique, que procura questionar as formas dominantes de produção de conhecimento. "Criar arte contemporânea em Cabo Verde é criar no deserto", afirma, referindo-se à escassez de estruturas de formação e apoio à criação artística no arquipélago. Para o artista, revisitar Cabral significa recuperar a capacidade de uma sociedade reconhecer os seus próprios saberes e construir o futuro a partir deles. Às novas gerações, considera que o pensamento de Cabral deixa uma mensagem: "Acreditar na engenhosidade, acreditar na cultura, na tua identidade e no conhecimento, mas próprio, próprio teu, que é teu."

    As obras de Nú Barreto, Diogo Bento, Filipa César, Mónica de Miranda, Bento Oliveira, Hamedine Kane, Yuran Henrique, Sónia Vaz Borges e Sarah Maldoror compõem um percurso que cruza fotografia, desenho, vídeo, instalações e trabalhos têxteis. A exposição não procura apenas ilustrar o pensamento de Cabral, mas confrontá-lo com novas leituras sobre pertença, resistência cultural e memória colectiva. O percurso inclui ainda filmes de Sarah Maldoror, cineasta ligada aos movimentos de libertação africanos, e uma paisagem sonora concebida pelo músico Rocé, com arquivos e composições associados às lutas pela independência. A proposta é mostrar como a cultura pode preservar a memória, mas também questionar as narrativas estabelecidas.

    Para Liz Gomis, directora-geral da Casa dos Mundos Africanos, MansA, a actualidade de Cabral revela-se nas questões da educação, da emancipação das mulheres e da capacidade de cada pessoa decidir o próprio destino. Mas há uma dimensão menos conhecida do dirigente que considera essencial recuperar: a do homem que escrevia cartas e poesia. "É preciso ler a poesia de Cabral nas suas cartas. Nessa poesia, há uma forma de amor e de emoção pelo seu povo. Sentia-se que era genuíno. Não fingia, nem na luta armada, nem no seu humanismo". A coerência entre pensamento e acção ajuda, na sua perspectiva, a compreender a dimensão humanista de uma figura frequentemente reduzida ao papel de estratega político e militar.

    Amílcar Cabral: Por um Humanismo Radical está patente na Casa dos Mundos Africanos, em Paris, até 13 de Dezembro de 2026. Porque, para Cabral, libertar um território não bastava. Era preciso criar condições para que as pessoas pudessem decidir o próprio futuro.

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  • Visita do Papa ajuda a que religião católica deixe de ser tabú para os jovens em França

    Nos últimos cinco anos, os jovens adultos e adolescentes têm procurado a Igreja Católica, com um grande número de conversões. Na missa desta tarde, nos Campos Elísios, a RFI falou com vários lusófonos instalado em França que dão conta disso mesmo. No seu discurso, o Papa Leão XIV também não esqueceu as famílias, os jovens e os recém-convertidos.

    Mais de 500 mil pessoas reúnem-se hoje na Praça Concorde e nos Campos Elísios, em Paris, para assistir a uma missa do Papa Leão XIV. Entre os milhares de pessoas que tentavam encontrar o seu lugar na que é considerada a Avenida mais bonita do Mundo, vários lusófonos marcaram presença com bandeiras de Portugal, Cabo Verde ou Brasil.

    Sandra, também conhecida por Betty, e Adalberto, o seu marido, são cabo-verdianos há mais de 20 anos instalados em França e neste dia especial para os católico, não poderiam ter ficado em casa.

    "Não podia poderíamos ficar em casa. Viemos aqui para para ver o nosso Papa Leão XIV. Eu sou uma pessoa muito crente, então eu tinha que estar aqui desde já para para chegar aqui foi complicado, não tinha o transporte. Saímos de casa às 05h00 para aqui chegar. A minha presença era indispensável. Eu sentia que o Espirito Santo estava comigo. O metro estava muito, muito cheio mesmo, nem dava para respirar. Uma coisa tremenda", explicou.

    Os transportes, completamente condicionados à volta dos Campos Elísios, e o forte sistema de segurança instalado à volta da avenida também não desencorajam o português César, a mulher e os filhos a virem até cá para assistir à missa e cumprir um sonho.

    "Foi uma oportunidade única, já que moramos aqui perto. Aproveitamos para vir ver o Papa, que era uma coisa que que queria, um dia ir a Roma, ir ao Vaticano, um dia ver uma missa lá também. Era um sonho", descreveu o português.

    A vinda do Papa Leão XIV acontece numa altura em que a França se tem vindo a destacar pelo aumento do número de baptizados entre os jovens adultos, um aumento de 28% só em 2026, um fenómeno que despertou o interesse do Papa e que faz com que a França seja vista pela Igreja Católica como um género de laboratório para o renascimento da fé na Europa. Natália está a ver este interesse renovado pela fé na sua casa, nos arredores de Paris, com a filha Clara, de 22 anos, que está prestes a baptizar-se

    "Venho até aqui pela minha filha, que vai fazer agora o baptizado este ano. Eu fui baptizada, claro. Em Portugal até. E eu nunca obriguei a minha filha a fazer esse processo até ao catolicismo. Eu tenho outro filho, tenho 27 anos e ele quer casar pela Igreja também. E ele não foi baptizado também. E então ele começou a fazer o processo e a minha filha aproveitou e decidiu ela também de dfazer o baptizado. São os dois. Eu estou a ver que muitas jovens estão a fazer esse processo de baptimo e aproximar da religião e acho bem", explicou Natália.

    Timothée, um voluntário francês nos Campos Elíseos constata na sua paróquia esta realidade.

    "Entre os meus amigos, eu apercebo-me cada vez mais de uma abertura de espírito. Não sei se isso se deve, digamos, à mudança com a idade, a tornarmo-nos adultos, mas na minha paróquia, sim, vemos que há muito mais pessoas, principalmente jovens, alunos do ensino básico e secundário, que não têm vergonha de vir à missa e de se sentar na primeira fila na igreja para descobrir o que é uma missa, para conhecer a igreja, e eles não hesitam em fazer perguntas. E isso, tenho a impressão de que é algo relativamente novo", detalhou.

    Para Sandra, uma crente brasileita instalada na primeira fila para ver o Papa a passar, a vinda de Leão XIV vai servir exactamente para aproximar os jovens novamente da Igreja.

    "Eu acho que o Papa é muito humano. Ele é uma pessoa que quer diversificar um pouco a Igreja. No meu ponto de vista, como leiga que eu sou, eu acho que uma coisa extraordinária o que ele está fazendo é tentar trazer os jovens de volta para a Igreja Católica. Eu, como mãe de uma adolescente de 15 anos, eu sei a importância de ter filhos dentro da igreja. Eu cresci e os meus pais eram católicos, meus avós católicos, em uma família católica. Eu estou aqui hoje com parte da minha família, tias, filha, primas, irmã. E eu sei a importância de estar dentro de uma igreja para crescer e ter prioridades na vida e ter um discernimento para seguir a vida de uma maneira linda. Eu acho que a França, com a laicidade que ela tem hoje, os jovens estão mais dispersos. Pode ser que eu esteja errada, mas eles estão mais dispersos", constatou.

    Talvez reflexo deste interesse renovado pela Igreja Católica em França, ou da força que esta religião ainda tem no país - em 1960 cerca de 85% da população dizia-se católica e agora apenas 46% se identificam como tal - os bilhetes para esta missa esgotaram em pouco tempo. Mas a organização assegura que tudo vai correr bem.

    "Quanto à organização, pelo menos no que diz respeito à coordenação dos voluntários, tudo correu muito bem: a comunicação foi excelente, tudo fluiu perfeitamente, não houve nenhum problema. E, no que diz respeito às pessoas, sim, a maioria delas segue as nossas recomendações sem dificuldade, e isso é bastante agradável. O clima é bom, todo a gente está feliz por estar aqui e a única preocupação que as pessoas têm é: vamos ver o papa? Vamos ver o papamóvel? E isso podemos garantir que vai acontecer. Então, todo a gente está feliz", afirmou Timothée.

    Felicidade, emoção e devoção são as palavras de ordem nos Campos Elíseos.

    "Eu vou chorar muito, porque eu tenho muita honra de estar aqui pela minha mãe, que está no Brasil. E eu estou trazendo um pouquinho do coração dela aqui hoje, porque eu cresci vendo a minha mãe ser católica e eu tenho orgulho imenso de ser católica. E eu acho que ver os meus pais, meus avós, minha família, toda a nossa fé e Nossa Senhora sabe quando a gente a gente precisa de algo, a gente fala Senhora, interceda a seu filho para nos ajudar. Isso me dá muito orgulho de ser católica", acrescentou Sandra, originária de Goiânia e instalada em frança há 10 anos.

    Na sua homília, o Papa Leão XIV não esqueceu as famílias, os jovens e sobretudo aqueles que se estão a proximar agora da Igreja Católica.

    "A partir desta belíssima cidade de Paris, rezo com fervor para que a água viva do Espírito Santo se derrame sobre toda a França. Penso em vós, caras famílias, que, apesar das múltiplas dificuldades que enfrentais no dia a dia, perseverais com coragem na vossa missão. Agradeço-vos do fundo do coração por todo o bem que se realiza através de vós: que Jesus esteja sempre concretamente presente no meio de vós. Penso também em vós, caros jovens: vós sois a Igreja de hoje. Como é belo ver o vosso entusiasmo, o vosso dinamismo, o vosso compromisso e a alegria no seio das comunidades cristãs. Penso igualmente em vós, caros catecúmenos e neófitos que empreendeis o caminho da fé, da conversão e da iniciação cristã. Que possais testemunhar a outros ao vosso redor a caminhada que estais a viver e motivá-los a questionarem-se também. Que o dom do Espírito Santo faça de vós testemunhas vivas, prontas a espalhar ao vosso redor a civilização do amor", declarou o Papa.

    O Papa seguiu após esta missa para Lourdes e depois, na segunda-feira, estará em Metz.

    7 min
  • Bienal de Luanda quer mostrar potencial da água para "aproximar" povos em África

    A água é vida, mas é também a origem de muitos conflitos entre diferentes povos ao longo da História. A Bienal de Luanda, que decorre este ano nos dias 22 e 23 de Outubro na capital angolana, quer mostrar as potencialidades da água para aproximar os povos e não para os afastar, tornando-a uma fonte de prevenção de conflitos, como explicou à RFI Ana Elisa Santana Afonso, que lidera este encontro de alto nível apoiado pela UNESCO.

     

    A 4ª edição da Bienal de Luanda, Fórum Pan-Africano para uma Cultura de Paz e Não Violência, decorre na capital angolana nos dias 22 e 23 de Outubro e, desta vez, a temática central é a água. A água é fonte de vida, mas é também uma razão cada vez mais frequente de conflitos um pouco por todo o Mundo, já que, devido às alterações climáticas, se está a tornar num bem escasso e cada vez mais precioso.

    A temática deste encontro entre políticos, associações da sociedade civil e jovens, com o apoio da UNESCO, alinha-se também com a agenda da União Africana, que declarou 2026 como o ano de assegurar o acesso sustentável à água. Ana Elisa Santana Afonso é a coordenadora internacional da Bienal de Luanda, tendo uma longa carreira na UNESCO. Como funcionária desta organização, passou pela Etiópia, Camarões e ainda pela República do Congo. A partir da sua experiência e do seu investimento na educação, Ana Elisa Santana Afonso observa a paz como uma construção colectiva.

    "A declaração de Yamoussoukro diz qualquer coisa que é muito importante, que é que a paz é o nosso bem mais precioso. É o respeito pela vida, e a paz é um comportamento. Eu acho que é nesta questão de que a paz é um comportamento que a UNESCO tem todo o seu lugar. Portanto, este comportamento molda-se, aprende-se, exercita-se no dia-a-dia. Eu tenho esta tendência de olhar muito para a sala de aulas, de olhar muito para o espaço de alfabetização e de educação. A cidade que aprende todos os dias. Portanto, este envolvimento de todos os actores sociais nesta transformação da mentalidade. E, uma vez mais, refiro-me ao acto constitutivo da UNESCO, que diz que é na mente dos homens que nasce a violência, a guerra. E é trabalhando nessa mente dos homens que se podem encontrar as raízes dessa paz, de uma paz consigo próprio, de paz dentro da comunidade. Paz com a natureza", detalhou a líder da Bienal de Luanda.

    A Bienal de Luanda vai este ano abordar o tema da água na perspectiva de "fortificar a boa governação da água como uma ferramenta para fortificar a prevenção, mediação e resolução de conflitos". Segundo a Organização Mundial de Saúde e a UNICEF, uma em cada quatro pessoas no Mundo não tem acesso a água potável; com a escassez de água a aumentar devido às alterações climáticas, é provável que estes números aumentem.

