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  • São Tomé e Príncipe: Celulite necrotizante entre as principais causas de internamento hospitalar

    A celulite necrotizante é uma das principais causas de internamento hospitalar em São Tomé e Príncipe. No mês de Janeiro, o serviço de cirurgia geral do Hospital Ayres de Menezes acolheu 22 pacientes. Trata-se de uma doença de fácil diagnóstico e tratável com recurso a antibióticos, todavia o diagnóstico tardio, muitas vezes por falta de informação e recurso a tratamentos tradicionais, culmina em internamento e em cirurgia para retirar os tecidos destruídos pela infecção.

    A celulite necrotizante é uma das principais causas de internamento hospitalar em São Tomé e Príncipe. Posição que partilha com a hipertensão e a diabetes. No mês de Janeiro, o serviço de cirurgia geral do Hospital Ayres de Menezes acolheu 22 pacientes, 12 mulheres e 10 homens. 

    A celulite necrotizante não é uma doença contagiosa, manifesta-se sob a forma de úlcera na pele que evolui de forma rápida e profunda. É de fácil diagnóstico e tratável com recurso a antibióticos, todavia o diagnóstico tardio, muitas vezes por falta de informação e recurso a tratamentos tradicionais, culmina em internamento e em cirurgia para retirar os tecidos destruídos pela infecção.

    O médico são-tomense Jailson Vasconcelos alerta para a necessidade de um diagnóstico precoce, como melhor resposta para a doença, que com recurso a antibióticos permite “uma boa recuperação” “em menos de 5 a 7 dias”.

    RFI: O que é a celulite necrotizante?

    Jailson Vasconcelos, médico são-tomense: A celulite necrotizante é uma das formas de apresentação da celulite. É uma infecção da pele e tecidos moles, que inclui a parte da gordura, a parte dos músculos, tendões, até os nervos dos vasos sanguíneos. Esta infecção é causada principalmente por uma bactéria, que é a bactéria estreptococos e também pode ser causada por uma outra bactéria comum que habita na nossa pele, que é o estafilococo.

    A celulite aguda é aquela em que o paciente tem a pele inflamada, tem dor, tem vermelhidão. Na celulite sobreaguda o paciente tem bolhas nas pernas e umas lesões mais profundas. Já a celulite necrotizante não é uma lesão somente superficial, é mais profunda e pode alcançar também a capa do músculo, até mesmo o músculo. Trata-se de uma lesão mais grave e mais profunda e a recuperação do paciente é mais demorada.

    É uma doença do foro dermatológico?

    Não, necessariamente. Quando afecta somente a pele, chamamos de celulite aguda e médicos dermatologistas podem dar atendimento. Mas quando já é um pouco mais profunda, a infecção pode tornar-se grave e fazer uma infecção mais grave e pode pôr em causa a vida do paciente. Nesses casos, dessas lesões profundas, o cirurgião é que deve dar atendimento e um dos tratamentos é o deslizamento, é tirar aquela zona que foi destruída pela infecção. Normalmente isso se faz numa sala operatória, num bloco.

    É uma cirurgia?

    Geral, uma cirurgia, sim.

    Qual é a causa desta doença?

    É uma infecção causada por uma infecção que se inicia na pele por uma lesão. Na nossa pele temos bactérias, todo mundo tem bactérias que habitam na pele de forma permanente e algumas de forma transitória. 

    Então, se eu tiver, por exemplo, um arranhão na minha perna, as bactérias que habitam a minha pele entram através desta ferida, colonizam aquela área e fazem uma infecção.

    Mas, de forma geral, se o meu sistema de defesa não for competente o suficiente, este pequeno arranhão, esta pequena ferida, é o suficiente para que a infecção se torne maior, infecta os vasos sanguíneos, os vasos linfáticos e seja algo um pouco mais grave. Então é uma infecção que acontece quando nós estamos imunodeprimidos, principalmente.

    Esta infecção acontece porque as defesas do organismo estão em baixo. Mas existem outros factores? A falta de higiene também pode ajudar no agravamento da infecção?

    Sim, aí estão os factores de risco. Aqui no nosso país, em São Tomé e Príncipe, ultimamente, no mês de Janeiro, tivemos no nosso serviço Cirurgia Geral na parte infecciosa, 22 pacientes internados, sendo 12 do sexo feminino, dez masculinos. 

    Nós, observando esses pacientes, chegamos a alguns factores de riscos mais frequentes que levam a desencadear um quadro de celulite ou também chamada disfagia. Entre eles estão os pacientes portadores de HIV, os pacientes seropositivos, com anemia, mal nutridos, os pacientes com má higiene e os pacientes diabéticos. São principalmente estes os factores de risco que temos dado conta no nosso serviço.

     Aqueles que estão imunocompetentes dificilmente vão desenvolver um quadro infeccioso como este. Mas os que são imunodeprimidos, como os pacientes seropositivos que não fazem o tratamento, os malnutridos, os diabéticos ou os com pouca higiene, são os que mais sofrem desta infecção.

    É uma infecção, de alguma forma, contagiosa?

    Não, não é. São pacientes em que por factores de risco como os que mencionei, uma pequena porta de entrada na nossa pele ou uma pequena lesão é o suficiente para essas bactérias se multiplicarem e causarem esta infecção, mas não é de nenhuma forma transmissível.

    No início falava-se que a celulite necrotizante afectava mais homens que mulheres. Neste momento, em 22 pacientes internados, há 12 mulheres e dez homens. Há aqui uma inversão do sexo dos pacientes infectados?

    Neste caso, isto varia bastante, porque hoje em dia já está mais equilibrado. Do que nós vimos aqui, como as lesões frequentemente são nos membros inferiores, nós acreditamos que as senhoras que passam mais tempo em casa fazendo tarefas diárias, muitas vezes não andam com calçado adequado, vão  - ao que nós chamamos aqui - às roças ao mato, buscar lenha, por exemplo, para cozinhar, fazer as suas actividades diárias são as que mais sofrem pequenas lesões. Acreditamos que seja esse o motivo de serem mais elas, que tenham mais lesões nos membros inferiores e assim desenvolvam também a celulite.

