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Cerca de 800 pessoas da localidade de Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, já têm acesso a electricidade através de uma mini-rede alimentada por energia solar fotovoltaica. "O projecto foi conduzido pelo Centro para as Energias Renováveis e Eficiência Energética da CEDEAO e visa levar energia eléctrica à comunidade de Chã das Caldeiras", como nos explicou Carlos Monteiro, director do Serviço de Energia do Ministério da Energia de Cabo Verde.
A localidade de Chã das Caldeiras, em Cabo Verde, passou a contar com uma central solar fotovoltaica para electrificação desta comunidade do município de Santa Catarina na ilha do Fogo. Cerca de 800 pessoas da localidade de Chã das Caldeiras já têm acesso a electricidade através de uma mini-rede alimentada por energia solar fotovoltaica.
Este foi um projecto conduzido pelo Centro para as Energias Renováveis e Eficiência Energética da CEDEAO. Com financiamento do Governo de Cabo Verde, da agência norte-americana USAID e do Fundo Especial de Intervenção da CEDEAO (ESIF).
RFI: Em que consiste este projecto?
Carlos Monteiro: O projecto consiste na construção de uma central fotovoltaica, financiada pela USAID, o CEREEC e o Estado de Cabo Verde e que visa levar energia elétrica à comunidade de Chã das Caldeiras.
Este projecto marca uma fase importante no desenvolvimento da Ilha do Fogo?
Sim, o projecto vem dar uma contribuição ao aumento da taxa de acesso da electricidade a nível do país e particularmente a nível de Chã das Caldeiras. É um processo que, não obstante a primeira fase que foi inaugurada, já está sendo trabalhada desde há uns tempos para cá. Há ainda que estender as conexões a mais pontos de consumo. O objectivo é atingir a totalidade dos pontos de consumo existentes dentro de Chã das Caldeiras e que, naturalmente, queiram ser conectadas a essa rede, a moradias e os pontos de consumo. A intenção é ver todos conectados de alguma forma, seja por tipos individuais ou por esta central para ter acesso à electricidade.
O Centro de Energias Renováveis vai distribuir electricidade à comunidade de Chã das Caldeiras, uma população de cerca de 800 pessoas, na cratera do vulcão do Pico do Fogo, na Ilha do Fogo, Chã das Caldeiras pode vir a ser auto-suficiente em produção e distribuição de energia?
Sim esse é o objectivo. É por isso que está sendo trabalhada a questão da expansão, porque a capacidade actual é insuficiente para ligar todos os pontos de consumo requeridos porque a energia que seria disponibilizada teria muita limitação em termos de quantidade. É por isso que se está a expandir tanto em termos de capacidade de produção como a capacidade de armazenamento. Naturalmente, a expansão vai contemplar um outro aspecto que é os sistemas isolados e fotovoltaicos para efectivamente proceder com a conexão a todos os pontos de consumo.
O que é que está a ser feito para que essa expansão aconteça?
Esse é um processo contínuo. Há um trabalho que é invisível aos olhos do público que é a questão do dimensionamento do sistema. A questão da mobilização dos fundos, a questão também da gestão. A parte visível são as obras, não é? Mas isso é um processo continuado. Foi inaugurada a primeira fase e, brevemente, vamos prosseguir com o lançamento de concurso para instalação de 16 kits fotovoltaicos. Estamos a trabalhar no caderno de encargos para o lançamento do concurso da expansão. Há um segundo aspecto que é a expansão da central, com todas as infra-estruturas associadas, designadamente o campo solar, baterias.
A CEDEAO tem vindo a apostar em projectos de energia limpa para levar energias sustentáveis às comunidades mais vulneráveis na África Ocidental, como é o caso da Nigéria, da Gâmbia, do Togo. Este apoio por parte da CEDEAO é imprescindível para este projecto em curso em Cabo Verde?
É claro, acho que todos reconhecemos o papel que o Centro de Energia Renováveis e Eficiência Energética para a CEDEAO tem feito na nossa sub-região e é um trabalho muito meritório a nível do nosso país e concretamente neste projecto.
Cabo Verde tem vindo a apostar nas energias limpas e o país tem definido a estratégia nacional para atingir a neutralidade carbónica em 2050. Imagino que este seja uma boa notícia. E o que é que isso significa?
Sim, claro. Por exemplo, em termos de taxa de electrificação, já superamos os 95% e a taxa de acesso também anda por aí. Em termos da expansão de redes, em termos de comunidades por electrificar, quase já atingimos a totalidade, através da expansão da rede. Há comunidades que vão ter que ser electrificadas com recurso à distribuição, a geração distribuída, sistemas fora de rede. Todas estas iniciativas que visam fornecer e promover o acesso à energia a estas comunidades representam passos significativos no cumprimento dos objectivos do Desenvolvimento Sustentável e também da neutralidade carbónica porque a instalação de sistemas de produção de energias renováveis, que visam também aproveitar o potencial do país. Tudo isso faz com que haja uma redução na importação dos combustíveis fósseis e, naturalmente, da questão económica também, em que a poupança. Todas as iniciativas que vão nesta direcção de reduzir a nossa pegada carbónica, a descarbonização da economia do país são iniciativas que devem ser aplaudidas e incentivadas.
A Comissão Europeia prepara-se para o verão mais atípico na União Europeia com fenómenos meteorológicos extremos. "Nos últimos treze meses, a temperatura média do globo tem sido sempre superior aos valores médios. Tudo indica que as alterações climáticas estão em curso e os cenários associados a uma situação de alteração climática sugerem o aumento da frequência dos fenómenos extremos", explica a meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, Ângela Lourenço.
RFI: Como é que se explicam estes cenários de alterações climáticas que sugerem condições meteorológicas cada vez mais extremas?
