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Em meio aos desdobramentos de um dos maiores escândalos financeiros da história do Brasil, o do Banco Master, o país participa de mais uma rodada de avaliações da OCDE sobre o combate à corrupção. O ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Vinícius de Carvalho, está em Paris para uma série de reuniões dos 46 países signatários da Convenção Antissuborno, um dos principais mecanismos internacionais de enfrentamento do crime.
O país passa pela quarta fase de análises da implementação do acordo, após adotar recomendações da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico nessa área. Para ele, o caso Master é um exemplo do compromisso do governo federal em aumentar a transparência e os mecanismos de investigação e controle da corrupção.
“Algumas coisas são imprescindíveis. Primeiro, é esse compromisso do Estado de fazer as investigações, de apurar e de não deixar nenhuma denúncia passar. Segundo, fazer isso com transparência e de forma republicana, sem ficar escolhendo quem investiga”, disse ele, em entrevista à RFI. “Chegou uma denúncia? Tem que investigar, tem que avaliar e tem que fazer o seu trabalho.”
As fraudes envolvendo o banco de Daniel Vorcaro e suas conexões com diversas instituições e personalidades da República foram descobertas na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Entre os envolvidos, estão dois servidores do Banco Central, que até janeiro trabalhavam em setores essenciais da fiscalização do sistema financeiro brasileiro. Eles são suspeitos de terem recebido suborno em troca de facilitar as operações ilícitas do Banco Master por anos.
Bolsonaro não investigouO ministro da Controladoria-Geral da União salienta que os crimes investigados tiveram início na gestão de Jair Bolsonaro. “São todas situações que aconteciam desde lá arás, desde o governo anterior. Infelizmente não foram investigados quando eles podiam ter sido e talvez até evitado que esses casos ganhassem a dimensão que ganharam”, argumentou.
Carvalho salientou, entretanto, que “a corrupção não é necessariamente das instituições”, mas sim “praticada por indivíduos”. “Nós precisamos separar as coisas, porque senão a gente pode entrar num ciclo muito ruim de que você tem um ato corrupto de um indivíduo e isso contaminar a imagem da instituição. A instituição passa a ser vista como uma instituição corrupta, e isso gera uma perda de confiança da sociedade”, adverte. “Essa perda de confiança pode gerar a busca por soluções de caráter autoritário, que questionem a própria democracia e o Estado de direito.”
O escândalo já traz lições sobre os próximos passos do combate à corrupção no país, avalia Carvalho. A tecnologia é uma aliada cada vez mais valiosa nessa luta.
O uso de inteligência artificial pela CGU, por exemplo, permitiu gerar uma economia de mais de R$ 2 bilhões aos cofres públicos em 2025. O software Alice analisa licitações e contratos e identifica eventuais focos de possível desperdício de verbas públicas.
“A cada escândalo, nós precisamos pensar o que a gente precisa fazer para melhorar as instituições. Todas elas, e não é diferente com o Banco Central, nem com a CGU, precisam sempre se aperfeiçoar e aperfeiçoar suas regras e suas regulações, e assim a gente acaba fazendo com que um escândalo como esse não aconteça de novo”, sublinhou o ministro. “Você muda as formas de fiscalização, os métodos regulatórios e, com isso, previne e dificulta que outro escândalo aconteça.”
Melhora do índice de confiançaNos últimos anos, o Brasil se tornou um dos países que oferecem maior transparência no acesso a dados públicos. Apesar do longo trabalho que resta pela frente para o combate a desvios, a confiança dos brasileiros nas instituições está em alta, revelou uma pesquisa da OCDE no fim de 2025.
O índice de confiança no governo federal subiu de 26%, em 2022, para 38%, e de 24% para 42% no serviço público, no mesmo período. Além disso, o percentual de brasileiros que acreditam que servidores públicos recusariam suborno passou de 18% para 36%.
Enquanto os ataques contra o Irã continuam, o mundo se preocupa com seus impactos econômicos, especialmente por conta da produção de petróleo, gás e fertilizantes no Oriente Médio. Donald Trump ameaçou atacar o país com mais força caso o fornecimento seja afetado. Como resposta, o Irã prometeu que nenhuma gota do óleo vai deixar a região "até segunda ordem". Por outro lado, a Rússia acompanha de perto os embates, interessada nos insumos e em driblar sanções impostas pelos EUA e Europa.
Em sua primeira entrevista coletiva oficial desde o início dos ataques ao Irã, o presidente norte-americano, Donald Trump, foi enfático ao falar sobre o abastecimento mundial de petróleo.
“Enquanto prosseguimos com a Operação 'Epic Fury' (Fúria Épica), também estamos focados em manter o fluxo de energia e petróleo para o mundo. Eu não vou permitir que um regime terrorista mantenha o mundo como refém e tente interromper o fornecimento global de petróleo. Se o Irã fizer algo nesse sentido, será atingido com muito mais força. Vou eliminar os alvos mais fáceis tão rapidamente que eles nunca vão conseguir se recuperar. Jamais”.
A fala do presidente americano gerou forte reação da Guarda Revolucionária iraniana. O exército ideológico do Irã deixou claro que vai continuar a controlar totalmente o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, o GNL.
Com o trecho bloqueado – já que o Irã promete atacar os navios que tentarem passar pelo local – quem se aproveita do cenário conturbado é a Rússia, que vai voltar a vender petróleo para a Índia. O diretor do Observatório franco-russo em Moscou, Arnaud Dubien, qvê oportunidades para o país com a guerra no Oriente Médio.
"A curto prazo há os hidrocarbonetos, o petróleo de fato. E o último cenário é a isenção concedida pelos Estados Unidos à Índia, para que ela possa compensar os volumes perdidos no Oriente Médio com petróleo russo. E isso cai muito bem tanto para os russos quanto para os indianos, porque havia numerosos petroleiros ancorados ao largo da costa indiana esperando compradores. Assim, o petróleo russo estava disponível e será vendido com descontos menores do que aqueles praticados há algumas semanas. Isso mostra, no fim das contas, a perfeita complementaridade entre os interesses indianos e russos, e talvez a inutilidade das intenções americanas de enfraquecer esse vínculo", disse.
