Cinquenta anos após a independência de Cabo Verde e das restantes ex-colónias portuguesas, o escritor, músico, cantor e ex-ministro da Cultura do arquipélago, Mário Lúcio, lançou duas obras que constituem testemunhos marcantes : O livro Afrocalipse e o disco Independance.
Afrocalispse é o romance onde Mário Lúcio se inspira em figuras e regimes autoritários reais do continente africano e constrói uma sátira política destemida.
Com ironia e algum humor, no espaço de um país africano fictício, Mário Lúcio explora os absurdos, a cleptocracia e a insanidade do poder ditatorial na África pós-colonial. O autor responsabiliza abertamente os próprios líderes e sociedades do continente africano pelo desgoverno grosseiro, pelas desgraças sociais e pela ruina dos Direitos Humanos.
No mais recente registo musical de Mário Lúcio é onde se celebra a independência, o grande momento de transformação na África lusófona.
Em Independance, o artista defensor da crioulização gera um ambiente festivo composto por universos sonoros que relembram o período de conquista da independência. Enuncia danças e ritmos até então proibidos pelo colono e a abertura do país à música de Angola, Guiné, Nigéria, Congo, Senegal e Gana
Para gravar e dar a ouvir o disco Independance ao vivo, Mário Lúcio criou a The Pan African Band, formada por Jery Bidan, da Guiné-Bissau, na guitarra; Ricardo Campos, de Angola, no baixo; e Dilson Groove, do Congo, na bateria.
Mário Lúcio passou por Portugal com a The Pan African Band para ser cabeça de cartaz no Festival MED, em Loulé,no Algarve, e conquistou o público de forma arrebatadora.
Antes de subir ao palco principal do Festival MED, a RFI esteve no camarim de Mário Lúcio para uma entrevista. Uma conversa onde, entre outros temas, nos fala do livro Afrocalipse, do papel do escritor, da internet, da necessidade de um pensamento crítico, do machismo destruidor e da esperança na mulher, da Inteligência Artificial, da arte no futebol, da prestação de Cabo Verde no Mundial de Futebol e, é claro, do disco Independance.
Mário Lúcio: No ano passado, gravámos um disco em celebração aos 50 anos da independência de Cabo Verde. Esse disco se chama Independance porque a nossa memória da independência, eu era criança, foi marcada pela chegada das músicas do continente. Música da Nigéria, do Senegal, Guiné-Conakry, Congo, por aí. E foi uma surpresa. Dançámos muito e incorporámos essas músicas na nossa música e hoje a nossa música tem todas essas músicas. Esse disco vai recuperar essas memórias, essas sonoridades. E são os mesmos músicos que gravaram, que também tocam comigo em palco. A The Pan-African Band, o Jerry, da Guiné-Bissau, o Ricardo, de Angola, e o Dilson, do Congo.
RFI: O albúm Independance foi lançado em 2025. Como é que tem estado a ser recebido pelos palcos por onde passou até agora?
Foi o disco da celebração em Cabo Verde, a música Independance. Foi tomada como a música da celebração e o clipe é muito bonito. O clipe foi também um pouco o lembrar, o reconstituir aqueles dias. Na Europa, pelos palcos onde tenho passado, foi uma surpresa, porque conheceram-me mais acústico, mais como trovador e agora venho com a dança do continente. Então, tem sido uma grande surpresa as pessoas poderem dizer: bom, já desfrutámos muito em casa, mas agora estamos a desfrutar de ti nos bailes. É outro ambiente. Eu também gosto, porque eu toquei muito nos bailes, foi como eu comecei aos 15 anos. E agora, digamos que é um ambiente onde eu me sinto muito à vontade. Até apoiado por uma banda, eu me sinto um pouco mais liberto do que quando é o acústico, que é muito mais sensível.
Se eu me lembro bem, houve uma entrevista onde o Mário Lúcio fazia referência precisamente a esses bailes que começariam às oito da noite e iam até às cinco, seis da madrugada.
Como é que era, nessa altura, aguentar tudo isso e como é que é agora com este Independance?