    Há alguns distritos que sejam mais afectados que outros, algumas profissões que sejam mais afectadas que outras?

    Esses estudos já foram feitos. Alguns indicam que a zona do distrito de Água Grande é um dos mais atingidos. Mas quanto a profissões e outros factores de risco, ainda não chegamos a uma conclusão.

    Neste ano, algumas instituições estão fazendo um estudo mais profundo para determinar os factores de risco, principalmente, porque a causa já sabemos que é infecciosa, mas estamos buscando factores que levam a que algumas pessoas tenham e outras não. 

    Mas no nosso caso, pelo menos no serviço hospitalar, já demos conta que é mais a questão da imunodeficiência relacionada com factores socioeconómico, como a pobreza. O custo de vida agora também está elevado, as pessoas não têm como ter uma dieta mais equilibrada para poder também estar bem nutridas. 

    Mas quanto às profissões, ainda não estamos tão seguros assim. Mas todas aquelas profissões que põem em risco principalmente dos membros inferiores, como carpinteiros, pedreiros, os pescadores, as pessoas que trabalham nas roças, nos campos, são as que mais estão susceptíveis a sofrer lesões nos seus membros inferiores e a partir dessa lesão, se não estiverem com uma boa defesa, vão desenvolver possivelmente uma infecção desta ferida.

    Há tratamento? Há cura para a celulite necrotizante?

    Sim, o diagnóstico é feito de uma forma clínica. É fácil de diagnosticar. Como tratamento, normalmente, nós utilizamos os antibióticos do grupo Beta-Lactâmicos, as penicilinas, principalmente, e tem tido uma óptima resposta. E o paciente tem em menos de 5 a 7 dias, já tem uma boa recuperação, pelo menos naqueles casos de celulite aguda. 

    Aqueles casos que necessitam de uma intervenção cirúrgica são os que mais levam tempo na estadia hospitalar. Mas a resposta tem sido óptima quanto ao tratamento.

    Normalmente o paciente fica completamente curado?

    Aqueles casos leves sim, mas as celulites sobreaguda e necrotizante, alguns pacientes ficam com sequelas. E isto porque há uma lesão do sistema linfático. Então muitos desses pacientes ficam com o que nós chamamos mais tarde de linfedema, é como se fosse uma alteração crónica do sistema linfático que ajuda na drenagem de todo o organismo. E por esta lesão linfática e também dos vasos sanguíneos, no caso das veias, o paciente fica com uma alteração ao nível dos pés, ou seja, a perna fica um pouco mais inchada cronicamente. Não há uma regressão total do quadro, o quadro infeccioso passa, mas o paciente pode ficar com edemas, que são pequenas inflamações nos membros inferiores e algumas lesões na pele, de forma crónica.

    Não pode levar de forma alguma à morte?

    Pode sim levar [à morte] nos casos graves como a celulite necrotizante, se o paciente não vier a tempo. Porque muitos pacientes ainda têm a tendência de fazer um tratamento tradicional e é quando o quadro já está mais grave que eles vêem.

    No ano passado só tivemos registo de um falecido que era um paciente maior de 70 anos e também tinha outras comorbidades, como diabetes e hipertensão, que faz com que o quadro não tenha uma boa evolução. O paciente chegou tarde ao hospital e não teve uma boa resposta e acabou, infelizmente, de fazer uma uma sépsis generalizada e faleceu. Mas foi o único caso que tivemos. 

    Os pacientes jovens têm tido uma boa resposta, mesmo nos casos de celulite necrotizante no estado mais grave normalmente têm uma boa resposta.

    O estado da saúde, o estado da medicina em São Tomé e Príncipe tem capacidade de resposta para os casos que têm estado a aparecer?

    Sim, temos tido sempre. Baseamo-nos no diagnóstico clínico, não há necessidade de fazer uma amostra, pelo menos nós não temos condições para fazer um estudo bacteriológico. Nós guiamo-nos mais pela clínica e pelo estudo que já se fez, há muito tempo, que indica que as causas principais são as bactérias, nesse caso estreptococos e estafilococos. Então, põe-se em marcha um tratamento que possa abranger essas bactérias, e isso nós temos.

    Estamos a dar uma boa resposta a nível hospitalar. Nós temos um departamento, uma sala que é somente para esses casos e estamos dando uma boa resposta. Os pacientes estão a recuperar bem.

    A única problemática prende-se com o aumento de casos, ultimamente temos tido quatro internamentos por semana, mas todos estão sendo bem atendidos.

    Mas esses internamentos acontecem também por aquilo que disse há pouco, ou seja, porque o diagnóstico é traçado muito tarde, porque o paciente já chega tarde ao hospital?

    Muitas vezes os casos que se complicam deve-se a isso, os pacientes preferem fazer um tratamento ambulatório e quando chegam apresentam um quadro mais avançado e complicado. Mas mesmo aqueles que chegam assim, temos dado uma boa resposta. Por isso os casos de óbito são poucos.

    A celulite necrotizante é efectivamente a principal causa de internamento hospitalar em São Tomé e Príncipe?

    É uma das causas, por vezes é uma das principais. Mas neste momento, como está a partilhar a posição juntamente com os pacientes hipertensos, as emergências hipertensivas e também com os casos de diabete descompensada.

    Tanto a hipertensão como a diabetes são doenças crónicas que aqui no nosso país, os pacientes, pela falta possivelmente do conhecimento, falta de educação na saúde, não controlam bem a sua doença, então são os que mais se descompensam e têm dado entrada no nosso banco de urgência. 

    Diabetes, hipertensão e agora os casos de celulite, principalmente, que temos tido praticamente semanalmente quatro até sete ou oito casos, são vistos no banco de urgência e quatro casos são internados semanalmente.

    Que conselhos é que deixa para potenciais pacientes?

    O primeiro conselho é de que desde que vejam alguma alteração em qualquer parte do corpo, mas principalmente nos membros inferiores, depois de um trauma, alguma ferida que teve, nota que a perna está inchada, avermelhada, com muita dor, que não espere, que busque rapidamente o serviço de saúde e ali vai ser bem tratado e evitar complicações. 

