Reportagem

Timor Leste 50 anos após declaração de independência e invasão indonésia


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Timor Leste acaba de assinalar 50 anos da invasão indonésia, a 7 de Dezembro, um acontecimento ocorrido logo a seguir à proclamação da independência a 28 de Novembro de 1975, após séculos de presença portuguesa.

Juliette Chaignon deslocou-se a Timor Leste e falou com dirigentes que protagonizaram a luta de um povo independente apenas desde 2002.

A reportagem de Juliette Chaignon leva-nos ao contacto de Carlos da Silva Lopes, resistente e fundador da Renetil, Resistência nacional dos estudantes de Timor Leste.

Este foi formado na Indonésia e tentou alertar o mundo para a repressão do seu povo às mãos do exército de Jacarta.

Ao microfone da enviada da RFI ele admite que também Portugal, antes da Indonésia, deixou um pesado legado em termos de repressão contra os timorenses sem nunca ter pedido desculpas a Timor Leste.

 

Eu, pessoalmente, tenho uma memória muito negativa de colonização portuguesa em Timor. Muitos dos meus familiares foram mortos na revolta de 1959. E muitos foram deportados para Angola e Moçambique. Alguns foram deportados para a ilha de Ataúro. Até agora, Portugal também não pediu desculpa ao povo de Timor.

Também o deveria fazer porque cometeram também alguns crimes aqui em Timor durante 450 anos. Muitos foram mortos, muitos foram presos, deportados, fuzilados, massacrados. Também houve isso, mas muitas pessoas se calhar não sofreram isso. Por isso é que não sentiram.

Claro que agora nós temos muita boa relação com Portugal e durante os 24 anos da ocupação indonésia também Portugal também fez muita coisa para libertar Timor. Se compararmos Portugal com a Espanha em relação ao caso de Sahara Ocidental, Portugal faz bem. Faz melhor do que a Espanha ao povo sarauí, o povo do Sahara Ocidental. Portanto, eu tenho as minhas críticas ao passado de Portugal, mas também aprecio, tenho uma grande apreciação ao povo português, ao Governo português que também apoiou muito a luta de libertação de Timor-Leste.

 

Qual a dependência económica de Timor Leste, precisamente, em relação à antiga potência colonial e ao ex ocupante, respectivamente Portugal e Indonésia ?

Carlos da Silva alega que muitos dos produtos que abastecem o mercado local vêm da vizinha Indonésia.

Eu não sei até que ponto é Timor economicamente dependente de Portugal e da Indonésia. O que sei é que nós estamos dependentes das nossas receitas do petróleo, que nós estamos a sustentar o nosso desenvolvimento. Mas Indonésia, como é o nosso país vizinho, com certeza que em termos económicos há muitos produtos que vieram da Indonésia e aí nós temos que reconhecer que, economicamente, principalmente em relação às produções das necessidades básicas, muitos vieram da Indonésia.

Este fundador da Renetil afirma que Timor Leste mantém hoje relações estreitas com os demais países lusófonos à luz do apoio dado à resistência timorense durante a ocupação indonésia.

Timor tem uma relação muito boa com os membros dos países de língua oficial portuguesa, principalmente os membros da CPLP [Comunidade dos países de língua portuguesa], como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Brasil. E nós temos essa boa relação com os membros dos PALOPs, Países africanos de língua oficial portuguesa. Isso já construímos esta boa relação desde o tempo da resistência até agora. Porque esses países, enquanto outros países estavam ao lado dos indonésios, esses povos irmãos dos PALOPs estavam ao lado dos timorenses e a defender Timor-Leste nas Nações Unidas e nos fóruns internacionais. Portanto, com esses povos irmãos, nós temos uma relação muito boa. Alguns timorenses foram enviados a estudar em Cabo Verde. Isso é muito bom, porque Cabo Verde... Digamos que é um governo democrático tem uma gestão de administração que é muito transparente. Então também é bom para os timorenses estudar lá, aprender lá para trazer algumas coisas boas de lá, para implementar cá em Timor.

Neste xadrez geopolítico qual seria o domínio da língua portuguesa, nomeadamente após todos os anos do regime indonésio ?

Carlos da Silva admite haver fragilidades quanto ao respectivo domínio e também algumas resistências.

Não é uma língua fácil, é uma língua muito complexa. Os timorenses têm a capacidade de aprender muitas línguas, porque em Timor Leste também existia mais de 30 dialetos. Mas cada pessoa tem a capacidade de falar ou de entender, mas três, quatro, cinco dialetos daqui.

