
Sign up to save your podcasts
Or


Baterista, DJ, professor de História e fotógrafo, Yan Carpenter, de 31 anos, saiu do Brasil pela primeira vez para expor suas imagens na Sorbonne ArtGallery, o espaço dedicado à arte na icônica universidade parisiense. Ele venceu um projeto que oferece uma residência em Paris para artistas de outros países e expõe sua mostra Giro nos Acessos no festival Photo Days, que acontece em diversos locais da capital francesa até o dia 30 de novembro.
Tatiana Ávila, da RFI em Paris
Com sorriso aberto e orgulhoso dessa primeira mostra internacional, Yan Carpenter recebeu a reportagem da RFI nos corredores da galeria Soufflot, no campus Panthéon Sorbonne, no 5º distrito de Paris. Natural do Rio de Janeiro e tendo nascido e crescido em bairros pobres da cidade, ele falou sobre autoestima, visibilidade de pessoas negras e contou um pouco da sua trajetória até a exposição na França, que marca também sua primeira viagem para fora do Brasil.
“No colégio juntei com meus melhores amigos e fizemos uma bandinha. Eu comecei dentro da música porque eu achei nos shows, nos ensaios e nas apresentações, uma forma de me sentir visível. Essa banda me deu muito conhecimento sobre a rua, e nos intervalos dos shows eu pegava a câmera do fotógrafo para mexer, o que foi despertando o meu interesse”, disse ele, que, com o fim da banda, vendeu a bateria e comprou uma câmera fotográfica.
A partir daí, ele conta que aprendeu sozinho e que acabou ganhando uma nova profissão. Segundo Yan, há alguns anos, a falta de referências fez com que ele se lançasse numa busca individual.
“Eu sempre falo de autoestima porque hoje eu me acho um cara bonito, inteligente, mas 15, 20 anos atrás, isso era muito difícil, porque a autoestima do preto não estava em voga. A gente não via semelhantes nas ruas, e eu descobri que aprender por mim mesmo era uma forma de me tornar mais valioso e de desmistificar um pouco as pessoas. Porque eu me enxergava sempre muito pequeno perante os outros justamente por não me sentir dentro dos conceitos”, contou.
De Guadalupe para ParisO fotógrafo falou ainda como conquistou a residência no projeto que o trouxe para Paris.
“Foi uma sucessão de acontecimentos desde 2020. Eu comecei a minha carreira dentro da moda, eu cobrava R$ 50 por ensaio, mas eu não era um profissional que chamava a atenção para as pessoas me pagarem. E quando eu fiz 25 anos, eu saí de casa e fui trabalhar numa hamburgueria (fazendo as fotos como trabalho extra), mas quando veio a pandemia eu não podia mais encontrar as pessoas e fazer minhas fotos. Isso me quebrou muito. Como eu morava na favela do Rio das Pedras e trabalhava na Barra da Tijuca, eu ia andando fazendo fotos. Nisso, eu me descobri fazendo foto da rua, de 2019 para 2020, porque eu vi que eu conseguia dar o peso que eu não conseguir dar para o rosto das pessoas. Porque o meu problema com a moda era que eu via sinais nos rostos das pessoas e eu queria muito ressaltar isso, porque isso conta histórias sobre elas. E eu via que na rua eu podia fazer isso sem as pessoas reclamarem”, lembrou.
“Um dia eu fiz uma foto em um ônibus, que se chama ‘O avião do trabalhador’, e a ela se tornou viral. Teve 15 mil curtidas, a Folha de S.Paulo me ligou, eu fui parar na capa do UOL, da Galileu e tudo começou a acontecer. Nessa semana eu conheci a Carol Maluf, que se tornou a minha agente em São Paulo. Ela é mecenas, foi vice-diretora da MTV e me patrocinou”, contou ele, dizendo que a partir do patrocínio, fez sua primeira exposição em São Paulo, quando vendeu todas as 28 obras, o que marcou definitivamente sua vida.
“Eu passei a viver das minhas fotos, não confortavelmente, mas nunca mais precisei trabalhar em empregos secundários ou terciários”, conta.
Depois veio o contato com Sandra Hegedüs, fundadora do Sam Art Project, que esteve no Brasil e que o escolheu como seu candidato para vir a Paris. Após vencer outros artistas, Yan foi o escolhido para passar um mês na Cidade Luz, com suas fotos expostas na Sorbonne.
Sorbonne Art Gallery e Photo DaysA mostra de Yan Carpenter acontece graças a uma parceria da Sorbonne ArtGallery com o Photo Days, um festival que promove exposições de fotos em lugares clássicos, mas também em locais insólitos de Paris. Em sua sexta edição e realizado uma vez por ano, o evento tem como foco a cena emergente internacional, oferecendo a jovens artistas um espaço de visibilidade e diálogo.
Yann Toma, diretor artístico e curador da Sorbonne ArtGallery, explica que o espaço, situado dentro da universidade, “é um lugar comandado e administrado por artistas e para os artistas”. Ele falou sobre a oportunidade de abrigar a mostra Giro nos Acessos.
“Aqui, com Yan Carpenter, estamos nessa inter-relação com a sua geração, já que ele é muito próximo dos artistas de rua, com sua energia, com o fato de nunca ter saído da favela antes. Ele chega a Paris com essa energia de autenticidade incrível e, evidentemente, com seus registros fotográficos diretos, que para nós são muito significativos, sobretudo em relação à nossa parceria com o Photo Days”, destacou Toma.
Parceria com o BrasilYann Toma destacou ainda mais uma parceria com o Brasil, que acabou rendendo muitos frutos, especialmente no âmbito da sessão cruzada do Brasil na França.
“Temos uma parceria a qual prezamos muito, que surgiu por meio do Photo Days, com o Initial Labo, um laboratório fotográfico que trabalha diretamente com os artistas, como se fazia antigamente em um laboratório de fotografia analógica. Há esse espírito da fotografia analógica, mas evidentemente com uma dimensão digital. Esse laboratório é dirigido por Denise Zanet, uma especialista em fotografia, além de colecionadora de obras fotográficas. Ela promove trabalhos muito singulares que unem fotografia plástica, fotografia de reportagem e, de forma mais ampla, fotografia artística. Ela acompanha tudo isso no contexto do Ano França-Brasil, em relação com a Embaixada do Brasil na França e também diretamente no Brasil".
