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Apesar de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que apela a um cessar-fogo imediato, os combates na Faixa de Gaza continuam, seis meses depois do início da guerra desencadeada pelo ataque do Hamas contra Israel, a 7 de outubro. O coordenador de mestrado de Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi, Ivo Sobral, defende que "os civis em Gaza são a questão mais importante. O Hamas sabe disso. Israel sabe disso".
RFI: Em seis meses contam-se, segundo dados do Hamas, 33.000 mortos e 75.000 feridos, uma crise humanitária se precedentes, 130 reféns israelitas e estrangeiros nas mãos do Hamas sem trégua à vista?
Ivo Sobral: Exactamente. Apesar de podermos estar mais próximos de uma provável cessação ou então diminuição desta guerra, talvez nos próximos meses. Este verdadeiro terramoto que aconteceu no passado Outubro teve consequências enormes na Palestina, em Israel e em todo o Médio Oriente, assim como aqui, aqui no Golfo e no Mar Vermelho. Estamos neste momento ainda numa situação de impasse completo, onde os vários negociadores qataris e egípcios, israelitas e norte-americanos continuam a demonstrar que existe uma enorme crise em somente negociar as primeiras bases de um cessar-fogo. Apesar disto, pela primeira vez historicamente, temos as declarações de um Presidente americano a apelar e exigir um cessar-fogo imediato. É bastante significativo e histórico que isto esteja a acontecer neste momento.
Benjamin Netanyahu continua a ofensiva contra Rafah, no sul da Faixa de Gaza, o último bastião do Hamas, de acordo com Israel, e está a aumentar os ataques aéreos. Como dizia, o Presidente norte-americano e o primeiro ministro de Israel voltaram a falar ao telefone. Joe Biden disse que a política dos Estados Unidos em relação a Israel pode mudar. Netanyahu está cada vez mais isolado na cena internacional?
Exactamente. É uma tendência já há vários anos, mas neste momento ainda sobra cada vez mais. Israel e particularmente este governo de Netanyahu, sucessivamente ignoraram vários jogadores internacionais aqui no Médio Oriente, na Europa, nos Estados Unidos e outras geografias, permanecendo completamente surdo relativamente a estas críticas que continuaram a chover durante estes seis meses e em particular neste último mês, onde a situação de facto humanitária sem precedentes e com a última gota foi este ataque a morte destes operadores de ONG. Esta situação era completamente inaceitável pela comunidade internacional e muito provavelmente, a continuação destes mesmos ataques irão desencadear provavelmente maiores consequências para Israel. Talvez consequências duradouras a longo prazo, ataques.
Ataques que têm vindo a ser condenados pela comunidade internacional. Vale tudo numa guerra como esta?
Infelizmente, pelo menos se tentarmos um pouco simular o que passa um pouco pela leadership israelita em termos de pensamento estratégico: como o inimigo é um inimigo bastante difícil de descrever, detectar e isolar, como neste caso os terroristas do Hamas. De facto, Israel usa tudo o que tem no arsenal e continua com esta determinação de atacar este mesmo território de Rafah, a última zona isolada de Gaza.
No entanto, infelizmente, todo este tipo de combate, onde forças se encontram no meio de civis, é óbvio que as baixas civis são enormes. Isto era uma certeza nos últimos seis meses, os civis em Gaza são a questão mais importante. O Hamas sabe disso. Israel sabe disso.
Israel vê do ponto de vista estratégico e quase do ponto de vista existencial, esta determinação como sendo quase um factor importante da sua preservação de Israel no Médio Oriente. Portanto, os israelitas verificam que têm que ir para a frente. Não existe um retrocesso, uma pausa na ofensiva no ponto de vista dos israelitas e um acto covarde em relação ao Hamas. Isto está bem patente nos últimos discursos, não só de Netanyahu, mas como também os vários governos dos vários partidos ultra-direita israelitas ortodoxos que o apoiam. Basicamente, Netanyahu está encurralado entre a comunidade internacional e a base política que o elegeu e que o mantém como primeiro-ministro. Resta saber qual será mais forte neste momento.
Passaram seis meses desde o ataque sangrento do Hamas de 7 de Outubro, o ponto de partida de uma nova guerra liderada por Israel, que fez da Faixa de Gaza um campo de ruínas. "O nível de destruição é semelhante ou até superior ao das cidades alemãs durante a Segunda Guerra Mundial", descreveu o chefe da diplomacia da União Europeia, Joseph Borel. Estima-se que 70% dos edifícios em Gaza tenham sido reduzidos a cinzas. A guerra não terminou e já se fala em reconstrução. Estamos, doutor Ivo Sobral, perante uma questão de poder ou de vontade política?
Existem muitos interesses à volta de Gaza. Não é só uma questão de acabar, uma espécie de trabalho, que é isso o que está na ideia, na mentalidade de Israel que é acabar uma missão que é erradicar o Hamas. No entanto, esta missão é quase impossível. Está provado por vários estudos científicos que quando existe uma associação entre terroristas e a sua população tão grande como acontece em Gaza, essa mesma população apoia o Hamas. Portanto, um ataque ao Hamas vai também atingir a própria população. Isto é quase basicamente dar mais munições ao próprio Hamas, ou seja, mais pessoas que irão ser recrutadas para o Hamas quando existir a primeira pausa, quando acabar esta guerra. Isto é um factor essencial de muitas organizações terroristas. Isto chama-se o Double blind dilema, ou seja, muitas das estratégias de organizações terroristas será provocar governos para estes governos reagirem de uma maneira quase brutal, de uma maneira errada e causarem baixas civis e automaticamente quando fizerem isso, é a própria organização terrorista que ganha outra vez. Portanto, isto é um método estudado, científico, que muitas organizações terroristas fizeram com sucesso na história. E, infelizmente, Israel não tem outra opção senão responder. E, portanto, o Hamas sabe disso. É basicamente uma ameaça, mas que neste momento se depara com esta questão humanitária que é bastante gravosa.
