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No episódio anterior, o romance de Brás e Virgília já andava descendo a ladeira e termina quando ela vai com o marido para outra cidade. Brás conhece Nhã-Loló, que é filha do Damasceno e sobrinha do Cotrim. Existe interesse de Sabina em casar o irmão com a moça, que Brás julga ser de família inferior. Também vimos a explicação da filosofia de Quincas Borba, o Humanitismo.
Em um dos capítulos que eu vou ler a seguir, Machado de Assis coloca na narrativa mais um fato histórico, e dessa vez um fato que ecoa no cenário que vivemos hoje, no ano de 2020: uma pandemia. O narrador Brás Cubas vai falar, muito por alto, na epidemia de febre amarela que acarretou em muitas mortes. Na História do Brasil, ocorreu de fato uma epidemia de febre amarela na capital do então Império, em 1849, quando um navio americano teria chegado trazendo a infecção aos portos. Foram mais de 4 mil mortos no Rio de Janeiro, pela doença, no ano seguinte.
Vamos ver o que acontece com Brás na leitura de hoje?
No último episódio, vimos que Virgília está grávida e que Brás acredita que o filho é dele. Ele passa um tempo conversando com o feto, imaginando como será esse filho. Vê o filho bacharel, fazendo discurso, e se enche de orgulho. Na verdade, Brás projeta nesse filho a imagem de si próprio, por quem ele tem muito apreço, diga-se de passagem. O discurso que imagina para o filho talvez seja aquele que o pai dele imaginou sendo o primeiro discurso do Brás como ministro, um discurso que ele acabou nunca fazendo.
O episódio terminou com um convite do cunhado Cotrim para um jantar. Esse convite foi entregue ao Brás pelo Damasceno, uma personagem que apóia o comércio de escravos e ao mesmo tempo se diz fã de teatro.
No último episódio, vimos que o colega de infância Quincas Borba virou mendigo e furtou o relógio do Brás em um abraço. Brás mantém uma casa para os encontros com Virgília e o nosso narrador protagonista está com cerca de 40 anos de idade.
Vamos continuar com a leitura e ver a quais reflexões Machado de Assis nos convida com o fragmento a seguir.
Na leitura desse fragmento, o caso de Brás e Virgília é de conhecimento público. O narrador reata com a irmã, com quem havia brigado pela herança do pai, e o cunhado Cotrim o aconselha a não seguir para o norte, como conselheiro do Lobo Neves, para que o caso não se tornasse um problema, em uma cidade menor que o RJ.
Quincas Borba lhe envia um relógio em restituição daquele furtado durante um abraço e diz que já não é mais mendigo, e que quer contar ao Brás sobre sua teoria filosófica, a teoria do Humanitismo.
Já no fim da leitura de hoje, chega à casa de Brás o Damasceno, cunhado de Cotrim. Damasceno participou na Revolução de 1831, é a favor do tráfico de escravos e contra os ingleses. Ele bate no peito dizendo que é patriota, e explica que isso “não admira porque era de família”, descendia de um militar muito patriota.
Na leitura do último episódio, vimos umas características negativas da personalidade de Brás. Por exemplo, ele percebe que o amigo Luís Dutra, precisa de uma opinião sobre os textos literários que escreve. Só por maldade, e talvez também por inveja, porque o Brás julga que o amigo escreve melhor que ele, Brás não faz nenhum comentário, foge do assunto.
Quando é pra se mostrar amigo do Lobo Neves, por outro lado, o marido da Virgília, ele dá força, porque aí é conveniente pro Brás se mostrar amigo.
Lembra daquelas questões iniciais, com as quais a gente começou a leitura, se o Brás seria alguém especial pra estar, depois de morto, escrevendo suas memórias? Pois do que vimos da leitura até agora, Brás é um tipo medíocre, sem nenhuma característica que mereça ser imortalizada.
