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Há 10 anos atrás, um leão foi morto no Zimbabué por um caçador norte-americano. A notícia teria passado despercebida, mas o leão, que era conhecido e até tinha um nome, Cecil, vivia numa reserva natural.
A caçada foi ilegal e o incidente causou indignação por todo o mundo. O caso tornando-se emblemático na luta contra a caça desportiva de animais selvagens e contra os troféus de caça, como as cabeças ou as peles, usadas frequentemente como objectos de decoração.
No Reino Unido, Eduardo Gonçalves lançou uma campanha para tentar ilegalizar a importação de troféus de caça. A campanha já teve o apoio de figuras públicas como o músico Ozzy Osbourne e a atriz Judi Dench.
A RFI falou com Eduardo Goncalves sobre o impacto da morte do leão Cecil e sobre a realidade em Moçambique e Angola.
"Há cerca de 10 anos, houve um caso que apareceu na comunicação social em todo o mundo, que foi o caso de um dentista norte-americano que matou um leão no Zimbábue. Toda a gente ficou muito chocada com isto e pensou que era um caso pontual. Mas, de facto, o que acontece é que ainda existe uma indústria internacional da caça desportiva de troféus de animais. Nos últimos 10 anos foram mortos cerca de 10 mil leões. Só 10 mil leões. E dezenas de milhares de outras espécies, muitas delas ameaçadas.
Começámos esta campanha e já aqui no Reino Unido todos os partidos agora querem acabar com as importações dos troféus, ou seja, desincentivar os caçadores britânicos de irem para a África ou para o Norte da América para caçar leões, elefantes, ursos, etc., mas tem levado bastante tempo.
No entanto, há vários países que já avançaram com proibições de troféus. Por exemplo, em França já não é possível trazer leões para casa. Na Bélgica, na Holanda, também na Polónia, e também está-se a falar de fazer a mesma coisa na Itália, na Alemanha, Finlândia, também na Austrália, e também até nos Estados Unidos já é proibido trazer algumas espécies, por exemplo, chitas, porque são espécies ameaçadas.
Do ponto de vista da conservação da natureza, eu penso que não há justificação nenhuma para estas actividades. Nos anos 1970, por exemplo, havia cerca de 200 mil leões. Hoje há cerca de 20 mil. E todas as espécies caçadas pelos caçadores a troféus verificam-se na mesma situação. As populações estão a diminuir. E, numa altura em que tantas espécies encontram-se ameaçadas e, em alguns casos, mesmo em vias de extinção, não me parece que isto faça qualquer sentido."
Mas a suspensão deste tipo de turismo não iria prejudicar as economias locais?
"Este sector não tem trazido benefícios às populações locais, apenas aos grandes proprietários. Se olharmos para o caso do Moçambique, que está neste momento a fazer uma grande aposta neste sector, presumivelmente porque acha que isto irá trazer benefícios económicos e ajudar a promover o desenvolvimento das zonas rurais. Mas há aqui um problema: o mercado e a procura está a diminuir. Se olharmos para o volume total das exportações de troféus dos países, por exemplo, da África do Sul, que é o líder no mercado africano, o volume das exportações, hoje em dia, é metade do volume de há 10 anos atrás. Trata-se de uma actividade, de uma indústria, que não tem viabilidade a longo prazo, não tem sustentabilidade económica. Houve um estudo publicado na África do Sul há pouco tempo que mostrou que se a África do Sul fizesse uma mudança organizada deste sector para o eco-turismo, portanto, os safaris fotográficos, havia cerca de 11 vezes mais postos de trabalho criados nas zonas rurais."
Porque é que houve uma aposta recente na caça desportiva em Moçambique?
"No caso de Moçambique, trata-se de um fenómeno bastante ou relativamente recente. Há alguns tempos atrás não havia quase nenhuma actividade, isto também porque tem havido algum desgaste das populações selvagens em outros países sul-africanos. Por exemplo, na Zâmbia, no Zimbábue, na África do Sul até, as populações de leões e elefantes já foram todos caçados. Praticamente não há populações restantes nesses países. Portanto, agora as empresas envolvidas nestas indústrias estão olhando para outros países [onde] não tem havido tanta tanta caça desportiva, e Moçambique é um desses países. Portanto, há cada vez mais empresas norte-americanas e inglesas também que estão criando bases de actividade em Moçambique."
E qual é a realidade em Angola?
"Os últimos dados por parte das autoridades internacionais indicam que não houve qualquer caça a troféus em Angola. Houve em anos passados, mas temos verificado que populações, por exemplo, de leões e de elefantes, neste momento em Angola são muito inferiores às populações que houve antigamente. Isto não apenas por causa da caça desportiva, mas de facto a caça desportiva tem contribuído para esse problema. Neste momento não há animais para caçar. Ou seja, a população de leões neste momento em Angola é quase não existente."
