Artes

Artes

By RFI PortuguêsArts
Download on the App Store

Artes episodes

  • "Presentes!" os afroportuenses pela lente de José Sérgio

    “Presentes! Africanos e Afrodescendentes no Porto”, partiu da desconstrução do Porto como uma cidade branca, mostrou-se pela primeira vez numa exposição realizada em 2020 no Mira Fórum, em Campanhã, no Porto, saltou e multiplicou-se agora para as páginas de um livro. “Presentes!” do fotojornalista moçambicano José Sérgio é o registo de pessoas de diferentes latitudes, portuenses provenientes de vários países africanos, Brasil e Cuba.

    Da invisibilidade das ruas às paredes do Mira Fórum e agora em suporte livro. “Presentes! Africanos e Afrodescendentes no Porto”, partiu da desconstrução do Porto como uma cidade branca, mostrou-se pela primeira vez numa exposição realizada em 2020 no Mira Fórum, em Campanhã, no Porto, saltou e multiplicou-se agora para as páginas de um livro. 

    “Presentes!” do fotojornalista moçambicano José Sérgio é o registo de pessoas de diferentes latitudes, portuenses provenientes de vários países africanos, Brasil e Cuba.

    Era um sonho para dar visibilidade a esta comunidade, à qual também pertenço, e para não ficar no esquecimento, era digno de merecer um registo, porque, na verdade, não há estudos nem estatísticos, não há nada à volta deste tema.

    Acho que trazer essa visibilidade registada em livro, é também uma maneira “forçada” de não cair neste esquecimento.

    São africanos e afrodescendentes de Portugal.

    Aos retratos, José Sérgio acrescentou os contextos, ampliou o universo e contou com a escrita da jornalista Mariana Duarte para pintar as histórias destes rostos e corpos.

    Ao assumir o Presentes! significa o presente do presente, mas também presentes de afirmação. Aqui, [no livro] porque fui acompanhando estas vidas, já não fazia muito sentido no que queria mostrar, continuar com a pose.

    “Presentes!” contrasta com a ausência de registos qualitativos e quantitativos sobre estas comunidades, por isso mesmo José Sérgio defende que, por exemplo, nos Censos deveria existir uma questão sobre a origem étnico racial.

    12 min
  • Mayra Andrade de regresso a Paris com "Reencanto" na bagagem

    "Reencanto" é um espectáculo de Mayra Andrade, onde a cantora cabo-verdiana divide o palco apenas com seu guitarrista Djodje Almeida, em torno de músicas que ela compôs ao longo dos cinco álbuns que já tem no activo. Ela passou a 23 de Março pelo Festival Chorus, em Boulogne Billancourt, no recinto de "La Seine Musicale", muito perto de Paris. A oportunidade para voltar a uma cidade onde viveu ao longo de 14 anos, agora, após a sua primeira experiência da maternidade.

    Mayra Andrade está baseada há oito anos em Portugal, após uma infância passada entre Cabo Verde, mas também Senegal, Angola e Alemanha.

    Aos 17 anos veio para França estudar canto e resididu em Paris ao longo de 14 anos.

    Temas de sobra para conversarmos com Mayra Andrade, que, embora nascida na Havana, muito tem cantado Cabo Verde mundo fora.

    Estive aqui há menos de dez anos, também já a promover o "Manga", que foi o meu último disco de estúdio. Fizemos um concerto no palco lá fora, portanto, mais uma vez, voltar a esta casa é um prazer muito grande para já. Sempre cantar em Paris, que é uma cidade que foi casa para mim durante 14 anos. E este projecto é muito especial, porque eu apresento me ao meu público de uma forma extremamente despida e extremamente íntima para apresentar-lhes estas canções que são todas da minha autoria ou que eu escrevi sozinha e compus, ou em parceria com alguém. Mas são todas canções que nasceram de mim e que, no fundo, ao longo dos anos, vêm contando a minha história, histórias que me tocaram.

    E acho que é muito diferente as pessoas ouvirem um disco com os arranjos e verem num palco com banda e de repente dizer "Ok, mas há canções que eu ouço há 20 anos ! Mas o que é que é esta canção?" Portanto, este espectáculo oferece um pouco a génese, a essência de cada música, da forma como elas nasceram, que é eu e o meu violão. Acompanha-me um exímio guitarrista que se chama Jorge Almeida, que é meu conterrâneo e que é um músico incrível e que a cada espetáculo cresce cada vez mais. Portanto, estou muito, muito feliz de continuar a partilhar o palco com ele.

    Eu vi alguns dos concertos na fase em que você estava grávida e de repente foi mãe. Todos nós sabemos e nos lembramos, por exemplo, do que tinha escrito para a sua mãe e a relação filial que tem com ela. Imagino que esta maternidade possa também trazer aí muita inspiração pela frente. Se calhar para um sexto álbum ?

    Acho que você acredita e acredita bem. Não posso dizer que já se tenha traduzido numa música ou em várias, mas já se traduz às vezes em momentos de inspiração, em que eu pego no meu telefone e gravo uma melodia em que falo da minha filha. Eu fico sempre muito emocionada em dizer minha filha, porque eu fui mãe aos 38 anos. Sonhei com ela durante muitos anos e o que eu posso dizer é que eu ainda estou no olho do furacão !

    A maternidade é uma experiência completamente revolucionária, uma experiência que deixa...  tudo se movimenta, tudo muda de lugar. Eu acho que é talvez a maior transformação que um ser humano viva. E muitas vezes é uma transformação silenciosa. As pessoas não se dão conta, ou seja, há aquela parte mais superficial, mais fácil de se observar. Mas só quem é muito atento, muito sensível e muito aberto à empatia é que percebe o que uma mulher vive quando se torna mãe e o que é aprender a ser mãe e como é que isto movimenta as nossas crenças, os nossos medos.

    Quando digo que eu estou no olho do furacão é que eu ainda estou a tentar, digamos, estar de pé. é um tsunami. É um , é um tsunami diário que acontece: ser uma mulher que está na estrada e que cria e que trabalha, não é  ? Lidando com tudo isto: vivo longe da minha família também. E dizem "It takes a village to raise a child" [É precisa uma aldeia para criar uma criança]. E eu realmente hoje percebo muito bem isso e pronto. E tento recriar lá onde eu vivo, uma aldeia de amigos, de pessoas que me possam criar esta rede de apoio e de amor à minha volta e à volta da minha filha.

    O Manga foi bastante diferente dos discos anteriores, mais afrobeat. Marcou de alguma forma uma transição, uma ruptura. Em relação a este espectáculo que você tinha composto tanto em francês e também cantado algumas músicas em francês, pelo menos no passado. Se calhar vai privilegiar também alguns temas francófonos ?

    Eu escrevi algumas músicas em francês, mas músicas editadas foram uma. As outras foram escritas para mim e esta é a particularidade deste espectáculo. Há canções que você se calhar pensa que vai ouvir, mas não vai ouvir porque não é minha. E há canções minhas que também não estão, porque senão o espectáculo seria demasiadamente longo.

    Um público francófono tem tendência a pedir-lhe "Comme s'il en pleuvait" sistematicamente ?

    Sistematicamente, Não, talvez. Houve um tempo em que as pessoas estavam mais ligadas a essa música. Mas mesmo com músicas que não sejam em francês, eu acho que o público francófono também já criou uma relação e uma ligação com outras músicas, apesar de não serem em francês, nomeadamente do Manga, que é um disco, eu acho que veio juntar muita gente para o meu projecto.

