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Artes episodes

  • Cantora guineense Eneida Marta lança música sobre Rainha dos Bijagós

    Eneida Marta é conhecida pelo seu estilo peculiar que busca casar nas suas músicas a modernidade com a ancestralidade dos povos guineenses. Dona de uma das mais belas vozes da música moderna guineense, Eneida Marta traz sempre nos seus trabalhos alguma reflexão sobre a difícil situação da maioria das crianças guineenses sem nunca descurar a canseira enfrentada pela mulher.

    Como a própria diz, na história moderna da Guiné-Bissau, há e houve sempre grandes mulheres que não podem ser esquecidas. Uma dessas mulheres é a Okinka Pampa, aquela que foi a única mulher a ser coroada rainha de um dos povos da Guiné-Bissau, o povo Bijagó, das ilhas do mesmo nome.

    "Okinka foi a rainha dos Bijagós. A rainha Okinka Pampa, como muitos sabem, sucedeu ao seu pai e foi encarregue de proteger os ancestrais da ilha e ser a guardiã das suas tradições. Numa época em que o colono português se preparava para ocupar o arquipélago dos Bijagós, como parte das suas reivindicações territoriais na África", começa por recordar Eneida Marta.

    O reinado de Okinka Pampa ocorre entre 1910 e 1930, sucedendo ao pai, entretanto, falecido, mas foi tempo suficiente para enfrentar o colonialismo português, acabar com a escravatura nas ilhas Bijagós, pacificar aquele território, que estava devastado por guerras fratricidas e ainda fundar direitos da mulher que vigoram até os dias de hoje.

    Entre o povo Bijagó, caso único na sociedade guineense, a mulher é quem escolhe o homem com quem casar e se um dia não gostar mais desse casamento, simplesmente despede o marido.

    Eneida Marta explica que sempre quis homenagear os feitos de Okinka Pampa e através dela, todas as mulheres guineenses. Praticamente desde que começou a cantar de forma profissional nos finais dos anos 1990, que tinha em mente contar a história de Okinka Pampa, através da música.

    "O tema ou a música, como se preferir, de Okinka Pampa, foi criada sensivelmente há quase um ano em Londres e então, desde aí deu-se o trabalho. Começou-se o trabalho desde da fase embrionária que começou em Londres e depois foi toda essa gravação ao longo dos meses e culminou com a filmagem do videoclipe, que foi em Dezembro de 2023. Esse projeto, no fundo, está a ser preparado há sensivelmente quase um ano," esclarece a cantora.

    Agora que o projecto saiu da imaginação, Eneida Marta espera que a música e o videoclipe sejam apreciados nos quatro cantos do mundo. "Naturalmente, com essa bela homenagem feita a essa nossa rainha que foi tão importante para a Guiné-Bissau como para a África, é claro que eu quero atingir o mundo", diz.

    Eneida Marta acredita ter trabalhado com os melhores realizadores de videoclipes no mercado português, daí o resultado que surpreendeu a própria. A ideia foi oferecer algo cinematográfico a quem assiste à música Okinka através do vídeo.

    "O objectivo de fazermos um vídeo quase cinematográfico é propositado, claro. A ambição é muito grande em dar a conhecer a nossa Okinka Pampa. Não passa daquilo que eu disse. O objectivo deste trabalho é atingir o mundo e dar a conhecer Okinka Pampa. Trabalhei com um dos melhores em Portugal, que é o Wilson, que é o videógrafo com quem trabalhei e o Índio Nunes também na produção do vídeo. É claro que tem que chegar ao mundo. A história de Okinka Pampa realmente é e merece ser um filme", considera a artista.

    A história de Okinka Pampa é tão valiosa quanto desconhecida até entre os próprios guineenses. Eneida Marta entende que se devia aproveitar o mote lançado pela sua música de homenagem à rainha do povo Bijagó para contá-la através de um filme. "É claro que o historiador Quinca Pampa daria um grande filme, digno de prémios. Disso não tenho a mais pequena dúvida", conclui Eneida Marta, cuja nova música pode ser encontrada nas várias plataformas das redes sociais.

    11 min
  • À descoberta de Ashley Fortes no metro de Paris

    No último ano, a voz de Ashley Fortes tem ecoado em diferentes estações do metro de Paris, o “maior palco” da capital francesa, onde milhares de pessoas passam diariamente. Fomos conhecer a cantora com origens cabo-verdianas, que homenageia Cesária Évora e que conquistou a etiqueta “Musicien du Métro”.

    Estamos no “maior palco” de Paris, aquele por onde passam milhares de pessoas todos os dias. É nesta azáfama dos corredores do metro que ecoa a famosa “saudade” da “diva dos pés descalços”, cantada por uma jovem francesa, de 33 anos, com raízes cabo-verdianas.

    Ashley Fortes começou a cantar no metro de Paris há cerca de um ano e faz parte do grupo de 300 músicos (seleccionados entre cerca de 1.000) que conquistaram a etiqueta de “Musicien du Métro”. Uma vitrina internacional que também permite ganhar a vida e complementar o seu trabalho de professora de canto.

    “Eu adoro cantar no metro. Ontem, uma mulher parou e ficou uma hora a ouvir-me e disse-me ‘Você foi o meu sol neste dia’. Ver estas pessoas faz com que eu saiba porque canto. O metro é uma maneira de atingir muitas pessoas e eu adoro”, conta à RFI na estação de Saint-Lazare, durante a última semana dos Jogos Olímpicos de Paris.

    Os corredores do metro de Paris foram também os primeiros palcos do músico americano Ben Harper ou do cantor nigeriano Keziah Jones. Ashley Fortes sabe disso e espera que novas oportunidades nasçam desta aventura.