Falou há pouco das ruínas na Segunda Guerra Mundial e nas cidades alemãs e isso é verdade. Mas aquele momento os aliados venceram, apesar de tudo, porque era uma guerra convencional. Infelizmente, neste caso, não é uma guerra convencional. É uma guerra quase inútil que basicamente não irá nunca levar a uma vitória. O dilema de Israel será que tem que acabar a sua ofensiva? Não se percebe como é que esta ofensiva irá acabar. O que é a vitória para Israel. A vitória para Israel é quando mais desaparecer a vitória para Israel? É quando se forem libertados os reféns? Não existe ainda uma chamada red line para para isto nunca foi declarada. Portanto, há aqui uma grande incógnita para o futuro, apesar de toda a pressão internacional, e eu creio que Israel poderá continuar e tem todos os meios para isso.
Apesar de ter sido votado pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, um embargo de armas a Israel?
Que armas é que estão a ser entregues a Israel? Israel é completamente auto-suficiente em quase todos os sistemas de armamento que existem. O que não será auto-suficiente, como não é quase ninguém será em termos de munições, ou seja, projécteis de artilharia, munições guiadas por GPS ou outro tipo de peças sobresselentes para alguns veículos que se calhar Israel usa. Mas é sempre algo muito, muito pequeno. Israel não precisa de quase ninguém para continuar a guerra. Israel é completamente o suficiente em quase tudo e inclusivamente, munições quase.
Mesmo que exista um embargo, Israel nos últimos, se calhar 30 ou 40 anos, também teve sob embargo, assim como teve o governo Apartheid da África do Sul e os dois tiveram na mesma projectos de desenvolvimento militar, de equipamentos, aviões, de bombardeiros, de tanques e armas que continuarão a existir. Isso nunca conseguiu parar um país que esteja determinado a continuar uma guerra. Portanto, não creio que exista um impacto significativo.
Obviamente, existem alguns precedentes sobre isto, a guerra dos anos 60, se calhar a mais importante guerra dos anos 60 e 70, quando Israel foi atacado por vários países do Médio Oriente, houve sempre um apoio quase cego por parte de países como a Alemanha e os Estados Unidos. Foi a Alemanha que, nos anos 70, enviou uma série de blindados dos seus próprios reservas NATA para socorrer Israel, quando o Egipto quase que entrava com os seus blindados em Tel Aviv, no Yom Kippur. Se houver este travão de facto, em termos de necessidades extras, penso que a Alemanha não poderá fazer nada, apesar de a Alemanha, já em Outubro, ter sido o país que meteu as suas próprias forças armadas em posição de stand by em caso para defender Israel. Se houvesse um terceiro país a tentar coisas como como Irão, a tentar entrar neste conflito de uma maneira mais convencional. Não creio que um embargo de armas tenha qualquer impacto significativo na campanha militar de Israel em Gaza.
A Liga Guineense dos Direitos organizou uma vigília esta quarta-feira, 3 de Abril, ao final do dia para denuncia o aumento de casos de feminicídio na Guiné-Bissau. A vigília teve por lema “Cinco minutos de silêncio, em homenagem às duas mulheres assassinadas na região de Gabú”. O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humano, Bubacar Turé, denuncia a política de silenciamento do governo guineense.
RFI: A vigília acontece depois de terem sido registados dois crimes em duas semanas e depois de cinco mulheres terem sido mortas assassinadas em 2022. A Liga dos Direitos Humanos alerta para a necessidade de introduzir no Código Penal guineense o crime de feminicídio. É isso que está em causa hoje, alertar e denunciar estas situações?
Bubacar Turé: Sim, a vigília tem esse objectivo por um lado manifestar o nosso repúdio aos acontecimentos que tiveram lugar em Gabú, que consideramos actos criminosos, mas também foi uma oportunidade para alertar as autoridades nacionais sobre a urgente necessidade de agirem em várias dimensões. De um lado, reforçar o quadro jurídico nacional sobre esta matéria, que passa necessariamente pela criminalização do feminicídio. O homicídio é um crime na Guiné-Bissau, mas nós entendemos essa parte concreta de especificar a morte das mulheres. As mulheres são mortas só pelo facto de serem mulheres. E isso tem outros aspectos, outros detalhes que devem ser legislados. Por enquanto nós não temos isso, por isso é que nós avançámos com esta proposta ao governo.
Entendemos que o governo da Guiné-Bissau não pode, de forma alguma, continuar com o comportamento de silêncio perante este tipo de actos; da rejeição e da condenação política e formal das autoridades nacionais. É preciso que o governo adopte estratégias holísticas abrangentes para combater estes tipos de fenómenos na sociedade. Não tem sido o caso. Temos vários documentos estratégicos que foram aprovados no passado, por exemplo, a política nacional da equidade e igualdade de género, mas que foram engavetados, nunca foram implementados, nem nunca foram mobilizados recursos para a implementação dessas estratégias que visam o fortalecimento da igualdade de género. A questão de equilíbrio em termos de relações de poderes entre homens e mulheres na sociedade guineense e também a própria violência baseada no género. Não há nenhuma estratégia nacional pública neste domínio. Portanto, tudo aquilo que tem sido feito nas mãos das organizações da sociedade civil, ou seja, o Estado renunciou à sua missão neste domínio, o que para nós é lamentável e inaceitável.