Segundo o especialista, "a Rússia vai conseguir escoar o petróleo que estava tendo dificuldade de vender e vai fazê-lo em melhores condições financeiras, porque os preços aumentaram. Eles passaram de US$ 60 o barril de Brent no início do ano para cerca de US$ 85 hoje".
Vantagens também para o GNLArnaud Dubien acrescenta que a guerra no Oriente Médio também mexe com o cenário de importações e exportações do GNL. O gás natural liquefeito é exportado principalmente pelo Catar, responsável por cerca de 20% do comércio mundial do produto.
Os ataques ao Irã, também devem fortalecer a cooperação entre a Rússia e a China.
"Existe um oleoduto que liga a Sibéria Oriental à China há cerca de quinze anos. Desde 2019, existe também um gasoduto chamado Força da Sibéria. A China, além disso, compra GNL russo, inclusive GNL sujeito a sanções. Em Moscou, muitos acreditam que os chineses vão rever sua política de abastecimento e reavaliar os riscos. Hoje, o fornecimento vindo da Rússia é considerado o menos arriscado e provavelmente o mais barato. Não há fronteira marítima entre a Rússia e a China, e ninguém imagina que a Rússia vá cortar o fornecimento de energia para a China" destacou o especialist
Ele lembrou do projeto do gasoduto Força da Sibéria II, uma infraestrutura planejada há cerca de dez anos e que deverá transportar volumes importantes. Serão "cerca de 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano", calcula.
"Hoje, muitos acreditam que esse projeto finalmente será realizado nos próximos cinco ou seis anos. Ele não permitirá à Gazprom compensar totalmente a perda do mercado europeu, mas vai consolidar essa aliança energética entre Rússia e China por décadas e décadas", finalizou.
Desde o início da guerra no Oriente Médio, os preços do petróleo e do gás têm variado intensamente, provocando forte instabilidade nas bolsas de valores pelo mundo. Diante da perspectiva de prolongamento do conflito, o barril chegou a quase US$120 essa semana e as bolsas despecaram. Analistas preveem que a volatilidade vai continuar nos mercados, refletindo as incertezas, as declarações contraditórias e os próximos ataques e invasões.
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A escalada de ataques no Oriente Médio fez os preços do gás e do petróleo dispararem no início desta semana, reacendendo temores de uma nova recessão econômica mundial. Para especialistas ouvidos pela RFI, embora o cenário seja preocupante, sua evolução dependerá da duração dos bloqueios das principais fontes de suprimento de petróleo e gás. Eles destacam que o mercado dispõe de mecanismos capazes de mitigar os efeitos da crise e que países como o Brasil podem até se beneficiar da conjuntura.
Além de deter a terceira maior reserva comprovada de petróleo do mundo, segundo a Opep, o Irã exerce um papel central no mercado global da commodity por controlar o Estreito de Ormuz. O corredor marítimo, com menos de 50 quilômetros de largura, é vital para o escoamento energético mundial: por ali transitam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do volume global e 80% do petróleo extraído na região.
Localizado entre Irã e Omã, no Golfo Pérsico, o estreito também é essencial para o transporte de gás natural liquefeito produzido no Catar, Omã, Arábia Saudita e Irã, abastecendo principalmente economias asiáticas como a China.
No sábado, logo após os ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irã declarou o fechamento do estreito. Na segunda-feira (1º), a Guarda Revolucionária iraniana reiterou a informação e ameaçou incendiar qualquer navio que tentasse cruzar a área. Como o canal já havia sido parcialmente fechado em fevereiro, as novas ameaças levaram diversas transportadoras marítimas a suspender suas operações na região.
Mercado com oferta excedenteNo curto prazo, a disparada nos preços do petróleo e do gás afeta diretamente o custo dos combustíveis. No entanto, se o bloqueio persistir, a alta tende a se espalhar para o restante da economia. Um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz pode pressionar ainda mais os preços globais de bens e serviços, com impacto especial em grandes importadores de petróleo, como China, Índia e Japão.
Ainda assim, Homayoun Falakshahi, diretor de análise de petróleo bruto da Kpler, empresa francesa especializada em inteligência de dados sobre energia e commodities, mantém certo otimismo.
“Estamos em um mercado de petróleo com excedente de oferta. Apesar da tendência de alta nas últimas semanas, os preços estão longe dos picos registrados no início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Chegamos a quase US$ 140 por barril”, ressalta. “O governo americano sabe disso, e é por isso que se sentiu confortável para lançar operações em larga escala na Venezuela e no Irã.”
A Opep+ também reagiu rapidamente, anunciando, no domingo, um aumento de 206 mil barris por dia na produção a partir de abril.
Para o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Roberto Ardenghy, o cenário é grave, mas sua evolução depende essencialmente da duração dos bloqueios das fontes de suprimento. Ele avalia que o mercado dispõe de estratégias para evitar que a crise se intensifique, como o uso de estoques estratégicos e a adoção de rotas alternativas de escoamento.
“O mundo hoje está muito mais preparado para enfrentar crises”, afirma. “Os países não divulgam seus números de estoques, mas sabemos que Estados Unidos, China e Japão possuem grandes reservas estratégicas de petróleo para momentos como este.”
Ele acrescenta que “uma segunda alternativa são rotas viáveis para escoar o petróleo do Oriente Médio pelo Mar Vermelho, desviando do Estreito de Ormuz”.
Posição do BrasilPara Ardenghy, outro fator que poderia aliviar uma crise do petróleo seria o aumento de produção em países exportadores, incluindo o Brasil. Atualmente o 9º maior exportador mundial, o país pode se beneficiar da atual turbulência.
“Países como Brasil, Guiana, Argentina, Nigéria e Guiné Equatorial podem ampliar sua produção para compensar a redução do petróleo vindo do Oriente Médio”, afirma.
O Brasil já apresenta expansão significativa da produção. “Estamos produzindo cerca de 3,5 milhões de barris por dia, e a meta é chegar, em 2030, a 4,2 milhões. Isso representa uma oferta adicional de cerca de 600 a 700 mil barris”, diz o especialista.