Nós temos visto ao longo das leituras que o narrador comumente fala com o provável leitor, ou leitora de seu romance. E que isso é uma característica do Machado. Esse narrador também fala da construção do texto, se referindo ao um parágrafo que não quer que fique muito longo, ou do tipo de narrativa que está construindo... quando a linguagem é utilizada pra falar da própria linguagem, usamos o termo “metalinguagem”. E quando o autor utiliza metalinguagem, parece que está nos arrancando de dentro da trama e chamando nossa atenção para o fato de que isso que estamos lendo é um produto linguístico, é obra de arte resultante de trabalho com as palavras, pra que um leitor desavisado não se esqueça de que se trata de trabalho artístico e não documento sobre o real, por exemplo. Ao fazer referência a como quer que este romance fique estruturado, o autor chama atenção para o fato de que tudo no romance é resultado de escolhas dele, autor. E de que estamos lendo sobre uma vida fictícia, em que cada detalhe, os defeitos de caráter, a cor da pele, a família, o sobrenome, tudo foi pensado e decidido de ser apresentado desse jeito pelo autor. Ao nos puxar assim pra fora da narrativa, pra nos mostrar os andaimes, os alicerces da construção do texto, me parece que o autor quer com isso evidenciar que a temática tratada no texto também não está ali por acaso, mas foi escolha do autor para que nós, leitores, lêssemos sobre tais aspectos, que têm a sua contrapartida na vida real, e refletíssemos sobre eles. Em Memórias póstumas, alguns desses temas escolhidos, decididos de estar no romance são as questões de diferença social, da escravidão, e de como possivelmente era a entrada pra vida política de alguns homens que se decidiam por essa profissão. O Brás, por exemplo, vamos ver na leitura de hoje que decide ser ministro, mas não que ele tenha um objetivo. Pra ele, entrar pra vida pública é mais uma etapa na escalada social esperada pra alguém como ele, que tem dinheiro, estudou na Europa, vive de rendas, é homem no final do século XIX. Pra ele é mais um degrau óbvio entre as coisas bacanas que acontecem na vida dele. É uma vontade esvaziada de sentido no que se refere a prestar serviço ao bem comum, como o cargo sugere que façam.
Na leitura do último episódio, Brás conta sobre os dias em que passou na casa da família, na Tijuca, sozinho a refletir sobre a morte da mãe. Ele encontra D. Eusébia e conhece a filha dela, Eugênia.
Nesse fragmento aparecem algumas borboletas. A borboleta de asas de ouro e olhos de diamante que Brás imagina voando dentro da cabeça de Eugênia, as duas borboletas negras que invadem, primeiro a casa de D. Eusébia, depois o quarto dele, e que segundo as mulheres são sinal de mau agouro. Esses aparecimentos das borboletas são fatos que desencadeiam no Brás reflexões subjetivas. A figura da borboleta parece servir como metáfora para nos revelar algo que não está sendo dito.
Há também referências a cores nesses capítulos. Brás associa amarelo à hipocondria, azul a algo positivo. Há alusão à cor da casa em que moram D. Eusébia e Eugênia, que Prudêncio diz que mudaram pra uma casa roxa. Brás diz que se a borboleta negra que entrou no quarto fosse azul, que talvez não tivesse morrido, mas como era negra, foi arrebatada por uma toalha.
A lembrança do defunto desse dia em que entra uma borboleta preta no seu quarto, voa ao redor do corpo dele, pousa em sua testa e depois vai pousar no retrato do seu pai, pode fazer referência a alguns fatos: à crueldade do homem que se julga o dono do espaço, à arrogância desse mesmo homem, branco e privilegiado, que se julga o inventor da borboleta, ao desprezo pelo outro, ao racismo, ao sentimento de superioridade em relação ao outro.
Lembra que as borboletas estão inseridas no episódio em que Brás trava conhecimento com Eugênia, de quem ele sente certo desprezo porque é filha ilegítima e porque é manca. E quem avisa Brás da existência de Eugênia é o escravo Prudêncio que, assim como a borboleta, é negro e entra no quarto dele com a informação da mudança de D. Eusébia para uma casa vizinha e, com isso, leva Brás a fazer reflexões. Logo que mata a borboleta preta, ele sente arrependimento, mas não demora muito que se reconcilie consigo mesmo. Assim como aconteceu com o almocreve, Brás é rápido em desculpar o próprio comportamento, em julgar que agiu bem.
E que justificativa Brás Cubas usa agora pra ter praticado o mal, pra ter matado a borboleta? A justificativa é a cor da borboleta. Ela morre porque é preta. E, sendo preta, tudo bem matar a borboleta! (até rimou!) Ele se exime de sua maldade dizendo que a culpa por ter sido morta é da borboleta, que não tinha nascido azul. Será que a gente pode fazer alguma associação à cor de pele dos escravos, que viviam apanhando, sendo mortos pelos homens brancos que se julgam superiores, e ao ditado de que os nobres têm sangue azul? Se era essa a intenção do autor, ele arremata o argumento com uma ironia, pois diz que mesmo a borboleta azul teria um fim trágico, seria espetada por um alfinete pra ser exposta por sua beleza. Então que a tragédia seria o fim de todos, alguns morrem enxotados a toalhadas, outros, que tiveram a sorte de nascer de outra cor, ainda assim não escapam de morrer em função da cor que exibem.
