O Mapa que Nasceu no Terreno é o livro que a jornalista angolana Neusa e Silva fez a pensar em quem ambiciona afirmar-se no jornalismo a nível internacional.
A obra, que funciona como um guia para jornalistas, é também um instrumento para as ONG e investigadores.
A partir da experiência de reportagem no terreno, consolidada ao longo de anos, Neusa e Silva apresenta um Método de Reportagem em Quatro Quadrantes que transforma o conhecimento local em narrativas globais de impacto.
No livro, Neusa e Silva também quebra tabus ao expor a arquitectura do assédio laboral e apresentar ferramentas para diagnóstico, defesa jurídica e preservação da saúde mental.
Para quem quer contar o mundo a partir do terreno, a autora criou um mapa que identifica como de sobrevivência, resistência e ascensão profissional.
A RFI falou com Neusa e Silva em Portugal. A jornalista começa por explicar o que se pode encontrar na obra e como surgiu o livro O Mapa que Nasceu no Terreno.
Neusa e Silva, jornalista:
Eu agrego aqui todas as experiências no terreno da minha carreira como jornalista internacional ao longo de praticamente 15 anos. Ou seja, fiz um mapeamento de tudo o que eu precisei ao longo de 15 anos e não tive, e construí este livro para que outros jornalistas que estejam a iniciar a carreira no jornalismo internacional possam ter uma espécie de guia. Desde as questões de relacionamentos interpessoais, desde o assédio laboral, como abordar, como identificar, desde a abordagem a cadeias internacionais até a elaboração de pautas para cadeias internacionais.
E, por fim, a cereja no topo do bolo é uma metodologia de produção de reportagens comprovada, que eu já apliquei em várias reportagens, que são produzidas no local e têm um alcance e impacto a nível global.
Muitas das minhas peças foram publicadas em português ou em inglês e foram reproduzidas e traduzidas para várias línguas, algumas mesmo traduzidas para mais de sete idiomas e republicadas em quatro continentes. Então, neste livro eu tenho uma metodologia que fiz com base nestas peças e que sistematizam uma forma concreta de seleccionar fontes, como abordá-las e, depois, como construir a notícia para que ela seja feita a partir do local, tenha o local como âncora, como base, mas que consiga ter uma repercussão internacional.
Essas reportagens aconteceram onde e que temas é que foram cobertos por essas reportagens?
Uma das primeiras reportagens que eu produzi com este método foi em 2021, e intitula-se "A SADC (Southern African Development Community / Comunidade de Desenvolvimento da África Austral ) adopta Rand Sul-Africano como moeda de referência". Eu estava a trabalhar como correspondente de um órgão internacional, ou seja, estava baseada em Angola, a cobrir a região para um órgão europeu internacional.
Esta reportagem foi reproduzida em vários locais. Ou seja, o órgão publicou e depois vários países da SADC e outros países retomaram a reportagem. Depois, o mesmo foi acontecendo com muitas outras peças, até que eu publiquei uma sobre diamantes.
Esta sim, foi uma coisa inédita. Foi republicada em vários continentes dos Estados Unidos, no Médio Oriente, na Ásia, e hoje esta peça está a ser utilizada como fonte para teses na Itália, na Polónia, até no Japão. Várias instituições governamentais utilizam esta peça como uma das fontes para trabalhar em relatórios, alguns deles até financiados pela União Europeia.
Então, este livro é um guia de abordagem ao terreno inspirado pelas experiências de Neusa e Silva no continente africano?
Exactamente. Foram várias experiências, algumas resultaram, outras não resultaram. As que resultaram melhor eu compilei aqui neste livro. Um guia de experiências também a nível de relações interpessoais.
Questões que normalmente são consideradas tabu, como assédio nas relações. Por exemplo já aconteceu eu ser contratada por um órgão internacional, chegar ao país, estar completamente distante da minha rede de apoio, e ter, por exemplo, um chefe que diz que para explicar a matéria tem que ir jantar com ele ou tem que fazer isto.