Segundo ele, essa trajetória coloca o Brasil - pela qualidade do petróleo, pela distância do conflito e pelo avanço tecnológico - em boa posição para se tornar alternativa aos mercados afetados.
Outro ponto favorável é que o país é exportador líquido. “Com o petróleo em alta, a balança comercial brasileira tende a melhorar. No ano passado, o petróleo foi o principal produto exportado pelo Brasil, gerando um superávit de cerca de US$ 30 bilhões. E essa tendência pode continuar em 2026”, afirma.
Risco inflacionárioApesar das possíveis oportunidades, Ardenghy alerta para o impacto da crise nos custos globais de transporte, energia e produção agrícola. Se a instabilidade na região se prolongar, especialmente com um bloqueio efetivo no Estreito de Ormuz, ele estima efeitos relevantes nos preços dos alimentos e, consequentemente, na inflação mundial e brasileira.
“Haverá pressão, sem dúvida, porque o petróleo é essencial para diversas indústrias. Ele é amplamente utilizado na cadeia produtiva. Por exemplo, fertilizantes como ureia e amônia, nitrogênio, dependem do gás natural. E o Brasil é grande importador desses insumos. Isso terá reflexos aqui também”, explica.
Para o especialista, a expectativa é de “pressão inflacionária global em termos de patamares”, embora ele ressalte ser “muito difícil fazer previsões no curto prazo”.
“Estamos há apenas quatro dias de conflito. Trata-se de uma região sensível, mas ainda estamos no início. Precisamos aguardar os próximos dias para entender a real dimensão do impacto”, conclui.
O governo do Brasil é recebido em visita de Estado à Índia nesta semana, após uma cúpula internacional sobre inteligência artificial realizada pelo país asiático. No cenário das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos ao resto do mundo e de alta dependência global da China, as duas potências emergentes buscam ampliar a cooperação e as parcerias comerciais bilaterais e no âmbito do Mercosul – mas têm pela frente obstáculos importantes a superar.
Brasília e Nova Délhi são concorrentes em vários setores, principalmente no agronegócio (açúcar, arroz, carne bovina, derivados de soja, algodão), mas também na energia – ambos são grandes produtores de biocombustíveis –, além das indústrias química e farmacêutica.
Em paralelo, os dois países buscam inserção nos mercados emergentes e em desenvolvimento na África e na Ásia. É neste contexto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Narendra Modi tentarão encontrar pontos de convergência, na sequência da aproximação acelerada em 2025, quando o premiê indiano foi recebido em Brasília para uma visita de Estado.
“Precisa fazer a ponte. A Índia está descobrindo o Brasil e eu acho que já sabe o potencial da América Latina. E o Brasil começou a explorar Índia”, nota Umesh Mukhi, professor-associado de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Quando eu converso com pessoas, percebo que há uma lacuna de conhecimento. Acho que o papel da academia para favorecer intercâmbio, promover conhecimento atualizado, é fundamental para moldar opiniões.”
Hoje, os países são parceiros comerciais ainda pouco relevantes: a Índia é o 10° destino das exportações brasileiras, num total de US$ 6,9 bilhões em 2025. O Brasil é deficitário na balança comercial com o país asiático, mas estes números estão em ascensão.
"Tivemos um crescimento significativo de 30% no fluxo de comércio de 2024 para 2025, mas isso é pouco, considerando o potencial", salienta o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana.
Para impulsionar as trocas, a entidade inaugura um escritório no país, um mercado potencial de 1,4 bilhão de consumidores. A comitiva presidencial ilustra o novo peso que Brasília quer dar ao país: Lula chega a Nova Délhi acompanhado de cerca de 10 ministros e mais de 300 empresários.
"A Apex entende que essa nova fase na relação Brasil-Índia começa com muita força a partir da viagem do presidente Lula. Com o primeiro-ministro Modi, eles vão construir uma história que vai gerar muitos recursos e possibilidades de cooperação e negócios", frisa Viana.
Oportunidade para o desenvolvimento de tecnologiasAs oportunidades vão muito além do comércio de commodities e petróleo, salienta o especialista indiano: os serviços tecnológicos, financeiros e as áreas de defesa e aviação civil representam a possibilidade de impulso para o desenvolvimento e a inovação no Brasil.
“A Índia já é uma potência tecnológica. Todas as empresas de tecnologia que fornecem serviços em outros países desenvolvidos estão aqui no Brasil, e a situação global está favorecendo esse investimento no Brasil”, explica.
“Quando eu converso com empresários e executivos desses setores, brasileiros que trabalham dentro de empresas indianas, eles têm muita demanda por talento e não estão encontrando esses profissionais aqui no Brasil. Eles sempre procuram saber como o Brasil vai facilitar o intercâmbio de talentos – e, quanto mais talentos vierem, mais investimentos haverá no setor tecnológico”, diz
Primeiro memorando sobre minerais críticosPor outro lado, é esperada a assinatura de um memorando de entendimento sobre minerais críticos, dos quais o Brasil detém as segundas maiores reservas do mundo. Será a primeira vez que o país estabelecerá com outra nação um acordo sobre esses minérios, estratégicos para a transição energética.
“Foi uma iniciativa do Ministério de Minas e Energia, que segue a política brasileira de priorizar o tema e de manter o país aberto à cooperação internacional neste sentido, para trazer valor agregado à produção nacional”, detalhou Susan Kleebank, secretária do Itamaraty para a Ásia e o Pacífico, em briefing à imprensa. “Para que não apenas tenhamos o minério, mas possamos produzir e processar esse minério aqui, chegando a resultados para a nossa indústria e a nossa segurança nacional”, completou.
Acordo Índia-MercosulA viagem também será uma ocasião para o presidente discutir as oportunidades de expansão do comércio com os países do Mercosul. Desde 2009, está em vigor um Acordo de Preferências Tarifárias que reduz as taxas de importação entre a Índia e o bloco sul-americano para uma lista limitada de produtos, contemplando apenas 14% da pauta exportadora brasileira.
“Com as mudanças no cenário geopolítico, eu acho que existe uma possibilidade de acelerar, da mesma maneira que a Índia conseguiu acelerar o processo com a Europa”, aponta Mukhi. Em janeiro, Nova Délhi firmou um amplo pacto de livre comércio com a União Europeia, que vai eliminar 97% das tarifas em vigor no comércio bilateral.