    Esta escassez é já motor de muitos conflitos em África e no Mundo, já que a água se está a tornar numa matéria preciosa, como se pode ver nos conflitos entre o Egipto e a Etiópia em relação ao Nilo, mas também nas tensões na Nigéria pelo acesso a terras férteis. Por outro lado, o excesso de água, como as grandes cheias cada vez mais frequentes em países como Moçambique, leva ao deslocamento das populações e aumenta a propensão para doenças contagiosas e infecciosas.

    Assim, se a água é fonte de conflitos, deve também ser fonte da resolução dos mesmos, reforçou Ana Elisa Santana Afonso.

    "A água tem esta propensão de poder gerar conflitos. Mas foi através da água, através dos rios, que houve a circulação, a circulação de povos, a circulação de mercadorias, a circulação de ideias. A circulação de culturas. Foi através da água que se aprendeu. Também a água contribuiu para a interculturalidade. Portanto, pode-se olhar para a água como um potencial de gerar conflitos, mas pode-se olhar para a água também como um potencial meio de aproximar os homens e as mulheres. E tudo depende da forma como olhamos. Da forma como trabalhamos ao nível da educação, ao nível da comunicação, de forma a prevenir, mais do que resolver os conflitos. O que queremos é preveni-los", explicou a antiga funcionária da UNESCO.

    Do encontro em Angola devem sair linhas claras sobre a gestão da água em África, mas também maior cooperação com investigadores, passando ainda por um apoio reforçado da UNESCO.

    10 min
  • Mário Lúcio: “Temos de passar para uma gestão feminina do planeta, o patriarcado já esgotou.”

    Cinquenta anos após a independência de Cabo Verde e das restantes ex-colónias portuguesas, o escritor, músico, cantor e ex-ministro da Cultura do arquipélago, Mário Lúcio, lançou duas obras que constituem testemunhos marcantes : O livro Afrocalipse e o disco Independance.

    Afrocalispse é o romance onde Mário Lúcio se inspira em figuras e regimes autoritários reais do continente africano e constrói uma sátira política destemida.

    Com ironia e algum humor, no espaço de um país africano fictício, Mário Lúcio explora os absurdos, a cleptocracia e a insanidade do poder ditatorial na África pós-colonial.  O autor  responsabiliza abertamente os próprios líderes e sociedades do continente africano pelo desgoverno grosseiro, pelas desgraças sociais e pela ruina dos Direitos Humanos.

    No mais recente registo musical de Mário Lúcio é onde se celebra a independência, o grande momento de transformação na África lusófona.

    Em Independance, o artista defensor da crioulização gera um ambiente festivo  composto por universos sonoros que relembram o período de conquista da independência. Enuncia danças e ritmos até então proibidos pelo colono e a abertura do país à música de Angola, Guiné, Nigéria, Congo, Senegal e Gana

    Para gravar e dar a ouvir o disco Independance ao vivo, Mário Lúcio criou a The Pan African Band, formada por Jery Bidan, da Guiné-Bissau, na guitarra; Ricardo Campos, de Angola, no baixo; e Dilson Groove, do Congo, na bateria.

    Mário Lúcio passou por Portugal com a The Pan African Band para ser cabeça de cartaz no Festival MED, em Loulé,no Algarve, e conquistou o público de forma arrebatadora.

    Antes de subir ao palco principal do Festival MED, a RFI esteve no camarim de Mário Lúcio para uma entrevista. Uma conversa onde, entre outros temas, nos fala do livro Afrocalipse, do papel do escritor, da internet, da necessidade de um pensamento crítico, do machismo destruidor e da esperança na mulher, da Inteligência Artificial, da arte no futebol, da prestação de Cabo Verde no Mundial de Futebol e, é claro, do disco Independance.

    Mário Lúcio: No ano passado, gravámos um disco em celebração aos 50 anos da independência de Cabo Verde. Esse disco se chama Independance  porque a nossa memória da independência, eu era criança, foi marcada pela chegada das músicas do continente. Música da Nigéria, do Senegal, Guiné-Conakry, Congo, por aí. E foi uma surpresa. Dançámos muito e incorporámos essas músicas na nossa música e hoje a nossa música tem todas essas músicas. Esse disco vai recuperar essas memórias, essas sonoridades. E são os mesmos músicos que gravaram, que também tocam comigo em palco. A The Pan-African Band, o Jerry, da Guiné-Bissau, o Ricardo, de Angola, e o Dilson, do Congo.

    RFI: O albúm Independance foi lançado em 2025. Como é que tem estado a ser recebido pelos palcos por onde passou até agora?

    Foi o disco da celebração em Cabo Verde, a música Independance. Foi tomada como a música da celebração e o clipe é muito bonito. O clipe foi também um pouco o lembrar, o reconstituir aqueles dias. Na Europa, pelos palcos onde tenho passado, foi uma surpresa, porque conheceram-me mais acústico, mais como trovador e agora venho com a dança do continente. Então, tem sido uma grande surpresa as pessoas poderem dizer: bom, já desfrutámos muito em casa, mas agora estamos a desfrutar de ti nos bailes. É outro ambiente. Eu também gosto, porque eu toquei muito nos bailes, foi como eu comecei aos 15 anos. E agora, digamos que é um ambiente onde eu me sinto muito à vontade. Até apoiado por uma banda, eu me sinto um pouco mais liberto do que quando é o acústico, que é muito mais sensível.

    Se eu me lembro bem, houve uma entrevista onde o Mário Lúcio fazia referência precisamente a esses bailes que começariam às oito da noite e iam até às cinco, seis da madrugada.

    Como é que era, nessa altura, aguentar tudo isso e como é que é agora com este Independance?

    Eu. quando vou ensaiar, ensaio sempre de pé, para ter essa energia e sentir o tempo. Mas eu me habituei. Com 15 anos, comecei com viola ritmo. Era uma guitarra elétrica Gibson, que devia pesar os seus oito ou dez quilos. E depois fui baixista. O baixo era o instrumento mais pesado.

    Nós começávamos a tocar nos bailes às oito da noite, que já era relativamente tarde. Naquela época, íamos tocar em lugares que não tinham eletricidade e tinham que ser com motores. E nós carregávamos os nossos próprios instrumentos em caminhões.

    Eram colunas e amplificadores Peavey muito pesados. Então, tocávamos até às onze e fazíamos um intervalo, três horas seguidas. E depois o intervalo era no máximo de 15 minutos, senão o baile acabava.

    Tocávamos dessa hora, mais ou menos, até as duas e meia, três da manhã. E depois fazíamos das três às cinco. Às vezes fazíamos quatro intervalos, duas em duas horas, uma coisa assim.

    E tínhamos repertório com 80 músicas ou mais, porque devíamos tocar as músicas que estavam da moda, mas também ficar atento a cada lugar, cada público gostava de um género de música ( de uma música). E, às vezes, tínhamos que repetir essa música três ou quatro vezes na noite. Era uma festa.

    Então, hoje, tocar uma hora, uma hora e quinze, para mim...  . O cansaço é mais espiritual, no sentido de toda a concentração, tudo o que se dá, tudo o que se recebe. E depois precisamos de descer ao chão. Então, é um êxtase, como se estivéssemos a fazer uma maratona de 60 ou 80 quilómetros.

    Mas, de resto, o cansaço físico não sinto, porque a guitarra é mais leve. Eu já estou habituado a essas andanças também.

    Mário Lúcio, o disco Independance, como o referiu, é uma celebração dos 50 anos de independência. Numa outra faceta, num outro manifestar artístico do Mário Lúcio, a escrita. foi editado recentemente o livro Afrocalipse. Um livro que aponta num sentido contrário, ou pelo menos sugere uma outra maneira de olhar para a África não tão festiva.

    Nós, os africanos, olhamos para a África no seu todo. Só assim podemos construí-la.

    Olhamos para a África com o seu passado doloroso, de escravidão, de escravatura. Olhamos para a África com o seu passado doloroso, da colonização. Também olhamos para o épico que foram as lutas para a independência e depois o pós-independência.

    Então, este é um romance que olha para o pós-independência e olha o que aconteceu. Há países que tiveram sucesso, como é o caso do Cabo Verde, e há países em que não se esperava que essas coisas acontecessem, que se desrespeitassem os direitos humanos, que houvesse genocídios, que houvesse tanta corrupção, roubo e tanta miséria. Em alguns casos, miséria tão grave ou pior do que acontecia durante a colonização.

    Então, é o papel do escritor, do romancista, nós mesmos dizermos, olha a nossa África que temos. Por que temos essa África, se nós lutamos para termos uma África melhor? E escancara-se ali todas as situações, para que as pessoas saibam que estamos atentos e para que as novas gerações saibam o que aconteceu, o que está a acontecer. E que no futuro saibam também que tivemos indivíduos toscos, despreparados, vendidos, desumanos, que governaram a África num tempo. E estamos a lutar para limpar dessas mazelas e tentar construir um mundo melhor.

     

     

    Tendo em conta a situação que se vive neste planeta atualmente, essa visão do romancista que o Mário Lúcio apresenta agora, parece que não tem grande eco. Há falta de romancistas fora do continente africano que reflitam sobre aquilo que se passa fora do continente africano?

    Há muitos romancistas africanos, tanto dentro como fora do continente, que tratam esses temas de certo modo. O Pepetela escreveu Sua Excelência, de Corpo Presente, que é um retrato de um tempo. Mas não há muitos, há pinceladas. Não fizemos o nosso trabalho como, por exemplo, se fez na América Latina, com Alejo Carpentier em Cuba, Garcia Marques na Colômbia,  (Augusto) Roa Bastos, no Paraguai, Miguel Ángel Asturias, na Guatemala, Mário Vargas Llosa, do Peru. Enfim, vários escritores que se juntaram, e posso citar os seus romances, que fizeram uma frente para denunciar as ditaduras na época colocadas pelos Estados Unidos. Nós, na África, não fizemos isso de forma contundente. Eu conheço as razões, e cabe depois aos estudiosos perceber porque alguns escritores ficaram por pinceladas e não entraram profundamente na questão.

    Eu senti que tenho essa legitimidade de olhar para o meu continente e dizer as coisas como elas são, sem medo, sem, como se diz, panos quentes, porque são coisas muito graves, e que não devem ficar pelos livros científicos, devem ser também contadas com os seus absurdos, os seus ridículos.

    Como é que, enquanto o homem que leva o seu tempo para pensar, para reflectir, para expor aquilo que merece a sua denúncia, o seu pensamento, como é que olha para uma sociedade que é cada vez mais ritmada pela velocidade da internet e das redes sociais?

    Olha, na verdade, essas coisas, a internet, quanto mais veloz melhor, as redes sociais também. Agora, a questão é a manipulação que se faz disso.

    Lançam-se redes sociais para entorpecer uma geração inteira, porque os conteúdos não são filtrados. Há conteúdos que deviam ser filtrados. Não são, porque isso rende dinheiro.

    É assim que se tem feito neste mundo. E nós, quando olhamos para isso, não devemos cruzar os braços, porque quando incentivamos a leitura, o pensamento crítico é um antídoto natural contra as desinformações da internet, por exemplo. E devemos, não vamos lutar contra o gigante, mas vamos construir o nosso próprio gigantismo para fazer face a isso.

    Eu vejo o mundo com optimismo, como sempre, com esperança, mas esperança de uma mudança. E, como eu digo no livro, essa mudança parece que, neste momento, tem que passar para uma gestão feminina do planeta. O patriarcado já deu exemplo, já esgotou, eu diria, com a nossa forma tosca de ver algumas coisas que precisam de mais poesia, de mais sensibilidade.

    Levámos o planeta ao estado em que está. E já vimos, já tentamos, de todas as formas possíveis. De vez em quando aparecem grandes seres humanos que tentam, depois são assassinados. Parece-me que temos de dar uma oportunidade, não dar, as mulheres já conquistaram isso, temos de aceitar e não ficar a querer esconder o que já é óbvio, que esgotamos as nossas possibilidades masculinas de gerir o planeta. Esse machismo que reina já levou aonde estamos neste momento, a um passo da destruição da nossa espécie.

    Quem leva a espécie dentro dela, as mulheres, tem uma outra percepção da vida, uma outra percepção da criação, do ato de criar filhos, tem uma outra percepção da preservação. Já deram provas. No livro eu falo disso, quando a primeira mulher foi eleita presidenta em África, na Libéria. Então, temos essa esperança.

    No fundo, o papel do escritor é ele mesmo ser feliz com o que faz, e eu nunca serei feliz se eu não abrir sempre uma janela ou uma porta para o próximo ver uma paisagem melhor.

    Mário Lúcio criador, Mário Lúcio que foi ministro da Cultura, como é que entende, como é que olha a Inteligência Artificial?

    Eu aprendi que todas as invenções humanas são úteis. Porque as invenções humanas, as criações, as descobertas, não são propósitos, são necessidades, em que o nosso corpo responde encontrando a solução.

