Estado da Arte

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Estado da Arte episodes

  • Villa-Lobos Villa-Lobos

    Se os brasileiros são mundialmente celebrados por sua música popular, poucos entraram no cânone erudito. Dentre eles, Heitor Villa-Lobos é comumente aclamado como o maior compositor das Américas. Foi dos mais prolíficos e ecléticos: são mais de mil peças entre sinfonias, fantasias, música sacra, canções, óperas, balés ou concertos para violão, piano e violoncelo. Autodidata, foi regente, violoncelista e ganhou a vida animando noites em teatros, cafés e cinemas com seresteiros e chorões. Para o seu amigo, o pianista Arthur Rubinstein, sua música, além de bela e impressionante, era incomparável na “particularidade de estilo”. Seu gênio foi não só fabuloso, mas fabulador, beirando a mitomania. Contava aos europeus que gostava de comer mãozinhas de macacos nas selvas tropicais onde quase fora devorado por canibais. Chegava a ser cabotino, nutrindo a imagem algo ufanista do “índio de casaca” sem formação e antiformalista. “Nunca na minha vida procurei a cultura, a erudição, o saber e mesmo a sabedoria nos livros, nas doutrinas, nas teorias, nas formas ortodoxas”, dizia ele. “Nunca! Porque o meu livro era o Brasil. Não o mapa do Brasil na minha frente, mas a terra do Brasil onde eu piso, onde eu sinto, onde eu ando, onde eu percorro”. Mas apesar de bravatas iconoclastas como “logo que sinto a influência de alguém, me sacudo todo e pulo fora”, foi claramente influenciado por Chopin, Debussy, Stravinsky entre outros. Criou a Academia Brasileira de Música, e disciplinou com paixão os estudantes brasileiros, chegando a organizar manifestações cívicas com massas corais de 40 mil crianças treinadas em sua pedagogia orfeônica. E lembrava com gratidão de quando seu pai o obrigava não só “a discernir o gênero, estilo, caráter e origem das obras”, mas “a declarar com presteza o nome da nota dos sons ou ruídos que surgiam incidentalmente, como, o guincho da roda do bonde, o pio de um pássaro, a queda de um objeto de metal”. A verdade é que, entre a musicalidade popular e a erudita, a tradicional e a de vanguarda, a regional e a universal, o maestro foi grande não por trombetear uma em detrimento de outra, mas por harmonizá-las em suas melodias inimitáveis. No fim, Villa, como gostava de ser chamado, foi um grande criador, não intérprete, nem mesmo de sua música, tampouco de si mesmo. Talvez o mais exato fosse defini-lo como ele definia Bach – influência consagrada em suas Bachianas Brasileiras–: um manancial folclórico universal, intermediário de todos os povos. 



    Convidados



    Fabio Zanon: violonista e mestre em música pela Universidade de Londres. 



    Marcelo Bratke: pianista formado pela escola Juliard de Nova York e apresentador do programa radiofônico Alma Brasileira dedicado a Villa-Lobos.



    Paulo de Tarso Salles: professor da Universidade de São Paulo, coordenador do seminário PAMVILLA e autor de Villa-Lobos: processos composicionais. 







    Referências



    * Villa-Lobos um compêndio: Novos desafios interpretativos organizado por P. de T. e N. Dudeque.* Heitor Villa-Lobos Compositor Brasileiro de Vasco Mariz.* Villa-Lobos: Processos Composicionais de Paulo de Tarso Salles * PAMVILLA – Simpósio Villa-Lobos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.  * Heitor Villa-Lobos: The search for Brazil’s musical soul de Gerard Béhague.* Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação de Paulo Renato Guérios.* O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos organizado por João Carlos Ribeiro.* Villa-Lobos: ja Brasilian sielu (Heitor Villa-Lobos: the life and works) de Eero Tarasti. * Alma Brasileira – Programa radiofônico sobre Villa-Lobos apresentado por Marcelo Bratke.
    1 hr
  • Maimônides

    Imagine um clínico tão competente que foi recrutado pelos chefes de estado mais poderosos de sua época e ainda encontrou tempo para redigir grossos tratados de medicina. Agora imagine um rabino consumido pelas agruras de sua comunidade, capaz de compilar a primeira codificação integral da lei dos judeus e escrever um comentário em 14 volumes às suas tradições exegéticas e jurisprudenciais reunidas no Talmud. E pense num filósofo capaz de sintetizar criticamente toda a filosofia anterior a ponto de determinar os rumos da filosofia contemporânea e da subsequente. Por fim, fusione, se sua imaginação puder, todas essas pessoas numa só. Eis Moisés Maimônides, a “Grande Águia”. 



