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#028 – No Prelo desta semana, Paloma Vidal junta-se a nós para falar de seu novo livro, Pré-história, definido na sinopse como uma carta de amor urgente.
Sobretudo, a obra é um trabalho de catarse, uma escavação arqueológica para dentro de si que busca a compreensão do luto de um amor através de eventos e lembranças.
Na nossa conversa, a autora fala sobre os métodos que utilizou para fazer o que chama de um livro de processos, e como resgatou a própria história para apresentá-la ao público: um ato de coragem. Navegando pelas lembranças, Paloma traça uma linha para unir o passado de sua memória com o que ela sabe agora, no presente. Como todo fazer arqueológico, os fragmentos coletados por Paloma permitem entrever um sistema mais amplo, aspectos sociais que se manifestam também nos afetos.
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#027 – De um lado, um místico que garante que a sua singularidade vai florescer: você não precisará render-se à concretude da vida, pois você já não é banal. Do outro, o grande mundo, encarando o protagonista para dentro de sua casca ontológica.
Nesta semana, Juliano Garcia Pessanha cava um buraco dentro de si para expor o embrião de um livro que ainda está nos primeiros estágios do desenvolvimento. Ele é escritor e filósofo, e sua obra é marcada por um hibridismo de gêneros de que já tratamos outras vezes aqui.
Aqui, Juliano nos conduz por uma reflexão sobre o luto de um delírio messiânico, cultivado desde muito cedo e alimentado por uma espécie de romantismo, e o confronto inevitável com o mundo efetivo, material. Uma conta com a realidade que ultimamente todos estamos sendo obrigados a acertar enquanto seres coletivos.
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#026 – Quando foi que a dúvida deixou de ser uma boa companhia?
Talvez no momento em que a indiferença do escrúpulo tenha silenciado diante da pregação do inescrúpulo.
Quando a verdade, sempre frágil e provisória, se viu paralisada perante as falsas verdades.
Quando assistimos a uma geração de jovens apáticos e desorientados desperdiçando a vida em mundos virtuais e bolhas de proteção.
Quando a dúvida passou ao corpo na forma de fibromialgias, transtornos compulsivos, automutilação e melancolias profundas.
Quando nos demos conta de que o ponto de partida é um lugar em que você pode permanecer a vida toda. Um útero eterno.
Quando já não conseguimos saber os critérios de escolha, e quando a única coisa que passou a nos preencher foram os pequenos índices narcísicos dos quais nos deixamos envolver, os pequenos objetos decorativos que compramos, vestimos, colocamos sobre a prateleira da sala, e que têm a nossa cara, ou mesmo quando as escolhas se desligaram dos princípios e dos valores e a nossa histeria nos impediu de dar um mergulho, qualquer mergulho que seja. A dúvida deixou de ser uma boa ideia porque perdeu toda a graça.
Porque assumiu a sua covardia.
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#025 – Você conseguiu. Estabeleceu rotinas de escrita, venceu a disciplina e a hesitação. Alcançou as 40 mil palavras iniciais e, se embrenhando no processo, talvez tenha decidido ir além.
Desenhou todos os traumas, cacoetes e trejeitos dos seus personagens, ou criou uma digressão para contar uma outra história que estava escondida dentro da primeira. Parágrafos inteiros dedicados à descrição daquele detalhe no cenário que, na hora, pareceu crucial para o andamento da narrativa. Pois é: chegou o momento de revisar.
Neste Prelo, vamos conversar um pouco sobre essa etapa do processo que é tão importante quanto a escrita em si. O autor que não se dedica o suficiente à revisão perde a oportunidade de refinar o olhar para a própria obra. Sem medo de cortar o que realmente está sobrando: é tudo parte do ofício.
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#024 – Escrever é um ato de enfrentamento. De corpo a corpo. Não à toa, Kafka, Enrique Vila-Matas e Maurice Blanchot assumiram de forma recorrente a sua dificuldade em relação à prática da escrita. E mais que isso: fizeram da resistência um mote, um motivo artístico.