A ofensiva comercial de Donald Trump contra indianos e brasileiros leva as duas potências a tentarem aumentar o escopo do tratado atual, aposta o professor-associado da FGV. “Eu acho que isso é questão interna, de como o Mercosul se disponibiliza para facilitar esse processo. Vai exigir que a gente saia de nossa zona de conforto e tome algumas decisões duras. Alguns setores vão ser afetados, mas cada setor tem que se adaptar”, indica, referindo-se à agricultura.
“Apesar de ser a quarta economia do mundo, a Índia ainda tem grande parte da população de pequenos produtores dependendo da agricultura familiar. Quando você tem um acordo que prejudica essa fatia da população, é um pouco arriscado”, complementa.
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A reforma fiscal de 2025 é um primeiro passo para reduzir as desigualdades tributárias no Brasil, mas muito resta a fazer para a justiça fiscal no país, avaliam economistas do recém‑criado Observatório Fiscal Internacional, em Paris. O centro de estudos, dirigido pelo economista francês Gabriel Zucman, concentra pesquisas em temas como tributação da riqueza, evasão fiscal e fluxos financeiros ilícitos.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
A instituição é a ampliação do Observatório Fiscal Europeu, sediado desde 2021 na Paris School of Economics (PSE). O Brasil atrai uma atenção especial dos pesquisadores, ao ter um dos sistemas tributários mais desiguais, “se não for o mais desigual entre as grandes economias”, segundo Zucman.
“Esta situação precisa evoluir. Trata-se de um desafio econômico e político central para o Brasil, que acho que estará no foco da eleição presidencial”, disse, no lançamento da instituição, na última quinta-feira (5).
Durante a presidência brasileira do G20, em 2024, o economista contribuiu para a elaboração da proposta de criação de um imposto global de 2% sobre a renda dos ultrarricos, que Brasília levou à mesa de negociações do fórum internacional. A declaração final do evento não incluiu o projeto, que atingiria cerca de 3 mil pessoas no mundo. Entretanto, o comunicado fez uma menção inédita à importância da tributação dos bilionários, uma vitória para os defensores do tributo.
Para Zucman, o debate que se sucedeu não só no Brasil, como na França, Holanda, Espanha, África do Sul, Colômbia e o estado americano da Califórnia, mostra que os avanços para uma maior justiça fiscal são uma questão de tempo.
“Por todo o lugar, estamos vendo iniciativas para encontrar uma solução para o problema atual, de que as grandes fortunas conseguem se exonerar da solidariedade nacional. Acho que daqui a 20 ou 30 anos, retrospectivamente, veremos o período atual, entre 2024 e 2026, como o ponto de virada: o início de um movimento internacional pela taxação dos bilionários, das grandes fortunas, da mesma forma como houve um movimento internacional no início do século 20 para a criação do imposto de renda progressivo”, frisou.
No Brasil, desigualdade ainda maior do que se pensavaEm agosto passado, o Ministério da Fazenda apresentou um trabalho da equipe de Zucman em parceria com a Receita Federal sobre a desigualdade tributária no Brasil, ainda maior do que se imaginava. O 1% de brasileiros mais ricos concentram cerca de 27,4% de toda a renda no país, 7% a mais do que apontavam estudos anteriores.
Além disso, a pesquisa concluiu que enquanto as classes médias e os trabalhadores no Brasil têm uma alíquota média de impostos de 42,5%, o topo da pirâmide de renda tem menos da metade, 20,6%.
Apesar da reforma, que aumentou a faixa de isenção do imposto de renda para os mais pobres e criou um tributo inédito para o topo da riqueza no Brasil, as distorções continuam e a regressividade do imposto no Brasil é uma das mais elevadas do mundo, salienta Theo Palomo, autor principal da pesquisa.
“Existem várias propostas, um debate público sobre como reduzir essa regressividade. Mas só é possível avaliar essas propostas quando você tem números de qual é a diferença de tributo que o bilionário está pagando em relação à classe média”, afirmou o doutorando na PSE. “O nosso estudo faz exatamente isso: ele consegue informar o debate e possibilitar uma discussão mais informada da realidade brasileira.”
Benefícios fiscais para empresasUm dos focos das próximas pesquisas será avaliar a eficiência dos benefícios tributários, que fazem despencar a arrecadação das empresas, principalmente as grandes.
“Existe muito benefício para a inovação, a tecnologia, o desenvolvimento regional. Então, uma pergunta fundamental é: esses benefícios estão cumprindo seu papel?”, disse. “Essa é uma questão superimportante, ainda mais nesse cenário de que o Brasil tem uma restrição orçamentária, e os benefícios tributários são gigantescos. As grandes empresas, como a gente mostra no nosso estudo, são controladas pela população mais rica, ou seja, esses benefícios, no fundo, beneficiam os mais ricos.”
Os mecanismos de fuga de impostos também estão na mira do observatório. Um dos movimentos que a reforma fiscal tende a acelerar entre os ricos é o de reter os lucros nas empresas, em vez de distribui-los, e assim evitar a mordida do imposto de renda.
“Tem uma discussão de áreas mais cinzentas do que seria evasão e otimização. É uma coisa que a gente está começando a estudar, por exemplo, a pejotização”, destaca Palomo. “A gente está querendo justamente avançar nessa agenda para entender exatamente a contribuição de cada um, não só em termos de orçamento, que é uma questão importantíssima, quanto do orçamento está sendo perdido por evasão fiscal, mas também entender como isso impacta a desigualdade do Brasil.”
Em abril, o Observatório Fiscal Internacional publicará um relatório sobre a progressividade dos impostos na América Latina, com foco nos ultrarricos.
Brasília exerce atualmente a presidência da Plataforma de Cooperação Tributária para a América Latina e o Caribe (PTLAC), que discute soluções para implementar maior justiça fiscal na região. O fórum foi criado em 2022, no âmbito da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
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Sem grandes alardes, um setor industrial brasileiro tem tido um desempenho excepcional desde 2024: o de defesa e segurança. Nos dois últimos anos, as exportações brasileiras de armamentos e equipamentos de guerra dispararam, com recorde de crescimento de 110%.