Fala de silenciamento. O que se sabe sobre estas duas mortes em Gabú e sobre a resposta por parte da Justiça guineense?
Sim, a primeira morte foi a uma senhora que foi violada sexualmente. De seguida, o violador, disparou mortalmente contra a vítima porque a vítima terá reconhecido e terá advertido que conhece a pessoa e vai denunciá-lo, em consequência, para evitar isso, ele disparou contra ela. As informações disponíveis são que este senhor já se encontra detido em Gabú.
O segundo caso é o marido. Foi na sequência de uma violência doméstica em que ele esfaqueou mortalmente a esposa. As imagens que nós temos são muito, muito chocantes. É incrível que um ser humano, alguém no seu perfeito juízo, possa agir daquela forma como o homem agiu. As duas pessoas são distintas neste momento. O nosso problema não são as detenções porque as pessoas são sempre detidas quando há esses tipos de casos. O problema são os procedimentos, as tramitações processuais, que muitas vezes culminam com a impunidade. As pessoas são libertadas e nunca mais são julgadas e os casos ficam impunes. Nós denunciamos os cinco casos de 2022 em que, até hoje, não houve julgamento.
É preciso combater a impunidade na Guiné-Bissau e criar mecanismos para combater as práticas que denuncia?
Lamentavelmente, a impunidade é uma das maiores instituições na Guiné-Bissau, não só neste domínio, mas em vários outros na corrupção, nas violações graves de direitos humanos, atrocidades, atropelos à lei, à ordem jurídica, tudo isso são as situações que ficam impunes.
Nós pensamos que para consolidar a paz, a democracia e o Estado de Direito, as instituições judiciais têm de funcionar. A Justiça é guardiã é o último reduto dos direitos humanos, quando se sintam lesados nos seus direitos e têm o único caminho a recorrer às instâncias judiciais. Se os tribunais não funcionam, se há essa impunidade generalizada no país, naturalmente não podemos falar de paz, muito menos de desenvolvimento.
Nós entendemos que o governo, as autoridades nacionais, devem adoptar políticas públicas neste domínio, fortalecer as instituições judiciárias com meios e recursos humanos e também com a criação de instituições de avaliação e de fiscalização da actuação do sistema judiciário, permitindo o seu funcionamento eficaz, mas também o combate à impunidade passa necessariamente criação de estabelecimentos prisionais com padrões mínimos internacionais, o que não é o caso da Guiné-Bissau. O país possui apenas dois estabelecimentos prisionais e cada um desses estabelecimentos prisionais não tem capacidade para albergar 100 pessoas, o que é completamente incompreensível para um país que conta com cerca de 2 milhões de habitantes.
Ainda esta semana, a Liga chamou a atenção das autoridades para o aumento de situações de 'justiça privada'. O que é que significa justiça privada e como é que se pode explicar o aumento desta violência?
Nós temos constatado com este disfuncionamento dos tribunais, da Justiça em geral há uma quebra de confiança dos cidadãos em relação à justiça e, por conseguinte, as pessoas têm recorrido mais à justiça privada para fazerem valer os seus direitos. Nas últimas semanas registaram-se dois casos tristes: um aqui em Bissau, em que um cidadão suposto ladrão, foi amarrado, brutalmente espancado na sexta-feira da semana passada, brutalmente espancado até à morte. Temos neste momento um vídeo dramático que está a circular nas redes sociais em que, também na zona norte, um cidadão foi apanhado, um suposto ladrão e que as pessoas espancaram brutalmente de forma muito cruel. Essas pessoas não tiveram nem sequer o mérito de filmar aquilo e fazer circular isso nas redes sociais. Para nós são comportamentos inaceitáveis num Estado de Direito democrático, a realização da justiça é reservada aos tribunais, ao sistema judiciário. O cidadão comum não pode, sob pena de caos e desordem na sociedade, decidir fazer justiça com as suas próprias mãos. Por isso é que nós alertamos ao Estado para assumir as suas responsabilidades e, consequentemente, acabar com esta anarquia que a sociedade guineense está a encaminhar nos próximos tempos.
Em Angola termina nesta sexta-feira, 22 de Março, a greve geral de três dias convocada pela Força Sindical União Nacional dos Trabalhadores, Confederação Sindical e a Central Geral de Sindicatos Independentes e Livres de Angola, exigindo nomeadamente aumentos do salário mínimo. António Estote, ponto focal do grupo Técnico do Governo de Angola nas negociações com os sindicatos, explica as questões que bloquearam as negociações, porém confirma que o executivo continua aberto ao diálogo.
RFI : Que balanço faz das negociações com as três centrais sindicais angolanas?
António Estote, ponto focal do grupo Técnico do Governo angolano nas negociações com os sindicatos: De uma forma geral, nos principais pontos, estamos a falar de cerca de 80% dos principais pontos, foi encontrado um consenso entre as partes. Houve alguma flexibilidade, por parte dos sindicatos e por parte do Governo. Todavia, os sindicatos condicionaram o acordo como um todo aos 20% nos quais faltou consenso.
Na verdade, os sindicatos reivindicam cinco pontos ligados às questões remuneratórias e um ponto muito genérico para cada departamento ministerial. Estamos a falar de Saúde, Educação, ensino superior e outras questões ligadas às relações e condições de trabalho e ao diálogo social. Relativamente às questões de diálogo social, quase todos os pontos foram atendidos.
Uma das exigências é o aumento do salário mínimo. Toda a gente sabe que Angola é um dos países mais caros do continente africano. Como é que se vive com cerca de 30 euros?