    Eu penso que a inteligência artificial veio porque nós estávamos a precisar, estamos a precisar, é uma ferramenta útil. Agora, o equilíbrio, em outros tempos, já foi mais a favor da bondade. Quando Einstein descobriu a teoria da relatividade, quando vários cientistas descobriram o átomo e descobriram o núcleo do átomo, sabiam que era uma descoberta fundamental, que depois viria a servir a própria descoberta da cadeia de ADN, que serve para muitas curas.

    O próprio átomo serve para uma energia nuclear limpa, enfim, vários fins. E alguém se lembrou de fazer também a bomba atômica. Então, é isto.

    Só que hoje a ganância se multiplicou por infinito, de modo que é tudo muito mais rápido. A inteligência artificial poderia tomar 20, 30 anos para se solidificar, criar uma ética, oferecer isto ao ser humano. Mas é ganância.

    E não nos esqueçamos que havia duas entidades a estudar a estrutura molecular para criar a cadeia completa do DNA. E uma dessas entidades era privada e quis ter o monopólio disso para depois as pessoas pagarem para terem acesso ao banco de dados. Felizmente, se chegou a um acordo e esta empresa privada disse que isso tem um bem de toda a humanidade, quer dizer, pagaram para que isto acontecesse.

    Então, há sempre gananciosos. Hoje, são muito mais. O que está a acontecer hoje no mundo não é uma luta pela democracia, não é pelo bem-estar do ser humano.

    É para o enriquecimento de alguns. E esses alguns são doentes. São indivíduos que não sabem viver, senão na acumulação.

    A acumulação dá uma espécie de dependência tóxica. E depois criam as consequências das dependências. São indivíduos mal amados, com pouca capacidade de raciocínio e com um vício tremendo de acumulações e mais acumulações.

    Vivemos nisso. Lembra-se quando se falava muito nos vírus do computador? Tem que comprar antivírus. Isso hoje em dia quase não se fala.

    Porque o próprio vírus e o antivírus, isto depois sai da mão de quem os criou e acaba criando a sua própria defesa. A inteligência artificial vai caminhar para isso. E eu estou já a ver, na música, já começa a fazer uma bondade.

    Muita gente está a ver isto acabar com a música. Não, vai acabar com a má música. E qualquer dia seremos chamados.

    Oi, vocês que foram tanto esquecidos. Por favor, venham trazer a música. A música orgânica.

    Três ou quatro indivíduos no palco a tocar. De verdade. Então, todos esses aproveitamentos pouco éticos das grandes criações humanas, depois ele vai levar o humano a encurralar-se.

    Em que você não tem outra escolha senão voltar atrás. O mundo não tem outra escolha senão o desarmamento. Para que isto? Isto já nem sequer dissuada.

    Já não tem dissuasão nuclear mais. Todo mundo dissuada, quem? E não pode haver um dissuasor no mundo porque usa a dissuasão para coagir. E nós estamos a caminhar para essa filtragem.

    Todas essas coisas que estão acontecendo demasiado rápido, depois vamos dizer, escolham a extinção ou a preservação. A extinção é seguir adiante. A preservação é parar, voltar e escolher um outro caminho.

    O futuro passa por aí, pela capacidade de escolher, de pensar, de raciocinar, de filosofar. Eu diria que todas essas são atividades que precisam de um certo contexto, de um certo momento. Pensar, filosofar, criar.

    Agora, a base de tudo isso é a nossa escolha ou de sermos, de continuarmos a ser uma espécie ou a nossa escolha é de terminar com essa espécie e o universo lá trará outras. Há um engano grande nosso é pensar que o futuro está lá à frente, sentado à nossa espera. Na verdade, o futuro é hoje e neste momento.

    Qualquer futuro é consequência de uma ação passada. Então, para nós corrigirmos o futuro, nós temos que corrigi-lo agora, não é amanhã. Então, hoje quando se fala queremos um futuro melhor, todos esses gritos são para dizer que o presente como está não pode continuar.

    E essas reflexões nem sequer são reflexões modernas. Há povos que refletem nisso há dois mil anos. O que é que o taoísmo, o hinduísmo ou o budismo nos ensinam, o próprio que é que Jesus Cristo nos ensinou com tudo isso? O que é que o profeta Maomé nos ensinou? Porque são pessoas que tomaram o seu tempo a reflectir sobre a condição humana e depois perceberam que estamos aí num caminho completamente diferente daquilo que é a nossa essência.

    E por que isso acontece? É exatamente porque a nossa essência tem uma tendência muito grande à destruição. Nós levamos em nós um equilíbrio. Por que o ser humano mata o outro se ele precisa do outro? É porque temos de entender que no processo da evolução da nossa espécie ainda temos uma porcentagem de destruição do nosso próprio muito grande.

    Então, nós prestarmos atenção a isso, vamos prestar mais atenção à natureza, à fragilidade da natureza, às nossas famílias, às árvores, às plantas e a partir daí podemos prestar mais atenção no que é a vida. Tem tido tempo para escrever, no meio dos diferentes espetáculos que têm feito para promover o Independence? Eu escrevo diariamente oito a dez horas, todos os dias, onde eu estiver. Todos os dias eu faço isso.

    O resto do tempo eu durmo, dez, doze horas por dia. E é entre isso que eu faço concertos ou lanço o livro. Mas toda a preparação é feita nesse exercício diário, disciplinado e amoroso também, de produzir sempre.

    Eu escrevo nos aviões, comboios, autocarros, aqui no camarim, estou sempre a escrever e não me incomoda nenhum ruído, nenhum barulho, movimento. Para mim, o exercício diário da vida é conseguir todos os dias produzir alguma coisa. E qual é que será o próximo resultado dessa relação amorosa que tem com a escrita? Eu há dias abri uma excepção na feira do livro, quando me perguntaram qual é o meu próximo livro, e a minha editora estava lá, a pessoa, mas também a entidade, e eu abri uma janela.

    Mas, normalmente, a minha avó me dizia, eu fui uma criança precoce, e o maior conselho que ela me deu, ela dizia, tipo, meu filho, tens uma áurea. Então, nunca revelas o que recebes para não quebrar o quebranto. Eu tenho respeitado isso em honra à minha avó, eu tenho, neste momento, cinco livros escritos, prontos a serem publicados, e não sei qual vai ser, mas sei um que vai ser no próximo ano, que eu espero que seja o livro da minha vida, pela sua autenticidade, pela sua originalidade.

    Todos os escritores sonham com isso, e é isso que eu estou a fazer, e eu espero que resulte muito bem. Mas, normalmente, há muitas coisas, há centenas de canções, mas estão ali, cada um tem o seu próprio momento de se dar à luz. E é o momento também, é o universo que diz agora, eu quero isso, eu quero aquilo, e eu vou ouvindo e respeitando essas escolhas.

    Então, vamos aguardar pacientemente por esse momento. Mário Luís, agora mudando completamente de assunto, não sei se é homem que acompanha o futebol, o percurso de Cabo Verde no Mundial de Futebol ?

    Eu me interesso por todas as atividades humanas, e isso traz uma completude que é diferente.

    No sentido de, até para eu perceber as minhas insuficiências, é preciso saber um pouco de futebol, um pouco de física quântica, um pouco de religião, um pouco ou o necessário, para ter uma ideia. Eu joguei futebol, joguei no campeonato local, na Ilha de Santiago, fui guarda-redes, e depois, como eu já tocava violão, evitei, por causa das mãos, dos dedos, e comecei a jogar como defesa, joguei como lateral esquerdo durante algum tempo. Eu não era um bom jogador, mas tinha ciência, aí ajudava muito a minha equipa.

    E sempre gostei de futebol. As pessoas ficam, assim, espantadas quando eu vejo um jogador, e dizem, olha esse jogador, como é que é o nome dele? Ah, é o Moza, ele diz, olha, o Moza jogou no Benfica no ano passado. Eu me lembro de todas essas coisas.

    Às vezes vejo um treinador, e no outro dia, as pessoas dizem, e esse treinador da Holanda? Ele se chama Koeman, jogou no Barcelona, e também passou para Portugal. Eu me lembro dessas coisas todas. Interesso.

    Porque futebol é, de todos os desportos, o mais próximo da arte, que é a sua imprevisibilidade. De todos que eu conheço, no tênis, quase sempre ganham o melhor. No básquet, também.

    Porque são desportos muito subtis. No futebol, há uma coisa que dificilmente acontece nesses desportos por ponto, que é o acaso. A melhor seleção do mundo vai jogar com uma equipa de lulé, e joga, e joga, e joga, e de repente há um acaso qualquer, e entra um golo, e nunca mais, sabe? Isso acontece muito no futebol.

    Eu acho isso muito artístico, no ponto de vista de nós recebermos coisas em que não pensávamos, coisas que surpreendem os leitores e tal. A prestação de Cabo Verde na Copa do Mundo traz-nos várias reflexões. A primeira reflexão é que, nas atividades humanas, não há maior nem menor.

    Ou seja, não há nenhum país rico que tenha melhor música que um país pobre. Não há país rico que tenha melhor futebol que um país pobre. Não, tem melhores estruturas e melhores acessos.

    E isso está-se a acabar com os governos a construírem os seus países, a construir as condições, a dar acesso à juventude. E foi o que aconteceu com Cabo Verde, com pequenas escolas de futebol e tal. E Cabo Verde é um país onde as mulheres já foram presidentas de equipas de futebol.

    Talvez a primeira, assim, no mundo, das primeiras. Uma mulher é treinadora de equipas de futebol. Também já foi.

    Então, para nós, é uma atividade de existência, como cultura nova, como cultura crioula, em que tem de se construir tudo. A tua própria identidade está ainda em construção. E é esse país que chega à Copa, a dizer, olha, como jogamos futebol, é assim que nós vivemos.

    Muito esforço, muita resiliência, muita alegria, e nós sempre queremos para ver. Com a quantidade de São Tomás, nós não esperávamos ver para crer. Se não esperávamos ver para crer, nunca, nunca acreditamos.

    Porque é um país que não chove, estamos à mercê da abundância de peixe ou não, e quando não chove não há peixe. É um país que não tem água doce, é um país que não tem minério, é um país que não tem petróleo. Então, o que é que nós... Nós acreditamos sim que é possível cada um viver com o que tem.

    E então, para nós ir jogar contra qualquer equipa do mundo, só nos faltava era o acesso. Cabo Verde é assim. E isso não é uma metáfora, porque tu vês seleções que estão lá, e muita gente no país deles nem sabe que essas seleções estão a jogar.

    Eu estive agora na República Checa, e no ambiente onde eu estava, universitário, as pessoas nem ligam para isso. Cabo Verde não. É do Presidente da República, a senhora que vende peixe na esquina, todo mundo, porque vão nos descobrir, e não nos vão olhar de través, nunca mais.

    Vão nos respeitar. E isso serve para quê? Serve para que o ser humano seja respeitável, independente da sua cor, do seu tamanho, da sua condição, porque tem alguma coisa. Olha, estamos a fazer o mundo feliz.

    Olha, tanta gente feliz porque o Cabo Verde está a jogar. E é isso. O ser humano deve estar ao serviço da espécie, de fazer alguma coisa que nos faça ter essa condição melhor.

    Por isso estamos felizes, e nós não temos o peso. Eu sei que é muito bom. Temos toda a nação conosco, mas como se dizia, nós não fomos lá para ganhar ou perder, que isto é parte já do futebol, onde quer que fosse.

    Nós fomos lá para dizer que existimos, e para corrigir algumas coisas. Uma das coisas que estamos a corrigir é isto, a prestação dessas equipas. Três equipas criolas tiveram na Copa, pela primeira vez na história da Copa, o Haiti, o Curaçao e o Cabo Verde, três pequenitos países, e a jogar em pé de igualdade.

    Isto significa o quê? É preciso uma leitura. E depois outra coisa que fomos dizer é parem de prejulgar e de querer proteger os que supostamente são mais fortes. Aquela arbitragem do Cabo Verde contra o Uruguai, dá vergonha à espécie.

    Por que o jogo faltava um minuto para acabar? A equipa, que era supostamente que não tinha nenhuma chance, ele dava 1% de chance, está com a bola para tirar para a área e tu acabas com o jogo. E no jogo seguinte, há a mesma situação, e dás mais um minuto ao Messi. E estamos a dizer ao mundo parem com isso.

    Desfrutem da possibilidade de sermos iguais e deixar competir os iguais.

    30 min
  • Guiné-Bissau: Campanha de castanha de caju supera expectativas

    A campanha de comercialização de caju de 2026 está a superar as expectativas iniciais. Segundo o Director-Geral do Comércio Externo da Guiné-Bissau, Lassana Fati, apesar de um início pessimista devido às alterações climáticas, a campanha decorreu globalmente bem. Além da tradicional liderança do mercado indiano, o país abriu portas para a China que deve importar cerca de 20 mil toneladas este ano e para o Vietname.

