“Lisboa Africana” é uma web-série que nasce da vontade de partilhar a memória africana da capital portuguesa. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, a série produzida pela publicação digital Bantumen estabelece a ponte entre passado e presente, e desenha caminhos de futuro.
A RFI falou com a jornalista e directora da Bantumen, Marisa Mendes Rodrigues.
“Lisboa Africana” é uma web-série que nasce da vontade de partilhar a memória africana da capital portuguesa. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, a série produzida pela publicação digital Bantumen estabelece a ponte entre passado e presente, e desenha caminhos de futuro.
Como que numa sugestão de registo onde a História transdisciplinar é a catapulta, “Lisboa Africana” resgata e dá luz a elementos até então pouco ou nada valorizados. Os locais, as pessoas, os feitos, o singular e o plural, são reconhecidos nesta “Lisboa Africana” que se afirma desde as primeiras chegadas até à actualidade.
A RFI falou com a jornalista e directora da Bantumen, Marisa Mendes Rodrigues, que começa por nos explicar o que é a web-série “Lisboa Africana”.
Não tem nada a ver com revisionismo histórico, eu acho que é importante deixar isso claro, mas é um bocadinho partir desta cidade que nós conhecemos e ir à procura destas histórias que estão escondidas. Olhar um bocadinho mais a fundo para sítios, para toponímias, por onde nós passamos diariamente, e desvendar as histórias que estão aí por trás. É outra parte da história que eu não digo que esteja escondida, até porque temos evidências, mas que nem sempre é contada. É abrir espaço para que essas histórias possam existir também.
Histórias relacionadas com a presença africana na capital portuguesa?
Sim! Sim, sim!
Já foram publicados três artigos, o primeiro artigo vai muito atrás, vai às origens.
O primeiro artigo conta-nos as chegadas e traz-nos um recorte temporal e social também de quem eram estas pessoas que chegaram aqui, o que é que elas faziam. Nem todas eram escravas, havia muitas pessoas que eram os chamados forros, que contribuíam activamentepara a própria dinâmica da cidade. Então, o primeiro artigo vai a 1443, 1444, parte dali, até de um excerto de (Gomes) Eanes de Zurara, e é a partir daí que depois vamos olhando para a história e traçando a presença de pessoas africanas cá.
Depois temos alguns apontamentos, algumas curiosidades, como o Parque de Estacionamento de Lagos, onde se descobriram ossadas, temos referências à Igreja do Rossio, que era uma confraria, que era aquilo que já na altura era chamado de comunidade, era um pequeno espaço que existia ali. Então, eu acho que o primeiro episódio é enquadrar de facto esta presença na cidade que não é de agora.
Depois, com o segundo artigo, avançamos no tempo?
Avança. Fala muito sobre o bairro do Mocambo, que é a actual Madragoa, que antes chamava Rua das Trinas do Mocambo, agora só Rua das Trinas, e é feita toda essa análise, traçamos tudo o que havia por lá, as varinas, também a forma como algumas mulheres negras já vendiam peixe, já estavam completamente envolvidas naquela que era a dinâmica económica da sociedade.
Depois disso passamos para o terceiro artigo, que é a Casa dos Estudantes do Império, que eu acho que para nós, assim a nível de redacção, foi o “uau!”. Ele dá-nos a noção também da virada de chave e daquilo que a Casa dos Estudantes do Império representou, até para depois aquilo que veio a ser o processo de independência das antigas colónias.
Ainda vão sair mais artigos, mas o terceiro tem um lugarzinho muito especial.
Pode adiantar-nos um pouco daquilo que se encontra nesse terceiro artigo, que é tão apelativo?
Sim. A Casa dos Estudantes do Império surge como uma forma de congregar no mesmo espaço estudantes que vinham das antigas colónias, a ideia inicial estava voltada para aquela que era a ideologia do Estado Novo e - anular o surgimento de - ideais protonacionalistas. Mas dá-se depois o reverso da medalha, que é aqueles estudantes, aquelas pessoas todas juntas, no qual temos nomes como Lúcio Lara, Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, o próprio Pepetela, que se juntam ali e começam a ver que têm ideais em comum e que esses ideais nada têm a ver com a ideologia do Estado Novo. Então, começa a surgir através da arte, da literatura, etc. começam ali a surgir os primeiros ideais revolucionários, com o jornal Mensagem a ter um peso muito importante depois também na difusão desses ideais.
Antes da Casa dos Estudantes do Império, havia casas de estudantes onde estavam os estudantes vindos de cada uma das antigas colónias portuguesas, estavam separados. Mas a Casa dos Estudantes do Império acaba por juntar toda a gente e é aí que, entre aspas, o bolo fermenta e começa a crescer.
No artigo até há uma parte em que nós dizemos que o feitiço se virou contra o feiticeiro, porque o que sai dali nada tem a ver com o que era o objectivo inicial. O artigo até diz, há um excerto que diz que a ideia era elegante. Foi muito bem pensado, só que não correu como esperado.
Este é material em texto, mas depois há também material que vai ser publicado em vídeo. O que é que se pode esperar?
O material em vídeo vai na mesma linha. O primeiro episódio em vídeo é igual ao primeiro episódio em texto e fala-nos sobre a chegada. É um episódio onde os nossos convidados olham para as chegadas e discutem entre eles, falam entre eles sobre o tema. Depois, os episódios seguintes são muito mais voltados não para o século XX, mas muito mais voltados já para os tempos de hoje. Para sermos justos na análise, para o período pós-independência, que é depois também onde se dá aquela vaga de imigração das antigas colónias para cá. Um dos episódios tem o foco nisso. A imigração, as casas autoconstruídas, como é que estas pessoas vieram, em que períodos vieram, como é que se fixaram.