Ângela Lourenço: O que tem vindo a acontecer, principalmente neste último ano, é que a temperatura média da Terra tem vindo a aumentar e têm sido ultrapassados recordes todos os meses, o que indicia já um cenário em que a alteração do clima pode realmente estar em curso, com a informação de que nos últimos treze meses a temperatura média do globo tem sido sempre superior aos valores médios. São valores que estão a ser ultrapassados, principalmente a temperatura máxima, mas também na temperatura mínima. Face a esta situação, tudo indica que de facto, as alterações climáticas estão em curso e os cenários associados a uma situação de alteração climática sugerem o aumento da frequência dos fenómenos extremos. Quando digo fenómenos extremos, estou a incluir as secas mais prolongadas, tempo quente com episódios de onda de calor mais frequentes nos períodos de verão, mas também estou a falar de ocorrência de precipitação forte. Por exemplo nas situações de verão podem ocorrer, em simultâneo, haver regiões do mundo ou regiões, em particular da Europa, que estão a passar por uma situação de onda de calor, mas outros países, ao mesmo tempo, terem situações de precipitação forte. Estamos a falar de situações extremas; pode ser frio, frio extremo também, isto no Inverno. Este fenómeno extremo é um cenário previsto nas alterações climáticas incluem tanto o calor ou a temperatura elevada, mas também as temperaturas muito baixas que podem ocorrer e precipitação forte, nevões, ciclones tropicais. Tudo isso são de facto condições que neste momento estão em cenário. Nalguns países já se começa a perceber que é uma situação que já está a ocorrer e portanto, nestas condições, é normal não só a Comissão Europeia, como também os Estados-Membros e outros países do mundo começarem a adoptar e a preparar se, a adoptar medidas de mitigação e preparação para essas situações.
Como é que explica estas condições extremas num espaço geográfico tão próximo?
Isso tem a ver com as situações meteorológicas e os padrões meteorológicos que ocorrem numa determinada situação. É óbvio que, se o tiver condições iniciais que potenciam um fenómeno extremo e, como eu disse, o fenómeno extremo, podemos incluir uma situação de tempo quente, mas simultaneamente uma situação de chuva forte. Se as condições iniciais potenciam fenómenos extremos é óbvio que, onde está previsto que ocorra precipitação, ocorra chuva, essa chuva pode ser muito forte. Onde está previsto que ocorra tempo quente, essas temperaturas poderão ser muito elevadas. Nós temos num espaço vasto, por exemplo, a Europa; podemos ter situações mais a norte, por exemplo, de passagem de superfícies frontais frias e na região mais a sul da Europa temos o anticiclone ou regiões estabilidade que sugerem situações de tempo mais quente. Ora, se as situações iniciais no Sul sugerem tempo quente, no Norte sugerem uma chuva, a passagem de uma superfície frontal fria, o que pode acontecer é, em simultâneo, nos termos a zona mais a norte da Europa, com chuva mais intensa e a zona mais a sul com as temperaturas mais elevadas. O fenómeno meteorológico no fundo, inicialmente teria previsto, fica potenciado para ser mais gravoso.
Não esquecer também que estes padrões de que fala, os padrões meteorológicos variam de ano para ano?
Exacto. Estes padrões meteorológicos todos nós já passámos por qualquer estação do ano e reconhecemos e identificamos este inverno este ano é mais ameno ou este inverno, este ano mais frio ou este verão é mais húmido ou o verão é mais quente e seco. Todos os anos vamos tendo variações nos padrões meteorológicos que dão origem a um estado do tempo que vai realmente variando de ano para ano. O que acontece é que muitas vezes temos situações que, não sendo necessariamente extremas são situações que fazem parte da variabilidade climática, ou seja, nem todos os anos são iguais. O que nos ajuda a perceber é que a definição de clima vai englobar todas estas estações do ano; verão ou inverno, primavera, etc. Vai englobar e vai se fazer uma estatística, obtendo uma média. Normalmente em meteorologia estas medidas são de 30 anos, o que significa que depois à medida que vai avançando na estação do ano, vamos comparando com a média. E, claro, ela será sempre um bocadinho mais quente que o normal ou um bocadinho mais frio que o normal ou muito próximo do normal. Mas de facto, todos os anos temos estações do ano que são ligeiramente diferentes. O que pode acontecer no futuro. É de facto haver aqui padrões meteorológicos que se podem tornar mais frequentes ou fazer com que, quando nós juntarmos vários anos em conjunto para obter uma nova média, vamos obter um padrão climático diferente.
Há um aspecto também que tem que ver com a nossa memória ser mais curta?
É verdade porque o ser humano tem limitações de memória e é normal. Muitas vezes já não nos lembramos de quando tínhamos cinco anos ou quando tínhamos dez anos. Como é que tinha sido o outono desse ano, a não ser que tenhamos vivido um episódio particular, mas normalmente vamos esquecendo. O que acontece é que é preciso perceber quão anómalo um determinado ano ou uma determinada estação do ano, seja verão, inverno, primavera, etc. Quão enorme é o afastamento e, portanto, quão diferente ele é da média, porque, de facto, perdemos essa memória e essa memória já não acompanha isso tudo e só nos lembramos, se calhar, dos anos mais recentes e portanto, temos dificuldade em perceber se de facto, há 20 anos atrás ou há 25 anos atrás, se houve um verão semelhante ou não houve um verão semelhante.
Estamos a poucos dias do início dos Jogos Olímpicos de Paris. Os organizadores estão preocupados com a segurança dos atletas e do público devido às temperaturas que podem atingir níveis muito altos. Quais é que são as medidas de precaução que podem tomar?
Em relação aos atletas e óbvio que são atletas muito especiais, são atletas de alta competição e, portanto, têm medidas muito específicas. E para cada modalidade, com certeza que existirão medidas de protecção que ainda assim são diferentes. E eu creio que as medidas de protecção são na realidade genéricas para todos os cidadãos. Todas aquelas medidas que preservam a hidratação: hidratar se as pessoas beberem bastante água e estarem à sombra nas horas mais críticas do dia. Não só preservando essa hidratação, mas também a preservar a questão das cautelas das queimaduras solares. Isto são situações que se aplicam a toda a gente, inclusivamente para os atletas, embora, como eu disse, atletas de alta competição depois têm aspectos muito particulares e cada um a ter as suas medidas mais específicas. De facto a hidratação e procurar locais de sombra ou zonas mais frescas, que pode ser inclusivamente no interior de edifícios, como seja, por exemplo, os centros comerciais. Estes são os aspectos mais significativos: procurar a sombra no período do dia mais quente e procurar estar sempre hidratado.
O surto da varíola do macaco matou pelo menos 975 pessoas na República Democrática do Congo, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção dos Estados-Unidos. Na vizinha Angola, não se registou até ao momento nenhum caso, segundo as autoridades que reactiviram contudo, como forma de prevenção, o Plano Nacional de Contingência.