Fazendo essa comparação directa com dólares ou euros, há produtos onde não se faz essa paridade. Estamos a falar de cortar o cabelo, produtos produzidos localmente… As condições de vida, sobretudo do poder de compra dos angolanos que recebem salário mínimo, é relativamente baixa.O que nós estamos a pensar é aumentar este valor, mas de tal forma que este valor não venha depois aumentar a inflação.
E esse aumento seria de quanto?
Estamos a trabalhar com um intervalo relativamente entre 50 a 100%. Agora, o grande desafio é identificar grupos específicos em que o incremento não pode ser substancial, porque, apesar de serem actualmente cerca de 36 euros (…) muitas empresas não têm dinheiro para pagar um salário mínimo. Estaríamos a falar de 32 mil para 40 mil kwanzas. Vamos supor 32 para 50 kwanzas para as micro-empresas, 60 mil kwanzas para as pequenas empresas, 30 mil kwanzas para as médias empresas e para as grandes empresas 100.000 kwanzas. Mas para dizer que o salário mínimo é o referencial, o patamar mais baixo. As empresas e as famílias, em função das suas condições financeiras, muitas delas pagam acima deste valor.
Qual foi a resposta das centrais sindicais?
As centrais sindicais recuaram. Eles saíram dos 245 mil kwanzas e foram para até 100%. Só que eles não querem esta distinção entre tipo de empresa, eles querem um aumento de 100% para todos. Nós como queremos salvaguardar o emprego e alguma actividade económica em determinados sectores críticos, como a agricultura, estamos a negociar para termos um salário mínimo diferenciado por tipo de empresa. E os 100% de aumento que os sindicatos exigem serem apenas para as grandes empresas. Nestas negociações o factor fracturante, que levou os sindicatos a não assinarem o acordo, foi o aumento do salário da função pública.
Qual a razão do reajuste do salário da função pública ser factor fracturante?
Actualmente, se olharmos a para a nossa despesa, as remunerações e salários correspondem a 3 bilhões de kwanzas. Com o aumento de 25%, nós vamos chegar a 9/10 bilhões, para arredondar. Dez bilhões de kwanzas representam 90% das nossas receitas fiscais, incluindo as petrolíferas. Aumentando esse montante, com os níveis de IRT que nós temos de receita, estamos a assumir que vamos ter que nos endividar para pagar salários. Isto do ponto de vista de gestão financeira, seja privada ou pública, não se pode financiar as despesas de curto prazo, nem despesas correntes - nesse caso fixas - com recurso a dívida.
E a nossa situação actual, não é novidade para ninguém, mais de 50% do nosso orçamento é destinado ao pagamento do serviço da dívida. Estamos a falar da amortização e dos juros.
Num país onde tudo é tão caro, viver com tão pouco não é fácil. É isso que os sindicatos dizem…
Neste aspecto estamos todos de acordo. A questão qual é: encontrar uma solução exequível para não estarmos numa situação pior. Os funcionários públicos ganham pouco, é reconhecido, mas ganham pouco devido à perda do poder de compra.
E por que tem de ser a sociedade angolana que tem que arcar com essa responsabilidade?
Quando eu digo a sociedade toda, estou a falar, incluindo o Governo, porque a inflação não escolhe a depreciação do kwanza.
Mas há uma diferença entre um salário de um deputado e um salário de um funcionário público, que está ligado às responsabilidades. Essa diferença existe em todo o mundo…
Existe o princípio da diferenciação positiva e da hierarquia no processo remuneratório. Naturalmente, os salários aumentam, mas estamos aqui a falar do patamar salarial, a distância corresponde aos mínimos exigidos. A questão que se coloca é que, quer o deputado quer o funcionário de base de uma empresa de segunda classe, quer o ministro, quer o Presidente, quer o director nacional, todos estão a ser impactados pela inflação. Daí que a nossa recomendação, a médio prazo, tem sido olhar para aqueles factores que contribuíram para a perda do poder de compra. Olhar para a produção nacional.
O que dizem os sindicatos é que, apesar do país ter condições, quase tudo o que consome é importado. Apesar de Angola ter condições para ter uma produção interna robusta. E é um país que fala na diversificação económica, mas que continua sempre muito dependente do petróleo….
Mas se reparar, o caderno reivindicativo tem cinco pontos e destes pontos não existe nenhum ponto que fala sobre essa matéria, sobre a diversificação ou a produtividade. E se falarmos sobre a produtividade, que é um dos critérios para aumentar os salários, aí entraríamos noutro campo.
Os sindicatos denunciaram funcionários públicos foram coagidos, detenções arbitrárias, quando o direito à greve está plasmado na Constituição. Como se justifica que os sindicalistas tenham sido detidos?
Nós verificamos que houve alguns pontos de tensão devidamente identificados. Estamos aqui a falar, acho eu, do Bengo e de Cabinda. Penso que se tratam de situações isoladas. Esta questão de uns tentarem persuadir os outros a aderirem à greve e os outros tentarem persuadir a não aderirem. A Polícia Nacional deve salvaguardar a integridade física daqueles que aderiram à greve e daqueles que não aderiram. Se houve um excesso, essas pessoas devem arcar com as consequências. Aproveito para dizer que a greve correu bem. É um feito histórico em termos, por um lado, um conjunto de trabalhadores públicos a trabalharem, garantindo os serviços todos. Na administração central, os serviços funcionaram na administração local, sobretudo no sector da educação. Houve alguma aderência também no sector da saúde, mas os serviços mínimos na saúde funcionaram. Na educação houve maior aderência.
Outra questão que foi é abordada pelos sindicatos é o facto da imprensa pública não fazer qualquer menção à greve. Dizem que ouvem apenas o Governo e não ouvem os representantes dos trabalhadores que estão a reivindicar. Como é que se justifica que a imprensa pública angolana não faça referência a uma greve-geral no país?