    Trabalhou com músicos da Costa do Marfim. Por exemplo, o Manga e precisamente o Afecto foram os principais singles que celebrizaram o álbum. O único que gravou na Maison de la radio foi o Studio 105 ?

    Exactamente.

    E esse continuará presente e estará presente aqui também ?

    Por exemplo, "Céu" é uma música do Estúdio 105, que é minha, que eu fiz música e letra e que não está cá hoje. Está a ver? Há outras músicas que também não estão. Este projecto, o "Reencanto" tem de ser visto como um projecto intemporal, intemporal, que vai marcando, é tipo "milestones" que têm aqueles marcos, assim, dos meus discos, da minha carreira, mas que não tem amarras. É um projecto. O Reencanto poderá sempre se reinventar também. Porquê Reencanto ? É cantar, encantar-se e reencantar-se com canções que nós já conhecemos. Este repertório seguirá crescendo à medida que eu for compondo novas canções. Portanto, eu se calhar posso, daqui a dez anos, voltar a fazer o "Reencanto", mas terá outras canções que vão entrar. Algumas vão sair. Eu acho bonito é ter este projecto que seja assim um bocadinho fora da agenda dos discos, dos lançamentos convencionais, dos discos, não é?

    É como dizer-te "Olha, passa lá em casa, vamos sentar na sala e eu vou cantar para ti. E tu não sabes o que eu vou cantar, mas vais estar presente porque de alguma forma tens consciência de que aquilo é um momento especial. Então é isso. O reencantoo, por ser um festival [Chorus], é um concerto de apenas 1 hora. O concerto normal dura 1h45.

    Em função da maternidade a que fizemos referência recentemente agora dá por si a ouvir também músicas que raramente ouvia ? Que universos mais infantis, se calhar que porventura não tinha explorado até ao momento ?

    Olhe, a minha filha tem um ano. Ela tem já uma sensibilidade para a música muito grande e que não me estranha, porque ela fez várias turnês, vários projectos diferentes na barriga. Eu ontem ofereci-lhe um brinquedo, que tem muitos botões e muitas luzes. E ela associa os botões e as luzes à música, porque ela tem vários brinquedos que fazem música. Ela pôs-se a chorar e rejeitou aquele brinquedo porque não saía música. Ela carregava no botão, dançava e olhava para mim como quem diz "Quando é que a música começa?" Não é?

    Portanto, ela já tem uma sensibilidade muito grande para a música. Estou um bocadinho exposta ao universo da música infantil e tento trazer para ela., agora nem me lembro do nome do disco, mas há assim umas colectâneas de clássicos da música. Que seja da música mundial, músicas que marcaram certas décadas em versão para bebé ! E aquilo está, por exemplo, separado na versão para brincar e na versão para dormir. Então eu tento que mesmo no universo infantil, ela tenha acesso a boas músicas. Isso também permite-me não estar a ouvir "Baby Shark", pelo menos enquanto eu puder.

    E agora eu sei que tinha vontade de fazer muitas colaborações. Já fez bastantes, não é? Vêm coisas aí já a germinar ? Eu gostaria de saber um pouco o olhar que tem sobre figuras como Elida Almeida, por exemplo, como a Floribella, que surgiu mais recentemente, embora tenha mais idade, não é? São figuras que você ouve, que já cruzou na sua vida?

    Já. Já cruzei. Já estive exposta à música, aos clipes que elas vão lançando. Eu acho que Cabo Verde continuará a surpreender o mundo com vozes, muitas vozes femininas. E elas fazem parte dessa constelação e desejo a elas e às que virão depois e aos que virão também depois. Mulheres e homens continuem assim, a alimentar esta família musical cabo- verdiana, que no fundo é a maior bandeira de Cabo Verde em Cabo Verde, é conhecido essencialmente pela sua música. Cada artista cabo-verdiano que faz um bom trabalho e que consegue manter uma carreira ao longo dos anos e construir uma coisa consistente é motivo de orgulho para mim como artista. Mas como cabo-verdiana, também !

    É um porto de abrigo ao qual volta, o qual pensa voltar também agora com a sua filha ?

    Eu volto sempre para Cabo Verde. Vou para Cabo Verde e a família é casa. É o mar e o vento das ilhas. Eu vivi muito tempo fora, mas também vivi dentro. Nunca vivi um corte com Cabo Verde, portanto a Daio, que é o nome da minha filha. Já estive em Cabo Verde várias vezes, só tem um ano, mas já esteve duas vezes em Cabo Verde, portanto está a ver que é assim o nosso porto seguro.

    14 min
  • Paris acolhe em Novembro grande espectáculo internacional de magia

    Paris e o teatro Folies Bergère acolhem de 7 de Novembro a 1 de Dezembro o espectáculo "Luís de Matos IMPOSSIBLE Sur Scène".

    Uma referência ao mágico português Luís de Matos que concebeu um grande programa de magia, na companhia de quatro outros mágicos de notoriedade mundial, oriundos da França, Bélgica, Coreia do Sul e Estados Unidos.

    A apresentação à imprensa ocorreu na semana passada.
     

    Luís de Matos levanta-nos o véu sobre como será o espectáculo, começando por se referir à relação que mantém com Moçambique, onde nasceu e onde viveu os primeiros anos de vida.

    Eu vim para a metrópole de então, vim celebrar os meus quatro anos de idade. Eu acredito recordar-me de imensas coisas de Lourenço Marques, hoje Maputo. Acredito, porém, há uma incerteza. Porque eu não sei se me recordo realmente dessas coisas ou se algumas dessas coisas me foram avivadas pelo facto do meu pai fazer filmes comigo.

    E, portanto, há todo um ambiente da nossa vida lá que se me reaviva na memória cada vez que esses filmes me passam pela frente. Em todo o caso, já voltei três ou quatro vezes a Moçambique, a Maputo, quer em viagens pessoais, quer para fazer espetáculos. E é sempre uma alegria imensa ! E é uma energia incrível eu regressar ao local que me viu nascer, visitar aquela incrível igreja da Polana, andar por aquelas ruas.

    E depois, a somar a tudo isto que uma primeira vez que fui nem sequer caí em mim. Não esperava !

    Mas como lá também se acompanha há muitos anos as emissões da RTP [Rádio e Televisão de Portugal], de repente eu tinha pessoas na rua que me conheciam e que sabiam exatamente isso, Sabiam quem eu era profissionalmente, mas também sabiam que eu tinha lá nascido e que estava lá.

    E, portanto, tudo isso dá reações redobradas, carinho redobrado que tornaram todas as minhas viagens a Moçambique um prazer imenso e, portanto, na primeira oportunidade eu sou daqueles que dirá sempre: "Sim, ok, vamos então, amanhã !" Porque é uma cidade inacreditável, altamente inspiradora, onde eu gosto de quase tudo ! Só não gosto quando vejo nas notícias que há pessoas a sofrer e que às vezes, enfim, o dia-a-dia dos que lá vivem não é necessariamente o mais agradável. A minha relação com Maputo é de absoluta paixão, como é evidente.

    Vi que já aos 16 anos tinha conseguido alcançar um prémio. Como é que de repente, a magia surgiu de forma tão precoce na sua vida?