São dois afetos contraditórios. Anseio e ansiedade. Medo e desejo, traduzidos pela hesitação. A caneta corta o papel, a narrativa rasga a nossa biografia, faz aí uma alquimia. Quem escreve, proscreve e prescreve. É muito poder. Demais, talvez.
Você: hesita? Qual a raiz da sua hesitação?
Se você tem expectativas em relação à escrita, certamente já experimentou aquele momento epifânico de comunhão com a palavra, que justifica o desejo de escrever. Mas daí, no correr dos dias, a corrida passa a valer por si mesma.
“Sonhos não enchem a barriga. Preciso cuidar da minha vida. Não sou bom, mesmo.”
Sem estes anseios e a hesitação que lhes convém, não passamos disso – de barrigas. Quando os tais sonhos parecem complexos demais, há uma força pulsional que deseja nos resumir a pouco, ao minimalismo organicista das necessidades elementares.
Neste episódio do Prelo, falo sobre como fazer da resistência um recurso a favor da autora, do autor, e apresento algumas soluções para transformar o medo em potência criativa, considerando em que medida a dor pode estimular a produção literária e qual as condições necessárias para se valer desse páthos, a fim de que estejamos à altura da aventura de nossa vida, sem dobrarmo-nos às nossas próprias neuroses.
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#023 – Você sabe que precisa escrever. Que a ficha só vai cair depois do convívio com o ofício. Que a confiança não precede a prática, mas se nutre dela.
Mas como é trabalhar todos os dias, de três a quatro horas diárias na escrita de um livro? Cansa? Doem as mãos? As costas? Como se desperta no dia seguinte? E o que é mais importante: qual é o efeito da escrita rotineira sobre o seu texto?
Neste "diário de escrita", Tiago Novaes dá testemunho de sua retomada. Depois de três semanas parado, por conta das atividades da "Semana da Criação Literária", ele relata como é sentar-se todos os dias, das oito ao meio-dia para escrever, e como você também deve considerar a missão de reservar grandes blocos de tempo para o seu projeto autoral.
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#022 – Um livro que te faz lembrar da vida de um avô, de uma avó, que resgata lembranças e elas convivem com a novidade de uma obra que nasce um clássico.
O Brasil não conhece o Brasil e seu passado mal resolvido. O tema da terra percorre toda a história de Torto Arado, livro do ano de 2020, que ganhou o Prêmio Leya, Jabuti e Oceanos.
"Precisamos de um chão para pisar", nos conta Itamar nesta conversa. Sua obra expõe um mundo dividido, clivado e que perpetua suas injustiças ancestrais.
Nesta conversa iluminadora, Itamar Vieira Jr. fala de como elaborou o seu livro, das primeiras versões à forma final.
Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, em 1979. É geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, e autor de DIAS e A ORAÇÃO DO CARRASCO. Recebeu, em 2020, os Prêmios Jabuti e Oceanos com TORTO ARADO e em 2019 o Prêmio Leya.
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#021 – Em filosofia, dizemos que é contingente aquilo que não é necessário, mas ao mesmo tempo possível. Essa proposição só serve à literatura na segunda parte: ao mesmo tempo em que é permeada de possibilidades, ela também é fatalmente necessária para a constituição de repertórios e vivências da humanidade.
Walter Benjamin foi categórico ao dizer que a ação da experiência está em baixa nos nossos viveres pós-industriais. Cada vez menos sabemos como contar histórias, ainda que precisemos delas para intercambiar experiências, para emprestarmos modelos de agir em situações complexas ou crises — as internas e as externas —, como essa que agora nos encerra diante das nossas telas. Pode ser por isso que você, como eu, ainda está interessado em transitar pela ficção. Ela atiça as realidades possíveis.
Os caminhos muitas vezes são híbridos ou múltiplos, mas para contar a sua história, vale a pena conhecer mais de um. Essa semana o Prelo chama você para uma conversa pé no chão sobre gêneros e mercados, diferentes formas de realizar essa atividade milenar que, afinal, é uma necessidade humana: contar histórias.
