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By RFI Português
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  • Operação dos Estados Unidos na Venezuela “não foi propriamente uma surpresa”

    Horas depois da operação norte-americana na Venezuela e da "extracção" do Presidente Nicolás Maduro para os Estados Unidos, acusado de narcotráfico, Donald Trump afirmou querer “gerir” a Venezuela nos próximos tempos e avisou que as empresas norte-americanas vão explorar as reservas de petróleo do país. Neste programa, conversamos com a investigadora Diana Soller que considera que o que aconteceu no sábado “não foi propriamente uma surpresa” e que aponta como “receio legítimo” a possiblidade de outras acções militares norte-americanas noutros países.

    Esta segunda-feira, o Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, comparece em tribunal em Nova Iorque, acusado de narcoterrorismo, dois dias depois de ter sido capturado pelas tropas especiais norte-americanas. Entretanto, e perante nova ameaça do Presidente norte-americano de novo ataque à Venezuela caso o novo Governo não colabore, a Presidente interina, Delcy Rodriguez, adoptou um tom conciliatório e falou em “programa de cooperação”.

    A investigadora Diana Soller, coautora do livro “Donald Trump: O Método no Caos”, começa por lembrar que o que aconteceu “não foi uma surpresa”, nem um “novo precedente”, antes foi “só mais um precedente”. O que talvez seja “mais surpreendente foi a extracção do líder da Venezuela, não por razões políticas, mas por razões criminais que redundam aparentemente numa mudança não de regime, mas de liderança”, explica a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais.

    Sobre a legalidade de tudo isto, Diana Soller sublinha que há teses a defender os dois lados e destaca que “o que choca é uma transformação tão profunda de um actor internacional que até há muito pouco tempo se regia por determinadas regras e agora se rege por outras”. Por isso, no seu entender, o que mais a preocupa “não é o precedente relativamente ao Direito internacional” porque a História é feita disso, mas sim “o precedente que se pode ter aberto relativamente a outras acções militares noutros países que não a Venezuela”. Oiça a entrevista neste programa.

    RFI: Como olha para a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela?

    Diana Soller, Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais: “Em primeiro lugar, eu acho que não foi propriamente uma surpresa porque se juntarmos a quantidade de meios militares que estavam no terreno com aquilo que foi declarado na estratégia de segurança nacional, nomeadamente a ideia de que haveria um novo domínio norte-americano do hemisfério ocidental, bem como as ameaças que tinham sido feitas retoricamente por [Donald] Trump e por [Marco] Rubio, seria de alguma maneira de esperar que alguma coisa que implicasse a força militar acontecesse em tempos próximos e, portanto, foi no sábado.

    Talvez o mais surpreendente foi a extracção do líder da Venezuela, não por razões políticas, mas por razões criminais que redundam, aparentemente numa mudança - não de regime, mas de liderança - para uma liderança que provavelmente será mais amiga dos Estados Unidos. Darcy Rodriguez já disse hoje que está disposta a cooperar com os norte-americanos de forma a que os Estados Unidos tenham maior controlo sobre a Venezuela e sobre os seus recursos naturais.”

    Sobre a questão dos recursos naturais, é surpreendente que, de forma aberta, Donald Trump tenha assumido que o que está em jogo é o petróleo, é o passarem a ser os Estados Unidos a gerirem as maiores reservas conhecidas de petróleo no mundo?

    “No fundo, isto representa a parte ou a vertente transacional da política externa norte-americana, principalmente desta administração. Os Estados Unidos nunca fizeram segredo que a extracção de recursos naturais de diversas partes do mundo - a Ucrânia também faz parte desse grupo, digamos assim - que era considerado interesse nacional norte-americano. Portanto, mais uma vez, não me parece surpreendente.

    Agora, o que eu acho que está a acontecer, e que faz com que muitas destas questões sejam chocantes, é a grande mudança ideológica na política externa norte-americana, acompanhada de uma retórica, por um lado, muito barulhenta e muito confusa, mas por outro lado também muitas vezes muito franca relativamente aos objectivos norte-americanos. Nós sabemos que todas as grandes potências competem e procuram a extracção de recursos naturais de outros Estados. Nunca tivemos foi uma grande potência a dizer isso abertamente, já há muito tempo que não temos uma grande potência a dizer isso abertamente. Nós estamos - ainda estamos ou estamos a deixar de estar - numa ordem internacional em que este tipo de afirmações não era suposto fazer isso, mas como também há da administração Trump uma tentativa de transformar a ordem internacional numa ordem gerida pelas grandes potências, é natural que este tipo de coisas também se vão transformando.”

    Como é que vê a resposta europeia de não apontar o direito internacional e limitar-se a dizer que a Venezuela se livrou de um ditador, como fizeram alguns dirigentes, como o francês, quando o Secretário-Geral da ONU disse abertamente que há aqui um precedente perigoso?

    “Pedro Sanchez, [primeiro-ministro] da Espanha, também disse a mesma coisa. Quer dizer, o que é que a Europa pode fazer? Eu tenho uma grande desconfiança. Parece que, de repente, as pessoas se lembraram da ideia do precedente, quando toda a História está cheia de precedentes, enfim, de quebra do direito internacional por grandes potências, nomeadamente pelos Estados Unidos. Portanto, isto não é um novo precedente, é só mais um precedente. Isso é importante, evidentemente, mas a Europa, na realidade, pouco pode fazer relativamente à criação ou não criação de precedentes por grandes potências. Pode, isso sim, congratular-se, como se congratulou, ontem - hoje, provavelmente o discurso vai ter que ser um bocadinho diferente - pelo desaparecimento de um ditador que efectivamente coarctou os direitos humanos da população de um país - ele e o seu predecessor - durante 14 anos. Há presos políticos, há mortos políticos, há uma grande escassez na Venezuela, há uma falta de liberdade.”

    Até que ponto é que isso dá o direito a um outro país de extrair, de raptar, de sequestrar, de capturar - não sei qual é a palavra diplomaticamente correcta para usarmos - um Presidente?

    “Não há palavra diplomaticamente correcta porque isto não é bem diplomacia, é mesmo uma questão de intervenção militar. É uma extracção, é um rapto, se quiser, acho que são as palavras certas. Mas é isso que eu lhe estava a dizer: não há propriamente uma novidade numa grande potência fazer uma coisa dessas. Eu acho que o que nos está a chocar verdadeiramente, é que nós olhávamos para os Estados Unidos - e esta expressão foi usada por uma série de autores ao longo das últimas décadas - como uma potência benigna, uma hegemonia benigna que se autocontinha. Está-se a ver agora que, de facto, era uma potência autocontida porque queria proteger uma ordem internacional construída por si e pelos seus aliados do pós-Segunda Guerra Mundial, que ditava que havia um conjunto de coisas que não se poderiam fazer porque eram considerados, por essa mesma ordem, como uma espécie de linhas vermelhas que as potências de bom comportamento internacional nunca ultrapassariam.

    A grande transformação que houve é que os próprios Estados Unidos mudaram profundamente ideologicamente e têm um desprezo evidente por tudo o que é liberal, nomeadamente a ordem liberal que eles próprios construíram. Estão a agir em conformidade não com o Direito internacional e provavelmente continuarão a não agir em conformidade com o direito internacional, mas em conformidade com uma determinada ordem que existiu, nomeadamente no século XIX, a seguir ao concerto da Europa, em que as grandes potências tinham direitos e deveres excepcionais e predomínio sobre os Estados que não fossem potências. E é isso que nós estamos a ver agora. Aquilo que nos choca é uma transformação tão profunda de um aliado, de um actor internacional que até há muito pouco tempo se regia por determinadas regras e agora se rege por outras. E é isto que nos custa a aceitar.”

    Hoje, Nicolás Maduro comparece perante de um juiz federal em Nova Iorque. É acusado por Washington de narcoterrorismo, de ser o cabecilha de um grupo de narcotráfico. Qual é a legalidade da detenção e a legitimidade dos Estados Unidos para julgarem um Presidente de outro país?

    “Não sei dizer-lhe isso de uma forma muito contundente porque eu não sou especialista nem em Direito internacional, nem em Direito interno dos Estados Unidos. Tenho lido vários artigos, uns que dizem que é legal porque, no fundo, a vítima do narcotráfico são os Estados Unidos e podem efectivamente extrapolar a sua jurisdição para ir buscar um criminoso que está a violar as leis do país com dano para os cidadãos americanos. E tenho lido artigos que dizem que é completamente ilegal. Portanto, depende da escola de Direito internacional que está a apreciar esta situação.”

