Buluku é o mais recente espectáculo de Djam Neguin e teve estreia em Lisboa.
O artista multidisciplinar cabo-verdiano criou um trabalho que sugere a reconfiguração do espaço imaginário e interpela as estruturas que moldam narrativas.
Buluku é um espectáculo multidisciplinar e imersivo para crianças e famílias que combina dança, arte performativa, video mapping e design de som original para explorar cosmologias africanas.
O trabalho apresenta uma personagem «afronauta» curiosa e brincalhona, que guia o público numa viagem cósmica, criando planetas e inventando danças.
Buluku estreou no Teatro do Bairro, na capital portuguesa, local onde a RFI falou com Djam Neguin. O artista começa por revelar que Buluku surgiu da falta que sentiu, enquanto criança, de referências a personagens africanas em temáticas futuristas.
O espectáculo Buluku surge de um processo de constatação. Quando eu era criança, eu cresci sem referências de personagens africanas que, de alguma forma, abordassem temáticas futuristas, relacionadas com a criação do mundo ou a exploração do universo, a visita no universo. O imaginário espacial ou extraterrestre é muito americanizado, não é? E, como eu venho investigando muito temáticas afro-futuristas, para mim fez sentido trazer esta personagem, criar este espectáculo. Como eu sei da importância de, desde a tenra idade, criar no imaginário das crianças referências, para elas poderem imaginar mundos possíveis, é duplamente para mim, para a minha criança interna, mas também para as crianças e todas as crianças que existem dentro de cada um de nós.
Como é que foi o processo de criação deste espectáculo, em concreto? Este é um espectáculo para as famílias, ou seja, onde há uma especial atenção aos mais jovens, quando a experiência do Djam Neguin, maioritariamente, é direccionada a um outro público.
Acho que tem muito a ver também com o se colocar nesse estado de brincar. Quando nós brincamos e permitimos voltar, outra vez, a ser crianças, lembrámos-nos de coisas, não é? Porque, como todos nós já fomos crianças, sabemos certos comportamentos, sabemos o que é que faz as crianças rirem, o que é que as faz sentirem medo. Todo esse repertório acaba por influenciar. Então, o processo criativo é sem dúvida lúdico.
Ou seja, eu tenho de começar sempre a divertir-me e tenho esse lado meio “cartoonesco”. Ela é uma personagem muito “cartoonesca”, muito brincalhona. Então, tem muitos trejeitos bastante teatrais, muito cómicos, com bastante expressão corporal.
Então, toda a composição dessa personagem vem dessa pesquisa, de como é que eu crio essa figura de um “afronauta” que é um brincalhão, um meninão. É um processo que passa, primeiramente, por uma pesquisa. Eu pesquisei muito sobre a questão dos mitos de criação do mundo a partir de vários povos africanos, mitos ancestrais.
Esses mitos aparecem, de alguma forma, na linha dramatúrgica. Outros aparecem em vídeo, outros estão em alguns momentos. Alguns aparecem mais explicitamente, outros aparecem no subtexto. Então, o processo foi muito divertido.
Mas, além da preocupação em trazer esses mitos de diferentes culturas africanas para o espectáculo, há também uma preocupação com o presente, com a questão ecológica.
Sem dúvida. Para falarmos do futuro, temos que também falar do presente. Como é essa possibilidade de imaginar a criação do mundo, ou a preservação do mundo, a partir do cuidado, da questão sustentável, a questão de mesmo em termos de brincar. Nós estamos numa época em que a tecnologia está ao alcance das crianças. O brincar também já passa por uma questão de técnica. E como também voltar a esses objectos que são objectos domésticos, objectos sustentáveis. Porque essas bolas, no fundo, são bolas bastante acessíveis. As crianças, através da imaginação, conseguem dar vida a um objecto. Então, tenho aqui várias camadas. É um espectáculo curto, tem um roteiro bem definido. Não dá para ser tão denso em tantos temas. Mas eu acho que passa essa mensagem. Esse simbolismo acaba por passar. Não é aquela criança que brinca, que ordena o mundo. Mas que, a dada altura, percebe que não pode esquecer dos outros seres. Das árvores, dos animais.
Isso faz parte da brincadeira dele também. Acho que passa um pouco isso para as crianças.
O Djam Neguin é cabo-verdiano, vive em Cabo Verde. Falando um pouco mais do aspecto da produção, como é que foi o processo de conseguir trazer este espectáculo até Portugal, vir apresentá-lo em estreia aqui em Portugal?
