Identificam-se como SAS Orquestra de Rádios e há 13 anos que usam a liberdade criativa para dar corpo sonoro a antenas analógicas e pequenos rádios de bolso modificados.
O colectivo, formado por Simão Costa, Ana Trincão e Sónia Moreira, usa os instrumentos inusitados que cria e toca para promover uma busca por novas linguagens que se traduzem em experiências sonoras.
Como projecto precursor essencialmente experimental, cada apresentação da SAS Orquestra de Rádios é única e irrepetível.
É neste momento da vida, que jamais voltará a acontecer, que artistas e público se podem encontrar e se convocam para desenhar uma estética sonora de música e ruído.
O desafio proposto pela SAS Orquestra de Rádios pode, inicialmente, não ser dos mais apelativos, mas há quem reconheça como efeitos positivos o facto de poder ter qualidades de renovação do sistema auditivo e inspirar viagens imagéticas.
Para comemorar mais de uma década de actividade, a SAS Orquestra de Rádios lançou recentemente o primeiro disco, o vinil Rosas.
A RFI quis saber mais sobre a SAS Orquestra de Rádios e foi falar com o colectivo.
Infelizmente Simão Costa não pode estar presente, a nossa conversa aconteceu com Sónia Moreira e Ana Trincão, que começa por contar como nasceu um dos colectivos artísticos mais ludicamente vanguardista em acção em Portugal.
Ana Trincão, SAS Orquestra de Rádios:
Juntámo-nos em 2013, fizemos uma residência artística no norte de Portugal, num lugar chamado São Pedro do Rio Seco. Nessa residência, era uma residência em que tinhas que interagir com a comunidade, nós pedimos à comunidade que nos entregasse antenas de televisão, que naquela altura deixavam de ser utilizadas, porque havia uma mudança no canal da televisão em Portugal, e que nos entregassem também rádios antigos. O nosso intuito era, com isso, começar a construir uns instrumentos que juntavam rádios ligados a antenas e fazíamos uns instrumentos de DIY (Do It Yoursef) que tinham uma espécie de lógica, a lógica mais ou menos do Theremin. E foi nessa residência que tudo começou.
Nós não sabíamos muito bem o que é que ia acontecer, mas o SAS Orquestra de Rádios nasce precisamente da construção desses objectos e depois de concluirmos que estes objectos tinham sonoridades particulares. Ao descobrirmos estas sonoridades, começámos a ter uma vontade de os fazer tocar juntos. A ideia da orquestra nasce daí, de fazer tocar estes instrumentos que nós construímos nesta residência.
Como é que fazem funcionar? Como é que retiram o som dessas antenas, desses rádios? Como é que interagem com os objectos para que produzam som?
Sónia Moreira, SAS Orquestra de Rádios:
Os rádios que nós requisitámos são aqueles rádios de bolso básicos, que têm duas pilhas, que têm três volts, e é imaginar um género de um círculo em que esse rádio, quando aberto o seu sistema, com fiozinhos e solda, ele depois é ligado à antena, que neste caso, algumas eram antenas de telhado. E então, na própria parte experimental e de criação dessa residência artística, eu, o Simão e a Ana, fomos tentando criar circuitos, até que com o toque, entre uma ponta e outra da antena, com o rádio ligado, com o volume ligado, produz som.
Mas também produz som porque o corpo é condutor de energia, e é assim que eles funcionam. É um género daquilo que se chama um Circuito Bending, que é pensar num círculo que só funciona quando ele está fechado e deixa de funcionar quando está aberto.
A nível do som que emite, não só emite um som mais agudo ou mais grave conforme vamos pressionando no objecto, conforme o toque, mas também emite rádio. Por isso, nós conseguimos sintonizar ao mesmo tempo que deixamos emergir essa rádio, esse eter, dependendo se é Am ou FM, mas também vamos interagindo com aquilo que vai acontecendo com o toque na antena.
Esta vossa acção, esta vossa actividade, como é que podemos identificar? Música? Trabalho com som? Como é que pode ser identificado?
Ana Trincão:
Olha, acho que a gente pensa em música, pensa em som, pensa em todas essas nomenclaturas. E a ideia também é poder brincar com o que é que é a música, o que é que é tocar um instrumento, o que é que é composição, o que é que é experimentação. Eu acho que nós, na verdade, mesmo quando falamos do projecto, variamos. Dependendo daquilo que estamos a falar, vamos variando no nome que utilizamos para definir aquilo que estamos a fazer. Por isso, às vezes é música, às vezes é noise, às vezes é espaços sonoros. Então, eu acho que, na verdade, a SAS trabalha um pouco o universo do som, talvez, como um todo, sem querer ou ter pretensão nenhuma de se inserir em nenhuma dessas categorias ou particularidades. E eu acho que isso também nos permite ser livres criativamente e despreocupados em relação àquilo que estamos a fazer e a produzir.
