Dina Salústio escreveu "A Louca de Serrano". O icónico romance, que é considerado a primeira obra de ficção escrita por uma mulher em Cabo Verde, e já inspirou múltiplos estudos académicos em instituições de diferentes latitudes, conheceu a primeira edição em Cabo Verde no ano de 1998. Agora, A Louca de Serrano tem a edição portuguesa com a chancela da Rosa de Porcelana.
A reconhecida e premiada autora cabo-verdiana Dina Salústio, que é membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras, está em Portugal para o lançamento da edição portuguesa de A Louca de Serrano.
A RFI aproveitou a ocasião para entrevistar Dina Salústio. Um momento onde, entre outros temas, nos fala de Cabo Verde, da força da mulher cabo-verdiana, de crianças, da solidão, de machismo, de suicídio, de democracia, e de como conseguiu avançar na direcção de publicar a primeira obra.
Dina Salústio: Em Cabo Verde não havia tradição da mulher publicar. O primeiro livro que foi publicado por uma mulher foi depois da Independência. Até lá não havia um livro assinado por uma mulher cabo-verdiana, em Cabo Verde.
Nós não tínhamos essa tradição de escrever, de publicar. Eu já tinha visibilidade na literatura, porque eu trabalhava na rádio, tinha dois programas financiados pela Unesco, para temas diversos, apoio às crianças na aprendizagem do português. Eu aproveitava e tinha os meus textos todos na rádio e nos jornais também. Aquilo que sobretudo os homens queriam, um bocado de visibilidade, para mim já não fazia sentido, porque eu já estava.
Entretanto, fiz o romance e apresentei a dois grandes amigos meus, dei o livro para ler. Eles disseram que gostaram, mas assim, aquele gosto que não te comprometes. Eu fiquei assim um bocado desiludida, mas não desisti, guardei o livro. Entretanto, uma editora, numa revista de Artes e Letras, Laritza Rodrigues, disse, “e se a gente publicasse em fascículos?” Eu disse, “olha, pode ser”, porque é uma tradição já dos escritores, publicar os seus livros em fascículos. E publicou a sinopse do primeiro capítulo.
Entretanto, nós desistimos, não sei porquê, mas havia um hiato muito grande entre a saída do um número e o outro, nós desistimos dessa forma.
Mais tarde, José Luís Hoppfer Almada e mais José Vicente Lopes, grandes amigos meus, donos de uma editora, conseguiram um financiamento, porque o problema do financiamento era muito grave em Cabo Verde. Conseguiram um financiamento e publicaram o meu livro, mas já muitos anos depois.
A Louca de Serrano, como é que aparece? Eu não queria escrever sobre a loucura, claro, queria escrever sobre o isolamento, sobre a solidão, sobre o silêncio, sobretudo.
Porque era um quadro que eu via muitas vezes, seja dentro de famílias, seja fosse nas comunidades, então eu resolvi escrever isso. Mas depois, já sabe, os personagens tomam conta do livro. E no fim, a meio, aliás, do livro, eu vi que já estava a falar sobre a loucura. E vim ver então como é que a loucura chega às páginas do meu livro. Era tudo resultado do silêncio, da solidão, da não fala, da exclusão, do machismo, da violência. Tudo isto levou à loucura.
RFI: É uma loucura que é um pouco de um retrato da sociedade cabo-verdiana?
Um pouco, um pouquinho, talvez, da sociedade cabo-verdiana. Mas também, neste momento em que nós estamos a falar de doenças mentais, de desequilíbrios, de anomalias, de pessoas que fogem rapidamente de uma margem para a outra, uma insegurança muito grande, eu acho que é um fenómeno mundial.
Quer dizer, há um silêncio sempre a perseguir-nos, que está dentro de nós, por exclusão, por preconceito, por falta de atingir os objectivos. Nós estamos muito pouco resistentes a uma força interior que nos eleva para cima da loucura, que eu chamo loucura, mas não será loucura, claro, em termos médicos, em termos clínicos. É essa loucura de não se dominar o momento.