    Eu acho que a magia surge de forma precoce na vida de quase todos os miúdos. Ou seja, quando somos miúdos, há um dia em que queremos ser astronauta, noutro dia médico, depois bombeiro, depois jogador de futebol, depois mágico. Ora bem, alguma destas coisas há de ficar e fica. Há miúdos que sonham ser bombeiros e acabam a ser bombeiros e que sonham ser médicos e acabam ser médicos e astronautas e o que quer que seja. No meu caso, esse gosto foi ficando durante mais tempo. Converteu se num hobby, numa obsessão. Foi algo que eu fui mantendo, sempre em simultâneo com os meus estudos, e com a minha progressão académica. De repente, começou a ficar mais sério e há uma altura em que me obriga a fazer uma escolha. Mas nasceu pela paixão e nasceu pelo facto de ser um hobby muito presente na minha vida, de forma continuada e reiterada.

    Para si, a magia era uma evasão da realidade ?

    Não, Eu acho que a magia permite, como permitem todas as formas de arte, permite criar mundos paralelos onde a fantasia pode acontecer, onde o impossível acontece, onde nós podemos sonhar e conhecer mundos que nem sequer existem. Porém, a magia tem um lado absolutamente fascinante que torna mais facilmente consumível essa fantasia e esse transpor para tal realidade paralela do que qualquer outra forma de arte. Porquê? Porque vamos ver, por exemplo, a literatura. A literatura que nos transporta para outros mundos. Há uma barreira. O livro tem que estar escrito numa língua que eu entenda ou a música... depois eu tenho que perceber a letra ou a dança contemporânea. Se eu nunca tivesse sido exposto à dança contemporânea, provavelmente não vou conseguir apreender tudo aquilo que ela procura fazer me sentir esta peça ou aquela hora.

    Na magia, a única coisa que se pede é a nossa condição humana e nós, a qualquer momento da nossa existência, seja quando temos 4 anos de idade, 40 ou 80 para nós é sempre claro qual é que é a linha que divide, que separa tudo o que é possível de tudo o que é impossível.

    Ora, como nós, em cima de um palco ou na televisão, em qualquer circunstância, às vezes ao vivo, acontece sempre no domínio daquilo que é absolutamente impossível. Mas se acontecer bem, se for bem realizado, está de facto a acontecer perante os nossos olhos. E isso faz com que a magia e esta linguagem absolutamente transversal e universal possa instantaneamente catapultar as pessoas para um universo irreal.

    De facto, a pessoa não voa. De facto, eu não sei o que o outro está a pensar. De facto, isto não desapareceu. Porém, naquele instante e debaixo do escrutínio absoluto de um espectador ou de 10.000 espectadores, a coisa desaparece. O incrível e o impossível acontece de facto, e, portanto, há uma grande imediatez entre a realização de algo extraordinário e a recompensa que se sente no olhar do espectador e que nos diz que acabou de presenciar algo inexplicável.

    Muito rapidamente a sua carreira ultrapassa as fronteiras portuguesas. Começou a sua internacionalização com projectos, nomeadamente televisivos, por exemplo, em Espanha ou no Reino Unido. Qual foi assim o pontapé de saída para extravasar fronteiras?

    A equipa que me acompanha , e que me acompanha de uma forma estabelecida e organizada desde 1995, sempre procurámos tudo aquilo que fomos fazendo, que tivesse um standard internacional, ou seja, que não nos contentássemos com o que é fácil, que fôssemos a nossa própria concorrência, que nos tentássemos superar e fazer sempre mais. E isso de alguma forma, foi, a dada altura, visto por alguém. E, portanto, é aí que surgem alguns prémios internacionais para os quais nós nem sequer sabíamos que estávamos a ser avaliados. É assim que surge o convite da BBC [British Broadcasting corporation, Rádio e Televisão briânica] para fazermos uma série para o sábado à noite da BBC. Mais tarde, dez anos consecutivos, estivemos na televisão espanhola TVG; programas que fizemos para outras televisões em Espanha e algumas séries. E no fundo, tem sido. Não é nada que nós procuremos.

    Entrou no Guinness ! Foi mágico do ano !

    É verdade. É verdade. Mas nós não vamos à procura dessas oportunidades. É um bocadinho aqui, além algum eco que a nossa forma de estar ou de criar ou de produzir aquilo que vamos criando no seio desta equipa que por qualquer circunstância, chega aos ouvidos ou aos olhos de alguém que tem determinado poder para fazer um convite. E é assim que surgem. Nomeadamente, por exemplo, quando surgiu a pandemia, em 2020 nós levávamos nessa altura nove anos seguidos de digressões internacionais em que passávamos anualmente 6, 7 meses fora de Portugal, 5, 6 meses em Portugal. E não foi nada que fosse estrategicamente conseguido. Foi muito orgânico. Foi acontecendo, foi acontecendo. E precisamente nesse ano de 2020 íamos ter mais seis meses e meio fora. Acabámos de fazer a primeira semana e voltar para casa e o resto das pessoas já sabem. Ou seja.

    Talvez você seja cada vez menos o David Copperfield português, mas cada vez mais um Luís de Matos que inspira outros Luís de Matos algures no planeta.

    Eu gostava de acreditar que sim. Eu acho que a primeira fase, essa primeira conotação, foi completamente circunstancial. Quando eu apareci ter programas no sábado à noite da RTP a fazer séries de 26 programas, a referência internacional que as pessoas tinham era a do David Copperfield e não tinham outra referência em Portugal.

    Portanto, é praticamente que aparece qualquer pessoa nesta área com uma visibilidade acrescida. A tendência é imediatamente dizer isso quase como se o único cantor internacional fosse o Michael Jackson e a única cantora portuguesa fosse a Dulce Pontes. As pessoas talvez dissessem que a Dulce Pontes é o Michael Jackson português. Isso não aconteceu porque nós conhecemos muitos cantores internacionais e porque conhecemos muitos portugueses. E ainda mais porque a Dulce Pontes era tão singular que jamais poderia ser comparada.

    Ora, essa singularidade em mim foi algo que foi sendo conquistada, como é evidente, e as pessoas foram tendo tempo de perceber que nós não éramos uma segunda versão do que quer que seja que acontecia no estrangeiro, mas estávamos de raíz a criar um percurso, a escrever a nossa própria matriz, à qual somos fiéis e continuamos a ser fiéis. Hoje em dia, que é fazer o que ainda não foi feito e superar-nos a nós próprios. É olharmos para cada coisa que fizemos no passado e tentar fazê-la melhor no futuro. Por exemplo, esta conferência de imprensa que fizemos foi melhor do que a última que pensámos fazer. É completamente fora da caixa. É isso que nos move e é isso que nos dá o entusiasmo necessário para fazer sempre aquele quilómetro extra.

    Ora, precisamente um projecto arrojado em Novembro e Dezembro aqui, de 7 de Novembro a 1 de Dezembro de 2024, no Foyer de Paris, com um elenco também muito prestigioso, Como é que se chega a este resultado final? Deu para perceber bem que são pessoas que você conhece sobejamente !

    Sim, somos muito amigos.

    Eles são absolutamente incríveis. Para contextualizar, nós em Portugal, começámos em 2018 um bocadinho como spin off de uma série de televisão que fizemos em 2017 este formato de Luís de Matos impossível ao vivo ! Que,basicamente é eu a fazer o melhor que sou capaz, mas tendo ao lado mágicos que admiro muito e que são de uma qualidade incrível e que trazem uma diversidade que é muito importante e que confere esse peso e essa qualidade ao espetáculo propriamente dito.

    Ora, quando decidimos que estava na hora de partilhar este produto, esta criação, e que ela estava suficientemente madura para poder concorrer com qualquer outra coisa que se faça em qualquer canto do mundo. Selecionei os meus quatro favoritos de todos aqueles que estiveram connosco até hoje. E, portanto, este cast: este elenco é incrivelmente poderoso !

    Dan Sperry... 