Explicou Toma, ressaltando ainda a possibilidade de trabalhar, junto ao laboratório, em formatos que vão muito além dos moldes tradicionais, respondendo às aspirações dos artistas.
No site do Photo Days é possível encontrar um mapa de Paris onde estão indicados todos os locais de exposições, disponíveis até 30 de novembro. A exposição de Yan Carpenter na Sorbonne ArtGallery é gratuita com ingressos disponíveis para serem baixados também direto na página oficial do evento.
A 15ª edição da Flup, a Festa Literária das Periferias, foi inaugurada esta semana sob o Viaduto de Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, como parte da temporada da França no Brasil 2025. Com o tema “Ideias para reencantar o mundo”, o evento reúne artistas, autores e pensadores da diáspora negra do Brasil, África, Caribe, América do Norte e Europa. Madureira, território e epicentro simbólico da resistência negra carioca, tornou-se palco de um encontro de celebração e manifesto político.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro
A Flup 2025 escolheu Madureira como território catalisador das diásporas negras decoloniais. Julio Ludemir, diretor e idealizador do festival, explicou que “o local é uma encruzilhada do comércio, uma encruzilhada de vários pontos de vista, inclusive do ponto de vista exusístico”, numa referência a Exu, orixá do movimento e da comunicação no Candomblé, responsável por abrir caminhos e conectar humanos aos deuses do panteão africano.
Para ele, o bairro de Madureira, na zona norte do Rio, é mais que geográfico: é espiritual e cultural. “Todas as dores do mundo são afastadas quando você pode vir a um lugar onde está no campo dos iguais, no campo do espelho”, disse. Ludemir ressaltou que o icônico Viaduto de Madureira concentra “todos os códigos do Rio de Janeiro: o samba, o jongo, o candomblé”, além do Baile Charme que há mais de três décadas ocupa o viaduto e se tornou patrimônio da resistência negra. “É por isso que estamos aqui: porque Madureira, agora, é o centro do mundo”, concluiu.
O Baile Charme do Viaduto de Madureira é um polo simbólico da cultura negra e periférica carioca, surgido no início dos anos 1990, que se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da cidade graças à sua relevância como espaço de resistência, identidade e ascensão para a juventude da Zona Norte. Ao longo dos anos, já passaram por lá grandes nomes da música nacional e internacional como Keith Sweat, Montell Jordan, Sandra de Sá, Negra Li e Racionais MCs. Este ano, os músicos confirmados na programação são Jonathan Ferr, Mano Brown, Majur, Luedji Luna, Sandra de Sá e Mart’nália.
Herança de FanonA mesa de abertura trouxe a presença de Mireille Fanon, renomada jurista e ativista antirracismo, filha de Frantz Fanon — o influente psiquiatra, filósofo e teórico da decolonização, autor de obras fundamentais como Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra.
Mireille preside a Fundação Frantz Fanon e dá continuidade à luta de seu pai contra o racismo, a alienação e a desigualdade mundial, entre outros combates. Sua participação na Flup 2025 foi marcada como momento simbólico e estratégico, reforçando a conexão viva entre o legado anticolonial e os debates contemporâneos sobre justiça social e solidariedade transnacional. Em sua fala, ela insistiu que “se queremos mudar o mundo, isso só pode acontecer de maneira coletiva”. Fanon criticou o sistema capitalista por "condicionar as pessoas a pensar apenas no bem-estar individual", quando a prioridade deveria ser o "bem-estar coletivo da humanidade".
“Essa transformação depende de um empenho horizontal, não hierárquico: um trabalho de base, sem heróis salvadores vindos de cima”, afirmou. Para Mireille, as lutas atuais — de Gaza ao Haiti, do Chile à África — não são crises isoladas, mas parte de uma lógica global de exploração que precisa ser enfrentada coletivamente.
Sobre a mitificação das figuras históricas, entre elas seu pai, Frantz Fanon, Mireille critica a forma como o sistema transforma seus “grandes homens e grandes mulheres” em heróis neutros, para "não ameaçar a ordem vigente": "preferem fazer de nossos grandes homens… heróis, de forma a neutralizá-los". Mireille afirmou que há uma estratégia deliberada de "neutralização": "ao fazer dessas figuras modelos heroicos, o sistema as cooptam, evitando que suas lutas inspirem outros a lutar coletivamente".
Mas para ela, o objetivo é outro: que a luta dessas mulheres e homens seja "exemplo vivo, uma prova de que podemos sonhar e construir uma política de liberdade por meio da solidariedade, não apenas pela figura de um salvador".
Literatura como direitoDurante a mesa de abertura, a escritora Conceição Evaristo, primeira autora viva a ser homenageada pela Flup em sua 15ª edição, falou sobre o legado que deseja deixar às próximas gerações. “A mensagem que eu deixaria é pensar a literatura como direito, como direito cidadão”, declarou.
Para ela, é fundamental “pensar a escrita como direito” e incentivar que jovens escritoras periféricas se conectem umas com as outras, “perceber o aspecto coletivo das nossas histórias sem anular a individualidade”. Conceição concluiu com um chamado:
“Que formem grupos, que se aquilombem em torno da literatura”. Conceição Evaristo, primeira autora viva homenageada pela Flup.
Entre a força simbólica de Madureira, o chamado ao combate coletivo de Mireille Fanon e o legado literário de Conceição Evaristo, a Flup 2025 reafirma sua vocação como espaço de resistência e memória. O tema “Ideias para reencantar o mundo” ganha densidade ao se conectar com a diáspora negra em múltiplos continentes, propondo que o reencantamento "não seja apenas poético, mas político". É "romper com a lógica individualista, valorizar histórias coletivas", pontuou Mireille Fanon.
Como lembrou Julio Ludemir, “Madureira [durante a Flup 2025] é o centro do mundo”. Para Mireille Fanon, “se queremos mudar o planeta, isso só pode acontecer de maneira coletiva”. “A literatura é direito, é cidadania, é aquilombamento”, concluiu Conceição Evaristo.
A programação da 15ª edição da Festa Literária das Periferias vai até o dia 30 de novembro no Rio de Janeiro.
