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Mario Soares viveu exilado em Paris durante quatro anos e foi a partir da capital francesa que orquestrou a fundação do Partido Socialista português. Aqui escreveu, falou e lutou contra a ditadura portuguesa, guardando uma grande admiração e reconhecimento para com a França, terra de acolhimento. 52 anos após a sua partida de Paris para Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril, a cidade de Paris rendeu-lhe uma homenagem sentida dando o seu nome a um jardim da capital.
Poucos dias antes do 25 de Abril de 1974, Mário Soares, a viver há quatro anos em França, dizia a um canal de televisão suíço que a ditadura em Portugal estava prestes a cair e que isso aconteceria a partir de uma revolta militar. Tal como noutros momentos-chave da vida política portuguesa, não se enganou e no fim desse mesmo mês voltaria para Portugal, exaltado como uma das maiores esperanças da democracia portuguesa.
Na capital francesa, o exilado português português viveu, trabalhou e ajudou a fundar o Partido Socialista português. Mais de 50 anos depois, a cidade de Paris reconheceu a passagem deste político fundador da democracia portuguesa e concedeu o seu nome a um jardim no 20º bairro, onde no passado fim de semana acorreram as mais altas autoridades da cidade, como a autarca Anne Hidalgo, mas também o embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, assim como a família de Mário Soares e ainda figuras de destaque da imigração portuguesa em França.
Aos jornalistas, o filho de Mário Soares, João Soares descreveu esta homenagem como "um momento de grande ternura".
"Do ponto de vista simbólico, é um momento de grande ternura, porque é a memória do nosso pai que viveu quatro anos exilado em França e é o reconhecimento do papel que ele teve. A Isabel e eu, como jovens adultos, acompanhámos a saída dele de Portugal. Ele tinha estado preso 12 vezes e depois esteve deportado em São Tomé. Voltou e depois foi ameaçado a seguir à morte do nosso avô. Tínhamos ido ter com ele a Itália e ele decidiu imediatamente voltar quando soube da morte do pai. E nós voltámos com ele de Roma para Lisboa e estávamos convencidos que ele ia ser preso à entrada, Mas eles não o prenderam. Deixaram-no ir ao funeral e depois, um dia ou dois depois, chamaram-no à PIDE para dizer que ele saía do país até à noite ou ia preso outra vez e ele decidiu não ser preso pela 13.ª vez", explicou.
Foi assim que Mário Soares e a sua mulher e também fundadora do Partido Socialista português, Maria Barroso, rumaram a Paris, tendo chegado de comboio em 1970. Mário Soares veio com dois objectivos na cabeça, numa altura em que a guerra colonial decorria há quase uma década e que Salazar tinha acabado de morrer, tendo sido substituído por Marcelo Caetano.
"Ele tinha duas coisas na cabeça. Uma era acabar o Portugal Amordaçado, que foi editado em França, foi editado em França, saiu em francês muito antes de sair em português. Só saiu em português depois do 25 de Abril. A Isabel e eu fomos muitas vezes buscar provas e levar provas do livro e ele queria também fundar o Partido Socialista. Digamos que toda a manobra à volta da criação do Partido Socialista foi feita a partir de Paris, onde ele vivia. O François Mitterrand ainda não estava no poder em França e havia o Willy Brandt na Alemanha, que era um tipo fantástico. Eles decidiram, por razões logísticas e que é justo reconhecer e graças ao Willy Brandt, fazer o partido foi feito na Alemanha", detalhou João Soares.
Em Paris, Mário Soares vivia num estúdio no Boulevard Garibaldi, tendo aberto a primeira livraria de livros portugueses na capital francesa e dando aulas em várias universidades. Apesar de prosseguir o trabalho político pelo fim da ditadura, Mário Soares havia de recordar para sempre com entusiasmo os quatro anos que viveu em Paris, como descreveu a filha Isabel Soares.