Para já, não há indícios que deixem a Organização Mundial da Saúde pensar que a varíola do macaco pode constituir um problema de saúde global, como aconteceu com o Ebola ou com a Covid-19, mas existe o risco de alastramento regional da varíola do macaco.
Responsável pela morte de quase mil pessoas, incluindo várias crianças, na RDC, o vírus pode propagar-se a outros países, alertou a OMS a 26 de Junho. De acordo com especialistas, esta doença é mortal em 5% dos casos em adultos, 10% quando se trata de crianças.
Neste sentido, as autoridades angolanas reactivaram o plano de prevenção para dar resposta a eventuais casos da doença.
Em entrevista à RFI, Eusébio Manuel, epidemiologista da Direcção Geral da Saúde em Angola, explica que a vigilância foi reforçada nos pontos de entrada do país, porque o "reforço do sistema de vigilância é fundamental".
O Plano de Contingência compreende também a formação de pessoal médico e a distribuição de instrumentos em vários pontos fronteiriços, portos, aeroportos e fronteiras terrestres.
Reconhecendo que "os recursos humanos nunca são suficientes", como em todos os países que observam um aumento da população, Eusébio Manuel explica que, ainda assim, todos os esforços estão a ser realizados para "detetar um caso em tempo oportuno ou então evitar a própria reintrodução da varíola dos macacos no país".
O que é que faz com que milhões de pessoas fiquem a chorar de decepção ou de alegria com um jogo de futebol e vivam as emoções mais extremas? O que é que explica o amor incondicional por um clube ou por uma selecção? O futebol é mesmo uma paixão e uma forma de amor tribal, provaram neurocientistas da Universidade de Coimbra, nomeadamente Miguel Castelo-Branco que nos explicou o que se passa no nosso cérebro quando vemos um jogo.
RFI: O que se passa no nosso cérebro para ficarmos tão irracionais quando vemos um jogo?
Miguel Castelo-Branco, Neurocientista da Universidade de Coimbra: "Isso é uma questão muito interessante que nós estudámos em claques, a claque do Futebol Clube do Porto e a claque da Académica. Realmente, o futebol traz algo de muito tribal no ser humano. Foi o que nós vimos. Nós basicamente estudámos várias regiões do cérebro, como é que elas são activadas em várias situações: situações de jogo do clube amado - passo a expressão porque estamos mesmo a falar de amor - ou noutras situações, mas a mais relevante para o que me está a perguntar é esta. Nós vimos que o cérebro activa como se estivesse a viver momentos de paixão, mais até do que o amor romântico. Nesse estudo nós podemos realmente demonstrar que áreas do cérebro que têm a ver com a emoção, nomeadamente uma região que se chama a amígdala, activa de uma forma desproporcionada se nós compararmos com outras situações associadas ao amor ou à ligação afectiva."
Como é que o futebol é uma forma de amor tribal ou romântico?
"Nós, como seres humanos, evoluímos durante milhões de anos e temos uma necessidade intrínseca de pertencer a uma tribo. E o futebol oferece isso: uma tribo com a qual nós nos identificamos, com a qual nos ligamos, criando um sentimento de pertença. Nós vimos isso muito nos adeptos, nas escalas psicológicas que usámos. Eles têm dimensões de pertença, de identidade, de afecto, que nós associamos até mais à paixão irracional do que do ao amor reflectido, por assim dizer. Foi isso exactamente que nós vimos nas regiões de recompensa do cérebro, nas regiões que têm a ver com a emoção e nas regiões que têm a ver com este conflito entre a razão e a emoção. Portanto, vimos um padrão cerebral que estava relacionado com estas variáveis psicológicas que nós chamamos de pertença, de ligação.
Assim como nós falamos no amor mãe e filho, em que há um ‘attachment’, uma ligação emocional, no futebol nós vemos uma ligação emocional à tribo que também é muito importante para nós. Costuma-se dizer que podemos mudar de partido político, mas não mudamos de clube. As pessoas transferem muito essa necessidade de pertencer a uma tribo para o futebol."
O que explica esse amor incondicional ao nosso clube de futebol ou à nossa selecção? É esta paixão quase irracional?
"Ela tem elementos de irracionalidade porque isso é típico da paixão. A paixão e o amor não criticam. Nós aceitamos e descontamos tudo aquilo que é negativo. E nós chamamos-lhe paixão porque a paixão rapidamente se pode inverter num processo de raiva quando ficamos desapontados. Nós vemos esses elementos sobretudo em adeptos que pertencem a claques em que este fenómeno é mais evidente."
O que é que acontece no nosso cérebro quando a nossa equipa marca um golo?
"Nos adeptos do Porto, nós vimos precisamente isso quando mostrámos um golo de Kelvin. Nós vimos que as áreas que activam com o amor romântico activam também nestes adeptos, mas activam mais e há regiões como esta das emoções, da amígdala, que activam muito mais do que no amor romântico. Portanto, nós conseguimos ver isso porque esses momentos são inesquecíveis para um adepto e não se apagam da memória, são sempre revividos da mesma forma intensa."
E os momentos negativos? Ou seja, quando sofremos um golo, quando há uma derrota, aí já esquecemos?
"As pessoas são muito menos sensíveis à exposição a essas memórias. Também foi uma surpresa para nós. Ou seja, o cérebro destes adeptos é muito mais receptivo para memórias positivas do que para memórias negativas, inclusivamente ao ponto que se costuma dizer que ver o rival sofrer dá recompensa, mas nós nem vimos muito esse padrão. Vimos muito mais o padrão de receptividade emocional a memórias positivas de eventos muito significativos da vida do adepto."
No entanto, quando se perde um jogo e em momentos de Mundiais ou de Europeus, parece que o mundo desaba para os adeptos. Se calhar a longo termo vamos esquecer, mas na altura até há pessoas que ficam com palpitações…
"Sim, isso é verdade, mas apaga rapidamente. Ou seja, a pessoa pode andar um dia ou dois assim - estamos a falar de pessoas típicas - mas depois há um mecanismo de esquecimento. E repare, há clubes de futebol em Portugal que estiveram anos e anos sem ganhar títulos e os adeptos continuavam lá porque os adeptos procuram-se, o nosso cérebro procura os momentos positivos. Podemos ficar mal dispostos durante um ou dois dias, mas temos um mecanismo de esquecimento relativamente eficaz para esse tipo de episódios negativos."