Eu acho que a loucura preocupa toda a gente, porque nós, em princípio, nós queremos viver numa sociedade onde a gente se olha nos olhos e, quando estamos perturbados, não conseguimos enfrentar. Olhar nos olhos é enfrentar a vida, é enfrentar os problemas, é enfrentar sobretudo a nós mesmos.
E a questão do suicídio, por exemplo, suicídio em jovens, eu penso que não será mesmo uma loucura identificada clinicamente, mas é uma fraqueza dos nossos jovens.
Eu estou a falar do suicídio nos jovens aqui, em Cabo Verde, em qualquer lado. Em todos os lados nós estamos a ver isso, miúdos que, de repente, desistem. Eu acho que eu queria que os nossos jovens não desistissem, que a nossa sociedade se preocupasse mais com os filhos, com os alunos, com as pessoas, com os jovens, e que lhes desse essa esperança que está em nós. Nós habituámo-nos a um certo comodismo e esquecemo-nos de nos valorizarmos.
Eu penso que isso é que está a levar um bocado, esse tipo de loucura, esse tipo de desistência que o livro fala.
Entretanto, no livro, a louca de Serrano, essa louca é uma jovem que é a consciência do povoado de Serrano. Aquilo que as pessoas não querem ouvir, aquilo que elas não querem dizer, aquilo que elas não querem sentir, está sempre ali a louca de Serrano pronta para lhes dizer a verdade, para incomodar, para perturbar.
A nossa sociedade precisa de gente que incomode! Precisa de gente que perturba o lar tranquilo.
Este é o momento do lançamento em Portugal de uma obra que já tem alguns anos de editado em Cabo Verde. Há outros trabalhos para serem editados, já escritos?
Sim, já tenho um trabalho escrito, um romance. Mas deu uma volta e eu parei. Parei porque acho que faltava qualquer coisa, que falta qualquer coisa no romance. Muitas vezes a gente escreve um romance e depois fica... diz porque é que eu fiz disso?” Não que eu tenha posto esta questão, o que é que eu fiz com estes personagens e com esta história. Mas deu uma volta e eu... Está à espera, eu sou uma mulher de espera.
Mas pode revelar um pouco, o que é que esse romance nos vai trazer?
Vai trazer memórias. Não minhas, mas memórias de uma sociedade.
Tenho uma personagem, é uma mulher que cumpre o seu papel enquanto pessoa da sociedade. Ela não é referência, ela é uma anónima e está lá tranquila e ela vai contar a história de uma vida e vamos ver que essa vida percorre vários sítios, vários lugares. E daí constituiu a história de memórias, de reflexões.
As mulheres são sempre um pilar, se não o pilar das obras que escreve.
Sim! Claro, claro! Os protagonistas são mulheres, mas têm uma razão de ser, é que em Cabo Verde as mulheres são o pilar da sociedade. Quando você fala numa mulher, você automaticamente imagina uma família, imagina os velhos, imagina as crianças, imagina um companheiro, ou a ausência do companheiro.
Imagina uma mulher que se levanta de manhã cedo para ir trabalhar e que só volta à noite e que não consegue ver os olhinhos dos seus filhos durante o dia, só apenas ao fim de semana. Portanto, quer dizer, ela é a protagonista, mas por ela passam os homens, passam as outras mulheres, passa a sociedade, a governação, passa a vida de todos os dias.
O que é que procura quando escreve contos, livros infantis, poemas, romances?
Eu sou professora primária de formação, a minha primeira formação é professora primária. Então, quando começo a escrever um livro infantil, por exemplo, eu penso nas crianças. Quando escrevo um livro para adultos, eu penso ainda nas crianças. Mas não é o pensar em termos de dedicar a ele, eu penso na evolução dessa criança.
Enquanto escritora, eu penso que não tenho um papel definido. Eu escrevo porque quero, embora tenha sempre um objectivo prático. Eu sou pessoa de participação.
Eu quero participar, eu escrevo. Eu quero contar, quero narrar, quero dizer, quero escrever Cabo Verde. Por isso é que sou escritora cabo-verdiana, eu escrevo Cabo Verde.