    Os pacientes, principalmente os diabéticos, seropositivos e os pacientes anémicos, também devem prestar muita atenção ao seu estado de nutrição, à sua higiene, aos seus pés, principalmente nos casos de diabéticos e a mínima lesão que tiverem, devem procurar atenção médica para evitar males maiores.

    14 min
  • Seca reduz produção de energia hidroeléctrica

    O mais recente relatório da Agência Internacional de Energia avança que as emissões globais de CO2 relacionadas com a energia aumentaram 1,1% em 2023, atingindo um nível recorde. Em causa está o crescimento económico da China e a baixa produção hidroeléctrica causada pela seca. Francisco Ferreira da Zero, dirigente da organização ambientalista Zero, explica que esta situação se deve ao facto de o mundo ainda continuar a recorrer aos combustíveis fósseis para a produção de energia.

    RFI: A que se deve este aumento das emissões globais de CO2?

    Francisco Ferreira da Zero, dirigente da organização ambientalista Zero, Este aumento, infelizmente, é a consequência de continuarmos a ter uma predominância muito grande do uso de combustíveis fósseis na produção de electricidade à escala mundial. Mas há também razões particulares que levarem a este aumento que, mesmo assim, foi inferior àquele que se verificou no ano anterior, entre 2021 e 2022. Nós tivemos um aumento de 410 milhões de toneladas, ou seja, 1,1% em 2023 em termos de emissões em relação a 2022 e de 2021 para 2022 tínhamos tido um aumento de 490 milhões de toneladas. Começa a haver aqui uma ligeira estabilização, mas, como digo, este aumento é explicado, em grande parte, por muitas secas.

    Uma das causas apontadas é a fraca produção de energia hidroelétrica associada às secas severas e prolongadas em várias regiões do mundo.  A falta de água pode ameaçar a agenda climática?

    A falta de água já é, sem dúvida, uma consequência das alterações climáticas. É também um factor de agravamento dessas próprias emissões. Ou seja, temos aqui como que um ciclo positivo onde o clima leva ele próprio a termos maiores emissões. É o caso principalmente da Índia, onde o regime de monções foi diferente do habitual e, portanto, levou a uma redução significativa da produção hidroeléctrica. E também em Portugal, nós vimos como as emissões foram muito significativas não em 2023, mas em 2022, por causa da seca, quando as renováveis têm nas centrais hidroelétricas uma percentagem ainda importante.

    A China, que acrescentou 565 milhões de toneladas de CO2 ao total mundial, prosseguiu o crescimento económico intensivo depois da crise da pandemia da covid-19. A China continua a ser a avestruz, mete a cabeça debaixo de terra, ao não querer ver as ameaças que representas as alterações climáticas?

    A China tem aqui um misto de aspectos positivos e negativos, porque realmente o recurso ao carvão e a meta que a China tem de apenas atingir a neutralidade climática em 2060 está longe daquilo que se acha ser possível pelo país que, neste momento, tem a maior pegada carbónica à escala mundial.

    A China não tem conseguido, mesmo com o abrandamento da sua actividade económica, garantir objetivos mais ambiciosos na área do clima. Mas, por outro lado, a China, e isso transparece neste relatório, foi o país que em 2023 colocou tanta capacidade de painéis fotovoltaicos para aproveitar a energia solar como todo o resto do mundo em 2022. E, portanto, sem dúvida que nós temos um misto de uma transição energética a ser feita por parte da China, mas por outro lado, os objectivos podiam e deviam ser mais ambiciosos.

    Esta tendência é contrária à das economias avançadas, que registaram uma redução recorde das emissões, com a utilização do carvão no nível mais baixo desde o início do século XX. São Boas notícias?

    Estamos realmente a abandonar cada vez mais o uso do carvão. Em Portugal, 2021 foi o último ano em que recorremos ao carvão para a produção de eletricidade e, portanto, mesmo que recorramos a outros combustíveis fósseis-aqui refiro-me ao gás natural, o que é facto é que as emissões são praticamente cerca de um terço para produzir a mesma eletricidade em comparação com o carvão. Há aqui uma diferença avassaladora quando nós conseguimos retirar o carvão da equação.

    Agência internacional de energia faz questão de sublinhar o importante contributo das "energias limpas", incluindo as renováveis…

    É absolutamente crucial, porque a transição energética passa por termos um uso mais eficiente da energia, não desperdiçarmos, mas fazermos um fortíssimo investimento nas fontes de origem renovável.

    Quanto mais diversificadas forem, melhor. Juntarmos numa mesma equação o vento e o solar. Mas temos também, sem dúvida, a hídrica, que agora com os períodos de seca, se está a mostrar mais vulnerável. Há também o uso da biomassa da queima de madeira, que pode ser problemático, principalmente se não queimarmos resíduos de floresta e se estivermos a queimar madeira boa, devendo ir para outros usos que não a combustão. Realmente, nós com mais energias renováveis- com o recurso a veículos eléctricos que também permitem aí reduzir o uso do petróleo, os biocombustíveis para substituir o petróleo e alguns outros combustíveis fósseis- poderemos estar aqui a fazer esta mudança. Ainda assim estamos a fazê-la de forma muito lenta.

    No relatório, a agência internacional de energia lembra que são precisos mais esforços?

    Nós deveríamos ter um pico das emissões em 2025 e, a partir daí, as emissões à escala mundial estarem a descer. Isto se quisermos assegurar que não ultrapassamos um aumento de um 1,5 grau em relação à era pré-industrial e porque, mais do que isso, significa consequências mais dramáticas para o planeta e para a humanidade.

    Mas, apesar destes esforços, estamos realmente longe daquilo que é necessário e desejável e, portanto, a Agência Internacional de Energia começa a mostrar que existem sinais nesta transição energética, mas reconhece que realmente o mundo está longe de fazer o caminho que tem vindo a ser discutido nas conferências do Clima, a última das quais no Dubai em Dezembro passado.