    Eu adoro porque tem gente de todo o mundo que passa. É outra dimensão. Eu canto para todo o mundo!

     Ashley Fortes participou, em 2017, no programa televisivo em França “Nouvelle Star” e chegou à meia-final. Actualmente, está a preparar o seu primeiro EP e, em Junho, lançou o mais recente single intitulado “A Toutes les Femmes”.  

    Descubra a história de Ashley Fortes, as suas origens, as suas inspirações e os seus projectos neste programa ARTES de 14 de Agosto de 2024.

    11 min
  • Reforçar a identidade africana com "Os Bantu na visão da Mafrano"

    "Os Bantu na visão de Mafrano" é uma colecção que reúne os textos que Maurício Francisco Caetano, Mafrano, dedicou à Antropologia Cultural Bantu.

    A publicação da obra vem colmatar lacunas e recuperar património essencial para o melhor conhecimento da história, cultura e tradições dos povos Bantu.

    A riqueza da herança deixada por Mafrano, que é de particular interesse para os investigadores de áreas como a Antropologia, as Ciências Humanas ou a História, tem também o seu papel como pilar na construção da identidade africana.

    Grande parte destes textos, agora reunidos numa colecção editada em Portugal pela Perfil Criativo, foram publicados ao longo de décadas em diferentes jornais e publicações de Angola no tempo colonial, outros encontravam-se nas mãos de amigos e familiares.

    Durante mais de uma década, o jornalista e escritor angolano José Soares Caetano, filho de Mafrano, e restante família garimparam todos os locais onde suspeitavam que poderiam encontrar textos de Mafrano. Agora, publicados dois dos três volumes da colecção, está reforçada a afirmação da ancestralidade africana e da sua História.

    Link editora: https://shop.autores.club/pt/

    10 min
  • Toumani Diabaté, “um ícone e uma lenda”

    Toumani Diabaté é um dos mais reconhecidos intérpretes contemporâneos da kora, considerado por muitos como o “rei da kora”, um instrumento de 21 cordas, típico da África ocidental e da cultura mandinga. Toumani Diabaté morreu, na sexta-feira, aos 58 anos, mas deixa uma herança intemporal que alia tradições ancestrais e modernidade. Para o músico guineense Nino Galissa, Toumani Diabaté é “um ícone e uma lenda”.

    Toumani Diabaté nasceu em 1965 numa família de contadores de histórias e de músicos e começou a tocar ainda em criança. O pai era Sidiki Diabaté, um dos intérpretes no primeiro álbum de kora gravado, o “Cordes Anciennes”, de 1970. Inspirado pelo ambiente onde cresceu e pelo instrumento de vários séculos, Toumani Diabaté tornou-se num embaixador da música africana e tocou com imensos músicos, desde outro virtuoso da kora, o maliano Ballaké Sissoko, e o cantor e guitarrista também maliano Ali Farka Touré. Também se interessou por outras sonoridades, incluindo o flamenco, o jazz, o blues, a pop e tocou com a islandesa Björk, o norte-americano Roswell Rudd, o brasileiro Arnaldo Antunes, o britânico Damon Albarn, o francês M, entre muitos outros. No meio da world music, é enaltecido pelo disco “In the Heart of the Moon”, gravado em duo com o guitarrista maliano Ali Farka Touré, e “Boulevard de l’Indépendance”, à frente da sua Symmetric Orchestra.

    Neste programa, falámos com o músico guineense Nino Galissa sobre Toumani Diabaté. Para o também tocador de kora, que está a criar uma escola para ensinar este instrumento na Guiné-Bissau, Toumani Diabaté é “um ícone e uma lenda” que conseguia transmitir plenamente “o mistério” da kora.

    12 min
  • Terminal (O Estado do Mundo) de Inês Barahona e Miguel Fragata em Avignon

    Terminal (O Estado do Mundo) de Inês Barahona e Miguel Fragata é o segundo espectáculo de um díptico que aborda a crise climática. A criação mostra-nos uma “grande crise” que assenta em “desigualdades” e “escolhas políticas e económicas”, num lugar de onde “não há saídas”. A peça pode ser vista até ao próximo domingo, 21 de Julho, no Festival de Avignon. 

    Terminal (O Estado do Mundo) de Inês Barahona e Miguel Fragata é o segundo espectáculo de um díptico que aborda a crise climática. A criação mostra-nos uma “grande crise” que assenta em “desigualdades” e “escolhas políticas e económicas”, num lugar de onde “não há saídas”.

    “Terminal (O Estado do Mundo)” é precisamente este espaço de tensão entre, por um lado, a aceitação e a resignação e, por outro, o desejo de “mudar o mundo”, rumo a uma saída.

    Miguel Fragata: Quando nos decidimos lançar nesta aventura de criar, de pensar teatralmente sobre a crise climática, ficou logo muito claro que nos interessava esta dimensão do díptico. Ou seja, por um lado, de pensar como é que se podia falar sobre esta questão tão avassaladora com as crianças e pensá-lo numa escala que fosse mais reduzida, mais intimista, que pusesse também em cena - e essa era a premissa para o primeiro espectáculo - grandes catástrofes naturais numa pequena escala. O espectáculo joga muito nessa dimensão de manipulação de miniaturas, no sentido de criar grandes catástrofes.

    Depois, criar um segundo espectáculo que fosse para o público adulto e que tivesse uma outra escala e que pudesse abordar a crise climática de uma outra forma.