Mas eu acho também que não tenho um papel na sociedade. Só que eu procuro ser honesta. Como qualquer profissional, nós queremos ser sempre honestos. E eu penso que aquilo que passo para o papel é uma forma sempre positiva. Sempre positiva da vida, sempre mostrando aquilo que eu penso ser um caminho possível de cruzar.
O seu processo de escrita é um processo que leva tempo a respirar, porque as edições, os livros que apresenta, levam o seu tempo a aparecerem ao público. Está a pensar-se no leitor quando escreve?
Eu, quando escrevo, penso no leitor. Até tenho fotografia do leitor comigo. Eu gosto de estar a escrever e olhar para o leitor, para a leitora, e dizer que ele vai gostar, isso servirá para ele. Eu faço sempre isso, aprendi isso no curso de jornalismo. Você, quando quer fazer uma notícia, põe a fotografia do hipotético ouvinte à sua frente. Eu faço isso com a escrita. Mas sabe, a escrita para mim é um hobby, não é uma profissão. Quando tenho um tempinho eu escrevo. Sou uma pessoa de muitos afazeres, de muita participação, de muita coisa. Então fica-me pouco tempo para escrever. Mas eu acho que estou sempre a escrever, só não publico (risos).
Enquanto mulher cabo-verdiana, como é que vê a participação das outras mulheres cabo-verdianas na sociedade cabo-verdiana?
A mulher cabo-verdiana é mais do que metade da sociedade cabo-verdiana. Nós somos a maioria. Pelo menos éramos. No aspecto social, económico, familiar, a mulher está sempre ali, sozinha muitas vezes. Por incompatibilidades, por posições machistas, por posições levianas, masculinas, a mulher encontra-se sempre muito só com a família. Por aí, 60% dos chefes de família era formada por mulheres.
Mas isso não é uma questão que nos dê força. É triste, porque vemos que todo o peso cai sobre ela. Toda a responsabilidade cai sobre ela. E nós fomos pensar se teríamos uma sociedade diferente, se houvesse um companheiro a ajudar no dia-a-dia, com os filhos, com a família, com a saúde, com a alimentação. A mulher é, sem dúvida, a força de Cabo Verde.
Cabo Verde tem, neste momento, já mais de 50 anos de independência. Qual é o balanço que faz deste tempo de independência?
Tem que se fazer um retrato do quando chegámos à independência. Meia dúzia de médicos, uma dúzia de enfermeiros, poucos professores formados, nenhuma mulher num cargo elevado. E tudo isto o que é que faz? Dá a ideia de uma sociedade desigual. Não há nenhum livro publicado por mulher. As médicas são poucas, uma médica. Era tudo desequilibrado. Morria-se, nós tínhamos fome em Cabo Verde. Nós tínhamos pobreza, miséria em Cabo Verde. Tínhamos a imigração forçada para Angola, para Senegal, para São Tomé.
É quase impossível lembrarmos tudo isso, porque com o tempo a memória vai querendo esquecer toda a sociedade miserável em que vivíamos. Uma sociedade injusta e sobretudo uma sociedade muito machista. Era ilegítimo a maneira como nós vivíamos.
Depois da independência, devagar, devagar. A gente não está numa fase ideal. Depois já temos uma democracia, que é uma coisa fabulosa. Dizer que um candidato ganha por um voto e o candidato adversário aceita, isto é uma prova de democracia pouco vista. O resto vai devagar. Mas temos todos os meninos e meninas no ensino. Temos universidades.
Está tudo bem? Mentira, não está tudo bem.
O que é que falta fazer? O que é que gostaria que já tivesse feito?
Que tivéssemos feito, não sei. Mas falta qualidade, falta o emprego. Falta o emprego que dá dignidade às pessoas. O emprego que dá força às mulheres, uma forma de vida económica favorável, estável. Quer dizer, por causa de uma vida económica estável é que as pessoas conseguem ter paz, conseguem ter orgulho e conseguem ter vontade de participar no mundo onde estão. Porque sentem-se iguais. O resto é tudo… vamos dar ao alcoolismo, vamos dar à prostituição, vamos dar uma série de coisas que saem da falta de uma vida económica independente.