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O debate sobre o racismo e as relações raciais estão desde sempre no âmago da cultura estadunidense. Mas, pelo menos nos últimos dez anos, tem existido movimentos ativos, nas ruas e redes sociais, denunciando a conivência do Estado em relação ao genocídio negro. Essas tensões acabam refletindo em diferentes produtos da cultura, que captam o espírito do tempo e tentam trazer de diferentes maneiras o que se discute no debate contemporâneo.
Lovecraft Country, série da roteirista e showrunner Misha Green, criada a partir do livro de mesmo nome de Matt Ruff sintetiza esse espírito. Ao amparar-se no nome de um escritor notadamente racista e xenófobo (para dizer o mínimo) e colocar protagonistas negros, e criticar a hipocrisia no coração dos Estados Unidos, uma porção de subversões positivas são desencadeadas.
É possível consumir material de autores que discordamos diametralmente em nossa agenda? Como contextualizar obras de outros tempos, que trazem em suas frestas pensamentos que não cabem em nossos dias?
Para pensar essas e outras questões profundas, tanto no livro quanto na série, o convidado é o meu amigo Fernando Corvisier - rpgista inveterado, especialista em soluções educacionais, designer e cultista anti-racista. Vem com a gente pensar o horror da vida real.
Boa audição.
27/agosto/2021
#serie #livro #cosmichorror #literatura #literaturafantástica #podcast #obrafechada #lovecraftcountry #mattruff #mishagreen #realhorror #horrordavidareal
Filmes que trabalham a dinâmica do confinamento, em geral colocando elencos masculinos, não são necessariamente uma novidade. Existem diferentes exemplos, que passeiam por vários gêneros cinematográficos e se apoiam neste formato. É um tipo de situação narrativa que pode explorar as relações de grupo e espelhar muito da vida em sociedade. Vide 'Doze homens e uma sentença' ou 'Os oito odiados'.
"The Thing'' (Enigma do outro mundo) de John Carpenter se insere nessa 'tradição' adicionando gore, ação, paranóia, medo do desconhecido e principalmente desconfiança. Um filme que se contrapõe a um tipo de visão de masculinidade conservadora vigente nos anos 1980 e apresenta uma percepção niilista da realidade apoiada no horror cósmico, para espelhar um mundo que estava começando a descobrir a AIDS e temer as epidemias.
Nesse último episódio da temporada o convidado é meu amigo, sociólogo e editor, Ricardo Ganso, grande fã de Carpenter e apreciador da dublagem brasileira dos anos 1980.
Espero que goste do episódio e se for de seu interesse compartilhe com seus amigos e contatos.
Boa audição.
20/agosto/2021
#filme #film #movie #cinema #podcast #obrafechada #thething #enigmadooutromundo #cosmichorror #horrorcosmic #johncarpenter
O New Model Army tirou seu nome do 'Exército Novo' de Oliver Cromwell, deixando clara sua predileção por revolucionários que enfrentam o status quo, derrubando as normas e convenções. Fruto de uma Inglaterra devastada pelo neoliberalismo assassino dos anos Thatcher, o NMA imprime nas primeiras letras a raiva e o descontentamento das classes trabalhadoras.
O punk havia surgido no zênite cultural explodindo em diferentes direções e mostrando que as possibilidades eram vastas. O lirismo único do grupo de Bradford, trazia um sentimento genuíno, junto da revolta com a moral cristã que impregnava todos lares, a contestação com a estúpida Guerra das Malvinas e o grito de vingança contra os nazistas.
A vivência subterrânea ensinou tudo o que Sullivan e cia, empregaram adiante na carreira: autonomia, decisão e a coragem quase inconsequente de seguir em frente. Nesse trajeto, desavenças com a clássica banda anarcopunk Conflict, o título de banda mais feia do mundo, as muitas mudanças de formação e começo de uma discografia irretocável.
Em 1989, com o mundo assistindo a queda do muro de Berlim e o fim das utopias, é lançado 'Thunder & Consolation' seu quarto álbum de estúdio, e que é tema do programa de hoje. Me acompanha, meu grande amigo Alessandro Matos, grande fã da banda e parceiro de décadas.
Boa audição.
