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  • Black Lights: "Ser mulher é um combate"
    "Black Lights", da coreógrafa francesa Mathilde Monnier, é um espectáculo-manifesto sobre a violência contra as mulheres. Dos silêncios que gritam, à música que exorciza silêncios, os corpos de oito intérpretes desarticulam-se, caem e libertam-se pela palavra e pela dança. Em palco, elas são vítimas e guerreiras, junto a troncos calcinados de onde sai fumo. A peça esteve em Paris e a RFI falou com a bailarina moçambicana Mai-Júli Machado para quem "ser mulher é um combate".
    18 min
  • Ecologia mais presente do que nunca na Web Summit 2023

    A oitava edição da Web Summit terminou esta quinta-feira, 17 de Novembro. Durante quatro dias, Lisboa recebeu mais de 70.000 participantes, 900 oradores e 2600 startups. "Esta edição superou as expectativas", afirma o responsável pela equipa de startup e investidores da Web Summit, Ricardo Lima.

    Ao longo de quatro dias contou com 321 parceiros expositores, 32 delegações de vários países, entre eles Cabo Verde. Passaram pelo evento mais de 70 mil pessoas de 153 países.

    "Esta edição superou as expectativas tanto interna como externa. Vimos isso na forma como as pessoas estiveram nos palcos, que estiveram cheios, bem como as masterclasses. As minhas equipas estiveram em constantes reuniões com startups e investidores e foi mesmo muito positivo", descreve Ricardo Lima, responsável pela equipa de startup e investidores da Web Summit.

    Durante quatro dias foi possível conhecer a nova presidente executiva da Web Summit, Katherine Maher, que vai tentar trazer um novo olhar para o evento e para a empresa. "Este é um momento na vida da empresa em que podemos utilizar esta mudança como uma forma de nos reforçarmos naquilo que a Web Summit: um local onde queremos trazer as pessoas que estão a definir o futuro da tecnologia, desde startups a grandes empresas mundiais, a investidores, a jornalistas". 

    A organização anunciou que o Web Summit Qatar faz parte da estratégia global da marca de aumentar o seu alcance a novos mercados. A expectativa é que o evento ofereça novas oportunidades para conectar o mundo da tecnologia em ecossistemas crescentes no Oriente Médio, no continente africano e na Índia.

    A questão ecológica esteve mais presente do que nunca, startups, multinacionais energéticas, instituições de poder internacional e português defendem que a única forma para apanhar o contra relógio das alterações climáticas é a cooperação. Essa cooperação pode ser mediada pela tecnologia para encontrar novas formas de energia a nível global, defende Ricardo Lima, acrescentando que "a tecnologia é um dos pontos que nos pode ajudar a resolver os grandes desafios que enfrentamos. Acima de tudo, somos nós que devemos encontrar essas soluções e, por isso, a tecnologia não é um fim, é um meio. Num evento como o Web Summit, onde trazemos pessoas de mais de 150 países para estas discussões, podem sair algumas soluções que podem permitir resolver estas questões. A nossa empresa tem tido a preocupação em trazer para a mesa pessoas que estão a ser as mais afectadas pelas alterações climáticas, pessoas do sul global".

    A guerra entre o Hamas e Israel também criou divisões nesta edição da Web Summit. As grandes empresas como a Amazon, Google ou mesmo Meta não estiveram presentes no evento, por causa de publicações do seu antigo dirigente, Paddy Cosgrave, sobre o conflito entre o Hamas e Israel. Os acontecimentos afectaram, de alguma forma, o evento anual de tecnologia, "houve mais ruído do que o impacto real, até porque o número de participantes até foi superior à edição do ano passado. As grandes tecnológicas não estiveram presentes, mas isso apresentou novas oportunidades para as startups porque as empresas lutam pela atenção destes participantes. A partir do momento em que não há grandes empresas tecnológicas, as pessoas procuram inovação noutros sítios", defendeu.

    "Quanto a este tema, o assunto é muito maior do que a Web Summit. Com as mudanças de que falámos, o que nos permitiu foi forcar-nos no evento e não em nós. Não devemos ser o centro da história porque o centro da história são os participantes e as empresas", concluiu.