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#020 – Neste papo delicioso com o escritor Eury Donavio, o Prelo revela as dores e as delícias da autopublicação. Para o que você deve atentar? Quais são os possíveis sobressaltos deste percurso?
Eury Donavio é natural de Floresta do Navio, sertão pernambucano. Morador de Recife, engenheiro civil e mestre em ciência da computação, apostou no projeto de escrever a partir dos quarenta anos de idade, quando abraçou o sonho e entrou na oficina literária do mestre Raimundo Carrero. Em 2017, realizou o Curso de Introdução à Escrita Criativa e em seguida o A preparação do romance. Desde então, não parou mais com os estudos de escrita e roteiro. Donavio dedicou nove anos a pesquisas, viagens e escrita para aprontar seu livro de estreia, "Fiados na Esquina do Céu com o Inferno", que lhe rendeu o Prêmio Álvaro Maia de melhor romance nacional, do Prêmio Literário Cidade de Manaus 2019, além de menção honrosa do Concurso Internacional de Literatura 2019 da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. No momento o autor trabalha no seu segundo romance e prepara a adaptação de "Fiados ..." para uma minissérie.
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E feliz 2021!
#019 – O medo é um lance ardiloso. Não importa que digam que se trata de um traço evolutivo importante, que se não fosse por ele nos atiraríamos na jaula do leão, nos trilhos do trem. Um afeto que nos garante a sobrevivência mas ameaça de tantas formas a vida me parece uma falha enorme na seleção natural.
Estou falando do medo da escrita, mas não apenas dele. Porque às vezes o medo de escrever é precedido por um variado cortejo fúnebre. É o medo de dar as caras, de dar a cara à tapa. O medo tem muitas caras.
Um deles é o da responsabilidade. Não faço isso porque seria imprudente. Como contestar?
Outro é o da fadiga, do stress. Estou cansado, faço tanto, não tenho tempo! O que ouço, muitas vezes, aí, é medo.
Outra face é o da dispersão. Quero isso e aquilo, não quero mais, acordo, mudo de ideia. Isso porque o medo provoca recusas e denegações, mecanismos de defesa melindrosos que se deslocam quando achamos que tínhamos nos livrado dele. O medo se esconde da gente, inclusive, sem deixar de exercer sua influência.
Há o medo que provoca o sono, o torpor, uma posição passiva. Fico aí, assistindo ao espetáculo do mundo, admirado, aprendiz. Isso de ser só aprendiz, o tempo todo. De não mostrar o meu texto. De pedir autorização para tudo. Então: é medo, também.
Tem o medo raivoso, que encontra falhas em toda parte. O mundo está todo equivocado, imperfeito. As pessoas não são confiáveis, não correspondem ao que esperamos delas. A raiva invocada, desconstrutivista, pode ser medo de agir. Alguém pode achar que lapidar o comportamento alheio nos ajuda a preservar-nos das críticas dos outros. É um preparo para o meu próprio agir. Que nada. É medo.
Não assumo plenamente o meu desejo porque tenho medo. Faço vinte, trinta por cento do que poderia, porque tenho medo de ser inteiro, e por isso exagero ou excluo coisa minha.
Na pandemia, grande parte destes temores neuróticos pareceram justificados. Vou ficar aqui, escondido. Fechado. Afinal, está todo mundo isolado. Já nem sei o que estão fazendo. Não está acontecendo nada. Melhor esperar.
Esperar pode ser a coisa mais sábia do mundo. A paciência, o cuidado. Já falamos disso, também.
Mas tudo tem um limite. Você saberá o seu. Sem problemas se ele for pautado pelo medo realista. Que ele não seja pautado pelo medo neurótico. Uma coisa é não querer que alguém espirre em você. Outra é deixar a alma hibernando, sonhando uma primavera quimérica.
Este é o tema do episódio de hoje de Prelo.
No fim de 2020, desejo a você o que desejo para mim e para todos que amo. Um ano sem medo.
Nos vemos no dobrar a esquina.
Muito, muito obrigado!
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