Compara, no fundo, a paixão pelo futebol, e as emoções que aí vivemos, ao que é vivido no amor romântico. Num e noutro caso, pode haver excessos, fanatismo, violência, obsessão…
"Sim, esse é o problema porque quando nós falamos em emoção temos sempre esta dicotomia entre emoção e razão. Assim como pertencer a uma tribo pode levar a excessos porque significa sempre a rejeição de outra coisa, a questão do ‘fair play’ é algo que é muito importante e que tem que ser cultivada porque nós ao nos identificamos com uma tribo, implicitamente estamos a rejeitar alguma outra coisa. Há sempre os dois lados da moeda e no amor é a mesma coisa. Depois é esta questão da pertença: um adepto com um maior grau de fanatismo sente que pertence ao clube e fará tudo pelo clube. No amor acontece a mesma coisa e isso pode levar a excessos porque é emocional. A emoção é algo que, na sua essência, também tem que ter algum mecanismo de controlo e, portanto, a emoção também cega. Nestes fenómenos do amor, seja romântico, seja tribal - no caso do futebol - nós temos sempre este perigo de a emoção nos cegar e isso vê-se em muitos âmbitos."
E é possível ver futebol sem ficarmos “cegos”?
"Eu acho que é difícil porque nós vemos sempre como um óculo enviesado. As pessoas normalmente quando são adeptos de um clube, vêem mais facilmente um penálti a favor do seu clube do que contra. Nós perdemos a neutralidade, o amor não é neutral, a paixão não é neutral e a paixão futebolística não é neutral. Faz parte. Por isso é que nós precisamos de mecanismos de controlo que existem no cérebro para regular estes processos emocionais."
O que é que faz com que tantos milhões de pessoas até tenham superstições e adoptem ou evitem certos comportamentos durante ou antes do jogo?
"O futebol é uma religião e a religião tem ritos. Nós, seres humanos, associamos e aprendemos a associar eventos a determinados acontecimentos como se eles fossem de prever. Os ritos, que são quase religiosos, é uma forma de afastar o mal, por assim dizer, e daí aparecerem esses hábitos que parecem muito estranhos, supersticiosos, porque o futebol tem esta dimensão de uma tribo, de uma religião. Claro que não há fundamento para esses ritos terem alguma utilidade, mas isso é algo que, de alguma forma, afaga a ansiedade que estes momentos também provocam."
Um dos jogos de quartos-de-final é entre Portugal e França. Há muitos binacionais - francoportugueses ou lusofranceses. Como é que eles decidem por quem torcer? Já que estamos a falar de amor e paixões no futebol, aqui vence o poliamor?
"Isso é uma excelente questão. É possível realmente a pessoa estar dividida neste amor, é mais raro, diria eu, no fim, as pessoas têm sempre uma preferência, têm sempre uma identificação, uma identidade, mas nós temos adeptos que torcem de forma intensa por dois países. No fim, há sempre uma identidade pessoal. Eu diria que, no fim, há sempre uma preferência."
Decorreu em Angola, no Centro de Ciência e Tecnologia do Lubango, um seminário sobre o Sistema de Informação Geográfica. Um dos organizadores do seminário foi Evanilton Pires, engenheiro ambiental e Coordenador do curso de Licenciatura em Engenharia do Ambiente do Instituto Superior Politécnico de Tundavala.
Decorreu em Angola, no Centro de Ciência e Tecnologia do Lubango, um seminário sobre o Sistema de Informação Geográfica. Um encontro que serviu, entre outros, para estudar formas de mitigar a seca em Angola e na Namíbia. Um dos organizadores do seminário foi Evanilton Pires, engenheiro ambiental e Coordenador do curso de Licenciatura em Engenharia do Ambiente do Instituto Superior Politécnico de Tundavala.
Em entrevista à RFI, Evanilton Pires, explica que o Instituto Superior Politécnico de Tundavala tem em mãos uma rede de estações meteorológicas para estudar os padrões climáticos e está a implementar uma rede de monitorização de poluentes atmosféricos e sempre neste nexo clima, poluição, actividades económicas e biodiversidade.
O engenheiro ambiental referiu que a iniciativa faz parte do projecto de retenção e armazenamento de água “WIRE” do Centro de Serviços Científicos da África Austral para as Alterações Climáticas e Gestão Sustentável dos Solos (SASSCAL).
No continente africano, mais de 24 milhões de pessoas na região austral do bloco enfrentam fome, desnutrição e escassez de água, devido à seca e à desertificação.René Machoco, activista da Justiça Ambiental , sublinha que “cerca de 50% da área moçambicana corre o risco de desertificação".
O ano de 2023 foi o ano mais quente desde o período pré-industrial (1850-1900), com a temperatura em África a aumentar 1,45°C da média. Os dados são da Organização Mundial de Meteorologia .
No continente africano, mais de 24 milhões de pessoas na região austral do bloco enfrentam fome, desnutrição e escassez de água, devido à seca e à desertificação.
René Machoco, activista da organização não-governamental Justiça Ambiental moçambicana, sublinha que “cerca de 50% da área moçambicana corre o risco de desertificação, afectando essencialmente a província de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, um pouco de Tete e Manica.”
O activista da justiça Ambiental aponta como principais causas da desertificação a “insuficiência de água superficial ou baixa precipitação, déficit pluviométrico, queimadas descontroladas além das plantações de monoculturas com recurso a fertilizantes, usados de forma intensiva.”
Machoco relembra que “o país se localiza numa região que é muito afectada pelos eventos climáticos extremos”, todavia “podemos criar medidas de adaptação e de mitigação a essas mudanças climáticas. Temos que encontrar medidas que evitem ou que minimizem a emissão de carbono, que é um dos principais elementos para o efeito de estufa (...) medidas que não pressionem a biodiversidade, opções de desenvolvimento que garantam a sustentabilidade das nossas florestas, evitando as plantações de monoculturas, fazendo diversificação de espécies com sucessão de culturas, apostando em medidas para o controlo de queimadas descontroladas”, entre outras.