    7 min
  • Madagáscar escolhe Presidente: "Taxa de participação foi muito baixa de manhã"

    Os eleitores malgaxes escolhem esta quinta-feira o próximo Presidente. A recandidatura do Presidente cessante, Andry Rajoelina, criou uma onda de contestação que levou dez candidatos da oposição a apelar ao boicote do escrutínio. "A oposição fez apelos de boicote às eleições de hoje", alegando que listas eleitorais "não estão completas e que o Presidente Andry Rajoelina usou os meios do Estado para fazer propaganda", descreve o padre Rodrigues Diniz, radicado em Madagáscar.

    RFI: Antananarivo acordou esta quinta-feira com um recolher obrigatório, aplicado na véspera da primeira volta das presidenciais. Como está a decorrer o escrutínio?

    Padre Rodrigues Diniz: Aqui em Madagáscar, em geral o ambiente está calmo, mas dizem que não é uma eleição como as outras porque poucas pessoas vão votar. Há outras pessoas que dizem o contrário, que esta é uma votação como as outras. A grande razão desta confusão é que eram 13 candidatos e 10 formaram o "colectivo dos dez candidatos", por não estar de acordo com esta eleição. Dizem que as listas eleitorais não estão completas e que o Presidente Andry Rajoelina usou os meios do Estado para fazer propaganda. Estas duas razões já são tradicionais porque há sempre problemas em todas as eleições.

    A grande questão desta primeira volta das eleições presidenciais é a taxa de abstenção?

    Tenho estado a ouvir rádio desde esta manhã. A rádio da oposição dizia haver uma taxa de participação muito baixa de manhã que nem chegava a 3%. Eles apelaram para as pessoas estivessem presentes no encerramento das urnas, sobretudo as pessoas aderentes aos candidatos que não concordam com esta eleição, para que não haja uma grande diferença entre as pessoas que vão votar e a percentagem que sair das urnas.

    Estas eleições estavam marcadas para o dia 9 deste mês, foi adiado para hoje, 16 de Novembro, porque um dos 13 candidatos ficou ferido durante a campanha eleitoral.

    Os dez candidatos do colectivo tentaram ir para a praça simbólica de Antananarive, 13 de Maio, onde as pessoas se reúnem nos grandes acontecimentos. Tentaram ir para lá, mas as forças armadas e a polícia impediram. Houve alguns feridos e até dizem que houve uma pessoa que morreu, devido ao gás lacrimogéneo. Não houve muitas pessoas a manifestar porque as forças armadas estão do lado do Presidente.

    Esta oposição, composta por dez candidatos, apela a boicotar as eleições há mais de um mês. A este colectivo de dez opositores juntaram-se 57 associações da sociedade civil que pedem a suspensão do acto eleitoral. Apontam desconfianças no Supremo Tribunal de Justiça e na Comissão Eleitoral Nacional Independente. Alegam que está tudo decidido e que o actual Presidente vai vencer.

    A presidente da assembleia legislativa, os representantes da organização que reúne as quatro Igrejas Cristãs de Madagáscar (FFKM) apelaram para a suspensão das eleições e para o fim da campanha, mas depois os bispos da Igreja católica, que estiveram reunidos, emitiram um comunicado a dizer que estavam a favor das eleições neste dia. A presidente da assembleia apelou a SADC e a comunidade internacional para intervirem contra as eleições neste momento. É também verdade que nestes dez candidatos existe dois antigos Presidentes e antigos ministros que disseram não ter confiança nas eleições.

    Apelam aos eleitores a não votar esta quinta-feira?

    Foi essa mensagem enviada um pouco para toda a ilha, mas mais nas grandes cidades, onde tem havido pouco afluência porque as pessoas costumam votar na parte da manhã. As pessoas apelam para que os opositores possam ir controlar a contagem dos votos, como as pessoas fazem sempre. 

    Há riscos de tumultos?

    Depois das eleições pode haver tumultos, mas não haverá manifestações hoje no fechar das urnas porque as pessoas não se costumam manifestar à noite. Os dez candidatos vão apelar as pessoas a fazerem manifestações na capital.

    Por que motivo o governo decidiu manter estas eleições contestadas, havia um receio de admitir uma possível derrota?

    Não, acho que não porque o Presidente estava seguro de si, ao contrário do antigo Presidente Marc Ravalomanana, ele fortaleceu as forças de segurança a nível de material. Nunca houve essa ideia do Presidente ter medo de perder as eleições. Este problema surgiu recentemente porque há dois, três meses não se falava que estas eleições iam ser contestadas. O Presidente fez campanha em toda a ilha, menos na capital porque havia manifestações. Aqui em Madagáscar devido à falta de comunicações, por causa da floresta, e de meios de comunicação a nível de estradas é possível falsificar os resultados.