A performance inédita ocorre na esteira das guerras em curso na Ucrânia e em Gaza e, de forma geral, do aumento das preocupações globais com o tema. O país se posiciona como uma potência emergente no setor – apesar de, na diplomacia, pregar o diálogo para a resolução de conflitos e a paz.
A indústria começa a colher os frutos da Estratégia Nacional de Defesa, lançada em 2008, que levou à consolidação de produtos de alta tecnologia, à expansão de mercados e a ofertas competitivas, num contexto de aumento da demanda internacional.
“O Brasil reduziu a dependência de poucos mercados. Países europeus integrantes da Otan ampliaram a sua presença como clientes, ao mesmo tempo em que avançamos no Oriente Médio e na Ásia, abrindo espaços antes dominados por grandes potências mundiais”, salienta Luiz Carlos Paiva Teixeira, presidente do Conselho de Administração da ABIMDE (Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança).
Uma gama variada de clientes, distribuídos pelos cinco continentes, hoje importa produtos brasileiros presentes em 140 países, segundo dados do Ministério da Defesa. Os maiores compradores são Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal.
Expansão em contexto de queda dos investimentosO volume de comercialização de produtos e serviços atingiu US$ 3,1 bilhões em 2025, em alta de 74% em relação ao ano anterior e mais do que o dobro de 2023. Por trás das vendas, estão cerca de 80 empresas brasileiras, estatais ou privadas, reunidas na Base Industrial de Defesa do país.
A expansão ocorreu apesar da queda progressiva dos gastos do governo federal nas aquisições nacionais, depois da crise econômica de 2014, chegando a um patamar próximo de apenas 1% do PIB. Entretanto, o cancelamento de encomendas acabou compensado por um esforço diplomático para ampliar parcerias fora do país, salienta Marcos Barbieri, especialista em Economia da Defesa e professor da Unicamp.
“Nós temos produtos novos e sofisticados sendo lançados, mas as próprias Forças Armadas Brasileiras que os encomendaram estão reduzindo ou postergando as encomendas. Como manter esses projetos e as empresas? Através das exportações”, afirma. “Já que o governo estava sem condições de comprar, ele incentivou, com uma preocupação muito grande principalmente do Ministério da Defesa, mas outros também, em dar um suporte para essas empresas exportarem, com apoio diplomático, participação de feiras internacionais, visitas técnicas.”
A fabricante Embraer representa o principal cartão de visitas da pauta exportadora: teve a maior carteira de pedidos da sua história em 2025, com um total de US$ 4,6 bilhões na área de defesa, com destaque para as vendas do avião de transporte militar C-390 Millennium.
Diversificação e projeção de crescimentoJá faz tempo que o Brasil está entre os maiores exportadores de armas leves e munições, mas nos últimos anos, o país conseguiu se diversificar para uma vasta gama de equipamentos militares, com embarcações, blindados, soluções de proteção de dados, radares e sistemas de comunicação. O setor hoje emprega quase 3 milhões de trabalhadores e representa 3,49% do PIB brasileiro.
“A Base Industrial de Defesa consolidou-se como um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira. Ele caminha para deixar de ser apenas um fornecedor de equipamentos para se tornar um pilar estratégico da alta tecnologia do Brasil”, ressalta frisa Luiz Carlos Paiva.
“As metas estabelecidas buscam ampliar o domínio nacional sobre componentes críticos, como sensores, sistemas eletrônicos e softwares, reduzindo a dependência externa nas áreas mais sensíveis. E a estabilidade orçamentária cria um ambiente favorável ao planejamento industrial de longo prazo”, afirma.
No mundo, o ano de 2024 teve o maior aumento de gastos militares desde o fim da Guerra Fria, conforme levantamento do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri), referência em estudos sobre essa indústria. A instituição não menciona o Brasil como um dos atores mais relevantes nesta indústria, na comparação com as maiores potências: Estados Unidos, França, Rússia, China e Alemanha.
No ranking publicado em março de 2025, o Brasil aparece na 24ª colocação dos maiores exportadores, e é o único país da América Latina na lista. A tendência é subir mais posições nos próximos anos, aposta Marcos Barbieri.
“Muitos dos nossos produtos estratégicos estão começando a entrar no mercado agora: os submarinos que nós desenvolvemos junto com os franceses, da classe Scorpène, as fragatas da classe Tamandaré, que são uma Meko 100 Plus do Thyssenkrupp, desenvolvido com a Embraer, também estão entrando em operação agora. Os caças Gripen vão começar a ser produzidos no Brasil e já tem uma sinalização de que a Colômbia vai comprar”, exemplifica.
Donald Trump não está brincando quando afirma querer comprar a Groenlândia, território autônomo sobre o qual a Dinamarca é soberana. O presidente americano parece determinado a tomar o controle do território no Ártico, e agora ameaça os países europeus que se opuserem aos seus planos com novas tarifas alfandegárias. Mas, afinal, quanto custaria comprar o país?
Em seu primeiro mandato, o líder republicano já havia demonstrado a intenção de adquirir a maior ilha do mundo, alegando ameaças à segurança dos Estados Unidos. Agora, ele volta a tratar do assunto, com contornos de uma gigantesca transação imobiliária – numa tentativa de repetir a que foi feita em 1867, quando Washington comprou o Alasca da Rússia, por US$ 7,2 milhões na época.
Há mais de 80 anos, a própria Groenlândia recusou uma primeira proposta dos americanos, no valor de US$ 100 milhões. O governo do território e sua população continuam a ressaltar que o país não está à venda.
O montante sobre a mesa hoje atingiria facilmente a casa das dezenas ou até centenas de bilhões de dólares, dada a valorização estimada dos recursos minerais estocados nos seus subsolos.
A emissora NBC News, citando especialistas e ex-membros do governo federal americano, evocou a cifra de US$ 700 bilhões, sem especificar a metodologia utilizada. No New York Times, um ex-economista do Banco Central americano (Fed), considerou os valores já pagos pelo país para a aquisição de outros territórios e cruzou com os dados de inflação e crescimento econômico dos Estados Unidos e da Dinamarca. Conforme David Baker, a nova proposta situaria entre US$ 12 bilhões e US$ 77 bilhões.