Depois, quando a pessoa diz que não, que não é profissional, há tendência, sempre, de estar ali naquele país à mercê de situações. Ou seja, qualquer pessoa que se vê numa situação destas, tendo este livro, neste capítulo "A Arquitectura do Assédio", já vai poder identificar situações que tendencialmente podem colocá-la em perigo de assédio, perigo de bullying e também como recolher provas, como abordar estas situações caso a instituição decida proteger os infractores, que é o que infelizmente acontece muito.
Portanto, aqui tem os três pilares da arquitectura do abuso, do assédio ou bullying, que são: o assédio hierárquico, o vertical, que acontece quando o poder formal é instrumentalizado para fins de coerção aos subordinados, aqui eu explico como é que acontece, que situações a pessoa pode identificar logo no início, as características, é a simetria acentuada de poder, abuso de autoridade, utilização de controlo sobre a carreira como mecanismo de pressão. Depois, tenho aqui alguns exemplos como solicitações inapropriadas sobre disfarce profissional, que aconteceram comigo e que acontecem com muitas outras pessoas. Depois tenho aqui o assédio por procuração, que acontece quando um chefe dá o poder a um subordinado para que ele faça bullying com os demais colegas, gozando de determinada protecção.
Então, este Mapa que Nasceu no Terreno não é um simples guia do passo-a-passo que um jornalista deve fazer para conseguir construir determinada reportagem ou conseguir abordar determinado tema. É também como lidar com uma quantidade de pressões que podem surgir no contexto profissional?
Exactamente. Como disse, este é um mapa de que eu precisei e que não vi em lugar nenhum. Então, desde a entrada para o mundo profissional, desde as questões de relações interpessoais que na escola não nos ensinam, nem os nossos pais nos dizem que no trabalho vamos ter situações deste tipo ou daquele tipo, ninguém nos diz isso. Nós descobrimos quando acontece connosco, e acontece com todo mundo, em todo lado. Não é nem uma questão de se colocar na posição de vítima. Às vezes, até algumas pessoas que hoje estão na posição de vítima também já praticaram o assédio ou o bullying com outras pessoas.
O livro O Mapa que Nasceu no Terreno, Guia de Sobrevivência ao Assédio Laboral, Jornalismo e o Método de Investigação do Local ao Global foi, para já, editado por uma editora internacional, uma editora alemã, e já foi também apresentado em ambiente universitário, os estudantes de jornalismo foram o público dessas apresentações. Como é que foi a reacção?
Sim, a obra já foi publicada por uma editora alemã, internacional e académica, mas foi uma publicação apenas para licenciar o livro e proteger o método, a metodologia e tudo o que está aqui para garantir os meus direitos autorais e o licenciamento da obra para eu estar protegida. Proximamente será feita a edição comercial.
Sim, já foi apresentado em universidades e a recepção por parte de coordenadores do curso de Comunicação Social e mesmo por parte dos estudantes foi muito boa. Vi colegas, jornalistas que participaram das actividades na apresentação desta metodologia de produção de reportagens do local ao global, a dizerem “eu nunca tinha ouvido falar disso”.
Porque eu criei a metodologia de produção de reportagens Quatro Quadrantes que depois dá origem à Sinfonia das Fontes. Eu explico como tudo isso acontece e dou exemplos. Portanto, a metodologia está comprovada que funciona porque eu tenho várias reportagens que realmente estão disponíveis na internet em várias línguas e estão a servir de fontes para relatórios em Antuérpia, no Japão, na Polónia, na Itália.
Então, de facto, é prático. Eu acho que este livro será pertinente. Pela reacção dos estudantes e do corpo docente, eu acho que estou satisfeita, a reacção tem sido muito, muito boa.
Esta obra, produzida por uma jornalista angolana, desafia a história da produção do conhecimento e como o Ocidente o reconhece. No fundo, é uma produção de conhecimento vinda do Sul Global.
Esta obra desafia a comunidade académica, em particular, e criadora de conhecimento a desmontar o pensamento estereotipado de que o Sul Global, em especial o sul de África, não produz conhecimento e propõe um caminho alternativo do jornalismo comunitário, autónomo e enraizado na realidade vivida no Sul Global.
Mais do que uma proposta teórica, trata-se de uma reconfiguração epistemológica que coloca o conhecimento gerado na periferia global no centro do debate. Desafia também a Academia e o campo mediático a reconhecer o sul de África, ou África em si, não como objecto de estudo apenas, mas como um sujeito activo na produção do saber.