    Unindo energicamente prática e conceito, observância externa e sentido interior, ação visível e experiência invisível, lei e filosofia, Maimônides – que longe de gozar da paz de um gabinete acadêmico ou palaciano, peregrinou por anos e milhares de quilômetros como refugiado – foi não só um dos mais versáteis, competentes e hiperativos polímatas de todos os tempos, como nos legou o título possivelmente mais engenhoso da história das letras, o Guia dos Perplexos. Pensador pressionado entre Jerusalém e Atenas, influenciou a teologia medieval, dos muçulmanos aos cristãos, além de uma linhagem de filósofos e cientistas modernos como Leibniz ou Newton. Fiel à fé de seu povo, combateu o racionalismo, fonte do ceticismo, do agnosticismo e do relativismo que ameaçam a religião positiva. Fiel à razão universal, combateu o puritanismo dogmático que prega a oposição absoluta entre a sabedoria divina e a humana, ameaçando com sua intolerância a cultura secular e cosmopolita. Como disse Kenneth Seeskin, “Ao tentar aproximar o judaísmo e a filosofia, ele não deixou nenhum dos dois como os encontrou. Se o judaísmo se tornou mais rigoroso na defesa de suas crenças centrais, a filosofia se tornou mais disposta a enfrentar suas limitações.” Desde então, a história intelectual judaica é em certa medida um debate sobre a posição de Moisés Maimônides. Não à toa um dito já popular em sua época acabou gravado pelos séculos dos séculos em seu túmulo no litoral do mar da Galileia: “De Moisés a Moisés, não houve ninguém como Moisés”



    Convidados 



    Francisco Moreno: doutor em Língua, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo, médico e pesquisador de História da Medicina.   



    Nachman Falbel: professor de História, Filosofia Medieval e Cultura Judaica na Universidade de São Paulo.  



    Ruben Sternschein: Doutor em Filosofia Judaica pela Universidade de São Paulo e rabino da Congregação Israelita Paulista. 



    Referências



    * Maimônides de Gerard Haddad.* Maimônides, o Médico de Sefarad de César Vidal.* Maimônides de Rubén Luis Najmanovich.* Maimônides de Tobias Fenster.* A História de Maimônides de Rachel Yaffe. * Maimônides, um Espírito Universal de Samuel Buzaglo.* Maimônides, o Mestre – Uma pedagogia para o século XXI de Samy Pinto.* The Cambridge Companion to Maimonides editado por Kenneth Seeskin.* Maimonides: The Life and Times of a Medieval Jewish Thinker de Abraham Joshua Heschel.* “Maimonides” verbetes na Jewish Encyclopedia, Stanford Encyclopedia of Philosophy e Biblioteca Filosofica Bompiani.* Du prophète au savant : L’horizon du savoir chez Maïmonide e Maïmonide ou la nostalgie de la sagesse de Géraldine Roux.* Maimonides: Life and Thought de Moshe Halbertal. * “Maimonides”entrevista com John Haldane, Jack Ormut e Peter Adamson para o programa In Our Time, da rádio BBC 4.
    59 min
  • Buracos Negros

    “De todas as concepções da mente humana, dos unicórnios às gárgulas à bomba de hidrogênio, a mais fantástica talvez seja o buraco negro: um buraco no espaço com uma margem definida dentro da qual qualquer coisa pode cair e fora da qual nada pode escapar, um buraco com uma força gravitacional tão forte que mesmo a luz é capturada e mantida em seu poder, um buraco que dobra o espaço e distorce o tempo.” Assim o físico Kip Thorne descreveu esse ícone cultural celebrizado como uma metáfora para toda perda irreversível, toda voragem irrefreável, o desespero que aniquila. Ironicamente os buracos negros não são nem buracos nem negros. São estrelas colapsadas, incapazes de resistir à própria gravidade que concentra toda a sua matéria num ponto de volume zero e densidade infinita no qual espaço e tempo são aniquilados. Envoltos em geral num nimbo luminoso que define as margens de sua atração irreversível, o  chamado “horizonte de eventos”, ante eles Stephen Hawking disse que se poderia glosar o que Dante leu às portas do Inferno: ‘Abandonai toda esperança, oh vós que entrais’.” 



    Por outro lado, assim como o poeta entrou sem abandonar a esperança até o fundo do inferno para emergir ao pé da montanha do Purgatório sob o céu estrelado, lá em cima os inumeráveis buracos negros concentram suficientes mistérios para que não só fantasistas mas cientistas possam fantasiar cientificamente sobre suas potências criativas. As evidências mostram que esses fantasmas de estrelas estão intimamente associados a muitas propriedades e processos do universo, como a gravidade, a evolução estelar e os efeitos do tempo no espaço e vice-versa. “A gravidade opressiva [de buracos negros supermassivos] pode ter disparado condensações que eventualmente levaram às rodas majestosas das galáxias em espiral tal como a Via Láctea” (F. Melia). “Dentro de cada buraco negro que colapsa” disse o cosmólogo Martin Rees, “podem estar as sementes de um novo universo em expansão.” E segundo Carl Sagan“buracos negros podem ser aberturas para outro lugar. Se mergulhássemos dentro de um buraco negro, conjectura-se que reemergiríamos em uma parte diferente do universo e em outra época no tempo … Buracos negros podem ser entradas para Países das Maravilhas. Mas haverá Alices ou Coelhos brancos?”