    Já houve ameaças a Cuba, à Colombia, a Nicarágua, também à Gronelândia. O que é que se espera? E há receios?

    “Eu tenho receio, sim. Eu tenho receio, porque toda a política externa norte-americana se está a voltar para esta posição de poder usar a força para chegar a objectivos políticos que transformem determinados países ou determinadas regiões em regiões mais amigas, digamos assim, dos Estados Unidos ou mais controláveis pelos Estados Unidos. Portanto, eu acho que sim, que relativamente ao precedente, preocupa-me menos o precedente relativamente ao Direito internacional, porque durante toda a História se abriram variadíssimos precedentes relativamente ao Direito internacional. O que me preocupa é o precedente que se pode ter aberto relativamente a outro tipo de acções militares ou outras acções militares noutros países que não a Venezuela. E sim, isso acho que é um receio legítimo.”

    11 min
  • Diana Andringa: “A autocensura é um grande risco para a liberdade de expressão”

    Entre memórias de infância no Dundo e a experiência da prisão política em Portugal, Diana Andringa revisita uma relação com Angola, país onde nasceu e cuja história marcou o seu percurso pessoal e profissional. A jornalista e documentarista, fala do colonialismo, da independência e do pós-independência, reflectindo sobre identidade, liberdade e desigualdade num país rico em recursos, mas ainda atravessado por contradições sociais.

    Quando pensa em Angola como território, e não com objectivo jornalístico, as primeiras imagens que evoca são pessoais. Distingue duas memórias centrais: a primeira é o Dundo, local onde nasceu, na então Linha do Norte, que identifica como uma referência fundadora da sua identidade. A segunda é política: o julgamento no Tribunal Plenário, durante o Estado Novo, por apoiar a independência de Angola. Recorda esse momento como decisivo, sublinhando o impacto de ter afirmado publicamente, perante juízes, o seu apoio à luta de libertação.

    O 11 de novembro de 1975, data da independência, não foi vivido em Luanda. Diana Andringa encontrava-se em Portugal, mas afirma que o acontecimento ficou gravado com nitidez. O gesto simbólico que mais a marcou foi a substituição da bandeira portuguesa pela angolana, um momento que, segundo diz, sintetizou a ruptura histórica. Apesar da distância física, acompanhou o processo através do trabalho jornalístico e recorda textos e descrições que lhe deram a sensação de estar no local.

    Para Diana Andringa, a independência representa uma experiência comum a muitos países africanos: um momento de libertação carregado de expectativas, mesmo quando os desenvolvimentos posteriores não correspondem ao projecto inicial. No entanto, considera que a independência não elimina todas as formas de dependência. Angola deixou de ser colónia, mas, na sua análise, continua sujeita a pressões de grandes interesses económicos e empresariais internacionais. Ainda assim, sublinha um ganho essencial: a afirmação da identidade nacional.

    A jornalista não esconde a frustração com o percurso seguido após a independência. Resume esse sentimento numa frase recorrente: “não foi isto que nós combinámos”. O ideal que identifica passava por uma Angola mais igualitária, com justiça social e sem corrupção. Reconhece, contudo, que o contexto colonial deixou marcas profundas, nomeadamente uma formação académica e política limitada, e que muitos dos comportamentos actuais têm raízes nesse passado. Para ela, a análise crítica deve ter em conta a memória histórica.

    As experiências que mais a marcaram na infância não foram apenas os grandes acontecimentos, mas situações do dia-a-dia que revelaram a complexidade cultural e social do país. Recorda histórias contadas por trabalhadores da casa, como a do cozinheiro que afirmava poder pescar em zonas perigosas por pertencer simbolicamente à “etnia dos crocodilos”, ou a reacção de surpresa de um empregado doméstico ao provar camarão pela primeira vez. Esses episódios, diz, ensinaram-lhe cedo a relativizar diferenças culturais sem as transformar em exotismo.

    Outras memórias tiveram um impacto mais directo na sua consciência social. Lembra-se de ouvir, ainda criança, um comentário sobre um bife destinado a um gato, seguido da observação de que havia crianças que nunca tinham comido carne. Esse contraste revelou-lhe de forma imediata a desigualdade social existente. Também a percepção do racismo surgiu a partir de situações concretas, como os códigos de comportamento impostos à população negra no espaço público ou a existência de práticas religiosas segregadas, que lhe pareceram incoerentes desde muito cedo.

    No presente, Diana Andringa manifesta preocupação com formas contemporâneas de censura, sobretudo aquelas que não são impostas de forma explícita. Destaca a auto-censura como um dos maiores riscos para a liberdade de expressão e associa-a directamente à precariedade laboral no jornalismo. Um jornalista em situação precária, defende, dificilmente consegue exercer o seu trabalho com independência, o que tem consequências directas para a qualidade da democracia.

    O balanço que faz de Angola é marcado por uma dificuldade em aceitar a persistência de desigualdades extremas num país com muitos recursos naturais. A coexistência de elites muito ricas com populações em situação de pobreza continua a preocupá-la. A nível pessoal, mantém o desejo de ver reconhecida formalmente a sua ligação ao país, expresso na vontade de ser considerada angolana também do ponto de vista legal.

    Entre Portugal e Angola, Diana Andringa defende a ideia de pertença múltipla e rejeita a noção de identidade exclusiva. Considera natural que uma pessoa possa ter mais do que uma pátria. A questão da independência, para si, mantém-se actual e universal: mais do que um episódio histórico, representa um desejo humano fundamental de autonomia e auto-determinação.

    21 min
  • "Juventude mais consciente" desafia Angola 50 anos depois da Independência

    “Expectativas sempre altas” e frustrações persistentes marcam os 50 anos de Angola independente, segundo Eugénio Costa Almeida. O investigador luso-angolano aponta a lentidão das mudanças e o uso selectivo do passado, mas destaca uma juventude pós-guerra “mais consciente e crítica”, que pode anunciar novos ciclos de contestação e a necessidade de um governo focado no desenvolvimento social.

    Eugénio Costa Almeida, luso-angolano, investigador e professor universitário com uma longa ligação académica a Angola e aos Estudos Africanos, acompanha há décadas a evolução política, social e estratégica do país. Ao observar a Angola de hoje, sublinha que “as expectativas continuam sempre altas”, porque existe, pelo menos ao nível do discurso, a vontade de melhorar as condições de vida da população. O problema, diz, é que “cinquenta anos ficaram muito aquém daquilo que eram as nossas expectativas desde o início”.

    Sem ignorar o peso da história, recorda que Angola viveu “problemas políticos muito graves” e uma longa guerra civil, factores que marcaram o Estado e a sociedade. Ainda assim, Eugénio Costa Almeida considera que isso não explica tudo. Nota, por exemplo, que o país “nunca passou por um golpe de Estado”, ao contrário de outros países, o que torna mais evidente a frustração perante o ritmo lento das transformações.

    O passado colonial surge no debate político, mas de forma selectiva. “Quando convém, sim, o passado é usado para justificar o presente”, afirma, sublinhando que essa prática não é exclusiva de Angola. “Todos os países fazem isso, mesmo Portugal”, acrescenta, apontando que muitas vezes a população “come e cala”, seja por cansaço, seja por uma memória curta.

    Essa lógica, porém, começa a chocar com uma realidade demográfica nova. Mais de metade da população angolana é jovem e já nasceu depois da guerra. “Essa juventude não passou pela guerra civil, é toda pós-2002”, lembra. E isso faz toda a diferença, porque se trata de uma geração que observa o poder com menos reverência e mais espírito crítico.

    Questionado sobre o grau de consciência política dessa juventude, Eugénio Costa Almeida é peremptório: “É muito mais consciente, muito mais avançada, muito mais criativa e, acima de tudo, muito mais intelectualizada.” Na sua leitura, Angola ainda não foi plenamente tocada por fenómenos de contestação, mas “não estará muito longe”, à semelhança do que aconteceu noutros países africanos, europeus e asiáticos.

    “Não existe um contrato social”, afirma, reconhecendo que pode haver vontades individuais dentro do Estado, mas que o sistema continua marcado pela “predominância do poder”. Essa lógica manifesta-se, inclusive, dentro do próprio partido governante, onde “já se notam sinais de combate político e social”, muito antes das eleições de 2027.