    A Guiné-Bissau consolida-se como o 4.º maior produtor em África de castanha de caju e mantém a ambição de reforçar a transformação local nos próximos anos.

    Lassana Fati, Director Geral do Comércio Externo, adianta que na campanha de 2026, o preço ao produtor subiu para 650 francos CFA por quilo na capital, e os contratos FOB atingiram o valor de 1500 dólares por cada tonelada à exporter. Praticamente já não há stock no interior do país.

    Relativamente à campanha 2026, dados iniciais eram de pessimismo, para ser sincero. No início tivemos problema sério em termos de dados de produção, mas pronto, no meio do caminho constatamos de que não é tão mau, porque devido à mudança climática que afectou algumas regiões do país, felizmente a zona leste teve mais sorte esse ano.

    Conseguimos uma quantidade considerável, falando em termos globais daquilo que o país produziu e escoou para Bissau, estamos a falar de 235 mil toneladas.

    E até nesse momento já exportámos quase 210 mil toneladas. Isso demonstra claramente que vamos ultrapassar os números de ano passado.

    No ano passado conseguimos exportar 210 mil toneladas, até nesse momento, no mês de agosto, já estamos com quase a mesma média do ano passado.

    E relativamente ao preço ao produtor, houve uma subida considerável, porque o preço de referência era de 410 (francos CFA) por tonelada, ou seja, por quilo, e já estamos a comercializar aqui em Bissau com um preço muito elevado de 650 (francos CFA) por cada quilograma.

    Isso demonstra que, se comparamos com o ano passado, onde o preço médio era de 500 francos, esse ano estamos com um preço médio de 525 francos por cada quilograma.

    E em termos de preço FOB que é (o preço de) exportação, há melhoria considerável em termos de contratos que foram assinados, estamos a falar de 1400 dólares a 1500 dólares FOB Bissau, isso demonstra que os exportadores também conseguiram assinar bons contratos e, em termos globais, podemos dizer que estamos a ter uma campanha em crescimento.

    Se comparamos os últimos 4 anos, o país conseguiu realizar campanhas positivas em termos de comercialização e exportação da castanha de caju.

    Ainda há castanha no interior da Guiné-Bissau?

    Não, não, não. Pelos dados que dispomos das nossas delegações regionais, estamos a falar de menos de mil toneladas que podem estar em diferentes zonas do país, mas devido ao preço que está a ser aplicado nesse momento, não há condições para manter a castanha no interior do país. Penso que há pouca quantidade da castanha a nível interior.

    O caju vai essencialmente para a Índia, mas o governo tem tentado nos últimos anos abrir novos mercados. Conseguiu?

    Sim, conseguimos abrir o mercado chinês, devido à essa tarifa zero que está a ser aplicada pelo governo chinês, há uma solicitação considerável dos empresários chineses.

    Também temos o mercado do Vietname que, devido à facilidade que foi criada pelo governo norte-americano este ano, há vários compradores que vieram também do Vietname. A Índia mantém-se como principal mercado de exportação da nossa castanha.

    A China vai comprar alguma quantidade considerável? Tem ideia de quanta quantidade?

     

    Sim, penso que cerca de 20 mil toneladas vai para a China ainda nesse ano 2026.

    O governo sempre tem tentado a transformação local. Como é que está esse processo?

    Está num bom caminho, acabamos de visitar o CPA, que é um centro de produção agrícola, que está na zona industrial de Bra, onde são embaladas castanhas já transformadas a nível nacional.

    Há um projecto em curso de transformação de cerca de 30 mil toneladas que eu penso que daqui a dois anos vai ser uma realidade.

    Há também um financiamento de parte do Banco Africano para o Desenvolvimento, que financiou uma empresa local que está a tentar transformar cerca de 5 mil toneladas. Isso demonstra que há uma dinâmica...

    E esse ano vai ser difícil 5 mil toneladas, mas penso que vão fazer 2 a 3 mil toneladas. Há uma dinâmica interessante nesse sentido, penso que uma cooperação também que pretendemos assinar com o governo ivoiriense, neste caso com a Costa do Marfim, no sentido de apoiar tecnicamente e financeiramente as empresas nacionais no sentido de transformar uma quantidade considerável.

    Já está prevista uma visita oficial do ministro (do Comércio) à Costa do Marfim no sentido de tentar explorar o mercado ivoiriense em termos de nova tecnologia, em termos de financiamento, para ver como dar um novo impulso ao setor de transformação local da nossa castanha.

    Em termos de resultados monetários para o país, quanto é que o país poderá arrecadar este ano com a campanha de caju?

    É difícil dizer os números com exatidão, mas penso que cerca de 300 a 400 milhões de dólares conseguimos ter ao longo desse processo de comercialização e exportação da castanha de caju, mas o relatório final da campanha vai revelar os números reais que circularam ao longo desse processo.

    A Guiné-Bissau situa-se entre os principais produtores do caju. Em que lugar é que estamos neste momento?

    Eu continuo a defender que estamos em quarta posição a nível do continente africano, depois da Costa do Marfim, Tanzânia, Moçambique, de seguida vem a Guiné-Bissau.

    Mas pronto, são dados que ainda carecem de confirmação, mas da nossa parte estamos seguros de que o país continua a ter castanha de grande quantidade e também em termos de qualidade, penso que somos o número um a nível do mundo.

    Como é que ocorreu este ano a questão de transbordo da castanha de caju na fronteira?

    Felizmente que este ano conseguimos fazer um trabalho extraordinário, porque em termos de Conselho de ministros houve decisões que foram tomadas, que foram cumpridas.

    Estou a falar de uma comissão interministerial que engloba o Ministério do Comércio, o Ministério do Interior, Defesa, toda essa corporação foram implicadas nesse processo, também houve um recrutamento considerável dos fiscais, ainda inspetores do Ministério do Comércio, isso facilitou em certa medida um controlo da nossa zona transfronteiriça.

    E também há sanções pesadas que foram aplicadas, tudo isso diminuiu de certa forma o contrabando. Este ano posso afirmar de que o país, o governo teve controlo, não a 100%, mas de 90 a 95% daquilo que é o território nacional em termos de contrabando da castanha de caju.

    A Guiné-Bissau tem capacidade para produzir quanta quantidade de caju?

    Estamos a falar de cerca de 300 mil toneladas de castanha de caju que o país consegue produzir, se fomos ver aquilo que é consumir a nível interno, transformar, exportar e também a quantidade que devido a nossa fragilidade em termos da linha fronteiriça que são contrabandadas, mas penso que o país consegue produzir 300 mil toneladas.

    7 min
  • Angola/Portugal: Bonga: “É preciso intervir!”

    Bonga é um dos nomes maiores da música angolana reconhecido em palcos de todo o mundo e uma referência da cultura de Angola. Com mais de meio século de percurso artístico, Bonga começou por ganhar projecção com o primeiro trabalho discográfico Angola 72, editado no exílio, em Roterdão, após fugir da ditadura em Portugal.

    Se 1972 é o ano de nascimento de Bonga Kuenda, enquanto artista, Angola 72 é um marco na carreira de Bonga, na música de Angola, na resistência contra o fascismo e colonialismo, na luta pela liberdade e independência de Angola.

    Da mesma forma que usou a voz e o génio musical como simbolo de unidade de um povo contra o colono, Bonga não se deixou silenciar após independência e não poupa críticas a todos os dirigentes angolanos que ao longo dos anos têm deixado o povo angolano em sofrimento.

    Agora, com 83 anos e pai de um casal de gémeos, o artista que nasceu José Adelino Barceló de Carvalho, e trocou Luanda por Lisboa para, com a camisola do Benfica, ser atleta de alta competição e conquistar o título de campeão dos 400 metros, continua a subir ao palco e, tal como vimos do Festival MED, em Loulé, entregar as mensagens que a realidade impõe, sempre com um ritmo frenético que faz vibrar multidões.

    Bonga falou com a RFI antes de subir ao palco principal do Festival MED.

    Na entrevista, onde, entre outros temas, nos fala das primeiras experiências como músico em companhia do pai, da vinda para Portugal, da fuga para Roterdão, do primeiro disco, das resistências políticas, do 27 de maio de 1977, do sofrimento do povo angolano, Bonga começa por nos revelar o que o motiva a usar a música para enviar recados aos dirigentes de Angola.

    Bonga Kuenda:

     

    É a vivência que nós temos com as coisas mais evoluídas do planeta, a democracia, a liberdade, a amizade, na verdade, o aconchego, a família. Tudo isso faz com que eu já seja um responsável dessas lides de há muito tempo esta parte. Continu-o a ser, porque resultou, resulta, e de que maneira, não é verdade?

    E é sempre agradável, é sempre agradável, eu já faço disso um ritual, desejado por todas as pessoas, nacionais e estrangeiras, seja qual for o país. É muito bonito, é bom, é óptimo, e a gente se sente como o peixe na água, não se afoga.

     

    Bonga, 50 anos de independência de Angola. Olhando para trás e para o seu país, como é que sente a  Angola de hoje?

     

    É o lado triste que nós temos, que tentamos, através da música, através da poesia, através da vivência que temos com as pessoas, diminuir um pouco esta carga negativa que representou e que representa ainda, quer dizer, as más direcções. Não é verdade? Enfim, uma situação complicada, mas não foram só os angolanos que sofreram com isso, foram os angolanos, foram os estrangeiros nossos amigos, e não são poucos.

    Não quero falar daqueles que só lucram com a Angola, quero falar sobretudo das pessoas que nos aconselham também, e que estão connosco, e que nos desejam coisas maravilhosas e que participam também, enfim, e dão-nos ajudas, ajudas àquele povo que ficou como ficou, como está.

    Eu estou ao corrente de tudo isso, por essa razão me manifesto. Na verdade, gostaria que fosse melhor. Sinceramente, nunca ninguém pensou que Angola ia ficar como está ficando. Isto é inquietante e complicado porque leva tempo a mudar para melhor, e como leva tempo a melhorar, enquanto isso, como se diz na brincadeira, enquanto o lobo não vem, o que é que o lobo está a fazer? E o lobo está ali e já fez, já fez muitas coisas que não deviam ter sido feitas. pela negativa. Por isso é que o povo sofreu, sofre, e continua a desejar que melhores dias venham. Nós músicos, artistas, enfim, estamos aí a dar o nosso contributo, com as cantigas. De um lado a informar, e do outro lado a tornar leve o sofrimento do quotidiano daquele grande povo a que pertencemos.

    Mas, quer dizer, dizendo de Angola, a gente fala dos outros sítios. É o aspecto humano que está em causa, nós somos humanistas e, como tal, quantas vezes não tivemos que participar em outras cenas do mesmo teor negativo e dar a nossa solidariedade. E estamos sempre prontos.

     

    O que é que o fez mudar para Portugal? Como é que foi a vinda para Portugal?

     

    Bem, ainda era jovenzinho, o pai tocava uma concertina em casa, e eu, dos nove irmãos que éramos, eu é que o acompanhava com aquilo que chamam o reco-reco, nós chamamos-a de dikanza, num estilo musical que era a rebita, que é uma música que existe, e eu é que acompanhava. Portanto, a música já começa aí.

    Depois havia as turmas dos bairros, os bairros típicos da cidade de Luanda, onde a gente convivia, e a partir daí a gente fazia música, mas eu não cantava, quem cantava eram os outros. Porque comecei a cantar na igreja e o padre proibiu-me porque era uma voz rouca. Eu, se fosse daqueles de me frustrar, seria frustrado e nunca haveria o Bonga na música. O que é certo é que eu dei continuidade e hoje sou o que sou graças à persistência, na verdade. Mas foi exactamente com a música, com o meu pai, em casa, porque ele tocava só em casa, só em casa mesmo, nas festividades, nas almoçaradas e tudo mais com a família, e eu acompanhava com aquele reco-reco ali, aquela dikanza, acompanhava o cota ali a tocar, e tudo bem.

    Só depois, claro,  é que aparece o desporto. Mas o desporto também começa em Angola, as corridas, não é ? Dei-me conta que era um grande velocista, e a partir daí nunca mais parei, tanto que o Sport Lisboa e Benfica, foi-me buscar a Angola, e trouxe-me para Portugal assumindo a responsabilidade de tudo.

    Os velhos ficaram contentes, primeiro porque o meu pai é do Benfica, disse-me: "Vai, sim senhora, vai, não ficas aqui a fazer nada, vai-te embora." E vim, pois posto aqui, claro que o clima não era o mesmo de Angola.

    Em Angola, a vivência, a solidariedade, a harmonia, a música, a vizinhança e não sei o quê, completamente diferente daquilo que havia aqui, tanto que eu no dia seguinte queria me ir embora. Eu disse assim: "É pá! Espera aí! Mas as pessoas na rua não se falam, pá? Isso é complicado, pá! Como é que vai ser, pá?"