Mas outro cálculo bem mais modesto também estaria sendo considerado: oferecer dinheiro diretamente para os 57 mil habitantes da ilha, em troca de apoio político para a ideia da separação da Dinamarca e adesão aos Estados Unidos. Nesta hipótese, o valor dos recursos naturais da ilha tende a ser minimizado.
De olho nas terras raras e minériosA Groenlândia abriga algumas das maiores reservas mundiais de terras raras e minerais críticos, essenciais para o setor da tecnologia. Para além das suas fronteiras, o subsolo do Ártico ainda concentra 30% das reservas de gás natural do planeta e 13% das de petróleo.
“Tem hidrocarbonetos por todo o lado no Ártico. Mas até hoje, na Groenlândia, nunca se conseguiu encontrar uma reserva comercialmente explorável, ou seja, um lugar no gelo, na terra ou no mar onde os recursos estejam tão concentrados que valha a pena explorar”, frisa o pesquisador sênior da Universidade do Quebec Mikaa Blugeon-Mered, especialista no papel dos polos na transição energética, à RFI. “É por isso, e para conseguir financiar a própria independência total da Dinamarca, que a Groenlândia tem buscado desenvolver o setor mineral, de terras raras, urânio, molibdênio. Dos 50 metais críticos considerados prioritários pelo governo americano, 44 estariam presentes na Groenlândia em quantidades suficientemente satisfatórias para interessar os Estados Unidos.”
A ambição americana de acessar esses recursos sequer é disfarçada: o embaixador nomeado pelos Estados Unidos na Dinamarca é ninguém menos do que Ken Howery, bilionário que fez fortuna na Silicon Valley. Entretanto, a exemplo da Venezuela e seu petróleo, os recursos naturais da Groenlândia são de difícil acesso: 80% do seu território é recoberto por uma espessa camada de gelo, necessitando investimentos colossais que levantam dúvidas sobre a viabilidade financeira da sua eventual exploração. Quantificar o valor real destes recursos é um cálculo complexo e, ainda assim, inexato. Não à toa, existem apenas duas minas em atividade na Groenlândia atualmente.
China e 'freedom city'Neste aspecto, uma grande preocupação americana é conter a expansão da concorrência chinesa na região, salienta Mikaa Blugeon-Mered, autor de «Alors tu veux acheter le Groenland...” ("Então você quer comprar a Groenlândia?”, em tradução livre)
“Quem está lá querendo comprar hidrocarbonetos e minerais do Ártico? Hoje, a principal compradora é a China. Ela tem um papel fundamental, porque tem tentado estabelecer posições estratégicas em toda esta região do Ártico, solicitando licenças, tentando comprar minas e assim por diante”, complementa o pesquisador. “Nos últimos 15 anos, eles têm tentado internalizar essa cadeia de valor, controlá-la desde a mina até o seu uso final, particularmente no que diz respeito aos elementos de terras raras, nos quais a China tem uma presença significativa na Groenlândia. Hoje, é precisamente isso que os Estados Unidos estão tentando neutralizar e se apropriar”, afirma.
Outro aspecto que entra na conta dos americanos é o potencial da ilha como uma "freedom city". O conceito, elaborado pela ala libertária das tech e aliada de Trump, imagina paraísos fiscais com regulação mínima, ideais para se tornarem laboratórios da inovação em inteligência artificial, veículos autônomos, lançamentos espaciais e micro reatores nucleares.
Além de embaixador na Dinamarca, Ken Howery é cofundador de uma poderosa empresa de venture-capital ao lado de Peter Thiel, defensor da ampla desregulação do setor de tecnologias e um dos financiadores de projetos do gênero. Ambos são amigos de Elon Musk e Thiel, grande doador das campanhas de Trump, foi um dos responsáveis pela ascensão política do vice-presidente americano, J.D. Vance.
A edição deste ano do Fórum Econômico Mundial é decisiva para o futuro do evento, que reúne há 55 anos algumas das maiores empresas e líderes mundiais na pequena cidade suíça de Davos. Não apenas a instituição enfrenta uma crise interna, como o multilateralismo vive o momento de maior instabilidade desde a Segunda Guerra Mundial.
O encontro começa na próxima segunda-feira (19), com foco no diálogo “em um mundo cada vez mais contestado”. Durante cinco dias, empresários, chefes de Estado e de Governo, além da sociedade civil, debaterão temas como novas fontes de crescimento econômico, o aumento da cooperação e a “busca da prosperidade respeitando os limites do planeta” – um contorcionismo de linguagem para não ferir os melindres do convidado mais aguardado este ano, Donald Trump.
A última vez que o presidente dos Estados Unidos se deslocou para o evento foi em 2020, no último ano de seu primeiro mandato. Em 2025, de volta ao poder, ele fez um discurso por teleconferência, no qual prometeu o “maior corte de impostos da história dos EUA”, anunciou o fim do Green New Deal implementado por seu antecessor, Joe Biden, e sinalizou o início da guerra comercial que encamparia com o resto do mundo.
Desta vez, a presença de Trump em Davos, acompanhado de nomes como o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, o secretário de Estado, Marco Rubio, e os enviados de Washington para as guerras na Ucrânia, sugerem que o presidente aposta alto no fórum de 2026.
“Ele vai lá para falar verdades, que é o que ele sabe fazer. E isso é bom, porque o fórum se tornou um grande berço da hipocrisia internacional”, afirma Alberto Pfeifer, coordenador do grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP. “Ele deve repetir que este modelo de mundo, que fez sentido em um determinado momento da história, acabou e não é mais o que organiza o mundo”, complementa.
Ao mesmo tempo, o presidente americano estará entre seus pares empresários e não deve desperdiçar a oportunidade de fazer negócios. “Ele sabe que são esses caras que movem o mundo, porque ele é um deles. Ele poderá restabelecer uma coalizão com os grandes empresários europeus e de outros países, que vão afluir lá, dizendo que ‘os Estados Unidos são o melhor país do mundo para investir, venham para os Estados Unidos’”, diz Pfeifer.