    O cenário partidário, aliás, revela contrastes. Enquanto no seio do poder crescem tensões internas, recentes processos na oposição evidenciaram “uma democraticidade que não era muito visível nos partidos políticos nacionais”. Esse factor, acredita, poderá influenciar decisivamente os equilíbrios futuros, sobretudo com a aproximação dos próximos congressos partidários.

    As comemorações dos 50 anos da Independência foram vividas com sentimentos ambivalentes. “Não foi com nostalgia do que aconteceu, mas do que queríamos que tivesse acontecido”, confessa. O momento foi marcado mais por “ansiedade futura” do que por celebração, inserido num olhar mais amplo sobre os percursos dos países africanos de língua portuguesa desde as independências.

    A memória pessoal do 11 de Novembro permanece viva. “Foi sempre o dia da minha independência”, recorda, evocando a experiência de acompanhar os acontecimentos à distância, pela rádio e pelos jornais, já em Portugal. Uma vivência discreta, mas carregada de significado identitário e político.

    Quanto às prioridades para o futuro, “é uma pergunta de um milhão”, admite. Ainda assim, aponta um caminho: “um governo de unidade nacional focado no desenvolvimento social”. Para o investigador luso-angolano, só uma sociedade minimamente desenvolvida pode sustentar uma economia diversificada, uma vida política mais participada e um país menos refém de soluções de curto prazo. O ideal, reconhece, “pode ser um pouco utópico”, mas continua a ser, insiste, “o que faria mais sentido para Angola”.

    9 min
  • França: um ano político em estado de turbulência permanente

    Duas quedas de governo, dois primeiros-ministros e a recondução surpresa de Sebastien Lecornu, tudo isto no espaço de apenas 12 meses. França viveu novamente um ano de grande instabilidade política, decorrente da grande fragmentação da Assembleia Nacional Francesa, dividida em três grandes blocos: a esquerda, o centro liberal de Emmanuel Macron e a extrema-direita.

    O ano começou com um novo primeiro-ministro, François Bayrou, que sucedeu ao negociador Michel Barnier, com a difícil missão de conseguir fazer aprovar orçamento do Estado. A 14 de Janeiro, Bayrou apelava à estabilidade, mas tudo desmoronou quando pediu uma moção de confiança que lhe foi rejeitada.

    O governo de Bayrou caiu a 08 de setembro e entrou em cena Sebastien Lecornu, considerado o último trunfo de Emmanuel Macron. Lecornu, que vem tradicionalmente da direita francesa, do partido gaulista "Os Republicanos", sempre foi visto como alguém dialogante, capaz de negociar e encontrar consensos, tanto com a esquerda, como com a direita.

    Sebastien Lecornu tentou formar governo e demorou cerca de um mês a anunciar a composição do seu executivo. O aliado fiel de Macron viria a demitir-se, de forma surpresa, a 06 de outubro, um dia depois de anunciar a primeira salva de ministros, que lhe valeu muitas críticas, por parte de quase todos os partidos políticos.

    O Presidente francês deu-lhe 48 horas para negociar com as diferentes forças políticas e disse que lhe concederia "carta branca" para governar, acabando por reconduzi-lo no cargo. Até ao momento, Lecornu tem adoptado a "estratégia de pequenos passos", negociando com as diversas forças políticas, à medida que surgem diferendos, tendo conseguido já uma primeira vitória: a aprovação do Orçamento do Estado da segurança social para o próximo ano.

    Este foi também um ano repleto de verdadeiras reviravoltas. Marine Le Pen, figura central do Rassemblement National, partido de extrema-direita, foi condenada, pelo Tribunal de Paris, a 5 anos de inelegibilidade, no caso dos Assistentes Parlamentares, ficando, para já, impedida de se candidatar às presidenciais de 2027.

    Ainda no decorrer deste ano 2025, Nicolas Sarkozy passou de ex-Presidente a presidiário. O antigo Presidente foi condenado a cinco anos de prisão no caso do financiamento líbio da campanha Presidencial de 2007 e passou 20 dias na prisão de La Santé, em Paris.

    Abordámos todos estes temas com Miguel Guedes, ex-conselheiro da Embaixada Portuguesa em Paris, que nos fez o balanço da turbulência política vivida este ano aqui em França.

    20 min
  • 2025 em balanço, os desafios políticos dos países de África lusófona

    Em 2025, os países africanos lusófonos atravessaram um ano de significativos desafios políticos, sociais e ambientais. Confira aqui o balanço deste ano nos países da África Lusófona, na companhia do docente moçambicano Régio Conrado, professor de Ciência Política e de Direito na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique

    Em Angola, a presidência da União Africana foi marcada por um foco nas questões de segurança e paz. No entanto, apesar dos esforços de Angola, os resultados concretos foram limitados, reflectindo as dificuldades estruturais da própria União Africana em intermediar crises e garantir soluções duradouras para os conflitos continentais.

    Enquanto isso, Cabo Verde enfrentou um ano devastador, com várias intempéries a afectarem as suas ilhas, especialmente São Vicente. As chuvas extremas e os deslizamentos de terra causaram grandes danos às infra-estruturas e comunidades, o cenário evidenciou a vulnerabilidade do arquipélago às mudanças climáticas.

    Na Guiné-Bissau, o ano de 2025 ficou marcado pela interrupção das eleições gerais de 23 de Novembro. Este evento expôs a fragilidade das instituições do país, que continuam a lutar para se consolidar, além de reflectir a forte presença do narcotráfico nas estruturas de poder.

    Em Moçambique, o ano foi de transição política, com o regresso de Venâncio Mondlane e a posse do novo presidente, Daniel Chapo. Embora a mudança de liderança tenha trazido um ambiente de esperança, as tensões que marcaram o ano anterior, especialmente em relação à desigualdade social, ao desemprego e à crise económica, continuam a afectar a sociedade moçambicana.

    Já São Tomé e Príncipe viveu um ano de instabilidade política moderada, com a troca de governo entre Patrice Trovoada e Américo Ramos. Uma mudança de governo que reflectiu as tensões políticas internas, alimentadas por conflitos entre partidos e uma persistente crise económica.

    19 min
  • “Entre guerras, clima e novas potências: O mundo em 2025”

    O ano de 2025 ficou marcado por um agravamento das tensões globais e por tentativas ainda inconclusivas de estabilização da ordem internacional. Neste balanço internacional, ouvimos o especialista em política internacional, Germano Almeida, para analisar os principais acontecimentos que moldaram a agenda mundial.

    As guerras na Ucrânia e em Gaza continuaram a dominar o debate internacional, acompanhadas por acusações de genocídio contra dirigentes israelitas e de crimes contra a humanidade imputados ao Hamas. Um ano atravessado por sucessivas tentativas de cessar-fogo que expuseram as fragilidades da arquitectura de segurança europeia e a dificuldade da comunidade internacional em impor soluções duradouras.

    2025 ficou também assinalado pela eleição de um novo Papa. Leão XIV, o primeiro pontífice norte-americano, tem sido descrito pela imprensa como uma figura discreta, mas com sinais de continuidade em relação a temas centrais do pontificado anterior.

    No plano geopolítico, a escalada de tensão no Indo-Pacífico - envolvendo a China, Taiwan e o Japão - reforçou os receios de um alargamento dos focos de instabilidade global. A cimeira do clima no Brasil voltou a colocar no centro do debate a urgência da resposta às alterações climáticas, num contexto internacional cada vez mais polarizado.

    O ano começou ainda com o regresso de Donald Trump à Casa Branca. Uma presidência descrita como mais organizada e simultaneamente mais disruptiva, marcada por uma postura de crescente hostilidade em relação à Europa e por uma redefinição das alianças tradicionais dos Estados Unidos.

    O ano de 2025 fica marcado pelo regresso de Donald Trump à Casa Branca. Que impacto teve a reeleição de Trump nos Estados Unidos e no resto do mundo?

    Um impacto enorme, ainda maior do que se imaginava, tendo em conta o que representa o Presidente dos Estados Unidos. Os Estados Unidos continuam a contar muito, talvez menos do que nos últimos anos, mas passaram a contar de outra maneira. Ou seja, esta segunda presidência de Trump é diferente da primeira. Tem alguns traços idênticos aos do seu estilo pessoal, mas distingue-se da anterior porque chega com uma agenda mais organizada e mais disruptiva.

