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O músico guineense Nino Galissa quer universalizar o instrumento musical guineense Kora através da escola de música que criou. Com vista a salvaguardar esta herança cultural, o músico tradicional tem vindo a ensinar o instrumento às crianças e jovens do Bairro Militar, em Bissau.
Nino Galissa "sonhou" com o projecto de criar uma escola de música de Kora nos últimos anos para garantir a continuidade e a transmissão deste instrumento guineense. Tradicionalmente, o ensino de Kora acontece por transmissão no seio da família, mas a tradição começou a perder-se e Nino Galissa resolveu criar uma escola de Kora e dedica-se à construção do instrumento tradicional guineense.
Foi no antigo Império de Gabú que nasceu o instrumento típico da Guiné-Bissau. A Kora existe há mais de 300 anos e na altura os que tocavam as cordas tinham por missão preservar as tradições, iluminar a história, glorificar a realeza do povo.
No passado mês de Dezembro, o espaço em construção da escola de música de Nino Galissa estreou com um concerto que juntou no palco jazz português e música tradicional guineense, no bairro militar de Bissau. "Um encontro natural" que juntou a formação artística de Nina Galissa e quatro músicos portugueses de jazz.
Nino Galissa nunca imaginou poder inaugurar o espaço da escola de música em construção tão cedo, conta-nos o músico.
A Kora é formada por 21 cordas, tem uma caixa de ressonância feita de cabaça e as cordas eram originalmente feitas de pele de antílope. O instrumentista usa apenas o polegar e o indicador para dedilhar as cordas da Kora, enquanto os outros dedos seguram o instrumento.
A peça “Bate Fado”, da dupla Jonas & Lander, é apresentada na Maison de la Danse de Lyon, no âmbito do lançamento, em França, das comemorações dos 50 anos da “Revolução dos Cravos”. Em palco, nove intérpretes - entre bailarinos, músicos e um fadista coreógrafo - resgatam a dança que o fado perdeu no século XIX para a devolver ao universo coreográfico do século XXI. Jonas & Lander abanam a catedral do fado conservador e deixam as portas escancaradas a uma festa pagã, onde todos são convidados.
RFI: Cinquenta anos depois do 25 de Abril, “Bate Fado” é muito libertador. O que é que representa simbolicamente este espectáculo, quando o fado ficou tão agarrado à imagem da ditadura de "fado, futebol e Fátima"?
Lander Patrick: Eu acho que o fado sofreu de uma grande questão que foi ser instrumentalizado pelo regime. Ele tinha uma certa vitalidade que foi transformada para ir de uma maneira mais alinhavada com os ideais ou com o que se tentava perpetuar pelo regime – e por António Ferro que era o principal responsável pela maquinaria cultural e pela propaganda cultural do Salazar. Mas claro que não foi só a partir daí que o fado sofreu alterações. Ele tem vindo a sofrer, mas ficou mais evidente no período em que houve certas características, como ter que se aprovar que letra é que se vai cantar, ter que se cantar de preto, uma série de características que aí ficaram muito vincadas.
Mas ele já tinha vindo a sofrer alterações, tanto que a gente deixa de ver registos sobre a dança de fado a partir, mais ou menos de 1910, portanto, muito antes da ditadura. É um período em que estamos ali a entrar na queda da monarquia, gripe espanhola, primeira guerra mundial. Ou seja, se pensarmos que aquilo era uma manifestação praticada nas periferias, em lugares perigosos, uma possibilidade é que simplesmente se tenha dissolvido.
Jonas Lopes: Este projecto fez-nos entrar num mundo de danças proibidas e perseguidas pelo sistema, o que acontecia muito recorrentemente nesta época, principalmente com as danças que tinham algum cariz afro e de escravos. No Brasil, ainda há um grupo que dança uma música chamada fado e essa dança é dançada em cruz, com sapateado e palmas, tal como nos registos, para se poder dançar nos dias festivos e nos dias religiosos. Supostamente os tambores também foram proibidos e o sapateado veio marcar o ritmo porque já não estavam de pé descalço, estavam com um tacão.