Assinalou-se esta segunda-feira o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. As Nações Unidas apelaram mais uma vez a métodos de prevenção da desertificação e recuperação de terras, alertam que a destruição avança ao ritmo de cerca de quatro campos de futebol por segundo e acrescentam que 40% da área terrestre está degradada. Em Angola, as províncias mais afectadas pelo processo de desertificação e pela seca estão localizadas no sul do país.
Assinalou-se esta segunda-feira o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. As Nações Unidas apelaram mais uma vez a métodos de prevenção da desertificação e recuperação de terras, alertam que a destruição avança ao ritmo de cerca de quatro campos de futebol por segundo e acrescentam que 40% da área terrestre está degradada.
Este ano, o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca é assinalado sob o tema "Unidos pela Terra. Nosso legado, nosso futuro”.
Segundo a ONU, segurança, saúde, fome e pobreza estão intrinsecamente ligadas à prosperidade da Terra. Terras prósperas sustentam vidas, meios de subsistência e ecossistemas.
De acordo com os dados da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, o continente africano é o mais afectado pela problemática.
Em Angola, as províncias mais afectadas pelo processo de desertificação e pela seca estão localizadas no sul do país.
Belmiro Pascoal, biólogo e consultor ambiental, sublinha que em Angola “os períodos de seca aumentaram desde 2019 e já se registaram os piores cenários dos últimos 40 anos, onde o índice pluviométrico esteve a 65% abaixo do normal, o que levou mais de 1.3 milhões de pessoas a se deslocarem para outros países. Nós chamamos aqui de refugiados do clima. Isso em torno principalmente de três províncias: Cunene, Huíla e Namibe. Estima-se uma perda financeira em cerca de 168 mil milhões de kwanzas.”
Questionado sobre os factores que contribuem para a desertificação, o biólogo angolano sublinha a “característica desértica” da região, “a questão da intermitência dos rios. Existem zonas onde a população obstruiu o caudal e a água já não chega mais a preencher o leito normal do rio”.
Esses factores associados à crise climática, fruto da acção humana, que o mundo atravessa, acabam por acelerar o processo de desertificação do sul de Angola.
Para responder e mitigar a problemática Belmiro Pascoal fala da necessidade de “mais quadros nacionais voltados para o desenvolvimento de projectos climáticos” no sul de Angola, “a questão do ordenamento do território, de forma a melhor distribuir da nossa população a nível do território”, sem esquecer a “melhoria das condições sociais da população”.
O consultor ambiental ressalva de igual modo a importância da realização de “estudos geológicos, estudos climáticos, no sentido de poder minimizar os impactos geoclimáticos que já estamos a sofrer naquela zona,” além de “levar em consideração os trabalhos que as organizações de defesa do ambiente têm feito, no sentido de alertar e promover a educação ambiental”.
Os mangais são “berçários da vida marinha, fontes de subsistência das comunidades e ecossistemas de carbono azul”, por isso, é urgente mais educação ambiental para os proteger. Quem o diz é Danilson Lunguenda, Director de Gestão de Projectos da Otchiva, a iniciativa que tem protegido e restaurado mangais em Angola nos últimos seis anos. No Dia Mundial dos Oceanos, a 8 de Junho, 500 pessoas juntaram-se, incluindo 300 crianças, e plantaram 23.000 sementes de mangais.
RFI: No Dia Mundial dos Oceanos, houve uma participação recorde de pessoas para uma campanha de reflorestação. Quantas pessoas participaram e como foi?
Danilson Lunguenda, Director de Gestão de Projectos da Otchiva: Em alusão ao Dia Mundial dos Oceanos, assinalado a 8 de Junho, participaram mais de 500 pessoas, incluindo 300 crianças. Nós temos uma série de actividades, como a observação das aves migratórias, neste caso, de flamingos porque aqui é conhecido como o santuário das aves migratórias na comunidade do Tapo. Além disso, realizámos uma campanha de plantação de mangais com mais de 23.000 sementes de mangais plantadas, envolvendo as crianças, as comunidades, os pais e todos os voluntários que naquele dia participaram na causa.
Qual é que é a importância dos mangais para os oceanos?
Os mangais são conhecidos como berçários de maternidade da vida marinha. Cerca de 80% a 90% das espécies de interesse comercial, especialmente nas zonas tropicais, reproduzem-se nos mangais ou passam um estado de vida nos mangais. Não há como falar dos oceanos sem falar dos mangais porque então interligados. Reflorestando os mangais, estaremos também a proteger os nossos oceanos.
Há quem diga que os mangais são “ecossistemas de carbono azul” e essenciais para o combate às mudanças climáticas. Porquê?
Exactamente. Hoje em dia, o mundo está a acordar para os impactos das alterações climáticas e uma das maneiras de absorver esse carbono é através de ecossistemas naturais, como florestas e oceanos. No caso terrestre, as florestas, estamos a falar do” carbono verde”, que já é muito conhecido. Hoje em dia também se está a falar do “carbono azul” que é o carbono sequestrado por ecossistemas marinhos e costeiros. No caso dos mangais, são ecossistemas costeiros e são conhecidos por absorver 10 vezes mais dióxido de carbono quando comparados com outras florestas, o que torna estes ecossistemas importantes no combate às alterações climáticas.
Há ainda outros benefícios ecológicos e económicos. Quer falar-nos deles?
Os mangais também são considerados habitats para várias espécies. Lá tem muitas espécies de aves migratórias, tem crustáceos, tem os peixes, tem também mamíferos. Além disso, os mangais protegem a orla costeira contra erosões e inundações, protegendo dessa maneira as comunidades que vivem no seu entorno. Quanto a benefícios económicos, como eu disse, os mangais são habitats para várias espécies, como caranguejos e moluscos e essa biodiversidade marinha garante a sustentabilidade económica das comunidades locais.
Também dão suporte e protecção às espécies em risco de extinção, como manatins, tartarugas, algumas aves…
Exactamente. Por exemplo, durante uma das nossas campanhas de monitorização ambiental, havia uma ave que estava presa numa rede de pesca e nós quando soltámos essa ave, numa das anilhas estava escrito Londres. Era um garajau, que é uma ave ameaçada, e é sinal que nos nossos mangais aqui da nossa costa também repousam aves migratórias, além de outros mamíferos, como os manatins que vão para os mangais para se alimentarem, e alguns usam como refúgio.