Investigação e saída do fundadorO encontro, que sempre foi uma ocasião para reunir a elite econômica do planeta, está cada vez mais marcado pela influência americana. Em agosto, Larry Fink, CEO da líder mundial de gestão de ativos BlackRock, assumiu a copresidência do fórum, ao lado do vice-presidente do laboratório suíço Roche.
Os dois substituíram o fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, que deixou a presidência em meio a uma investigação interna sobre a governança da instituição, incluindo uso indevido de recursos. Schwab foi absolvido das suspeitas de “irregularidades materiais”, mas não retomou o posto.
O escândalo ocorre em um momento em que o evento já vinha perdendo eficácia como instrumento de regulação internacional, na avaliação do professor da USP.
“O fórum cumpriu um papel relevante e de projeção em particular nos anos 1990 e 2000, quando ele poderia ser considerado uma ONU alternativa, paralela. Ele juntava o que a governança multilateral não conseguia e, assim, desenvolvia agendas comuns para toda a humanidade. Ele fez sentido naquele período, mas hoje não faz mais tanto”, explica. “Hoje, essa agenda perdeu tração e esse espaço de interlocução perdeu relevância, assim como o que acontece na ONU e na OMC, para definir os rumos dos investimentos privados e das políticas externas dos países.”
Presença brasileira esvaziadaAté o momento, o Brasil não informou sobre a presença de autoridades em Davos. Em 2025, o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, representou o governo.
O presidente Lula participou de todas as edições durante os seus primeiros dois mandatos, à exceção de 2009. Mas, desde que voltou ao poder, não retornou à cidade suíça.
“Pela presença do Trump, seria importante o Brasil estar lá, por ser um espaço em que há certa informalidade, em que você pode ter conversas de corredor e de bastidores. Tendo a alta cúpula do governo americano lá, seria interessante ter algum representante do alto escalão do governo brasileiro”, observa Pfeifer.
Pelo segundo ano consecutivo, um espaço de conferências e reuniões focadas no país será montado na Promenade, a principal avenida da cidade, que dá acesso ao evento oficial. A Brazil House é uma iniciativa de um grupo de grandes empresas – Gerdau, Vale, BTG Pactual, Randoncorp e BE8 – e dará ênfase à sustentabilidade.
A operação americana na Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro e assumir o controle das reservas de petróleo do país tende a impulsionar a dinâmica de ampliação da exploração de óleo e gás na América Latina. Brasil, Argentina, Guiana e Suriname avançam nesta direção, mas também Bolívia, Chile e Colômbia oferecem potenciais ainda pouco explorados.
A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total. Entretanto, desde a estatização do setor no país e a saída das companhias americanas e britânicas na era chavista, a capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia – muito abaixo de concorrentes de peso como Arábia Saudita, Rússia e os próprios Estados Unidos.
O economista Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e experiente especialista no mercado internacional de petróleo, vê um cenário favorável para os países detentores de reservas na América Central e do Sul ingressarem com força na corrida não só pelo óleo, como também pelo gás.
“Na Argentina, o governo de direita, do Milei, é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, observa, ao lembrar que os investimentos e a produção de gás de La Paz também desmoronaram após a estatização dos campos pelo ex-presidente Evo Morales. “Você tem a Guiana, grande estrela de produção de óleo, cujos dois principais investidores são as americanas ExxonMobil e Chevron. Tem a Colômbia, onde haverá eleições este ano e parece que o favorito é o candidato da direita, assim como no Chile, onde a direita venceu.”
No Brasil, o cenário eleitoral para 2026 aponta o presidente Lula como favorito à reeleição. O petista não esconde o apetite pela abertura de novas frentes de exploração de petróleo no país, que hoje é o sétimo maior produtor mundial.
Petrobras sob pressãoA volta dos americanos à Venezuela e de Caracas como protagonista do mercado mundial tende a estimular a competição internacional pela atuação na margem equatorial brasileira, colocando a Petrobras sob pressão. Em 2025, após 12 anos, a companhia recebeu autorização para iniciar os estudos de prospecção em um dos quase 300 blocos identificados na área, ao norte do Brasil.
“Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, pontua Pires.
O provável aumento da oferta mundial de petróleo levará à queda ainda maior do preço do barril, hoje negociado em torno de US$ 60. A diminuição do valor nos próximos dois anos já era antecipada pelos analistas, devido a uma oferta abundante e não acompanhada por aumento da demanda. A esperada alta da produção venezuelana acentua o fenômeno.
Aumento das vendas para a ChinaMas, se por um lado as receitas das vendas vão cair, com impacto nas decisões de investimentos e fluxos de caixa, por outro a derrubada do regime de Nicolás Maduro cria uma oportunidade para a petroleira brasileira: aumentar as exportações para a China. Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado.
Adriano Pires ressalta que o Brasil está em curva ascendente de produção, passando dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027. “Além disso, as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”, afirma o economista. “Aí eu não sei como é que o Trump vai olhar para isso.”
Para o especialista, o objetivo número 1 do presidente americano ao intervir na Venezuela foi barrar o acesso chinês ao petróleo do país e se tornar um player incontornável deste mercado.
“O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele. Ele pode agora sentar à mesa e ser um player que define níveis de produção e automaticamente níveis de preço no mercado internacional de petróleo”, indica Pires. “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.”
Em um contexto geopolítico de tantas incertezas, o que esperar da economia em 2026? Com o mundo ainda sob o impacto da gestão agressiva do presidente Donald Trump, reconfigurando suas antigas alianças, o aumento do protecionismo e a ameaça das guerras levam o crescimento mundial a continuar fraco, antecipa o FMI. No Brasil, a perspectiva de eleições embaralha ainda mais as cartas. Mesmo assim, há razões para otimismo.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
Segundo o Fundo Monetário Internacional, o crescimento do PIB mundial em 2026 será quase o mesmo que em 2025: 3,1%. As tarifas comerciais mais elevadas, a instabilidade das políticas econômicas, a começar pelos Estados Unidos, e os conflitos geopolíticos impactam no comércio e nos investimentos, aponta também a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
“Será, acima de tudo, um ano de surpresas, porque assim é o governo americano. Muitas coisas podem acontecer, desde as mais assustadoras até as mais pitorescas”, observa Jorge Arbache, professor de Economia da Universidade de Brasília e ex-economista sênior do Banco Mundial.