    Para o espectáculo “O Estado do Mundo (Quando acordas)” foi muito importante fazermos uma pesquisa em torno de estudos científicos, de uma dimensão objectiva da crise climática, também no sentido de criar um chão comum e democrático para todos. Uma necessidade de que todas as crianças e adultos possam ter domínio sobre o assunto para depois poder falar sobre ele. Esse primeiro espectáculo passa muito por essa premissa.

    Para o “Terminal (O Estado do Mundo)” interessava-nos muito escutar aquilo que as pessoas no território tinham a dizer sobre a crise climática. Então, ao longo de todo o ano de 2023, nós levamos a cabo uma longa pesquisa em que lançámos muitas propostas diferentes, que envolveram também outros artistas, outros pensadores, outras pessoas de várias áreas do conhecimento, para auscultar os públicos de maneiras muito, muito diversas. Ao longo do ano, íamos fazendo estações, de uma semana em cada local, em que levávamos a cabo uma série de actividades, desde teatro que acontecia sem aviso prévio em lugares não convencionais, em que auscultávamos as pessoas de uma forma directa, interpelando-as. Tínhamos ocupações de rádios locais, bibliotecas itinerantes. Tínhamos a construção de dois documentários que exibimos agora também aqui, no âmbito do Festival de Avignon, no Cinema Utopia, e que são os dois resultados diferentes desse trabalho. 

    Um deles [“Regresso ao Futuro”] tem a ver com a relação de pessoas com lugares e relações emocionais com lugares que se alteram drasticamente ao longo da passagem do tempo, da passagem climática pelos lugares. O outro, os “Improváveis de costas voltadas” é um trabalho em que púnhamos pessoas improváveis de terem uma conversa em conjunto em diálogo. Todo esse trabalho alimentou o pensamento para a construção deste espectáculo.

    A partir disso tudo, foram 27 localidades por onde passámos entre Portugal e França, reunimos todo esse material e começámos a pensar sobre ele e a construir este espectáculo, sabendo que nos interessava distanciar-nos também desse material. Ou seja, ele está de uma forma muito indirecta, muito imprecisa, através da escolha destas quatro personagens que habitam este lugar, com perspectivas muito diferentes sobre aquilo que é a realidade da crise climática. E é um pouco a partir daí o espectáculo nasce, a partir dessa experiência, a partir da relação com a pesquisa e a partir deste olhar muito mais filosófico, existencialista da questão que nasce este Terminal. 

    Isto é muito mais do que a crise climática, é a crise económica, a crise política e a crise social. Acaba por ser o mundo retratado numa peça de teatro. 

    Inês Barahona: Sim, porque, tal como a natureza nos ensina, tudo está ligado a tudo. Na verdade, a crise climática não é uma crise por si. Há até quem diga que não se deve dizer crise climática, é uma crise ‘tout court’. 

    Uma grande crise que assenta em grandes desigualdades, que assenta em escolhas políticas e económicas e que, para nós, à distância também tem a ver com uma certa crise da imaginação. Isso era uma coisa que nós queríamos pôr em cena. Ou seja, essa ideia de que estamos num lugar de onde nos dizem que nós não podemos sair, porque não há saídas. 

    Tudo o que se põe em cima da mesa é olhado com muita desconfiança e as pessoas deixaram de ter essa prática de se juntarem para, no fundo, fazer uma coisa que é pensar utopias, desafiar-se para o futuro, pensar em conjunto. Isso faz com que quando nos dizem não, não há saída ou isto é muito complicado e, portanto, nem vale a pena perderem tempo a pensar nisso, nós nos limitemos a um lugar de aceitação. 

    É, no fundo, essa tensão entre o desejo de fazer alguma coisa e a mensagem constante de que não é possível imaginar nada de novo, que estamos presos a isto para sempre, que não há alternativa nenhuma e que tudo vai acabar, não vai ser uma visão muito boa. Era essa confrontação e essa conformação das pessoas que nós queríamos de alguma forma trazer para a cena. 

    Ao mesmo tempo pensar como é que nós, artistas ligados ao teatro, podemos contribuir para pensar sobre isto. Nós não temos receitas. O teatro não pode salvar o mundo, mesmo que nós acreditemos um bocadinho nisso...

    Pode ajudar a mudar comportamentos.

    Exacto. E pode, sobretudo promover esse exercício de imaginação, de estar em conjunto, de escuta, de discussão, mesmo de encontro e desencontro com cada uma destas personagens, das coisas que elas dizem, dos sonhos que elas têm, daquilo que elas projectam e daquilo de que têm saudades. Tudo isso é um trabalho emocional e galvanizador que o teatro pode produzir.

    Nós precisamos disso, porque só com as pessoas altamente inspiradas e galvanizadas é que é possível, de facto, começar a imaginar e rebentar os limites da impossibilidade - não se pode fazer nada, não há alternativa - para se poder realmente inventar uma utopia, um futuro, um lugar, um outro lugar. 

    “Terminal” é o fim, mas não só. Aqui também há uma esperança de que pode haver uma outra via?

    Miguel Fragata: Sim, no fundo, “Terminal” também é o princípio de qualquer coisa e pode ser o princípio de qualquer coisa. Tal como esta crise ou estas várias crises que vivemos hoje no mundo podem ser o princípio de outras coisas, assim, nós nos permitamos a olhar para isso dessa maneira.

    Se calhar o sistema capitalista não faz parte da natureza como nós estamos habituados a pensar, que não há outras possibilidades, não há outros caminhos. E nessa medida, às vezes, é mesmo preciso depararmo-nos com uma ideia de precipício para podermos olhar para outras possibilidades, para pontes que se podem construir em direcções que nós não imaginávamos. 