No entanto, os mangais, nomeadamente em Angola, sofrem várias ameaças e riscos. Quais são eles?
Exactamente. Apesar da importância dos mangais como berçário da vida marinha, como fonte de renda e subsistência das comunidades e como ecossistema do carbono azul, os mangais têm enfrentado várias ameaças. Em Angola, há o corte da vegetação do mangal. Muitas comunidades cortam os mangais para construir casas, tarimbas. Também temos a poluição, especialmente os resíduos plásticos que provocam a morte de muitos organismos. Por exemplo, as aves, às vezes, confundem o plástico com alimento. Além disso, essa poluição vai contaminar os peixes que um dia irão parar aos nossos pratos.
Temos também a caça furtiva às aves migratórias e, especialmente, as construções de infra-estruturas porque as pessoas querem construir na orla costeira para terem acesso ao mar. Então, muita gente entulha essa zona para dar lugar a essas construções. Essas são as principais ameaças que os mangais em Angola enfrentam.
Temos trabalhado com o Governo, com as instituições, com as administrações, com o Ministério do Ambiente, para juntos restaurarmos os mangais e tirarmos essa condição de ameaça que os mangais têm sofrido.
Quais são os mangais que estão mais destruídos e que seria mais urgente restaurar?
De maneira geral, desde Cabinda até Benguela, os mangais estão ameaçados. Outrora estavam bem mais ameaçados, no entanto, com as acções da Otchiva temos vindo a mobilizar. Por exemplo, hoje em dia, a título de exemplo, aqui em Luanda, na zona do Benfica, havia uma zona em que estava a ser entulhada e graças às reivindicações da Otchiva e de todos os seus voluntários, podemos inspirar o Governo e hoje aquela construção já foi interdita e a zona está a ser recuperada.
Um outro exemplo é a ponte sobre o rio Mbridge, no Nzeto, na província do Zaire, que também foi construída, destruindo os mangais, mas através de uma expedição científica que a Otchiva e os seus voluntários fizeram, partilhámos com o governo e aquela ponte foi restaurada, as obras foram refeitas e já há circulação entre o rio e o oceano. Então, a biodiversidade regressou àquela zona.
Em Maio, a OTCHIVA foi aos escritórios das Nações Unidas em Genebra, na Suíça, para lançar o seu primeiro livro intitulado “Aves das Zonas Húmidas do Lobito, um catálogo para inspirar a sua protecção conservação”. Qual foi o objectivo desta acção e de que forma é que a ONU pode ajudar?
O Lobito foi onde a Otchiva começou porque os flamingos do Lobito são conhecidos como identidade da cidade. Os voluntários da Otchiva viram que o seu habitat estava a ser degradado e começaram a reivindicar a protecção dessa zona e foram-se registando as aves desde o início da Otchiva, desde aves migratórias, aves residentes, aves transitórias. Compilou-se e chegou-se ao catálogo. Não é só um catálogo de aves bonitas, é também para mostrar a beleza do Lobito, as zonas húmidas que lá tem, o que é que o Lobito pode oferecer para inspirar para a sua protecção.
A líder da Otchiva, Fernanda Renée, que é a mensageira mundial das zonas húmidas, tem trabalhado com voluntários, com instituições internacionais, com a Convenção de Ramsar para reverter esse quadro em que as zonas húmidas estão afectadas ou pressionadas. A ONU também abraçou essa causa, inspirou e apoiou para o lançamento do livro. Todo o mundo está engajado e está inspirado pelo trabalho que a Otchiva e os seus voluntários têm feito em Angola.
Quantos anos tem a Otchiva e quais são os próximos projectos?
Mais ou menos seis anos desde que começou. Daqui em diante pretendemos continuar com as nossas atividades de restauração das zonas húmidas e com as campanhas de educação ambiental, uma vez que só se protege o que se conhece. A educação ambiental é uma ferramenta crucial para mudar mentes e mudar a sociedade.
Pretendemos continuar com as nossas campanhas de educação ambiental, inspirar mais e mais voluntários para a protecção dos mangais. Aqui, por exemplo, neste último fim-de-semana, houve 500 voluntários, especialmente crianças, então estamos a garantir que gerações futuras cresçam já com essa mentalidade ambiental. Além disso, lançámos, em Maio, o livro sobre as aves do Lobito e pretendemos continuar a lançar mais artigos sobre os mangais para alcançarmos um ambiente mais sustentável para que gerações futuras possam usufruir destes recursos.
Decorre esta semana o evento “Mulheres, Literatura e Natureza”, um encontro promovido pela Business as Nature e a editora Exclamação. O colóquio insere-se no Movimento das Mulheres pelo Clima da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e tem como objectivo destacar o papel das mulheres na construção de uma sociedade mais inclusiva e sustentável.
Decorre esta semana o evento “Mulheres, Literatura e Natureza”, um encontro promovido pela Business as Nature e a editora Exclamação. O colóquio insere-se no Movimento das Mulheres pelo Clima da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e tem como objectivo destacar o papel das mulheres na construção de uma sociedade mais inclusiva e sustentável.
Susana Viseu, presidente da organização não-governamental Business as Nature, defende que este evento serve para trazer para a linha da frente “a intervenção das mulheres nas diferentes áreas da sociedade e aqui também nas causas de conservação da natureza".
RFI: “Mulheres, Literatura e Natureza”, que evento é este?
Susana Viseu, presidente da Business as Nature:Este é um evento que vamos realizar no dia 05 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, em Lisboa e, depois, vamos repetir no Porto, no dia 07 de Junho.
Em Lisboa, vamos realizá-lo na Biblioteca do Palácio das Galveias e o objectivo é envolver mulheres que têm diferentes actividades, quer seja na literatura e na importância da literatura e dos movimentos artísticos naquilo que é a conservação da natureza e nas questões do activismo ambiental e climático e, também, as questões do empoderamento feminino e da importância das mulheres na liderança.
Daí, termos um painel em que vai ser lançado um livro de uma mulher indígena, Eva Potiguara, da tribo das Potiguara, mulheres indígenas da Amazónia, que reflecte a luta na autodeterminação da mulher indígena e, portanto, também aquilo que foi a luta deste grupo de activistas na floresta amazónica contra a exploração do petróleo e a sobreexploração da floresta.