    O que é que os malgaxes esperam deste escrutínio?

    Madagáscar está a descer quando se fala do bem-estar das pessoas devido aos problemas internacionais, mas também por causa do governo. Este grande problema é porque a nível dos candidatos havia pessoas habituadas aos problemas de Madagáscar, nomeadamente antigos Presidentes e ministros, e não tinham outra forma de lutar contra o actual Presidente porque viram que a eleição já estava ganha. De quatro em quatro anos, estes problemas estão sempre de volta e o povo é que sofre se a crise perdurar. Os malgaxes têm paciência e vão tentar resolver isso, esperando não haver grandes problemas como houve no passado.

    10 min
  • Madagáscar rumo a primeira volta de presidenciais em clima de contestação

    Madagáscar tem agendada para esta quinta-feira a primeira volta das eleições presidenciais.

    Muitas incógnitas se levantam, porém, quanto ao escrutínio por um colectivo de onze candidatos continuar a contestar a realização do mesmo, denunciando a falta de condições para eleições justas e transparentes.

    E isto como começa por nos relatar do litoral leste de Madagáscar o padre português Alcindo de Sousa, de regresso à grande ilha do Oceano Índico desde o início do ano passado.
     

    O único candidato a ter feito, realmente, campanha foi o chefe de Estado cessante, Andry Rajoelina, não obstante a sua candidatura ter vindo a ser contestada por ele, para além da nacionalidade malgaxe, dispor também da nacionalidade francesa.

    Ao todo são 13 os candidatos que devem disputar estas eleições. O antigo presidente Marc Ravalomana sendo um dos grandes rivais de Andry Rajoelina.

    Passamos em revista com o padre Alcindo de Sousa o diagnóstico actual desta grande ilha do Oceano Índico, para além da componente política, passando pelo desenvolvimento social e económico, ou os desafios enfrentados em termos de desenvolvimento, ou dos sectores da educação e da saúde.

    6 min
  • Exploração de lítio: "Últimos acontecimentos dão legitimidade às nossas suspeitas"

    A Procuradoria-Geral da República de Portugal está a investigar supostas irregularidades em contratos do governo para a exploração de lítio em minas portuguesas. Em 2019, o governo português abriu concessões de mineração de lítio nas minas do Romano, no vilarejo de Montealegre, e do Barroso, no município de Boticas, no norte do país, contestadas pelas populações. "Estes últimos acontecimentos dão legitimidade às nossas suspeitas", conta Aida Fernandes, residente em Covas de Barroso.

    Portugal tem as maiores reservas de lítio da Europa e oitavas maiores a nível mundial. A Procuradoria-Geral da República está a investigar factos relacionados com as concessões de exploração de lítio nas minas do Romano e do Barroso, além do projecto não identificado para uma central de produção de energia a partir de hidrogénio, em Sines.

    A demissão do primeiro-ministro, António Costa, "foi uma surpresa que deu legitimidade às suspeitas" dos moradores de Covas do Barroso, que nos últimos anos questionaram a legalidade dos contratos do governo para a exploração de lítio, como explica Aida Fernandes, residente em Covas do Barroso.

    RFI: Como é que exploração de lítio termina com a demissão do primeiro-ministro. É possível explicar?

    Aida Fernandes: Honestamente, não. É demasiado para qualquer pessoa e, principalmente, para nós que vivemos tão isolados e longe das instituições. Foi uma surpresa como para toda a gente porque nunca tal nos passou pela cabeça. Embora questionássemos sempre os processos e a legitimidade dos processos, isto acontecer vai para além das nossas expectativas.

    Vem comprovar que a luta que [vocês] têm conduzido nos últimos anos é justificada e que não estão sozinhos?