Eu. quando vou ensaiar, ensaio sempre de pé, para ter essa energia e sentir o tempo. Mas eu me habituei. Com 15 anos, comecei com viola ritmo. Era uma guitarra elétrica Gibson, que devia pesar os seus oito ou dez quilos. E depois fui baixista. O baixo era o instrumento mais pesado.
Nós começávamos a tocar nos bailes às oito da noite, que já era relativamente tarde. Naquela época, íamos tocar em lugares que não tinham eletricidade e tinham que ser com motores. E nós carregávamos os nossos próprios instrumentos em caminhões.
Eram colunas e amplificadores Peavey muito pesados. Então, tocávamos até às onze e fazíamos um intervalo, três horas seguidas. E depois o intervalo era no máximo de 15 minutos, senão o baile acabava.
Tocávamos dessa hora, mais ou menos, até as duas e meia, três da manhã. E depois fazíamos das três às cinco. Às vezes fazíamos quatro intervalos, duas em duas horas, uma coisa assim.
E tínhamos repertório com 80 músicas ou mais, porque devíamos tocar as músicas que estavam da moda, mas também ficar atento a cada lugar, cada público gostava de um género de música ( de uma música). E, às vezes, tínhamos que repetir essa música três ou quatro vezes na noite. Era uma festa.
Então, hoje, tocar uma hora, uma hora e quinze, para mim... . O cansaço é mais espiritual, no sentido de toda a concentração, tudo o que se dá, tudo o que se recebe. E depois precisamos de descer ao chão. Então, é um êxtase, como se estivéssemos a fazer uma maratona de 60 ou 80 quilómetros.
Mas, de resto, o cansaço físico não sinto, porque a guitarra é mais leve. Eu já estou habituado a essas andanças também.
Mário Lúcio, o disco Independance, como o referiu, é uma celebração dos 50 anos de independência. Numa outra faceta, num outro manifestar artístico do Mário Lúcio, a escrita. foi editado recentemente o livro Afrocalipse. Um livro que aponta num sentido contrário, ou pelo menos sugere uma outra maneira de olhar para a África não tão festiva.
Nós, os africanos, olhamos para a África no seu todo. Só assim podemos construí-la.
Olhamos para a África com o seu passado doloroso, de escravidão, de escravatura. Olhamos para a África com o seu passado doloroso, da colonização. Também olhamos para o épico que foram as lutas para a independência e depois o pós-independência.
Então, este é um romance que olha para o pós-independência e olha o que aconteceu. Há países que tiveram sucesso, como é o caso do Cabo Verde, e há países em que não se esperava que essas coisas acontecessem, que se desrespeitassem os direitos humanos, que houvesse genocídios, que houvesse tanta corrupção, roubo e tanta miséria. Em alguns casos, miséria tão grave ou pior do que acontecia durante a colonização.
Então, é o papel do escritor, do romancista, nós mesmos dizermos, olha a nossa África que temos. Por que temos essa África, se nós lutamos para termos uma África melhor? E escancara-se ali todas as situações, para que as pessoas saibam que estamos atentos e para que as novas gerações saibam o que aconteceu, o que está a acontecer. E que no futuro saibam também que tivemos indivíduos toscos, despreparados, vendidos, desumanos, que governaram a África num tempo. E estamos a lutar para limpar dessas mazelas e tentar construir um mundo melhor.
Tendo em conta a situação que se vive neste planeta atualmente, essa visão do romancista que o Mário Lúcio apresenta agora, parece que não tem grande eco. Há falta de romancistas fora do continente africano que reflitam sobre aquilo que se passa fora do continente africano?