    7 min
  • Bruma seca em Cabo Verde também prejudica a saúde

    Um episódio de bruma seca voltou a afectar o arquipélago cabo-verdiano no final do mês de Fevereiro. Trata-se de um intenso nevoeiro, que tem origem num vento carregado de pó vindo do Norte da África. Afecta o tráfego marítimo e aéreo, mas não só. Também se trata de uma questão de saúde pública. A doutora Maria do Céu Teixeira, alergologista em Cabo Verde, ajuda-nos a perceber os efeitos da bruma seca no sistema respiratório.

    O fenómeno de bruma seca é corrente em Cabo Verde entre Janeiro e Março. Este nevoeiro carregado de poeira também contem poluintes, o que  pode provocar rinites ou bronquites ou até agravação de doenças respiratórias crónicas, como a asma.

    As pessoas mais vulneráveis são as crianças até os 5 anos e os idosos, assim como os doentes crónicos.

    Recomendo a utillização de máscara bem útil neste tipo de situação, cessar a actividade física e para os doentes crónicos tomar a medicação habitual.

    Em caso de febre ou de tosse aguda, não hesite em procurar cuidados médicos, insiste a doutoura Maria do Céu Teixeira.

    Em declarações à Lusa, com respeito as brumas secas, o meteorologista cabo-verdiano José Pimenta Lima salientou “uma intensidade relativamente crescente na concentração de partículas” nas recentes brumas secas.

    Além disso, consta que nos últimos três meses, Cabo Verde registou "uma temporada climatologicamente anormal”, com temperaturas muitas altas, vento pouco intenso e mar mais calmo do que o habitual, mostrando-se, por isso, preocupado com os indícios de mudanças climáticas.

    8 min
  • Cabo Verde: investigadora Pamela Borges vence prémio L’Oreal UNESCO 2023

    Pamela Borges, investigadora cabo-verdiana, de 33 anos está a realizar um trabalho de caracterização do cancro da mama em Cabo Verde, com apoio da Fundação Caloust Gulbenkian, projecto que termina em 2025. O Hospital Agostinho Neto foi a instituição que hospedou o projecto juntamente com o serviço de Oncologia de Cabo Verde.

    Antigamente, a análise das amostras tinha de ser feita no exterior, muitas vezes em Portugal, o que acabava por atrasar o início do tratamento. Actualmente, e graças também a este projecto, já é possível fazer o diagnóstico em Cabo Verde, o que ajuda a encurtar o tempo entre a descoberta da doença e o início da terapêutica.

    O trabalho de investigação de Pamela Borges já levou a que fosse distinguida com o prémio L’Oreal UNESCO para as mulheres na ciência em 2023. A cientista foi uma das 30 vencedoras na edição do ano passado e a primeira cabo-verdiana a receber tal distinção.

    Em entrevista à RFI, a engenheira biomédica fala-nos sobre este trabalho de investigação e começa por explicar-nos que este estudo começou depois de se ter observado que o número de casos de cancro da mama estava a aumentar significativamente no país.

    19 min
  • "Flexibilizar as regras ambientais é uma resposta simplista" aos protestos dos agricultores

    No continente europeu, os agricultores de vários países como a França, a Bélgica, a Alemanha, a Itália e Portugal, iniciaram um movimento de contestação, insurgindo-se nomeadamente contra o peso das regras ecológicas e exigindo maior protecção contra o que consideram ser concorrência desleal de produtos de fora da UE.

     

    Será necessário flexibilizar as regras ambientais para responder ao descontentamento dos agricultores, como o fez a Comissão Europeia, desregulamentando a utilização dos "novos" Organismos Genéticamente Modificados (OGM), altamente reprovado pelas associações ambientais, ou como a recente decisão do Governo francês, com a suspensão do plano Ecophyto, que previa a redução do uso dos pesticidas? 

    A agricultura é uma das actividades que mais produz e emite gazes com efeito de estufa em França, o maior produtor agrícola da União Europeia. A nível mundial, a agricultura é responsável por 20% das emissões de gazes com efeito de estufa, segundo o Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS). 

    Por onde é que passa a adaptação de um modelo agrícola às necessidades da segurança alimentar, sem causar danos à biodiversidade, ao clima e ao planeta?

    Ouça a entrevista com Carmen Bessa Gomes, especialista em Ecologia na AgroParisTech: 

    10 min
  • São Tomé e Príncipe: "As pessoas vão para o mar e regressam sem peixe"

    Na semana passada, o governo São-Tomense anunciou a intenção de criar zonas marinhas protegidas, no intuito de fazer face ao aumento da pesca desregulada, fenómeno que associado às mudanças climáticas tem contribuído para a redução do pescado no mar são-tomense.
     

    Com o apoio de vários parceiros, nomeadamente Portugal, o país tem vindo a reforçar a sua capacidade de fiscalização marinha, sendo que o outro pendente da sua estratégia se relaciona com a protecção marinha e a possibilidade de o país regenerar os seus recursos haliêuticos.

    Neste âmbito, desde 2018, um conjunto de ONGs activas na área da protecção do meio ambiente, nomeadamente a 'Oikos', a 'Fauna e Flora Internacional', a 'Fundação Príncipe' e a 'Marapa' têm efectuado um trabalho de campo juntamente com os actores do sector, os pescadores e as palaiês, as vendedoras ambulantes de peixe, no sentido de definir áreas a serem protegidas e modos alternativos de complementar os rendimentos da pesca.

    Ao cabo de quase cinco anos de trabalho, foi elaborada com o governo uma proposta para a criação de seis áreas protegidas na ilha do Príncipe e de duas na ilha de São Tomé. Esta proposta que foi apresentada na semana passada deve ser objecto de um decreto, o país devendo em breve dotar-se daquelas que serão as suas primeiras áreas marinhas protegidas.

    Ao falar da importância destas medidas, Albertino Santos, técnico responsável por este projecto no seio da ONG 'Marapa', começa por esboçar o panorama que vive actualmente o país em termos de falta de pescado.