    Depois, aqui há poucos indivíduos e tal, que se prezam uns com os outros, e depois não há os contactos de famílias com famílias e tudo mais, é cada qual por si, Deus para todos. Não posso viver assim !

    Pois, tive que me adaptar e a adaptação foi muito rígida, foi complicada. E depois treinar todos os dias. Aquele treino de todos os dias, … opá! Aquilo complicou-me um bocadinho, quer faça chuva, quer faça calor. Aquilo era treinar debaixo de chuva, treinar debaixo do granizo, frio. Epá! A adaptação foi complicada, mas a força de vontade valeu muito mais e deu-me incentivo.

    E, olha, bati o recorde do Portugal dos 4 por 400, os 200 metros, quer dizer, era o campeão. Depois fui a Espanha, bater o recorde de Portugal dos 400. Havia uma rivalidade tremenda entre Portugal e Espanha, era um caso sério. Depois dei-me conta que a amizade entre os atletas era algo muito importante, e aquilo contribuiu para a minha estabilidade em Portugal, de outra forma tinha sido complicado.

     

    O Bonga veio para Portugal com que idade?

    23 anos.

     

    Na altura, quando veio para Portugal, Portugal ainda vivia em ditadura. Como é que foi viver esse período? Teve situações complicadas?

     

    Sim, claro. Então, eu sendo amigo do Zeca Afonso, do Adriano Corrêa de Oliveira e muitos outros que se ocupavam com a música de intervenção. Nós íamos tocar com esta gente toda, maravilhosa, consciente.

    Eu assisti, presenciei, tomei parte de algumas manifestações na altura, mas eu era o Barceló de Carvalho, conhecido, amigo do Eusébio, daquele pessoal todo da bola, os desportistas. Aliás, quando se juntavam com os estudantes, com os funcionários públicos, era bastante bom, a nossa vivência. A convivência era fantástica, mas a gente apercebia-se de muita coisa, de muita miséria que acontecia aqui, e ninguém gostava daquilo, a gente repudiava, como é natural.

    Mas começámos também a ter contactos, os nossos contactos. São esses contactos que me fazem sair de Portugal, porque tinha ligações com outros indivíduos que estudavam em outros sítios e participavam com os movimentos de libertação das Áfricas. Aliás, foi nessa contingência que eu zarpei, dei o salto.

     

    Como é que se passou esse processo?

     

    Olha, isso foi assim, eu trabalhava com um núcleo que vinha constantemente a Portugal, e, nesse constantemente, a gente se encontrava, passavam-se mensagens, redobravam-se mensagens, recados e tudo mais. Porque não podia ser às claras, porque a PIDE daquele tempo, ai, ai, ai, Jesus !

    Enfim, mas faziam, quer dizer, era igual na maneira do tratamento que tinham os daqui como os lá. O que é certo é que, quando me deram o recado que os meus amigos já estavam presos, quase todos, eu pensei para comigo, só falto eu ! Só não fui ainda, porque, de facto, estou no Benfica, ainda sou preciso, sou conhecido.

    Enquanto eles se distraíram com isso aí, naquela de vai, não vai, eu zarpei. Quer dizer, passei ali pelo aeroporto, ainda me perguntaram: Barceló, e não sei o quê? "Sim, vou comprar discos à Holanda, volto já." Isso é que era bom! Fiz o manguito com a mão fechada, já no avião, lá em cima, porque o avião não ia voltar, e pronto, foi assim a minha saída.

    Tempestiva mas benéfica, na medida em que fui para outra actividade, na clandestinidade, efectivamente, e daí nasceu o Bonga, o Bonga Kuenda nasceu. Eu já tinha um contacto, era Roterdão, mesmo.

     

    Estávamos em que ano?

     

    Em 1972. Foi nesse ano exactamente que se dá a fuga, e nesse ano mesmo eu realizo o tal disco com os cabo-verdianos, Djunga de Biluca da Morabeza Records, fantástico! Mas, quando a gente acabou de gravar o Angola 72, eu disse para o meu amigo Djunga de Biluca, que era o proprietário do Morabeza Records, disse, o teor do disco, que disco é esse, o que é que está a dizer,... ele pôs as mãos à cabeça e disse: "Oh, pá! Mas ... já está feito, já está feito. Vamos embora, vamos a isso!"

    Foi assim que nasceu. Mas, mal eu acabei de gravar o disco tive que fugir. Tive que fugir dali também, porque ia ser cassado. Com o disco a ser divulgado, não, não, não, não. Porque a PIDE andava por essas Europas todas e não havia comunidade europeia, era complicado.

     

    Depois de Roterdão, você vai para onde?

     

    Alemanha. Vou para a Alemanha porque a gente, entretanto, faz conhecimento com as pessoas. Vou fazendo conhecimento com as pessoas. Eu não fiquei parado.

    E mesmo no desporto, eu comecei a fazer um bocado de desporto também, numa organização lá (em Roterdão), e quando me viram a correr, eles diziam: Oh, pá! Quem é esse gajo? Queriam saber quem era, esse gajo que quase ganhou o campeão holandês dos 400 metros. Espera aí, quase ganhou! Quem é esse tipo? Então, no dia seguinte, no jornal, aparece em letras gordas, afinal, esse que se chama Bonga não é nada mais, nada menos do que o campeão de Portugal dos 400 metros, o Barceló de Carvalho, e está aqui de fugida. Caramba!

    Foi daí que eu fui para a Alemanha, claro. Na Alemanha, em casa de pessoas, mas sempre na clandestinidade, não aparecendo e tal. Só que depois recebo o recado de Roterdão: O disco estourou! Estourou e está uma bomba! Há fogo! Está a ser procurado! Tanto que, para ir para determinados sítios, não vai na mesma capa, vai em capas diferentes, para as pessoas ouvirem. Óptimo, força! Então, vamos a isso!

    E íamos insistindo, devagar, devagar, não é verdade, aqui ou ali, um clubezinho. Eu lá aparecia e cantava uma ou duas músicas, fugia e tal. Mas foi uma situação maravilhosa, foi assim algo de resistência e de contentamento. Primeiro porque estava a participar numa informação fidedigna dos acontecimentos da minha terra, do meu país, e depois o contributo era enorme porque estava a ser divulgado. Essa divulgação fez com que as pessoas tomassem conhecimento, se solidarizassem umas com as outras e tudo começou a ficar bonito, e valia a pena o sacrifício.

     

    Quando foi o 25 de Abril de 1974, quando se apercebeu da queda da ditadura em Portugal, onde é que estava?

     

    Paris, Paris. Paris, uma cidade luz, cidade da força, cidade do Maio de 1968. Foi uma coisa maravilhosa! E divulgar, sem desprimor para ninguém, nem para nenhum país, … divulgar em Paris é outra coisa.

    Paris tem uma tradição musical e artística, quer dizer, de um calibre tremendo. E festejar ali, quer dizer, a virada da independência, o 25 de Abril, com os amigalhaços todos ali... a gente dizia, “e agora?” Olha que, mesmo assim, a gente sentou-se e ficou com a interrogação, “e agora? Todos nós olhámos uns para os outros e dissemos, “e agora?”

    Os angolanos que lá estavam, olhámos todos uns para os outros com uma interrogação tremenda, como quem diz, estamos mesmo preparados? Somos mesmo irmãos, somos mesmo irmãos de sangue, de corpo e alma? Vamos mesmo ir para a “frentex”?

    Olha, nunca mais me esqueço, esse olhar que tivemos uns com os outros, foi um olhar que disse muito. Os anos a seguir vinham em conformidade com aquele olhar que tivemos uns com os outros. De facto, foi muito complicado, foi muito complicado.

    Depois vimos o que aconteceu, os grandes desaires que foram acontecendo, ninguém pensou que ia acontecer o que aconteceu, com a conivência de muitos estrangeiros, que fizeram-nos o favor de nos desgraçarem.

    Foi triste, isso foi triste, e tem sido assim todos os anos, e quando a gente pensa que a coisa vai mudar, não muda, fica pior ainda. Aquele povo que pensava que ia ser, de facto, livre, emancipado, com tudo, enfim, comendo, as suas carências, ficou pior ainda. Não, ninguém pensou nisso.

    Eu, quando falo, inclusive, com determinados dirigentes a que eu tenho acesso, eu digo: Vocês deviam ter vergonha, não foi nada disso, mas não foi mesmo. Vocês têm que ter vergonha, de fazer um estado de consciência, puxar um bocadinho pela cachimónia, e darem a mão à palmatória. Não é nada disso, nem um pouco, nunca mais. Desapareçam da política, estragaram isso!

     

    A esperança é a última a morrer?

     

    É a última a morrer, mas leva tempo a chegar. Nós continuamos a nossa vida, continuamos a incentivar para que as pessoas, de facto, sejam coerentes e ajudem, essa entreajuda é necessária. Mas como é que há entreajuda se não tens nada para dar a ninguém. Quando não tens nada, a entreajuda é nula, quase não existe. Mas nós continuamos as nossas atividades, musicais, artísticas, com mensagens maravilhosas, mas, sobretudo, com a intervenção. É preciso intervir! Foi exatamente por nós não termos intervido que as coisas degeneraram.

    Claro que há uma situação que nos comprometeu a todos, foi aquela de 27 de maio de 1977. Quem diria! Quem diria aquele morticínio todo. Então, você falava do colono, falou da escravatura, ai, e depois vem fazer isso. Pessoas como essas não podem governar, nunca, mas foi o que tivemos, infelizmente.

    Nós lamentamos muito, mas nós não ficamos no muro das lamentações, nós temos que fazer. Nós, na música, demos um contributo muitíssimo bom, tanto que as músicas ficaram aí no ar. E os miúdos deram continuação e cantam coisas maravilhosas que têm a ver com uma situação de mudança urgente, senão entramos num perigo maior.

     

    O Bonga foi recentemente pai. Um casal de gémeos. para muitos será o Euromilhões, o Totoloto, conseguir essa terminação. O menino e a menina fizeram recentemente um ano.

    Ah, maravilha!

    Olhando o mundo, com toda a experiência toda que tem de mundo, quais são as preocupações que o facto de agora ser pai de duas crianças lhe traz?

     

    É sobretudo pela idade que eu já tenho, não é verdade!? Pela idade que eu já tenho, vejo e digo: Epá! Esses vão ter que lutar. Vão ser crianças que vão ter que lutar bastante. Esperemos que o mundo mude no bom sentido, mas isso é uma espera que todos nós, enfim, vamos esperando desde há muito tempo a esta parte. Mas como pai, e depois com o meu temperamento, caráter, maneira de ser, eu sou terra a terra, estou sempre a brincar com eles. Mas não é só de brincadeira que vive o homem.

    Eles já fazem coisa incríveis. Ai, ai, ai, já dançam! Dançam no ritmo. A menina que já quer falar. Mas quer falar uma conversa consistente. Ela identifica naquela coisa, pronuncia termos e não sei quanto. Eu já tinha filhos, já tinha seis, e mais dois, oito. E a vida continua.

    Estamos aí, quer dizer, para o que der e vier, e naturalmente o melhor possível, não é verdade? Com eles na harmonia. Esta harmonia que eu tenho para a música é a harmonia que eu tenho com eles e com a mãe deles. Porque ( a mãe) nunca sonhou, e eu também não. Eu nunca tive gémeos, são os primeiros. Estou a tentar reviver a família africana.

    Nós temos uma maneira de educar os filhotes de uma forma só nossa, muito nossa mesmo, muito africana. Não tem essa coisa de estarem limitados ao leite, iogurte e não sei o que, não. Já comeram funge, aquela moamba. Já provaram tudo isso, e estão muito bem assim. Por conseguinte, isso é óptimo.

    Para mim, foi uma grande alegria, uma grande satisfação, que tenho estado a viver e a conviver com a maior parte das pessoas de bem, que vêm comungar comigo esta experiência. Dois que saltaram assim e estão aí, é muito bom.

    Resguardar, sobretudo, é preciso resguardar. O mundo já não é o mesmo, portanto, resguardar as crianças, saber que há certas coisas, certos caminhos e certas presenças que a gente, enfim, tem que saber calcular isso para levar tudo a bom porto.

     

    26 min
  • Guiné-Bissau: Governo determinado na redução do preço do pescado

    No passado mês de Abril, o governo de transição na Guiné-Bissau e os operadores rubricaram um acordo para baixar o preço do pescado, mas a implementação nos mercados está a gerar debates intensos entre fiscais, pescadores e as "bideiras" (revendedoras).

    Para aliviar o custo de vida da população, o Executivo liderado pelo Primeiro-Ministro Ilídio Vieira Té implementou um pacote de medidas extraordinárias.