Não consigo confirmar essa afirmação. Se repararmos, e se formos aqui um pouco mais precisos, sempre que houve uma reunião de negociação com o Executivo, os sindicatos convocavam uma conferência de imprensa e falavam, já o executivo não falava. Mas final do dia poderíamos ter evitado a greve. Porém, demos um exemplo de cidadania e de democracia.
A greve termina nesta sexta-feira, 22 de Março. O Governo está disponível para negociar?
O Governo continua aberto para negociação e continua [empenhado] em tentar convencer a sociedade civil e o sindicato que há determinados grupos de interesses, sobretudo os menos protegidos, que devemos salvaguardar. Refiro-me ao o emprego, às micro e pequenas empresas e à estabilidade e a paz social.
A artista e activista brasileira Lyz Parayzo está em destaque na exposição “100% L’Expo”, em Paris, que junta cerca de 50 artistas emergentes, de 27 de Março a 28 de Abril. Lyz Parayzo foi convidada para criar uma instalação que ocupa o exterior do edifício, com esculturas móveis metálicas e suspensas, em forma de espiral e com pontas cortantes, que remetem para a violência de que ela é vítima devido à sua identidade transfeminina.
A arte é um lugar de militância e de luta para a brasileira Lyz Parayzo porque é um espaço onde os corpos dissidentes e não normativos estão, ainda, pouco representados. Nascida em 1994, Lyz Parayzo concebe as suas obras como “um cavalo de Tróia” para infiltrar espaços de poder e abrir horizontes. A partir de uma perspectiva autobiográfica, a artista cria esculturas que representam a sua experiência quotidiana de violência e de opressão por ser uma pessoa trans. Nesse sentido, a sua arte é “uma arma”.
É uma arma para criar um debate público e político sobre determinados corpos na sociedade. Aqui, por questões de segurança, os móbiles estão flutuando... Mas quando os fiz na Beaux-Arts, eles estavam perto do corpo, giravam muito forte com motores e podiam cortar. Então as pessoas tinham medo. E é justamente isso. O meu corpo, às vezes, cria um lugar de medo porque as pessoas podem desejá-lo, sendo que não é permitido desejar ou amar uma mulher trans.
Lyz Parayzo estudou nas Belas-Artes de Paris, após uma formação em Artes Cénicas na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e em Artes Visuais na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Brasil. Em 2019, deixou o Brasil, que sublinha ser “o país que mais mata pessoas trans há 15 anos”, e mudou-se para França. Admite que saiu por “razões políticas” e para poder assumir plenamente a sua identidade.
Quando começou o governo Bolsonaro, as pessoas faziam sinais de arma para mim, na mão. Começou a ser muito violento. Antes de eu ir para França, raspei a minha cabeça porque eu não conseguia sustentar a feminilidade do meu corpo. Tive que sair do meu país para poder ser eu. E também porque Bolsonaro fechou o Ministério da Cultura. Então, ao mesmo tempo que era muito perigoso ser uma pessoa trans no Brasil, com um governo de extrema-direita, militar e fascista, também era muito difícil ser artista porque teve um boicote para a cultura.
Com a instalação colocada à entrada da Grande Halle de La Villette, em Paris, Lyz Parayzo está em destaque na “100% L’Expo”, uma exposição dedicada a jovens artistas recém-diplomados e que vai estar patente de 27 de Março a 28 de Abril. A obra que ela criou “in situ” chama-se “Tempête Magique” e parte da série que ela fez, em 2022, intitulada “Cuir Mouvement”. As espirais em inox e alumínio, em grande escala, estão suspensas e, ao girarem, reflectem formas ondulantes cor-de-rosa no espaço. Estas serras giratórias ou "móbiles" são objectos dentados e, na instalação inicial, estavam mais perto do público, o que suscitava uma ameaça de lesão física, atraindo e repelindo ao mesmo tempo o espectador. “Como o meu corpo”, diz Lyz Parayzo.
A minha escultura, que tem um lugar de beleza, que brilha, que seduz, que gira e tem luz rosa, ao mesmo tempo, ela pode cortar justamente para criar um debate público sobre os corpos que não são cisgénero, que são racializados e que se veem diariamente. (…) Eu resolvi fazer esculturas que colocassem o público vulnerável para eles saberem a sensação que é ter o meu corpo.
A artista inspira-se no constructivismo e na arte cinética para criar novas formas de abstracção queer. Lyz Parayzo realizou“performances de guerrilha”, sem avisar, em museus para “problematizar a ausência de corpos racializados e não cisgénero nos espaços das artes”. Oriunda de uma família de ourives, ela começou por fazer o que chamou de “joias bélicas” que são “objectos de autodefesa” que dialogam com a herança do concretismo e neoconcretismo brasileiro dos anos 60, nomeadamente com Waldemar Cordeiro e Lygia Clark. “As minhas esculturas são escudos, armaduras, coisas cortantes e eu faço o meu trabalho de arte como se fosse uma terapia de redistribuir as violências que o meu corpo sofre num objecto”, acrescenta.
Além da instalação “Tempête Magique”, Lyz Parayzo vai apresentar a performance “Manicure Política” no festival Jerk Off, em parceria com esta exposição. Porque "todo o corpo é político".
A 'manicure política' é um momento em que as pessoas têm um toque com o meu corpo, têm um diálogo, têm um lugar de humanização, um lugar de ressignificação do imagético sobre esta população. De todas as vezes, o salão é feito por mim ou por outras mulheres trans para criar uma rede de apoio e de distribuição de capital simbólico e financeiro. (…) É um trabalho para criar um lugar de acolhimento, de cuidado com o outro e também para criar novos imaginários sobre estes corpos fora de um lugar marginal. Um lugar que pode ser construtivo. Um lugar que pode fazer arte e um lugar que pode ser descontraído. É um lugar para atacar a imaginação e para reconstruir imaginações. Juntos.