Há sempre alguma resistência a aceitar o conhecimento produzido em África, a tendência é costumarmos ver África como objeto de estudo.
Então, eu acho que seria também como uma descolonização da maneira como pensamos o conhecimento produzido, até mesmo o conhecimento tradicional, o conhecimento das pessoas que vivem no local como tão válido como o conhecimento produzido pela Academia, e ser considerado também como útil. Na medida em que há provas, pelo menos aqui, de que esta metodologia de produção em Quatro Quadrantes, e depois com a Sinfonia das Fontes, dá real resultado ancorando sempre a notícia no local.
O que nós vemos muito agora é, com a crise nos média, as televisões, grandes televisões, vão reduzindo o pessoal vão fechando as suas instalações fora dos países. Então, quase que a produção é feita em estúdio com análise. Este livro quer recuperar um bocadinho a valorização da narrativa feita a partir do local através de jornalistas independentes, freelancers, reconhecendo que há experiência e há conhecimento válido a ser aproveitado e reconhecido, principalmente do Sul Global.
Na perspectiva da Neusa e Silva, qual o futuro do jornalismo?
Acho que o futuro do jornalismo está muito ancorado ao jornalismo local, independente e freelance. É uma tendência das cadeias, como referi, a reduzirem custos. Para contrapor à utilização de inteligência artificial e à produção de conteúdos a partir de estúdios distantes, o recurso aos jornalistas locais e freelancers, acho que vai preservar aqui alguma autonomia, vai reforçar a questão da democracia, na medida em que só um jornalista local consegue conferir alguma fiscalização ao poder político.
É impossível fazer essa monitorização do poder político, que é um bocadinho a função do jornalismo, do abuso de poder, do desvio de fundos, a partir de um estúdio longe da realidade do local. Então, recorrendo ao jornalismo local, freelance, é possível manter a fonte como autor da sua própria narrativa. Depois, construindo aqui os Quatro Quadrantes, ter aqui uma reportagem com base no local, ancorada no local, mas com impacto e alcance global.
Como jornalista angolana, neste momento a viver fora de Angola, como é que olha para o panorama do jornalismo em Angola?
Eu acho que o jornalismo angolano está no bom caminho. Avançamos imenso em várias questões em termos de produção, não estou a falar de liberdade de imprensa, estou a falar de produção de conteúdos. Mas ainda precisa haver mais diversidade na produção de notícias. Acho que precisa-se também de ter um bocadinho a regulação de quem realmente faz jornalismo e saber que plataformas são consideradas de jornalismo, que têm o poder de influenciar a comunidade, a opinião pública. É preciso haver esse controlo. Depois, talvez, maior abordagem das questões internacionais que possam ter impacto direto a nível local.
Sobre liberdade de imprensa, vejo que principalmente a nova geração deveria ter mais opções e mais bases por onde espelhar, ou seja, abrir as possibilidades. Não são só os órgãos estatais que são opção de carreira. Se os jornalistas angolanos, principalmente esta nova geração que está saindo da universidade, conseguirem, e eu falo pela minha experiência, conseguirem ter noções de como integrar o mercado internacional produzindo a partir do local, isto também reforça um bocadinho a abertura da liberdade de imprensa.
Estando em Angola a trabalhar para órgãos internacionais e garantindo que haja independência editorial, mais facilmente podem levar a narrativa de dentro para fora. Então, eu acho que em Angola, com as universidades, as escolas, os professores, os novos jornalistas, esta malta jovem, é possível, a partir do terreno, fazer-se mais e melhor pelo escrutínio da democracia, para garantir também a independência editorial e que a voz local realmente tenha força sem passar pela censura ou por uma linha editorial que às vezes está associada a grupos económicos; não apenas em Angola, mas em todos os países.
Normalmente os órgãos de comunicação estão sempre associados a algum grupo económico ou a um Governo, então têm as suas próprias linhas editoriais
O que eu aprendi é que, como jornalista independente e freelance, nem sempre estamos obrigados a isso. Estamos, sim, obrigados a mais rigor, a mais disciplina, mais responsabilidade, mas, garantidamente, a nossa voz é colocada na pauta global de forma independente e como ela realmente aconteçe.