No último episódio, vimos em Memórias póstumas que Brás foi uma criança má com os escravos da casa, nada dedicado na escola e que na juventude ele se envolveu com Marcela.
Como Memórias póstumas de Brás Cubas é um texto escrito em 1881, ou até um tempo antes da publicação que foi em 1881, aparecem algumas palavras e expressões diferentes, que já caíram em desuso e podem nos surpreender. Uma delas vai estar na leitura que eu sigo agora, é a palavra “almocreve”, que se referia ao indivíduo que tinha por ofício conduzir bestas de carga. Não sei vocês, mas eu nunca tinha ouvido essa palavra.
Se em algum momento dessa leitura tu te deparou com a seguinte questão: peraí, Memórias póstumas inaugura o Realismo no Brasil, e essa palavra lembra realidade, como é que pode uma história narrada por um narrador que é um defunto-autor ter a ver com realidade. Isso já te ocorreu? Então é hora da gente conversar sobre um conceito importante quando se estuda literatura ou se faz análise literária, que é o conceito de verossimilhança.
No último episódio, vimos que Brás Cubas escreve suas memórias depois de morto, por isso ele é um defunto autor. Seria um autor defunto se ele já escrevesse quando vivo e tivesse morrido. Mas ele primeiro morre, e depois se torna um autor. É um defunto autor, portanto.
Ficamos sabendo quando e de que morre Brás Cubas, que seu sobrenome não tem uma origem rica, mas que o pai dele manipulou a história desse sobrenome pra parecer fidalgo, que Brás morava sozinho quando da sua morte e soubemos da presença da Virgília, uma antiga namorada, que acompanha a sua passagem pro além, da onde ele terá suas pretensões literárias.
Na leitura do primeiro episódio, a gente pode perceber uma das principais características do escritor Machado de Assis: os narradores criados por ele falam com o leitor, com o provável leitor de suas obras. É bem comum esse narrador dizer algo do tipo, “caro leitor, faz como te aprouver” ou coisas do tipo. Esses narradores pressupõem um leitor implícito e estabelece com ele um diálogo. Em Memórias póstumas, no episódio passado, a gente viu o narrador dizer, por exemplo, que ia falar sobre uma alucinação que teve e que se o leitor quisesse podia pular aquela parte, mas que se tivesse só um pouco de curiosidade, que ficasse lendo. Isso é muito Machado de Assis.
Vimos também que eu não sei falar Francês, mas o Machado pelo jeito sabia, porque o romance traz algumas frases na língua... e hoje tem mais!
Vamos continuar com a leitura?
Olá! Bem vindos ao Literatura Oral, podcast de leitura comentada e sugestões de literatura. Meu nome é Sabrina Siqueira, eu sou jornalista e tenho doutorado em literatura. Hoje eu inicio as leituras deste podcast. E começo muito bem, com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis.
A trilha sonora do Literatura Oral é uma composição exclusiva de Christian Guimarães, @mr.guimaraes, do Mono Estúdio, @monogravadora
Olá ! Eu sou Sabrina Siqueira e este é o Literatura Oral, podcast de leitura comentada e sugestões de leitura. Sejam bem vindos!
Em alguns episódios, eu vou ler obras literárias, que estejam em domínio público ou das quais eu tenha autorização, claro! E vou acrescentar alguns comentários, informalmente. Em outros episódios, a ideia é fazer sugestões de leituras, em obras que não possam ser lidas na íntegra, por questões legais.
Eu sou jornalista, tenho mestrado e doutorado em literatura. E toda minha formação acadêmica se deu na Universidade Federal de Santa Maria, cidade onde eu moro, no RS. A minha pós-graduação foi voltada para literatura irlandesa, mas aqui eu quero ler e comentar de (quase) tudo!
Trilha: Compositor Christian Guimarães (@mr.guimaraes), Mono Estúdio (@monogravadora)
Olá! bem vindos ao Literatura Oral, podcast sobre leitura comentada e sugestões literárias. Meu nome é Sabrina Siqueira.
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