    Sim, estes últimos acontecimentos vêm dar legitimidade às nossas suspeitas. Nós sempre questionámos a forma como os processos foram feitos, como é que se pode dar um parecer favorável. Depois de todas as entidades darem o parecer negativo, de repente, muda-se o casaco, ajusta-se as calças, faz-se um novo fato. Nós, que conhecemos a área e o projecto, sabemos que este é exactamente o mesmo projecto que eles querem fazer há dois anos. De repente, como sempre nos disseram, é uma decisão política e nós nunca achámos justo. Não é justo para nós, cidadãos que vivemos, supostamente, numa democracia e é uma frustração de todo o tamanho  vermos as coisas a acontecer debaixo dos nossos olhos e não conseguir fazer nada.

    Falhou a transparência nos projectos de exploração de lítio que tanto denunciaram?

    Sim porque nos querem impingir um projecto que para nós não faz qualquer sentido. Dizem que é em nome de uma transição verde e justa, que de verde não tem nada porque é uma mina a céu aberto e justo, muito menos, porque não somos considerados em todo o processo. A população é contra e isso não [é tida em] conta por ninguém. Nós dizemos não, mas ninguém quer saber. Nós sempre dissemos que as coisas não devem ser assim porque se o mundo precisa de ser salvo não é com carros eléctricos, é a proteger, a salvaguardar, proteger as águas, o meio ambiente, a biodiversidade e não a destruir e poluir e a dar continuidade a um processo de destruição, como tem vindo a acontecer até agora.

    Fala em incompreensão, o que é que vai acontecer agora e como é que é viver nesta incerteza?

    O que aconteceu não muda nada porque o governo deu licenças e agora foi aberto um processo de justiça, que tem o seu tempo e o seu curso. Só o tempo dirá o que vai acontecer. A nossa esperança é que os processos sejam impugnados e que se revertam processos porque o que está em causa são pessoas. Acima de tudo são pessoas que estão em causa. Vivemos em pleno século XXI, quererem vender a ideia de que vivemos num país de primeiro mundo e sermos tratados como pessoas de terceiro mundo, que coitados, não têm culpa de estarem nessa situação. Graças a situações como a que está a acontecer em Portugal, de corrupção, de más políticas e maus políticos com os quais não podemos compactuar é que vamos continuar a levantar a nossa voz e a lutar para defender aquilo em que acreditamos. 

    Espera que se faça justiça não só na política, mas também ecológica?

    Claro que temos que ter fé na justiça e que as instituições funcionem. Deu-se este passo para que não seja em vão.

    5 min
  • Ao encontro da Rainha dos Bijagós pela mão de Alexandre Faria
    Okinca Pampa foi uma das mulheres mais extraordinárias do continente africano. A Rainha dos Bijagós é a mulher que entre 1910 -1930 reinou neste arquipélago da Guiné Bissau.
    Alexandre Faria apresentou, recentemente, em Portugal, dois livros que se inspiram na vida desta mulher que deixou um "legado incomparável na defesa dos direitos humanos": O romance "Okinca" e o livro infanto-juvenil "A princesa dos Bijagós", lançados pela Editorial Novembro.
    19 min
  • “O corpo é uma catedral” na Bienal de Dança de Lyon

    O espectáculo “Liberté Cathédral” constrói uma arquitectura humana, um edifício que dança e se equilibra em torno de gestos, contacto e sons. Esta é uma catedral que não tem paredes, mas que se ergue com os mais de 20 bailarinos porque “o corpo é uma catedral e liberdade”, resume uma das intérpretes, a brasileira Naomi Brito. A peça foi apresentada na Bienal de Dança de Lyon e é uma criação do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, do seu novo director Boris Charmatz e da companhia Terrain.

    RFI: Como é que descreve esta peça?

    Naomi Brito, Bailarina: Esta peça é desafiadora. Muitos desafios, descobertas também.

    Porque é que o espectáculo se chama “Liberdade Catedral”?

    Do que eu entendi, para mim, são liberdades humanas dentro de todos esses padrões que a gente vive e, se construirmos coisas, a gente pode dizer que nosso corpo é a nossa catedral e a nossa liberdade.

    A peça está dividida em várias partes que também constroem o edifício de uma catedral. Primeiro os cânticos, depois os sinos, depois os órgãos, depois os silêncios e a música Fuck de Pain Away de Peaches, antes de tudo parecer desabar para se voltar a reerguer graças ao corpo colectivo. Como é que foi criar todos estes espaços e a evolução entre eles?

    Como eu disse no começo, foi desafiador. Eu acho que nunca cantei e dancei ao mesmo tempo e aqui a gente teve que aprender a fazer isso. Foi um processo muito desafiador e nasceu isto.