    O objectivo é fazer com que o peixe chegue de forma acessível às mesas de famílias guineenses em Bafatá, Biombo, Gabu e em todo o território nacional.

    O acordo para a baixa do preço existe, mas o Director-Geral de Portos de Pesca da Guiné-Bissau, Fidelis Biombo Cá, diz que tem havido alguma resistência para a sua implementação.

    O responsável explicou à RFI que desde Dezembro de 2025 que o Governo de transição tem tentado alcançar um entendimento com os actores da fileira, tendo reduzido taxas como licença de navegação, licença de pesca artesanal, custo do combustível de pesca e ainda o preço do gelo de conservação do pescado.

     

    Houve uma redução drástica no que concerne ao preço das licenças das pescas, assim como na licença de circulação ou de navegação através do Instituto Marítimo.

    Houve a coparticipação ou subvencionamento no que concerne à aquisição do combustível junto do Petromar (empresa privada que importa e distribui combustíveis na Guiné-Bissau). Nós negociámos directamente, como é óbvio, as fábricas de gelo que aqui temos, são privadas.

    O governo negociou directamente com os proprietários dessas fábricas e esses, por sua vez, reduziram o preço do gelo, que era de 2.500 francos CFA, para 1.250 francos CFA. E para além dessas reduções, foi dado um período moratória, ou seja, um período a partir do mês de janeiro até abril, de 4 meses, os pescadores pescaram sem pagar nem sequer um franco CFA.

    Depois de serem atendidas essas preocupações, o governo chamou de novo esses actores intervenientes no sector das pescas, nesse caso, a Associação dos Pescadores e a Associação das Mulheres Bideras e Transformadoras do Pescado, e em conjunto, solicitaram-nos no sentido de apresentarem uma proposta formal do precário dos pescados.

    E eles, sendo pessoas de bem, fizeram a questão de apresentar uma proposta e nós discutimos isso. E no dia 9 de abril, foi assinado um memorando de entendimento entre a Associação dos Pescadores e a Associação das Mulheres Bideras e representado pelo governo, representado nessa cerimónia através da Ministra das Pescas e Economia Marítima.

    Bom, depois de serem assinados esses acordos, como é óbvio, o acordo é para cumprir, tendo em conta aquilo que dissemos, "pacta sunt servanda". Quando é acordo, é para cumprir. A partir daí, foi criado uma comissão conjunta de fiscalização da exequibilidade do preço estipulado não pelo governo, ou estipulado pelo governo, mas proposto pela Associação dos Pescadores e a Associação das Mulheres.

    E nessa comissão foi dado o mandato de seguir o precário, e levantar as questões que posteriormente possam surgir como obstáculo à implementação desse precário. A partir daí, ao longo desse período, nós internamente criamos uma comissão, foi instituída uma comissão de fiscalização do preço. E essa comissão, na sua primeira actividade, fez uma apreensão de 350 quilos de peixe, aqui no mercado, porque nessa primeira fase é só para os mercados do centro da cidade. A segunda fase será alargada para todo o território nacional.

    Bom, depois marcámos um encontro, convocámos um encontro com as associações dos pescadores e das mulheres, para podermos fazer um balanço em conjunto, da qual foi levantado as questões de que, se calhar tem a ver com questões do desconhecimento da existência do memorando.

    Bom, nós aqui alegámos que, na verdade, a pessoa não pode ser, ou seja, a pessoa não pode andar na impunidade, alegando que desconhece a existência de uma norma, porque normalmente quem deve procurar saber se existe ou não uma norma é o interessado, nesse caso, as bideras e os pescadores.

    Ora, estando no incumprimento, nós, como autoridade, temos que actuar como autoridade. Porque, na verdade, nós não podemos fazer com que o Estado fique de joelhos.

     

    De acordo com o Director-Geral de Portos de Pesca da Guiné-Bissau, a redução nos preços finais ao consumidor, de certas espécies do pescado, ronda os 30% a 40%.

    O Estado da Guiné-Bissau actualmente perde mensalmente quase 4 biliões de francos CFA. E esses 4 biliões devem-se reflectir diretamente na vida quotidiana do seu povo. Agora, como é que pode reflectir? Perdendo isso com essas isenções, isso quer dizer que, com essas isenções, com essas percas, esse valor de 4 biliões deve refletir no preço do pescado, para que, efectivamente, um cidadão de Tchokmon, um cidadão de Bafatá, um cidadão de Biombo, um cidadão de Gabu esteja em condições de poder comprar, pelo menos, 1 quilo de peixe para o seu agregado familiar. Isto é o propósito dessa isenção do parte do governo. Ora, se essas isenções não estão a refletir na vida quotidiana do povo da Guiné-Bissau, como dono do peixe, com certeza que o governo deverá tomar as suas medidas.

    Desde o início das operações de fiscalização dos mercados de revenda do peixe em Bissau, as autoridades já apreenderam mais de 1500 quilos de peixe fresco.

    O Director Geral dos Portos de Pesca Artesanal diz que a fiscalização vai continuar em Bissau e será brevemente alargada para os mercados do interior do país.

    Foi dada uma ordem expressa de que o Estado não pode estar a perder quase 4 biliões mensais sem que tenha reflexo na vida quotidiana do seu povo. E se assim for, temos a ordem de que quem estiver no incumprimento dos preços estipulados na tabela pelo governo, essa pessoa deve ser expulsa do mercado e apreendido o seu pescado.

    Foi o que aconteceu, e foram destacadas as forças de defesa e segurança para todos os mercados do centro da cidade. Logo, na primeira apreensão, como tinha dito, houve apreensão de 350 quilos, isso quando? Ah, porque a operação começou logo no primeiro dia deste mês, dia 1 deste mês. E no segundo dia, houve apreensão de 794 quilos de peixe (peixe fresco, estou a dizer peixe fresco). Terceira apreensão, 82 quilos; quarta apreensão, 151 quilos e na quinta apreende, 22 quilos. E de lá para cá, não houve mais apreensão. Isso quer dizer que as pessoas estão a cumprir paulatinamente, de acordo com os preços estipulados pelo governo.

    A Associação dos Pescadores Artesanais reconhece o esforço inédito do governo. Adulai Leny, presidente da associação, diz que é a primeira vez que um governo da Guiné-Bissau toma medidas concretas para baixar o preço do pescado ao consumidor.

     

    Apesar dos desafios, todos os pescadores a nível nacional reconhecem este governo por ser o primeiro a tomar medidas concretas para reduzir o preço do pescado no país. Nós também temos de colaborar. O governo perguntou-nos até quanto podíamos reduzir no preço do pescado, uma vez que somos nós que trabalhamos para trazê-lo ao mercado nacional.

    Em certas espécies, das mais consumidas no país, reduzimos o preço até 42%, permitindo que a bidera (revendedora) acrescente a sua margem para alcançar um lucro de 500 francos CFA. Foi com base nestes termos que assinámos o memorando de entendimento no dia 9 de abril para ser cumprido.

    Por ser um processo novo no sector da Guiné-Bissau, e podemos dizer que até a nível mundial, é um exercício difícil e é natural que haja resistência por parte daqueles que não querem que a medida vingue. Costumamos reunir os nossos associados antes de qualquer decisão para passar a mensagem correta, e já realizamos várias reuniões para debater esta resistência e informar os pescadores sobre o que está a acontecer no sector.

     

    Foi decretada a redução do preço do pescado, sim, mas a grande dor de cabeça para os pescadores artesanais continua a ser o uso das redes de monofilamento, conhecidas localmente como "tchaas".

    Embora a sua utilização seja proibida e alvo de multas, os pescadores questionam o porquê de o material continuar a entrar livremente no país pelas fronteiras e a ser comercializado com a autorização da Alfândega.

    As multas pelo uso dessa rede também acabam por impactar o preço do peixe ao consumidor, diz Adulai Leny:

     

    Há dez anos que enfrentamos este estrangulamento. O governo exige que pesquemos com outras redes, mas não existem alternativas disponíveis no mercado guineense. A própria rede de monofilamento que proíbem entra no país pela fronteira, passa pela Alfândega e a sua venda é autorizada no mercado. No entanto, quando o pescador utiliza essa mesma rede, a fiscalização apreende-a.

    O primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té, ao ser informado sobre a situação, disse que isso não podia continuar, visto que é o próprio Estado que autoriza a entrada dessa rede no mercado.

     

    E nos mercados de peixe, como está a vivência diária das mulheres bideiras, o elo final que faz a ponte entre o mar e a panela do cidadão?

    Fenda Turé, vendedora de pescado no movimentado Porto de Pesca de Bandim, nos subúrbios de Bissau, disse à RFI que a baixa de preços do pescado decretada pelo governo não abrange todos os segmentos da pesca artesanal. Fenda Turé reconhece, contudo, que o preço do peixe é alto nos mercados do país.

    Sabemos que o preço do peixe é elevado, mas o peixe é o produto mais consumido aqui na Guiné-Bissau. Contudo, o peixe mais consumido, que é o pescado com anzol, não foi contemplado nesta baixa de preços. O peixe capturado com rede é consumido, sim, mas deteriora-se rapidamente: se não for consumido dentro de 24 a 48 horas, estraga-se. O que a população mais consome é, de facto, o peixe de anzol. Além disso, esta facilidade de redução de preço acaba por favorecer apenas o pescador que possui canoa e rede própria.

    Uma outra preocupação das bideiras prende-se com a confusão nas tabelas de preços. As bideiras têm uma tabela e a fiscalização tem outra tabela de preços. No entanto, Fenda Turé diz que a questão maior está na falta de troco na hora da venda do peixe. É que, na Guiné-Bissau, praticamente deixaram de circular no mercado algumas moedas de menor valor.

     

    O que me causa confusão é ver o nosso peixe apreendido porque a fiscalização acha que estamos a infringir a lei. Exigem que vendamos o peixe ao consumidor por 2.500 francos CFA o quilo, mas, por não termos troco de 75 francos CFA, tiram-nos o peixe. O problema principal está nas tabelas: nós temos uma tabela e a fiscalização tem outra, e os valores não coincidem. Quando questionados, os fiscais dizem que estão a atuar com base numa nova tabela que saiu. Nova tabela como, se tudo foi acordado numa direção conjunta?

    Noutro dia, chegaram aqui e apreenderam-me 600 quilos de peixe antes mesmo de eu iniciar a venda. Nem discuti com eles. Ainda tentei retirar três peixes para a alimentação da minha família, mas os fiscais não permitiram.

     

    O memorando assinado a 9 de abril é uma medida apreciada por todos os envolvidos no sector, no entanto para que faça efeito, efetivamente no bolso do consumidor guineense, é preciso que haja maior sintonia entre o Ministerio das Pescas, associações de pescadores e as mulheres que trabalham na revenda do pescado, as bideras.

    15 min
  • Marcelo Evelin e a coreografia da revolução por um Novo Mundo

    Andorinha Só Não Faz a Primavera é o espectáculo que marcou o final do PACAP 9 , um programa avançado de criação em artes performáticas do Fórum Dança de Lisboa.

    A edição de 2026 teve a curadoria do coreógrafo e investigador Marcelo Evelin que, com a colaboração de Bruno Moreno, seleccionou um conjunto de artistas para fazerem intervenções, trazerem as suas práticas, as suas investigações.

    Tendo como ideia central do programa o trabalho conjunto, o estar em colectivo, durante os seis meses de programa aconteceu a tentativa de abrir a percepção ao que surge de maneira misteriosa.

    O espectáculo Andorinha Só Não Faz Primavera, criado por Marcelo Evelin em co-criação com os artistas do programa,  “evoca um corpo que é em si uma multidão de formas em desaparecimento, numa cosmologia de mortos e vivos”.

    Para ficarmos a perceber melhor como se desenvolveu todo o processo, a RFI falou com o curador Marcelo Evelin e com o artista Abdulay Bragança Dias, de São Tomé e Príncipe, um dos treze artistas participantes do PACAP 9.

    Marcelo Evelin começa por explicar como se desenrola o método de candidatura.

    Marcelo Evelin, coeógrafo e curador do PACAP 9 :

     

    Normalmente, o Fórum Dança abre uma convocatória aberta a todo mundo, toda e qualquer pessoa, em qualquer país, de qualquer idade.

    O único critério é que seja uma pessoa que já tem algum trabalho, que não sejam iniciantes, mas que já tenham uma trajetória.

    Essas pessoas aplicam através de um questionário, onde, no nosso caso, a gente queria saber muito sobre o que motivava essas pessoas a trabalhar, como é que eles se sentiam em estar juntos, e nós seleccionámos 13 pessoas que, por acaso, mas talvez não tão por acaso, são pessoas que vêm mais das periferias do mundo.

    Ou seja, claro, tem cinco brasileiros, porque eu, sendo brasileiro e curando o programa, muitos brasileiros, conhecendo o meu trabalho, se interessaram em vir, então, entre os 13, são cinco brasileiros, mas também tem do Chile, Uruguai, Irão, Hungria, Espanha, Portugal e São Tomé e Príncipe.