Depois, vamos ter um painel dedicado à Rede das Guardiãs da Natureza, um projecto que a Business as Nature lançou no ano passado, em parceria com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas e com o apoio do Fundo Ambiental, e que se desenrolou de norte a sul do país, em várias áreas protegidas. Vamos trazer mulheres-guardiãs de diferentes áreas protegidas em Portugal, desde o litoral norte de Esposende, a Ria Formosa, o Estuário do Sado, o Vale do Guadiana, a Serra da Estrela pelo Brasil, Dunas de São Jacinto e Montesinho. Portanto, umas mulheres vão intervir no evento na região norte e outras vão intervir no evento em Lisboa.
Teremos também um painel ligado à literatura. A literatura como cimento cultural das minorias, em que pretendemos trazer a importância da escrita nesta defesa do património cultural. Neste caso, por exemplo, na região norte, vamos trazer a língua e a cultura mirandesa, mas também a cultura de minorias, como uma advogada de cultura e etnia cigana, como vários representantes de minorias, que também através da manifestação cultural e em especial da literatura, trazem para a praça pública aquilo que são as preocupações e o respeito pelos seus valores culturais.
Temos também um painel de mulheres na liderança de empresas e dos desafios que estão relacionados com os indicadores de sustentabilidade (Environmental, Social and Governance). Que cada vez mais são uma exigência europeia dos balanços não financeiros por parte das empresas. Vamos também ter um painel de mulheres líderes empresariais para discutir este tema.
Por fim, vamos ter uma tertúlia, uma conversa descomprometida sobre os desafios das políticas ambientais para a próxima década, trazendo diferentes gerações, diferentes visões sobre aquilo que são as políticas ambientais, para podermos projectar os próximos tempos em termos das questões de ambiente, alterações climáticas, conservação da natureza, etc.
Terminamos em beleza, com o momento musical, com uma banda relacionada com o Brasil, com as comunidades indígenas e com a possibilidade de visionar o filme “A Flor do Buriti” de João Salaviza, que traz de uma forma muito expressiva e muito sentida daquilo que são as lutas das comunidades indígenas na Amazónia.
Como é que se chega a este encontro? Mulheres e natureza é uma relação óbvia. Cada vez se fala mais do próprio papel da mulher no combate às alterações climáticas, mas também do facto de ser a mulher e a menina as que mais sofrem com as alterações climáticas. Como é que se junta aqui a questão da literatura?
Desde sempre, até descobertas recentes o concluíram, até nas pinturas rupestres foram as mulheres que primeiro começaram a fazer a representação artística daquilo que eram as caçadas e as vivências do quotidiano na altura do Neolítico.
De facto, as mulheres têm sempre muito presente esta questão da sensibilidade artística, embora tenha sido pouco revelada ao longo da história.
Sabemos que no século XIX e meados do século XX, muitas vezes, as mulheres escreviam sobre um pseudónimo masculino porque se achava que as mulheres não tinham a capacidade para serem escritoras e para viverem da escrita.
Nós queremos trazer para a linha da frente, cada vez mais, aquilo que é a intervenção das mulheres nas diferentes áreas da sociedade, da economia, das artes, na literatura… Também porque a literatura sempre foi, nos movimentos e nas correntes transformadoras da sociedade, uma forma fundamental de transmitir as ideias, de fazer com que mais movimentos se juntassem em torno dessas causas. E aqui também nas causas da conservação da natureza, da protecção do ambiente. A escrita das mulheres que escrevem sobre a natureza e com a natureza são fundamentais para aumentar a ligação a estas causas.
Quais são os desafios das políticas ambientais para a próxima década?
Um dos grandes desafios prende-se mesmo com a necessidade de envolver as populações naquilo que são as causas ambientais. E nós estamos a sentir, a nível da Europa, que é o líder, digamos assim, mundial em termos das políticas ambientais, um risco de algum retrocesso dos avanços que foram desenvolvidos, até devido daquilo que são os processos de negacionismo, de subida dos extremismos, seja de extrema-direita, seja de extrema-esquerda, que têm visões muito negacionistas da própria ciência e que podem levar a esses retrocessos.
A mim preocupa-me que o norte global não estabeleça a necessária cooperação multilateral com os países em desenvolvimento, o chamado sul global. Porque sendo estes problemas transnacionais, que não se resolvem só com políticas de um determinado bloco, seja o europeu, sejam outros, é fundamental esta cooperação. Sem ela não conseguimos realmente implementar os avanços necessários para esta transição. E, depois, temos de compreender também as necessidades destes povos, não olhar para as necessidades destes povos à luz daquilo que é a nossa realidade de países desenvolvidos europeus.
Mas com os óculos deles, não com as nossas lentes.
É isso, o que às vezes é muito difícil. E é muito difícil nós, às vezes, compreendermos as necessidades dos diferentes grupos e os interesses dos diferentes grupos, que são muitas vezes legítimas.
O desafio é tentar compatibilizar todas estas visões e todos estes interesses, de forma a encontrar soluções que sejam equilibradas, não só para a preservação ambiental, mas também para as pessoas.
Não podemos esquecer aqui este elemento para as sociedades, para o combate à pobreza, para evitar a exclusão social de mais pessoas neste processo de transição. Portanto, isto para mim é um grande desafio e todas estas temáticas espero que sejam trazidas neste neste painel.
Estamos a menos de meio ano da COP29, que vai ser realizada em Novembro, em Baku, no Azerbaijão. Qual é o ponto da situação? O que é que já está a ser preparado e o que é que se pode esperar desta COP, realizada novamente num país produtor de petróleo?
Sim, este até bastante mais do que no caso do Dubai, Emirados Árabes Unidos. No Azerbaijão, cerca de 70% do PIB do país é efectivamente baseado no petróleo e gás.
Acho importante trazer os diferentes interesses, nomeadamente os interesses do petróleo e gás para cima da mesa. Prefiro que eles estejam na mesa a debater de forma aberta os seus interesses e a tentar encontrar compromissos, do que, como no passado, estarem a tentar influenciar por detrás, mas sem qualquer transparência.
Dissimulados?
Dissimulados. Prefiro que seja transparente, que seja assumido. Que cada um diga ao que vem, que sejam conhecidos os interesses de cada um, até para que depois nós, nas soluções que resultam da negociação, podermos ter uma visão mais clara de como é que se equilibram as diferentes partes.