"Foi alguém que lutou sempre pela liberdade antes e depois do 25 de Abril. E esta homenagem de Paris é particularmente importante porque é, no fundo, uma cidade a partir do qual se desenhou a revolução e um outro regime em Portugal. E para nós é particularmente comovente, porque o meu pai era tinha um amor pela França, que achava que era a terra da liberdade e da cultura pela cultura francesa. E passou nos isso desde sempre, a nós, enquanto crianças. Portanto, adorava os escritores franceses. Os pintores franceses adorava a vida em Paris. E ele disse sempre. E disse isso no livro com a Maria João Avillez, que aprendeu muito com a vida dele em Paris. Só o facto de estar passear nas ruas, ir às livrarias, ouvir a televisão, os debates, enfim, tudo o que se passava era o mundo. Tudo era aquilo que nós não tínhamos em Portugal, porque havia a censura, havia a polícia política. Portanto, isso foi, portanto, lembrá lo aqui e, sobretudo, dar o nome a um jardim. Ele, que era um homem que amava a terra, amava jardins, amava as árvores. Acho que é uma homenagem que nos toca muito enquanto filhos. Quando ele decidiu vir para o exílio, ele reuniu se com a família e com os amigos mais próximos para saber se iria para a prisão, porque a PIDE tinha posto um ultimato ou saía para o exílio. E eu acho que a decisão dele foi a certa, porque a partir de ele achou que era muito mais útil ao seu país. No exílio e a partir daí, como o meu irmão disse, teceu uma teia de amizades e de cumplicidades com os líderes socialistas e sociais democratas. Muitos deles estavam no poder na Europa, que foram cruciais para a defesa da democracia e depois para o reconhecimento da Junta e da Revolução dos Cravos", disse a filha Isabel Soares.
Nesta passagem por Paris, Mário Soares fez muitos amigos, incluindo um amigo especial, François Miterrand, ou mon ami Miterrand, como o político português o apelidava. Estes amigos ajudaram os portugueses no exílio, ampliando a difusão dos seus argumentos para o fim da ditadura em Portugal, e, como lembra o antigo deputado e companheiro de luta de Mário Soares, Rodolfo Crespo, a despertar e alimentar a sede de liberdade dos jovens.
"Eu sinto-me confortável com esta homenagem que se faz aqui assim ao Mário Soares. Porque quando eu cheguei a Paris, vindo de Lisboa. Eu era jovem e o sentia-me abafado e senti uma liberdade em Paris ver as pessoas discutirem, terem opinião, terem diferenças e ninguém ter medo da PIDE. Foi uma coisa extraordinária. E rever isso depois, em Portugal, depois do 25 de Abril, foi a maior alegria da minha vida", disse Rodolfo Crespo.
Foi a partir de Paris que Mário Soares voltou a Portugal, chegando a 28 de Abril e sendo o primeiro dos exilados com grande influência polítíca a chegar a Lisboa. Rodolfo Crespo lembrou esses momentos.
"No 25 de Abril aqui eu estava a trabalhar, portanto saí do trabalho e ouvi na rádio Abril em Portugal e falou se da revolução. E então, telefonámos imediatamente ao Mário Soares. Ele estava na Alemanha e ele disse: 'Eu vou já para aí'. E então depois, no estúdio dele é que falámos, discutimos, vimos, telefonámos, fizemos os contactos todos. Foi uma luz que nos apareceu ao fundo do túnel", descreveu.
Esta era uma homenagem há muito preparada pela Câmara Municipal de Paris, pensada para coincidir em 2024 com os 50 anos do 25 de Abril e o centenário do nascimento de Mário Soares. Veio um pouco mais tarde, mas o agora jardim Mário Soares fica no meio de um bairro vivo, popular e agitado, que o conselheiro municipal de Paris, Hermano Sanches Ruivo, pensa coincidir com o espírito do político português.
"Há aqui uma associação portuguesa que é "A memória viva". A coordenação das associações esteve aqui também a sua sede. O vigésimo bairro de Paris é, por definição, um bairro popular de esquerda. Sempre votou à esquerda. E faz sentido porque é um jardim onde as crianças vêm, onde os pais vêm, onde os jovens vêm, dos seniores vêm. E, portanto, onde se vai colocar sempre a pergunta sobre quem é a personagem e porque é que o jardim se chama assim? Portanto, fazia muito, muito sentido. Em vez de fechar Mário Soares num bairro se calhar muito mais requintado para nós fazia mais sentido fazer a associação entre Mário Soares e o povo. E de facto, é uma parte do povo português. E é isso que é importante, porque de facto, há muitos portugueses a viverem aqui. Sempre houve. Há muitos cabo verdianos, agora também brasileiros e portanto, é uma forma também de inscrever essa parte portuguesa e lusófona na história de Paris", concluiu o conselheiro municipal franco-português.
O jardim Mário Soares pode ser visitado no número 46 da rua Pixérécourt, no 20o bairro de Paris. Numa data ainda a anunciar será descerrada uma homenagem junto ao número 17 da Boulevard Garibaldi, no 15o bairro, onde Mário Soares viveu.