Eu acho que é muitíssimo lúdico e experimental para nós. É permitir que os adultos brinquem, de certa maneira. E isso dá-nos, acho que, uma enorme liberdade criativa.
Portanto, respondendo à tua pergunta, acho que é tudo isso e qualquer coisa em específico cada vez que estamos a criar com os rádios.
Olhando para a história da música, dos compositores, há alguma referência que possam indicar que tenha trabalhado algo idêntico?
Sónia Moreira:
O Xenakis (Iannis Xenakis), não é que ele nos tivesse servido de referência, mas, para mim, a posteriori, é de todo uma referência. Porque, como a Ana disse, e bem, não é que a gente se insira em algo específico, mas há coisas específicas que nos vão acontecendo.
O Simão trazia-nos o Ligeti (Gyorgy Sándor Ligeti) sempre, que é uma pauta, que é escrita, para mim é mais desenhada do que escrita, mas, lá está, talvez seja mesmo defeito de profissão, com, imagina, círculos que são puxados ou com linhas repetidas. Não estás a falar de uma escala normal, do Ré Mi Fá Sol Lá Si, com cinco linhas e com o Dó Cá Embaixo, com uma clave de Sol, uma clave de Fá, não estamos a falar disso.
Estamos a falar de uma coisa que é escrita no abstracto, são formas abstractas. E o Simão trazia-nos muito esse Ligeti, que nós usávamos também depois para trabalhar os workshops que fazemos com todo o tipo de público, que é onde o público toca as antenas, mas também desenha um género de umas partituras imaginárias baseadas nesse compositor, no Ligeti, com formas, linhas, com cores, sem cores, e depois tinham que as interpretar sonoramente com as antenas. Por isso, também é uma das referências que nós usávamos.
Agora, há uma coisa que a gente diz sempre, que não tem nada a ver, falamos sempre, sempre no Mike Patton, dos Faith No More. Há qualquer coisa que nos une aos três, e temos um desejo escondido que era enviar um vinil ao Mike Patton. Se alguém tiver o contacto, por favor.
Ana Trincão:
Acho que o Cage, a gente sempre falou muitas vezes do John Cage. A forma como se compõe, como se pensa a música, e como se pensa a ausência da música também, ou do som. E acho que ultimamente Einsturzende Neubaten, por exemplo, principalmente no início da carreira deles, quando eles tocavam debaixo das Pontes de Berlim, onde eles se rebentavam com metais. Acho que também são referências que nós sempre conversámos e até hoje nos inspiram.
Sónia Moreira:
E é um universo visual, linguístico e conceptual que nos diz muito.
Quando acontece de fazerem uma apresentação ao vivo, qual a percentagem de aleatório que há ou não nessa apresentação ao vivo?
Ana Trincão:
O que é que acontece? De facto, nós temos, diria, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete instrumentos, que nós construímos. Para além desses instrumentos, em concerto nós usamos às vezes uma beatbox, e algumas vezes field recordings, sons gravados, ou um bocadinho de voz, ou uma música qualquer, outros apontamentos que usámos no disco, mas também já usámos em concerto. Nós sabemos, porque tocámos estas antenas há 13 anos, que elas têm particularidades a nível do som.
Algumas são mais agudas, outras mais graves, umas apanham melhor o rádio, outras têm mais capacidade de criar ritmos, outros instrumentos têm uma qualidade mais solista, menos ritmado, é mais orgânico o som que produzem. Então, nós trabalhamos com este potencial. Mas, exatamente que som é que vai sair naquele momento daquelas antenas, nós não conseguimos controlar tão bem. Depende de quanto rádio se apanha, qual é a frequência que se apanha, a localização da sala, depende realmente de muita coisa. Portanto, a nossa prática faz com que a gente possa tentar organizar a dinâmica do concerto, o som, efetivamente, e as surpresas inúmeras que sempre nos acontecem, como feedbacks, retroalimentações. Coisas que nós não conseguimos controlar, também acontecem muitas vezes.
Acho que aquilo que nós sabemos é como lidar com essas situações, ter sensibilidade para ouvir aquilo que estamos a produzir e trabalhar muito em tempo real. Há um universo, há um espectro, mas é irreprodutível, nós nunca fazemos concertos iguais. E nem é só a prática de que a cada vez que se toca, toca-se uma coisa diferente, é o facto de que o som que vai sair daqueles objetos, destes instrumentos, vai ser efetivamente diferente pela sua natureza.
Esta conversa acontece inspirada pelo lançamento do primeiro disco, o vosso primeiro vinil, Rosas. Como é que foi a experiência de gravar?
