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Deve começar no primeiro trimestre de 2025, um projecto de protecção da Palanca Negra Gigante em Angola. A iniciativa é dirigida ao Parque Nacional da Cangandala e à Reserva Natural Integral do Luando. Vladimir Russo, director da Fundação Kissama, sublinha que o projecto poderá, “ trazer grandes ganhos com o reforço da capacidade de fiscalização e investimento em comunicações e salas de controlo de operações, essenciais para o patrulhamento e conservação da Palanca”.
Deve começar no primeiro trimestre de 2025, um projecto de protecção da Palanca Negra Gigante em Angola. A iniciativa é dirigida ao Parque Nacional da Cangandala e à Reserva Natural Integral do Luando, ambos habitats naturais desta espécie angolana.
No programa consta a construção de infra-estrutura, nomeadamente postos avançados, formação de novos fiscais e capacitação dos actuais. Avaliado em 3,6 milhões de euros, por um período de quatro anos, o financiamento fica a cargo da Agência Francesa para o Desenvolvimento em parceria com o Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação.
Sobre o estado actual da Palanca Negra Gigante, a RFI ouviu Vladimir Russo, director da Fundação Kissama, que sublinha que o projecto a concretizar-se poderá, “de facto, trazer grandes ganhos à Palanca e principalmente às áreas onde a Palanca existe, a reserva do Luando e o Parque da Cangandala, uma vez que, de acordo com o que está previsto na proposta, haverá um reforço da capacidade de fiscalização - que é essencial para a protecção da palanca -, haverá um investimento em comunicações e salas de controlo de operações, que são essenciais para parte do patrulhamento e conservação da palanca”.
A fiscalização e patrulhamento são as principais armas contra os caçadores furtivos que são a principal ameaça à espécie. A Palanca Negra Gigante é um antílope que só existe em Angola. Tem estatuto de protecção internacional, actualmente possui o estatuto de criticamente ameaçada. Nos anos 1970 estimava-se uma população total de cerca de 2500 palancas. Actualmente, o número total fica-se pelos 10% da população original.
A Fundação Kissama deu início ao projecto de conservação da Palanca Negra Gigante há mais de 20 anos, participando em campanhas de captura, tratamento veterinário e remoção de armadilhas. Durante vários anos foi a organização que geriu o Parque da Cangandala, até à transferência para o governo e tem estado na Reserva do Luando desde 2015.
O chefe de Estado de Moçambique, Filipe Nyusi, anunciou a angariação de “mais de 500 milhões de dólares”, durante o diálogo de alto nível sobre a Iniciativa do Miombo, floresta que abrange 11 países da África austral, que decorreu na semana passada, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. A directora da organização Justiça Ambienta, Anabela Lemos, alerta para o facto destes fundos se basearem em créditos de carbono e sublinha que a única solução “é parar com o uso dos combustíveis fósseis”.
O executivo moçambicano, que lidera o projecto, disse que estes fundos serão aplicados no mapeamento e recuperação das regiões mais afectadas pela desflorestação, bem como a monitorização de projectos capazes de gerar rendimentos alternativos à exploração florestal.
A directora da organização Justiça Ambienta, Anabela Lemos, alerta para o facto destes fundos se basearem em créditos de carbono e sublinha que a única solução “é parar com o uso dos combustíveis fósseis”.
RFI: O chefe de Estado de Moçambique, Filipe Nyusi, anunciou a angariação de “mais de 500 milhões de dólares. Não é a primeira vez que são anunciados fundos para a protecção da Floresta do Miombo. O que tem estado a ser feito?
A directora da organização Justiça Ambienta, Anabela Lemos: Andamos a tentar ver no terreno como é que está a situação, mas tem sido muito difícil termos uma informação.
Quais são as dificuldades, vêm de quem?
No terreno não vemos o que esperávamos em termos de reflorestamento, pelo menos na questão dos mangais. Quando pedimos informação é muito escassa e tudo o que conseguimos chega-nos através dos órgãos de comunicação ou está na internet.
Consideramos que não é com milhões de dólares que se vai resolver este problema [ protecção da Floresta do Miombo]. A principal preocupação da sociedade civil e das organizações, em Moçambique, é o recorrente corte ilegal de árvores e os crimes ambientais, sem que haja um controlo dessas situações.
Será muito difícil aplicar este dinheiro se não houver uma estrutura, ou competência para canalizar [este fundos] e fazer o que está certo.
As autoridades afirmam que este dinheiro será aplicado no mapeamento e na recuperação das regiões mais afectadas. Se diz que não é possível ver o que está a ser feito terreno, como é que as autoridades vão justificar -diante dos doadores- que vão avançar com estas medidas?
Os exemplos que temos até agora mostram que não conseguimos ver aquilo que dizem os responsáveis. Mas, além disso, a nossa maior preocupação é que muitos destes fundos são baseados em créditos de carbono. Ou seja, estamos aqui a dizer que vamos resolver e minimizar os impactos do clima, mas fazemos disso uma solução falsa. Continuamos a poluir e depois vamos pagar para conservar as florestas.
Acreditamos que a única solução para as mudanças climáticas é parar com o uso dos combustíveis fósseis. É claro que não se pode parar de um dia para outro, mas temos de começar. Com estas soluções estamos apenas a atrasar todo um processo que está a criar vários problemas, principalmente no sul global.
A ideia das autoridades é também desenvolver projectos que sejam capazes de gerar rendimentos alternativos à exploração florestal. São florestas que atravessam vários países Angola, Moçambique, Botswana, Malawi e Congo, República Democrática do Congo, Namíbia, África do Sul, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue. Como é que se chega a um consenso quando há tantos países envolvidos?