Há muitos romancistas africanos, tanto dentro como fora do continente, que tratam esses temas de certo modo. O Pepetela escreveu Sua Excelência, de Corpo Presente, que é um retrato de um tempo. Mas não há muitos, há pinceladas. Não fizemos o nosso trabalho como, por exemplo, se fez na América Latina, com Alejo Carpentier em Cuba, Garcia Marques na Colômbia, (Augusto) Roa Bastos, no Paraguai, Miguel Ángel Asturias, na Guatemala, Mário Vargas Llosa, do Peru. Enfim, vários escritores que se juntaram, e posso citar os seus romances, que fizeram uma frente para denunciar as ditaduras na época colocadas pelos Estados Unidos. Nós, na África, não fizemos isso de forma contundente. Eu conheço as razões, e cabe depois aos estudiosos perceber porque alguns escritores ficaram por pinceladas e não entraram profundamente na questão.
Eu senti que tenho essa legitimidade de olhar para o meu continente e dizer as coisas como elas são, sem medo, sem, como se diz, panos quentes, porque são coisas muito graves, e que não devem ficar pelos livros científicos, devem ser também contadas com os seus absurdos, os seus ridículos.
Como é que, enquanto o homem que leva o seu tempo para pensar, para reflectir, para expor aquilo que merece a sua denúncia, o seu pensamento, como é que olha para uma sociedade que é cada vez mais ritmada pela velocidade da internet e das redes sociais?
Olha, na verdade, essas coisas, a internet, quanto mais veloz melhor, as redes sociais também. Agora, a questão é a manipulação que se faz disso.
Lançam-se redes sociais para entorpecer uma geração inteira, porque os conteúdos não são filtrados. Há conteúdos que deviam ser filtrados. Não são, porque isso rende dinheiro.
É assim que se tem feito neste mundo. E nós, quando olhamos para isso, não devemos cruzar os braços, porque quando incentivamos a leitura, o pensamento crítico é um antídoto natural contra as desinformações da internet, por exemplo. E devemos, não vamos lutar contra o gigante, mas vamos construir o nosso próprio gigantismo para fazer face a isso.
Eu vejo o mundo com optimismo, como sempre, com esperança, mas esperança de uma mudança. E, como eu digo no livro, essa mudança parece que, neste momento, tem que passar para uma gestão feminina do planeta. O patriarcado já deu exemplo, já esgotou, eu diria, com a nossa forma tosca de ver algumas coisas que precisam de mais poesia, de mais sensibilidade.
Levámos o planeta ao estado em que está. E já vimos, já tentamos, de todas as formas possíveis. De vez em quando aparecem grandes seres humanos que tentam, depois são assassinados. Parece-me que temos de dar uma oportunidade, não dar, as mulheres já conquistaram isso, temos de aceitar e não ficar a querer esconder o que já é óbvio, que esgotamos as nossas possibilidades masculinas de gerir o planeta. Esse machismo que reina já levou aonde estamos neste momento, a um passo da destruição da nossa espécie.
Quem leva a espécie dentro dela, as mulheres, tem uma outra percepção da vida, uma outra percepção da criação, do ato de criar filhos, tem uma outra percepção da preservação. Já deram provas. No livro eu falo disso, quando a primeira mulher foi eleita presidenta em África, na Libéria. Então, temos essa esperança.
No fundo, o papel do escritor é ele mesmo ser feliz com o que faz, e eu nunca serei feliz se eu não abrir sempre uma janela ou uma porta para o próximo ver uma paisagem melhor.
Mário Lúcio criador, Mário Lúcio que foi ministro da Cultura, como é que entende, como é que olha a Inteligência Artificial?
Eu aprendi que todas as invenções humanas são úteis. Porque as invenções humanas, as criações, as descobertas, não são propósitos, são necessidades, em que o nosso corpo responde encontrando a solução.
Eu penso que a inteligência artificial veio porque nós estávamos a precisar, estamos a precisar, é uma ferramenta útil. Agora, o equilíbrio, em outros tempos, já foi mais a favor da bondade. Quando Einstein descobriu a teoria da relatividade, quando vários cientistas descobriram o átomo e descobriram o núcleo do átomo, sabiam que era uma descoberta fundamental, que depois viria a servir a própria descoberta da cadeia de ADN, que serve para muitas curas.
O próprio átomo serve para uma energia nuclear limpa, enfim, vários fins. E alguém se lembrou de fazer também a bomba atômica. Então, é isto.