Na ditadura, o que aconteceu foi que eles perceberam que não ia dar para extinguir o fado e realmente instrumentalizaram-no de uma forma muito subtil, como fizeram também com o folclore. Por exemplo, os fadistas e os guitarristas para poderem tocar em público, eles tinham que ter uma carteira de fadista profissional, ou seja, isto já ajudava o regime a ter as rédeas nas coisas porque as letras tinham que ser declaradas ao início da noite; a questão do preto tinha muito que ver com a elegância porque nos bairros problemáticos, onde havia fado, eles não se vestiam de preto, vestiam-se com cores e padrões e patilhas. Na ditadura, o que aconteceu foi mais isto: a instrumentalização do fado e do folclore e teres que ter uma carteira profissional de um júri do Estado que dava as carteiras profissionais. O fado que nos chega hoje é um bocadinho a herança disso.
O facto de vocês, de certa forma, devolverem o carácter subversivo ao fado, 50 anos depois do 25 de Abril e cerca de 100 anos depois de ele ter perdido esse carácter festivo, significa também que vocês são, de certa forma, os filhos da “Revolução dos Cravos”?
Lander Patrick: Eu acho que todas as pessoas que usufruem da democracia, como a temos agora, são filhos de uma luta, não é?
Mas há a liberdade de criar e há a liberdade de ser subversivo e de devolver o lado, se calhar, mais pagão a coisas que até agora eram quase santificadas, como o fado...
Jonas Lopes: Exacto e essa pergunta que fazes vem muito de acordo com quando nós estávamos a criar, eu sentia mesmo que estava a criar com outra entidade que não o Lander e que era o fado. Éramos três na sala e eu acho que todas as músicas que são tão antigas e que representam tantas histórias e tantas vozes e tantas vidas de um local específico, normalmente devem ser mexidas com algum cuidado e respeito - e eu faço isso - mas a arte é o símbolo máximo da liberdade e tudo o que eu faço é numa perspectiva de expansão e de questionamento em relação a isto, a que fado é este.
Justamente, que fado é este? De onde é que surge a dança do fado?
Lander Patrick: O geógrafo Baldi está a visitar o Brasil, nas primeiras décadas de 1800. Ele está a passar por lá e relata o que está a acontecer ali no Rio de Janeiro. Relata que à noite, nas soirées, as pessoas se encontram e dançam, caranguejo, maxixe, fado. Ele começa a descrever o que é o fado, como é que é a dança, como é que ela se processa. Podemos dizer que o primeiro registo é esse, não podemos dizer que o fado nasceu no Brasil, não sabemos. É uma incógnita e acho que é até bonito não saber. O que é importante saber e o que é importante reivindicar aqui é que várias culturas contribuíram para isto que temos hoje.
E a parte da dança?
Jonas Lopes: A dança do fado sobreviveu no Brasil, está quase a extinguir-se, mas há um grupo em Quissamã e se puserem fado quissamã no YouTube, por exemplo, encontram coisas deste fado dançado do Brasil. Quem se interessa minimamente por fado, vai logo ler os dois primeiros livros de história do fado, que é "A Triste Canção do Sul" e "História do Fado" e esses dois livros começam a falar do fado pela dança. Há, inclusive, um em que os primeiros capítulos são dedicados à dança. Ao longo desses livros, fala-se com muita naturalidade: “a não sei quantas era muito boa a cantar e a bater o fado...”
E a expressão "bater o fado", de onde vem?
Jonas Lopes: Da percussão, tem a ver com o bater pé no chão. É uma coisa também muito ancestral ao ser humano e muito ligado ao ritual que o fado também perdeu. Ou seja, este projecto realmente levanta essa questão: o que é que o fado perde ao perder a dança? Primeiro, perdes a percussão porque a dança era um instrumento de percussão. Depois perdes a dança. Numa noite de fados, por exemplo, ter alguém a suar ou que acabou de dançar ou, como temos hoje em dia, toda a gente sentada e estática, isto também cria um ambiente completamente diferente no meio do fado.
Entretanto, o bater com o pé no chão é uma coisa muito ancestral e muito ritualística. O que é que se perdeu ao deixar de se bater o pé no chão ao som do fado? A Raquel Tavares, por exemplo, às vezes, a cantar ainda faz muito isso, bater com o pé no chão, a própria Ana Moura, a Lenita Gentil, há muitas fadistas, especialmente as mulheres, que ainda têm essa reminiscência de bater com o pé no chão.