Sónia Moreira:
Isto começa por um desejo de termos um disco, especialmente um disco vinil. Enquanto objecto, objecto artístico, é mesmo uma escolha definida. Que fosse um género de um objecto que, na verdade, é uma acumulação dos 10 anos do projecto.
Nunca tínhamos ido os três para o estúdio, e decidimos que, com os dias do estúdio, que tínhamos que criar algumas metodologias para não ter demasiadas horas de gravação. Como tocamos há 10 anos, sabíamos mais ou menos o que é que cada objecto sonoro produz, e então ter que fazer algumas escolhas.
Então, decidimos fazer, no tempo que estávamos em estúdio, uma curadoria específica de cada dia. Podermos trazer propostas artísticas de criação, e a partir delas tocávamos. Por exemplo, é uma prática que nós temos, que é tocar de seguida 20 minutos, para o som se instalar, para os objectos também deixarem que o som emerja e que se instale, e que a gente consiga ouvir uns aos outros e consiga compor em tempo real.
Então, fizemos algumas práticas. Nesses dias que estivemos em estúdio, que foi uma semana inteira, tínhamos esses motes, digamos assim: agora vamos pôr os instrumentos todos bastante altos numa frequência mais grave, agora numa frequência mais aguda, agora durante 5 minutos vamos tocar sempre seguido, e vamos pôr o telemóvel a apitar, e durante 5 minutos vamos só pensar em que todos os instrumentos, por exemplo, estejam mesmo a tocar muito baixinho ou muito alto.
Ou seja, tínhamos um género de propostas artísticas para que esta prática de construção sonora se fosse concretizando. Porque, lá está, nunca tínhamos ido os três para estúdio, não sabíamos muito bem como é que criamos uma faixa disto. Então isso depois também fomos descobrindo ao longo do processo de tocar, e no final do dia escutávamos o que é que tínhamos gravado, e trocávamos ideias já para o dia seguinte, trazer essas propostas um bocadinho mais afinadas.
Este foi mais ou menos assim o processo no geral, e tínhamos também connosco o André Neto, que é o nosso técnico de som, que nos ia ajudando: olha, aqui podem puxar mais o som, ou menos a tensão, aqui está muito mais alto, mais baixo. Também entrou logo muito bem no projecto, e percebeu a dinâmica de pessoas que já se conhecem há mais de 20 anos. Por isso, também nós tínhamos uma dinâmica entre os três muito própria, e a pessoa que nós pudéssemos trazer para fazer o som, para nos masterizar e editar o som, também tinha que perceber um bocado esta linguagem, e isso foi bastante bom, porque o André também nos conseguiu ajudar bastante neste processo de estúdio, que é uma coisa completamente diferente de estar a tocar para um público.
Mas resumindo, o Rosas, que na verdade é SAS Orquestra de Rádios, a palavra é ao contrário, não é? Surge o Rosas como essa comemoração deste desejo que tínhamos de pôr isto num objecto que perdure.
O vinil, o disco Rosas, tem seis temas, que pela forma como têm estado a descrever, como trabalham, como produzem som, acaba por ser um documento único que será impossível de reproduzir.
Ana Trincão:
Sim. É um documento único, ele é efectivamente celebratório 10 anos de projecto, mas nós também falamos muito na autonomia dele enquanto objeto sonoro. Portanto, sabemos que é difícil reproduzir ou gravar e tocar o nosso disco, mas essa também não foi necessariamente a nossa intenção. Era pensar como é que nós com o potencial sonoro, artístico, musical dos nossos objectos conseguíamos criar um disco que fosse uma viagem pelo nosso universo, mas que também nos permitisse experimentar coisas que muitas vezes não conseguimos fazer ao vivo, nomeadamente a ideia de composição, edição, duração.
E o que aconteceu também foi que nós convidámos um músico, o Tiago Veloso, que é um multi-instrumentista, e também tivemos o desejo de convidar alguém que pudesse complementar, corromper, brincar também com aquilo que era o nosso universo, que vinha precisamente do lado oposto, que é o universo mais acústico possível.
Então, Rosas também é uma brincadeira com a nossa própria linguagem e que acho que reflecte os nossos desejos que não eram concretizáveis através da experiência ao vivo. E isso foi importante para nós.
É, de facto, um documento único, mas ele tenta, apesar de não ser reprodutível enquanto concerto, ele tenta responder um pouco ao que são as nossas metodologias artísticas. Se o lado A tem uma faixa de 20 minutos, e será aquilo que é mais próximo do que nós fazemos em concerto, do lado B são 5 faixas diferentes e elas também são pensadas como uma experiência sonora como um todo.