Dez anos após os atentados terroristas que abalaram a França em 2015, Paris transforma o luto coletivo em memória viva. Duas grandes instituições francesas, o Museu Carnavalet e os Arquivos de Paris, apresentam exposições que reúnem objetos, cartas, desenhos e obras deixados pela população nos locais dos ataque. Os testemunhos, carregados de emoção, formam, ao lado de obras, um retrato poderoso da dor e da solidariedade que traduzem valores republicanos que catalisam a sociedade francesa.
As iniciativas se inscrevem em uma longa tradição francesa de valorização da memória coletiva, especialmente em relação a eventos traumáticos da história nacional. A partir dos anos 1990, o país passou a adotar de forma mais sistemática o que ficou conhecido como “dever de memória” — uma noção que ultrapassa o simples registro histórico e se transforma em compromisso cívico com o reconhecimento e a transmissão dos acontecimentos do passado.
O conceito foi amplamente difundido por intelectuais como Pierre Nora, autor da obra monumental Les Lieux de Mémoire (Os Lugares da Memória), que propôs a ideia de que certos espaços, objetos e rituais funcionam como âncoras simbólicas da identidade coletiva.
Foi também nesse contexto que o então presidente Jacques Chirac, em 1995, tornou-se o primeiro chefe de Estado francês a reconhecer oficialmente a responsabilidade da França na deportação de judeus durante a ocupação nazista. Esse gesto marcou uma virada na política memorial do país, que passou a investir em museus, arquivos e cerimônias públicas como formas de reparação simbólica e de construção de uma memória compartilhada.
Desde então, o “dever de memória” tornou-se um princípio estruturante das políticas culturais e educacionais francesas, especialmente diante de tragédias contemporâneas como os atentados terroristas de 2015.
Béatrice Herold, diretora dos Arquivos de Paris, lembra que o impulso inicial para a coleta desses testemunhos partiu do sociólogo Jérôme Truc. “Ele escreveu para a prefeita de Paris dizendo que era preciso fazer algo diante desses testemunhos deixados pela população”, conta.
A partir daí, o então diretor dos Arquivos, Guillaume Naon, mobilizou equipes para recolher os objetos nos locais dos atentados, em parceria com os agentes da direção de limpeza urbana. “Eles recolhiam os documentos à medida que os meses e as semanas passavam. Ao mesmo tempo, os agentes de limpeza removiam as flores murchas e as velas apagadas e reconstituíam os memoriais para que eles permanecessem o tempo necessário para esse luto coletivo”, explica Herold.
Leia tambémFrança dá início às homenagens pelos 10 anos dos atentados terroristas de 13 de novembro em Paris
Homenagem espontânea da populaçãoA homenagem espontânea da população durou vários meses. A coleta principal ocorreu entre novembro de 2015 e janeiro de 2016, mas uma última campanha foi realizada um ano depois. Ao todo, foram 17 ações de coleta. “Hoje, todos esses objetos estão nos arquivos. Uma parte está nos Arquivos de Paris — tudo o que é testemunho escrito, desenhos, cartas, pequenos bilhetes. E outra parte está no Museu Carnavalet, que se encarregou dos objetos de maior dimensão”, detalha a diretora.
Entre os testemunhos escritos, destaca-se a reafirmação do apego a Paris, à França e aos valores da República. “É muito, muito recorrente. A população precisa expressar, em um ato de comunhão social, o apego a esses valores”, observa Herold. Ela também chama atenção para a quantidade de desenhos feitos por crianças, muitos deles produzidos em escolas da França e do exterior.
“É impressionante ver que professores em Paris, mas também nos Estados Unidos, na Bélgica ou no mundo, fizeram seus alunos do ensino fundamental trabalharem através do desenho logo depois, para que expressassem algo sobre a liberdade, a liberdade de expressão, a paz”, diz.
"Elas trabalharam com seus professores o ano todo para trabalhar a memória dos ataques. Dado que essas crianças têm cerca de 10 a 11 anos, na verdade elas não eram nascidas ou eram bebês na época dos eventos trágicos. Elas convidam a transmitir essa memória dos ataques em relação ao futuro", diz, sobre os desenhos de crianças parisienses.
No Museu Carnavalet – História de Paris, a diretora Valérie Guillaume apresenta uma seleção de 60 objetos expostos no percurso permanente da instituição. “Coletamos, graças aos Arquivos de Paris, 192 objetos. Na coleção, também contamos com numerosas fotografias de Laurence G e de Nicolas Argirolo, cerca de 50 ou 60 fotografias”, explica. Ao todo, a coleção relacionada aos atentados de 2015 reúne entre 250 e 270 itens.
Entre os objetos mais marcantes estão guitarras, sapatos, livros — como o tratado de Voltaire sobre a tolerância — e, sobretudo, o símbolo da Torre Eiffel estilizada dentro de um círculo, evocando o espírito peace and love dos anos 1960 e 70. “Esse tema é muito recorrente em todos os documentos e nos objetos. Ele foi desenhado e reproduzido por muitas pessoas”, afirma Guillaume.
Arte urbanaA exposição também inclui obras de artistas urbanos como Marc Aurel, Grim Team e o coletivo C215. Um dos destaques é a instalação de Marc Aurel Vion, erguida na Place de la République logo após os atentados. Trata-se de uma cerca de 12 metros adornada com o lema de Paris, reatualizado por Haussmann no Segundo Império: Fluctuat nec mergitur — “O barco é sacudido pelas ondas, mas não afunda”.
“Essa força do evento, que convida a população a se reunir e a defender justamente os valores fundamentais comuns, é expressa aqui através dessas letras, a força dessas letras, colocadas em branco sobre fundo preto”, descreve a diretora.
"Há também esse afresco realizado pelo grafiteiro C215 em homenagem a Ahmed Merabé, que foi morto, assassinado, durante os ataques de janeiro de 2015 do Charlie Hebdo, no Boulevard Richard-Lenoir", lembra. "Ahmed Merabé era um policial. Ele foi assassinado no momento do ataque contra o Charlie Hebdo. É uma obra interessante. Reconhecemos a assinatura de C215 em um cubo à direita. A obra representa um retrato sorridente desse policial assassinado, em toda a sua humanidade, com suas cores fortes [azul, branco, vermelho, as cores da bandeira francesa] que estão muito presentes", diz.