Eu já vivi em Portugal há uns anos atrás, dez anos em Braga. Cresci, basicamente, dos meus nove aos dezoito anos. Também estive em Lisboa, comecei a estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema em 2010. Depois interrompi, acabei por ir para Cabo Verde. E essa relação tem-se mantido até 2022, onde conheço a Clara Andermatt através de um casting para o espetáculo Pantera. E a nossa relação continuou após Pantera. Eu apresentei esta proposta à companhia (de Clara Andermatt), que é uma produtora também. A Clara gostou bastante da ideia e deu-me as cartas, abriu as portas da casa para eu construir o espetáculo. E estou, agora, com a produção da Clara Andermatt. É uma relação que se estabelece através dessa afinidade que começou com o espectáculo Pantera.
Clara Andermatt, uma mulher da dança contemporânea portuguesa. Este é um espectáculo de dança ou de teatro? Como é que pode ser apresentado?
Essa pergunta é sempre uma pergunta interessante, porque eu posso respondê-la também pensando do ponto de vista de várias tradições africanas, onde a arte não está subdividida nessas categorias. Ou seja, as manifestações artísticas não precisam de ser tão divididas em dança, teatro. Tem outros pensamentos.
Então, acho que a própria arte contemporânea volta para esse lugar, volta para esse lado onde a dança se intercala com o teatro, com o vídeo, com a música. O artista traz os seus elementos. Como eu sou uma pessoa que vem da música, do teatro, da dança, trabalho com audiovisual, eu acho que o Buluku sou todo eu, em todas as minhas dimensões. Então, é isso. É difícil responder. Eu acho que é um espectáculo multidisciplinar.
A dança e o movimento é o eixo central. O Buluku está sempre a brincar, sempre a se movimentar. E essa composição corporal vem do lugar da minha experiência como bailarino, porque é preciso ter algum repertório.
Então, é difícil responder essa pergunta, mas vamos dizer que é um espectáculo de dança.
Djam Neguin, como homem de Cabo Verde, qual é a imagem que nos pode dar da arte contemporânea em Cabo Verde? Qual é o seu olhar sobre aquilo que se vive em Cabo Verde?
Cabo Verde, sendo um país jovem, tem vários desafios, mas também tem várias virtudes e vários criadores e artistas que estão na vanguarda.
Nós temos um cinema. O cinema de Cabo Verde tem estado nos últimos anos em alta, em ponta, produtores contemporâneos a abordar questões contemporâneas.
Temos artistas das artes performativas também, das artes visuais.
A minha visão é que, se calhar, não conseguimos encontrar uma nova vaga. Talvez falta mais articulação de gerações que, de alguma forma, os artistas estão mais interligados e conseguem criar ali um movimento.
Acho que ainda está a acontecer muito isoladamente. Mas que, sem dúvida, acho que temos artistas incríveis em todas as áreas.
Mas, criticamente falando, acho que a falta é o colectivo. O colectivo que tem um movimento de ruptura geracional e que está, de alguma forma, a pensar em rede. Quanto mais a arte cabo-verdiana pensar em rede, mais crescemos também.
A estreia deste espectáculo aconteceu em Lisboa. Quais são os palcos onde ainda poderemos encontrar este espetáculo?
Vai para a Águeda, no momento do Dia Mundial do Teatro e do Festival Kontornu. Depois vamos ter uma apresentação em Cabo Verde, no mês de abril, muito possivelmente. Ainda não está confirmada. Depois teremos uma volta para Portugal, cinco e seis, no Teatro Circo em Braga.
Temos perspectivas para 2027 e este ano, ainda estamos em algumas negociações.
Depois deste espectáculo, o que é que segue?
Portanto, para além de artista, sou produtor cultural. Estou, neste momento, na produção do Festival Kontornu, que é um festival internacional de dança e artes performativas que vai acontecer de 11 a 16 de maio na Ilha de Santiago.
Também vamos a outras cidades. É uma grande produção, é um evento de uma semana que vai reunir mais de 60 pessoas, diferentes companhias de dança do mundo inteiro e artistas de Cabo Verde. É um dos maiores eventos das artes performativas de Cabo Verde. Portanto, eu também estou no outro lado da casa.
Além da produção, eu tenho também uma criação que vai ter um processo de apresentação em outubro. Vai ser um projeto que vai ter a mentoria da Marlene Monteiro Freitas, que é uma parceria entre o Estúdio Vitor Córdon e a Gulbenkian, que vem acompanhando alguns artistas dos PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa] através de programas de apoio de mobilidade e bolsas de criação. E tenho outros espectáculos.
Tenho algumas agendas, coisas que eu vou como produtor, outras vou como artista. Então, eu vou ocupando esses vários espaços e também contribuindo para o movimento, para a cena.
Eu acredito muito que investir no colectivo faz com que individualmente nós cresçamos mais.