    Donald Trump surgiu com ideias de interferir na soberania do Canadá e do México, através de tarifas que pareciam enormes, mas que depois afinal já não eram -e que, mais tarde, voltaram a sê-lo. Tudo isto transformou-se numa negociação permanente entre o caótico e o imprevisível, com impacto na tentativa de alterar a economia mundial e o papel dos Estados Unidos nessa economia.

    E, sobretudo, pelo que Trump foi demonstrando em termos de hostilidade em relação à Europa, de uma relativa e perigosa proximidade com a Rússia, e de oposição ao actual quadro internacional baseado numa ordem assente em regras e no multilateralismo. Fica a expectativa de que as grandes potências passem a resolver os assuntos com base em interesses de negócio, e não na segurança e na estabilidade internacionais.

    Quais é que são as consequências desta política para a economia e também no plano diplomático?

    São gigantescas, porque o quadro, embora em crise, da sociedade internacional que conhecemos nas últimas décadas mudou completamente. Era baseado no poder norte-americano, que, embora com muitos defeitos, dava garantias relativamente a alguns valores: a relação transatlântica, a estabilidade multilateral, a importância da NATO e da União Europeia. Tudo isto está em causa, porque Trump encara como negativo o poder dessas instituições.

    E depois porque, internamente, também ataca os direitos humanos de cidadãos americanos, com uma governação errática e absolutamente incompetente. O primeiro ano de Trump tem péssimos resultados do ponto de vista dos seus objectivos: prometeu baixar a inflacção e a inflacção está a aumentar; tem um nível de aprovação muito baixo, mesmo dentro daquilo que eram os seus apoios há um ano.

    Portanto, está a ser uma presidência caótica. A primeira também o foi, mas com a diferença de ter um foco e um interesse na agenda internacional que não correspondia ao habitual posicionamento americano. E quando uma ordem perde o seu principal pilar e ainda não tem uma alternativa consolidada, entra-se numa era e num período de um certo caos. É o momento em que estamos.

    Nesta agenda internacional, têm sido apresentados vários planos para tentar solucionar os conflitos no mundo. Em 2025, a população da Faixa de Gaza viveu, até ao cessar-fogo em vigor no enclave desde Outubro, um cenário de fome extrema, com as autoridades israelitas a serem acusadas de genocídio e o Hamas de crimes contra a humanidade. Perante este contexto, a solução de dois Estados ainda é possível?

    No papel, sim. Mas quando um dos lados - o lado israelita - tem um Governo que diz que isso não vai acontecer, essa solução torna-se muito difícil. E quando o outro lado tem como objectivo principal apagar do mapa o outro, como é o caso do Hamas em relação a Israel, também se torna difícil.

    O Hamas aceitou aparentemente um acordo por estar numa posição de grande fragilidade. Mas a verdade é que o próprio acordo para Gaza parou momentaneamente a guerra, mas de forma muito frágil, com ataques constantes, longe de uma verdadeira paz ou de um verdadeiro cessar-fogo. Há também um outro ponto que contribui para um momento de grande instabilidade naquela região.

    O impasse nas negociações na guerra na Ucrânia e os desentendimentos entre os Estados Unidos e a Europa na concepção de um plano de paz marcaram 2025. Que opções restam à Ucrânia?

    A Ucrânia está numa situação absolutamente dramática, porque aquilo que ajudou a aguentar quatro anos de invasão russa está a ser posto em causa. Os Estados Unidos são o principal financiador e contribuinte da NATO, que foi fundamental para a resistência ucraniana. E os Estados Unidos passaram de principal aliado a uma das ameaças à Ucrânia, porque, no plano negocial, quem manda na política americana escolheu um lado: a Rússia.

    Donald Trump diz que quer a paz, mas quer uma paz a qualquer custo, que até agora beneficiaria quase exclusivamente a Rússia. À Ucrânia resta continuar a resistir, passando a depender apenas da ajuda europeia e canadiana, sem a ajuda americana, que é fundamental. Oficialmente mantém-se alguma ajuda, mas de forma muito "interesseira", vendendo armas em vez de as fornecer.

    Resta saber até quando os Estados Unidos manterão a partilha de inteligência, que é crucial. A Ucrânia vai ter de resistir. Com a Europa poderá conseguir, mas isso custa dinheiro e tempo. Não sei se a Europa terá capacidade suficiente no momento actual, sendo obrigada a tomar decisões difíceis mais rapidamente do que imaginava. Isso gera outra consequência da posição americana: sectores europeus que ideologicamente concordam com Washington e outros que ainda não perceberam totalmente a dimensão do problema.

    Este conflito às portas da Europa levou o velho continente a apostar no sector da defesa. As ameaças da Rússia colocam em risco a paz europeia?

    A situação é diferente. A Europa não está a sofrer uma guerra como a Ucrânia, com ataques diários às cidades, mas está a sofrer um outro tipo de ameaça que não enfrentava nas últimas décadas: uma ameaça híbrida. Está a passa por situações como as que referiu e poderá evoluir para outros patamares de agressão.

    Se não conseguir travar a Rússia, a Europa passa a enfrentar um desafio e uma ameaça inédita. Terá de mostrar força e dissuasão suficiente para travar Moscovo, e terá de o fazer sem os Estados Unidos, pelo menos enquanto esta administração durar. São dois elementos novos para a Europa.

    Mas a liderança europeia será capaz de responder a esse desafio?

    Está a fazê-lo mais rapidamente do que muitos imaginam. O cliché de que a Europa não fez nada é falso. A Europa foi o principal pilar de reacção à agressão russa, embora não estivesse preparada, porque durante décadas viveu sob o guarda-chuva americano, que acabou.

    Estamos numa fase de transição. Há líderes europeus a fazer o possível, mas é preciso muito mais. Como somos democracias, não sabemos quem continuará no poder: quem sucede a Emmanuel Macron, quanto tempo terão os actuais líderes para modernizar as Forças Armadas. É uma fase de grande indefinição e risco.

    A Rússia é o principal inimigo da Europa?

    Vladimir Putin é a principal ameaça. Há um inimigo declarado e isso ainda nos causa perplexidade. Basta ler a estratégia de segurança americana: quem manda em Washington não gosta da Europa e quer destruir o projecto europeu. Não é uma guerra directa, mas é uma guerra ideológica.

    A Rússia é um potencial inimigo, embora, no papel, a Europa tenha muito mais força. Mas força que não é accionada é apenas potencial. A Rússia é um agressor com capacidade real e comprovada.

    Quais são os principais riscos da escalada de tensão entre China, Taiwan e Japão?

    Creio que os Estados Unidos continuarão a apoiar Taiwan e o Japão, mas com reacções mais imprevisíveis. A China vai explorar isso, e já o está a fazer.

    A Primeira-Ministra japonesa pode mudar a política do país?

    Já o está a fazer. [Sanae Takaichi] percebeu que a China é uma ameaça real e que a aproximação a Donald Trump não trouxe garantias suficientes. O Japão está a tirar conclusões sobre aquilo que os Estados Unidos podem não fazer. Uma das consequências poderá ser a militarização, até a nuclearização, do Japão.

    O ano de 2025 ficou marcado pela eleição do Papa Leão XIV. Que balanço faz dos primeiros meses do sumo pontífice?

    É difícil igualar o carisma do Papa Francisco, mas, de forma discreta, Leão XIV tem mostrado continuidade em vários temas. A viagem à Turquia e ao Líbano concretizou desejos antigos de Francisco. Na questão da Ucrânia, parece-me mais claro na definição das responsabilidades e do que é preciso fazer para travar a Rússia. Tenho, para já, muito boas impressões, sobretudo quanto ao papel do Vaticano como mediador discreto.

    A COP 30 terminou com um acordo modesto. O mundo continua a ignorar as alterações climáticas?

    Não é o mundo, são os principais poluidores. Muitos países estão preocupados, mas quando Estados Unidos, Índia e China não lideram, nada avança. Esta nova ordem é ditada por interesses de grandes potências, e isso tem consequências graves no combate ao risco climático.

    Que mensagem enviou o Brasil com a condenação do antigo Presidente Jair Bolsonaro?

    O Brasil tem problemas, mas o seu sistema judicial respondeu mais rapidamente do que em países supostamente mais desenvolvidos. É um bom sinal, apesar das contradições da democracia brasileira. No caso de Bolsonaro, é uma boa notícia para a democracia.

    O grupo das 20 potências económicas reuniu-se na África do Sul, mas sem a presença dos Estados Unidos.  Ainda assim, os países presentes assinaram uma declaração. Isto revela que o continente africano passa a ter outro peso na economia mundial?