As duas exposições, abertas ao público até dezembro, não apenas preservam a memória das vítimas, mas também reafirmam o papel da cultura como espaço de resistência e reconstrução coletiva, valores ancorados profundamente na tradição contemporânea francesa.
Photo Bridge é um novo projeto dedicado à fotografia na capital francesa, onde as imagens nos convidam a atravessar fronteiras físicas, simbólicas e culturais. De 7 a 9 de novembro, na Halle des Blancs-Manteaux, no Marais, a primeira edição tem como convidada Françoise Schein — artista franco-belga que transforma alteridade, urbanismo e democracia em arte pública. Ao lado de Glaucia Nogueira, da associação Iandé, e de Charlotte Flossaut, da PhotoDoc, a fotógrafa constrói pontes entre territórios e direitos humanos.
A proposta curatorial da primeira edição da Photo Bridge em Paris parte de um gesto coletivo. “Pensamos em conjunto em um momento, um evento, um encontro que permitirá que diferentes regiões do mundo se reúnam através da fotografia. Daí o nome ‘Photo Bridge’”, explica Charlotte Flossaut, da associação Photo Doc. “Não se trata de fotografias feitas no Brasil ou sob o olhar francês, mas de colocar em diálogo a energia que nos conecta.”
Glaucia Nogueira, da associação Iandé, reforça: “Essa visibilidade que a gente tenta há 10 anos dar pra fotografia brasileira, que é muito rica, finalmente acontece. Nesse evento, são fotógrafos engajados com comunidades, com pertencimento, com território. Por isso a escolha da Françoise [Schein].”
A relação de Schein com o Brasil nasceu de um desejo íntimo: adotar uma criança. “Durante os anos da adoção da minha filha, eu queria conhecer o país da minha filha, conhecer as raízes da minha filha, de onde ela vem, que tipo de pessoas moram lá”, conta. Foi esse impulso que a levou a propor, para o Photo Bridge, uma instalação chamada A Cascata: “uma cachoeira gigante de moradias, as pequeninas casinhas feitas de tijolos da favela, de várias favelas onde trabalhei e que eu fotografei”.
A obra monumental de Françoise Schein reúne 27 fotógrafos que representam uma parte essencial da fotografia brasileira engajada. Para a artista franco-belga, o Brasil real está nas comunidades e nos territórios populares. “Vamos dizer, [quis trazer] uma apresentação desse olhar de hoje em dia super engajado sobre as questões da ecologia, do humanismo, da relação com a Terra — que é muito importante — dos indígenas, das origens da história, mas também da população da periferia da cidade, da questão das favelas e da força da população.”
Ela vê nas construções informais uma arquitetura viva. “As comunidades agora são consideradas como uma tipologia de construção vernacular muito interessante e muito parecida com a dos nossos europeus. É só esperar mais tempo, mais um século, mais dois séculos, e você vai ver que a Rocinha vai ser um lugar genial, porque as casas vão ser melhoradas pelos moradores, e vai se tornar um lugar turistico — já é, mas por razões diferentes hoje.”
Democracia entre azulejos e mapasA artista chegou ao Brasil em 1999 e, logo ao desembarcar, foi a São Paulo. “Bati à porta do Metrô Metropolitano de São Paulo e apresentei o meu trabalho que eu fiz em Portugal, em Lisboa”, lembra. O projeto foi aceito, e ela passou a trabalhar na Estação da Luz, no centro da cidade. “A Luz, como você sabe, é um bairro muito importante no centro da cidade que tem, de um lado, muitos museus super importantes: a Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa. Também é um bairro muito pobre; só tem riqueza e pobreza junto nesse bairro. Adorei essa situação. Eu fiz essa ação durante 10 anos.”
No Rio de Janeiro, integrou o programa Favela-Bairro e criou uma ágora e um mapa pintado na entrada da comunidade. “Tem um mapa enorme pintado na entrada da favela, porque quando você chega no Rio não há mapa de nenhuma favela. Os únicos mapas que existem estão nos computadores da cidade.”
Em Copacabana, realizou uma obra sobre democracia na estação Siqueira Campos, pouco antes das eleições de Lula. “Foi um trabalho bem interessante, porque tive que fazer isso antes das eleições de Lula. O projeto até foi uma ação política, pois o presidente do metrô na época era uma pessoa negra, e ele viu imediatamente o interesse para a comunidade negra de ter um projeto sobre os direitos humanos no coração de Copacabana, que é o coração da cidade.”
Uma artista entre subterrâneos e revoluçõesA trajetória de Françoise Schein é marcada por uma obsessão: inscrever os direitos humanos no cotidiano urbano. “Na época, eu vivia em Nova York. Eu era uma jovem arquiteta, estudando Urban Design na Columbia University e eu decidi que tive que analisar os mapas da cidade de Nova York, mas também de outras cidades: Buenos Aires, Paris, Bruxelas, outras cidades no mundo, porque eu acho que os mapas da cidade falam da cidade.”
Foi ao analisar o mapa de Paris que ela percebeu a centralidade do Sena, dos museus, da história gravada no solo. “Isso fala de quê? Fala da realeza. E que também, contra essa realeza, veio a Revolução Francesa. E com a Revolução Francesa vem o primeiro texto da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, feito em 1789.”
A partir dessa constatação, nasceu sua obra mais emblemática: a intervenção na estação Concorde, inaugurada em 1991. Lá, Schein revestiu completamente as paredes do túnel com cerâmica branca, sobre a qual estão inscritas, em letras azuis, todas as palavras da Declaração de 1789. Cada azulejo traz uma letra, e as palavras se sucedem sem espaços, como um texto contínuo, onde apenas as pontuações marcam pausas visuais. O resultado é um mosaico textual monumental — cerca de 45 mil peças — que convida o passageiro a um contato cotidiano com os princípios fundadores da República Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.
A escolha do local também carrega peso histórico. A Place de la Concorde, sob a qual passa a estação, foi palco de execuções durante a Revolução Francesa e é hoje símbolo da reconciliação nacional. Schein quis, com essa instalação, reintroduzir no coração do espaço público uma memória política e ética, reafirmando a importância dos direitos humanos num ambiente onde circulam milhões de pessoas todos os dias. “Eu preciso construir o texto embaixo da cidade, no subterrâneo da cidade”, disse, ao lembrar como a Revolução Francesa e a realeza se misturaram em sua mente com o metrô, a democracia e a arquitetura.