Eu acredito que esses países chegarão a um consenso no que refere à distribuição desses fundos. Quanto à aplicação dos mesmos, em Moçambique pode não correr, mas num outro país pode correr. A meu ver, só os Governos podem explicar como é que esses fundos vão ser geridos e distribuídos. Todavia, enquanto se mantiverem estes créditos de carbono, a implementação destes projectos não vai ajudar absolutamente em nada. São discursos falsos, porque temos consciência que verdadeiro problema das mudanças climáticas [ é a utilização dos fósseis] e isto não é nada mais que tapar o sol com a peneira. Temos de começar a cair na realidade, temos de parar com o uso de fósseis. Precisamos sim de proteger nossas florestas, as do Miombo e todas as outras florestas nativas.
Quando se sabe que o corte de madeira constitui um rendimento, de que forma é que se combate este flagelo?
Não estamos a dizer que não se podem cortar árvores. Temos é de ter um plano de gestão-quando as cortamos- e temos de plantar outras, criando essa mudança. Isto porque existem árvores que levam muitos mais anos que outras para crescer e precisamos de saber que madeira vamos utilizar e de que forma. É preciso ter um controlo do corte legal, das licenças e do número de aprovações que existe. Porém, quando há corrupção, sistemas que ninguém está a monitorizar o que sai do país, isso não funciona.
Entre 2008 e 2011 fomos a Cabo Delgado e depois à Zambézia e conseguimos saber qual era o número da madeira exportada para a China, através da informação que o Governo nos deu. Depois fomos à China e, quando lá chegamos lá, os números deles eram muito superiores àqueles que nos tinham dado aqui. Como é que é possível?
Como é que se continua a dar dinheiro para salvar uma floresta que depois parece que não é salva?
Isso é uma pergunta para os dirigentes e para os homens de negócios. Acredito que ninguém está muito preocupado em saber se a floresta vai ou não ser protegida. Eles querem que o sistema dos créditos de carbono prevaleça para continuarem a emitir. Cada país tem um limite e isso é um jogo, no fundo, que não vai resolver nada. Acredito que num país até consigam resolver, que possam evitar as ilegalidades das florestas.
Em Moçambique tem sido muito difícil. Várias acusações, vários relatórios –nos últimos anos- já não sabemos o que vamos fazer. Sinceramente, já nem dizemos nada, porque é uma perda de tempo, porque ninguém faz nada. Está tudo controlado pela máfia, pela ilegalidade e pela corrupção.
Acredita que devia sensibilizar-se a população para a importância desta floresta?
Sensibilizar as comunidades é importante, mas quem vive na zona rural sabe a importância da floresta. Porém, na zona rural a pobreza é enorme e, muitas vezes, quem está no terreno são chineses que dão uma moto-serra e dizem para cortarem um tronco ou uma árvore pelo preço de 10 dólares. A fome faz muita coisa.
O nosso país tem um problema enorme de pobreza e -às vezes a pobreza força a determinados comportamentos, uma vez que não há outro modo de sobrevivência.
Enquanto ouvirmos estes grandes problemas, não vamos resolver nada. O nosso o país tem recebido investimentos enormes em combustíveis fósseis [investimentos que contestamos] e enquanto isso, o último relatório sobre o aumento de pobreza em Moçambique subiu de 46% para 65% em 2022.
Considera que se devem acabar com os subsídios e apostar em alternativas para o fim das energias fósseis?
Essa é a nossa prioridade, associada à conservação das florestas, através de um controle e monitorização legal.
O cancro da próstata é um dos tipos de cancro mais comuns nos homens a nível global. África não é excepção. A doença, quando detectada precocemente, tem elevadas taxas de tratamento. Dois em cada dez homens angolanos têm cancro da próstata. Estudos indicam que os homens de ascendência africana têm um risco significativamente maior de desenvolver cancro da próstata em comparação com outros grupos raciais.
A próstata é uma glândula presente no sistema reprodutor masculino e o cancro da próstata acontece quando há um crescimento anormal das células nessa glândula, que pode acabar por se espalhar para outras partes do corpo se não for tratado a tempo.
Dois em cada dez homens angolanos têm cancro da próstata. Quem o diz é Heriberto Araújo, médico urologista ligado à Clínica Sagrada Esperança em Luanda.
No início, os sintomas e sinais de alerta podem não ser evidentes, é uma doença silenciosa, o que torna o rastreio precoce essencial. À medida que a doença progride, aparecem sintomas como dificuldade em urinar, aumento da frequência e diminuição do fluxo urinário, sangue na urina ou no sémen, dor ou desconforto na região pélvica, sensação de bexiga cheia, disfunção eréctil, entre outros sintomas.
Estudos indicam que os homens de ascendência africana têm um risco significativamente maior de desenvolver cancro da próstata em comparação com outros grupos raciais.
O especialista angolano aconselha os homens, com mais de 40 anos, a fazerem um rastreio anual. O exame médico de despistagem consiste no toque rectal, que permite, num primeiro período, verificar o tamanho da próstata. Caso neste exame o tamanho da próstata esteja acima do normal, ao paciente ser-lhe-ão pedidos outros exames, como análises de sangue - PSA, Antigénio Prostático Especifico, ou mesmo uma biópsia. O objectivo é detectar a doença o mais cedo possível para se evitarem mortes.
“O controlo anual é um rastreio que significa uma consulta de urologia, fazer o PSA, o toque rectal, uma ecografia e quando houver alteração de um desses três parâmetros, aí solicitar uma ressonância. Se a ressonância tiver alguma alteração patológica, é preciso fazer uma biópsia. É a biópsia que vai dar o verdadeiro resultado”, explica Heriberto Araújo.
Se o diagnóstico precoce é importante, a ocupar igual relevância neste campo está o estilo de vida. Especialistas defendem que os hábitos alimentares e a ausência de exercício estão na base do aumento do cancro da próstata.