Além do fado cantado e do fado batido, vocês fazem sapateado e dança contemporânea. Como é que conseguem cruzar estes dois mundos aparentemente paradoxais da dança e do fado, assim como o mundo conservador e o absolutamente contemporâneo e transgressivo?
Lander Patrick: Eu acho que foi através das descrições dos registos históricos que nos permitiram aceder a esta profusão de coisas. Foi a partir daí que nós conseguimos cruzar estes papéis promíscuos de que a pessoa que está a tocar levanta-se e dança, a pessoa que canta pega na guitarra, essa coisa meio obscura de os papéis não serem claros. Então isso ajudou-nos também a configurar o espectáculo nesse sítio meio pantanoso. O Jonas é fadista, mas depois ele está a dançar. Ou seja, os registos também nos ajudaram a desmantelar aquilo que a gente já tem meio que congelado que é o fado.
Jonas Lopes: Nós já éramos coreógrafos e criadores antes. Desde 2012, 2011, começámos a trabalhar juntos – a data oficial é 2013, mas nós começámos a trabalhar muito antes de estrear a primeira peça. O “Bate Fado” vem depois do COVID. Ou seja, passou uma década em que nos estavam constantemente a perguntar porque é que nós não juntávamos o mundo contemporâneo ao fado e um projecto com fado porque sabiam que eu também era fadista e que o Lander também era músico. Então, isto era quase inevitável de acontecer. O fio condutor que descobrimos foi o fado batido e o sapateado porque tudo o que vimos de dança com fado achávamos que não tinha relação directa ou que estava meio desconectado.
Lander Patrick: Ou então era demasiado directa, ou seja, a dança mimetizava a nostalgia do fado e ajudou-nos ver que as descrições das danças do fado eram um oposto. Então, temos dois pólos de tensão, como tens no samba - tens uma batucada alegre e tens uma letra triste. Isso cria uma densidade enorme. Quando o Jonas estava a perguntar o que é que o fado perde ao perder dança, eu acho que ele perde densidade porque ao puxar os diferentes pólos, como a dança vulcânica com a melancolia que é fortíssima no fado, crias uma profundidade. Isso ajudou-nos muito.
O Jonas é também fadista, é bailarino, é coreógrafo e, no fundo, está a devolver a dança ao fado. Inventou, de certa forma, o conceito de fadista coreógrafo?
Jonas Lopes: Não, já existia um fadista coreógrafo - pelo menos que eu conheça - e há várias fadistas, por exemplo, que fazem flamenco ou danças de salão. Há muita gente no fado ligada à dança, principalmente as mulheres, e um interesse também muito forte por parte de fadistas e de músicos. Por exemplo, os colegas que estão comigo aqui, fadistas de guitarra, eles já tinham falado comigo, tinham esse interesse na dança, muitos deles vêm das tunas, onde a dança, a música e tocar ao mesmo tempo é uma coisa muito constante, é uma coisa tão presente na nossa cultura. E não, eu não inventei o coreógrafo fadista [risos]. Mas não há muitos, eu só conheço um.
“Bate Fado” sobe ao palco da Maison de la Danse, a 11 e 12 de Janeiro de 2024.
A Associação de Cinema Audiovisual de Cabo Verde entregou esta terça-feira, 09 de Janeiro, os prémios monetários aos vencedores do concurso de filmes universitários. Em entrevista à RFI, Júlio Silvão Tavares, o presidente da Associação de Cinema Audiovisual de Cabo Verde sublinhou a importância dos prémios agora atribuídos e de ter no mesmo palco “a geração dos iniciados” e a “geração dos consagrados”, de forma a influenciar os mais novos para a área do cinema e audiovisual.
A Associação de Cinema Audiovisual de Cabo Verde entregou esta terça-feira, 09 de Janeiro, os prémios monetários aos vencedores do concurso de filmes universitários referentes ao ano lectivo de 2022/23.
Na mesma cerimónia, a ACACV distinguiu os realizadores e produtores Yuri Ceunick, Natasha Craveiro e Samira Vera-Cruz pelos feitos a nível internacional em diferentes festivais.