Armando Ribeiro era chamado “comandante” pelos companheiros e “falsificador” pela PIDE. Foi um dos fundadores da LUAR, Liga de União e de Acção Revolucionária, e, aos 80 anos, conta-nos algumas das acções deste grupo de resistência armada à ditadura portuguesa. Armando Ribeiro viveu seis anos na clandestinidade, escapou à prisão, transportou armas 3.000 quilómetros Europa fora, participou na tentativa frustrada de tomada da Covilhã e no assalto a Consulados de Portugal para obter passaportes.
Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI falou com vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos Armando Ribeiro, um dos fundadores da Liga de União e de Acção Revolucionária (LUAR).
Os que o conheciam de perto chamavam-lhe “comandante”. Os que o queriam prender vociferavam: “Esse falsificador!”. Nesses tempos de clandestinidade e de luta contra a ditadura portuguesa, poucos sabiam o nome deste homem, hoje com 80 anos.
O Inácio Afonso, que era um tipo da PIDE, dizia: ‘Esse fulano! Esse falsificador! A gente até vai buscá-lo a Paris se for preciso!’. Mal eles sabiam que se a gente quisesse os tínhamos liquidado! ‘A gente vai buscá-lo a Paris, esse falsificador!’. Nem conhecia exactamente o meu nome. Só conhecia ‘comandante’. Ninguém sabia o meu nome. Eu acho que nem o Palma sabia o meu nome completo.
Chama-se Armando Ribeiro e foi um dos fundadores do movimento antifascista LUAR, a Liga de União e Acção Revolucionária. Um dos dirigentes do grupo era Hermínio da Palma Inácio que, em 1947, participou na sabotagem de aviões da Força Aérea; em 1961, também participou no desvio de um avião para lançar panfletos contra a ditadura sobre Lisboa e outras cidades, junto com Camilo Mortágua. Este já tinha estado no desvio do paquete Santa Maria, no mesmo ano. Ambos estiveram na linha da frente do assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967. E foi o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz que levou à fundação da LUAR, em Paris, onde já se encontrava Armando.
O jovem tinha deixado Portugal três anos antes. Estudante do Instituto Comercial do Porto, onde era dirigente da associação académica, Armando Ribeiro ficou em Paris durante uma visita de estudo de finalistas em Março de 1964 porque recusava ir para a guerra colonial combater pessoas que lutavam pela sua independência. Inscreveu-se na escola de Arts et Métiers e trabalhava à noite no PBX de um prédio. Poderia estudar durante o dia, ter uma vida boémia, mas trocou o conforto pela luta.
Muito novo ainda, foi o braço direito de Hermínio da Palma Inácio, em Paris, dirigente do Conselho Superior do movimento e criador do seu símbolo - o “L”, com uma seta ascendente. Comprou armamento, transportou um arsenal de armas 3.000 quilómetros Europa fora, participou no assalto a consulados para obter passaportes e ajudou a preparar os chamados “confiscos” para custear muitas vidas na clandestinidade. Como os companheiros, pôs a vida em perigo nome de um ideal e esse ideal chamava-se LUAR.
“A LUAR foi uma organização que começou pela luta armada porque todas as pessoas que integravam a LUAR já tinham participado em coisas de luta armada, como o desvio do Santa Maria. Portanto, foi aí que comecei, foi com essa gente toda”, começa por explicar, sublinhando que era uma organização apartidária, claramente “fora do Partido Comunista Português” e que defendia a acção directa e o recurso às armas para o derrube da ditadura e a restauração da democracia.
As origens da LUAR
Conta, ainda, que na génese do movimento estiveram personalidades como Henrique Galvão e até Humberto Delgado, com iniciativas de acção directa contra o regime, nomeadamente depois do “terramoto” da candidatura presidencial do “General Sem Medo”. Humberto Delgado esteve directamente envolvido na Revolta de Beja na passagem de ano de 1961 para 1962. Henrique Galvão esteve em várias outras acções com impacto internacional de grande peso, para as quais contou com o apoio essencial da dupla Palma Inácio e Camilo Mortágua.
A 23 de Janeiro de 1961, exilado na Venezuela, Henrique Galvão fez tremer o regime com o assalto e desvio do paquete Santa Maria, considerado o primeiro sequestro político de um transatlântico na história contemporânea, uma acção em que participou também Camilo Mortágua. Depois, a partir do Brasil, Henrique Galvão preparou a Operação Vagô, na qual, em Novembro de 1961, Palma Inácio participou no primeiro acto de pirataria aérea da história: o desvio de um avião comercial da TAP, que fazia o percurso Casablanca-Lisboa, e o lançamento sobre Lisboa e outras cidades de panfletos contra o regime. A bordo do avião estava também Camilo Mortágua.
Depois do assassínio do General Humberto Delgado, a 13 de Fevereiro de 1965, os opositores que estavam refugiados no Brasil, decidem voltar para a Europa para continuarem a acção contra o regime a partir do exterior.
O Palma e uma meia dúzia que tinham participado no avião vieram para a Europa e diziam que a partir do Brasil não se pode fazer nada, é muito longe estar no Brasil e ter acções em Portugal e vieram-se instalar, sobretudo, em França e na Bélgica.
A LUAR nasce quando o opositor Emídio Guerreiro, refugiado em Paris, enviou um comunicado ao jornal francês Le Monde, no qual que a LUAR reivindicava o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967.