    É um bocadinho o desafio deste lugar, lançado também o próprio teatro nessa senda: ressignificar, repensar os sentidos e daí também esta escolha de um espectáculo que, no fundo, viva da palavra e viva de uma relação directa e do relembrar da necessidade de estabelecermos relações directas como uma chave não para salvar, mas se calhar como um caminho possível para nos reencontrarmos na nossa relação com as coisas. Nessa medida, "Terminal" também é o princípio de qualquer coisa. 

    A música tem aqui um papel fundamental. Além disso, tem a Manuela Azevedo, que também assume aqui um papel de narradora da própria história. 

    Miguel Fragata: Nós temos uma relação já longa, eu diria, com a Manuela [Azevedo] e com o Hélder [Gonçalves], com estes dois elementos dos Clã. Nasceu já com um outro projecto que lançámos em 2018, que continua a circular, a “Montanha-Russa”, que na altura nasceu de um desejo de fazermos um espectáculo que pudesse pensar sobre a adolescência e sobre as temperaturas várias do que é ser adolescente. 

    A escolha dos dois teve a ver, na verdade, com a minha própria adolescência, porque era uma banda muito importante quando eu era adolescente e, portanto, esse convite pareceu muito evidente nessa altura. Foi uma relação muito boa, muito especial, que se estabeleceu a partir daí. Na verdade, todos os nossos espectáculos que se seguiram tiveram música composta pelo Hélder [Gonçalves].

    Aqui, [neste espectáculo “Terminal (O Estado do Mundo)”] interessava-nos muito também lançar esta ideia de outras linguagens. Claro, a palavra teria que ser fundamental e essencial para compor esta peça. Estamos a fazer teatro e é o teatro da palavra aquilo que nós sabemos fazer. Mas, ao mesmo tempo, interessava-nos muito este diálogo com a música, pensando que a música também pode trazer uma outra ideia de princípio. Uma ideia de emoção que pode surgir através da música, uma ideia mais sensorial, mais intuitiva. 

    Quando pensamos sobre estas questões ligadas à crise climática, estamos também a ter que trazer essa dimensão que muito esquecemos enquanto humanidade, esta dimensão que tem a ver com com o sonho, com a intuição, com com aquilo que é menos concreto, palpável. E a música tem essa dimensão, essa capacidade de nos fazer voar, sonhar sem grande necessidade de uma explicação racional. Daí essa certeza de que o espectáculo teria que ser um diálogo entre a música e o teatro.

    A Manuela [Azevedo] tem esta extraordinária presença. Ela não é só uma cantora, ela é uma grande força da natureza. Tê-la em palco e poder tê-la também neste papel, que é o papel de uma espécie de mediador, narrador, consciência das personagens todas que, no fundo, também faz esta ponte directa com o público. 

    O espectáculo joga-se muito nesta ideia de construção e desconstrução, de interior e exterior, de narrativa e desconstrução. E a Manuela [Azevedo], no fundo, é a figura que está entre estes dois universos. 

    12 min
  • “Os Monólogos da Vagina” discutiram sexualidade feminina em Angola

    A quarta temporada do “Os Monólogos da Vagina” esteve em palco este fim-de-semana, na Casa das Artes de Talatona, em Luanda. O espectáculo discute e desmistifica a sexualidade feminina. A quarta temporada contou com a participação das actrizes Naed Branco, Conceição Diamante, Sunny DIlage e Yolanda Viegas. Além das convidadas especiais Carla Castro e Elsa Marques.

    “Os Monólogos da Vagina” é uma obra de Eve Ensler, foi adaptada para esta quarta temporada em Angola por Flávio Ferrão, que assume igualmente a pasta de direcção e encenação de mãos dadas com Flávio Ferrão e Marisa Octávio.

    Esta nova edição contou com “monólogos de continuação”, como explicou à RFI Marisa Octávio, ou seja, o monólogo do mesmo personagem será interpretado por várias actrizes como se fossem uma só: “Vão ter que fazer os mesmos gestos, ter o mesmo timbre da voz, estar com o mesmo adereço de cena. Vai ser só uma pessoa, mas representada por três. É uma adaptação louca do Flávio Ferrão”. 

    A peça discute e desmistifica a sexualidade feminina que continua a ser um tabu para a sociedade, mesmo para a própria mulher. Marisa Octávio que integrou o elenco da peça numa das temporadas anteriores explica que o espectáculo só por ter “vagina” no nome acabou por ver várias portas fechadas: “só o título da peça “Os Monólogos da Vagina” já fez com que fechassem muitas portas para nós em termos de apoio, televisões que não quiseram passar, rádios… por causa do nome vagina. Continua a ser um tabu.”

    Marisa Octávio sublinha a importância desta peça para desmistificar o termo vagina e lhe dar a devida importância: "Nós fomos todos educados, na minha geração, com ‘o lá em baixo’, não podíamos dizer o nome vagina, que era sujo. Usamos periquita, pombinha, borboleta, só para não dizer a palavra, que é como braço, cotovelo, olho ou nariz. Nós fomos criados numa redoma que vagina é um sítio sujo. Não se pode falar. São asneiras. Estás a dizer disparates."

    8 min
  • "Pirinha" mostra que há esperança para as vítimas depois do abuso sexual infantil

    Em Cabo Verde, o abuso sexual infantil, muitas vezes cometido por familiares ou pessoas próximas das crianças, é um flagelo que toca todos os anos centenas de menores. De forma a mostrar que este é um trauma real e que deve ser denunciado, mas que também é possível ter esperança num futuro melhor, Natasha Craveiro escreveu e realizou o filme-documentário "Pirinha".