     A África tem um potencial enorme e é a zona do mundo que, proporcionalmente, mais vai crescer nas próximas décadas. Basta olhar para a relação entre a China e África ou para países como a Nigéria, tendo em conta o crescimento demográfico e as riquezas naturais.

    No entanto, para ter um peso efectivo, África teria de contar muito mais com instituições fortes. Existe ainda uma certa imaturidade institucional, apesar de algumas excepções positivas, e uma dependência excessiva de grandes potências globais -como a China, a Rússia ou, nalguns casos, a França- que nem sempre tem sido benéfica para o desenvolvimento do continente como um todo.

    As taxas americanas podem afectar África?

    Claro que sim. São mais um travão ao desenvolvimento.

    Em Portugal, 2025 fica marcado pelas eleições legislativas que colocaram um partido de extrema-direita como a segunda força de oposição no país, 51 anos depois do 25 de Abril. A democracia do país está ameaçada?

    Não, claro que não. A subida rápida do Chega tem a ver com um voto de protesto. Sobretudo, tem a ver com a culpa dos dois principais partidos por terem provocado três eleições legislativas em três anos. Um absurdo completo, uma loucura, uma irresponsabilidade.

    Mas eu acho que Portugal tem noção das contradições. Tem indicadores económicos muito bons, como não tinha há muitos anos. Tem problemas grandes, como o acesso à habitação e alguns problemas pontuais ao nível da saúde. E depois tem uma subida artificial da percepção de risco relativamente a questões como a criminalidade e a imigração.

    Bom, eu vivo em Portugal e não vejo nada disso. Vejo um país muito seguro, vejo um país com um potencial bastante grande e com um dado novo, que é ter muito mais imigrantes. Eu não concordo com a ideia de que isso gere mais insegurança. Não vejo isso, sinceramente.

    Mas há, sim, um novo ecossistema, também mediático, que levou à subida de um partido que explora alguns medos. Há algum grau de irresponsabilidade em explorar essa questão de uma forma primária e, nalguns casos, injusta. Mas sabemos que em política não há justiça nem injustiça: não é abster-se, é a capacidade de explorar.

    Ainda assim, o Governo aprovou um novo diploma relativamente aos imigrantes que vêm, que de certa forma os penaliza...

    Este é um desafio para os partidos que dominaram a democracia portuguesa nos últimos 50 anos. Houve algumas capacidades perdidas, mas também grandes conquistas. Este país é muito melhor do que era há 51 anos. Falta saber se teremos partidos e líderes mais moderados que tenham a capacidade de explicar isso às pessoas e de encontrar respostas. Porque, volto a dizer, há um problema grave de habituação dos mais jovens, há outros problemas pontuais, como a questão da saúde, mas que também não está no caos de que muitas vezes se fala.

    Estamos numa situação global muitíssimo melhor do que a apreciação que as pessoas fazem dela, e agora é preciso tentar resolver esta discrepância. A subida de partidos chamados populistas é uma tendência global, ou pelo menos europeia e americana. Como tudo, terá fases. Os partidos que estão a subir hão-de parar de subir.

    Falta saber se só vão parar quando chegarem ao governo ou se é possível evitar que cheguem ao poder. Eu acho que em Portugal isso ainda não é uma inevitabilidade assim tão grande. Pode acontecer, mas não é inevitável. E, se acontecer, será uma fase que depois acabará por recuar.

    Quais são os grandes desafios para 2026?

    O risco de erosão das democracias e a polarização das sociedades. Paradoxalmente, o momento económico global é melhor do que as pessoas pensam.

    19 min
  • Misterioso e tangível, Eduardo Malé expõe Água Mole em Pedra Dura

    Água Mole em Pedra Dura é a exposição que Eduardo Malé apresenta em Lisboa, no Museu da Água.

    Aqui, o artista são-tomense reúne trabalhos de desenho, escultura, pintura e instalação. Eduardo Malé pensa o Mundo, as sociedades, e constrói narrativas.

    Numa tensão poética que apela ao ideal de belo mais original, Água Mole em Pedra Dura fala-nos de resiliência, de sofrimento, de resistência, de ancestralidade e de África.

    Na exposição, as correntes oceânicas, as mesmas que arrastam corpos, podem puxar-nos em diferentes direcções. Uma possibilidade, a quem se encontrar em tal situação, será o procurar agarrar o diário íntimo de muitos que nunca foram representados e de outros cuja existência só será reconhecida abstractamente.

    A RFI esteve no Museu da Água para falar com o artista Eduardo Malé, que nos fez uma visita guiada e expôs o conceito criativo de algumas das peças que apresenta na exposição, e falou também com a directora do Museu da Água, Mariana Castro Henriques, que começa por explicar o interesse em ter a exposição de Eduardo Malé no espaço que dirige.

    Mariana Castro Henriques, Directora do Museu da Água: Foi-nos proposta esta ideia pelo curador da exposição, pelo Ricardo Vicente, e, de facto, interessou-nos logo. É uma exposição de artes plásticas, digamos assim, portanto, com água. O que é que isto tem a ver com água? Para nós tem tudo a ver.

    Primeiro, porque a água está presente na própria exposição, não só no nome, no título da exposição, mas em toda a exposição. Pela forma como flui a água. Flui na forma como a água se enquadra em tudo, seja nos materiais, na vida, nas viagens, nos percursos, em tudo.

    Para nós interessa-nos também a questão da ideia de território. A exposição também abrange esse tema, ou seja, olhar para a água, a presença da água no território, como é que a água interfere com o território, como é que a água molda o território. E portanto, a experiência artística aqui condiciona-nos também a esse caminho. Por outro lado, e talvez para nós aquilo que é mais importante, porque tem muito a ver com o nosso trabalho, tem a ver com o sentido que a expressão artística pode dar ao valor da água. É um trabalho que nós intensamente tentamos fazer. Ou seja, hoje a água é um elemento muito desvalorizado enquanto bem utilitário e, portanto, a expressão artística muitas vezes deixa de olhar para a água apenas enquanto bem utilitário ou bem económico, dá-lhe uma expressão mais emocional. Talvez através dessa expressão consigamos chegar mais perto das pessoas e consigamos dar mais valor ao bem.

    Eduardo Malé, artista plástico: Água Mole em Pedra Dura, aqui eu tento falar, ou pelo menos partilhar com o público, a ideia da resistência. Isso tem uma relação também com várias pessoas que eu, no fundo, utilizo como inspiração. Estou a pensar agora no caso da investigadora Isabel Castro Henriques. Ela escreve muito sobre a história da colonização, as vivências dos africanos em Lisboa e, curiosamente, ela tem um texto que fala muito da pouca visibilidade que têm os africanos aqui. E Água Mola em Pedra Dura tem a ver justamente com essa falta de visibilidade, que tem a ver com esta ideia de paciência, de resistência que é preciso ter. Quando migramos temos que observar todos esses preceitos porque senão o sofrimento ainda é maior. Daí que eu entendi que o título tinha que ser algo que tenha a ver com esse tempo de espera, essa paciência que foi necessário ter até chegar aqui, a este espaço, a este museu, e poder, no fundo, falar ou fazer abordagens de inquietações que eu acredito que não serão apenas inquietações de Eduardo Malé. Serão, quiçá, inquietações de milhares de africanos, milhares de santomenses que deixam a sua terra natal pelas variadíssimas razões que cada um tem. Imigrar, ir à busca de melhores condições. Nem sempre estar aqui é sinónimo de sucesso logo à primeira e é preciso trilhar este caminho difícil, daí o título uma vez mais. “Água mole em pedra dura”, para completar o provérbio, “tanto dá até que fura”. E é este fura, este processo de afirmação também, para ir buscar a referência da Isabel Castro Henriques. Este furar é passar para outro lado, é passar para o lado do bem que acho que todos almejamos. Todo migrante sonha com ter uma vida mais desafogada, uma vida mais condigna, com mais dignidade.

    RFI: Algumas das peças aqui apresentadas ficam agora, pela primeira vez, sob o olhar do público. Uma das peças mais antigas aqui apresentadas e que simboliza a riqueza do manifestar artístico de Eduardo Malé, usando diferentes suportes, podemos chamar-lhe uma escultura de arame?