A primeira faixa é o Sintonizar. Ela tem uma particularidade de uns sons mais agudos. Depois queríamos oferecer uma experiência mais radiofónica, com um teor também discursivo, que a rádio nos permite, mais intensa, mais rítmica. A seguir uma coisa que nós chamamos de limpa-palado, que é precisamente para limpar o ouvido, para depois podermos oferecer uma outra experiência profundamente com muitos graves, que é a quarta faixa do lado B do álbum. E na última nós fazemos uma versão de uma música tradicional portuguesa de que nós gostamos muito, é uma alusão, não uma versão, mas que foi uma música que nos acompanhou, na verdade, durante 10 anos e que até surge na primeira residência que nós fizemos, que é uma alusão, uma brincadeira, com a Senhora do Almortão.
Estas escolhas, elas também são uma documentação da nossa história e em si pensam este álbum como um objecto como um todo, uma viagem sonora, e que não vamos fazer em concerto. Mas convido-as a ouvirem o álbum do princípio ao fim porque ele é pensado como um todo.
O álbum, vocês já o deram a ouvir a públicos diferentes, em contextos diferentes. Como é que foi a reacção do público que teve a sorte de ouvir esta peça tão única, tão ímpar?
Sónia Moreira:
O lançamento do Rosas foi na Fábrica Braço de Prata, houve casa cheia. Estávamos muito felizes. Até porque estes processos são longos, demoram tempo e quando vês que conseguiste ter um objecto artístico que tem um bocadinho de cada desejo, tanto do meu, da Ana e do Simão, isso é muito bonito, é uma coisa bonita de se celebrar. Então, foi um bocado uma celebração.
Vieram os nossos amigos, desconhecidos, conhecidos, e tivemos uma breve conversa. Os objectos também estavam a acompanhar-nos. Eu acho que, pelo menos dos feedbacks que temos tido, foi um momento agradável, estarmos ali relaxados ouvir o Rosas. Acho que foi um momento bonito de comemoração.
Esse foi o momento do lançamento, mas mais recentemente estiveram na Escola Superior de Educação de Lisboa.
Ana Trincão:
Eles são alunos de Música e de Composição e foi para eles que nós fomos fazer esta apresentação um bocadinho diferente daquilo que fizemos na Fábrica Braço de Prata. Nós tivemos uma longa conversa, contextualizámos o processo, o colectivo, a nossa metodologia de trabalho, explicámos como é que os nossos instrumentos funcionam, eles tocaram os nossos instrumentos também, e depois ouvimos o disco do início ao fim com os alunos e com o público que estava, mas eram principalmente alunos da Escola Superior de Educação de Música e de Composição.
Eles gostaram bastante e deram imensos feedbacks, acima de tudo sobre o universo, o espectro de som, sobre as texturas. Houve uma aluna que fazia comentários muito interessantes sobre como as faixas apontavam sonoridades que depois eram reproduzidas em outras faixas. Então, era como se o disco andasse sempre para frente e para trás. Isso foi interessante, ela ir reconhecendo esses universos em diferentes momentos do disco e como se eles fossem clarificando para ela, como se o som se tornasse cada vez mais claro, porque se ia repetindo. De facto, quando pensámos a composição e a curadoria das faixas, a gente pensava sobre isso, sobre onde é que os instrumentos repetiam, os universos sonoros repetiam dentro das músicas que íamos fazendo.
Não é um som óbvio nem fácil de ouvir para quem não gosta do Noise, da música experimental, da electrónica mais robusta, tradicional, não sei como dizer. Não é necessariamente da música eletrónica, do Techno, desta que falamos. Não é o mais óbvio de ouvir, mas eu acho que ao longo dos 40 minutos as pessoas vão aprendendo a relacionar-se com aquilo que está ali e o feedback foi positivo. Viajaram. Eles diziam, “nós conseguimos viajar”, pronto. E isso já valeu.
Próximos passos da vossa Orquestra? O que é que está previsto?
Sónia Moreira:
Em janeiro, dia 27 às 19 horas na Fundação PLMJ, que são nossos parceiros, vamos fazer um género de uma escuta com um momento mais performativo, também de contextualização, do que estamos a falar agora do SAS, do Rosas. Às 19 horas na sede da Fundação PLMJ.
Onde é que podemos encontrar o vosso álbum Rosas?
Ana Trincão:
Para já, está no Bandcamp, na página da SAS Orquestra de Rádios. Portanto, podem entrar lá no Bandcamp, procurar SAS Orquestra de Rádios, e está lá o álbum disponível para ser ouvido e também para ser comprado, há uma pequena contribuição para fazer o download do álbum. Ainda não temos distribuidora do vinil em Portugal, mas também nos podem contactar através do Instagram, se tiverem interesse, e nós fazemos chegar o álbum a quem desejar.