    Só nos primeiros seis meses de 2024, já foram denunciados em Cabo Verde 84 crimes de abuso sexual contra crianças, muitas vezes abusos cometidos dentro das próprias famílias. Para a realizadora Natasha Craveiro trata-se apenas da ponta do icebergue, já que muitas vítimas acabam por não denunciar os seus abusadores, sendo assim necessário começar um debate nacional sobre este tipo de abusos, algo que o filme "Pirinha" quer iniciar no arquipélago.

    "Os abusos acontecem há imenso tempo. Não é nada novo. O que nós conseguimos agora ver é apenas a ponta do icebergue. As denúncias são só os casos que se sabem, porque há toda aquela outra parte do icebergue que está submerso, que ninguém sabe, que ninguém vê, que fica no segredo das famílias e que ninguém fala. A grande maioria destes abusos em Cabo Verde acontece dentro das famílias ou por pessoas muito próximas. Daí que eu acho que a qualquer momento é importante falar sobre isso, porque continua a ser tabu. As pessoas continuam a denunciar muito pouco. O trabalho que tem sido feito a nível da prevenção para mim, no meu ponto de vista, não tem surtido efeito. Daí que nós temos que falar sobre isso, temos que colocar esse assunto na mesa. E isso passa pela exibição de filmes como este, a ideia é levá lo a todas as ilhas", disse Natasha Craveiro.

    O filme já passou na ilha de Santiago, na ilha do Maio e até Setembro será mostrado em todas as ilhas do arquipélago em sessões em escolas, universidades e edifícios públicos para abranger o máximo da população. Estas sessões são acompanhadas por um psicólogo, levando a debates entre a audiência.

    "O filme tem sido muito bem recebido. Nós temos tentado fazer exibições em comunidades nas escolas, onde tentamos criar um espaço seguro para os alunos. Fazemos um debate logo depois do filme, com a presença de um psicólogo ou de uma psicóloga. Quando acontece nas escolas, nós tentamos evitar que os professores façam parte daquele diálogo exactamente para criar esse ambiente de segurança para para os adolescentes. E temos feito junto das comunidades como aconteceu na Ilha do Maio. Inicialmente, as pessoas não querem intervir, não querem começar a falar no debate. Mas depois percebe-se. Eu lembro-me na Calheta, foram as senhoras mais velhas que tomaram a palavra e que trouxeram as preocupações. Portanto, existem essas preocupações. Existe um grande tabu. As pessoas têm receio de falar. Muitas vezes para evitar que a vítima seja novamente vítima da sociedade e das comunidades. Mas tem sido muito bom esse contacto direto com as pessoas quando veem o filme", declarou a realizadora.

    O filme-documentário "Pirinha" é narrado na primeira pessoa por uma vítima de abuso que conta as dificuldades da superação deste trauma, mostrando momentos ternos da infância com a avó ou a brincar, intercalando com lembranças obscuras dos abusos aos quais foi sujeita. No entanto, a mensagem é de esperança.

    "A mensagem é que existe vida depois do abuso. Não é suposto acontecer. Não devia ter acontecido, não deve acontecer. Mas quando tudo falha e acontece, ainda há esperança. Ainda é possível ter uma vida. É preciso também ter um sistema preparado para ter todos os elementos necessários para percorrer esse caminho da cura. No filme, vemos aquelas memórias afectivas à volta da avó. Eu fui buscar os recursos internos dela. Foram as memórias afectivas dessa vida com a avó. A vida despreocupada, essa vida normal. A avó com afecto, com cuidado com as coisas que que devem fazer parte da vida de uma criança. Esses elementos têm que estar na vida da vítima. Ela tem que ter alguém para a ajudar a resgatar os recursos internos e também ter acesso a um especialista para a apoiar nesse sentido. Porque sozinha, a vítima não consegue chegar lá", indicou.

    O filme já foi seleccionado para cinco festivais, entre eles o Lausanne African Film Festival, na Suíça, e continuará a ser exibido em todas as ilhas de Cabo Verde.

    13 min
  • Redifusão - As histórias de Cargaleiro na “aldeia dos artistas”

    Manuel Cargaleiro já tinha deixado a sua marca em Paris numa das mais conhecidas estações de metro, a Champs Elysées-Clémenceau, mas a capital francesa pediu-lhe mais. Aos 92 anos, o artista português juntou aos painéis de azulejos instalados em 1995 novas obras que são inauguradas esta segunda-feira. Nesse dia, o pintor e ceramista vai ser duplamente condecorado por Portugal e Paris. Nesta entrevista, realizada em 2017, o "mestre" recorda os tempos iniciais em Paris, quando a cidade era "uma aldeia de artistas".

    Esta segunda-feira, Manuel Cargaleiro vai inaugurar novos painéis na estação Champs Elysées-Clémenceau, em Paris, e depois vai receber a Medalha Grand Vermeil, a mais alta condecoração da cidade, e a Medalha de Mérito Cultural de Portugal na presença do Primeiro-Ministro português.

    Galardões que se juntam a outros de um artista que vive em Paris desde 1957, que conviveu com nomes precursores da arte contemporânea como Max Ernst, Hans Arp, Serge Poliakoff, Alfred Manessier, Sonia Delaunay, Zao Wou-Ki, Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szènes, Roger Bissière, Natalie Gontcharova e Michel Larionov, entre muitos outros.

    Era também vizinho de Picasso mas tinha uma admiração tão grande por ele que não teve coragem de falar com ele… À sua casa, no bairro dos artistas, vinham bater muitos portugueses que chegavam clandestinamente a França…

    Uma conversa sobre arte, memórias e muito trabalho num ateliê repleto de telas e centenas de desenhos e guaches…

    21 min
  • Humoristas em França são "cada vez mais cuidadosos" após piada levar a demissão na rádio pública

    O humor em França tem uma longa história e tradição, mas nos últimos meses o afastamento de um conhecido humorista, Guillaume Meurice, das antenas da rádio pública devido a uma piada sobre o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu abalou o país. Em entrevista à RFI, o humorista franco-português, Mike de Sá, diz que actualmente os humoristas são "cada vez mais cuidadosos" quando estão em palco.