    O próprio Stephen Hawkingreviu suas ideias e não surpreende – ou não surpreenderia se não tivesse vivido na carne a aniquilação do desespero até a raiz dos ossos – que no fim da vida tenha dito sobre esses monstros cósmicos: “Os buracos negros não são tão negros como os pintam. Não são as prisões eternas que outrora se pensava … as coisas podem sair de um buraco negro tanto para fora quanto possivelmente em outro universo. Assim, se você sente que está num buraco negro, não desista – há uma saída.”



    Convidados



    Daniel Vanzella: professor do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo e co-autor de Buracos Negros: Rompendo os limites da ficção. 



    58 min
  • Átomos

    Você já viu um átomo? Uma vez que todas as coisas são feitas deles, sim. De fato, ninguém jamais viu outra coisa senão átomos. São 94 tipos com variações que formam os bloquinhos de montar do universo, determinando todas as propriedades dos gases, líquidos e sólidos. O nome vem da Grécia antiga, significando “indivisível”. Quando Demócrito e outros filósofos os conceberam, possuíam características divinas: eram infinitos, não criados, omnipresentes e eternos. A existência dos átomos foi defendida por criadores das ciências modernas como Newton e Boyle, mas só no século XIX se constataram as primeiras evidências experimentais. Hoje sabemos que os primeiros átomos foram formados há mais de 13 bilhões de anos, pouco depois do Big Bang. E sabemos também que não são os últimos corpos indivisíveis da matéria, mas são formados por outros menores. Até os inícios do século XX, eram conhecidas três partículas subatômicas, que configuravam como um microssistema solar com elétrons orbitando em torno a um núcleo de prótons e nêutrons. Mas hoje conhecemos inúmeras outras partículas elementares, com nomes exóticos como quarks, gluons, mesons ou muons. Só o hidrogênio, o menor de todos os átomos, com um único elétron e um próton, é na verdade formado por 12 partículas subatômicas, que, de acordo com a superposição quântica, podem se comportar como ondas, existindo simultaneamente em múltiplos estados.



    Mas além de conhecer o âmago da matéria, nos tornamos capazes de criá-la! No início do século XIX, John Dalton, o pioneiro da teoria atômica moderna, afirmava que a criação ou destruição de partículas jamais estaria ao nosso alcance, “seria como tentar introduzir um novo planeta no sistema solar, ou aniquilar algum existente”. Hoje porém, além dos 94 elementos naturais da tabela periódica, já foram sintetizados em laboratórios ou reatores nucleares outros 24, e espera-se produzir mais. Apesar disso, ainda em 1927, Ernest Rutherford foi enfático: “esperar uma fonte de energia da transformação dos átomos é papo furado”. Mas enquanto os químicos coligavam as nuvens orbitais de elétrons para produzir novas moléculas, os físicos descobriram que era possível desintegrar ou fundir os núcleos atômicos como fazem o sol e as estrelas, desencadeando quantidades explosivas de energia na terra. Após Hiroshima e Nagasaki, Einstein declarou: “se eu soubesse, teria me tornado relojoeiro”. Mas tudo somado, a física atômica salvou muito mais vidas do que destruiu, possibilitando a criação dos raios X, ressonâncias magnéticas, tomografias, lasers e radioterapias amplamente empregados pela medicina, além de energia e combustíveis nucleares, nanotecnologia, materiais sintéticos e outros prodígios utilizados rotineiramente em nossa indústria.



    Convidados



    Alexandre Reily Rocha: Professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista especialista em Estrutura Eletrônica e Propriedades elétricas de superfícies.



    Marcelo Pires: Professor da Universidade Federal do ABC especialista em física da matéria condensada e condensados de Bose-Einstein.



    Marcelo Yamashita: Professor do Instituto de Física Teórica especialista em física quântica de poucos corpos.