    Eduardo Malé: Sim, é uma escultura feita com arame queimado. A ideia de arame queimado tem muito a ver, uma vez mais, com a história da escravatura, porque os escravos, como eram marcados anteriormente no período colonial, como um elemento identitário para distinguir um escravo que pertence a um senhor dos outros, então eram marcados a ferro e fogo, daí a utilização desta matéria, este elemento simbólico é o arame queimado.

    Queimado porque é levado ao fogo para ter a textura e a tonalidade escura que normalmente assume. Aqui, o outro elemento ferrugem é deixado aqui de maneira propositada, e esta peça chama-se Racionalização. Tem muito a ver com a actualidade, a vida quotidiana actual das pessoas que habitam São Tomé e África, de uma maneira geral. Essa ideia de tomar banho debaixo de uma torneira, com o problema de escassez de água que existe. E esta relação, uma vez mais, água mole em pedra dura, para fazer o enquadramento em relação ao espaço onde estamos, o Museu da Água, a torneira para fazer essa ligação.

    A água está sempre presente, mas, no fundo, detrás da água, ou detrás do tema da água, está muito sofrimento, muita resiliência, muitas peripécias, muitas dificuldades. É um bocadinho esta ideia que eu pretendo ressaltar com os vários trabalhos que estão aqui expostos.

    RFI: Do ponto de vista mais formal, poder-se-á dizer que é uma escultura de um rosto sobre a qual está uma torneira, quase dois metros de altura.

    Eduardo Malé: Sim, quase dois metros. Aqui é uma provocação, no fundo, ou se quisermos uma chamada de atenção para os difíceis problemas. No fundo, este apelo social que é preciso, esta intervenção da sociedade para reclamar às autoridades, o acesso a bens tão necessários como é o caso da água.

    Eu próprio vivi essa situação durante muitos anos, e hoje em dia as pessoas que vivem em São Tomé têm que continuar a fazer grandes distâncias para ir à busca da água, deste alimento tão precioso, e que, apesar de vivermos num país com muitos rios, com muitas fontes de água, mesmo assim o fornecimento da água e a disponibilidade da água em boas condições para o consumo é sempre muito difícil. Daí esta peça com esta dimensão, e sobretudo a figura feminina aqui, joga este papel importante. Porque são, normalmente, as mulheres, mas também as crianças. Eu lembro-me que, em criança, a minha mãe fazia-me levantar, despertar muito cedo, para ir buscar água. Este é um ritual que acontece até aos dias de hoje, porque em 2025 continua a haver problemas muito sérios de abastecimento de água.

    RFI: Um outro trabalho, avançamos aqui para esta escultura, que é formada por um conjunto de esculturas, podemos dizer assim, são pés, estão fora de um rectângulo, de uma bacia rectangular ou quadrangular.

    Eduardo Malé: Aqui está subjacente a ideia da migração, do fenómeno migratório. Este rectângulo, este quadrado, vai ter um elemento simbólico aqui, que é a água, que é quase uma espécie também de representação das pateiras, dos barcos que fazem as travessias para chegarem à Europa. Gente que vem, gente que sucumbe. É um bocadinho em alusão a essas travessias difíceis que esta peça foi concebida.

    RFI: Na peça “Racionalização” a matéria-prima foi o arame. Aqui temos pedra e cimento.

    Eduardo Malé: A pedra representa um bocadinho a dureza da própria travessia, e os caminhos pedregosos, sinuosos. Eu tive a sorte de não fazer todo o trajecto, atravessar várias fronteiras, para chegar aqui à Europa. Mas há gente que tem que passar, tem que fazer caminhadas, daí, se reparar bem na escultura dos pés, os pés estão toscos para simbolizar justamente o desgaste desse sofrimento de caminhadas de muitos dias, muitos meses, até chegar à fronteira, para depois meter-se no barco. E esta relação com a água está sempre presente aí.

    RFI: A transversalidade do tema da relação Europa-África depois ganha uma outra dimensão, que é da pintura, com estes mapas convencionais sobre os quais o Eduardo Malé fez uma intervenção pictórica.

    Eduardo Malé: A ideia do mapa, se notar bem, há uma relação até com os arames. A trama, as linhas que compõem um entranhado de linhas, de caminhos, de estradas, de vias férreas, que se cruzam e criam, de alguma maneira, esta imagem do entranhado, que também podemos ver nos arames.

    Eu lembro um filósofo africano, francês, que escreve muito do corpo como fronteira. Daí a utilização do mapa e a inclusão destes corpos, que têm a relação. Se notarmos no exemplo da escultura em arame, vemos esse entranhado de linhas que passam de um lado para o outro, as sombras. Se nos aproximarmos mais lá ao pé do quadro, vemos também essa relação. É evidente que este trabalho tem um tema, trabalhar sobre um conceito específico, que é a terra prometida. É um bocado essa ideia de que a terra, o mundo, é global, é de todos. Da mesma maneira como vai um sul-africano, vai um português, ou foi um português, colonizou, impôs sua cultura, impôs suas regras.

    Eu sinto hoje, em pleno século XXI, como cidadão do mundo, também fazer esta apropriação. Evidentemente que aqui é mais uma história que quero contar, uma narrativa, mas no fundo eu quero trazer para o território europeu esta ideia tão rica da cultura africana, que tem matizes às vezes seculares e às vezes de coisas que foram levadas daqui para lá e que agora são importantes. É o caso, por exemplo, do Tchiloli, que é hoje Património Imaterial da Unesco, que foi levado daqui da Europa para a África, ganhou a sua própria identidade e hoje é marca identitária do povo de São Tomé e Príncipe.

    Eu, ao trabalhar sobre este mapa, crio uma nova narrativa, acrescento elementos que dão corpo, que dão luz, que dão vida ao mapa europeu.

    Eis algumas das obras de Eduardo Malé:

    Sobre Eduardo Malé :

    https://thisisnotawhitecube.com/artists/168-eduardo-male/

    13 min
  • Cabo Verde, a nação do futebol lusófona

    Este ano de 2025 ficou marcado por vários eventos, várias provas, várias conquistas em diversas modalidades. No entanto, a RFI decidiu destacar alguns momentos marcantes na história do futebol lusófono.

    Cabo Verde acabou por ser a nação a alcançar feitos inéditos no futebol masculino, mas igualmente no feminino.

    Na vertente masculina, os Tubarões Azuis apuraram-se para o Campeonato do Mundo que vai decorrer em 2026 nos Estados Unidos, no Canadá e no México.

    A selecção cabo-verdiana terminou no primeiro lugar no Grupo D com 23 pontos, contabilizando sete triunfos, dois empates e uma derrota em dez jogos.

    A única derrota dos cabo-verdianos foi na terceira jornada por 4-1 frente aos Camarões, desde então nunca mais perderam, terminando com quatro pontos de vantagem em relação aos Camarões, com sete em relação à Líbia e com 11 em relação a Angola.

    O primeiro lugar dava direito a um apuramento directo para o próximo Mundial onde Cabo Verde se vai estrear.

    No sorteio já realizado, Cabo Verde ficou no Grupo H com a Espanha, a Arábia Saudita e o Uruguai. Todos os jogos dos Tubarões Azuis serão em território americano.

    Em entrevista exclusiva à RFI, Nélson Veiga, antigo internacional cabo-verdiano, analisou o apuramento dos Tubarões Azuis para o Mundial.

    Nélson Veiga, de 47 anos, antigo internacional cabo-verdiano, actuou, entre outros clubes, no Sporting Clube de Portugal, no Estoril, no Vitória de Setúbal e no Naval em território português, bem como no AEK Larnaca e no Omonia no Chipre, e no Kawkab de Marrakech em Marrocos.

    Na vertente feminina, a selecção cabo-verdiana alcançou o apuramento para o Campeonato Africano das Nações que vai decorrer em 2026 em Marrocos.

    Para chegar a esse apuramento, as cabo-verdianas eliminaram na primeira ronda a Guiné-Conacri por 6-3 no conjunto das duas mãos. Uma primeira eliminatória que não foi fácil, visto que tinham empatado a duas bolas na primeira mão, antes de vencer, em casa, por 4-1.

    Na segunda ronda, a eliminatória até começou mal visto que Cabo Verde perdeu, em casa, por 0-1 frente ao Mali.

    No entanto, na segunda mão, as cabo-verdianas conseguiram dar a volta ao resultado com um triunfo contundente por 2-4.

    Um triunfo e um apuramento inédito para a selecção cabo-verdiana, mas igualmente para qualquer nação da África Lusófona visto que é a primeira a alcançar esse feito.