13/agosto/2021
#disco #disc #vinil #vinyl #podcast #obrafechada #thunderandconsolation #newmodelarmy #postpunk #justinsullivan
Lançado pela primeira vez em 1980, a graphic novel MAUS foi feita para que seu autor lidasse com seus fantasmas. Com a "culpa" de ser um sobrevivente, por sentir certa comparação com seu irmão morto, para lidar com todos os problemas de seu pai, este sim, testemunho vivo do horror da guerra.
Porém, as problemáticas da obra nos apontam e nos deixam uma série de outros questionamentos. O que legitima a perseguição e o extermínio sistemático do outro? Quem define quem são ELES e quem somos NÓS? Mais poderosas que as perguntas são as afirmações que emergem. O nazismo é o filho mais perverso do racismo. É o ódio induzido e alimentado no tempo. É o discurso que tira a humanidade e estabelece uma política de morte.
Vez por outra aparece no noticiário, através de revisionistas, de extremistas de direita, de terroristas intolerantes, daqueles incapazes de pensar e entender o mundo a sua volta. Nessa bolha, o ódio é mantido frequentemente, elegem-se os inimigos, articula-se a perseguição. É onde se cria uma narrativa de diferenças e estereótipos preconceituosos.
Com tanto a se pensar, MAUS ultrapassa os limites do ambiente de onde foi criada. É preciso um mergulho para reflexões mais amplas e por isso, sou acompanhado no programa por meu amigo Davi da Rosa, historiador, professor e autor do livro "O que é Nazismo" publicado pela Editora Lafonte (2021).
Davi também mantém um canal no Youtube, onde toca guitarra e disponibiliza aulas espertíssimas.
O programa ficou demais.
Boa audição.
06/agosto/2021
#livro #book #graphicnovel #romancegráfico #podcast #obrafechada #maus #artspiegelman
No correr da história ocidental o cristianismo, seguindo algo que já faziam os romanos, apoderou-se de locais sagrados, de festividades e datas importantes. Definiu sua posição de poder e dominância, por dar novos significados, nomes e sentidos a algo que já era pertencente à vida de outros grupos humanos que foram postos, ou adentraram a cultura cristã. Hoje sabemos que esse processo não foi de recebimento puro e simples e sem resistência.
Midsommar (2019) de Ari Aster, talvez dialogue com essa problemática. Não é tema do filme, mas está submerso em um monte de camadas. Talvez esteja plasmado entre o grande borrão que ignora as barreiras de gênero cinematográfico. O longa em si é uma fábula sobre o trauma, sobre as relações apodrecidas e sobre o reencontro. E é também sobre o efeito poderoso da cultura em nosso comportamento. Permita-se e se pergunte: O que faz uma sociedade branca, em local isolado, louvando sua existência e costumes, ao receber visitantes estrangeiros trazidos por emigrados de seu grupo? E antes de responder, lembre-se: os cruzados que invadiam, guerreavam e pilhavam se viam como o "corpo civilizatório'' do mundo.
Para escarafunchar os simbolismos e significados desse horror à luz do dia, temos o retorno de Michelle Henriques, coordenadora do Leia Mulheres, integrante do Podcast Witching Hour e Cine Varda e agora redatora no Querido Clássico.
Espero que gostem.
Caso queira conhecer os projetos da convidada acesse:
Querido Clássico
Podcast Witching Hour
Cine Varda
Leia Mulheres
Boa audição.
30/julho/2021
#filme #movie #ariaster #midsommar #podcast #obrafechada #terror #horror
O ano de 1969 marca uma viragem na concepção musical e posicionamento político filosófico do músico nigeriano Fela Kuti. Foi o ano em que ele passou pela Califórnia e estabeleceu contato com vertentes radicais do pensamento negro norteamericano. Ventilado por essas novas ideias, forja um novo estilo musical, incorporando influências do jazz, funk e soul ao que vinha fazendo. Além disso, uma nova consciência toma conta das letras, que partem agora para os problemas vividos pelos povos africanos. Durante um período de nove anos, lança por volta de 20 discos tornando-se uma das mais prolíficas carreiras do continente.