    "Temos uma plataforma que é bastante pequena e que também não tem grandes quantidades e a pesca é diária em São Tomé e Príncipe. Diariamente se pesca com artes boas e com artes nocivas. Por exemplo, nós temos aqui as redes de cerco que, pelas características da rede e pela maneira como é utilizada, chegamos a capturar peixes ainda antes do tamanho de desova. Este processo não é bom, não é saudável para o mar. Depois, se calhar há também a má influência das mudanças climáticas. Também já se nota alguma alteração do clima e logicamente também do mar. Mas o que se nota mesmo no mercado, é que os pescadores e as palaiês reclamam a diminuição da pesca", começa por referir o perito ao admitir que o desconhecimento da lei em matéria de pesca também tem algum impacto nesta situação em que "as pessoas vão para o mar e regressam sem peixe".

    Ao referir-se ao longo processo de discussão com as comunidades, os pescadores e as comerciantes de peixe, Albertino Santos refere que se optou por criar duas zonas protegidas em vez das oito inicialmente encaradas na ilha de São Tomé, sendo que na ilha do Príncipe, é ponderada a criação de seis zonas marinhas protegidas de pequenas dimensões.

    "No processo de consulta junto aos pescadores e às autoridades, havíamos identificado oito pontos diferentes que poderiam constituir áreas de interesse para a criação de áreas marinhas protegidas. Após alguma reflexão justamente das partes todas, concluiu-se que criar oito áreas marinhas em São Tomé de repente, seria muito exaustivo e exigiria muito financiamento. Então, houve um comité que decidiu criar inicialmente duas áreas marinhas protegidas experimentais, uma nos arredores de Santana, perto do 'Clube Santana' e há outra na zona sul que abarca Malanza, Porto Alegre, Jalé e o Ilhéu das Rolas. Essas áreas marinhas vão ter duas componentes: uma componente que é a chamada 'zona limitada' à pesca, onde nada poderá ser realizado e a outro 'zona de pesca sustentável', onde haverá regras" para continuar a pescar, refere o biólogo.

    Este processo inédito em São Tomé e Príncipe acontece num contexto em que ainda há muito trabalho de sensibilização por fazer junto da população do país e junto dos actores do sector, considera o técnico.

    "Os pescadores e as palaiês estão bem, não todos, mas a maioria está sensibilizada relativamente à diminuição dos recursos que lhes permitem ganhar a vida do dia-a-dia. Portanto, haverá todo um trabalho a ser feito assim que tivermos o decreto. Vamos iniciar um 'trabalho de casa' junto a todas as autoridades, junto às comunidades, usando todos os meios de comunicação possíveis para fazer este trabalho de casa que vai levar tempo. Nós temos, por exemplo, a lei das tartarugas marinhas que levou tempo e, mesmo assim, ainda há pessoas que continuam a comer tartarugas marinhas, mas reduziu bastante. É um processo de longa data. A mudança de mentalidades, sobretudo quando é cultural, é algo que leva tempo. Se calhar, a nova geração tomará a rédeas disto", conclui Albertino Santos.

    16 min
  • Cabo Verde livre de malária é “ganho histórico”

    A Organização Mundial da Saúde certificou Cabo Verde como país livre de malária. Este é “um ganho histórico”, sublinha Adilson de Pina, responsável pelo Programa de Eliminação do Paludismo em Cabo Verde, que falou à RFI sobre as etapas da luta contra a malária no país, as perspectivas que se abrem com esta conquista, como é que se evita a reintrodução da doença no arquipélago e até que ponto é possível sonhar com a erradicação da malária em África.

    RFI: O que significa para Cabo Verde esta certificação da Organização Mundial da Saúde?

    Adilson de Pina, responsável pelo Programa de Eliminação de Paludismo em Cabo Verde: "Cabo Verde foi certificado como país livre do paludismo. Isso significa que o país, a nível da doença do paludismo, deixa de registar casos locais de paludismo. Um dos critérios para a certificação da OMS é passar pelo menos três anos sem casos locais, o que significa que qualquer pessoa em Cabo Verde, qualquer pessoa que visite Cabo Verde e qualquer cabo-verdiano em Cabo Verde, está livre de contrair a doença, o que é um ganho histórico, sobretudo, para os países africanos.

    A nível da história do paludismo em Cabo Verde, desde a sua colonização, o país teve períodos nos anos 1940, 1950 em que mais de 50 por cento das hospitalizações eram devidas ao paludismo. Houve momentos em que foram criadas equipas de brigadas de luta contra a doença, nos anos 70 e 80. E por dois momentos consecutivos, o país também tinha chegado a esta eliminação desses casos locais. No primeiro momento, durante cinco anos, e no segundo momento, durante três anos. Mas a seguir a essas duas situações, o país voltou a ter casos, centenas de casos.

    Em 2017, foram registados 423 casos locais, últimos dos quais em Janeiro de 2018. A partir daí, o país reorganizou e reorientou as políticas, as intervenções, as acções de luta contra a doença, chegando a que, desde Janeiro de 2018 até à data, o país deixou de ter esses casos locais.

    Portanto, esta certificação significa, além de tudo o mais, a reorganização das intervenções, a eliminação dos casos locais e um sistema de vigilância robusto que é capaz de detectar todos os casos importados que entram no país."

    Que vantagens práticas vai ter para Cabo Verde, por exemplo, em termos de estruturas de saúde e até para o próprio turismo?

    "As vantagens: primeiramente é que o povo cabo-verdiano não sofre da doença, é menos uma doença que deixa de ser uma preocupação para nós. Significa melhor qualidade de vida e melhor saúde. É  uma vantagem enorme a nível turístico. Isto significa que qualquer turista, em qualquer parte do mundo, ao decidir visitar qualquer país, Cabo Verde certamente estará na lista prioritária, uma vez que o turista que visita o país sabe que não corre o risco de ter uma doença mortífera a nível mundial. Nós sabemos que há mais de 600 milhões de casos que acontecem por ano e mais de 90% dos casos acontecem em África. Cabo Verde, sendo um país africano da África subsariana que não tem casos de paludismo local, significa que é um país certamente elegível para pessoas que querem ter um turismo saudável e um turismo sem risco de contrair o paludismo."