    Dos Estados Unidos, Aaron Crow da Bélgica, Yu Hojin, da Coreia do Sul e Norbert Ferré, de França. Campeões do mundo. Campeões da internet, sobretudo incrivelmente originais, incrivelmente talentosos e os cinco juntos... Aquilo que fazemos é proporcionar ao público que nos dá o benefício da dúvida e que virá , assim o esperamos, ver-nos ao Folies Bergère, dar- lhes uma variedade e uma qualidade de tal ordem elevada que não esqueçam essa noite que vão passar connosco !

    E que valha a pena, que valha muito a pena irem: as pessoas que gostam de magia, mas também aquelas que dizem "Ah não ! Eu detesto magia !" E muitas das pessoas, muitas vezes quando eu pergunto a pessoas que dizem não gostar de magia "Ah sim, mas quando é que viu um espetáculo ao vivo? As pessoas pensam, dizem "Bom, na verdade nunca vi !"

    Bom, então se nunca viu e é normal que tenha essa ideia preconcebida de que não gosta, por favor, dê-nos o benefício da dúvida ! Porque seguramente nós vamos mudar essa opinião e essa perceção é vão passar a ser espectadores habituais daquilo que nós fazemos. Porque sendo um espectáculo para toda a família, é um espectáculo em que ninguém faz frete ! Ou seja, não é um espectáculo em que os adultos levem as crianças, em que as crianças gostem muito e os adultos apanham seca. Mas também não é o contrário. Não é um espectáculo que os adultos procuram arrastar as crianças e gostam muito, os adultos e as pobres das crianças apanham elas um frete imenso de estar ali ! Não. Todos se divertem, todos levam alguma coisa para casa, todos vão aplaudir, arregalar o olho, sorrir e, sobretudo, é uma explosão de emoções muito variadas, numa espécie de montanha russa ao longo de duas horas em que literalmente as pessoas vão ver o que de melhor se faz na magia actualmente à escala global. Tudo num sítio, tudo numa hora e num dia determinado. Neste caso, durante o mês de Novembro, no Folies Bergère, em Paris.

    Porquê esta opção por Paris e pelo Folies Bergère?

    Olhe: Porque em 2016, no âmbito de um outro espetáculo, eu tive a oportunidade de estar no Folies Bergère durante um mês. Fiquei completamente apaixonado pelo teatro. Apaixonado pela cidade e, portanto, se há um sítio ao qual eu gostaria de regressar, mas com um espectáculo em nome próprio, é de facto aquela sala que me recebeu noutro contexto durante um mês e na qual eu me senti completamente em casa.

    Há coisas que nós não explicamos; há teatros que, de repente, geram em nós uma marca indelével e inesquecível dessa coexistência das paredes, das cadeiras, dos camarins, do palco, das cortinas. E eu fiquei absolutamente encantado com aquele mês de permanência naquela mítica sala de Paris !

    E foi um bocadinho egoísta da minha parte escolher o Folies Bergère porque nós não somos máquinas que entramos em qualquer palco e damos o nosso melhor. Somos pessoas e estarmos felizes e satisfeitos e orgulhosos do palco que estamos a pisar seguramente que tem repercussão naquilo que transmitimos ao público.

    Alguém que está super feliz de estar ali a partilhar o que gosta de fazer no sítio que o apaixona e a tentar merecer esse benefício da dúvida que, espero eu, os parisienses nos dêem quando estrearmos no Folies Bergère !

    16 min
  • Português Valério Romão com novas obras no mercado francês

    Valério Romão, embora nascido em França, vive desde criança em Portugal.

    Tem-se ilustrado na literatura com uma série de obras que têm vindo a singrar também no mercado francês.

    O lançamento da tradução francesa de "Dez razões para aspirar a ser gato", publicado em Portugal em 2015 pela editora Mariposa azual, e que agora chega ao mercado francês através da editora Chandeigne, foi um dos pretextos para voltarmos a falar com o autor.

    Valério Romão aqui em "Dix raisons de vouloir être chat" volta a ser traduzido por João Viegas, uma colaboração à qual o autor começa por se referir.

    Valério Romão: É sempre um prazer trabalhar com o João, porque ele é um tradutor exímio, muito interessado naquilo que faz e em perceber o que é que está diante dele. Não só em termos de linguagem, ou de semântica, ou gramatical, mas também em termos de estilo. Ele dá muita atenção à musicalidade e ao ritmo dos textos. E depois isso é muito fácil, porque há duas ou três dúvidas que surgem e rapidamente são dirimidas. E pronto, é um prazer !

    Que relação é que você tem ou teve com os felinos para optar pela escrita desta obra, nomeadamente ?

    Sou grande fã de gatos e tudo o que tenha a ver com gatos e achei que era uma forma engraçada e interessante de homenageá los literariamente, como tantos escritores já o fizeram.

    Pedir lhe ia para ter a amabilidade de nos ler um excerto. Você evoca dez razões, não é? Para efectivamente aspirarmos a ser gatos !

    Com prazer. Vou ler a primeira razão do primeiro conto deste livro:

    A gata passeia a sua indiferença elegante por entre as pernas dos convivas. A gata abre e fecha a bocarra de sono, recosta-se na almofada e avia, em silêncio, mais 06h00 de merecido repouso. Às vezes gostava de ser aquela gata distraída. Às vezes gostava que o meu único sobressalto ocasional adviesse de um cio incontrolável, um cio que me fizesse miar noites a fio, um desassossego de bicho, um cio que devolvesse aos donos a vontade secreta de um espancamento nocturno.

    Muito obrigado. Então nós evocamos aqui dez razões para aspirarmos a ser gato. Quer sintetizar-nos algumas delas ? Há uma razão oftalmológica, psicológica...

    Sim, basicamente o livro, embora, embora seja centrado nos gatos, o gato não está sempre em primeiro plano. O gato é um ponto de aplicação do desejo ou da frustração, ou da vontade de o humano de aspirar a uma vida mais simples ou com mais sentido. É uma espécie de espelho no qual o humano se vê e percebe que, embora seja aparentemente o ser mais completo ou mais avançado neste planeta, essa completude ou essa evolução não lhe traz a tranquilidade que os gatos têm, por exemplo.

    Nota-se, de facto, aqui a sua postura ligado à filosofia. Você é formado em Filosofia, tornou-se informático, chegou à escrita e dedica-se à escrita a tempo inteiro, enntão, desde 2017, como é que foi o encadeamento de circunstâncias para se chegar a este patamar da sua trajectória?

    Fui-me ajeitando com aquilo com que me deparando, não é? Eu tiro filosofia sabendo que não vou propriamente trabalhar em filosofia, acabo por ir parar ao mundo da informática por ter algumas competências de sistemas e tendo sempre no horizonte a vontade e a possibilidade de um dia dedicar-me só àquilo que gostava mesmo de fazer, que é a escrita. E quando isso aconteceu, embora tenha perdido alguma segurança e conforto financeiro, não posso dizer que esteja arrependido, porque fiz a única escolha que me pareceu possível.

    Não nos esgotamos neste livro "Dix raisons de vouloir être chat", a tradução para francês pela Chandeigne de "Dez razões para aspirar a ser gato" porque ao mercado francês chegou agora uma obra já traduzida do francês para português no passado. Refiro-me ao "Autismo", que estreou em 2012 em Portugal, mas em 2016 em França e que chegou agora ao formato de bolso, não é ?