    Berço da Declaração de Direitos do Homem de 1789, a França tem uma longa história de liberdade de expressão. Antes desta declaração, foram homens como Moliére ou Voltaire que desafiaram as convenções sociais vigentes para com ironia para chamar a atenção da sociedade para problemas importantes do seu tempo, mais tarde, já nos anos 80, humoristas como Coluche comentavam de forma simples e mordaz a vida francesa.

    Uma tradição de humor que passa actualmente por comentários na rádios, onde vários humoristas fazem crónicas matinais onde esmiuçam a vida política e a actualidade. Guillaume Meurice, um humorista que intervinha na France Inter, a rádio mais ouvida em França, fazia regularmente programas onde entrevistava vários cidadãos anónimos brincando depois com as respostas sobre as preferências políticas ou posicionamento dos franceses em conflitos internacionais.

    No final de Outubro de 2023, o humorista fez uma referência ao primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu que levou a duas queixas por referências anti-semitas. Esta queixa foi depois arquivada e Meurice ilibado, com o humorista a fazer a mesma referência no mês de maio. Nesse momento, a direcção da Radio France, grupo público que detém a France Inter, suspendeu-o das suas emissões, tendo-o em seguida demitido por "deslealdade repetida". Esta demissão foi contestada por vários humoristas, com muitos a baterem a saírem também da France Inter.

    Mike de Sá, humorista franco-português e fundador do espectáculo Portugal Comedy Club, considera que os humoristas em França têm cada vez mais cuidado com as suas piadas e a sua repercurssão na internet.

    "O trabalho que fazemos é suposto ser, sobretudo, baseado na liberdade de expressão. Mas, de um modo geral, somos cada vez mais cuidadosos. É esse o problema. Já não estamos na época de Coluche ou de Desproges, em que as pessoas tomavam a liberdade de dizer certas coisas que, na altura, também já as penalizavam. Hoje, o que fazemos, o que somos, no fundo, é desdramatizar o que se passa na sociedade. Simplesmente, para mim, se há uma piada de que não gostamos ou que nos magoa, então não é uma boa piada. Desproges até dizia isso, que não se pode rir de tudo e não se pode rir com qualquer um. Mas hoje em dia está tudo nas redes sociais. Fazemos uma piada de um minuto e só vai para as redes uma parte mais escandalosa. Isola-se só a parte que pode ter sido ofensiva. Portanto, hoje está a ficar um pouco complicado. No caso de Guillaume, a piada que deu origem a esta polémica não me fez rir, mas também não me chocou. Agora, ele está num campeonato diferente. Meurice é provocador, muito político. Por isso, não fiquei surpreendido com o que ele fez. Quanto aos outros comediantes que também se demitiram, eu consigo compreender a solidariedade e claro que se sentem ameaçados. Eles sentem quase que têm de se policiar a cada piada. Agora, as piadas é como tudo, não se pode agradar a toda a gente, por isso as pessoas ou gostam ou não gostam", disse o humorista.

    Por ser uma rádio pública onde, apesar de alguns incidentes, a liberdade criativa parecia assegurada, a demissão de Guillaume Meurice levou a um movimento de solidariedade não só de colegas, mas também de ouvintes, com o comediante a ter feito mesmo uma festa de despedida aberta a todos no final da semana passada. Esta demissão chocou Mike de Sá.

    "A situação com a France Inter chocou-me um pouco porque ele foi ilibado e o tribunal disse que não houve racismo. É isso é que é doloroso nesta história. A piada dele não foi considerada racista. O que se passou depois, é que houve algumas provocações entre o Guillaume Meurice e a France Inter e terá sido a continuação desta situação tensa, com piadas e ameaças e isso foi dado como razão para o despedimento dele. Foi como se assistíssemos a um casal que não parava de se picar", explicou.

    Com um humor menos político do que Guillaume Meurice, Mike de Sá diz que os humoristas têm hoje medo de ser mal interpretados em todo os âmbitos da comédia, levando a uma auto-censura.

    "Não se deve ter medo da liberdade de expressão, mas hoje é preciso ter cuidado. Uma piada pode ser cortada para um vídeo curto e vai ser mal interpretada. E, claro, quando subimos ao palco temos responsabilidade sobre o que vamos dizer, porque falamos para muita gente, tal como Coluche ou Desproges o fizeram. Portanto, há que ter cuidado com o que se diz. E hoje, vivemos numa sociedade em que reprovamos e julgamos à mínima coisa. O meu humor, por exemplo, é muito diferente do de Guillaume Meurice, é mais ligeiro, mais familiar e quero que as pessoas se riam e se sintam bem. Não tenho esse registo político. Eu encarno uma personagem divertida, cómica. Às vezes funciona, outras vezes não, e tento que haja contundência por detrás das minhas piadas, mas e alguém fica chateado? Pode ser mal interpretado. Tudo depende da personagem que encarnamos e hoje, entre nós humoristas, temos medo de ser mal interpretados e julgados severamente na praça pública por uma piada", indicou.

    O projecto Portugal Comedy Club reúne humoristas lusófonos em França e fala das diferentes realidades da comunidade portuguesa, brasileira ou angolana. Mesmo tocando em temas polémicos como a imigração e o comunitarismo em França, Mike de Sá diz que até agora não houve piadas que levaram a um mal-estar na audiência.