“É possível que o que está aí se aprofunde e a gente tenha uma ainda maior polarização em nível global. E, para um país como o Brasil, que procura manter uma certa neutralidade política e econômica, vai exigir, num ano de eleições, um certo malabarismo para não elevar tensões ou não criar dificuldades num ambiente muito frágil e sensível. O país, obviamente, vai adiar grandes decisões, esperando um novo governo – qualquer que seja ele”, afirma Arbache.
Impacto das eleições e da Copa do Mundo“A gente fala que é um ano mais curto porque tem eleições e também a Copa do Mundo, que é algo muito importante no Brasil”, lembra ainda a economista Patricia Krause, especialista na economia da América Latina da Coface, líder mundial de seguro de crédito. “A agenda no Congresso fica reduzida e, no segundo semestre, tudo fica mais focado nas eleições. Elas podem trazer sempre alguma volatilidade cambial – e câmbio é a pior variável que tem para tentar fazer previsões”, frisa.
No ano que passou, a desigualdade caiu ao menor índice em 10 anos no Brasil, e o país atingiu o pleno emprego. No segundo semestre, o crescimento econômico desacelerou, o que era esperado há meses pela maioria dos especialistas, preocupados com a inflação.
“A economia brasileira, de modo geral, tem surpreendido para cima nos últimos anos, com crescimento mais resiliente do que esperado e os economistas revisando para cima as projeções. E este ano, de fato, ocorreu essa desaceleração do crescimento que há muito era esperada”, indica Patricia Krause.
Queda dos juros?Com uma taxa Selic de 15% ao ano, num contexto de inflação de 4,5%, a projeção de crescimento da Coface para 2026 é de 1,9%. Mas a perspectiva agora é de queda da inflação. “Com isso, a grande questão é a esperança de que o Banco Central brasileiro comece a reduzir juros no começo do próximo ano”, salienta Krause.
Ano eleitoral costuma ser sinônimo de aumento de gastos – e, no caso do Brasil, este é um dos aspectos mais delicados que ficam de 2025 para 2026. A situação das contas públicas se deteriora ano após ano e o descontrole fiscal é hoje a maior preocupação da economia do país, com o déficit e a dívida pública em curva ascendente.
A alta da taxa de juros, aplicada pelo Banco Central para controlar o aumento dos preços, joga ainda mais lenha nesta fogueira, ao corroer a fraca margem de manobra dos gastos do governo federal. Se nada for feito, o orçamento tende a ficar cada vez mais estrangulado, com o peso das despesas em saúde e previdência também em crescimento.
“O aumento significativo dos gastos já está contratado. Ele não vai nos surpreender”, adverte o professor da UnB, que foi secretário para Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento. “Hoje, 95% dos gastos públicos são praticamente definidos. O espaço de manobra efetivo é muito menor do que as pessoas imaginam.”
Brasil em posição favorável no mundoO economista pondera, entretanto, que, do ponto de vista relativo, o Brasil hoje está melhor em relação à maioria dos outros países, inclusive as potências. “Não que o Brasil tenha feito o dever de casa, mas porque o mundo piorou. Fazer negócios hoje nos Estados Unidos é muito mais arriscado do que no Brasil”, diz Arbache. “Muita coisa tem mudado também na Europa, e a guerra cria uma insegurança brutal. O mundo hoje não está para peixe, e do ponto de vista relativo, o Brasil está melhor.”
Os dois economistas avaliam que, em meio à guerra comercial de Donald Trump contra os antigos parceiros, o Brasil demonstrou resiliência. “O fato de o Brasil ser uma economia ainda muito fechada ao comércio nesse momento acabou ajudando. Isso não é algo positivo, mas neste momento em que o comércio internacional preocupa, você está menos exposto”, sublinha a especialista da Coface. “Teve queda nas exportações para os Estados Unidos, porém o Brasil conseguiu aumentar vendas para outros mercados. Isso foi, de certa forma, algo positivo.”
No plano interno, a aprovação das reformas fiscal e tributária trouxe avanços. O arcabouço legal relativo à economia verde, com um imenso potencial para o Brasil, coloca o país na rota de investimentos em setores como energia renovável, mercado de carbono e combustíveis limpos. Em 2025, o Brasil demonstrou que entendeu qual é o seu lugar nesta promissora economia, constata Jorge Arbache.
“Eu acho que não existe outra estratégia para o país, do ponto de vista econômico e de desenvolvimento. É essa ou nenhuma”, destaca. “Não só a capacidade de atração de investimentos no âmbito do powershoring, mas também aquilo que é pertinente aos minerais críticos para a transição e às terras raras, que vêm atraindo uma crescente atenção, especialmente da Europa, dos Estados Unidos e da China. Muita coisa deverá se passar nos próximos meses e anos. Esse caminho é sem volta.”
Acordo UE-MercosulNeste ponto, o economista chama a atenção para as falhas do acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, que esteve prestes a ser ratificado em 2025. Travado devido a resistências na questão agrícola, o texto sequer aborda o potencial de cooperação na área da transição energética. Os europeus deixam passar a oportunidade de serem parceiros privilegiados dos países latino-americanos neste comércio.
“O maior ganho, para a Europa, nem está nas manufaturas. Eu acho que é tudo aquilo que tem a ver com a abertura de novas fronteiras e possibilidades de negócios para ajudar a solucionar muitos dos mais graves problemas econômicos que a Europa tem, associados à energia e à produção de vários produtos manufaturados e insumos a custos muito menores, fundamentais para dar maior competitividade para a própria indústria europeia”, explica. “Essas coisas passam ao largo do acordo atual.”
Ainda na área de energia, mas também das commodities, as perspectivas são positivas. “A gente tem uma produção de petróleo em alta e pode ter um ano importante, em termos de volume. A estimativa de safra indica recorde, além de uma demanda por proteína aquecida”, antecipa Patricia Krause. “Eu diria que o canal de exportação e também um consumo resiliente podem trazer alguma sustentação para o PIB brasileiro no próximo ano.”
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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia…

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