Só que hoje a ganância se multiplicou por infinito, de modo que é tudo muito mais rápido. A inteligência artificial poderia tomar 20, 30 anos para se solidificar, criar uma ética, oferecer isto ao ser humano. Mas é ganância.
E não nos esqueçamos que havia duas entidades a estudar a estrutura molecular para criar a cadeia completa do DNA. E uma dessas entidades era privada e quis ter o monopólio disso para depois as pessoas pagarem para terem acesso ao banco de dados. Felizmente, se chegou a um acordo e esta empresa privada disse que isso tem um bem de toda a humanidade, quer dizer, pagaram para que isto acontecesse.
Então, há sempre gananciosos. Hoje, são muito mais. O que está a acontecer hoje no mundo não é uma luta pela democracia, não é pelo bem-estar do ser humano.
É para o enriquecimento de alguns. E esses alguns são doentes. São indivíduos que não sabem viver, senão na acumulação.
A acumulação dá uma espécie de dependência tóxica. E depois criam as consequências das dependências. São indivíduos mal amados, com pouca capacidade de raciocínio e com um vício tremendo de acumulações e mais acumulações.
Vivemos nisso. Lembra-se quando se falava muito nos vírus do computador? Tem que comprar antivírus. Isso hoje em dia quase não se fala.
Porque o próprio vírus e o antivírus, isto depois sai da mão de quem os criou e acaba criando a sua própria defesa. A inteligência artificial vai caminhar para isso. E eu estou já a ver, na música, já começa a fazer uma bondade.
Muita gente está a ver isto acabar com a música. Não, vai acabar com a má música. E qualquer dia seremos chamados.
Oi, vocês que foram tanto esquecidos. Por favor, venham trazer a música. A música orgânica.
Três ou quatro indivíduos no palco a tocar. De verdade. Então, todos esses aproveitamentos pouco éticos das grandes criações humanas, depois ele vai levar o humano a encurralar-se.
Em que você não tem outra escolha senão voltar atrás. O mundo não tem outra escolha senão o desarmamento. Para que isto? Isto já nem sequer dissuada.
Já não tem dissuasão nuclear mais. Todo mundo dissuada, quem? E não pode haver um dissuasor no mundo porque usa a dissuasão para coagir. E nós estamos a caminhar para essa filtragem.
Todas essas coisas que estão acontecendo demasiado rápido, depois vamos dizer, escolham a extinção ou a preservação. A extinção é seguir adiante. A preservação é parar, voltar e escolher um outro caminho.
O futuro passa por aí, pela capacidade de escolher, de pensar, de raciocinar, de filosofar. Eu diria que todas essas são atividades que precisam de um certo contexto, de um certo momento. Pensar, filosofar, criar.
Agora, a base de tudo isso é a nossa escolha ou de sermos, de continuarmos a ser uma espécie ou a nossa escolha é de terminar com essa espécie e o universo lá trará outras. Há um engano grande nosso é pensar que o futuro está lá à frente, sentado à nossa espera. Na verdade, o futuro é hoje e neste momento.
Qualquer futuro é consequência de uma ação passada. Então, para nós corrigirmos o futuro, nós temos que corrigi-lo agora, não é amanhã. Então, hoje quando se fala queremos um futuro melhor, todos esses gritos são para dizer que o presente como está não pode continuar.
E essas reflexões nem sequer são reflexões modernas. Há povos que refletem nisso há dois mil anos. O que é que o taoísmo, o hinduísmo ou o budismo nos ensinam, o próprio que é que Jesus Cristo nos ensinou com tudo isso? O que é que o profeta Maomé nos ensinou? Porque são pessoas que tomaram o seu tempo a reflectir sobre a condição humana e depois perceberam que estamos aí num caminho completamente diferente daquilo que é a nossa essência.