    Em relação ao "Autismo", porque, eu sei, este livro tem muito de autobiográfico. É também, de alguma forma, o retrato da implosão de uma família. Um casal, o Rogério, a Marta, mas também várias gerações, inclusive a dos avós, em torno de uma criança autista que é o Henrique. Como é que foi escrever "Autismo" ? A primeira da sua trilogia das Paternidades Falhadas, da qual já falámos aqui sobre os dois livros que se lhe seguiram.

    Foi um livro relativamente inesperado porque eu ainda estava a trabalhar em informática e senti que já não escrevia há bastante tempo. Senti que precisava de voltar a escrever qualquer coisa, pelo que comecei a escrever aquilo que eu imaginava ser um conto que, depois, se transformou muito rapidamente num romance precisamente com elementos autobiográficos sobre o qual eu estive sempre preocupado porque não queria que fosse um registo de um diário.

    Mas quando terminei, fiquei relativamente satisfeito com o processo e com o resultado. Porque de facto não é um diário. E não é lamechas ?

    Acho que seria de facto fabuloso poder ouvir um curto excerto, então, da sua escrita no "Autismo".

    Claro. Este é do terceiro capítulo.

    O primeiro sítio a que Rogério acorreu foi ao balcão de informações do hospital, afogueado no pingo de uma corrida interminável que começara quando recebera da escola o telefonema em que lhe diziam, entre soluços e pedidos de desculpa, que o filho tinha sido atropelado e que seguira para o hospital de urgência numa ambulância que fazia gemer as sirenes para que se percebesse, nos cruzamentos e nos semáforos, a emergência vital da carga. No balcão de informações estava uma senhora de provecta idade a perguntar pela consulta de reumatologia. Rogério, inquieto, olhava por cima do ombro da mulher que, para além de ter problemas nas articulações do corpo, devia também já sofrer de alguma audição selectiva, pelo que obrigava a rapariga que padecia de uma espécie de olheiras de panda atrás do guichê, a repetir monocordicamente, mas cada vez mais alto que a reumatologia ficava no décimo piso, mesmo atrás do laboratório. E dizia isto de cada vez, como se lhe houvesse entrado um Sísifo na língua e a repetição fosse um karma impossível de ser interrompido no seu fluxo.

    Obrigado. O que é que lhe evoca se alguém pensar em Eugène Ionesco, no Teatro do absurdo, em relação aos universos que você constrói, por exemplo, nomeadamente em relação a tudo o que vai ocorrer no banco de urgências daquele hospital ?

    Sim, tenho uma dívida para com o absurdo e com o absurdo não só de Ionesco, mas de Kafka, de Gogol. Mas esta urgência é também uma espécie de Castelo de Kafka. Não é uma coisa de que se fala muito, mas não se chega lá, não se chega a entrar lá propriamente. E é um dispositivo que funciona bem no sentido de manter a tensão e deixar que o resto do romance vive de prolepse e de analepse se esprai à volta desta coluna vertebral que são as urgências e faça o resto do esqueleto do livro.

    E, portanto, quando escreveu o "Autismo", porventura não tinha ainda noção de que escreveria posteriormente "O da Joana" e o "Cair para dentro"; o segundo e o terceiro tomo, por assim dizer, desta trilogia das paternidades falhadas ?

    Eu sabia que queria escrever uma trilogia porque parecia me interessante explorar esse tema. Não sabia exactamente sobre o que é que seria.

    Como é que é agora voltar a estes livros que, graças à tradução e adaptação para outros mercados que não o português, tanto tempo depois. Portanto, volto a recordar que dez razões para aspirar a ser Gato já saiu em 2015, , portanto praticamente nove anos, e o "Autismo" em 2012.

    Sim, é engraçado porque algumas coisas envelheceram bem e outras nem por isso. Agora estava a ler e estava a ver o que é que estava ao mesmo tempo a pensar que havia coisas aqui que teriam de ser mudadas. Mas claro que não vão ser porque eu não vou reescrever um livro que está escrito. Mas. Mas na minha escrita, pronto, não será já exactamente assim.

    E como é que olha então para esta "segunda vida", em França do "Autismo", que tinha integrado a selecção final do Prémio Femina Estrangeiro de 2016 e que teve tradução de Elisabeth Monteiro Rodrigues.

    Acho muita piada porque, no fundo, somos todos muito semelhantes, não é? As pessoas vão fazendo perguntas. Quando tenho encontros com os meus leitores, acabam por ir fazendo perguntas que os leitores portugueses também fizeram. E acho muito interessante isso: haver essa comunidade de leitores, uns mais interessados no tema do autismo, outros mais interessados no tema da literatura, que acabam por partilhar perguntas muito semelhantes.

    Nos livros que comentámos anteriormente, tínhamos falado muito das conversas que tive precisamente com pessoas, por exemplo, que aspiravam a ser mães. No caso de "O da Joana", que é o nascimento de um nado morto. O "Autismo" falámos que tinha muito de autobiográfico na sua família. Você tem um filho que é autista. Foi também um assunto que comentou sobejamente com pessoas que partilhem consigo este dia a dia ligado ao autismo?

    Sim e não. Ou seja, acho que acabei por falar do livro e acabei por falar do tema, mas não partilhámos assim tanto.

    Mas na última vez que nos vimos você disse-me que estava a germinar um livro sobre uma epidemia de lesbianismo em Lisboa. Perguntar-lhe-ia, dois anos depois, em que pé que está este projecto ou porventura outros projectos que terão surgido ?

    Eu acabei por escrever uma centena de páginas de que não gostei. Portanto, estou à espera de ter algum tempo para mim, no sentido de ter dinheiro suficiente para estar uns meses sem precisar de trabalhar para voltar a ele, porque não o abandonei.

    13 min
  • “Simbiose” de Anésio Manhiça e Bruno Gomes alia fotografia à questão climática

    “Simbiose” é o nome da mais recente exposição de Anésio Manhiça e Bruno Gomes. Dois fotógrafos moçambicanos que aliam a fotografia à questão climática. A exposição abre ao público esta quarta-feira, 28 de Fevereiro e ficará patente no espaço cultural 16Neto, em Maputo, durante 30 dias.

    “Simbiose” é o nome da mais recente exposição de Anésio Manhiça e Bruno Gomes. Dois fotógrafos moçambicanos que aliam a fotografia à questão climática. A exposição confronta o Greenwashing e a crise ambiental.

    Catorze fotografias capturadas na cidade e província de Maputo que mostram os efeitos da poluição por plástico e vidro e as pegadas ambientais deixadas pela indústria.

    O olhar de Bruno Gomes e Anésio Manhiça questiona a ineficácia governamental, apela à necessidade de acção climática e à transparência corporativa em prol de um futuro sustentável.

    Em entrevista à RFI, Bruno Gomes explica que “Simbiose” é uma “exploração visual e crítica da tensão entre a beleza inerente à nossa natureza, ao nosso meio ambiente e a crescente poluição ambiental”. Anésio Manhiça acrescenta que “a exposição pretende ressaltar a desigualdade económica entre as multinacionais que, de alguma forma, são os que acabam promovendo esta poluição e a população que, de alguma forma, é tida como quem vai ajudar no processo de reciclagem, no processo de reciclagem, na redução da pegada ambiental, mas através de actividades do qual não garante grande sustento ou rendimento”.

    A ideia de uma exposição a duas objectivas surgiu de uma conversa entre os dois fotografos: “Eu e Bruno fomo-nos questionando sobre como é que o poder, o capitalismo e a ineficiência do Estado nos leva a adoptar práticas não sustentáveis? O capital tem o poder de moldar o consumo”, sublinhou Anésio Manhiça.