E quais são os animais mais procurados pelos caçadores?
De facto, os leões continuam a ser uma das espécies mais procuradas, mas há outras que são ainda mais populares. Ou seja, os ursos são uma das espécies mais populares. Até o urso polar, que encontra-se em vias de extinção, mas também as girafas, as zebras, os leopardos. Essas são algumas das espécies mais procuradas pelos caçadores.
Realmente tem que haver um esforço de conservação destas espécies. Eu antigamente trabalhava na WWF e integrava uma equipa que publicava um estudo de dois em dois anos, que chamava-se o "Living Planet Report" e que mostrava as populações dos animais selvagens por todo o mundo, e verificámos no último relatório, em 2024, que as populações desde os anos 70 têm diminuído em cerca de 70%.
Portanto, estamos perante de uma crise do ponto de vista da conservação da natureza e dos animais selvagens. Não faz sentido nenhum agravar ainda mais o problema e contribuir cada vez mais a esse problema com uma actividade completamente desnecessária, que não traz benefícios ao homem ou às pessoas, nem ao caçador, nem às populações locais, e muito menos às populações dos animais selvagens.
O Eduardo conseguiu o apoio de pessoas de muito renome, incluindo a filha do Elvis Presley. Pode contar-nos como é que isso aconteceu?
Eu fiz parte de um filme que saiu já há uns anos atrás, em que também apareceu a Priscilla Presley, e era sobre mais ou menos o mesmo tema. Ficámos com o contacto e então eu pedi: Dona Priscila, estou a escrever este livro, não sei se estará interessada neste livro, nesta campanha, mas se quisesse contribuir com umas palavras, eu ficaria muito agradecido. E ela respondeu logo. Eu recebi um email dela, em que ela tirou uma fotografia a si própria com uma t-shirt nossa que tem o desenho de um leão no meio.
O que é que espera alcançar a com a sua campanha?
"A curto prazo, eu acho que devia haver uma moratória. Para trazer os troféus de espécies ameaçadas é preciso que haja autorização para importar esses troféus quando se trata de espécies ameaçadas. Por exemplo, se uma pessoa quer trazer para casa uma cabeça ou o corpo de um leão, é preciso que as autoridades portuguesas ou as autoridades belgas ou britânicas deem autorização ao caçador para trazer esse animal para casa."
By RFI PortuguêsHá 10 anos atrás, um leão foi morto no Zimbabué por um caçador norte-americano. A notícia teria passado despercebida, mas o leão, que era conhecido e até tinha um nome, Cecil, vivia numa reserva natural.
A caçada foi ilegal e o incidente causou indignação por todo o mundo. O caso tornando-se emblemático na luta contra a caça desportiva de animais selvagens e contra os troféus de caça, como as cabeças ou as peles, usadas frequentemente como objectos de decoração.
No Reino Unido, Eduardo Gonçalves lançou uma campanha para tentar ilegalizar a importação de troféus de caça. A campanha já teve o apoio de figuras públicas como o músico Ozzy Osbourne e a atriz Judi Dench.
A RFI falou com Eduardo Goncalves sobre o impacto da morte do leão Cecil e sobre a realidade em Moçambique e Angola.
"Há cerca de 10 anos, houve um caso que apareceu na comunicação social em todo o mundo, que foi o caso de um dentista norte-americano que matou um leão no Zimbábue. Toda a gente ficou muito chocada com isto e pensou que era um caso pontual. Mas, de facto, o que acontece é que ainda existe uma indústria internacional da caça desportiva de troféus de animais. Nos últimos 10 anos foram mortos cerca de 10 mil leões. Só 10 mil leões. E dezenas de milhares de outras espécies, muitas delas ameaçadas.
Começámos esta campanha e já aqui no Reino Unido todos os partidos agora querem acabar com as importações dos troféus, ou seja, desincentivar os caçadores britânicos de irem para a África ou para o Norte da América para caçar leões, elefantes, ursos, etc., mas tem levado bastante tempo.
No entanto, há vários países que já avançaram com proibições de troféus. Por exemplo, em França já não é possível trazer leões para casa. Na Bélgica, na Holanda, também na Polónia, e também está-se a falar de fazer a mesma coisa na Itália, na Alemanha, Finlândia, também na Austrália, e também até nos Estados Unidos já é proibido trazer algumas espécies, por exemplo, chitas, porque são espécies ameaçadas.
Do ponto de vista da conservação da natureza, eu penso que não há justificação nenhuma para estas actividades. Nos anos 1970, por exemplo, havia cerca de 200 mil leões. Hoje há cerca de 20 mil. E todas as espécies caçadas pelos caçadores a troféus verificam-se na mesma situação. As populações estão a diminuir. E, numa altura em que tantas espécies encontram-se ameaçadas e, em alguns casos, mesmo em vias de extinção, não me parece que isto faça qualquer sentido."