    Como é que vê o seu papel, a sua partitura nesta peça? Que emoções sentiu e quer partilhar com o público?

    O que eu senti? Liberdade? Essa desconstrução para construir. Eu senti isso.

    Aqui a catedral não é, de certa forma, o oposto de liberdade? A expressão da opressão, nomeadamente com o capítulo dos silêncios? Porque estes silêncios têm um peso… O que é que eles significam?

    [Naomi fica em silêncio] O peso do silêncio. Sentiu?

    Esse silêncio, na peça, parece remeter para os abusos sexuais na igreja…

    Isso… [Silêncio]

    A peça surge depois de termos vivido a pandemia e depois de os corpos terem sido obrigados a confinar-se e a afastar-se uns dos outros. O coreógrafo Boris Charmatz falou na frase bíblica de Cristo para Maria Madalena Noli me tangere [Não me toques], depois da ressurreição… Nesta peça, vocês tocam o público, vocês interagem com o público. É um apelo ao reencontro?

    Acredito que sim. É.

    Como é que o público reage? O público ainda está “preso”?

    É diferente o público a que a gente se apresentou em Wuppertal e o público aqui em França.

    Porquê?

    São seres humanos diferentes. Países diferentes também. Outra linguagem também. Tem esse distanciamento porque eu não falo francês. Mas tem esse almejo pelo encontro, tem. Existe.

    Como é trabalhar na companhia criada por Pina Bausch sem Pina Bausch?

    Eu acredito que trabalhar na companhia de Pina Bausch ainda tem Pina Bausch.

    O que subsiste de Pina Bausch?

    A presença dela ainda está lá. A presença dela…

    Como é que se transmite essa presença? São os bailarinos que ainda lá estão e que trabalharam com ela?

    Com certeza, sim. E energia.

    Esta é a primeira criação de Boris Charmatz para o Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, ele que é o novo director artístico da companhia. Como foi trabalhar com ele?

    Foi bom. Ele desafiou a gente a fazer muita coisa, fez a gente aprender muita coisa. Eu acredito que tem muita aprendizagem e desafios também.

    O que é que mais aprendeu?

    O que mais aprendi? Acho que trabalhar colectivamente, tão perto de pessoas, não sei, este colectivo tão junto. Eu acho que eu nunca trabalhei assim antes, com tanta gente, 20 pessoas. Colectividade, aprendi isso.

    Quando estamos a ver toda a peça, vemos um corpo colectivo, mas sentimos as emoções de cada bailarino individualmente. Como é construir esse corpo colectivo, partindo de cada um?

    O individual cria o colectivo. Cada um traz a sua história e a gente conta o todo.

    E como foi o processo de criação da peça? Parece que é tudo muito improvisado, mas está tudo escrito.

    Sim. A gente tem essa liberdade de construir o que a gente quiser com o nosso corpo, a mensagem que a gente quer passar, mas tem algo escrito que a gente tem que seguir. Por exemplo, seguir os sinos, dançar ao mesmo tempo que a gente está cantando, parar quando tem silêncio, começar de novo quando se canta de novo.

    Quando tocavam os sinos, a Naomi tinha um gesto repetitivo. Que gesto era esse?

    De um sino! [Risos] Eu não sei, pensei num relógio bem grande!

    Durante a sua vida, Pina Bausch quis integrar bailarinos diferentes, com formações diferentes, corpos diferentes. A Naomi é a primeira bailarina transgénero da companhia, que integrou em 2020. O que representa?

    É babado! [Risos] Não sei se essa palavra existe em Portugal, mas no Brasil a gente fala que é babado.

    O que é que isso quer dizer?

    Acho que não consigo traduzir. Significa muito para mim, mas também existe o peso de existir num lugar pela primeira vez, um corpo existir num lugar pela primeira vez. Então, é babado com esse peso de existir num lugar pela primeira vez.

    A dança pode contribuir para mudar o olhar das pessoas e para integrar corpos que até agora foram invisíveis?

    Com certeza, com certeza. Eu costumava pensar: se não for no meio da arte, onde é que o meu corpo cabe? Politicamente, mesmo não querendo, também acredito que eu sou um corpo político, mesmo não querendo ser. Mas eu acredito que sim. Com certeza.

    Ou seja, foi a arte que lhe deu o seu espaço?