    "Nunca senti isso no nosso espectáculo Portugal Comedy Club. Quer vindo do público, quer fosse uma percepção minha. Eu pessoalmente, no meu espectáculo individual, já senti. O público do Portugal Comedy Club é um público novo que chega ao stand up e que veio para ouvir falar de Portugal, Brasil ou Angola. Este é um espectáculo que nos permite ainda essa tal liberdade de expressão e há simpatia pelos humoristas que estão no palco. Por enquanto, sinto muito boa vontade do público", disse.

    Já no seu espectáculo individual, Mike de Sá já se viu confrontado com reclamações da sua audiência. Nada que não tivesse sido resolvido com uma conversa e explicação amigável.

    "No meu espéctaculo eu falo de escravatura, algo que Portugal fez durante quase cinco séculos. E tento explicar essa situação através do humor e como foram os portugueses na origem da escravatura moderna e no tráfico de seres humanos. É uma linha ténue entre o humor e ofensa quando se fala de escravatura. Digo, por exemplo, que foi graças a nós que existe o Brasil e a sua diversidade. Se alguém leva a mal eu explico a piada, peço desculpa se se justificar. Eu acho que a minha personagem em cena permite estas piadas. Já tive duas ou três pessoas que me disseram que não gostaram dessa piada, mas tivemos uma conversa no final e correu muito bem e perceberam onde eu queria chegar. E isto foi no meu espectáculo. Claro que quando estás na rádio, quando fazes críticas sobretudo em política, é preciso ter cuidado, é um trabalho dos diabos. Cobrir a actualidade com humor é um trabalho dos diabos, não é para toda a gente. Não se pode agradar a toda a gente, porque umas pessoas são de direita, outras de esquerda. Portanto, não se pode agradar a toda a gente, isso é certo", contou.

    A amplitude da interpretação das piadas dos humoristas também está ligada ao meio onde são difundidas e a rádio, especialmente a France Inter, leva a uma grande exposição dos humoristas que hoje, em vésperas de eleições, se sentem pressionados por um lado para distrair o público e por outro para se posicionar.

    "Hoje em dia o humor serve para que as pessoas fiquem um pouco em modo avião face à actualidade política em França. Então sentimos desde logo esse peso de distrair as pessoas, e que somos uma espécie de penso rápido em relação a tudo que se passa no Mundo. Em França, especialmente, sentimos que estamos a chegar a um determinado limite. Do nosso lado tentamos combater isso com mais mulheres no palco, mais pessoas de origens diferentes, tentar que o palco seja uma verdadeira reflexão do país, com tipos de humor diferentes. E claro que sentimos também a responsabilidade já que vemos o Mbappé a ser questionado sobre em quem vai votar, portanto mesmo tendo em conta o nosso peso, há uma certa pressão sobre nós. Não somos os futebolistas, porque eles são mais visíveis do que nós, mas sentimos que há expectativas à nossa volta, isso é certo", concluiu.

    9 min
  • Portugal "revelou-se" ao grande público no Festival de Animação de Annecy

    O Festival de Cinema de Animação de Annecy bateu recordes de participação com Portugal como país convidado. Uma forma de um público alargado descobrir a animação portuguesa, já muito premiada neste e noutros certames.

    Entre 9 e 15 de Junho, milhares de pessoas estiveram em Annecy para a edição número 65 do Festival de Animação. Este ano, o certame bateu recordes com mais de 17.400 profissionais e estudantes acreditados e outras tantas milhares de pessoas que encheram as salas de manhã à noite, como explicou o director deste certame, Marcel Jean, em entrevista à RFI.

    "O Festival de Annecy está a ser mais frequentado por mais pessoas do que nunca. Temos um número recorde de visitantes e tivemos também as salas cheias durante toda a semana. Este ano, chegámos a ter sessões muito cedo, às 8h30 da manhã, e as salas estavam cheias. Portanto, desde as 8h30 da manhã até à meia-noite. Estamos muito satisfeitos com isso", explicou.

    Esta fidelidade do público, assim como a importância dos filmes aqui mostrados que todos os anos fazem evoluir o cinema de animação em todo o Mundo tornam-no numas das mais importantes mostras a nível global.

    "No que diz respeito a filme de animação, este é de longe o maior evento do mundo e o que contribui para o sucesso de Annecy é a qualidade do seu público. É um público maioritariamente composto por profissionais e jovens profissionais. Ou seja, há vários milhares de estudantes que vêm a Annecy todos os anos, estudantes de animação que vêm sobretudo da Europa, mas também de todo o mundo. E estas pessoas têm uma capacidade de reconhecer o trabalho que implica o cinema de animação e uma sede de aprender, uma sede de conhecimento que explica por que razão sessões como making of, as masterclasses e os work-in-progress fazem tanto sucesso em Annecy, tal como as projecções de filmes acabados", disse Marcel Jean.

    Este ano, Portugal foi o país convidado deste encontro. Um convite óbvio para Fernando Galrito, director do Festival Monstra, em Lisboa, já que o cinema de animação português tem dado provas da sua qualidade em Annecy e em todo o Mundo.