Dois anos depois, em 1971, gravaria "Live!" disco ao vivo de Kuti, acompanhado do poderoso Africa'70 e com participação do músico inglês Ginger Baker. Além do incrível material musical, o disco documenta a parceria dos dois músicos que já se conheciam desde a estada de Kuti em Londres.
Muito já foi dito sobre o temperamento, a maneira de gerir os negócios e a problemática do tamanho do ego de ambos, porém o que se capta no disco é algo mágico. Daquelas parcerias que servem ao avanço da música e nos entrega histórias.
No episódio sou acompanhado por meu amigo, músico, radialista e incansável pesquisador da música: Daniel Villaverde. Responsável por pelos programas Ako Ba Ho (música africana) e Sonidos Latinos (música latino-americana) na Vírus Rádio Comunitária, Daniel trouxe suas percepções e conhecimentos da música do continente e batemos um papo para lá de tri legal!
Caso queira conhecer os programas acesse:
https://mixlr.com/viruscomun
https://mixlr.com/viruscomun/showreel
Boa audição.
23/julho/2021
#disco #vinyl #felakuti #gingerbaker #podcast #obrafechada #afrobeat #africa70
A origem humilde e o interesse em letras moldaram desde cedo o caráter de José Saramago. Bem antes de ser o reconhecido autor português, laureado com um Nobel de Literatura, esse José, tão simples como tantos outros, saiu do campo, frequentou bibliotecas públicas, ganhou a metrópole, para aos poucos se tornar escritor. Viu as profundas transformações de seu país, no curso e no tempo que a história entrega. E assim, conseguiu conceber histórias, que entrecruzam a realidade, o documento, a vida vivida e o fantástico que passa por todas essas tramas.
"Ensaio sobre a cegueira" é seu décimo sétimo livro, em uma bibliografia intensa e longeva. O livro usa do fantástico para fazer metáfora dolorida. É um livro que te ensina pelas cicatrizes, pela dor e também pelo amor que se esconde nas frestas da calamidade. Pois enquanto seres complexos e incompletos, nos resta experienciar destruição e criação, amor e ódio sobre o mesmo terreno. Sem chance de fuga, carregando o ferimento e a transformação no mesmo corpo.
O que resta de nós quando todas estruturas fundantes e organizacionais se esfacelam como pó? Quem somos nós quando ninguém está olhando? O que você faria se tivesse a certeza de nunca ser julgado? É um livro que nos cobra enxergar além da visão, de entender o outro e nós mesmos. Que nos provoca a buscar chaves, que estão na profundidade mais escondida de nossa personalidade. Pois se podemos ser para ser vistos e admirados, devemos ser para chorar em silêncio quando ninguém pode ver.
Para essa conversa o convidado é meu amigo, professor e Doutor em História pelo Instituto Universitário de Lisboa, Rafael Dias. São paulino e intelectual diaspórico, que vaga pela fluidez das identidades culturais múltiplas, Rafael tem se dedicado a entender as relações de alteridade nos processos migratórios. A conversa foi excelente e muito divertida!
Boa audição.
16/julho/2021
#livro #book #ensaiosobreacegueira #josésaramago #podcast #obrafechada #saramago #romance #novel #blindness #literaturaportuguesa
Jim Jarmusch já escreveu seu nome na história do cinema, em especial do cinema independente americano. Sendo profundamente autoral e ao mesmo tempo coletivista, o cineasta traçou uma filmografia que trabalha muito bem as situações episódicas, e os efeitos transformadores da jornada. Seja subvertendo deliberadamente as convenções de uma maneira quase punk, ou reestruturando formatos convencionais, abusa da criatividade, e produz filmes de diálogos múltiplos. Existe uma 'contemplação' presente em todos eles, que dificilmente não tenha algo a dizer a alguém.
Em Ghost Dog, acompanhamos a jornada de um matador de aluguel, que segue fielmente os preceitos do Hagakure, o livro que traça o caminho do samurai. Por si só essa premissa é tremendamente instigante, mas ela consegue ir além, pois dialoga com uma porção de outros elementos: a cultura negra, o hip hop, os imigrantes, os desenhos animados e outros.