A primeira edição da Photo Bridge, que faz parte do calendário cultural da temporada cruzada Brasil-França; fica em cartaz até 9 de novembro em Paris.
A dupla Astérix e Obélix desembarca em Portugal no 41º álbum da série mais lida da história dos quadrinhos franceses. Com roteiro de Fabcaro e desenhos de Didier Conrad, a aventura lusitana mistura humor, crítica social e uma homenagem ao herói Viriato, símbolo da resistência contra Roma. Os autores falaram à RFI sobre bastidores, criação e o fenômeno cultural dos "irredutíveis gauleses" que atravessa gerações em todo o planeta. A aventura portuguesa foi traduzida para 19 línguas e dialetos.
Astérix e Obélix estão de malas prontas para sua 25ª viagem e o destino da vez é a Lusitânia, atual Portugal. O 41º álbum da série, com tiragem inicial de 5 milhões de exemplares, marca a estreia dos gauleses em terras lusitanas. O roteiro é assinado por Fabcaro (Fabrice Caro), em sua segunda participação na franquia, e os desenhos são de Didier Conrad, veterano que já soma sete álbuns da saga.
A escolha de Portugal não foi aleatória. “Eles já viajaram bastante, e percebi que nunca tinham ido à Lusitânia. Logisticamente, faz sentido: é perto da Gália, da Bretanha. Propus ao editor e ele disse: ‘Vai fundo, essa ideia está circulando há tempos, mas ninguém quis ainda encampar’”, conta Fabcaro.
Para Didier Conrad, a ambientação exigiu pesquisa e sensibilidade. “Já tinha estado lá [em Portugal], molhado os pés daquele lado do Atlântico. É um lugar que vi e senti. Depois, é só trabalhar”, diz, com a leveza de quem domina o traço, mas reconhece o peso da responsabilidade.
Astérix como "jazz": variações sobre temasA criação de um novo álbum exige respeito à tradição e inovação constante. “Há passagens obrigatórias que o leitor espera. Mesmo as ideias novas precisam manter uma continuidade. Os romanos apanham, mas não pode ser a mesma briga da última vez”, explica Conrad. “É como jazz: variações sobre temas que as pessoas adoram.”
O vilão da vez é Pirespèce ("da pior espécie", em tradução livre), um lusitano ardiloso, herdeiro da traição que marcou a história de Viriato, um líder militar lusitano do século II a.C., pastor de origem humilde que uniu tribos ibéricas contra a ocupação romana. Traído por aliados, foi assassinado em 139 a.C. e permanece como herói nacional em Portugal. “Imaginei que Pirespèce fosse descendente dos traidores de Viriato. Um personagem mais traiçoeiro do que malvado”, diz Fabcaro. “Didier o desenhou com um ar dissimulado, perverso.”
"Goscinny e Uderzo criaram personagens que são geniais", diz o roteirista. "Eu não sinto que estou trabalhando. Eu não deveria dizer isso, porque senão eles não vão me pagar [risos]. Eu sou como uma criança que recebe brinquedos de luxo e dizem: 'agora divirta-se'", brinca Fabcaro.
Leia tambémNovo inimigo de Asterix é um filósofo romano inspirado no escritor brasileiro Paulo Coelho
Quadrinhos que falam do presente com roupagem de passadoO sucesso de Astérix, segundo os autores, está na capacidade de preencher um vazio simbólico. “Não temos uma imagem clara da nossa antiguidade. Astérix preenche esse espaço de forma divertida e confortável. É uma origem que dá prazer de lembrar”, reflete Fabcaro.
Além disso, os álbuns funcionam como retratos da época em que são lançados. “Sob o disfarce da antiguidade, falamos de temas contemporâneos. Neste, temos dois gauleses velhos que reclamam da reforma da previdência. São verdadeiros gauleses”, brinca o roteirista.
A viagem à Lusitânia também permite uma crítica bem-humorada ao comportamento dos turistas franceses. “A figura do francês no exterior me fascina. Somos horríveis como turistas. Quis mostrar dois gauleses de férias reclamando de tudo, inclusive porque não se fala francês fora da França”, ironiza Fabcaro.
Obélix, por exemplo, não se adapta à gastronomia local. “Está no país do bacalhau, mas sente falta dos javalis”, ri Conrad.
Leia tambémNova edição de Asterix tem heroína adolescente rebelde que lembra Greta Thunberg
O futuro da sérieApesar do sucesso estrondoso — mais de 400 milhões de álbuns vendidos desde 1959 —, os autores preferem não pensar nisso durante a criação. “Se pensarmos na máquina que é Astérix, ficamos paralisados. Eu entro na minha bolha e sigo”, diz Fabcaro.
Sobre o futuro, ambos mantêm os pés no chão. “É um livro por vez. Nunca sei o que vai acontecer depois”, afirma o roteirista. “Provavelmente será o último, mas podemos continuar”, pondera Conrad.
Enquanto isso, os leitores brasileiros podem se preparar para mais uma aventura dos gauleses, agora com sabor de bacalhau, sotaque lusitano e a garantia de muitas risadas, à la française.
Leia tambémMorre aos 92 anos o quadrinista Uderzo, criador do "Asterix"
Recepção ambivalente em PortugalA chegada de Astérix na Lusitânia ao mercado português, em 23 de outubro, gerou reações contraditórias na imprensa local, como destacou o Courrier International. O jornal Público classificou o álbum como uma “decepção esperada”, acusando-o de transformar os personagens em “fantasias de papelão” e lamentando a ausência de humor e ousadia gráfica. Para o veículo, Astérix teria se tornado mais "uma marca comercial" do que um "herói de aventuras".
Já o Jornal de Notícias adotou um tom mais equilibrado, reconhecendo que o álbum provoca “sentimentos contraditórios” e elogiando os jogos de palavras e referências culturais, como o uso da interjeição “ó pá!”, os provérbios lusitanos e as alusões a figuras como Ronaldo e Amália Rodrigues. Apesar de considerar a história menos provocativa que a anterior (O Lírio Branco, de 2023), o jornal valorizou o esforço de aproximação com o imaginário português.