    Referências



    * A Física do Século XX de Michel Paty.* A Matéria – Uma aventura do espírito de Luís Carlos de Menezes.* History of Atomic Theory, vídeo conferência na Khan Academy. * From Atomos to Atom: The History of the Concept Atomde Andrew G. Van Melsen.
    59 min
  • Sátira Romana

    Todos intuímos o que é uma sátira: um humor crítico ou uma crítica humorada, ora agressiva ora alusiva, contra as hipocrisias das pessoas, costumes, ideologias, literatura e o resto de cena social. Nesse sentido genérico, a sátira é provavelmente tão antiga quanto o gênero humano e onipresente em seu mundo – quem não tem entre seus amigos um mestre da sátira? Como disse o satirista moderno H.L. Mencken “O panorama diário da existência humana, da loucura privada e comunitária … é tão desordenadamente grosseiro e disparatado … que somente um homem nascido com um diafragma petrificado pode não rir para si a fim de dormir todas as noites”.



    A sátira vive para zombar da principal definição que Aristóteles dá do homem, o “animal racional”, mas é um impulso tão universal que ilustra como ninguém as outras duas, a de “animal político” e “animal que ri”. Não por acaso, quando a política no mundo antigo atingiu um máximo de complexidade na República e no Império de Roma, a sátira nasceu como gênero literário e recebeu sua forma poética parasitando, ou melhor, parodiando outros gêneros como a lírica, a didática, a inventiva, a comédia e a filosofia. O próprio termo satura significa vulgarmente algo como “mistureba”, uma saturação de substâncias heteróclitas, como as comilanças oferecidas aos deuses, ou as linguiças, ou as miscelâneas de leis e jurisprudências. Como a epopeia, a sátira é uma espécie de micromundo. Mas se os poetas épicos celebram o mundo passado – com seus heróis, deuses, ritos, festivais, triunfos nacionais – os satiristas expõem, protagonizam, punem e instruem o mundo presente – a política, as guerras, o comer e o beber, o fazer dinheiro e os vícios, abusos, tolices e incoerências da vida pública e privada.



    Pela humilhação o humor satírico produz humildade. Mas também liberação. Como disse o latinista Daniel Hooley, é “um lugar onde certos lados desregrados de nós mesmos saem para brincar – aqueles aspectos da nossa humanidade animal que estão excluídos ou tampados em outros gêneros. Merda, vômito, pus, gases, sêmen (não muito sangue, um fluido épico), os cheiros do bordel, as desfigurações humanas grotescas – o vergonhoso, desagradável, embaraçoso, risível e desprezível nas pessoas, e ainda assim, como nós realmente em alguns aspectos somos”, é “uma espécie de carnaval, que de modos variados institucionaliza o exercício social onde o escravizado, o suprimido e marginalizado por nós têm seus momentos de exuberante licença antes das travas se fecharem de novo”.



    Convidados



    Alexandre Hasegawa, professor de Língua e Literatura Latina da Universidade de São Paulo.



    Fábio Cairolli, professor de Língua e Literatura Latina da Universidade Federal Fluminense.  



    Referências



    * “Eis que chega o poeta satírico Horácio” e “Horácio, o poeta (não apenas) do ‘carpe diem’.” de Alexandre Hasegawa.* Sátiras. Fábio Cairolli (Ed. Scortecci). * The Cambridge Companion to Roman Satire editador po Kirk Freudenburg.* Roman Satire de Daniel M. Hooley.* “Roman Satire”: entrevista com Mary Beard, Denis Feeney e Duncan Kennedy para o programa In Our Time da Radio BBC 4.* Roman Satire and the Old Comic Tradition de Jennifer L. Ferris-Hill.* The Function of Humour in Roman Verse Satire de Maria Plaza. * Figuring Genre in Roman Satire de Catherine Keane.* The Power of Satire de R.C. Elliott.* Letteratura Latina 2 Vols. de Gian Boagio Conte.
    51 min
  • Os Fenícios