Desde Junho deste ano que em Angola é possível o recurso à cirurgia robótica em caso de cancro da próstata. No contexto do cancro da próstata, trata-se da prostatectomia robótica (remoção radical da próstata), um procedimento menos evasivo - que resulta em menos dor, menos cicatrizes e uma recuperação mais rápida - e com menos complicações - reduz o risco de danos aos tecidos circundantes, o que pode diminuir o risco de complicações como incontinência urinária e disfunção eréctil, frequentes em cirurgias tradicionais de próstata.
Combater a insegurança alimentar, reduzir o êxodo rural e mitigar as mudanças climáticas são os grandes objectivos do “Puder di Bentana”, um projecto recentemente criado na Guiné-Bissau por Dembo Mané.
“Puder di Bentana” significa o “poder da tilápia” e traduz-se na produção, processamento e comercialização de tilápia, peixe ciclídeo de água doce.
Em Dezembro de 2023, através do Programa de Jovens Líderes Africanos, Dembo Mané participou da 28ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, COP 28, que decorreu no Dubai. Esse foi o ponto de viragem para este empreendedor de 31 anos, que já tinha frequentado uma acção de reforço de competências em agro-negócio voltada para a piscicultura, promovida pelo Pnud, no Benim, em 2022.
Em entrevista à RFI, Dembo Mané explica que “é um projecto que visa essencialmente combater a insegurança alimentar, o êxodo rural e as mudanças climáticas. Surgiu após a publicação do relatório das Nações Unidas, dizendo que a insegurança alimentar aumentou no continente africano devido a guerra na Ucrânia e os desafios da Covid-19. Lançaram o desafio aos jovens africanos no sentido de apostarem no agro-negócio como uma alternativa às mudanças climáticas e à insegurança alimentar. E logo eu, enquanto jovem, decidi começar a pensar numa alternativa e de poder ajudar a minha comunidade a combater a fome, com base neste projecto que visa criar transformação e comercialização do peixe."
A rampa de lançamento acabou por ser a COP 28, que aconteceu no final de 2023 no Dubai, Emirados Árabes Unidos. “Na COP foram abordados alguns assuntos ligados à alimentação, à agricultura e eu acho que é um desafio enorme. Após a minha participação, senti-me ainda mais motivado para poder fazer crescer o projecto, porque na COP tive a oportunidade de conhecer alguns parceiros e alguns jovens. Trocamos experiências e achamos que é importante cada um trabalhar na sua comunidade para poder impactar vidas e provocar mudanças.”
Dembo Mané lembra que na sequência das alterações climáticas, aumenta a acidificação dos mares e, por isso, “a piscicultura é uma das alternativas. Fazer o cultivo dos peixes além do mar, para poder abastecer o mercado e combater a insegurança alimentar. Quando estamos a utilizar a piscicultura, não recorremos a nenhum componente químico e é também uma forma de reduzir a sobrepesca, a pressão dos oceanos, para que possamos ter mais comunidade saudável. Do outro lado, a insegurança alimentar, na minha aldeia, a comunidade não tem acesso aos recursos básicos para a sobrevivência e a minha comunidade não tem peixe de qualidade. Os peixes que lá consomem não são saudáveis. Eu acho que a produção de tilápia na comunidade poderá impactar e oferecer à comunidade peixes saudáveis, 100% bio que vão combater a insegurança alimentar. Porquê? Porque o peixe que nós estamos a cultivar, a tilápia, é uma das maiores fontes de proteína animal. Tem ómega três que reduz problemas cardiovasculares, é uma fonte de proteína. Consumir este produto poderá melhorar a qualidade de vida da população, porque é um produto 100% bio, muito saudável, muito acessível e de acordo com a possibilidade da própria comunidade.”
A tilápia é comercializada fresca ou desidratada, em forma de farinha e passa por um processo laboratorial de controlo de qualidade.
O jovem guineense prepara-se agora para levar o projecto a Nova Iorque, Estados Unidos, onde vai participar na Cimeira do Futuro, “vou participar como delegado jovem da Guiné-Bissau e da África para impulsionar a agenda em prol da juventude. Como é que a comunidade ou a juventude pode ser envolvida e como é que nós podemos influenciar agendas em prol da nossa comunidade? Porque o futuro depende da juventude, nós somos o presente e a continuidade. A minha participação é importante para poder dar mais força à minha geração, à minha juventude e ao meu país em geral."
A Cimeira do Futuro, um evento organizado pelas Nações Unidas, decorre de 22 a 23 de Setembro de 2024, em Nova Iorque, e reúne os líderes mundiais com o objectivo de desenhar um novo consenso internacional sobre como proporcionar um presente melhor e salvaguardar o futuro. O encontro de alto nível é precedido de múltiplas reuniões, entre elas, da juventude.
Foi atribuído ao investigador português Rafael Galupa um financiamento por parte do Conselho de Investigação Europeu no valor de 1,9 milhões de euros. O montante vai permitir a este investigador português estudar mecanismos envolvidos na evolução e regulação dos nossos genes, em particular do cromossoma X.
Foi atribuído ao investigador português Rafael Galupa um financiamento por parte do Conselho de Investigação Europeu (European Research Council), no valor de 1,9 milhões de euros. O montante vai permitir a este investigador português - que lidera uma equipa de investigação no Centro de Biologia Integrativa (CBI), em Toulouse, França, - estudar mecanismos envolvidos na evolução e regulação dos nossos genes, em particular do cromossoma X.
Ao microfone da RFI, Rafael Galupa diz ter ficado “surpreso” com o financiamento que significa “um óptimo reconhecimento da nossa investigação e do nosso laboratório que está a começar e, por isso, fiquei super contente com este financiamento que nos vai permitir desenvolver um projecto nos próximos cinco anos, em que podemos estar focados só a fazer este projecto e não temos que nos preocupar com pedir outros financiamentos”.