A LUAR não existe antes do banco da Figueira da Foz. Quem deu o nome à LUAR foi depois do banco da Figueira da Foz e foi o professor Emídio Guerreiro, que estava aqui refugiado há muito tempo, mas que não pertencia à LUAR porque a LUAR não existia. Ele tinha contacto com os membros da LUAR, especialmente com o Palma Inácio e o Camilo Mortágua. Quando ele soube, quer dizer, ele imaginou que quem poderia fazer aquilo só poderia ser o Palma, não é? E então ele inventou – e bem, que é um nome bonito, LUAR - e mandou um comunicado ao Le Monde a dizer que tinha sido a LUAR que tinha feito.
Armando Ribeiro participou, depois, na reunião de fundação da LUAR na casa de Emídio Guerreiro, em Paris. Dissensões internas levariam ao afastamento de Emídio Guerreiro, a que não foi alheio o destino do dinheiro da agência do Banco de Portugal da Figueira da Foz que lhe tinha sido entregue. Porém, uma parte significativa dos 29 mil contos era constituída por notas ainda não postas em circulação e só 4,7 mil contos por notas usadas, tendo outra parte sido recuperada pela PIDE com a colaboração de um infiltrado [Ernesto Castelo Branco] e apenas uma pequena parte do dinheiro se poderia cambiar por caminhos travessos.
A LUAR foi um marco na história da resistência armada ao regime ditatorial português. E se um punhado de homens e mulheres dedicaram parte da sua vida a organizar acções revolucionárias para derrubar a ditadura, o preço da coragem era, muitas vezes, pago com a prisão, a tortura, o exílio. Armando não chegou a ser preso, mas, quando ia a Portugal, usava uns sapatos com uma serra no interior para poder serrar as grades da cadeia caso lá fosse parar.
Sobreviver na clandestinidade implicava fintar as autoridades e isso também passou pela falsificação de passaportes e bilhetes de identidade. Armando foi um dos responsáveis por essa tarefa que passou pelo assalto a consulados de Portugal em Roterdão e no Luxemburgo em Abril e Junho de 1971. O objectivo era obter documentos de identificação, formulários e selos brancos. Na PIDE, ele ficou conhecido como “falsificador”.
Em Roterdão, quando a gente lá foi, a gente não sabia que era o dia da rainha da Holanda e o Consulado estava fechado. De maneira que a gente até teve que abrir a porta ilegalmente porque não estava aberto. No Luxemburgo já foi diferente, estava a funcionar. Tomámos o Consulado e trouxemos passaportes que era o que nos fazia falta. Mais tarde, com os meios financeiros que tínhamos, criámos todo um sistema de contrafacção dos documentos. Tínhamos uma panóplia de documentos perfeitamente iguais.
Os documentos falsos eram, depois, usados para os combatentes circularem e, sobretudo, como medida de precaução caso fossem controlados pela polícia.
Armando Ribeiro conta, ainda, que só houve um caso em que a polícia neutralizou resistentes da LUAR sabendo, de antemão, que eram da organização. Foi depois da “Operação Primavera” [a 30 de Abril de 1969 e que consistiu na sabotagem de pilares de alta-tensão no Porto e numa explosão junto ao Consulado Americano do Porto] que a PIDE estava à espera em Irun e deteve Seruca Salgado, Júlio Alves e José Paulo Lima Matias. Mas a polícia espanhola não autorizou a extradição porque tinha bem presente o assassínio, pela PIDE, do general Humberto Delgado em território espanhol [13 de Fevereiro de 1965].
Serviam para a gente, quando estava em Portugal, com vários nomes, se viesse a autoridade pedir, num controle normal - porque é evidente que se já soubessem que a gente era da LUAR não valia de nada. Mas nunca tivemos esse problema porque, contrariamente ao que se diz, nunca ninguém da LUAR foi presa com a PIDE a saber onde a gente estava. Só houve um caso, mas a prisão foi executada em Hendaia, Irun. Estava lá o Sacchetti, que era o diretor PIDE, à espera deles e eles foram presos em Espanha [Seruca Salgado, Júlio Alves e José Paulo Lima Matias]. Eles pensavam que os espanhóis os iam entregar directamente à PIDE, mas os espanhóis nessa altura não autorizaram que a PIDE pegasse neles e os levasse para Portugal porque, entretanto, o General Delgado tinha sido encontrado assassinado em Espanha. Então, eles não entregaram e esses indivíduos ficaram presos em Espanha e depois foram julgados, foram dados como políticos e, portanto, não foram extraditados para Portugal e foram recambiados para a Argélia que os recebeu.
“A gente transportou armas sem nunca ter nenhum problema ao longo de 3.000 quilómetros”
Poucos meses depois de vários membros da LUAR terem vivido o Maio de 68 em Paris, inclusivamente participando na ocupação da Casa de Portugal na Cidade Universitária, prepararam nova acção revolucionária: a tentativa de tomada da cidade da Covilhã, em Agosto.
A Covilhã é um centro de lanifícios, industrial, e a gente ia tomar a rádio e íamos atacar os bancos todos lá, a guarda republicana, a polícia, íamos tomar a cidade e tínhamos uma declaração para fazer na Rádio Covilhã ao país e à Covilhã. E depois íamos evacuar. Não lhe posso dizer o que é que se ia passar porque nunca chegámos a isso porque o Palma, entretanto, foi preso.
Ainda assim, Armando Ribeiro nega que a operação tenha sido um fracasso e diz que foi o azar que levou à detenção de Palma Inácio porque a polícia política estava longe de imaginar o que se iria passar.