    É a mais trágica ironia da literatura histórica que dos aclamados inventores do alfabeto não tenhamos mais que uns traços e sequer seu nome. Tal qual a denominação grega “fenícios” ou a hebreia “cananeus”, sugerindo a púrpura dos seus mantos imperiais vendidos a bom preço, o que sabemos deles vem de outros, sejam seus dominadores egípcios, assírios, babilônios, persas, macedônios, selêucidas e romanos, sejam seus clientes egípcios, assírios etc. até os romanos, além de amoritas, celtas, ibéricos, berberes, desde a Era do Bronze ao nascimento de Cristo, como se, cravada numa cruz traçada no Levante entre a Ásia a Europa e a África, a Fenícia fosse uma Fênix às avessas, sempre viva em meio a povos morrendo e renascendo das areias da Mesopotâmia às águas da Bretanha. Nascidos de nômades sírio-palestinos, ergueram na terra libanesa metrópoles sobre promontórios rochosos de onde se lançaram ao mar com sede de ouro, os primeiros a poder conclamar o Mediterrâneo “mare nostrum”. Sua língua ressuscitou nas letras gregas, aramaicas, latinas, não como uma lingua franca hegemônica imposta por um império, mas como as línguas francas, maleáveis e polivalentes de marinheiros, mercadores, colonos. Extraída de seus cedros legendários, sua cultura comercial logrou um comércio cultural dos mais lucrativos da História. E foram generosos: além do alfabeto ao mundo, deram a Israel (pagando com sangue) sua Terra Prometida e o maior rival de seu Deus: EL, o Senhor de Canaã, cognato do árabe Alláh, o “benevolente e misericordioso”, das divindades aramaicas e acádias, os elime ilú, e dos lohim que vivem em El’ohim ou El’Shaddaio todo poderoso Deus sem nome hebraico. Foram os ídolos abominados pelos profetas: os Ba’als, as Astartes e Molochs devoradores de bebês em sacrifícios que chocaram israelitas, gregos e romanos – ainda que os últimos tivessem por lei executar bebês deformados, e os primeiros se não imolaram seus filhos foram tentados, a ponto de Moisés, segundo a Torah, criminalizar a prática invocando a ira de YAHWEH (o qual aliás impediu o sacrifício do Pai de Israel, Isaac, por seu pai Abraão sob as ordens dele, o Deus de Israel, que segundo os cristãos sacrificou seu Filho pelas mãos dos israelitas sob o império de Roma). Como a Ele deram a ela, Roma, seu arqui-inimigo, Aníbal descendo os Alpes com tropas de elefantes, e seu triunfo épico nas guerras púnicas, mas também sua história de amor mais trágica e bela, entre a rainha Dido de Cartago e o Pai da Nação, Eneias de Troia, bem como a mais trágica e torpe de Israel, entre um monarca judeu e uma canaanita, esposa de um general executado para ocultar o filho bastardo, por sua vez sacrificado por YAHWEH para retaliar o adultério. Mas como duas Fênix, o Rei Davi e Betsabá, Rainha Mãe de Israel, renasceram do pó com a maior das graças, um coração arrependido, e um filho, Salomão, raiz da linhagem real do carpinteiro José, pai do bastardo Jesus, e da linhagem bastarda de Maria, Rainha dos Céus e mãe do Deus cujo sangue versado na cruz e na eucaristia é tingido do púrpura imperial fenício.



    Convidados



    Adriana Ramazzina, coordenadora da pós-graduação em Arqueologia e História antiga da Universidade Santo Amaro. 



    Cristina Kormikiari, professora de Arqueologia clássica da Universidade de São Paulo.



    Rodrigo Araújo de Lima, doutorando do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.  



    Referências



    * Storia e Civiltà dei Semiti e Chi Furono I Fenici de Sabatino Moscati. * In Search of the Phoenicians de Josephine Quinn. * I Fenici de A. Parrot, M.H. Chébab e S. Moscati.  * Breve historia de los fenicios de José Luis Córdoba de la Cruz. * Fenici e Cartaginesi. Una civiltà mediterranea de S. Bondì, M. Botto, G. Garbati e I. Oggiano.   * I Fenici de Corinne Bonnet.
    1 hr
  • Alquimia
    O filósofo, santo e cientista Alberto o Grande louvou 8 Virtudes nos Alquimistas: eles são discretos e silenciosos; moram bem longe dos homens; escolhem o tempo do seu trabalho; são pacientes, assíduos e perseverantes; executam segundo as regras herméticas a trituração a fixação, a destilação e a coagulação; trazem cadinhos, vasos de vidro e potes de louça bem iluminados. Mas há os que as degradaram a começar pela essencial: evitar pessoas de temperamento sórdido. Para alguns, a falta de rigor empírico, o flerte com a magia, a busca do poder mundano pela transmutação de vis metais em ouro fazem da Alquimia a história de uma quimera senão uma fraude. Para outros é o supremo dom divino, a arte de integrar o mundo natural ao espiritual pela reflexão, ação e criação de um coração puro. Do Egito, à China, à Índia até o mundo islâmico e a cristandade, a epopeia mais fabulosa da história das ciências mescla romance, superstição, medicina, piedade, tecnologia, trapaça, tragédia, poesia, humor. Forjados na fé do deus três vezes grande Hermes de que o que está no alto está em baixo, o grande no pequeno, o dentro fora, o Um em Todos e Todos no Um, ora cortejando Sofia a Divina Sabedoria ora barganhando com o Demônio como Fausto, para cada imperador ou papa que baniu a alquimia há um imperador ou papa alquimista. Estimada por filósofos como Maimônides ou Tomás de Aquino, praticada por pais da ciência como Boyle e Newton, tão cobiçada quanto ridicularizada por suas panaceias, a Pedra Filosofal ou o Elixir da Vida, quem dirá que a alquimia não tocou a volátil quintessência do pó, do poder e da felicidade? Há milênios comungamos fermentados como cerveja ou vinho em rituais familiares e religiosos com amigos, mortos e deuses, mas só dos alambiques alquimistas veio a prata e o ouro líquidos dos destilados. Ela inspirou Monteverdi se instilando na forja da mais espetacular das artes, a ópera, e foi o crisol do cinema: um alquimista árabe inventou a câmara escura e um francês pode ter fixado imagens fotográficas em 1750, cem anos antes de Daguerre. Paracelsus foi precursor da homeopatia e da alopatia. Buscando ouro na urina, um alquimista de Nuremberg descobriu o fósforo que queima em nossos palitos e queimou nas bombas que aniquilaram Nuremberg. Rutherford, um pai da física nuclear, se dizia um “alquimista moderno”. Jung viu nos laboratórios alquímicos os elementos de sua psicologia profunda. Paulo Coelho forjou o chumbo de sua “Lenda Pessoal” pregando a “Mão que Tudo Escreveu” e a transmutou em ouro literário e literal na aventura do seu Alquimista na qual uma massa de leitores viveu seu sonho de descobrir o tesouro secreto que sempre possuiu no deserto de suas vidas. A física hoje persegue o enigma da integração do macromundo da relatividade geral e do microuniverso quântico, afirma a mutação da matéria pela observação, e a interconexão de fenômenos distantes como o voo de uma borboleta e um maremoto ou uma partícula no Sol, outra na Lua e outra na Terra, e dá a qualquer um a chave para transmutar chumbo em ouro, basta bombardeá-lo num acelerador de partículas a custos astronômicos em troca de quantidades microscópicas. Em nossos tempos de fé dogmática na ciência, de nostalgia delirante por uma medicina holística e de profecias transumanistas, terão os alquimistas desaparecido para sempre ou estão chegando?
    Convidados
    Ana Maria Alfonso-Goldfarb: professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
    Márcia Ferraz: professora de história da ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
    Paulo Porto: professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo.
    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    Referências 