O financiamento do Conselho de Investigação Europeu vai servir para o recrutamento, para os próximos cinco anos, de duas pessoas em doutoramento e uma terceira em pós-doutoramento. Trata-se de um financiamento exclusivo “portanto, durante este período não teremos outro tipo de financiamentos, mas que nos deixa confortável para podermos fazer todo o tipo de experiências associadas ao projecto.”
Além disso, o “valor também vai ser aplicado para cobrir todas as despesas, os reagentes e os equipamentos necessários para o projecto. Está também envolvida a compra de um equipamento que nos permite separar células individualmente, células únicas, mediante as suas características. Este equipamento também é relativamente caro e, portanto, todo este bolo vai-nos permitir isso, para além de despesas com participação em congressos internacionais e com a publicação dos nossos resultados em revistas científicas”.
O investigador português explica, ainda, que este projecto “foca-se num dos nossos cromossomas, o cromossoma X. Os indivíduos femininos têm dois cromossomas X e os masculinos, tipicamente, um cromossoma X e um cromossoma Y. E há um processo, muito curioso, que acontece nos mamíferos durante o desenvolvimento embrionário, que tem a ver com o facto de haver esta diferença de número de cromossomas X entre um sexo e o outro. E acontece que nos indivíduos com dois cromossomas X, há um deles que está inactivo. Portanto, em algumas doenças sabemos que esta inactivação do X fica desregulada, mas não sabemos quais são os genes que estão por trás disso. É uma pergunta complexa de se investigar e porque não tínhamos, até há pouco tempo, as técnicas necessárias para identificar esses genes. Mas neste momento temos, e foi isso que eu propus ao Conselho Europeu de Investigação, desenvolver um projecto para identificar estes genes utilizando técnicas de ponta na genética e na biologia molecular e utilizando o ratinho como modelo.”
Rafael Galupa é investigador e lidera uma equipa de investigação no Centro de Biologia Integrativa de Toulouse. Além disso, tem uma posição de investigador permanente através do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Científica francês. Em paralelo com a actividade profissional científica exerce uma actividade voluntária também ligada à ciência, na direcção da Cartas com Ciência e da Native Scientists, duas associações de cariz social que actuam junto de crianças e jovens de comunidades menorizadas e sub-representadas no meio científico.
Na semana passada, a ONU divulgou um relatório pouco auspicioso sobre a qualidade da água a nível mundial. De acordo com este documento, "a metade mais pobre do mundo contribui com menos de 3% dos dados mundiais sobre a qualidade da água". Ou seja, quase 4 mil milhões de pessoas repartidas nomeadamente pela Ásia e a África têm falta de dados sobre a água que consomem.
Para termos uma noção, sobre as cerca de 250.000 análises feitas em fontes de água doce a nível mundial, apenas 4.500 fornecem informações sobre a qualidade da água das regiões mais desfavorecidas.
Neste sentido, a ONU refere que a falta de dados e os "fracos níveis de vigilância" podem ter uma incidência sobre o cumprimento dos objectivos de desenvolvimento sustentável até 2030. Até lá, segundo o relatório, "mais de metade da Humanidade vai viver em países que não dispõem de dados suficientes para tomar decisões esclarecidas quanto à luta contra a seca, as inundações, os impactos dos caudais de águas usadas e da actividade agrícola".
Efectivamente, as Nações Unidas apontam as mudanças climáticas, as actividades industriais, mineiras e agrícolas, como alguns dos factores para a degradação da qualidade de água, que se estabelece em 50% a nível mundial. Daí que os autores do documento recomendem que se desenvolvam programas de vigilância no sentido de estancar a falta de informações em determinadas regiões do mundo.
Foi neste contexto que a RFI evocou o caso de Moçambique. No passado mês de Agosto, o Presidente Nyusi constatou melhorias neste aspecto, referindo que neste momento cerca de 60% da população moçambicana tem acesso à água potável.
O activista ambiental moçambicano Rui Silva também dá conta de progressos, referindo que determinadas zonas, como Maputo, beneficiam de uma vigilância constante da qualidade da sua água, sendo que noutras zonas do país, isto já não é tão sistemático.
"No caso particular de Moçambique, obviamente que existem problemas em determinadas zonas. Em Maputo, especificamente, as águas da região de Maputo têm um controlo muito apertado, pelo que não tem havido problemas em termos da qualidade da água. Nesse aspecto têm feito um bom trabalho e o controlo é feito diariamente, várias vezes ao dia. Agora, a qualidade de água neste momento, não só em termos de Moçambique, mas em termos de África, passa muito, primeiro, pelas más condições com que as pessoas têm estado. Se formos pensar nos meios mais recônditos, em qualquer país da África, uma boa parte das pessoas tem os seus furos de água. O que é que acontece, não só com as questões das mudanças climáticas, mas também com o desmatamento das florestas, as queimadas, tudo isso está intervir na qualidade da própria água", começa por esclarecer o especialista.
Questionado sobre os diversos desafios enfrentados por Moçambique no que tange à qualidade da sua água, Rui Silva cita o impacto da actividade mineira e também a falta de latrinas apropriadas.
"Tem sido muito discutido neste momento aqui em Moçambique, a questão da zona de Tete, mais precisamente em Moatize, onde a exploração de minas de carvão a céu aberto, em que de facto a água é completamente impossível de ser consumida, completamente impossível não só água como até o ar que as pessoas vão respirando. Isto, na minha modesta opinião, tem a ver muito com a falta de alguma fiscalização por parte das entidades centrais. Porque esta mina, por exemplo, quando esteve na posse de outra empresa (a brasileira Vale), os efeitos não eram tão graves como estão a ser neste momento (a mina passou a ser explorada pela empresa de capitais indianos Vulcan em 2022). A questão de haver água contaminada por causa das fezes, etc, passa também pela falta de condições que as pessoas têm, nomeadamente nos meios mais pequenos, em que têm as suas próprias latrinas que vão directamente para os solos e que nomeadamente em termos de urina, depois com as chuvas, etc, vão se infiltrando nos solos e podem eventualmente criar problemas, se calham em apanhar linhas de água que depois são enviadas para as habitações", refere o militante ecologista.