E por que isso acontece? É exatamente porque a nossa essência tem uma tendência muito grande à destruição. Nós levamos em nós um equilíbrio. Por que o ser humano mata o outro se ele precisa do outro? É porque temos de entender que no processo da evolução da nossa espécie ainda temos uma porcentagem de destruição do nosso próprio muito grande.
Então, nós prestarmos atenção a isso, vamos prestar mais atenção à natureza, à fragilidade da natureza, às nossas famílias, às árvores, às plantas e a partir daí podemos prestar mais atenção no que é a vida. Tem tido tempo para escrever, no meio dos diferentes espetáculos que têm feito para promover o Independence? Eu escrevo diariamente oito a dez horas, todos os dias, onde eu estiver. Todos os dias eu faço isso.
O resto do tempo eu durmo, dez, doze horas por dia. E é entre isso que eu faço concertos ou lanço o livro. Mas toda a preparação é feita nesse exercício diário, disciplinado e amoroso também, de produzir sempre.
Eu escrevo nos aviões, comboios, autocarros, aqui no camarim, estou sempre a escrever e não me incomoda nenhum ruído, nenhum barulho, movimento. Para mim, o exercício diário da vida é conseguir todos os dias produzir alguma coisa. E qual é que será o próximo resultado dessa relação amorosa que tem com a escrita? Eu há dias abri uma excepção na feira do livro, quando me perguntaram qual é o meu próximo livro, e a minha editora estava lá, a pessoa, mas também a entidade, e eu abri uma janela.
Mas, normalmente, a minha avó me dizia, eu fui uma criança precoce, e o maior conselho que ela me deu, ela dizia, tipo, meu filho, tens uma áurea. Então, nunca revelas o que recebes para não quebrar o quebranto. Eu tenho respeitado isso em honra à minha avó, eu tenho, neste momento, cinco livros escritos, prontos a serem publicados, e não sei qual vai ser, mas sei um que vai ser no próximo ano, que eu espero que seja o livro da minha vida, pela sua autenticidade, pela sua originalidade.
Todos os escritores sonham com isso, e é isso que eu estou a fazer, e eu espero que resulte muito bem. Mas, normalmente, há muitas coisas, há centenas de canções, mas estão ali, cada um tem o seu próprio momento de se dar à luz. E é o momento também, é o universo que diz agora, eu quero isso, eu quero aquilo, e eu vou ouvindo e respeitando essas escolhas.
Então, vamos aguardar pacientemente por esse momento. Mário Luís, agora mudando completamente de assunto, não sei se é homem que acompanha o futebol, o percurso de Cabo Verde no Mundial de Futebol ?
Eu me interesso por todas as atividades humanas, e isso traz uma completude que é diferente.
No sentido de, até para eu perceber as minhas insuficiências, é preciso saber um pouco de futebol, um pouco de física quântica, um pouco de religião, um pouco ou o necessário, para ter uma ideia. Eu joguei futebol, joguei no campeonato local, na Ilha de Santiago, fui guarda-redes, e depois, como eu já tocava violão, evitei, por causa das mãos, dos dedos, e comecei a jogar como defesa, joguei como lateral esquerdo durante algum tempo. Eu não era um bom jogador, mas tinha ciência, aí ajudava muito a minha equipa.
E sempre gostei de futebol. As pessoas ficam, assim, espantadas quando eu vejo um jogador, e dizem, olha esse jogador, como é que é o nome dele? Ah, é o Moza, ele diz, olha, o Moza jogou no Benfica no ano passado. Eu me lembro de todas essas coisas.
Às vezes vejo um treinador, e no outro dia, as pessoas dizem, e esse treinador da Holanda? Ele se chama Koeman, jogou no Barcelona, e também passou para Portugal. Eu me lembro dessas coisas todas. Interesso.
Porque futebol é, de todos os desportos, o mais próximo da arte, que é a sua imprevisibilidade. De todos que eu conheço, no tênis, quase sempre ganham o melhor. No básquet, também.
Porque são desportos muito subtis. No futebol, há uma coisa que dificilmente acontece nesses desportos por ponto, que é o acaso. A melhor seleção do mundo vai jogar com uma equipa de lulé, e joga, e joga, e joga, e de repente há um acaso qualquer, e entra um golo, e nunca mais, sabe? Isso acontece muito no futebol.