    Falou em 600 milhões de casos, 90% em África. No continente africano, só há quatro países livres de paludismo, nomeadamente Cabo Verde que é o quarto. Como é que isto acontece?

    "Argélia, Maurícias, Marrocos e Cabo Verde que é o quarto país [no continente africano]. Cabo Verde acaba por ser uma referência em África porque também a questão do paludismo exige o seu trabalho. Não é só diagnosticar e tratar dos casos, é a questão do sistema de saúde, é a questão da educação das pessoas, é a questão da sensibilidade à saúde, é a questão do saneamento, é a questão do meio ambiente. Portanto, são um conjunto de factores e Cabo Verde tem uma vantagem que é a seguinte: o facto de sermos ilhas. Aliás, temos dados de que há 35 anos e muito mais, há dezenas de anos, os casos tinham sido restritos às ilhas de Santiago e Boavista. Boavista registou os últimos casos em 2015. Praia, a capital do país, na ilha de Santiago, registou os últimos casos em 2017. O facto de sermos ilha é uma vantagem.

    A nossa questão do sistema geral da saúde também é uma vantagem, as pessoas têm acesso ao sistema de saúde e as estruturas centrais estão preparadas para a doença, as pessoas têm um certo nível de literacia em saúde e a questão da educação é bastante alta, quase 100% da população jovem, hoje em dia, é escolarizada.

     São todos esses factores associados que levaram a que o país atingisse este nível. É uma referência em África. Sabemos que a Nigéria, a República Democrática do Congo, Moçambique e outros países, quatro países são responsáveis por 50 dos casos de paludismo no mundo. Nós estamos numa situação ao contrário. Isso significa também que o país passa por ser uma referência e aquilo que se fez em Cabo Verde poderá certamente transferir-se para outros países, de acordo com a realidade de cada país."

    Servir de exemplo?

    "Exacto. Servir de exemplo para que outros países também tenham essa ambição e certamente que é possível porque nós temos que ter uma estratégia estratificada. Os países africanos, elaborando essa estratificação - onde há mais casos e onde há menos casos; zonas de risco alto, baixo e médio; como é que as intervenções poderão ser alocadas de acordo como nível de risco de cada região e de cada país."

    Como é que se evita a reintrodução da doença no país?

    "A questão da reintrodução é um desafio enorme porque eliminar, se calhar, é fácil, a gente sabe onde é que está, o que é há que fazer. Agora, o problema é essa questão da prevenção e da reintrodução porque nós não sabemos onde estão os casos. Essa prevenção passa, sobretudo, por ter um sistema de saúde robusto e funcional, um sistema de vigilância sanitária. Essa vigilância acaba por ser sobretudo a vigilância epidemiológica, mas também a vigilância entomológica. Isto quer dizer que temos que saber onde há casos, detectá-los, tratá-los e segui-los adequadamente, mas também ter uma vigilância entomológica e isso significa o trabalho com os mosquitos; saber onde estão os mosquitos; qual é o comportamento desse mosquito; se esse mosquito tem a capacidade de, se a pessoa ficar infectada, completar o ciclo de vida e transmitir o parasita.

    Ou seja, essa questão de vigilância e o sistema robusto de vigilância têm que funcionar no país, mas também temos de trabalhar com as pessoas porque o paludismo é uma doença muito relacionada ao comportamento. As pessoas que viajam de Cabo Verde para países endémicos, mas também pessoas que vêm visitar Cabo Verde, têm que estar atentas, têm que saber que é um país livre do paludismo e que mediante qualquer sintoma que poderá ser relacionado com a doença, é procurar uma estrutura de saúde e o diagnóstico é gratuito, o tratamento e o seguimento. Isso significa também que a parte da sensibilização das pessoas, tanto nacionais como estrangeiras, sobretudo nos portos, nos aeroportos, nos pontos de chegada, é um trabalho também que tem que ser feito para que as pessoas tenham essa consciência e ajudem-nos a manter zero casos de paludismo no país."

    Em todo o continente africano, há quatro países livres de paludismo, nomeadamente Cabo Verde. Quando é que se pode sonhar com a erradicação do paludismo em todo o continente?

    "Isso é uma meta ambiciosa, muito ambiciosa. Já existem parâmetros, já existem metas, aliás, o próprio ODS [Objectivos de Desenvolvimento Sustentável] estipula para 2030 a erradicação desta doença. Existe um plano global estratégico que também delimita esse período, é 2030. É claro que já estamos a seis anos, certamente chegando a 2030, haverá novas metas, assim como aconteceu no passado, haverá novas avaliações.

    Diria que não é de todo impossível. É possível se cada um fizer a sua parte. Mas, como disse, há vários factores, é preciso trabalhar todos os factores e ver qual é a relação de cada um dos factores com a doença. Esses exemplos de Cabo Verde, Marrocos, Maurícias - é claro que estamos a falar aqui de países muito específicos, Cabo Verde é um país arquipelágico, fora do continente; Maurícias… Mas temos o exemplo de Marrocos e da Argélia, que poderão ser também bem aproveitados e, pouco a pouco, que estes quatro países sirvam de exemplos para que as intervenções, as estratégias sejam replicadas nos demais países e que passamos sonhar com um mundo, sobretudo África, sem paludismo. É o grande sonho de todos nós, técnicos da área da saúde."

    9 min
  • Governo aposta em Ano da Saúde Mental em Cabo Verde para cidadãos mais "saudáveis" e "felizes"

    A ministra da Saúde, Filomena Gonçalves, diz que o Governo de Cabo Verde está preocupado com a indicência do suicídio, do consumo de alcool e drogas e a vida sedentária dos cabo-verdianos. O Ano da Saúde Mental visa criar um conjunto de acções preventivas para dar uma melhor qualidade de vida à população.

    O Governo cabo-verdiano decretou 2024 como o Ano da Saúde Mental no país. Em entrevista à RFI, a ministra da Saúde, Filomena Gonçalves, diz que esta escolha foi motivada pelos números alarmantes relacionados não só ao suicídio, mas também ao consumo de drogas e alcool no arquipélago.