    Em entrevista exclusiva à RFI, Romina Rosário, internacional cabo-verdiana, revelou-nos como viveu esse feito inédito e o que espera do CAN do próximo ano.

    Romina Rosário, internacional cabo-verdiana de 33 anos, actua na JuveForce, clube português.

    No que diz respeito às outras nações da África Lusófona, destaque para Angola e Moçambique que se apuraram para o Campeonato Africano das Nações de 2025 que decorre entre 21 de Dezembro e 18 de Janeiro de 2026.

    Angola participa pela décima vez, sendo que já atingiu os quartos-de-final por três vezes: 2008, 2010 e 2023.

    Quanto a Moçambique está presente pela sexta vez, mas até agora nunca conseguiu ultrapassar a fase de grupos da prova.

    Estas duas nações são aquelas que já estiveram mais vezes presentes na fase final do CAN, à frente de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, ambos com quatro participações, enquanto São Tomé e Príncipe nunca marcou presença na prova continental.

    O ano de 2025 foi recheado de triunfos inéditos no futebol, como o Paris Saint-Germain, clube francês, que conquistou pela primeira vez a Liga dos Campeões europeus de clubes, enquanto Portugal venceu pela segunda vez a Liga das Nações, sendo a primeira selecção a atingir esse feito na prova da UEFA, organismo que gere o futebol europeu.

    Quanto a nós ficamos por aqui, nesta lista não exaustiva de triunfos em 2025, mas 2026 promete já ter novos capítulos a escrever para muitas nações, inclusive Cabo Verde que estará presente no CAN feminino e no Mundial masculino.

    16 min
  • A distância entre a promessa da independência e a vida dos angolanos

    Cinquenta anos depois do 11 de Novembro de 1975, Angola entra na segunda metade do seu primeiro século de independência com mais perguntas do que certezas. As celebrações ficaram para trás. Permanece uma interrogação sobre a liberdade, a justiça e o dia-a-dia de um país onde a promessa da independência continua distante da vida de muitos angolanos.

    A data redonda trouxe celebrações, discursos e retrospectivas, mas ficou uma inquietação nova, mais crítica, que atravessa gerações. É nesse silêncio que se mede hoje a distância entre a promessa da independência e a vida concreta dos angolanos. Uma distância que, para a jornalista Diana Andringa, continua marcada por memórias de afecto, de choque e de pertença: “A mais forte é certamente o sítio onde eu nasci… o Dundo, que eu costumo dizer que é a minha pátria.”

    Diana Andringa nunca esqueceu que a liberdade angolana começou também no seu próprio confronto com o Estado Novo. “Ter sido julgada no Tribunal Plenário por apoiar a independência de Angola… poder dizer à frente daqueles juízes que sim, eu apoio a independência, a luta armada”, recorda. Por isso, mesmo longe de Luanda, o 11 de Novembro foi vivido como ruptura íntima: “Foi sobretudo o arrear da bandeira portuguesa e subir a bandeira angolana. Uma pessoa, em princípio, não se esquece.”

    Essa primeira sensação de emancipação ainda a acompanha. “De repente, a liberdade. O ser livre… mesmo quando as coisas não correm muito bem.” Mas depressa a ideia se torna mais áspera: “Ser livre hoje em Angola é… não ser uma colónia de um determinado país”, diz, antes de reconhecer outras dependências, mais difusas e contemporâneas: “Ficas colonizado pelas grandes companhias, pelos grandes interesses económicos, tal como noutros países.”

    Ainda assim, insiste numa conquista irredutível: “És angolano. Isto quer dizer alguma coisa.” Mas é também aqui que surge a sua frase mais amarga, repetida como síntese de desilusão histórica: “Não foi isto que nós combinámos.” O que estava prometido, afirma, era “uma Angola igual para todos, com justiça social, sem corrupção”.

    Hoje, a sua inquietação desloca-se para formas mais subtis de controlo. “A censura que mete mais medo é aquela que vem de dentro de nós”, afirma. E identifica na precariedade o maior inimigo do jornalismo: “Um jornalista precário não é livre… no dia seguinte está na rua. Isso limita a liberdade dele e a de toda a sociedade.”

    No balanço destes 50 anos, permanece uma ferida difícil de aceitar: “Custa-me… por aceitar”, confessa, perante um país onde convivem “elites muito ricas e gente a passar fome”. Ainda assim, mantém o desejo íntimo de pertença: “Gostava que me dessem os papéis… era para morrer angolana também, que é o que eu sou.” E reivindica uma identidade dupla que muitos continuam a estranhar: “As pessoas têm duas pátrias.”

    No plano político, o historiador Eugénio Costa Almeida lembra que Angola chega ao meio século com “instituições frágeis, desigualdade persistente” e uma juventude “muito mais consciente e crítica”, que já não aceita explicações históricas para problemas presentes. A ausência de um “contrato social” e o desgaste das promessas repetidas tornam-se evidentes num país onde a informalidade domina e a confiança é escassa.

    Sem ignorar o peso da história, recorda que Angola viveu “problemas políticos muito graves” e uma longa guerra civil, factores que marcaram profundamente o Estado e a sociedade. Ainda assim, considera que isso não explica tudo. Nota, por exemplo, que o país “felizmente nunca passou por um golpe de Estado”, ao contrário de outros contextos africanos, o que torna mais evidente a frustração perante o ritmo lento das transformações.

    O passado colonial surge frequentemente no debate político, mas de forma selectiva. “Quando convém, sim, o passado é usado para justificar o presente”, afirma, sublinhando que essa prática não é exclusiva de Angola, apontando que muitas vezes a população “come e cala”, seja por cansaço, seja por uma memória curta convenientemente explorada.

    Da análise política de Justino Pinto de Andrade surge o diagnóstico mais severo: Angola vive “um sistema multipartidário”, mas não uma democracia plena. A ausência de alternância, a confusão estrutural entre Estado e partido e as “restrições e constrangimentos” à oposição revelam, na sua leitura, um regime onde a pluralidade existe, mas não é garantida. “Alguém tem que lutar”, afirma, para que a liberdade deixe de ser apenas um princípio constitucional e passe a ser experiência do dia-a-dia.

    Para o político e analista angolano Justino Pinto de Andrade, o ponto de partida do debate político em Angola está viciado. “É exagerado falar-se em democracia angolana”, afirma. Na sua leitura, a democracia pressupõe condições que continuam ausentes. “Há um conjunto de condimentos que faltam muito”, observa, referindo a inexistência plena de “liberdade de escolha, de opinião, de expressão” e de circulação das forças políticas. O quadro actual é, assim, o de um processo incompleto, que “não me parece que esteja concluído em Angola”.

    A inexistência de alternância no poder é, para Justino Pinto de Andrade, o sinal mais evidente dessa falha estrutural. “As democracias caracterizam-se por haver alternância. Aqui nunca houve”, recorda, sublinhando que o país vive “há 50 anos com a mesma força política”, determinada a manter-se no poder “por todos os meios”.

    Cinquenta anos depois, Angola parece viver entre duas forças: a da memória fundadora e a da urgência presente. A da liberdade proclamada e a da liberdade por conquistar. A da identidade afirmada e a do país que talvez ainda esteja por inventar. No fim, permanece uma pergunta que, como disse Diana Andringa,“por que é que eles quiseram ser independentes?” A resposta, talvez, continua por cumprir: “Acho que o sonho de todos nós é sermos independentes.”

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  • Luta de libertação de Cabo Verde no ADN das mulheres Araújo

    A luta de libertação é uma história contada e cantada pelas mulheres da família Araújo. Amélia era uma das principais vozes da Rádio Libertação. A sua filha, Teresa, era bebé quando entrou na luta e cresceu na Escola-Piloto de Conacry. Kady, neta de Amélia e filha de Teresa, diz que a luta continua e é por isso que também usa a voz como uma arma. Falámos com as três em Paris e na Praia.

    A 5 de Julho de 2025, Paris também festejou os 50 anos da independência de Cabo Verde. Entre os artistas, convidados pelo músico Dino d’Santiago para subirem ao palco do Théâtre de la Ville, estava a cantora cabo-verdiana Kady, vestida com uma t-shirt com a fotografia da avó, Amélia Araújo, uma voz da luta de libertação. Meses depois, Kady regressou à capital francesa, novamente convidada por Dino d’Santiago, para actuar no Festival Lisboa Nu Bai Paris, desta vez na sala La Gaîté Lyrique. Kady usa a voz como uma arma, tal como a avó o fez, outrora, ao microfone da Rádio Libertação.