Temos o terceiro episódio que nos fala sobre os bairros sociais e a forma como eles acabaram por ser pólos culturais. Mesmo, às vezes, estando à margem daquilo que nós entendemos como sendo o centro, mas a forma como também ajudaram a preservar a cultura e certas tradições é aquilo que nós chamamos, se calhar, herança viva. Tínhamos muitos bairros, o bairro Seis de Maio, o bairro Estrela de África, Fontainhas, e eu estou a falar da Amadora porque é o que me é mais particular, porque as minhas tias moravam no bairro Seis de Maio. Mas temos exemplos que ainda existem, o bairro da Jamaica, a própria Cova da Moura.
Então é feito um retrato destes bairros do que são e do que eles continuam a representar hoje, os que ainda estão de pé.
Temos um episódio dedicado à música, aos sons e à forma como a cultura sempre nos salvou. Acho que isto não tem a ver só com a comunidade afrodescendente, eu acho que isto é um bocadinho no geral, eu acho que a cultura salva-nos.
No caso da comunidade afrodescendente, a cultura sempre foi um veículo de expressão muito forte, que já existia também e que nós falámos no episódio das chegadas a propósito dos músicos da corte também.
E depois temos a Lisboa do Futuro, que é o quinto e último episódio, que é um olhar para a cidade que nós temos hoje. Como é que estas culturas todas convivem, onde é que elas se tocam, onde é que elas se separam, o que podemos esperar daqui para a frente.
Obviamente que, depois, essa análise nunca é desligada do tempo político em que vivemos. É uma análise projectada para a frente, mas tendo por base os tempos que vivemos hoje. Mas, no fundo, são conversas informais de pessoas que vivem esta realidade todos os dias ou que de certa forma ajudaram a moldar alguns destes tópicos, destes temas.
Como é que foi produzir isto, juntar não sei quantas pessoas para produzir esta websérie? Foi só com Prata da Casa, foi só com a redacção da Bantumen? Como é que foi?
Prata da Casa e muita Prata de Fora também, porque sozinhos não era tão fácil. É um projecto que é feito com o apoio da DG Artes.
Toda a produção em vídeo é assegurada também pela Many Takes, o realizador é o Fábio Silva, que é uma pessoa que nós conhecemos, e os convidados vieram desta lista extensa de pessoas que nós tínhamos. Houve algumas que vieram logo de caras, houve outras que nós queríamos muito que estivessem, mas por compromissos de agenda não foi possível. Mas, no fundo, também é olhar para aquilo que a Bantumen já faz e para pessoas de que a Bantuman já fala, e entender que, ok, se calhar esta pessoa aqui consegue dar-nos um bom enquadramento deste tema. Mas é um trabalho feito com muitas mãos, muito mais que as mãos da Bantumen, são muitas mãos mesmo, e acho que de outra forma também não seria possível.
Já é possível dizer-nos quando é que estarão disponíveis esses vídeos?
Na verdade eles já deviam estar, nós estamos mesmo mesmo em fase final de produção. Tudo aponta para que nas próximas 3, 4 semanas os episódios venham ao ar.
Em relação aos artigos escritos que se podem encontrar no site da Bantumen, qual é o próximo a ser publicado?
Os artigos saem todas as segundas-feiras, o próximo a ser publicado é um artigo dedicado à Rua das Pretas. É olhar um bocadinho para o que era aquele espaço, qual era a dinâmica, e tentar entender o que é
que lhe deu o nome, de onde é que veio aquele nome. Está em produção ainda, porque a bibliografia é extensa também, há muita informação, então estamos agora na fase final de ajustes, de filtros e tudo mais.
Esta websérie da Bantuman está a ser publicada há sensivelmente um mês. Quais é que têm sido as reacções? Têm tido o feedback?
Tem sido um feedback muito positivo, para o público no geral tem gostado. Obviamente que há sempre vozes mais discordantes, mas eu acho que até isso faz parte.
Também acho que se deixou muito claro desde o início que não se tratava de um revisionismo histórico, que não foi um projecto criado com o pretexto de apagar o que já existe, muito pelo contrário, é resgatar histórias que a maioria das pessoas não sabe que existem. Então, no geral, tem sido um feedback muito bom. E agora, daqui para a frente, o quarto episódio é sobre a Rua das Pretas. Mas depois também vamos falar sobre mais sítios que marcaram, e pessoas também. Vamos falar do Zé da Guiné, que foi uma figura muito importante na noite lisboeta. Vamos falar do BLeza, do Clube Monte Cara, da própria Sons da África, que é mais contemporânea, mas que ainda assim teve um papel muito importante na altura em que ouvíamos CDs e cassetes. Esse vai ser um trabalho ser curioso de fazer, como é uma homenagem quase que chega a título póstumo, porque o Zé Orlando entretanto faleceu, mas temos os filhos. Então, é um artigo a olhar e a falar sobre o legado do pai, o que representou, o que representa para eles hoje também.
Vem muita coisa boa ainda! Vem muita coisa!
Artigos já publicados:
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Lisboa Africana #1: Para lá da escravatura, uma presença que fundou a cidade
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Lisboa Africana #2: Bairro Mocambo
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Lisboa Africana #3: Casa dos Estudantes do Império, o tiro pela culatra do Salazarismo