Além disso, eles também podem falar... Alguns falam português, inglês, espanhol, francês, português. Portanto, há muitos que falam uma língua estrangeira. Mas se falam bem, se calhar não são muitas pessoas, mas há muitos que entendem entendem bem a língua portuguesa.

Houve alguma resistência aqui em Timor, principalmente os mais jovens que nunca passaram pelas escolas portuguesas ou aprenderam mais a língua indonésia do que o português. Então esses praticamente não falavam português. Esses têm grande dificuldade e esse sector é que às vezes resiste à língua portuguesa.

Porque a língua é para facilitar a interacção entre as pessoas é mesmo para facilitar. Como é que uma pessoa pode obter um emprego? Portanto, a língua não pode dificultar as pessoas. Mas quem a tem? Alguns pensam que a adopção do português dificulta a vida deles porque eles não falam português.

Por isso é que nós sempre apelamos ao governo português para investir mais aqui em Timor. Em relação à educação na aprendizagem da língua. Investimentos para formação dos professores, mesmo para os mais jovens, a partir do jardim infantil. Ensinos básicos ou secundários ou pré secundários. Isso é muito importante. Se investimos pouco depois a exigir muito para os timorenses para dominar essa língua, também não é justo, porque para exigir também precisamos de criar condições para eles poderem aprender. Se não há condições para eles poderem aprender como é que nós esperamos de um bom resultado ?

 

Por seu lado Mari Alkatiri, secretário geral da FRETILIN, Frente revolucionária para a independência de Timor Leste, emblemático movimento de emancipação, actualmente na oposição, admite as dificuldades com que se debate a língua portuguesa no seu país e denuncia o que considera de erros nesta trajectória.

A língua portuguesa em Timor-Leste está a passar por fases difíceis. Mas para quem vê como eu que estive que teve 24 anos fora do país como eu, quando cheguei cá, a língua portuguesa praticamente só os mais idosos e pessoas da minha geração é que falavam e entendiam. E eram poucas. Eram poucas pessoas.

E o tétum, mesmo tétum praça, era uma mistura com a língua indonésia. Agora já não. Agora já se vê que o tétum praça tem mais língua portuguesa, tem mais mistura. E os jovens se se falar português pausadamente. já entendem mais agora do que antes. Já entendem mais.

Tem que se saber que não é a primeira língua deles. Tem que saber como se fala para eles em português. Mas já entendem. Infelizmente, não houve muito investimento no português. Houve um erro estratégico muito grande quando se optou por literacia e numeração em língua materna. Quando qualquer educação de carácter nacional tem que se preocupar com a continuidade deste problema, não é só literacia, enumeração. Problema é a capacidade de raciocinar numa língua, numa língua já desenvolvida, para poder algum dia dominar a ciência e a técnica. Isso não aconteceu por erro de políticas sucessivas de privilegiar literacia e não merecia e não privilegiar capacidade de raciocínio mais global.

Figura emblemática da resistência, a nível diplomático, que viria a ser galardoada com o Prémio Nobel da paz e, depois, a ascender aos mais altos cargos políticos do novo país Ramos Horta continua, neste momento, na presidência da república.

Acerca do sofrimento ao longo da luta pela independência de Timor Leste José Ramos Horta estima não ser necessário um tribunal internacional para garantir a reconciliação com a Indonésia, antigo ocupante do território, durante praticamente um quarto de século.

A reconciliação vem do coração, não vem de discursos políticos, não vem de processos de tribunal internacional. Como? Porque os tribunais internacionais só são impostos pelos países vencedores. A Alemanha derrotada... criou-se um tribunal, o Tribunal de Nuremberga. O Japão derrotado, criou-se o Tribunal de Tóquio. O mesmo aconteceu nos Balcãs. O tribunal da ex-Jugoslávia. Para o Ruanda o Tribunal de Arusha para o Ruanda. Nós decidimos: Não. Não haverá tribunais internacionais especiais. Vamos... Não esquecemos. Porque uma coisa é perdoar internamente, intimamente, outra é esquecer. Não, não vamos esquecer as nossas mães, os nossos pais, irmãos mortos. Vamos sempre amá-los, guardar nos corações, honrá-los porque o que eles mais querem é, lá onde eles estão no céu, é ver Timor em paz, sem ódio.

Instantâneos das reportagens em Timor Leste de Juliette Chaignon, um país que acaba de assinalar 50 anos da proclamação da sua independência e subsequente meio século também da invasão indonésia.

Este país nos confins da Asia e da Oceania é um dos mais jovens do mundo, tendo-se tornado independente apenas em 2002.

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