By RFI PortuguêsMario Soares viveu exilado em Paris durante quatro anos e foi a partir da capital francesa que orquestrou a fundação do Partido Socialista português. Aqui escreveu, falou e lutou contra a ditadura portuguesa, guardando uma grande admiração e reconhecimento para com a França, terra de acolhimento. 52 anos após a sua partida de Paris para Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril, a cidade de Paris rendeu-lhe uma homenagem sentida dando o seu nome a um jardim da capital.
Poucos dias antes do 25 de Abril de 1974, Mário Soares, a viver há quatro anos em França, dizia a um canal de televisão suíço que a ditadura em Portugal estava prestes a cair e que isso aconteceria a partir de uma revolta militar. Tal como noutros momentos-chave da vida política portuguesa, não se enganou e no fim desse mesmo mês voltaria para Portugal, exaltado como uma das maiores esperanças da democracia portuguesa.
Na capital francesa, o exilado português português viveu, trabalhou e ajudou a fundar o Partido Socialista português. Mais de 50 anos depois, a cidade de Paris reconheceu a passagem deste político fundador da democracia portuguesa e concedeu o seu nome a um jardim no 20º bairro, onde no passado fim de semana acorreram as mais altas autoridades da cidade, como a autarca Anne Hidalgo, mas também o embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, assim como a família de Mário Soares e ainda figuras de destaque da imigração portuguesa em França.
Aos jornalistas, o filho de Mário Soares, João Soares descreveu esta homenagem como "um momento de grande ternura".
"Do ponto de vista simbólico, é um momento de grande ternura, porque é a memória do nosso pai que viveu quatro anos exilado em França e é o reconhecimento do papel que ele teve. A Isabel e eu, como jovens adultos, acompanhámos a saída dele de Portugal. Ele tinha estado preso 12 vezes e depois esteve deportado em São Tomé. Voltou e depois foi ameaçado a seguir à morte do nosso avô. Tínhamos ido ter com ele a Itália e ele decidiu imediatamente voltar quando soube da morte do pai. E nós voltámos com ele de Roma para Lisboa e estávamos convencidos que ele ia ser preso à entrada, Mas eles não o prenderam. Deixaram-no ir ao funeral e depois, um dia ou dois depois, chamaram-no à PIDE para dizer que ele saía do país até à noite ou ia preso outra vez e ele decidiu não ser preso pela 13.ª vez", explicou.
Foi assim que Mário Soares e a sua mulher e também fundadora do Partido Socialista português, Maria Barroso, rumaram a Paris, tendo chegado de comboio em 1970. Mário Soares veio com dois objectivos na cabeça, numa altura em que a guerra colonial decorria há quase uma década e que Salazar tinha acabado de morrer, tendo sido substituído por Marcelo Caetano.
"Ele tinha duas coisas na cabeça. Uma era acabar o Portugal Amordaçado, que foi editado em França, foi editado em França, saiu em francês muito antes de sair em português. Só saiu em português depois do 25 de Abril. A Isabel e eu fomos muitas vezes buscar provas e levar provas do livro e ele queria também fundar o Partido Socialista. Digamos que toda a manobra à volta da criação do Partido Socialista foi feita a partir de Paris, onde ele vivia. O François Mitterrand ainda não estava no poder em França e havia o Willy Brandt na Alemanha, que era um tipo fantástico. Eles decidiram, por razões logísticas e que é justo reconhecer e graças ao Willy Brandt, fazer o partido foi feito na Alemanha", detalhou João Soares.
Em Paris, Mário Soares vivia num estúdio no Boulevard Garibaldi, tendo aberto a primeira livraria de livros portugueses na capital francesa e dando aulas em várias universidades. Apesar de prosseguir o trabalho político pelo fim da ditadura, Mário Soares havia de recordar para sempre com entusiasmo os quatro anos que viveu em Paris, como descreveu a filha Isabel Soares.