    Sim, com certeza. Acredito que sim, mas eu também dei o meu espaço a mim mesma antes da arte.

    E para terminarmos, quando é que começou a dançar e o que é que a dança representa para si?

    Comecei a dançar com seis anos, em Paracuru, uma cidade no Brasil. Agora tenho 26. O que a dança representa para mim é estar viva. Dançar representa a minha vivência, esse meu almejo por continuar estando viva.

    10 min
  • “Grand Bal”: Música para “dançar até morrer”
    “Le Grand Bal”, da companhia francesa Dyptik, é uma ode à liberdade pela dança e pela música. A peça, apresentada na Bienal de Dança de Lyon, inspira-se numa pandemia de dança, em 1518, na cidade de Estrasburgo, e mostra uma vontade furiosa de libertação com nove bailarinos em transe. O décimo é a própria música que ocupa todo o espaço da sala, numa experiência imersiva. A viagem sonora, para “dançar até morrer”, é assinada por Patrick de Oliveira que conversou com a RFI.
    12 min
  • Quito Tembe acredita que se está a viver "momento histórico" na dança

    O moçambicano Quito Tembe, director da Plataforma Internacional de Dança Contemporânea KINANI, é um dos cinco comissários do fórum de curadores internacionais da Bienal de Dança de Lyon que vai preparar projectos para a próxima edição de 2025. O fórum é um espaço de reflexão de novas formas de criação e, na sua opinião, poderá “mudar a forma de se estar na dança” e é “um momento histórico” também para Moçambique.

    A Bienal de Dança de Lyon, dirigida pelo português Tiago Guedes, tem pela primeira vez um fórum de curadores internacionais que é um espaço de reflexão para criar novas formas de cooperação e para criar de forma colectiva. Foram convidados cinco comissários de Moçambique, Brasil, Austrália, Taiwan e Estados Unidos que vão acompanhar artistas dos seus países para apresentarem os seus projectos na Bienal de 2025. O programador moçambicano Quito Tembe é o director da Plataforma Internacional de Dança Contemporânea KINANI e é um dos comissários deste fórum.

    RFI: Que artista ou colectivo escolheu para co-criar um projecto a ser apresentado na próxima edição da Bienal de Dança de Lyon? 

    Quito Tembe, Director da Plataforma Internacional de Dança Contemporânea KINANI: Essa pergunta é muito específica, mas eu gostaria de vos deixar na dúvida e na curiosidade porque justamente o nosso trabalho é acompanhar e contribuir para que a programação do Tiago [Guedes] seja feita de boa forma. Então, acho que essa resposta será dada mesmo por ele. A nossa missão, na verdade, é discutir, é reflectir e é buscar novas formas de mostrar, ou reflectir sobre novas formas de criação, e contribuir com este fórum para que a gente possa apoiar justamente a programação do Tiago.

    Por outras palavras, além do Quito Tembe, vamos ter artistas moçambicanos em Lyon em 2025?

    Certamente que sim. Acho que é estando aqui e tendo tido esta oportunidade que o Tiago nos deu. Deixa-me dizer que é confiar em nós, é confiar no nosso trabalho. E dar-nos esta oportunidade para a gente propor coisas aqui em Lyon abre outros caminhos e outras possibilidades e oportunidades para artistas moçambicanos.

    Como bem disse, não estou aqui em nome do Quito Tembe, estou aqui em nome de Moçambique, no fim das contas - para não dizer de África - e levar desta porta que o Tiago nos abre uma porta de oportunidade. Somente estar - deixa-me frisar isto - só este fórum montado por ele e estar neste fórum de discussão, só isso, já é uma oportunidade enorme e soberba de intercâmbio, de reflexão, de acolher e de partilhar diferentes temáticas artísticas.

    E também de integrar artistas extra-europeus neste festival eurocentrado?

    É muito ousado o Tiago! (Risos) Neste sentido, penso que é uma grande inovação de, não somente convidar artistas para pôr em pacotes, mas pôr num lugar de reflexão, num lugar de contribuir e tendo-nos posto este desafio também mostra esta abertura e sensibilidade para os diferentes lugares e continentes como os nossos. Estamos aqui para ouvir, não estamos aqui somente para receber o que é bom e o que é mau. Estamos dentro, isto é, eu estando aqui, estou dentro da mesa de reflexão para construção de uma programação colectiva.