    "3,3% da população adulta ponderou seriamente o suicídio no último ano. Estes números não são apenas estastísiticas. São um grito de alerta sobre o estado da sáude mental colectiva. E por detrás destes números existem pessoas e famílias, uma comunidade e um país", disse a governante em entrevista à RFI.

    A falta de recurso aos estabelecimentos médicos é também preocupante, sendo assim necessário desconstruir o estigma associado ao recurso a profissionais de saúde mental.

    "A nossa preocupação intensifica-se ao saber que das pessoas que tentaram o suicídio, 35,1% pensaram nisso pela primeira vez no ano passado e apenas 36% procuraram apoio médico, evidenciando uma lacuna nos nossos serviços e no estigma associado à saúde mental", declarou a ministra.

    As questões ligadas ao consumo de drogas e alcool também peocupam a ministra, que quer um estilo de vida mais saudável para a população.

    "9,6% da população fuma tabaco e 45% consome alcool. Na ilha de São Vicente, o consumo de tabaco atinge 16,3% e alcool 57,5%. É também preocupante que a marijuana seja a droga mais consumida entre os jovens", indicou.

    Entre as soluções apresentadas durante este ano está uma forte sensibilização à importância da saúde mental, que se vai estender a escolas e à sociedade civil em geral. Para esta governante, uma saúde mental equilibrada, associada a um estilo de vida baseado na morabeza e na boa vizinhança, terá como resultado cidadãos mais "felizes" e "saudáveis".

    Caso nos esteja a ler a partir de Cabo Verde e tenha problemas com o alcool pode recorrer à linha telefónica verde anónima 800 25 27. Se tiver problemas com drogas ligue para a linha verde 800 25 25.

    10 min
  • Estudo mostra que “raspadores” fintam os plásticos nos rios

    Quais são as consequências da presença de plásticos de grandes dimensões nos rios e ribeiros? Verónica Ferreira, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, debruçou-se sobre o tema e concluiu que, afinal, há quem se consiga adaptar e até tirar partido da presença dos plásticos.

    A investigação foi publicada na revistaEnvironmental Pollution e estudou os efeitos da poluição por macroplásticos nos rios e ribeiros, a partir de 18 estudos já existentes. A autora é Verónica Ferreira, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que concluiu que nem todos os organismos são negativamente afectados e há um grupo de invertebrados aquáticos, os raspadores, que consegue tirar proveito dos macroplásticos. Porém, raspar essa camada de plástico pode libertar para a água toxicidade e ser fonte adicional de poluentes.

    A RFI conversou com a investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

    RFI: Qual é a principal conclusão do estudo?

    Verónica Ferreira, investigadora: O estudo concluiu que a poluição dos rios por plástico de grandes dimensões, os chamados macroplásticos, aqueles que se conseguem ver facilmente a olho nu, têm geralmente efeitos negativos nos invertebrados aquáticos, que são aqueles organismos que vivem no fundo do rio associados às areias e aos detritos vegetais. No entanto, nem todos estes organismos são negativamente afectados.

    Aparentemente, o grupo dos raspadores, organismos que raspam as superfícies aquáticas, normalmente as superfícies das pedras e das folhas para retirarem a camada de algas das quais se alimentam, conseguem também raspar a superfície dos plásticos, onde também se desenvolve esta camada de algas. Por isso, parecem não ser muito afectados pela presença destes plásticos se na sua superfície desenvolver esta camada de algas que lhes serve de alimento.

    Mas todos os outros grupos são negativamente afectados: os predadores que se alimentam de outros organismos, os trituradores que se alimentam de detritos vegetais, e outros que efectivamente sofrem um impacto negativo pela presença destes plásticos no ambiente.

    Mas, de uma forma geral, não podemos esperar que estes raspadores limpem os riachos dos plásticos que lá estão?

    Não, isso não vai acontecer porque os raspadores efectivamente só usam os plásticos como uma superfície. Eles não consomem os plásticos, os plásticos não têm características nutritivas para os organismos aquáticos. Assim que os plásticos entram na água são colonizados por algas que servem de alimento aos raspadores. Simplesmente os raspadores vão ter como que uma superfície adicional onde se alimentar, mas não vão eles alimentar-se dos plásticos, nem levar a uma degradação muito intensa dos plásticos.

    De qualquer maneira, os resultados são muito interessantes porque se assumia que os plásticos teriam sempre um efeito negativo por serem um elemento completamente externo ao ecossistema ao qual os organismos não estão adaptados e do qual não podem tirar muito proveito. No entanto, este grupo particular, como raspa as superfícies, tira proveito dos plásticos que fornecem uma superfície adicional para o desenvolvimento das algas.

    No entanto, não podemos esquecer todos os outros efeitos que esta presença de macroplásticos pode ter. Os macroplásticos contêm compostos químicos, como aditivos e substâncias que são adicionadas durante o processo de fabrico para conferir aos plásticos determinadas características que podem ser libertados para a água, e que depois podem levar a efeitos nefastos em toda a vida aquática porque são químicos que muitas vezes interferem com o funcionamento hormonal dos organismos, por exemplo.

    Por isso, só a presença dos plásticos, sejam eles de que tamanho for, pode ter esse efeito negativo, que não é directo, não é devido à presença do plástico em si, mas devido à libertação das substâncias que esse plástico contém.

    De que forma é que esta notícia, que os raspadores tirem efeitos positivos desta poluição, pode ser benéfica para todos os outros e para os próprios raspadores?

    Isso poderá ser respondido com estudos empíricos no laboratório e no campo, que têm que se fazer para avaliar de que maneira é que estes raspadores podem tirar proveito dos plásticos para além de consumirem as algas que se desenvolvem à sua superfície. Efectivamente, o processo de raspar a superfície dos plásticos pode, de alguma maneira, danificar os plásticos e facilitar a sua degradação. Isto não é necessariamente bom porque os macroplásticos são fáceis de retirar do ambiente, no entanto, os microplásticos e os nanoplásticos - que resultam da degradação dos macroplásticos - já nem por isso.