O Estúdio Rain, de São Paulo, é o único escritório brasileiro convidado a participar do salão Les Nouveaux Ensembliers (os novos designers), evento realizado em Paris para celebrar o centenário da Exposição Internacional de Artes Decorativas de 1925, que consagrou o movimento Art Déco.
Patrícia Moribe, em Paris
O evento, que acontece na histórica tapeçaria Manufacture des Gobelins, é organizado pela recém-criada instituição Manufactures Nationales (manufaturas nacionais), que reúne a cerâmica de Sèvres e o Mobilier National, dedicado à preservação de técnicas tradicionais e do mobiliário histórico do país.
A edição deste ano tem como tema “A Embaixada do Futuro”, com o desafio de repensar os espaços diplomáticos sob a ótica dos designers contemporâneos, utilizando materiais sustentáveis. Uma comissão selecionou dez escritórios – nove franceses e um brasileiro – para repensar cada cômodo de uma embaixada moderna, revisitando o espírito da exposição de 1925, com uma nova tradução contemporânea.
O Estúdio Rain, fundado por Ricardo Innecco e Mariana Ramos, foi selecionado para representar o Brasil por um comitê composto por 19 membros. O estúdio foi encarregado de projetar o hall de entrada da exposição.
Inspirado pelos palácios governamentais de Brasília, cidade natal de Innecco e Ramos, o projeto se distanciou da ideia de recepção fria e impessoal. “O hall foi projetado para que as pessoas se sintam acolhidas, com elementos que as façam refletir enquanto esperam”, explica Ricardo Innecco.
Mamona e ChanelO projeto do Estúdio Rain também destacou a importância do "savoir-faire", a "expertise" artesanal. A pesquisa do estúdio em biomateriais foi essencial para a criação de peças inovadoras, como luminárias e o portal, feitos com biorresina à base de óleo de mamona – um material sustentável desenvolvido ao longo de cinco anos.
O estúdio também fez parceria com o Studio MTX, da Chanel, que criou um painel de "bordado arquitetônico", como explica Innecco, com 12.000 tubos de metal e 7.000 sementes de feijão beiçudo (não comestível), gerando um contraste entre o industrial e o natural. Outras colaborações incluíram a Marchetaria do Acre, que produziu um armário que evoca a história do pau-brasil, e a Móveis Amazônia, que criou poltronas feitas de junco.
Além do hall de entrada projetado pelo escritório brasileiro, a "Embaixada do Amanhã" inclui outros espaços revisitados, como o escritório do embaixador, a sala de jantar, o bar, a cozinha de recepção, o dormitório do presidente e uma área de relaxamento.
O salão busca, com essas múltiplas linguagens e refinamento, equilibrar tradição e modernidade, mostrando que a figura do ensemblier – ou designer, aquele que dá coesão ao conjunto – continua essencial para refletir a cultura francesa e seus valores, acoplando sustentabilidade e "savoir-faire".
O salão dos Novos Designers (Les Nouveaux Ensembliers) segue até 2 de novembro, na Manufacture des Gobelins, no 13° distrito de Paris.
O Balé da Cidade de São Paulo realiza uma turnê na França, com apresentações em cinco cidades. Após lotar o Théâtre de la Ville de Paris, a companhia segue viagem pelo interior francês.
O público da França tem a chance de conhecer a potência técnica e artística do corpo de baile do Theatro Municipal de São Paulo por meio de Fôlego e Boca Abissal, criações de Rafaela Sahyoun. Em Lyon, o repertório se amplia com Requiem SP, de Alejandro Ahmed, que assumiu a direção artística do grupo em julho de 2023.
Antes dessa temporada com o balé paulistano, Ahmed participou da Bienal de Dança de Lyon, de 6 a 28 de setembro, com sua companhia Cena 11. Para o coreógrafo, a França é um espaço que valoriza “a complexidade do pensamento e a abertura para um diálogo honesto e vigoroso”.
“Estamos em um teatro de enorme relevância, com a possibilidade de dar voz e refletir sobre este modo de pensar um Brasil atualizado, questionado e aberto a transformações”, afirmou Ahmed à RFI, em Paris, durante o ensaio no Théâtre de la Ville, antes das apresentações que aconteceram entre os dias 23 e 27 de setembro.
Foi a primeira vez em três décadas que a prestigiada casa parisiense, considerada a meca da dança contemporânea, incluiu uma companhia brasileira em sua programação principal.
“Estarmos aqui, a convite do Théâtre de la Ville, para compartilhar modos de pensamento próprios do Brasil, representa um espaço de diálogo e de troca de saberes extremamente potente”, acrescentou o diretor.
Intensidade e vigorFôlego e Boca Abissal se destacam pela força musical e pela expressividade coreográfica.
Com trilha hipnótica de The Field, projeto do produtor sueco Axel Willner, Fôlego reúne 16 bailarinos em cena.
“Começamos em 2022, ainda sob o impacto da pandemia, diante da cratera que ela deixou no mundo. Naquele momento, me senti desafiada a pensar a dança na urgência do encontro”, recorda Sahyoun.
“Quis criar estruturas cênicas que, mais do que simbólicas, aproximassem os intérpretes pela própria composição. Fôlego fala de apoio, de um estar junto não romantizado, mas nascido da resistência — e talvez mais ainda da insistência. Uma das questões que coloco é: como encontramos nossa força a partir do outro?”, explica.
Atuando entre Brasil e Europa, a coreógrafa também compartilhou suas expectativas para a temporada francesa:
“Espero que possamos ativar as presenças em tempo real, deixar os celulares de lado e nos encontrar — público e cena. Desejo um campo de acontecimento, um encontro em que a própria obra seja praticada no instante da apresentação.”
A turnê integra a programação oficial da Temporada do Brasil na França. Depois de Paris e Arcachon, em setembro, o balé segue para Clermont-Ferrand (2 e 3 de outubro), Annemasse (8 e 9 de outubro) e Lyon, onde se apresenta na Maison de la Danse, de 14 a 18 de outubro.