    O objectivo da bienal com este fórum, segundo o seu director Tiago Guedes, é afastar-se das práticas de programação extractivista. Como é que isso vai ser feito na prática? Como é que vocês vão trabalhar?

    Eu penso que já começámos. O simples facto de estarmos os cinco sentados na mesma mesa e de vermos as diferenças da reflexão de cada um, de vermos as diferentes formas com que cada um de nós olha para este objectivo, isto já é um processo colaborativo imenso. E é extraordinário termos este processo de descer ou subir até aos artistas, de transmitirmos estas discussões para os artistas que nos põem a representar de uma forma mais ousada ou menos ousada. 

    Já têm alguma linha de força, alguns temas que queiram trabalhar? Pode revelar-nos?

    Começámos com várias linhas de força. Acho que esta foi a grande conclusão que tirámos esta manhã, é que abrimos muito e fomos para além do que nos foi pedido. O trabalho que fizemos é justamente afunilar e encontrar um ponto de equilíbrio entre as diferentes formas de abordar este processo colaborativo para definirmos daqui para frente o que é que nós queremos como resultados destes encontros, não o resultado artístico ou resultado da mostra ou de uma programação, mas destes encontros artísticos, o que é que nós queríamos tirar como suco.

    Como é que surgiu este convite e o que representa para si?

    É um convite que me abre outras oportunidades, outras possibilidades e só estar neste grupo e com esta gente incrível, para mim, isto já é uma vitória muito grande. Como deve imaginar, Lyon é uma das maiores bienais do mundo da dança e, para mim, estar dentro deste fórum, vindo de um país que é Moçambique, que é lá naquele canto do continente africano, é para mim sem sombra de dúvida um motivo de muito orgulho e tanta honra que tenho de estar a discutir e a partilhar ideias com este fórum.

    Para mim, acho que 2025 vai ser um dos anos mais importantes na minha carreira, dizer que finalmente fiz parte, não só como público, mas fiz parte da reflexão de alguma coisa que não sabemos o que é que vai dar, mas só esta ousadia de estarmos juntos a reflectir mudanças de formas, de como fazer, para mim é um momento histórico.

    E como é que o Quito Tempo foi convidado?

    Tenho um percurso local em Moçambique a nível de abrir para a internacionalização muito grande. Isto permitiu-me estar aqui e, posso dizer isto com muito orgulho, que o que me permite estar aqui é o trabalho que tenho vindo a desenvolver ao longo de todos estes anos em Moçambique.

    Este ano estamos a celebrar a nossa 10ª edição da Bienal Kinani e que também é um dos anos mais importantes para nós porque vamos acolher a bienal ‘Danse l’Afrique Danse’ em Moçambique. Estes anos são anos - se fosse religioso eu diria de bênçãos! Estar aqui estar a ser entrevistado significa que soubeste que existe um Quito que está metido num grupo que está a fazer alguma coisa. Para mim,  são vitórias e é com muita satisfação que faço esta entrevista. Significa que já despertaram que existe alguém por detrás de todo aquele trabalho que acontece. Então é um motivo de muito orgulho.

    Este fórum poderá abrir portas para uma maior visibilidade das artes de palco moçambicanas ou é só uma gota de água no deserto?

    Não é uma gota de água, isto é uma viragem muito importante. Deixa-me dizer que a abertura que nós temos através deste fórum abre outras perspectivas. Se calhar estamos a mudar a forma de se estar na dança. Não estou a querer prometer nada e nem estou a querer divulgar nada, mas estou a dizer que a reflexão que está a surgir deste fórum pode mudar alguma coisa no panorama da dança contemporânea. E pode mudar alguma coisa na forma como nós fazemos as nossas programações, as nossas curadorias. É um momento histórico e é um momento importante. Vamos, sim, contribuir, não com uma gota, mas, se calhar, com um oceano!

    8 min
  • Lyon dança “Schubert electro” com Marco da Silva Ferreira
    O coreógrafo e bailarino português Marco da Silva Ferreira tira a dança das salas e leva-a para as ruas durante a Bienal de Dança de Lyon, que decorre até 30 de Setembro. O espectáculo “Fantasie minor” parte de uma peça de Franz Schubert e deriva para uma batida electrónica, numa história dançada que cruza estilos e códigos para quebrar fronteiras e criar uma identidade mais colectiva.
    13 min

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