    Por isso, degradar macroplásticos em fracções mais pequeninas pode até ser um problema acrescido porque depois torna muito mais difícil a sua remoção do ambiente e facilita muito mais o seu transporte para áreas a jusante. 

    Algo que é original neste estudo é focar-se mais na poluição em rios e riachos. Em geral, estuda-se mais nos oceanos, não é?

    Exactamente. Aliás, há dois aspectos que são novidade neste estudo. A poluição por plástico está muito estudada no oceano, é um problema que todos conhecem. No entanto, os plásticos chegam ao oceano por via, na maior parte, dos rios. No entanto, a poluição por plástico nos rios não está muito estudada. Sabe-se muito sobre os efeitos da poluição por microplásticos e nanoplásticos, que são as fracções mais pequeninas, mas não há muita informação sobre os efeitos da poluição por macroplásticos .

    Este estudo foi pegar nestes dois aspectos. Avaliou o efeito dos macroplásticos, que é uma fracção de plásticos menos estudada e focou-se nos rios, que são ambiente onde os plásticos estão menos estudados. 

    Que impacto é que espera que o estudo tenha, não só junto da comunidade científica, mas também junto do público em geral? Finalmente, é alertar mais uma vez para o perigo dos plásticos, sejam macro, sejam micro, no ambiente?

    Este estudo pode ter grande impacto em ambas as comunidades. Na comunidade científica porque aponta várias vias de investigação futura. Este estudo é baseado na literatura publicada, o que permitiu testar novas hipóteses e reunir uma grande base de dados, onde pude explorar uma série de perguntas que ainda não tinham sido exploradas empiricamente. Ao fazer isso, apontei quais as perguntas que agora devem ser testadas em situação real, em situação de campo. Por isso, há aqui muitas perguntas que foram lançadas e que podem agora inspirar os investigadores.

    E pode também ter um impacto na sociedade em geral, precisamente porque alerta, mais uma vez, para as problemáticas da poluição por macroplásticos nos rios, tal como acontece nos oceanos. É importante realmente termos consciência que qualquer detrito que lancemos ao chão vai parar num rio antes de ir parar ao oceano e tem no rio efeitos nefastos como tem no oceano.

    Nunca é demais destacar os efeitos nefastos que o plástico tem, seja nos oceanos, seja nos rios. Quais são os efeitos desta poluição por macroplásticos nos rios e nos ribeiros?

    Os efeitos são a vários níveis, nomeadamente o macroplástico em si, que não pode ser usado como fonte alimentar.

    Por isso é que ele tem efeitos negativos na maioria dos grupos de organismos porque aqueles que se alimentam de detritos vegetais, de folhas, de ramos, não conseguem tirar proveito do plástico. O plástico não serve como fonte de alimento, no máximo vai servir como um local de refúgio porque é uma estrutura que é ali adicionada ao ambiente.

    Depois, tem muitos compostos químicos que acabam porser libertados quando o plástico é submerso em água. Estes compostos químicos vão afectar o funcionamento hormonal dos organismos aquáticos, por exemplo, ou vão exercer toxicidade nos organismos aquáticos. Eu diria que são estes os dois grandes efeitos negativos: o plástico não serve de alimento e é uma fonte de poluentes que vai libertando enquanto está dentro de água.

    10 min
  • Pandemia fez aumentar percentagem de mortes em casa em 23 países

    A percentagem de pessoas que morreram em casa aumentou em 23 países durante a pandemia de Covid-19, revela um estudo internacional que analisou dados de 32 países.

    Durante a pandemia, os sistemas de saúde tiveram que responder às necessidades dos pacientes com COVID-19, ao mesmo tempo que cuidavam de pacientes com outras doenças fatais. A percentagem de pessoas que morreram em casa aumentou em 23 dos 32 países, revela o estudo desenvolvido no âmbito do projecto de investigação EOLinPLACE: Escolha onde morreremos: uma reforma de classificação para discernir a diversidade nos caminhos individuais de fim de vida.

    O estudo foi realizado por quatro equipas de investigação em Portugal, Holanda, Estados Unidos e Uganda e consistiu "numa analise de dados de certificado de óbitos com informação sobre o local onde as pessoas morrem", descreve a investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Bárbara Gomes, que liderou a equipa portuguesa que integra o projecto EOLinPLace. 

    "Nós recolhemos a informação em 32 países, com financiamento do Conselho Europeu de investigação que nos permitiu obter e trabalhar esses dados durante uma década - desde 2012 até 2021 - incluímos os dois anos da pandemia", acrescenta a investigadora.

    "Este é o maior estudo de tendências internacionais no local de morte e é o primeiro a mostrar o impacto de pandemia. Na maioria dos países foi registado um aumento da morte em casa. Isto é importante porque representa uma mudança nunca antes vista nos cuidados prestados em fim de vida, no sentido de ser um retorno a morrer em casa. Antes da pandemia, já sabíamos que existia uma tendência crescente nalguns destes países, como o Reino Unido e os Estados Unidos. Agora sabemos que há mais países em que essa tendência já se verificava antes da pandemia. Durante os anos da pandemia foi notório esse aumento de percentagem de pessoas que morreu em casa", realça a investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. 

    "O Uganda foi o único país africano [a participar no projecto] e é um dos países alvo do projecto onde este estudo de insere, que é o projecto OLinPLACE. Neste projecto temos quatro países que fazem parte destes 32 que analisamos - Portugal, Holanda, Estados Unidos e Uganda. Escolhemos estes países porque sabemos que são bastante contrastantes. No Uganda verificamos a taxa mais elevada de morte em casa de todos os países entre os 76 e 82%, antes da pandemia. Verificamos que foi um dos países onde essa percentagem mais diminuiu, ao contrário da tendência dos outros países", concluiu a investigadora Bárbara Gomes.

    O artigo científico O aumento da mortalidade domiciliar na pandemia de COVID-19: um estudo de base populacional de dados de certidões de óbito para adultos de 32 países, 2012-2021 foi publicado na revista eClinicalMedicine, editada pela revista The Lancet.

    9 min

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