De uma maneira quase improvável, Ghost Dog fala de ética nas ações diárias, fala de lealdade e das complexas relações entre os povos que compõem os Estados Unidos. Diferente de outros diretores que se vangloriam de se apropriar de outros produtos cinematográficos, e transformam seus filmes em um catálogo de referências, Jarmusch faz suas bricolagens a serviço do contar uma história. E faz com maestria, pois tem a seu serviço um ótimo Forrest Whitaker.
O companheiro de conversa desta vez, foi o meu amigo, escritor, editor e tradutor Lucas Mendes Kater, fã confesso de Jarmusch e que acrescentou muita coisa para pensarmos o autor e sua obra.
Boa audição.
09/julho/2021
#filme #movie #ghostdog #jimjarmusch #podcast #obrafechada #rza #samurai #hagakure #bushido #forestwhitaker #ghostdogthewayofthesamurai
Quando "Songs of Love and Hate" foi composto e gravado, Leonard Cohen estava profundamente deprimido, inseguro com sua situação de artista e via sua vida despedaçando-se ao redor. Fazia uso constante de anfetaminas e entregava-se de vez aos excessos que a vida de famoso lhe proporcionava. Nesse espiral, cada vez mais o poeta/compositor canadense sentia-se perdido. A relação com a Marianne Ihlen, musa de tantas canções celebradas, deteriorou. As críticas em relação ao livro lançado à época eram implacáveis. A casa na ilha grega de Hydra não era mais um refúgio criativo. Nesse espiral, cada vez mais o poeta/compositor canadense sentia-se perdido.
O disco, cujo título anuncia, quais sentimentos são norteadores da obra, ampara-se no poder da palavra. Não que a palavra seja maior que a sonoridade. Mas, porque o texto é ligação direta com os sentimentos. É a elaboração que antecede a vocalização. É a entrega das sensações, que ali é feita da forma mais honesta. Assim talvez, se estabeleça uma forma de cura. Re-imaginando a vida para expurgar feridas.
Essas "Canções de Amor e Ódio" trazem os tons sombrios que refletem a desesperança que surge do apodrecimento da geração power flower. Um desencanto realista, cru e adulto que daria bases para inúmeras manifestações artísticas dali para diante.
O convidado do programa é o meu amigo, músico, compositor e cantor: Jair Naves. Artista solo, com uma trajetória conhecida na música alternativa e subterrânea, Jair, acrescentou valiosos pontos de vista nesta conversa. Além disso, falamos de nossas experiências como músicos, de arte, do valor terapêutico dessa última e muito mais.
Espero que gostem de ouvir, tanto quanto gostei de fazer esse programa.
Boa audição!
02/julho/2021
#disco #disc #folk #leonardcohen #podcast #obrafechada #songsofloveandhate #canada #vinil #vinyl
Albert Camus foi tanto autor como personagem de sua biografia. Ocupando cadeiras como de filósofo, autor, jornalista, dramaturgo e tantas outras, o argelino, vencedor do Nobel de Literatura, plasmou o que aprendeu da própria vida, no seu pensamento e criações.
A filosofia do absurdo situa-se em um espaço entre o existencialismo e o niilismo. Talvez mais brando que um e mais radical que o outro. Aceita a nossa incapacidade de domar o desconhecido e nos lança o desafio:
"O que fazer, se nada faz sentido?"
Os esboços para questionamentos profundos permeiam a obra de Camus. Estão em suas peças, em seus livros, em seus ensaios filosóficos. É inquietante na medida que nos proíbe de ficar indiferentes. Algo irá penetrar nossa mente, nos deixando inquietos, incomodados.
Assim, o Estrangeiro, livro lançado em 1942, fala de Meursault. Um homem aparentemente banal, que vive na superfície. Das relações, dos sentimentos, dos sentidos e das experiências. Alguém que se conforma com o "tanto faz" diário e meio sem entender é tragado pelas consequências.
Em tempos tão fragmentados como os nossos, onde as instituições se esfacelam, como castelos de areia na praia. Onde a razão parece cada vez menos trazer respostas, "O Estrangeiro" ganha novos contornos, e novas chaves de compreensão.
Na conversa, sou acompanhado pela amiga Andréia Manfrin. Editora, intérprete, tradutora de francês e mente por trás do IG Un Plus a Mais, que trouxe ótimos pontos para discutir essa obra multifacetada.
Boa audição.
25/junho/2021
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