    "O cinema de animação português é considerado, em termos internacionais, como um dos melhores da Europa. Para não dizer até, se calhar do mundo. Só para lhe dar uma ideia, o cinema português mais premiado internacionalmente é o cinema de animação. Cerca de 70% dos prémios que já foram atribuídos ao cinema português são de animação. Ou seja, aquilo que nós fazemos em termos de animação é de muito boa qualidade e é apreciado no mundo inteiro. Depois também faz todo o sentido, porque também a nossa história aqui com o festival de Annecy já é longa. Nós já tivemos Cristal de Ouro, já tivemos vários filmes premiados, muitos filmes na competição, tivemos na última edição do festival, tivemos duas longas metragens, o que nem sempre acontece com países, pelo menos com a dimensão de Portugal. Isto revela uma qualidade e uma quantidade de trabalho que é feito, especialmente do ponto de vista autoral, muito forte e muito bom. Daí que eu acho que temos mais do que reunidas todas as condições necessárias para podermos ser um dos países convidados do Festival da Annecy. Pelo que eu vou ouvindo nas reacções do público, dado que tenho apresentado muitas das sessões retrospectivas, as pessoas adoram aquilo que foram vendo e aquilo que é a nossa participação no festival", relatou Fernando Galrito.

    A participação portuguesa acabou por se traduzir num prémio, com as realizadoras portuguesas Alexandra Ramires e Laura Gonçalves a levarem para Portugal o prémio Cristal na categoria de melhor curta-metragem. A excelência do cinema de animação português é também uma evidência para Marcel Jean, com o país a abrir-se e revelar-se ao grande público.

    "Ter Portugal como país convidado é uma aposta que este ano deu frutos, na medida em que o cinema português se desenvolveu bastante nos últimos 25 anos. A animação desenvolveu-se bastante e o público teve muita curiosidade em ver o que se está a passar em Portugal, na medida em que é um viveiro de produção que foi subestimado durante muito tempo. Por isso, reunir curtas-metragens portuguesas, mostrando um panorama alargado da produção nacional, foi uma revelação para muitos espectadores este ano. E na competição oficial também vimos algumas obras portuguesas que se destacaram", declarou.

    Portugal veio também a Annecy nas busca de atrair novos talentos para a animação portuguesa e mais apoios privados para o desenvolvimento desta categoria da sétima arte.

    "Estamos a criar uma relação para além daquilo que já se faz em Portugal por portugueses. Estamos a criar uma relação internacional que vai no sentido muitos profissionais internacionais quererem vir trabalhar para o cinema de animação português, porque é sinal que estão a trabalhar em obras de qualidade e de referência mundial, por um lado, e depois também com esta presença forte aqui, queremos que cada vez mais produtores internacionais se juntem e mais produtores nacionais também se à realização portuguesa, de forma a que, do ponto de vista económico, digamos, também exista um suporte para aquilo que, do ponto de vista da criatividade, já é uma realidade, de forma a que, digamos que uma gente sabe que é que existe, não é que é a criatividade e a capacidade de realização com grande qualidade. Internamente, ainda falta o apoio das grandes empresas. É preciso, digamos, todas as forças, tanto as políticas e nacionais como também as privadas, se juntem num esforço para que o nosso cinema de animação seja ainda mais reconhecido nacional e internacionalmente", indicou Fernando Galrito.

    Apesar de ser apenas uma semana, este é um Festival que permite a esta indústria manter-se em contacto, originando muitas vezes a itinerância dos filmes seleccionados, encontros profissionais e ainda permitir a apresentação de obras inéditas noutras latitudes, como acontece no caso da Monstra de Lisboa.

    "Eu pessoalmente, desde 1985 que venho ao Festival de Annecy com alguma regularidade. Diria que é um espaço não só de encontro com outros profissionais e com outras pessoas que fazem festivais, é um espaço onde encontramos também filmes que nos interessam mostrar no Festival da Monstra, em Lisboa. Mas também é um local onde devido à troca que temos com os outros festivais, podemos também levar o nosso cinema a outras paragens. Nós nos últimos 24 anos, que são os anos que tem a Monstra, nós já estivemos com filmes portugueses em mais de 350 cidades dos cinco continentes", descreveu Galrito.

    É em Annecy que muitas grandes produções vêm a luz do dia, com esta edição a mostrar as primeiras imagens de "Astérix et Obélix, le Combat des chefs", uma série que vai estrear na Netflix ou o trailer de "Moana II", uma aguardada sequela dos estúdios Disney. No entanto, Annecy também é palco para as produções independentes, com estes dois mundos a cruzarem-se uma semana em França.

    "O equilíbrio entre as produções dos grandes estúdios, sejam eles as grandes plataformas, os estúdios americanos, os estúdios japoneses ou mesmo as grandes redes francesas ou europeias tem de ser encontrado com obras totalmente independentes. E é por isso que é tão importante ter sempre um destaque para as curtas-metragens, e é por isso que até temos várias subcategorias na competição de curtas-metragens: temos a curta-metragem, temos uma secção chamada Contrechamps, que se centra mais nos países emergentes. Temos uma secção chamada Animation limite, que apresenta obras mais experimentais, e uma secção para o público jovem, para filmes destinados a crianças. Para mim, este equilíbrio é fundamental para o sucesso do Festival de Annecy. O Festival de Annecy começou há 65 anos como um festival de curtas-metragens e, na altura, era toda uma série de artistas independentes que queriam reunir-se, reagrupar-se e mostrar o seu trabalho. Hoje em dia, é muito importante que os grandes estúdios, as plataformas e tudo o resto, que estas estrelas que vêm a Annecy sejam utilizadas para dar visibilidade às obras independentes. Estive numa sala cheia com 300 espectadores para ver uma programação de filmes de animação experimental. Para mim, foi um verdadeiro sucesso. E, no início da semana, conversei com alguém da Disney que tinha visto essa mesma sessão de animação experimental no início do dia. Para mim, estes encontros entre os maiores estúdios, entre a animação industrial destinada a um grande público e as produções independentes de nicho, muitas vezes produzidas pouco dinheiro, é algo importante. Este diálogo tem de existir", concluiu Marcel Jean.

    11 min

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