    A exposição “Simbiose” dos fotógrafos moçambicanos Anésio Manhiça e Bruno Gomes abre ao público esta quarta-feira, 28 de Fevereiro e ficará patente no espaço cultural 16Neto, em Maputo, durante 30 dias. Um convite à reflexão ambiental que pode ser visitado de forma gratuita.

    9 min
  • Revolução e fim da Guerra Colonial em "Liberdade - Portugal, lugar de encontros"

    No ano em que se assinalam 50 anos da revolução de 25 de Abril de 1974, "Liberdade - Portugal, lugar de encontros" é a exposição que reúne o trabalho de 28 artistas contemporâneos oriundos dos países de língua oficial portuguesa.

    A exposição tem curadoria de João Pinharanda e está patente na sede da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa.

    A exposição reflecte a multiplicidade de encontros só possíveis com o derrube da ditadura em Portugal e o fim da Guerra Colonial.

    Pintura, fotografia, escultura, serigrafia, azulejo e tapeçaria são as técnicas utilizadas para a produção de obras que partem de uma circunstância histórica concreta mas que se tornam universais.

     

    Lista de artistas expostos:

    Abraão Vicente

    Alexandre Farto aka Vhils

    Alfredo Cunha

    Ana Marchand

    Ângela Ferreira

    António Ole

    Carlos Noronha Feio

    Cristina Ataíde

    Emília Nadal

    Eugénia Mussa

    Fidel Évora

    Francisco Vidal

    Gonçalo Mabunda

    Graça Morais

    Graça Pereira Coutinho

    Herberto Smith

    Joana Vasconcelos

    José de Guimarães

    Keyezua

    Manuel Botelho

    Mário Macilau

    Nú Barreto

    Oleandro Pires Garcia

    Pedro Chorão

    Pedro Valdez Cardoso

    René Tavares

    Vasco Araújo

    Yonamine

     

    Moradas:

    UCCLA - Avenida da Índia, n.º 110 - Lisboa

    CCCV - Rua de São Bento, n.º 640 - Lisboa

    Horários:

    UCCLA - 8 de fevereiro a 10 de maio de 2024

    Segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas

    12 min
  • Projecto português que mostra laços entre as mulheres e o mar quer chegar a Cabo Verde e ao Brasil

    O projecto "Mulheres do Mar" quer mostrar a ligação profunda entre as mulheres e o mar, dando origem inicialmente a curtos documentários em que diferentes mulheres falam sobre os seus laços com os oceanos, e agora a uma rede de mulheres que trabalham, vivem e pensam o mar um pouco por todo o Mundo.

    Entre o receio e o respeito, na história contemporânea, as mulheres foram sempre afastadas do mar, sendo muitas vezes postas em segundo plano face a intrépidos conquistadores, pescadores, pesquisadores ou desportistas masculinos. A ONG portuguesa Help Images, através do documentário "Mulheres do Mar", quer mudar esta ideia pré-concebida e dar a conhecer a relação profunda entre as mulheres e o mar.

    "Se calhar o mar nunca foi um assunto só de homens, mas as mulheres não falavam da sua relação com o mar. Não era algo promovido nem era bem visto as mulheres irem ao mar, por exemplo, mas o nosso projecto centrou-se em falar com mulheres que tinham uma paixão pelo mar, independentemente do seu trabalho", explicou Raquel Martins, fundadora e dinamizadora deste projecto, em entrevista à RFI.

    Assim, entre as 600 mulheres já entrevistadas para este documentário estão biólogas marinhas, investigadoras oceanográficas, pescadoras, surfistas, peixeiras, mas também tradutoras, políticas, professoras ou jornalistas.

    Para já, este projecto inclui apenas mulheres portuguesas - cerca de 600 -, mas Raquel Martins quer expandir esta rede de mulheres a Cabo Verde, Brasil ou Canadá e, sobretudo, pôr em contacto todas as mulheres que querem falar do mar.

    "Já temos uma parceria com a UNESCO, temos também no Canadá, já falámos com a literacia oceânica daqui e de Cabo Verde e, portanto, também estão interessados em participar. Nós estávamos com dificuldade porque não tínhamos financiamento para ter um CRM [ferramenta de comunicação entre todas as mulheres entrevistadas] e a Secretaria de Estado para a Igualdade de Portugal deu-nos o financiamento para podermos continuar a desenvolver essa ferramenta", explicou.

    A RFI entrevistou Raquel Martins na UNESCO, em Paris, onde esta activista veio falar sobre o projecto Mulheres do Mar, no contexto da importância da igualdade de género no combate às alterações climáticas e onde afirmou que o lugar das mulheres na preservação do oceanos é essencial.

    "As mulheres são cuidadoras e quando vemos em risco aquilo que nós amamos, quer seja a nossa família, a nossa comunidade ou o nosso oceano, nós trabalhamos afincadamente e com toda a nossa criatividade para protege-lo", concluiu.

    10 min
  • Museu do Homem mostra como descoberta de pinturas e gravuras rupestres abalou o século XX

    O Museu do Homem, em Paris, mostra como a descoberta de pinturas e gravuras rupestres abalou o início do século XX não só no âmbito da Ciência, mas também nas Artes e, sobretudo, na maneira como os homens primitivos eram vistos. A comissária da exposição, Egídia Souto, fez uma visita guiada, em exclusivo, para a RFI.

     

    Até ao século XX nada se sabia no Mundo Ocidental sobre a faceta artística dos nossos antepassados. Graças a figuras como Henri Breuil ou Leo Frobenius, e às suas investigações no terreno, a sociedade dos anos 30 começou a interrogar-se sobre não só o que faziam, mas quem eram, o que sentiam e o que interpretavam artisticamente os primeiros homens que desenhavam nas cavernas.

    Esta mediatização das pinturas e gravuras rupestres e o frenesim que provocou na época está patente no Museu do Homem, em Paris, através da exposição Pre-Histomania que pode ser vista até ao dia 20 de Maio.

    A comissária da exposição. Egídia Souto, professora de literatura e historia da arte africana na Sorbonne, faz-nos a visita guiada a um passado mais próximo do que imaginamos.

    "É uma exposição que retrato o percurso humano, de homens e mulheres, que acompanharam um etnólogo alemão, Leo Frobenius, que realizou 12 missões no início do século XX e que o acompanharam para fazer os levantamentos, fazer cópias, de grutas ou paredes rochosas onde havia pinturas da Pré-História. Copiaram-nas em tamanho real e trouxeram-nas para a Europa. Desde muito cedo, essas repoduções foram mostradas em mais de 30 cidades", explicou.

    Na primeira sala, as paredes estão cobertas de grandes desenhos na Vertical e horizontal. É a escala das diferentes grutas exploradas pela equipa de Leo Frobenius. Egídia Souto falou-nos das mais significativas encontradas nas missões ao Zimbabwe, África do Sul e Lesotho.

    "As grutas viajam muito mal. Até ao início do século XX, a pré-história resumia-se a cilex ou a pedras, então Leo Frobenius pediu às equipas para copiarem e era a primeira vez que se via o que havia nessas paredes", disse a académica.

    Assim, depois de localizar as gravuras ou pinturas, a equipa tinha a tarefa de lá chegar. Muitas destas mulheres e homens, a maior parte muito jovem, tinham de aceder a grutas ou penhascos escalando ou caminhando longos período na floresta ou no deserto. Estas reproduções efetuadas na maior parte das vezes em condições adversas, são hoje o único registo do que existia nessas paredes, já que muitos destes lugares hoje já não existem.