Em entrevista à RFI, Júlio Silvão Tavares, o presidente da Associação de Cinema Audiovisual de Cabo Verde sublinhou a importância dos prémios agora atribuídos e de ter no mesmo palco “a geração dos iniciados” e a “geração dos consagrados”, de forma a influenciar os mais novos para a área do cinema e audiovisual.
Desde há oito anos que a Associação de Cinema Audiovisual de Cabo Verde aposta na formação de jovens para a realização de filmes com telemóveis.
Pretendemos a democratização do cinema e do audiovisual no país através do telemóvel, tendo em conta as dificuldades em adquirir equipamentos de melhor qualidade.
Na formação de 18 horas damos a noção geral de como se desenvolve uma ideia, como se faz um roteiro, como se faz um guião, como desenvolver o guião, como construir planos de filmagens, como gravar som, tudo com telemóvel.
Questionado sobre o estado do cinema cabo-verdiano, Júlio Silvão Tavares responde que o financiamento continua a ser o “calcanhar de Aquiles”.
O nosso cinema, ainda, continua a dar os primeiros passos. Nós, hoje em dia, já temos a regulamentação do mercado, com a lei do cinema.
Mas a nossa produção ainda é incipiente porque ainda temos dificuldades de financiamento que é o "calcanhar de Aquiles" no nosso país. Apesar da importância do cinema e do audiovisual em todo o processo de desenvolvimento do país e do homem, ainda não se vislumbra a possibilidade de ter, pelo menos, um carinho maior por parte dos decisores.
A Orquestra Sinfónica de Angola quer recuperar instrumentos tradicionais e resgatar a herança musical do país. Já estão identificados mais de 20 instrumentos, e agora são precisos apoios para superar o desafio.
A Orquestra sinfónica de Angola, a OSIA, é o primeiro projecto de orquestra que se dedica à música angolana a partir dos finais do século XV. O grande objectivo é criar música para todos e unir o pais através da cultura e da arte.
Neste momento, há também a vontade de promover a reconstituição da história de Angola através da música, com a recuperação de instrumentos tradicionais e com o resgate da herança musical do país. Já estão identificados mais de 20 instrumentos e agora são precisos apoios para superar o desafio.
Para conhecer a orquestra, a RFI falou com Flávio Fonseca, um dos mentores do projecto.
"A sinfonia é um género musical de Angola. Mas não era considerado património imaterial angolano. Por isso é que tivemos a necessidade de desdobrar a OSIA, que é a orquestra sinfónica que se dedica à música clássica ocidental, com a OSINA, uma orquestra que se dedica à música erudita angolana, africana e de ascendência africana".
"O aluno mais pequeno tem dois anos. Nós trabalhamos com as crianças, preferencialmente, a nível da Academia. Elas aprendem tudo lentamente e depois escolhem um instrumento. Trabalhamos com jovens adolescentes e com músicos que chegam das igrejas e das comunidades. Vamos ao encontro de quem quer aprender música, e quem quer aperfeiçoar-se numa filosofia de integração social inclusiva vem ter connosco. Nós partimos do princípio de que o método do ensino artístico tem que ser profissionalizante".
"Angola é a terra da marimba, mas nós nunca valorizámos a marimba como aconteceu em vários países. Na Guatemala é o instrumento nacional. Aqui também é um instrumento nacional e o nosso interesse é nas partituras de composições para este instrumento".
Ouça aqui a conversa.
"Vidas e mortes de Abel Chivukuvuku" é o título da primeira biografia escrita por José Eduardo Agualusa e é também a biografia de um dos políticos mais influentes de Angola.
Entrarmos na biografia de Abel Chivukuvuku, ex-militante da UNITA e fundador da CASA-CE, é como abrirmos a porta para uma melhor compreensão da história de Angola, da Angola de hoje.
Durante três anos, José Eduardo Agualusa entrevistou e investigou, para escrever a biografia do homem que sobreviveu a duas quedas de avião, um atentado, uma tentativa de linchamento. O livro foi publicado recentemente em Portugal.
Na entrevista que concedeu à RFI, em Lisboa, José Eduardo Agualusa aborda temas como os desafios que enfrentou para a concretização da obra (editada pela Quetzal), as revelações que se encontram no livro, as reacções à publicação e as próximas eleições Angola.
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