    Foi uma coincidência, mas foi uma coincidência aceite, porque eu acredito muito nas periferias do mundo, nos lugares que estão em volta, de uma ideia de centralidade colonial, europeia. Eu fiquei muito feliz de poder manejar um pouco um conhecimento que vem das beiras do mundo e tentar trazer esse conhecimento junto, porque eu acredito que seja, de alguma maneira, uma parte dessa revolução por um novo mundo.

     

    O que é que o trabalhar com essas periferias permitiu neste espectáculo e poderá ser consolidado no futuro?

    Marcelo Evelin:

     

    Eu acho que a gente está trazendo outras lógicas, outras lógicas de estar junto, outras lógicas de habitar o mundo, de reconhecer a vida no mundo. É um trabalho também que, de alguma maneira, se expande para outras formas de vida. Nós não estamos falando só do humano, mas da vida em muitas formas diferentes, inclusive a vida que já não está mais aqui. Os mortos, no caso, que também ainda continuam a existir e a serem importantes dentro do nosso conhecimento, dentro do que a gente entende como mundo.

    Eu sinto que existem novas lógicas, novas ideias, novos propósitos para o mundo que estão vindo justamente desses lugares mais invisibilizados.

    Acho que existe no mundo, hoje em dia, um trabalho que deve ser feito, e já está sendo feito, de reparação, de descentralização de ideias, de conceitos que até então se formam de uma forma rígida. Eu acho que existem outras maneiras de pensar e estar no mundo. Talvez esse espectáculo, de alguma maneira, traga isso.

     

    É esse um papel da arte? É um papel do criador mostrar esses caminhos a uma ou outra parte do mundo?

    Marcelo Evelin:

    Eu acho que esse é um papel de todo e qualquer cidadão, de toda e qualquer pessoa que pensa e que tem um mínimo de decência e que tem um coração aberto. Acho que essas pessoas já devem reconhecer que nós vivemos num mundo violento, num mundo manipulado, num mundo em guerra em muitos lugares. Então, certamente, a arte tem um papel no sentido de abrir uma reflexão sobre o mundo em que a gente vive. Mas eu acho que é o dever de toda e qualquer pessoa reconhecer as formas de vida, preservar a vida e tentar acreditar num mundo melhor.

    Este espectáculo é um espetáculo intenso, arrepia, provoca coisas que o racional não tem como controlar e é o lado mais humano de nós que vem ao de cima. Qual o papel destes 13 bailarinos? Foi uma co-criação entre o Marcelo Evelin e os 13 bailarinos.

     

    Marcelo Evelin:

     

    Esse material veio dos 13 bailarinos, mas também material que foi digerido por 21 outros artistas que passaram pelo programa, que trouxeram seus processos, suas investigações e, de alguma maneira, os 13 bailarinos seleccionaram lógicas ou aspectos dessas pesquisas e trouxeram, colocaram em cima da mesa como material que a eles interessava trabalhar.

    Esse material foi trazido, foi visto e organizado por mim. Então, basicamente, é um material que vem deles. Nós passamos por muitas questões, muitos dos artistas que intervieram no PACAP trouxeram a ideia de ancestralidade, a ideia de outras formas de vida, a ideia de fantasmas, a ideia de considerar os mortos como também uma população, pensando-se em colectivo.

    Todos eles trabalharam com uma lógica de colectividade, de comum. O que é que temos em comum? E eu fico vendo que o que temos em comum é justamente essa emoção que nos deixa sem palavras, essa emoção que às vezes nos faz chorar, essa emoção que a gente não consegue explicar o que está sentindo.

    Para mim, eu acho que um espectáculo de dança, ele consegue chegar muito mais longe se ele acessa as pessoas nesse lugar, nesse lugar de não saber o que dizer, num lugar de estar movido, atravessado por alguma coisa que, quiçá, está por vir.

     

    Uma outra sensação que me foi transmitida pelo espectáculo é a sensação da valorização do individual dentro do colectivo.

    Marcelo Evelin:

     

    Que coisa boa que você viu isso, que coisa bonita ! Porque eu acredito em colectivo como um lugar onde a autonomia e a individualidade, se faz ainda mais forte.

    Para mim, colectivo não é consenso e nem é apagamento dos aspectos individuais, ela é um reforço, uma potência das autonomias colocadas juntas, às vezes até em dissenso, porque democracia é feita de dissenso para existir como um lugar comum.

    Então, que bom que você viu isso, porque eu acredito que um colectivo só pode ser pensado quando existe autonomia individual !

     

    Marcelo, qual é o futuro deste espectáculo? Fica por aqui?

    Marcelo Evelin:

    A princípio, sim. O PACAP é um programa de seis meses, específico. No ano que vem tem um outro PACAP, com outros curadores, com outro grupo de artistas seleccionados, com quem sabe, outras ideias.

    Mas eu acredito muito que o que a gente viveu colectivamente nesses seis meses vá dar frutos, vá-se expandir, se multiplicar, talvez de outras formas.

    Eu acho que um espectáculo nunca está fechado em si, ele sempre tem alguma coisa que gera, como uma pequena semente que pode gerar outras coisas, e eu acho isso o mais bonito da ideia de um espectáculo, um espectáculo que não se encerra, que não se fecha em si mesmo, mas que está aberto para produzir, se multiplicar, florescer em outros lugares e de outras maneiras.

    Abdulay Bragança Dias, até à apresentação do espectáculo foi um processo que durou seis meses, com workshops, com diferentes criadores, além do Marcelo, que é o responsável pela curadoria. Como é que foi esse processo desses seis meses de trabalho?

    Abdulay Bragança Dias:

    Não foi fácil, principalmente nos primeiros meses. Eu cheguei, não estou habituado com o frio, e para mim foi um bocado aquela adaptar ao frio e tudo isso, também aos workshops.

    Nas primeiras semanas estivemos sempre em grupo, estávamos todos juntos, então foi um bocado mais quente, nesse caso, estávamos todos juntos.

    Mas o programa, desde lá até cá, tem sido bom, só tenho boas coisas, boas memórias de todos os artistas que passaram, aprendi imensamente com eles.

    A participação do Abdulay e dos outros doze bailarinos, não foi só como bailarinos, participaram na criação, foram co-criadores do espectáculo. O que é que o Abdulay procurou trazer para este espectáculo?

    Abdulay Bragança Dias:

    Eu trouxe as danças tradicionais do meu país para o espectáculo. Eu já tinha feito um solo, durante o workshop nós fizemos vários projectos, solos, mas em conjunto.

    Mas houve uma semana específica que nós trabalhámos só individualmente, alguma coisa que nós queríamos mostrar, e foi disso que eu criei, um solo, com base nele e nas danças de São Tomé. Eu trouxe algumas danças de São Tomé especificamente para esse espectáculo.

     

    Um espectáculo que vai em crescendo e que termina nesse momento em que o Abdulay, os intervenientes, chamam, evocam pessoas, umas que já não estão presentes na nossa vida, na vossa vida, outras ainda. Como é que foi viver esse momento e colocá-lo, no fundo, perante todos os espectadores?

     

    Abdulay Bragança Dias:

     

    Esse é um dos momentos que eu acho que foi um bocado mais difícil de colocar em prática. Nós tínhamos que chamar aquelas pessoas que já não estão mais presentes, também algumas que estão presentes em nossas vidas ainda, ainda não faleceram, mas são pessoas que nós trazemos de forma a partilhar um palco connosco.

    Ao chamarmos por essas pessoas, nós estamos a dar vida a elas mesmas. Elas não estando cá presentes, mas nós as carregamos nos nossos corpos. Então, é uma forma de homenagear essas pessoas e dar, assim, um outro ênfase à criação.

     

    Abdulay, este trabalho está concluído. Após estes seis meses e a apresentação deste espectáculo, que não deixa ninguém indiferente, como é que este processo o vai ajudar, quando regressar a São Tomé e Príncipe, a dar continuidade à sua relação, à sua actividade, no mundo da dança?

    Abdulay Bragança Dias:

    Vai ser muito bom, está sendo. Eu até já tenho propostas de amigos e colegas, também da área da dança, que querem fazer alguns trabalhos comigo. Vou ter uma performance de acordo com o trabalho que vim desenvolvendo no PACAP.

    Estou trabalhando nas propostas, nas ideias do que pode ser implementado em São Tomé, quais são as alterações que eu posso fazer de forma a encaixar no quotidiano de São Tomé. É isso mesmo. Tenho ideias, agora falta saber se na prática vai funcionar.

    PACAP 9

    Curadoria - Marcelo Evelin

    Colaboração Artística - Bruno Moreno

    Criação e performance | Artistas Participantes PACAP 9 -

    Abdulay Bragança Dias, Bruna Danesi, Camila Delgado, Déborah Alessandra Soares, Federico Brocal, Johanna Szőke, Julia Domínguez, Manuela Libman, Maria Ramalho, Maria Tamarit, Mel Paiva, Parvin Saljoughi, Paula Otero

    14 min
  • Falta um milhão de enfermeiras obstetras /parteiras para salvar 4,3 milhões de vidas por ano

    O mundo tem falta de quase um milhão de enfermeiras obstetras/parteiras. A evidência, apresentada pela Confederação Internacional de Parteiras (International Confederation of Midwives) mostra que com mais um milhão de enfermeiras obstetras / parteiras seria possível evitar 67% das mortes maternas, 64% das mortes neonatais e 65% dos nados mortos, e, assim, salvar até 4,3 milhões de vidas por ano até 2035.

    Para responder a este desafio, o 34.º Congresso Trienal da Confederação Internacional de Parteiras, o maior encontro mundial de enfermeiras obstetras /parteiras, juntou mais de três mil profissionais do sector em Lisboa.

    No evento organizado pela Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, durante cinco dias, enfermeiras obstetras/parteiras, investigadores, educadores, decisores políticos e parceiros de todo o mundo estiveram reunidos para partilhar conhecimento e evidência científica, discutir desafios de saúde à escala global, fortalecer a profissão de enfermeira obstetra /parteira, promover a saúde sexual, reprodutiva, materna, neonatal e adolescente.

    Para nos ajudarem a perceber a situação que se vive em Portugal e na Guiné-Bissau, a RFI falou com a vice-presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), Isabel Ferreira, e com a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstetras da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes.

    Se em relação a Portugal, apesar da excelente formação das enfermeiras obstetras, é apontada a existência de uma vontade dos decisores políticos para reduzir os cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde e empurrar os utentes para fora do SNS, fazendo crescer o negócio de privados; em relação à Guiné-Bisssau, as situações sócio-política e económica do país são indicadas como elementos que impossibilitam que os profissionais prestem melhores cuidados de saúde materna, neonatal ou infantil.

    A vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira, começa por nos explicar quais as regiões do planeta onde a falta de enfermeiros obstetras / parteiras tem um impacto maior.

    Vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira:

     

    Se pensarmos em termos de mortalidade materna e infantil, a situação assim mais intensa, estamos a falar dos países subdesenvolvidos, e, essencialmente, ali na região da Ásia, África, são as regiões mais afectadas e que faria mais diferença.

    Mas outros países e outras regiões têm outro tipo de desafios. Então, também precisamos de mais parteiras, se calhar não tanto em quantidade, mas, às vezes, até em termos mais de autonomia das suas funções, por exemplo. Porque alguns países como Portugal e muitos países aqui da Europa, enfrentam o problema do excesso de medicalização, que está inclusive agora a trazer questões graves de morbilidade e até de mortalidade.

    Por exemplo, aqui em Portugal, estamos a assistir a um crescimento da taxa de mortalidade materna, o que nos assusta. Portanto, tem sido sustentado nos últimos anos e estamos ainda à procura das causas, mas acredita-se muito que o excesso de medicalização poderá estar na gênese deste aumento. Aqui, o trabalho dos enfermeiros obstetras poderia ser muito diferenciador.

     

     

    Qual é, então, o retrato que nos pode fazer da condição dos enfermeiros obstetras em Portugal?

    Isabel Ferreira:

     

    A profissão de parteira, de enfermeiro obstetra, está ligada inicialmente à enfermagem. Portanto, são 4 anos de enfermagem, depois 2 anos a trabalhar como enfermeiro e depois tira-se uma formação de mais 2 anos para se aceder, então, à formação diferenciada de formação de enfermeiro obstetra. Então, é uma formação altamente diferenciada, o enfermeiro obstetra é preparado para diversas situações em autonomia.

    O que acontece é que, depois, na prática, quando vamos para os diferentes locais, nem sempre lhe é permitido exercer essas funções. Então, temos locais do país em que as mulheres têm a sorte de ter um profissional que consegue oferecer-lhes toda a diversidade de serviços, foi preparado para isso, e outros locais em que os próprios hospitais ou instituições limitam a autonomia do enfermeiro obstetra, não lhes permitem trabalhar em tudo aquilo que eles estão preparados para trabalhar.