Relativamente à actividade agrícola que é um dos factores apontados pela ONU para a degradação da qualidade da água, no caso de serem usados produtos como pesticidas e fertilizantes, ou ainda no caso de se efectuarem queimadas, Rui Silva refere que tem havido um esforço de sensibilização para estas problemáticas.
"Sei que em vários pontos do país tem havido essa consciencialização no sentido de se fazer a compostagem, para evitar também a utilização de fertilizantes químicos, que também pode vir a afectar a água. Por outro lado, as próprias queimadas e o desmatamento feito pelos agricultores que, por uma questão de quererem mais espaço, etc, sem a plena consciência que estão também a criar outros problemas ambientais, isso tem sido um pouco uma realidade, embora tenho consciência que muita coisa está a ser feita no sentido não só de tentarem consciencializar os moçambicanos, os agricultores, mas também tem sido uma aposta, o plantio de árvores nestas zonas. Claro que ainda há muito por fazer, principalmente em termos de consciencialização por parte das populações que muitas vezes, ou na esmagadora maioria das vezes, não têm consciência daquilo que estão a fazer", diz o estudioso.
Ao referir que são entidades privadas ou público-privadas que asseguram o controlo da qualidade da água, sob a supervisão do Estado, o activista considera que "há empresas que, cada vez mais, estão empenhadas em termos de responsabilidade social, em termos da qualidade de vida das comunidades, etc. Cada vez há mais. Mas tudo depende sempre de empresa para empresa. Obviamente que há empresas que pensam mais na parte financeira do que na parte ambiental. Aliás, isso é o maior problema do mundo em termos globais. E é principalmente os países mais industrializados em que não conseguem fazer esse equilíbrio entre a parte financeira e a parte ambiental."
Por outro lado, embora constate esforços e melhorias no controlo da qualidade da água, Rui Silva não deixa de apontar os desafios que subsistem e que se prendem muito com a falta de capacidade financeira.
"Moçambique, sendo um país em desenvolvimento, obviamente que tem as suas limitações financeiras e o próprio Estado não consegue chegar a todas as necessidades. E obviamente que pode muita gente começar a pensar 'lá estão em África a estender a mão', mas não tem nada a ver com isso. Passa um pouco por haver também um certo apoio por parte de países mais industrializados, também mais desenvolvidos, até porque Moçambique, como se sabe, é dos países até que menos polui, mas dos mais vulneráveis às mudanças climáticas. E na última COP, já ficou acordado de haver determinadas verbas para ajudarem estes países que estão em desenvolvimento. Dentro das capacidades financeiras que Moçambique tem, que são muito baixas, muito tem sido feito. Na questão do acesso à água potável, muito tem sido concretizado. Claro que não se consegue tudo ao mesmo tempo, como é óbvio. A água de facto é uma prioridade para as populações, mas há outros aspectos que acabam por não ajudar, que é a falta de capacidade financeira por parte do país. Não é a falta de sensibilidade do Estado, mas é mesmo falta de capacidade financeira para poder atingir a totalidade das pessoas a terem acesso a água potável", diz o activista ambiental para quem o país tem poucas hipóteses de responder aos imperativos de sustentabilidade estabelecidos no horizonte 2030.
"Tudo vai depender de como os apoios que foram também 'prometidos', possam aparecer ou não aparecer. Nós sabemos que, por exemplo, nesta última conferência foi decidido já com a assinatura de todos os países ou praticamente da esmagadora maioria dos países. O apoio aos países em desenvolvimento, no entanto, já é uma questão que tem vindo a ser falada já em várias conferências e só nesta última é que as coisas parecem estar a começar a avançar. Portanto, não vai depender apenas exclusivamente de Moçambique, obviamente. Sinceramente, a mim, pessoalmente, se eu acredito que se vai atingir até 2030, muito sinceramente não acredito", conclui Rui Silva.
A Organização Mundial da Saúde declarou o surto de Mpox como uma emergência global, com casos confirmados em vários países de diferentes continentes e com uma nova variante em circulação. E esta nova variante preocupa os especialistas. Tudo indica que é mais perigosa e mais contagiosa. Walter Firmino, oficial de emergência dos escritórios da OMS em Angola, sublinha a mensagem de tranquilidade divulgada pela organização.
RFI: A nova variante descoberta na República Democrática do Congo pode alterar os planos que estavam previstos até agora para conter a doença?
Walter Firmino: Sim, vai exigir que o país intensifique as actividades de vigilância epidemiológica, tanto nas áreas sanitárias como nas comunidades. Vai também intensificar a comunicação e o envolvimento com as comunidades para sensibilizar a população sobre os sintomas e formas de transmissão. Portanto, exige mais esforço no nosso sistema de saúde.
Como é que funciona a coordenação entre a OMS e os diferentes governos ? Como é feita essa ligação e comunicação?
Quando foi declarada a emergência de importância internacional, a OMS activou o sistema de gestão de incidência que obriga os países a trocar informações. E também criou um dashboard, onde as pessoas ou os países podem ter acesso em tempo real a informações sobre a notificação de casos. É um sistema que ainda podemos melhorar. Muitos países não notificam em tempo real, mas existe um mecanismo de coordenação e de troca de informações no âmbito do Regulamento Sanitário Internacional.
Neste momento, África continua a ser o principal foco de preocupação.