    * Da Alquimia à Química de Ana Maria Alfonso-Goldfarb.
    * Percursos da História da Química e
    56 min
  • As Invasões Bárbaras
    Quando o visigodo Alarico saqueou Roma 66 anos antes da queda de seu último imperador, Romulus Augustus – nome composto ironicamente pelos do primeiro imperador e do fundador de Roma –, São Jerônimo lamentou “a extinção da luz mais resplandecente de toda a Terra”, quando “o Império perdeu sua cabeça” e “o mundo pereceu em uma cidade”. Um século antes, Lactâncio afirmava que o mundo pode acabar rápido, mas não há nada a temer enquanto a cidade de Roma permanecer intacta. Desde então, as invasões bárbaras viraram o arquétipo da brutalização da vida civilizada, o “Declínio e Queda do Império”, na fórmula proverbial de Gibbon. Porém, como ele descreveu, o Império só caiu 1.000 anos depois em Constantinopla. Das letras e letrados resgatados de lá a Itália concebeu o Renascimento, dando à luz a modernidade, onde o espírito de Roma inspiraria desde as artes clássicas às políticas republicanas, e hoje, como sempre, multidões de católicos são lideradas Urbi et Orbi pelo bispo da Cidade Eterna. Para os iluministas inebriados de classicismo a sua queda foi o mergulho na “Idade das Trevas”.
    Mas não seria a Idade Média uma idade de luz? A engenhosidade arquitetônica de suas catedrais góticas é mais fulgurante que qualquer maquinação romana para copiar os gregos; seus cavaleiros se bateriam aos maiores centuriões; seus escolásticos inventaram a universidade; seus poetas o romance, e, do menor deles, surgiu talvez o mais são dos santos, Francisco. O Sacro Império Romano-Germânico, gestado numa noite de Natal pelo papa na basílica de São Pedro com a coroação do rei franco Carlos Magno, imperou mil anos até ser esmagado sob a bota do imperador francês Napoleão. As Letras latinas são belas, bárbaras, mas sua língua morta só frutifica barbarizada em pedaços nas nossas línguas românicas. Não é à República romana que a Inglaterra tributa seu parlamentarismo democrático e sua monarquia constitucional, mas às ligas tribais de celtas, anglos, saxões, bretões, normandos. A consciência e a arte germânicas são povoadas dessas bestas loiras que Nietzsche amava: Thor, Siegfried, Artur, Parsifal, Tristão, Isolda. Para Hegel, esse povo consumava a apoteose do Espírito Divino, inaugurando o império da verdade e da liberdade para o Universo. As igrejas protestantes, as nações e Estados europeus, nosso Novo Mundo americano – além dos eslavos, a Rússia, sua revolução, sua literatura, sua religião ortodoxa herdada do Império romano dos gregos em Bizâncio junto com o mito messiânico da Terceira Roma –, nada existiria como conhecemos não fossem os bárbaros.
    Nem só legiões de Conans, vândalos e valquírias, nem cosmopolitas nórdicos, eram muitas vezes tribos civilizadas fugindo de tribos bestiais, ora abatendo Roma, ora se abrigando nela, ora combatendo seus invasores. O que conquistaram afinal? A morte de uma esplêndida civilização carcomida? Sua ressurreição pela barbárie? E o que revelam em nosso tempo de “invasões verticais dos bárbaros” e “tribos globais” e rebeliões das massas de imigrantes e refugiados – como o foram, aliás, os pais de Roma, bastardos selvagens como Rômulo e Remo e hordas asiáticas como os troianos de Eneias, o piedoso?
    Convidados
    Adrien Bayard: doutor em História Medieval pela Universidade de Sorbonne em Paris.
    Marcelo Cândido: professor de História Medieval na Universidade de São Paulo
    Renato Viana Boy: professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal da Fronteira do Sul.
    Referências