    Se muitas missões levaram a equipa de Leo Frobenius ou de Henri Breuil para longe, outras fizeram-se na Europa. Uma das mais significativas foi à gruta de Alta-Mira, em Espanha, com os contemporâneos destes académicos a não acreditarem à primeira que os homens primitivos eram capazes de produzir arte com tanto detalhe e delicadeza.

    Egídia Souto explicou quem era afinal Leo Frobenius e qual o impacto das suas descobertas na Ciência, mas também nas artes e na percepção em geral do início da Humanidade.

    "Leo Frobenius não era um especialista da pré-história, ele vai para África para fazer uma recolha de mitos e, desde logo, ele tem consciência que estes lugares [cavernas e/ou paredes com pinturas e gravuras] têm de ser copiados e preservados porque estão destinados a desaparecer", contou.

    Um pioneiro, mas também um alemão, algo muito importante temporalmente já que em 1933 Adolf Hitler sobe ao poder e seis anos mais tarde começa a Segunda Guerra Mundial. O estudo do homem primitivo e a anatomia comparada serviram de arma ao regime nacional socialista em Berlim para manipular a opinião pública alemã e comprovar, através de teorias enviesadas, a supremacia da raça ariana.

    Mesmo se Leo Frobenius foi dos primeiros estudiosos a falar sobre as civilizações africanas, mapeando os usos, costumes, mitos e arte de diferentes povos no continente, de forma a garantir a transparência sobre quem foi este homem e a sua proximidade ou não ao regime alemão, os comissários da exposição pediram uma avaliação independente sobre o envolvimento de Frobenius com os partidários do nazismo.

    "Ele não era simpatizante, mas não se metia em questões políticas", explicou Egidia Souto.

    As imagens de Frobenius deram a volta ao Mundo e foram mostradas no anos 30 no próprio Museu do Homem, em Paris, mas também no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. Estima-se que mestres do século XX como Picasso ou Miró tenham visto estas imagens e se tenam inspirado para as suas próprias obras. 

    Estão recenseadas atualmente no Mundo cerca de 45 milhões de pinturas e gravuras rupestres, espalhadas por 160 países e há constantemente novas descobertas. Os métodos de estudo hoje estão muito longe dos decalques ou reproduções feitas pelas equipas de Henri Breuil ou Leo Frobenius, com recurso a tecnologia de ponta para estudar estas imagens. No entanto, o objetivo continua a ser o mesmo, não deixar que estas imagens desapareçam.

    E, para isso, os artistas continuam hoje a interpreta-las, com a exposição a terminar com dois quadros de artistas contemporâneos: o senegalês Abdoulaye Diallo e a portuguesa Graça Morais.

    A exposição Pre-histomania está patente até 20 de Maio no Museu do Homem, em Paris. 

    22 min
  • "Natália Correia dialoga, reage e subverte a censura salazarista"

    O livro "O Vestíbulo do Impossível" de Natália Guerellus já se encontra nas livrarias francesas e percorre a obra de Natália Correia num plano social e político de uma mulher que escreve na segunda metade do século XX , cuja escrita vai emancipar o universo feminino. "Natália Correia foi a escritora mais censurada do regime salazarista", lembra a autora.

    Poetisa, activista política e defensora dos direitos das mulheres, Natália Correia foi tudo isto e muito mais. Nasceu em 1923 na ilha de São Miguel, nos Açores, marcou a segunda metade do século XX por ser carismática e combativa, por não ter medo de assumir posições que abalaram preconceitos enraizados e desafiaram as convenções.

    Natália Correia nasceu nos Açores em 1923, aos 11 anos vai viver para Lisboa. Foi jornalista na Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Activista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela "Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica".

    Foi publicado pela editora francesa Poisson volant  o livro "O Vestíbulo do Impossível" sobre o género, a literatura e a política na vida ena obra da poetisa portuguesa Natália Correia. O título do livro inspira-se numa estrofe do poema "A defesa do Poeta", no qual Natália Correia escreve:"Sou um vestíbulo do impossível um lápis de armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos espero viver dentro de mim". 

    A escritora Natália Guerellus percorre a obra de Natália Correia e levanta a questão: o que significa escrever num regime autoritário? "Natália Correia foi a escritora mais censurada do regime salazarista. Ela não só escreve sob o regime autoritário, mas não deixa de escrever como muitos outros autores e autoras vão fazer. Ela dialoga, reage e tenta subverter essa censura e a perseguição. É uma resistente", descreve a autora brasileira.

    Há três preocupações que vão acompanhar Natália Correia ao longo da vida, o género, a literatura e a política. "Esta foi uma das formas que ela encontrou para confrontar a ditadura. Talvez tenha sido a forma mais utilizada por Natália Correia até aos anos 70, através das provocações em torno das questões de género. Não só no que diz respeito à mulher, como à sexualidade e ao erotismo. São temas que vão tocar outras correntes como o surrealismo", explica.

    A escritora lembra que Natália Correia foi uma pioneira na literatura feminina pelo facto de abrir "caminhos para a literatura feminina em Portugal, principalmente no contexto político fechado". "A Natália Correia é um objecto infinito e este trabalho foi um pontapé para que se interessem nela no contexto francês. Não é um trabalho exaustivo, pelo contrário dá uma ideia do que [ainda] pode ser feito. A literatura dela é prolífera, o que pode ser feito e estudado sobre a escrita e a vida de Natália Correia é infinito", acrescenta Natália Guerellus.

    A Natália Correia é lembrada como uma figura polémica. "Existe um momento na transição da ditadura para a democracia em que ela se engaja politicamente e passa a ter uma presença dentro da Assembleia, mas também foi criticada pela extrema-esquerda, tornando-se uma figura ambígua e foi esquecida. Volta a ser lembrada no século XXI, o espólio dela vai para os Açores e ainda há muito por se dizer sobre a Natália Correia. Ela deixou um marco na história de Portugal, deixou a luta pela liberdade, que é uma marca da escrita dela", concluiu.

    15 min
  • Fado Camões, o novo trabalho de Lina Rodrigues

    Lina Rodrigues está de volta. Fado Camões é o novo trabalho da fadista, um álbum que, tal como o nome indica, explora a poesia de Luís Vaz de Camões e que conta com a colaboração do produtor e músico britânico Justin Adams.

    Há três anos, Lina Rodrigues e o produtor e músico Raül Refree apresentaram ao mundo uma nova forma de “sentir” e tocar o fado, na altura um [trabalho] em torno do repertório de Amália.

    A 13 de Janeiro, o jornal Le Monde nomeava Lina Rodrigues como uma das 12 personalidades a não perder em 2024. Nesse mesmo artigo sublinhava a intensidade arrebatadora do fado da artista portuguesa que "empresta a sua voz ao poeta Luís de Camões", “o príncipe dos poetas”, como lhe chamou o Télérama, que acrescenta que o "seu fado é encantador". 

    Este álbum será apresentado a 30 de Janeiro, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Posteriormente, há uma digressão e essa digressão passará por França, por Paris, pelo Studio de l'Ermitage, a 15 de Março.

    Começo, precisamente, por lhe pedir para me descrever Fado Camões.

    Este álbum reúne a lírica de Camões com os fados tradicionais. A lírica de Camões, não são propriamente 'Os Lusíadas', mas também os sonetos. Os sonetos são versos que Camões fez, que tem, a meu ver, a estrutura ideal para os fados tradicionais e, por isso, decidi juntá-los não só pela sua estrutura, mas também pela temática que o Camões utilizou nos seus poemas, que estão completamente ligados à ao fado.