Sim, é o principal foco. O Mpox já é endémico em África. Temos países como a República Democrática do Congo e outros na região. Mas a mutação, que é mais infecciosa e com transmissão fácil, passou as fronteiras do Congo e afectou outros países vizinhos. Alguns países que nunca notificaram casos estão agora a notificar, como o Burundi e a África do Sul. E há países que já tiveram casos há muito tempo e voltaram a notificar, como a Costa do Marfim.
Em relação à Europa, neste momento, a OMS envia mensagens de tranquilidade.
Porque é uma doença que não se transmite facilmente de forma rápida como uma infecção respiratória. É uma doença que se transmite por contacto. Pode ser por pessoas afectadas, que têm feridas e lesões na pele. Há uma nova forma de transmissão que é a via sexual. Mas mesmo assim, é uma doença que não provoca um número elevado de casos por dia, como outras doenças respiratórias. Quem tiver sintomas ou suspeita de Mpox deve detectar de forma precoce e fazer o rastreio dos contactos para controlar a progressão da doença a nível das comunidades.
Em relação ao contágio, têm surgido informações diferentes. No princípio, surgiu a informação de que o Mpox pode ser transmitido por secreções como gotículas de saliva ou respiratórias. As últimas informações falam de contacto físico próximo, incluindo o contacto sexual. É possível ter certezas em relação à forma de contágio?
O contágio cientificamente comprovado é por contacto com um doente com secreções que saem da ferida ou das lesões da pele e por via sexual. Também através do consumo da carne de macacos. Por via aérea ainda não está comprovado.
As pessoas têm acesso à informação sobre a doença? Como é que a comunidade está a reagir a esta nova variante?
No caso de Angola, onde estou neste momento, está a reagir normalmente e com tranquilidade. Criámos um plano de contingência para envolver as comunidades, dar informações correctas, explicar sintomas e também dizer o que podem ou devem fazer quando suspeitam que alguém tem sintomas.
Estudos apontam que a nova vacina contra a varíola humana é cerca de 85% eficaz na prevenção da doença. Como é que vai ser feita a gestão das vacinas? Quais são os grupos prioritários?
O Mpox está a ser transmitido com sintomas mais graves nas pessoas imunocomprometidas e nas crianças. Há poucas vacinas, estão a ser produzidas neste momento. Ser forem introduzidas em Angola, a população alvo será os profissionais de saúde e depois as pessoas imunocomprometidas porque desenvolvem a doença mais grave que pode levar à morte. O que dizemos agora à população é para não esperarem pela vacina e para terem comportamentos saudáveis para evitar o contágio.
Na Europa, a vacina que pessoas com mais de 40 anos levaram quando eram crianças protege contra a doença?
A literatura ainda não diz nada sobre essa possibilidade. Há vacinas que deixam a memória ao longo tempo e há outras que a memória com o tempo vai passando. As informações científicas vão surgindo e essa questão vai ser esclarecida. A posição da OMS é manter a tranquilidade das populações e reforçar o sistema de vigilância, reforçar a comunicação nas comunidades, evitar o estigma e cuidar da doença psicológica ou doença mental.
A Angola faz fronteira com a República Democrática do Congo, o país considerado o epicentro do Mpox e onde foi detectada a variante mais perigosa. Por essa razão, o Governo de Luanda reforçou o sistema de vigilância.
Angola reforçou o sistema de vigilância, elaborou um plano de contingência nacional e enviou esse plano às províncias da zona da fronteira com a RDC, que são cinco. As províncias replicaram esse plano de contingência e já se fez a formação dos técnicos da linha da frente da zona sanitária ao longo da fronteira. Há também actividades de envolvimento das comunidades nas províncias de Lunda Norte, Moxico, Lunda Sul, Malanje, Zaire e Uíge. São essas províncias que fazem fronteira com o Congo Democrático. Mas o país não ficou por aqui. Fez uma formação a nível nacional da equipa de resposta rápida que, por sua vez, vai fazer a formação a nível das províncias e municípios para termos uma equipa de destaque de resposta rápida, caso haja um caso para dar uma resposta atempada e evitar a expansão da doença.
Esta é a segunda vez em dois anos que o Mpox é considerado uma ameaça global. O que aprendemos em 2022? Estamos melhor preparados para enfrentar a doença?
A OMS deu as recomendações das boas práticas dos países afectados. Como sabem, estávamos a enfrentar a Covid19 e, por isso, houve actividades sobrepostas. Mas a abordagem é a mesma, as orientações são as mesmas e os países estão preparados para lidar com o Mpox. Porque não é uma doença emergente, não é uma doença nova e as medidas de transmissão e de prevenção são conhecidas.
Na semana passada, no dia 13 de Agosto, um grupo de habitantes de vários bairros da cidade de Moatize, na província de Tete, no norte de Moçambique, dirigiu uma carta às autoridades locais e à empresa de mineração Vulcan, estabelecendo o prazo de 30 dias para que sejam tomadas medidas contra a poluição provocada pela exploração do carvão por esta entidade na região.
Os autores da carta que referem reservar-se "o direito de tomar todas as medidas legais de protesto e de tutela efectiva dos seus direitos individuais e colectivos" se nada for feito, queixam-se de estar mergulhados em poeiras de carvão, por causa das actividades da Vulcan que, segundo ONGs no terreno, trabalha cada vez mais perto das comunidades locais.
A problemática do impacto ambiental da exploração do carvão em Moatize não é de hoje. A brasileira Vale explorou a mina durante uma dezena de anos até cedê-la por cerca de 253 milhões de Euros à mineradora de capitais indianos Vulcan em finais de 2021. Durante a época em que a Vale explorou a mina, houve nomeadamente denúncias de poluição da água com impacto na saúde da população mas também nas actividades económicas locais.