O museu do Quai Branly, em Paris, abre a exposição "Amazônia: Criações e Futuros Indígenas”, nesta terça-feira (30), com o objetivo de abordar uma nova perspectiva sobre a região amazônica. Fruto de três anos de planejamento, a mostra busca desconstruir a visão tradicionalista e de exotismo da floresta, apresentando-a como um mundo vibrante, contemporâneo e plural, de criação.
Patrícia Moribe, da RFI em Paris
A curadoria da exposição é assinada pelo artista, designer e militante dos direitos dos indígenas brasileiros Denilson Baniwa, do povo Baniwa, da região do Alto Rio Negro, e pelo antropólogo Leandro Varison, diretor-adjunto do Departamento de Pesquisa e Ensino do museu parisiense.
Denilson Baniwa explica que o desejo curatorial foi fugir de uma Amazônia apresentada como "uma representação exótica ou de um espaço inabitável, ou clichê". A estratégia foi dar voz a artistas da Amazônia brasileira, peruana e colombiana, para mostrar uma Amazônia "mais plural e diversa", manifestando-se "a partir de si própria", e não mais a partir de um "ponto de vista ocidental europeu".
Baniwa ressalta que, apesar da diversidade dos povos – alguns isolados, outros na cidade, ou na fronteira entre o urbano e a floresta – eles compartilham reivindicações fundamentais, como "dignidade e respeito" e "o desejo de serem escutadas".
Sem linhas cronológicas ou delimitações geográficas convencionais, o visitante é convidado a passear entre espaços temáticos - abordando tradições, culturas, línguas e gestos artísticos -, nos quais objetos das coleções do museu dialogam com peças contemporâneas.
De objetos de observação a protagonistasA escolha do termo "criações" no título é central para a proposta da exposição. Para Varison, era fundamental mostrar que a região não é "apenas uma terra de tradição", mas um espaço onde os povos estão ativamente "criando mundos, relações e biodiversidade". Ele destaca a colaboração com coletivos e artistas indígenas, como o Instituto Cultural Maluá, do povo Inacarajá, que demonstra como esse patrimônio "continua sendo produzido e sendo transmitido para as próximas gerações".
O antropólogo enfatiza ainda a importância de promover as coleções nacionais. "O Brasil valoriza muito pouco as coleções indígenas", lamenta. Ele destaca a parceria crucial com o museu de Arqueologia e de Etnologia da USP para a concepção da exposição. Ele cita ainda instituições que merecem maior apreço, como o Museu Goeldi, em Belém, o Museu dos Povos Indígenas (antigo Museu do Índio), em Brasília, e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Valorizar coleções nacionaisLeandro Varison instiga o público brasileiro a priorizar esses espaços culturais, afirmando que os museus e coleções nacionais "valem a pena ser visitados", com uma mensagem dirigida especialmente a um público que "às vezes está mais interessado em conhecer o museu do Louvre do que conhecer a sua própria cultura".
No contexto brasileiro, Denilson Baniwa reforça a necessidade de o país entender que a Amazônia "faz parte do Brasil, não como um lugar isolado ou num lugar que precisa ser protegido de fora para dentro". Ele conclui que é necessário "aproximar o sudeste do norte, o nordeste do norte, para pensar o nosso Estado brasileiro e a sociedade brasileira, porque uma interdepende da outra".
“Amazônia, criações e futuros indígenas” faz parte da Temporada Cruzada França Brasil 2025 e fica em cartaz até 18 de janeiro de 2026, no museu do Quai Branly, acompanhada por uma vasta programação de encontros, espetáculos e concertos.
A 34ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz termina nesta sexta-feira (26) com a reprise dos filmes vencedores deste ano. A cerimônia de premiação aconteceu na noite de quinta-feira (25), no sudoeste da França. O Brasil recebeu um prêmio especial do júri para o longa-metragem de ficção "A Melhor Mãe do Mundo" e o prêmio Perspectiva Queer, na categoria curta-metragem, para "Presépio".
Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz
A cerimônia de encerramento, que acontece esta noite, contará com a exibição do longa-metragem "La Ola", do diretor Sebastián Lelio — um musical que retrata a onda de protestos no Chile em 2018.
Durante uma semana, foram exibidos 71 filmes, de 26 países, distribuídos em três categorias: longa-metragem, documentário e curta-metragem.
"A Melhor Mãe do Mundo", da diretora paulista Anna Muylaert, recebeu o prêmio “Coup de cœur" do júri, uma distinção especial concedida ao longa-metragem que mais emocionou os jurados.
Este é o 20° prêmio do filme, lançado no Brasil em agosto deste ano, estrelado por Shirley Cruz e Seu Jorge. O longa conta a trajetória de uma catadora de lixo que foge com os filhos pequenos pelas ruas de São Paulo para escapar de um marido abusivo.
Na categoria curta-metragem, "Presépio", do diretor Felipe Bibian, recebeu o Prêmio Perspectiva Queer. "Fico muito feliz, é o reconhecimento da trajetória do curta até aqui e valoriza as discussões que o filme traz, como a democracia e os conflitos geracionais", disse o cineasta em entrevista à RFI. "É um filme muito brasileiro, mas que conseguiu se comunicar com o público estrangeiro", acrescentou.
"Presépio", que vai estrear no Brasil no Festival do Rio, em outubro, conta a história de uma família carioca reunida na noite de Natal. "Ao longo da noite, a gente descobre, pelas descrições rápidas do amigo oculto, um pouco da intimidade desses personagens, dessa família", diz o diretor. "E a noite se transforma quando a criança da família recebe um brinquedo aparentemente banal, uma arminha de plástico de atirar água, o que transforma aquele quintal da família num coliseu", acrescenta. "Cada um tendo um lugar nessa zona de conflito, uma opinião diferente, baseada nas suas trajetórias até ali", descreve Bibian.
Um dos personagens foi um resistente da ditadura militar, o que, segundo o diretor, "toca ele profundamente em alguns lugares que para outros parecem uma banalidade, uma arminha de plástico, mas isso começa a escalar a discussão".
Felipe Bibian diz que decidiu abordar o tema do armamento como um alerta. "Hoje em dia, com esses governos autoritários ressurgindo com tanta força em diferentes países do mundo, cada um da sua maneira, é importante pensarmos sobre isso", avalia. "É um tipo de cinema que eu admiro, que eu busco fazer: tratar de questões íntimas e familiares e, com isso, consegui abordar o político e o universal", finaliza.