    Os amores e desamores de Camões…

    Os amores e os desamores e as questões sobre sobre o mundo. O  questionar-se a si próprio, os amores de infância, os amores de criação, todos esses sentimentos que são actuais.

    Porquê Luís Vaz de Camões? Já havia esse interesse? Como é que surgiu este olhar diferente para a poesia de Camões?

    Surgiu ainda em concertos com o Raül Refree. Eu termino um trabalho e começo logo a pensar no que é que poderei fazer a seguir. Queria, sempre quis, que os meus álbuns tivessem um conceito que não fosse só gravar músicas avulso, mas que houvesse um fio condutor que fizesse ligação entre as músicas. No fundo, uma obra e não apenas um disco de música.

     Quando me deparei com a biografia da Amália Rodrigues, li que Amália considerava Camões o maior fadista que existe e que Camões não era para estar fechado numa gaveta, nem numa estante.

    Essa ideia ficou aí a ser “cozinhada”?

    Ficou a ser cozinhada. Fui pesquisar um bocadinho mais sobre a lírica de Camões e percebi que, de facto, tem toda a ligação com com o fado tradicional e com a temática do fado tradicional.

    O que é que foi necessário para esta adaptação das letras de Camões, dos poemas a esta composição? Vi que tinha trabalhado com a Amélia Muge neste processo.

    Sim, a Amélia Muge foi o meu braço direito, o meu apoio neste trabalho. Fico feliz por ela pertencer ao meu universo e a este universo da música, que me tem apoiado bastante e acima de tudo, que me tem incentivado a não desistir.

    Houve momentos em que pensei: se calhar, não consigo fazer isto, não consigo fazer isto sozinha. E a verdade é que houve alguns momentos em que eu consegui fazer sozinha. Um trabalho de introspecção e de sentir ao mergulhar na lírica de Camões. Eu emocionei-me ao ler os versos do Camões e se essa emoção existe no presente, porque não trazer a tradição e o passado dos versos do Camões para o futuro?

    Em relação à forma, como é que foi feito todo o processo, qual é que foi o critério? Foi, no fundo, um trabalho estrutural de juntar versus de quintilhas, sextilhas, quadras, sonetos… folhear um livro da lírica de Camões e - como sou conhecedora dos fados tradicionais - cantá-los, à medida que vou lendo os versos, assim percebia se havia musicalidade ou não.

     A forma como os versos encaixavam na estrutura do fado tradicional?

    Exatamente.

    Uma das novidades deste álbum é a colaboração com o produtor e músico britânico Justin Adams. O que é que o Justin Adams traz a este disco? 

    Ele traz, também, esta sonoridade da música árabe, porque ele viveu a infância com o pai no Egipto. Traz também as influências africanas… A meu ver, era o produtor ideal, uma vez que eu queria gravar a lírica de Camões e, por isso, passar pelos locais onde ele esteve, na Índia, em África, na Galiza. 

    Foi óptimo trabalhar com ele, tive a oportunidade de fazer também parte, de certa forma, da produção deste álbum. É uma pessoa super generosa e de muito fácil trato, muito bem-disposto.

    O que é que Justin Adams sabia sobre o fado e sobre a Lina?

    Ele sabia muito pouco, não sabia muito sobre fado. Aliás, tanto o Justin Adams como o John Baggott assustaram-se um pouco, porque o fado tradicional tem dois acordes, três no máximo… e pessoas com tanta musicalidade, onde a música é tão rica de acordes e harmonias, o fado é uma música simples.

    Então, a questão deles era, como é que nós vamos adornar, como é que vamos fazer para que seja diferente, tenha musicalidade, seja apelativo e sentimental, emocional. Mas perceberam logo no primeiro dia de estúdio que era possível com apenas dois ou três acordes que se sentisse essa emoção.

    Foi um trabalho emocionalmente enriquecedor.

    Já no seu trabalho anterior quebra algumas amarras do fado tradicional. Neste álbum vai nessa continuidade. Há uma necessidade de dar uma nova roupagem ao fado? 

    Não tem a ver com dar a nova roupagem, a ver com a liberdade no canto. Aquilo que sinto quando ouço e quando ouço aquilo que fiz até agora, tanto com o Raul Rëfree como agora, neste álbum. 

    Sinto que é uma necessidade minha de sentir os espaços entre a voz, sentir os ambientes mais do que até quais é que são os instrumentos, se é piano, se não é piano, se é guitarra, se não é guitarra. Acho que eu vejo a música como um todo. 

    Essa é minha necessidade de sentir que estou a cantar à capela muitas vezes, é proporcionada por estes momentos de silêncio e de saborear as palavras.

    No fado, a importância da palavra é enorme. Por isso, tenho esta necessidade de me sentir livre a cantar.

    “O que temo e o que desejo” é interpretado com Rodrigo cuecas, como é que chegou a esta a esta colaboração?

    Eu já conhecia o Rodrigo Cuecas, o primeiro trabalho dele foi produzido pelo Raul Rëfree e tive a oportunidade de ver um concerto dele no museu de Oriente, em Lisboa. 

    Conheci-o pessoalmente e depois isto surgiu naturalmente.

    Pelo facto de Camões ter escrito em galaico-português, remeteu-me à Galiza e à música tradicional. Pensei no Rodrigo Cuevas, uma vez que ele tem este interesse e é mestre na música folclórica e na música tradicional. Ele é asturiano e, portanto, fazia todo o sentido convidar o Rodrigo Cuevas. Felizmente, ele aceitou. 

    Este poema é a junção de dois poemas, um em português e outro em galaico-português, que eu descobri e que fala sobre o desejo e aquilo de que tenho medo. 

    Acho que fazia todo o sentido fazer uma ligação entre a vida e a morte. E foi uma óptima junção. Foi muito bom trabalhar com ele em estúdio, ele é fantástico.

    A 13 de de Janeiro, o jornal Le Monde dizia que a Lina era uma das 12 personalidades a não perder em 2024, nesse mesmo artigo, sublinhava “a intensidade arrebatadora do fado da artista portuguesa, que empresta a sua voz ao poeta Luís Vaz de Camões”, a quem o Télérama, também em Janeiro, designou de o “príncipe dos poetas” e acrescentou que o fado da Lina é “encantador”. Como é que olha para esta crítica?

    Eu não lido muito bem com elogios, fico envergonhada. Obviamente que fico extremamente feliz com todos estes elogios e espero, de facto, merecê-los e continuar a merecê-los e, no fundo, fazer aquilo que sinto.

    Não faço as coisas a pensar nas críticas, boas ou más, eu faço aquilo que faço porque sinto, porque quero ir por ali, porque é esse o caminho que eu acho que devo seguir e são essas as minhas convicções na música. Estes elogios são, para mim, gloriosos. Fico muito feliz.

    17 min

About Artes

From the publisher's feed

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

More shows like Artes

Semana em África by RFI Português

Semana em África

0 Listeners

Em linha com o correspondente by RFI Português

Em linha com o correspondente

0 Listeners

Em directo da redacção by RFI Português

Em directo da redacção

0 Listeners

Ciência by RFI Português

Ciência

0 Listeners

Convidado by RFI Português

Convidado

0 Listeners

Revista de Imprensa by RFI Português

Revista de Imprensa

0 Listeners

Em linha com o ouvinte / internauta by RFI Português

Em linha com o ouvinte / internauta

0 Listeners

16h00 - 16h10 GMT by RFI Português

16h00 - 16h10 GMT

0 Listeners

Vida em França by RFI Português

Vida em França

0 Listeners