    “É como se estivesse a dar continuidade ao legado da minha avó e de todos os combatentes, mas especialmente da minha avó porque a arma dela foi a voz e é a arma também que eu uso, entre aspas, para tentar trazer mais luz, mais emancipação intelectual porque acho que ainda temos um longo caminho para andar, apesar de já ter sido bem pavimentado. Eu sinto que é dar continuidade e honrar esse legado”, contou Kady à RFI, no final do concerto de 8 de Novembro.

    Kady, Terezinha e Amélia são três mulheres que representam a própria história de Cabo Verde. A luta passou de geração em geração, primeiro com a pioneira Amélia Araújo, que lutou pela libertação; depois com a sua filha, a cantora Terezinha, cujo talento foi estimulado pelo próprio Amílcar Cabral, o líder das independências de Cabo Verde e da Guiné-Bissau; e agora com Kady, neta da revolução. “A luta continua”, lembra a mais jovem das mulheres Araújo aqui entrevistadas.

    Amélia Araújo era uma das vozes mais ouvidas da luta, a locutora das emissões em português da Rádio Libertação. No final de Maio, ela falou com a RFI, na sua casa na Praia, para recordar os tempos em que a rádio que dirigia era uma poderosa arma de guerra psicológica, descrita por Amílcar Cabral como o “canhão de boca” da luta de libertação. O líder do PAIGC era também um colaborador frequente da rádio que levava as mensagens da revolução aos povos guineense e cabo-verdiano.

    “A Rádio Libertação foi um instrumento que nos ajudou a transmitir as nossas opções, os nossos princípios e aquilo que nós queríamos para nós, para os nossos países: liberdade, independência. Nós fazíamos cópias dos programas e mandávamos para Dakar, para o Gana e para Angola também. Era muito divulgado e deu o seu contributo para a luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde”, conta.

    Foi a 16 de Julho de 1967 que a Rádio Libertação começou a emitir, a partir de Conacri. As primeiras experiências tinham começado em 1964, mas o emissor era muito fraco. Em 1966, Amélia e outros companheiros foram enviados para uma formação de alguns meses em Moscovo e regressam a Conacri com um emissor portátil oferecido pelos russos. Mas a rádio era ainda pouco ouvida devido à fraca potência e, em 1967, a Suécia oferece-lhes um estúdio e um emissor moderno. Começavam as emissões que seriam em português, crioulo, balanta, fula, mandinga e beafada. Amélia Araújo trabalhava nas emissões em português e os soldados portugueses chamavam-na “Maria Turra”. “Turra” era o termo usado pelos portugueses para designar os guerrilheiros independentistas.

    O “Comunicado de Guerra” e o “Programa do Soldado Português” eram as produções mais ouvidas. O “Comunicado de Guerra” anunciava diariamente os combates ocorridos nas várias frentes e divulgava a lista dos soldados portugueses mortos, lida de uma forma propositadamente lenta. O “Programa do Soldado Português” incitava os militares à resistência e à revolta contra uma guerra que não era deles.

    A Rádio Libertação foi a arma principal de Amélia Araújo, mas a luta tinha começado muito antes. Em Luanda, onde nasceu - filha de mae angolana e pai cabo-verdiano - Amélia apaixonou-se por José Araújo, futuro dirigente do PAIGC, e quando ele foi estudar direito em Portugal, acabaria por segui-lo. Em 1960, casam em Lisboa e a filha Teresa nasce em Fevereiro de 1961. Apenas três meses depois, dá-se aquela que ficou conhecida como a Fuga dos Cem, quando dezenas de nacionalistas angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e são-tomenses deixam Portugal para irem participar nas lutas de libertação dos seus países, incluindo José Araújo.

    Amélia tinha 28 anos e uma bébé ao colo, pelo que elas não integraram o grupo por questões de segurança, mas conseguiram chegar a Paris e juntar-se a José. Uns tempos depois também deixam a capital francesa para se juntarem à luta de libertação. Em Conacri, aderem ao Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde (PAIGC), liderado por Amílcar Cabral, uma das personalidades mais importantes da luta anticolonial e arquitecto da queda do Império português. José Araujo viria a ser dirigente do PAIGC, responsável de propaganda, comissário político na Frente Sul e colaborador da Rádio Libertação e do boletim em francês "PAIGC Actualités". Amélia Araújo chegou a trabalhar no secretariado do MPLA, depois no secretariado do PAIGC até 1967, quando assumiu a função de directora da Rádio Libertação e se tornou na voz principal da luta e de combate ao colonialismo.

    Por isso, o berço de Teresa, conhecida como Terezinha, foi a luta de libertação. Em pequenina, andou na Escola-Piloto de Conacri, onde estudavam os filhos dos combatentes e que tinha como professores os próprios guerrilheiros, nomeadamente os seus pais. Vários alunos da Escola-Piloto animaram o programa de rádio "Blufo", dirigido a crianças e jovens. Seguindo as pisadas da mãe, Terezinha era uma das locutoras.

    “O programa era para os outros alunos das outras escolas e internatos espalhados nas zonas libertadas. Contávamos a história do que nós fazíamos e também recebíamos alguns depoimentos de alunos do interior da Guiné das zonas libertadas. Também contávamos os episódios que se passavam e nas datas comemorativas, como 1 de Junho, 19 de Setembro, também por altura do Natal, datas de final do ano, fazíamos programas alusivos a essas datas. No início, nós tivemos que ser preparados pela minha mãe, a dicção correcta, como falar para a rádio e aprendemos bastante. Foi muito interessante”, conta Teresa Araújo.

    Perante o trabalho intensivo da mãe no secretariado-geral do PAIGC junto a Amílcar Cabral e também na rádio, Terezinha passa a interna na Escola-Piloto juntamente com a irmã, até aos 12 anos. Foi aֵí que começou a cantar, a partir de uma audição em que interpretou “Fidju Magoado” – que viria a saber, mais tarde, ser a morna favorita de Amílcar Cabral. O líder das lutas testemunhou e até estimulou o talento de Terezinha que, anos mais tarde, se tornou numa das vozes incontornáveis de Cabo Verde com o grupo Simentera. A morna “Fidju Magoado” aparece novamente em 2004 no disco “Nôs Riqueza”, com mornas do pai, José Araújo, que também compunha e tocava viola.

    No fundo, foi na Escola-Piloto que os palcos se abriram para Terezinha, com as crianças a levarem a mensagem a outros países da luta contra o colonialismo e pela libertação. Com o grupo de teatro de crianças e jovens, em que cantava, dançava e fazia teatro, ela actuou, em 1970, no Palácio do Povo em Conacri, tendo na primeira fila a cantora sul-africana Miriam Makeba. Em 1971,72, o grupo vai em digressão a Dacar, Ziguinchor e Teranga, no Senegal, Banjul, na Gâmbia, Nouakchot, Nouadibou e Attar, na Mauritânia. Em 1973, as crianças ficam três meses na Escola-Piloto de Teranga a prepararem a participação no 10° Festival Internacional da Juventude e Estudantes, em Berlim, onde Terezinha canta ao lado de Miriam Makeba. Findo o ciclo de estudos na Escola-Piloto, aos 12 anos, Terezinha foi para a Escola Internato Internacional Elena Dimitrievna Stásova, na cidade de Yvanovo, a uns 300 quilómetros de Moscovo. Aí também continuou a representar a escola em Foruns Internacionais que decorriam em Moscovo. Dos tempos da luta, é Amílcar Cabral e a Escola-Piloto que recorda com mais ternura.

    “A Escola-Piloto era a menina dos olhos dele [Amílcar Cabral], era a referência. Então, ele levava sempre à Escola-Piloto delegações que vinham visitar o PAIGC. Além disso, a presença dele era diária. Só mesmo quando não pudesse ir, por causa de algum trabalho, é que não ia. Ia cedo de manhã e assistia à nossa preparação física e, às vezes, entrava mesmo na competição. Nós tínhamos um jogo do lenço e ele nunca perdia. Ele era muito bom! Ele aproveitava esses momentos também para nos ensinar outros jogos. Escutava os alunos, perguntava às crianças se estavam a ser bem tratadas, se estavam a ter comida boa. Ele queria mesmo verificar que as crianças estavam a ser bem tratadas, porque, como ele dizia, as crianças eram as flores da revolução e a razão da luta”, recorda, nostálgica, a cantora.

    23 min

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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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