Eu acho isso muito artístico, no ponto de vista de nós recebermos coisas em que não pensávamos, coisas que surpreendem os leitores e tal. A prestação de Cabo Verde na Copa do Mundo traz-nos várias reflexões. A primeira reflexão é que, nas atividades humanas, não há maior nem menor.
Ou seja, não há nenhum país rico que tenha melhor música que um país pobre. Não há país rico que tenha melhor futebol que um país pobre. Não, tem melhores estruturas e melhores acessos.
E isso está-se a acabar com os governos a construírem os seus países, a construir as condições, a dar acesso à juventude. E foi o que aconteceu com Cabo Verde, com pequenas escolas de futebol e tal. E Cabo Verde é um país onde as mulheres já foram presidentas de equipas de futebol.
Talvez a primeira, assim, no mundo, das primeiras. Uma mulher é treinadora de equipas de futebol. Também já foi.
Então, para nós, é uma atividade de existência, como cultura nova, como cultura crioula, em que tem de se construir tudo. A tua própria identidade está ainda em construção. E é esse país que chega à Copa, a dizer, olha, como jogamos futebol, é assim que nós vivemos.
Muito esforço, muita resiliência, muita alegria, e nós sempre queremos para ver. Com a quantidade de São Tomás, nós não esperávamos ver para crer. Se não esperávamos ver para crer, nunca, nunca acreditamos.
Porque é um país que não chove, estamos à mercê da abundância de peixe ou não, e quando não chove não há peixe. É um país que não tem água doce, é um país que não tem minério, é um país que não tem petróleo. Então, o que é que nós... Nós acreditamos sim que é possível cada um viver com o que tem.
E então, para nós ir jogar contra qualquer equipa do mundo, só nos faltava era o acesso. Cabo Verde é assim. E isso não é uma metáfora, porque tu vês seleções que estão lá, e muita gente no país deles nem sabe que essas seleções estão a jogar.
Eu estive agora na República Checa, e no ambiente onde eu estava, universitário, as pessoas nem ligam para isso. Cabo Verde não. É do Presidente da República, a senhora que vende peixe na esquina, todo mundo, porque vão nos descobrir, e não nos vão olhar de través, nunca mais.
Vão nos respeitar. E isso serve para quê? Serve para que o ser humano seja respeitável, independente da sua cor, do seu tamanho, da sua condição, porque tem alguma coisa. Olha, estamos a fazer o mundo feliz.
Olha, tanta gente feliz porque o Cabo Verde está a jogar. E é isso. O ser humano deve estar ao serviço da espécie, de fazer alguma coisa que nos faça ter essa condição melhor.
Por isso estamos felizes, e nós não temos o peso. Eu sei que é muito bom. Temos toda a nação conosco, mas como se dizia, nós não fomos lá para ganhar ou perder, que isto é parte já do futebol, onde quer que fosse.
Nós fomos lá para dizer que existimos, e para corrigir algumas coisas. Uma das coisas que estamos a corrigir é isto, a prestação dessas equipas. Três equipas criolas tiveram na Copa, pela primeira vez na história da Copa, o Haiti, o Curaçao e o Cabo Verde, três pequenitos países, e a jogar em pé de igualdade.
Isto significa o quê? É preciso uma leitura. E depois outra coisa que fomos dizer é parem de prejulgar e de querer proteger os que supostamente são mais fortes. Aquela arbitragem do Cabo Verde contra o Uruguai, dá vergonha à espécie.
Por que o jogo faltava um minuto para acabar? A equipa, que era supostamente que não tinha nenhuma chance, ele dava 1% de chance, está com a bola para tirar para a área e tu acabas com o jogo. E no jogo seguinte, há a mesma situação, e dás mais um minuto ao Messi. E estamos a dizer ao mundo parem com isso.
Desfrutem da possibilidade de sermos iguais e deixar competir os iguais.