Neste momento, vão decorrer as reuniões preparatórias da COP29 em Bona, na Alemanha, onde estaremos presentes para participar nestas sessões preparatórias, em especial nas sessões dedicadas à revisão do Plano de Acção de Lima.
Esta COP29 vai ter um foco muito importante nesta questão do nexo Gender and Climate [Género e Clima]. O Plano de Acção de Lima, que foi estabelecido na COP de Lima [COP20, Dezembro de 2014 ]vai ser revisto este ano em Baku e, portanto, os Estados que assumiram o compromisso têm que agora mostrar o que é que fizeram entretanto e como é que vão assumir de uma forma efectiva o envolvimento das mulheres e das meninas na acção climática; como é que vão proteger estes grupos que são, de facto, os mais vulneráveis às alterações climáticas. Portanto, este vai ser um ponto forte no qual nós esperamos que possam haver avanços e que possam haver compromissos mais efectivos por parte dos diferentes Estados.
Espera-se, também, avanços relativamente ao Fundo das Perdas e Danos, e que é importante perceber o que é que tem vindo a ser feito para operacionalizar esse instrumento e também haver mais contribuições para esse fundo, para que ele possa realmente permitir aos Estados que já estão a ser afectados pelas alterações climáticas, ter a devida compensação e as medidas que permitem a adaptação. Esta questão da adaptação é um foco relevante.
Depois estamos a meio caminho para 2030 e nesse sentido, é muito relevante perceber os avanços que podem ser estabelecidos ao nível dos compromissos dos países. Seguramente não iremos conseguir cumprir a meta de 1,5, mas ver se se consegue, pelo menos, atingir compromissos que não excedam o ponto de não retorno naquilo que são as alterações do sistema climático.
Um terço da população mundial confecciona os alimentos com recurso a fogões rudimentares. Quatro em cada cinco pessoas em África utilizam fogões abertos e tradicionais a combustíveis poluentes, como carvão e lenha. A falta de acesso a uma confecção limpa de alimentos tem consequências na saúde, educação, clima e também na igualdade de género. A activista Graça Machel defendeu, em Paris, que as mulheres devem ser parte activa destas políticas e não meras receptoras ou beneficiárias.
Actualmente, um terço da população mundial confecciona os seus alimentos com recurso a fogões rudimentares. Quatro em cada cinco pessoas em África utilizam fogões abertos e tradicionais que funcionam a combustíveis poluentes, como carvão e lenha.
A falta de acesso a uma cozinha limpa é a segunda maior causa de morte prematura em África, afectando principalmente mulheres e crianças de África subsaariana. Meio milhão de crianças e mulheres morrem prematuramente por ano em África por falta de acesso a energias limpas para cozinhar.
Em África, por dia, em média, meninas e mulheres perdem duas horas para recuperar combustível, como carvão ou lenha, e três horas para confeccionar a comida, a situação afasta-as da escola, das perspectivas de futuro, e coloca-as em posições de grande vulnerabilidade a ataques e violações.
Numa tentativa de colocar a Clean Cooking na agenda climática, a Agência Internacional de Energia promoveu em Paris, a meio deste mês de Maio, uma cimeira alusiva ao tema, onde foram arrecadados mais de 2,2 mil milhões de dólares em promessas de financiamento.
A falta de acesso a uma confecção limpa de alimentos tem consequências para a saúde, educação, para o clima e também para a igualdade de género.
A participar no encontro esteve activista Graça Machel que defendeu, em Paris, que as mulheres devem ser parte activa destas políticas e não meras receptoras ou beneficiárias.
A mulher de Nelson Mandela, e antes do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, lembrou que no “continente africano, quando se fala em cozinha, fala-se de mulher. São as mulheres que cozinham.”
É preciso olhar para a magnitude do problema que estamos a falar e, se o objectivo é 2030, a atribuição de recursos deve corresponder à magnitude do problema. É possível atingir esse objectivo em seis anos.
Gostaria de sublinhar o facto de estarmos a falar de cozinha limpa, Clean Cooking. Por isso, todos têm de ter em mente quem cozinha. E, nestas discussões ouvimos falar de política, de sector privado... Mas o meu ponto principal são as próprias mulheres.
Sim, precisamos de políticas e do sector privado, mas precisamos de reforçar a capacidade das próprias mulheres para que não se tornem meras receptoras, mas que participem activamente e absorvam as tecnologias que são necessárias. Portanto, uma perspectiva de género no desenvolvimento e na atribuição de recursos a nível global.
Depois, passamos ao nível nacional. Nós, como mulheres africanas, estamos a colocar em cima da mesa a consideração de que queremos ser investidoras, empresárias, gestoras e queremos ser, obviamente, as clientes, aquelas que utilizam a tecnologia. Por isso, qualquer política de qualquer governo tem de ter o rosto das mulheres na construção da capacidade de resposta.
Mais uma vez, tendo em conta a magnitude do problema, somos milhões de mulheres em cada um dos nossos países. Não podemos ser vistas como marginais, porque nem governo nem o sector privado serão bem-sucedidos sem nós.
Para sermos bem-sucedidos, temos de incluir as próprias mulheres nestas diferentes categorias, em toda a cadeia de valor, para que as mulheres participem activamente.
Clean Cooking, cozinhar com recurso a energias limpas, é essencialmente sobre mulheres, mulheres africanas, a maioria delas residentes em zonas urbanas, que são pobres e não podem pagar, outras nas zonas rurais que são ainda mais pobres.
Alberto Maverengue Augusto, embaixador de Moçambique em França, sublinhou tratar-se de um tema extremamente importante para Moçambique. Ressalva que o país ainda carece de infra-estruturas, todavia têm vindo a ser dados passos para suprir as carências energéticas.
Creio que é um tema extremamente importante para nós. Certamente que temos alguns desafios. Temos de ter energia suficiente.
Estamos no processo de electrificação de todo o país. (...) Precisamos de mais barragens e de mais estradas.
Na Cimeira Clean Cooking in Africa, cozinhar com recurso a energias limpas em África, foram mobilizados 2,2 mil milhões de dólares em financiamento e investimentos provenientes de fontes governamentais e do sector privado.
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