    Aqui, esta limitação da autonomia, esta falha na gestão de cuidados, está a fazer com que, se calhar, por exemplo, há serviços hospitalares, como aqui na região de Lisboa, que estão a ser encerrados, estão a negar acesso às grávidas em trabalho de parto, quando têm lá profissionais altamente qualificados para as receber e que são impedidos de o fazer, que são os enfermeiros obstetras.

     

    Qual a razão para não ser permitido aos enfermeiros obstetras trabalharem?

    Isabel Ferreira:

    Tem a ver com este modelo biomédico e hierarquizado dos nossos sistemas de saúde. Portanto, estamos a tentar já há alguns anos alterar e trabalhar mais em equipa, em interdisciplinaridade, mas o sistema está muito focado ainda no poder médico e, portanto, há uma dificuldade em reconhecer as competências dos outros profissionais que não médicos.

    E não é só a questão dos enfermeiros obstetras, é a questão dos enfermeiros no geral, a questão dos psicólogos, dos nutricionistas e, portanto, temos que agora ultrapassar isso, esta questão dos egos e dos poderes e começarmos todos a trabalhar em interdisciplinaridade com as forças de cada um.

    Porque todos têm muito para oferecer e, se nós trabalharmos com as forças de cada um, vamos ter muito mais tempo para fazer o nosso trabalho. Não andamos a fazer o trabalho dos outros, cada um fazendo o seu trabalho, quem vai ganhar vão ser as mulheres, vão ser os nascidos e vai ser a população em geral.

    Os meios de comunicação social, de algum tempo a esta parte, têm dado conhecimento de uma quantidade de partos que acontecem em ambulâncias. A que é que isso se deve?

    Isabel Ferreira:

     

    Nos últimos dois anos foi dramático o aumento dos partos que acontecem efectivamente em trânsito nas ambulâncias, o que implica um risco muito grande. Às vezes, vão para a comunicação social dizer que os bombeiros estão preparados, os bombeiros estão tão preparados para acompanhar um parto como eu estou preparada para apagar um incêndio. Também tenho formação, mas obviamente que não se compara com os bombeiros, não se pode comparar um bombeiro com uma enfermeira obstetra. Portanto, está a ameaçar a saúde das mulheres.

    O que é que está a acontecer? O que aconteceu é que aumentaram o número mínimo de médicos que se considera essencial para manter o serviço aberto.

    Então, agora têm menos médicos e estão a fechar serviços, que ainda que tenham médicos, fecham os serviços porque não têm aquele número que eles acham que é o mínimo, o que não faz sentido.

    Então, para isso mais valia criarmos unidades de cuidados na maternidade, por exemplo, unidades só com enfermeiros obstetras que recebem pelo menos as mulheres que não têm complicações e que não têm que viajar 100 quilómetros ou andar a bater à porta de 3 ou 4 hospitais até serem admitidas finalmente no serviço, que é isso que está a acontecer. As mulheres ligam para o SNS 24, às vezes leva um tempo enorme para ser respondido, às vezes enganam-se a orientar e às vezes é só a terceira vez é que encontram um hospital onde vão ter o seu bebé.  

    E claro, nesta procura e em trabalho de parto, às vezes o parto acontece nas condições que não são devidas, que são em ambulâncias. Isto não faz sentido em termos de experiência de nascimento, que também é uma coisa muito importante, mas também implica riscos acrescidos. Portanto, temos que repensar nas nossas políticas de saúde, e aqui os enfermeiros obstetras em Portugal, claramente poderão fazer uma diferença muito grande para ajudar a eliminar o problema que estamos a viver.

     

    Esses serviços que são encerrados, condicionantes que são colocadas às famílias, às grávidas, não haverá depois pessoas que perante essas dificuldades vão procurar serviços privados?

    Isabel Ferreira:

     

    Sim, neste momento, principalmente na Grande Lisboa, estamos a ver essa clivagem. Estamos a ver claramente que as pessoas que têm seguros de saúde, com estas dificuldades todas, ... Quer dizer, eu entro em trabalho de parto, nem sequer sei para onde é que vou.

    Esta instabilidade está a fazer com que as pessoas vão essencialmente para os hospitais privados. O hospital, neste momento, que tem mais partos do país é um hospital privado e aqui da região de Lisboa. Portanto, no público, principalmente aqui nesta região centro, no público vão essencialmente as pessoas que têm menos capacidades económicas, que têm mais dificuldades ou dificuldades sociais ou então as pessoas que ainda que tendo dinheiro têm, por exemplo, uma patologia grave.

    Porque, ainda assim, o público é aquele que oferece acompanhamento mais diferenciado. Portanto, o privado mediante uma grande complicação vai encaminhar para o hospital público.

    Então, estamos com uma sobrecarga muito grande do público. Só tem grandes situações de grandes complicações e de grandes emergências ou então situações de questões sociais também mais intensas.

     

    Podemos dizer que existe um desenho político nas opções que estão a ser tomadas?

    Isabel Ferreira:

     

    Eu não tenho dúvida nenhuma e nota-se uma grande diferença com as variações políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. Estamos a falar da saúde da população, não devia ter cor, a população, as pessoas deviam estar em primeiro lugar e não os ideais e os poderes. Portanto, isto é importante falar, tirar o elefante da sala. Vamos estar todos juntos e tentar solucionar este problema que está a tornar-se muito, muito grave.

    Estamos a falar do momento em que a mulher dá à luz, em que as crianças chegam a este mundo, mas o trabalho da enfermeira obstetra, principalmente em Portugal, não fica reduzido a esse momento?

     

    Isabel Ferreira:

    Não, o enfermeiro obstetra tem competências para acompanhar a mulher em todo o seu ciclo vital, desde o seu nascimento, a primeira menstruação, a educação sexual nas escolas, a educação menstrual, a fertilidade, toda a saúde feminina no global, a gravidez, o parto, o apoio à amamentação e depois também na altura da menopausa, ou seja, é um acompanhamento global e continuado da saúde da mulher.

     

    A enfermeira obstetra em Portugal tem formação para lidar com todas essas situações, agora a questão é: é devidamente aproveitada em Portugal ou é mais reconhecida quando sai de Portugal para países que procuram precisamente o nível de formação que as enfermeiras obstetras portuguesas têm?

    Isabel Ferreira:

     

    Há uma grande diversidade de ofertas de cuidados no nosso país. Há locais em que não é permitido de facto que o enfermeiro obstetra exerça a total capacidade que tem e outros em que há realmente bastante autonomia, isto faz com que alguns enfermeiros obstetras estejam a emigrar e vão para outros países exactamente fazer aquilo que não lhes estão a deixar fazer cá em Portugal, o que é uma pena.

    Quer dizer, estamos a investir dinheiro e tempo a formar estes profissionais altamente competentes e depois não aproveitamos as suas competências, de tal forma que alguns até se sentem desmotivados e vão emigrar e são aproveitados por outros países.

    Nós temos muito assédio dos outros países para os enfermeiros obstetras portugueses pela qualidade da nossa formação e aqui em Portugal não estão a aproveitar. Por exemplo, agora, este governo lançou uma directiva para as situações de grávidas que não estão a ser acompanhadas no Serviço Nacional de Saúde porque não há médicos de família para as acompanhar, os enfermeiros obstetras lançaram-se à frente, nós estamos disponíveis, nós queremos apoiar, nós temos conhecimento e o governo disse, sim senhor, vamos numa directiva para vocês acompanharem em full, mas vamos criar uma comissão para operacionalizar isto.

    Criaram uma comissão, colocaram médicos que estão a boicotar, que estão a dizer, “ah, muito bem, vamos fazer isto, mas tem que ter um médico de família”, um médico de família que não existe, portanto, é morrer na praia, como se costuma dizer.

    Não faz sentido, ou vamos fazer uma diretciva para cumprir ou fazer uma diretiva só para fazer publicidade, é que não. Portanto, queremos saber o que é que se passa, porque é que está a ser tão difícil para estas equipas que se mobilizaram, que têm os profissionais de saúde para apoiar estas mulheres que não estão a ter resposta, não estão a ser acompanhadas e não estão a deixar de trabalhar. Temos que perceber o que é que está a acontecer.

     

     

     

    Titina Lopes Gomes é a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstétricas da Guiné-Bissau. Pode elucidar-nos sobre a importância de participar no maior encontro mundial de enfermeiras obstétricas parteiras.

    Presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstétricas da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes :

     

    Este congresso é muito importante para qualquer organização, e então para a Guiné-Bissau, porque neste momento, posso dizer, estamos na fase embrionária, porque a associação foi criada recentemente, em 2016, e temos várias dificuldades.

    Este congresso ajudou muito, porque é uma forma de partilhar a mensagem, é uma forma de unificar a voz, é uma forma de saber como é que outras organizações, ou associações de ordem, estão a trabalhar em outros países. Posso dizer que além do benefício que dá para a associação, também, foi muito importante para mim.

    Adquiri conhecimento, criei amizade com outras pessoas de outros países, assistimos diferentes sessões, tanto em inglês como em francês, foi muito, muito importante para nós.

    Como estamos na fase, como eu disse, fase embrionária, porque foi criada recentemente a Associação de Parteiras da Guiné-Bissau, entrei em contato com colegas de Portugal para nos poderem ajudar na elaboração de alguns documentos. A nossa Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstétricas ainda não tem o Código Dentológico. E também em relação ao regulamento, que devia ser baseado, ou então de acordo com regras de outros países mesmo.

    Como eu disse, entrei em contato com a Associação de Enfermeiras Obstétricas de Portugal, até peguei o contacto do vice-presidente, que é a Isabel, entrei em contacto com a Associação de Burkina Faso, com a Associação de Quénia, com o presidente da Confederação, da Associação da zona de CEDEAO, na África Ocidental. São contactos que fiz durante o Congresso para nos poder ajudar a organizar os documentos e para poder ajudar melhor a crescer a classe.

     

    Qual o tipo de trabalho que desenvolvem enquanto profissionais e quais os principais obstáculos que enfrentam na Guiné-Bissau?

    Titina Lopes Gomes:

     

    Eu acho que pode ser diferente com outros países, por exemplo, Portugal. Na Guiné-Bissau, as parteiras, ou enfermeiras obstétricas ou enfermeiras de curso geral, trabalham directamente com grávidas, fazem consulta pré-natal, fazem o parto. São as parteiras ou enfermeiras treinadas que fazem o parto aqui na Guiné-Bissau.

    Só quando tem um parto complicado ou tem necessidade de uma cesariana é que chamamos o médico. Mas se é um parto normal, é feito pelas parteiras ou então enfermeiras obstétricas ou enfermeiras de curso geral treinadas para isso.

    Em relação aos obstáculos, realmente temos vários obstáculos, principalmente o fraco treinamento ou capacitação, porque realmente os técnicos precisam ser treinados ou então capacitados sempre.

    Mas isso não acontece porque no país, com a situação sócio-política, temos dificuldade em termos de parceiros para poder ajudar a preparar ou então em treinar regularmente os técnicos que trabalham ligados com saúde materna, neonatal e infantil.

    A outra dificuldade é em termos de materiais ou consumíveis. Às vezes, você faz um procedimento que precisava de usar equipamento de proteção individual, mas às vezes carece dessas proteções.

    Estamos a trabalhar, muitas das vezes, expostos a qualquer doença, porque não temos disponibilidade de medidas de proteção individual. Também a nível do país, temos fracos recursos humanos, afetação de recursos humanos nas regiões. Temos recursos humanos mais concentrados a nível de cidade.

    A nível rural, às vezes você encontra dois, três técnicos, quatro técnicos num centro de saúde e não tem médico. Eles é que fazem tudo e tudo mesmo. Consulta de criança, de adulto, a vacinação, a nutrição, tudo no pacote.

    É feito pelo enfermeiro ou então parteira nas estruturas a nível de regiões. Outra coisa ,em relação aos obstáculos, uma enfermeira ou uma parteira é colocada na região, às vezes fica lá 15, 20 anos sem ser movimentada, às vezes tem um problema de saúde para ser transferida para a zona onde pode ter acesso aos cuidados, às vezes temos dificuldade nisso.

    Outra dificuldade mesmo, nós técnicos de saúde aqui na Guiné-Bissau, às vezes você fica doente. Essa doença pode ser da origem do serviço, mas você carece de oportunidade de poder ir fazer uma consulta no exterior, por exemplo. Se tem um problema, você quer fazer uma consulta em Portugal, você tem dificuldade de ter acesso de chegar.

    Muitos técnicos aqui morrem sem conseguir ter o acesso a visto para ir fazer a consulta em Portugal.

     

    18 min

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