    * The Early Slavs: Culture and Society in Early Medieval Eastern Europe de Paul Barford.

    * Myth of Nations. The Medieval Origins of Europe de Patrick Geary.
    * La Formation de l’Europe et les invasions barbares, vol. I : Des origines germaniques à l’avènement de Dioclétien de Émilienne Demougeot.
    55 min
  • A Escultura Grega
    Os artefatos mais antigos em nossas mãos são pedras lascadas pelas patas dos homens-macaco 2,5 milhões de anos antes do sapiens. Peças de arte figurativa, pinturas nas cavernas e estatuetas, floresceram há meros 60 mil anos. De lá para cá, se os pintores diluíram seu olhar por rostos, paisagens, multidões, animais, naturezas mortas e tudo o mais que vislumbraram em seu entorno, os escultores, talhando suas visões em pedregulhos, barro ou metal quente, jamais desviaram o olhar, como num ponto de fuga, do seu único foco: o corpo humano. Dos corpinhos voluptuosos das vênus paleolíticas, passando pelos corpos incrustrados nas catedrais medievais, os corpos titânicos de Michelangelo, os diáfanos de Bernini, até os corpos sob pressão de Rodin ou os afilados ao extremo de Giacometti, os escultores sempre aspiraram a espiritualizar a matéria desse mundo exprimindo-a no corpo humano. E mesmo quando artistas modernos como Alexander Calder desencarnaram todos os contornos orgânicos de sua escultura, o seu fascínio ainda aflora da fusão abstrata das excelências do corpo animal – o equilíbrio e o movimento – com a excelência singular do corpo humano – a graça.
    Não pode ser coincidência que a concepção do corpo humano perfeito tenha se feito carne de bronze e mármore em sua perfeita representação lá onde, como dizia Schiller, “enquanto os deuses se tornavam mais humanos, os homens se tornavam mais divinos”; nem lá onde as artes da guerra finalmente se sublimaram no esporte; assim como não é coincidência que as nossas instituições de ensino e formação – a academia, o liceu, os ginásios e palestras – tenham sido na origem clubes de atletismo gregos, onde a educação física servia de forja à mental. Fundindo o cultivo do corpo e o culto aos deuses, a Grécia criou uma cultura literalmente olímpica cuja apoteose foram os jogos sagrados, e que foi tão impecavelmente materializada em suas estátuas, que à sua vista, mesmo quando destroçadas pelas mãos do tempo, é impossível dizer se são atletas sobre-humanos ou corpos gloriosos de deuses e deusas.
    Convidados
    Gilberto da Silva Francisco: professor de História Antiga na Universidade Federal de São Paulo, membro do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano e o Mediterrâneo antigo na Universidade de São Paulo e do Laboratório ‘Heródoto, Mundo Clássico e suas Conexões Asiáticas.’
    José Geraldo Grillo: professor de Arte Antiga na Universidade Federal de São Paulo e autor de Arqueologia Clássica: O quotidiano de gregos e romanos. 
    Luiz Marques: professor de História da Arte da Universidade Estadual de Campinas.
    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    Referências