Outros filmes brasileiros em BiarritzA diretora brasileira Flavia Castro levou para as telas suas memórias de infância. Em 1973, ainda criança e logo após o golpe militar de Augusto Pinochet no Chile, ela viveu exilada na embaixada da Argentina, enquanto centenas de ativistas de esquerda latino-americanos aguardavam vistos para deixar o país.
O longa-metragem “As Vitrines” fez sua estreia mundial em Biarritz, onde a RFI conversou com a cineasta.
"Eu acho que é uma forma de compartilhar uma história muito pouco conhecida, que é a das crianças no exílio, das crianças que acompanharam os seus pais", diz. "Tem a ver com a minha história, porque eu de fato fiquei três meses na embaixada da Argentina no Chile, logo depois do golpe. Mas eu acho que, antes de mais nada, é um filme que se inscreve no presente", continua. "É mais uma pecinha para a gente seguir contando essa história coletiva", completa.
A trama é apresentada pelo olhar de duas crianças: Pedro e Ana, os protagonistas infantis. A diretora explica a importância de contar essa história, ocorrida há mais de 50 anos. "Eu acho que é fundamental num país como o Brasil, em que a gente não processou os responsáveis por isso", diz Flavia Castro. "Eu acho que é muito importante a gente seguir fazendo esse trabalho de memória. E o cinema tem feito isso de uma forma maravilhosa nos últimos anos no Brasil", conclui.
Na categoria documentário, o Brasil esteve representado por "Copan", uma coprodução com a França, que mostra o dia a dia no edifício que é um símbolo da cidade de São Paulo e da arquitetura moderna brasileira.
"O Copan, com seus 5.000 moradores, funciona como um recorte de Brasil muito complexo, principalmente por suas questões políticas", explica a diretora Carine Wallauer. "O filme serve como uma possibilidade para que a gente discuta a sociedade como um todo", diz.
Ela conta como foi a negociação para as filmagens na casa dos moradores. "Eu também fui moradora do Copan por sete anos. Então, eu já tinha relações estabelecidas com funcionários e com moradores do prédio, por conta da convivência", afirma. "Então foi um processo bastante natural e por isso o documentário tem um tom tão íntimo e tão próximo", relata.
O curta-metragem "Samba Infinito", de Leonardo Martinelli, levou a Biarritz a emoção do Carnaval carioca, com uma participação especial de Gilberto Gil no elenco.
O Festival Visa pour l'Image, realizado anualmente em Perpignan, no sul da França, é um dos mais prestigiados eventos de fotojornalismo do mundo. A mostra, que termina neste domingo (14), funciona como um termômetro dos rumos globais ao apresentar os principais acontecimentos do ano, além de retrospectivas e homenagens. No entanto, apesar do crescimento constante da presença feminina na profissão, a visibilidade das mulheres no festival ainda é historicamente limitada, refletindo uma persistente disparidade de gênero no campo.
Patrícia Moribe, enviada especial a Perpignan
Pioneiras como Gerda Taro e Lee Miller já evidenciavam, desde o século passado, o poder da lente feminina na documentação de conflitos como a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Suas imagens revelaram o sofrimento civil e a brutalidade humana com uma sensibilidade singular.
Embora muitas mulheres atuem no fotojornalismo, a representatividade nos grandes palcos ainda é desigual. Dos treze prêmios concedidos pelo Visa pour l'Image este ano, apenas um foi destinado a uma fotógrafa. O festival, contudo, tem buscado ampliar essa presença por meio de bolsas e prêmios específicos para mulheres.
Não há um levantamento global e atualizado sobre a atuação feminina no fotojornalismo, mas dados de organizações como a Freedom of the Press Foundation indicam que a participação das mulheres tem crescido lentamente, porém de forma consistente, nas últimas décadas.
Segundo um relatório de 2019 da Women Photograph — organização internacional dedicada a aumentar a representação feminina na fotografia jornalística — apenas 15% a 20% dos fotógrafos profissionais eram mulheres. Atualmente, estima-se que elas representem cerca de 22% dos profissionais da área, número ainda distante da paridade.
Apesar dos desafios, ser mulher no fotojornalismo pode oferecer vantagens únicas. Carolyn van Houten, do jornal The Washington Post, observa que mulheres são frequentemente subestimadas, o que pode facilitar o acesso a informações sensíveis. Ela relata, por exemplo, que conseguiu entrar em áreas do Afeganistão e conversar com mulheres que seus colegas homens jamais teriam acesso.
"Olhar feminino é importante"“Em campo, é uma vantagem porque nos permite ter acesso ao mundo das mulheres, especialmente em regiões onde há muita violência sexual”, diz Paloma Laudet, que apresentou em Perpignan uma série sobre a República Democrática do Congo. “No mundo do fotojornalismo, especialmente em zonas de conflito, há mulheres fotógrafas, mas proporcionalmente ainda há mais homens nessas regiões. O nosso olhar — o da mulher — é importante, mas infelizmente o olhar dos homens ainda tem mais destaque.”
Juliette Pavy teve seu trabalho sobre a Groenlândia exibido nas projeções noturnas do festival. Ela também destaca a vantagem de ser mulher em suas reportagens. “Durante três anos, investiguei a prática de esterilização forçada de mulheres na Groenlândia. Inevitavelmente, ser mulher faz com que esse assunto me toque profundamente. Sinto que isso cria uma conexão mais sensível com as vítimas, que acabam confiando em mim com mais facilidade para compartilhar seus testemunhos sobre esse tipo de violência.”
Apesar dos avanços, o fotojornalismo ainda é descrito como um “mundo muito machista” pela veterana Ana Carolina Fernandes, que iniciou sua carreira aos 19 anos no jornal O Globo e foi a única mulher entre 30 fotógrafos no Jornal do Brasil. Embora tenha recebido apoio de colegas, ela relembra que a chefia deixava claro que, se dependesse deles, ela não estaria ali. Coberturas de futebol e de hard news continuam sendo majoritariamente masculinas, e Ana Carolina relata que ainda é raro ver mulheres atuando como fotojornalistas em eventos como a Copa do Mundo.
From the publisher's feed
Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de…

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

1 Listeners

1 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

1 Listeners

0 Listeners