Contudo, segundo Pinho Pires, membro da Rede Africana Juvenil em Moatize, a situação tem vindo a piorar desde que a mina está a ser explorada pela Vulcan. Ao descrever o cenário actualmente vigente na região, o activista social que tem dado apoio às comunidades afectadas pela poluição, mostra-se céptico quanto à resposta da Vulcan e das autoridades locais.
"O principal problema é a poluição mesmo do ar. Há muitas poeiras que acabam afectando as comunidades. A mineradora está mais próxima das comunidades. Então toda a operação que se faz dentro da mina, todas as poeiras dela se estendem para as comunidades", refere o activista ao explicar que neste contexto, "não se consegue deixar a roupa fora, não se consegue consegue deixar a água fora, deixar a farinha branca fora, assim como os outros utensílios domésticos" e que as partículas entram inclusivamente nas casas, mesmo fechadas. "A comunidade é obrigada a fazer sempre limpeza em circunstâncias em que o distrito não tem água" e "outro problema são as detonações que criam problemas, por exemplo, de habitação, rachas, infiltração, às vezes desabamento mesmo", descreve ainda Pinho Pires.
Para além do impacto ambiental, o activista também detalha os problemas provocados pela actividade de mineração na saúde da população de Moatize. "Não há pesquisas muito maiores pelas quais possamos ter evidências em relação à saúde, mas pelos vistos temos muitos problemas ligados à respiração, constipação, problemas de gripe. E as pessoas que sofrem já de asma acabam sendo mais vulneráveis", refere o membro da Rede Africana Juvenil ao explicar que "as comunidades locais não têm condições de sair de um lugar para outro".
Questionado sobre o período que antecedeu a chegada da Vulcan na região há dois anos, Pinho Pires considera que "agora está pior", o activista referindo que enquanto a Vale esteve a explorar a mina, "já se estava a minimizar a situação, já se estavam a usar novas tecnologias para reduzir os impactos".
Ao explicar que a população tem tentado fazer chegar as suas reclamações à Vulcan através das autoridades moçambicanas, Pinho Pires diz que a população local acha que elas "não têm uma decisão forte sobre isso" e que "não há nenhuma actuação, nenhumas sanções, não acontece nada."
Perante esta situação, a RFI tentou contactar a Vulcan que até ao momento não deu resposta às suas solicitações. Na sua página internet, a empresa que sublinha ter sido em 2023,"pelo segundo ano consecutivo, o Maior Exportador de Grandes Projectos", comunica também sobre a sua responsabilidade social e ambiental. Destaca as actividades que tem desenvolvido a favor da agricultura local, a segurança alimentar, o abastecimento de água, a reciclagem de materiais descartados pelas suas estruturas, o seu programa de gestão do ruído e vibrações, ou ainda o apoio às franjas mais vulneráveis da população da zona de Moatize.
Ao ser questionado sobre a situação vigente no terreno, Eugénio Muchanga, administrador de Moatize, diz que efectivamente existem acções efectuadas pela Vulcan, mas que não são suficientes. O responsável local que reconhece a existência de poluição, confirma ter recebido a carta dos moradores descontentes e garante estar a envidar esforços para resolver o problema.
"O que posso dizer é que realmente a carta chegou às nossas mãos. É uma preocupação real que nós já vínhamos tratando com a Inspecção Geral das Minas que faz a vistoria dos níveis da poluição de ar. Esse trabalho está sendo feito nesse momento. Recebemos a carta e as entidades competentes estão trabalhando nisso. Mas é verdade que há poluição", começa por admitir o responsável local para quem é preciso insistir sobre "a questão do controlo das emissões de gases resultantes da mineração".
Inquirido sobre a qualidade da água que tem sido um dos problemas apontados pelos residentes nestes últimos anos, o representante das autoridades moçambicanas informa que tem havido algumas acções desenvolvidas mas que ainda não é o suficiente. "Neste momento temos um projecto que está a finalizar o abastecimento de água para a cidade de Moatize e para a cidade de Tete. A probabilidade de abastecimento ficar completo está para os finais de Setembro, segundo os dados que nós temos", indica o responsável político.
Por fim, ao sublinhar que a cidade de Moatize "não seria o que é, mesmo em termos económicos, sem o valor do imposto que (a Vulcan) paga ao Estado e retorna para a cidade", Eugénio Muchanga considera que a partir dos "conhecimentos que tem sobre mineração, sempre haverá problemas ambientais e de poluição".
A sustentabilidade esteve no centro das preocupações da organização dos Jogos Olímpicos 2024 em Paris, mas nem assim ficou livre de críticas. Um dos pontos emblemáticos de investimento neste evento foi a despoluição do rio Sena, com um dos autarcas de Paris a defender que os mergulhos neste curso de água são mesmo possíveis.
A candidatura de Paris como cidade organizadora dos Jogos Olímpicos tinha uma grande componente de sustentabilidade e luta contra as alterações climáticas. Nesse sentido, Paris quis banir durante a competição o uso do plástico de utilização única, como explicou Antoine Guillou, vereador da câmara de Paris responsável pela redução de lixo e reciclagem em declarações à RFI.
"A nossa ambição era limitar o mais possível o plástico de utilização única, porque isso tem um impacto ambiental muito maior em termos de resíduos. Mas o que também é digno de nota é que os edifícios da Aldeia Olímpica, por exemplo, onde se conseguiu reduzir a pegada de carbono para metade em comparação com os padrões normais de construção. Por isso, estamos realmente a dar o exemplo em termos de construção, sendo a reutilização de materiais extremamente importante. Portanto, de facto, é a prova de que podemos construir de forma diferente hoje em dia. E isso é interessante, penso eu, para todo o mundo", declarou.