"Foi alguém que lutou sempre pela liberdade antes e depois do 25 de Abril. E esta homenagem de Paris é particularmente importante porque é, no fundo, uma cidade a partir do qual se desenhou a revolução e um outro regime em Portugal. E para nós é particularmente comovente, porque o meu pai era tinha um amor pela França, que achava que era a terra da liberdade e da cultura pela cultura francesa. E passou nos isso desde sempre, a nós, enquanto crianças. Portanto, adorava os escritores franceses. Os pintores franceses adorava a vida em Paris. E ele disse sempre. E disse isso no livro com a Maria João Avillez, que aprendeu muito com a vida dele em Paris. Só o facto de estar passear nas ruas, ir às livrarias, ouvir a televisão, os debates, enfim, tudo o que se passava era o mundo. Tudo era aquilo que nós não tínhamos em Portugal, porque havia a censura, havia a polícia política. Portanto, isso foi, portanto, lembrá lo aqui e, sobretudo, dar o nome a um jardim. Ele, que era um homem que amava a terra, amava jardins, amava as árvores. Acho que é uma homenagem que nos toca muito enquanto filhos. Quando ele decidiu vir para o exílio, ele reuniu se com a família e com os amigos mais próximos para saber se iria para a prisão, porque a PIDE tinha posto um ultimato ou saía para o exílio. E eu acho que a decisão dele foi a certa, porque a partir de ele achou que era muito mais útil ao seu país. No exílio e a partir daí, como o meu irmão disse, teceu uma teia de amizades e de cumplicidades com os líderes socialistas e sociais democratas. Muitos deles estavam no poder na Europa, que foram cruciais para a defesa da democracia e depois para o reconhecimento da Junta e da Revolução dos Cravos", disse a filha Isabel Soares.
Nesta passagem por Paris, Mário Soares fez muitos amigos, incluindo um amigo especial, François Miterrand, ou mon ami Miterrand, como o político português o apelidava. Estes amigos ajudaram os portugueses no exílio, ampliando a difusão dos seus argumentos para o fim da ditadura em Portugal, e, como lembra o antigo deputado e companheiro de luta de Mário Soares, Rodolfo Crespo, a despertar e alimentar a sede de liberdade dos jovens.
"Eu sinto-me confortável com esta homenagem que se faz aqui assim ao Mário Soares. Porque quando eu cheguei a Paris, vindo de Lisboa. Eu era jovem e o sentia-me abafado e senti uma liberdade em Paris ver as pessoas discutirem, terem opinião, terem diferenças e ninguém ter medo da PIDE. Foi uma coisa extraordinária. E rever isso depois, em Portugal, depois do 25 de Abril, foi a maior alegria da minha vida", disse Rodolfo Crespo.
Foi a partir de Paris que Mário Soares voltou a Portugal, chegando a 28 de Abril e sendo o primeiro dos exilados com grande influência polítíca a chegar a Lisboa. Rodolfo Crespo lembrou esses momentos.
"No 25 de Abril aqui eu estava a trabalhar, portanto saí do trabalho e ouvi na rádio Abril em Portugal e falou se da revolução. E então, telefonámos imediatamente ao Mário Soares. Ele estava na Alemanha e ele disse: 'Eu vou já para aí'. E então depois, no estúdio dele é que falámos, discutimos, vimos, telefonámos, fizemos os contactos todos. Foi uma luz que nos apareceu ao fundo do túnel", descreveu.
Esta era uma homenagem há muito preparada pela Câmara Municipal de Paris, pensada para coincidir em 2024 com os 50 anos do 25 de Abril e o centenário do nascimento de Mário Soares. Veio um pouco mais tarde, mas o agora jardim Mário Soares fica no meio de um bairro vivo, popular e agitado, que o conselheiro municipal de Paris, Hermano Sanches Ruivo, pensa coincidir com o espírito do político português.
"Há aqui uma associação portuguesa que é "A memória viva". A coordenação das associações esteve aqui também a sua sede. O vigésimo bairro de Paris é, por definição, um bairro popular de esquerda. Sempre votou à esquerda. E faz sentido porque é um jardim onde as crianças vêm, onde os pais vêm, onde os jovens vêm, dos seniores vêm. E, portanto, onde se vai colocar sempre a pergunta sobre quem é a personagem e porque é que o jardim se chama assim? Portanto, fazia muito, muito sentido. Em vez de fechar Mário Soares num bairro se calhar muito mais requintado para nós fazia mais sentido fazer a associação entre Mário Soares e o povo. E de facto, é uma parte do povo português. E é isso que é importante, porque de facto, há muitos portugueses a viverem aqui. Sempre houve. Há muitos cabo verdianos, agora também brasileiros e portanto, é uma forma também de inscrever essa parte portuguesa e lusófona na história de Paris", concluiu o conselheiro municipal franco-português.
O jardim Mário Soares pode ser visitado no número 46 da rua Pixérécourt, no 20o bairro de Paris. Numa data ainda a anunciar será descerrada uma homenagem junto ao número 17 da Boulevard Garibaldi, no 15o bairro, onde Mário Soares viveu.

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