    * Greek Sculpture. I. The Archaic Period; II. The Classical Period; III. The Late Classical Period de J. Boardman.
    * Iniciação à História da Arte (A Basic History of Art) de H.W. Janson.
    * A História da Arte (The Story of Art) de E.H. Gombrich.
    * A Arte na Antiguidade Grega (L’Art Grec) de Jean Charbonneaux.
    * ‘Greek Sculpture Made Simple’ verbete da Art Encyclopedia.
    * Understanding Greek Sculpture. Ancient Meanings, Modern Readings de Nigel Spivey.
    * “A escultura na Grécia” em A Filosofia da Arte (La Philosophie de l’Art) de Hippolyte Taine.
    * The Greek Miracle – Classical Sculpture from the dawn of democracy editado por Diana Buitron-Oliver.
    * Arte greca : Dall’età classica all’età ellenistica de Antonio Giuliano.
    * La Sculpture : de l’Antiquité au xxe siècle editado por G. Duby e J.-L. Daval.
    * Greek Sculpture de E. von Mach.
    * The emergence of the classical style in Greek sculpture de R. Neer.
    * The Technique of Greek Sculpture In the Archaic and Classical Periods de Sheila Adam.
    * A History of Greek Art de F.B. Tarbell.
    59 min
  • Vida Extraterrestre
    Quando por Marte, Vênus, Júpiter e outras esferas Beatriz conduziu Dante entre multidões de santos, serafins e no céu dos céus o Pai, o Filho, sua Mãe e o Espírito Santo, nossa Terra era o centro do universo rodeado por uma meia dúzia de planetas como o sol e a lua e por uma esfera de estrelas movidas, segundo o poeta, pelo Amor. Em nosso tempo dizem que o primeiro homem a viajar pelo espaço sideral, Yuri Gagarin, teria dito “Eu procurei e procurei mas não encontrei Deus” e sabemos que o sol é só uma entre 300 bilhões de estrelas da Via Láctea, que é só uma entre 100 bilhões de galáxias do Universo observável. Se 1% dos planetas for habitável, os potenciais abrigos para a vida podem exceder a um trilhão de bilhões. “Não é natural” disse 400 anos antes de Cristo o grego Metrodorus “num grande campo ter apenas uma espiga de trigo, e no universo infinito somente um mundo com seres vivos”. Cabeças como Kepler, Kant, Churchill, Carl Sagan ou Stephen Hawking pensavam o mesmo.
    Mas indiferente a tantas vozes e cifras perdura o paradoxo: onde estão eles? E perduram os enigmas. Por mais escassez que sugira o mantra da NASA “Siga a água!”, a molécula de H2O é a segunda substância mais detectada no universo e é em geral encontrada em lugares hostis à vida. O carbono é o quarto átomo em abundância cósmica e cerca de 30% da massa da poeira entre as estrelas é de matéria orgânica. Por outro lado, das dezenas de elementos da tabela periódica, apenas cinco – hidrogênio, nitrogênio, fósforo, oxigênio e enxofre – constituem com o carbono 99% de toda matéria viva. De resto sequer sabemos ao certo o que estamos procurando. Nada pode ser mais familiar que a vida. Mas o que é? Como começou? Só sabemos que em algum momento alguma coisa surgiu da sopa química e passou a gerar filhos e aqui estamos nós. E além de nós? Onde a especulação termina e as evidências começam o que temos é igual a zero.
    Talvez pelo mistério da vida no nosso mundo e certamente pela aparente ausência dela além dele a Astrobiologia já foi chamada “A ciência sem objeto”. Mas seu objeto, se existir, será seguramente a experiência mais excitante e amedrontadora da história universal e, se não, deixará para sempre uma questão devoradora à humanidade: estaremos sós? A ideia de supercivilizações intergalácticas e criaturas bizarras é tão sedutora para alguns cientistas como é para os ficcionistas. Mas e se não for o caso. E se a vida de um universo que há 13 bilhões de anos se propaga no nada por bilhões de trilhões de zilhões de quilômetros estiver toda concentrada num pontinho azul e verde que é o nosso mundo? Ambas as hipóteses são fascinantes e uma responsabilidade tremenda. Caberia ao ser humano encher o Universo de vida? E se já estiver cheio, conseguiremos nos comunicar e conviver com outros seres vivos? E se aniquilarmos em nosso planeta a única vida que existe devolvendo o Universo ao silêncio sem fim?
    Convidados
    Amanda Bendia: doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo.
    Douglas Galante: pesquisador de Astrobiologia e Ciências Planetárias do Laboratório Nacional de Luz Síncroton.
    Ivan Lima: cientista do Blue Marble Space Institute of Science.
    Referências

    * Life in the Universe. An Assessment of U.S. and International Programs in Astrobiology do National Research Council U.S.
    * Extraterrestrial Encyclopedia editada por Joseph A. Angelo Jr.
    * The Living Universe: NASA And the Development of Astrobiology de Steven J. Dick e James E. Strick.
    * Terres d’ailleurs: À la recherche de la vie dans l’Univers de André Brahic et Bradford Smith.
    * The detection of extra-terrestrial life and the consequences for science and society.& Towards a scientific and societal agenda on extra-terrestrial life. produzido pela Royal Society.
    0 min

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