Mas a suspensão deste tipo de turismo não iria prejudicar as economias locais?
"Este sector não tem trazido benefícios às populações locais, apenas aos grandes proprietários. Se olharmos para o caso do Moçambique, que está neste momento a fazer uma grande aposta neste sector, presumivelmente porque acha que isto irá trazer benefícios económicos e ajudar a promover o desenvolvimento das zonas rurais. Mas há aqui um problema: o mercado e a procura está a diminuir. Se olharmos para o volume total das exportações de troféus dos países, por exemplo, da África do Sul, que é o líder no mercado africano, o volume das exportações, hoje em dia, é metade do volume de há 10 anos atrás. Trata-se de uma actividade, de uma indústria, que não tem viabilidade a longo prazo, não tem sustentabilidade económica. Houve um estudo publicado na África do Sul há pouco tempo que mostrou que se a África do Sul fizesse uma mudança organizada deste sector para o eco-turismo, portanto, os safaris fotográficos, havia cerca de 11 vezes mais postos de trabalho criados nas zonas rurais."
Porque é que houve uma aposta recente na caça desportiva em Moçambique?
"No caso de Moçambique, trata-se de um fenómeno bastante ou relativamente recente. Há alguns tempos atrás não havia quase nenhuma actividade, isto também porque tem havido algum desgaste das populações selvagens em outros países sul-africanos. Por exemplo, na Zâmbia, no Zimbábue, na África do Sul até, as populações de leões e elefantes já foram todos caçados. Praticamente não há populações restantes nesses países. Portanto, agora as empresas envolvidas nestas indústrias estão olhando para outros países [onde] não tem havido tanta tanta caça desportiva, e Moçambique é um desses países. Portanto, há cada vez mais empresas norte-americanas e inglesas também que estão criando bases de actividade em Moçambique."
E qual é a realidade em Angola?
"Os últimos dados por parte das autoridades internacionais indicam que não houve qualquer caça a troféus em Angola. Houve em anos passados, mas temos verificado que populações, por exemplo, de leões e de elefantes, neste momento em Angola são muito inferiores às populações que houve antigamente. Isto não apenas por causa da caça desportiva, mas de facto a caça desportiva tem contribuído para esse problema. Neste momento não há animais para caçar. Ou seja, a população de leões neste momento em Angola é quase não existente."
E quais são os animais mais procurados pelos caçadores?
De facto, os leões continuam a ser uma das espécies mais procuradas, mas há outras que são ainda mais populares. Ou seja, os ursos são uma das espécies mais populares. Até o urso polar, que encontra-se em vias de extinção, mas também as girafas, as zebras, os leopardos. Essas são algumas das espécies mais procuradas pelos caçadores.
Realmente tem que haver um esforço de conservação destas espécies. Eu antigamente trabalhava na WWF e integrava uma equipa que publicava um estudo de dois em dois anos, que chamava-se o "Living Planet Report" e que mostrava as populações dos animais selvagens por todo o mundo, e verificámos no último relatório, em 2024, que as populações desde os anos 70 têm diminuído em cerca de 70%.
Portanto, estamos perante de uma crise do ponto de vista da conservação da natureza e dos animais selvagens. Não faz sentido nenhum agravar ainda mais o problema e contribuir cada vez mais a esse problema com uma actividade completamente desnecessária, que não traz benefícios ao homem ou às pessoas, nem ao caçador, nem às populações locais, e muito menos às populações dos animais selvagens.
O Eduardo conseguiu o apoio de pessoas de muito renome, incluindo a filha do Elvis Presley. Pode contar-nos como é que isso aconteceu?
Eu fiz parte de um filme que saiu já há uns anos atrás, em que também apareceu a Priscilla Presley, e era sobre mais ou menos o mesmo tema. Ficámos com o contacto e então eu pedi: Dona Priscila, estou a escrever este livro, não sei se estará interessada neste livro, nesta campanha, mas se quisesse contribuir com umas palavras, eu ficaria muito agradecido. E ela respondeu logo. Eu recebi um email dela, em que ela tirou uma fotografia a si própria com uma t-shirt nossa que tem o desenho de um leão no meio.
O que é que espera alcançar a com a sua campanha?
"A curto prazo, eu acho que devia haver uma moratória. Para trazer os troféus de espécies ameaçadas é preciso que haja autorização para importar esses troféus quando se trata de espécies ameaçadas. Por exemplo, se uma pessoa quer trazer para casa uma cabeça ou o corpo de um leão, é preciso que as autoridades portuguesas ou as autoridades belgas ou britânicas deem autorização ao caçador para trazer esse animal para casa."

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