Uma parte do orçamento atribuído a Paris para os Jogos Olímpicos serviu para levar a cabo projectos há muito ambicionados como a requalificação adiada de alguns bairros mais degradados, mas sobretudo a limpeza do rio Sena, até agora orçada em 1,4 mil milhões de euros.
"Muitos projectos foram significativamente acelerados pelos Jogos Olímpicos. Entre eles, a requalificação de certos bairros, como Porte de la Chapelle, que era um dos bairros mais desfavorecidos de Paris e que foi completamente transformado, inclusive em termos de vegetação, por exemplo. Isto foi claramente acelerado pelos Jogos Olímpicos. Podemos também falar do Sena, um rio que está poluído há décadas em Paris e na região da Ile-de-France porque lhe virámos gradualmente as costas. Era sobretudo um local de actividades de logística e de actividades industriais. Mas pensamos nele agora mais como um ambiente natural e, graças aos Jogos Olímpicos, conseguimos reunir todos à volta da mesa e fazer os investimentos necessários para que o rio ficasse suficientemente limpo para que as pessoas pudessem nadar nele. E vamos continuar a fazê-lo nos próximos anos. Este é um exemplo claro. Graças aos Jogos Olímpicos, ganhámos dez anos em termos de limpeza do Sena", indicou.
Os Jogos Olímpicos vieram acelerar também a crise do alojamento em Paris, onde é cada vez mais difícil encontrar casas disponíveis para alugar que não seja por curtos períodos como em plataformas como o AirBnb, empresa que patrocinava mesmo os Jogos Olímpicos. O alojamento de qualidade, unido às mudanças climáticas estão no topo das prioridades de Barbara Gomes, conselheira de Paris, como referiu em entrevista à RFI.
"O nosso objectivo é que Paris seja uma cidade diversa com todas as classes sociais, portanto as casas que foram construídas para os Jogos Olímpicos são em prioridade para as pessoas com rendimentos modestos, mas também classe média como enfermeiros ou professores, e também para os estudante porque temos muitos estudantes e eles precisam de rendas mais baixas", concluiu esta conselheira de Paris.
O segredo para ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos? O investimento dos países no desporto, quer seja para afirmação internacional, quer seja para resolver problemas internos. A resposta é do investigador e docente universitário Pedro Forte que estuda os impactos do treino desportivo e o desempenho dos atletas em provas desportivas.
Nos Jogos Olímpicos há a festa do público, a alegria da prática do desporto e depois, claro, as medalhas. A França, por exemplo, nestes Jogos Olímpicos em casa já bateu o recorde do número de medalhas acumulando até agora 44 medalhas entre ouro, prata e bronze.
Nos lugares cimeiros do pódio das medalhes estão ainda China, Estados Unidos da América ou Austrália. Para obter estes resultados, Pedro Forte, professor coordenador do Instituto Superior de Ciências Educativas do Douro, disse em entrevista à RFI que o mais importante é dar as condições necessárias aos atletas de alto nível não só para treinar, mas também para conseguirem um bom equilíbrio entre a vida pessoal e a prática desportiva.
"É preciso investimento. Quando nós vemos países extremamente desenvolvidos a liderar os pódios olímpicos, isto só pode dizer que existe uma boa captação de investimento para o desporto. Mas o desporto é um fenómeno mais do que de rendimento ou de afirmação pela competência física ou desportiva, é um fenómeno social. Nós temos assistido aos pódios olímpicos a serem essencialmente nações que têm uma intenção de afirmação de identidade ou, neste caso, de afirmação da sua posição mundial. E quando nós vemos países como China, como Estados Unidos, como a Austrália, são países que procuram uma afirmação mundial através do desporto", explicou Pedro Forte.
Em Paris, vários episódios menos agradáveis têm sido relatados pelos atletas como a falta de conforto na Aldeia Olímpica, a má qualidade da comida servida aos atletas e ainda os polémicos mergulhos no rio Sena, recém-despoluído, que têm levado ao adiamento das provas. Tudo factores que afectam o desempenho dos atletas, como atesta Pedro Forte.
"Quando nós olhamos para os desempenhos dos atletas e percebemos que uma milésimo de segundo pode ser o suficiente para definir uma medalha de ouro ou uma medalha de prata ou uma medalha de bronze, todos os aspectos vão contribuir para não só o rendimento desportivo do atleta em si, mas também para o seu bem-estar. Se um atleta tem uma determinada rotina de descanso e esta rotina é de certo modo afectada, a sua prontidão para a prova ou para a competição também será algo afectada. Aliás, nós tivemos um exemplo nestes Jogos Olímpicos do adiamento de uma prova de águas abertas e que tem implicações enormíssimas na preparação dos atletas", indicou Pedro Forte.
Pedro Forte é um dos investigadores mais prolíferos ao Mundo em termos de treino desportivo e já acompanhou atletas como Mário Trindade, atleta de atletismo paralímpico. Para este investigador, é importante ver o atleta como um ser humano em todas as suas dimensões, tal como acontece actualmente como Simone Biles, atleta norte-americana, que depois dos Jogos de Tóquio falou sobre a sua saúde mental e voltou a vencer agora em Paris.
"A comunicação social tem tido um papel muito importante naquilo que é a divulgação do ser humano nos atletas. A sociedade está muito habituada a olhar para os atletas como uma ferramenta para atingir uma posição social ou uma afirmação nacional. Mas na verdade, nós estamos a lidar com pessoas e essas pessoas também acabam por ter todas as actividades de vida diária a gestão familiar, a gestão emocional e eles tendem a estar sujeitos à pressão e não é fácil de gerir as expectativas dos treinadores, deles próprios, da família e dos amigos. Quando se abdica de tempo com com estas pessoas todas em prol de um resultado ou em prol da performance, às vezes lidam com desilusões ou lidam se com aspectos menos positivos que acabam por ter impacto a longo prazo na vida da pessoa", concluiu o investigador.
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