Não foi fracasso nenhum. Houve vezes em que a gente teve sorte, outras vezes teve azar. A intersecção deu-se em Torre de Moncorvo. Eles tinham saído para tomar um café porque não tinham comido há muito tempo. Foram ao café e, depois, o Palma meteu-se no carro em que vinha, o polícia pediu-lhe os documentos e o Palma não tinha a carta de condução. Ameaçou com uma arma e fugiu com o carro e só depois é que o carro foi interceptado. Veio a guarda republicana e pensavam que eram passadores ou contrabandistas.
Armando não foi preso porque iria chegar mais tarde à Covilhã. Ele e outros transportavam “todo um armamento do último grito comprado na Checoslováquia”, com o dinheiro dos “confiscos” aos bancos e aos veículos de transporte de fundos.
Fomos várias pessoas que conduziram o carro e os detonadores e todo o material bélico que a gente tinha e plástico que é um explosivo altamente sofisticado que ainda hoje se utiliza, que se chama semtex. Arranjámos automóveis com esconderijos especiais para isso e a gente trouxe. A gente não veio directo, mas de Praga a Paris são 1.000 quilómetros, de Paris a Portugal são mais ou 1.700 - 2.000 praticamente, com os caminhos ‘détournés’ que a gente fez. Portanto, a gente transportou armas sem nunca ter nenhum problema, nunca foram capturadas ao longo de 3.000 quilómetros. São 3.000 quilómetros, é muita coisa, portanto, estávamos relativamente bem organizados.
Depois da tentativa frustrada da tomada da Covilhã e perante a prisão dos companheiros, Armando entra na clandestinidade até à Revolução dos Cravos. Um período em que continuou a acreditar que a LUAR poderia derrubar a ditadura, tanto é que se a tomada da Covilhã tivesse funcionado, o regime poderia ter tremido: “O que se diz é que o Salazar ficou preocupado e que ainda gritou lá com os tipos da PIDE a dizer “O Palma outra vez?! Outra vez o Palma?!”
A LUAR quis ser “o detonador da revolução”
Na “nova concepção de luta” da LUAR, estava a violência revolucionária e acções armadas contra o regime, também com sabotagem de meios usados na guerra colonial. Porém, era rejeitado o recurso a actos terroristas e o assassínio de pessoas, mesmo se fossem agentes da PIDE. A prová-lo estão alguns episódios que Armando Ribeiro nos conta.
Aqui em Paris, havia rapazes que trabalhavam em hotéis e havia um hotel que era o Lisboa que era de um tipo da PIDE. A gente tinha lá um tipo que trabalhava, que era da LUAR, e eles iam lá dormir e ele viu que eram da PIDE, uma brigada, eram três ou quatro da PIDE. Ele telefonou ao Palma a dizer: ‘Estão lá os tipos da PIDE, o que é que a gente faz? Damos-lhes um tiro?’ e o Palma: ‘Não vamos dar tiro nenhum. Só nos traz problemas e não vamos resolver problema nenhum.’
O mesmo aconteceu com um informador da PIDE no restaurante Ribatejo, mas Hermínio da Palma Inácio rejeitava matar pessoas porque “não se faz a revolução dessa maneira”. Um membro da LUAR chegou a ter à frente um agente da PIDE que tinha torturado barbaramente uma companheira do movimento, mas “não conseguiu disparar”.
Na LUAR nunca existiu a coisa dos tiros, da violência pela violência. A gente nunca pôs bombas para matar pessoas.
Depois de novas prisões, incluindo mais uma vez do chefe histórico Palma Inácio, foi preciso reafirmar os grandes princípios norteadores da organização. O objectivo era continuar a luta, avançar com acções para alertar a opinião pública nacional e internacional e continuar a publicar o jornal Fronteira, a partir de Paris. Em Janeiro de 1974, a LUAR publica o manifesto “Por uma utilização correcta dos novos métodos de luta, pela Revolução Socialista”, redigido sobretudo por Armando Ribeiro, Fernando Pereira Marques e Rui Pereira. “A gente não queria a ditadura do proletariado, éramos pela democracia directa”, reitera o seu co-autor.
No fundo, a LUAR queria ser “o detonador da revolução” em Portugal e a revolução acabou por chegar, mas através do Movimento das Forças Armadas.
A gente pensava que íamos conseguir ser o detonador da revolução. Quer dizer, o MFA foi isso. Eles fizeram aquilo que, se calhar, não estavam à espera. Ninguém estava à espera no 1° de Maio que houvesse um milhão de pessoas em Lisboa. O 1° de Maio foi logo a seguir ao 25 de Abril e ninguém estava à espera.
O ‘comandante’ afirma, mesmo, que “o programa do MFA é uma cópia do primeiro documento que a LUAR mandou para a rua, o documento número 1, com o que a gente queria fazer” e os objectivos eram “democratizar, dar a independência às colónias, acabar com a guerra colonial”.
Em Abril de 1973, Hermínio da Palma Inácio e Armando Ribeiro foram à Conferência Internacional de Apoio às Vítimas do Colonialismo, em Oslo, onde se encontraram com Agostinho Neto e Manuel Jorge do MPLA, Marcelino dos Santos, da Frelimo, e os irmãos de Amílcar Cabral que já tinha sido assassinado. A revolta de Armando ainda se lê no rosto e na voz quando diz que a PIDE matou “um dos maiores dirigentes africanos do século 20” e “o maior amigo dos portugueses”. Não o conheceu, mas lembra que “houve malta da LUAR que desertava da Guiné e que o conheciam porque os desertores eram enviados para Argel e Argel é que distribuía e via se eles eram pessoas infiltradas, se eram pessoas que pura e simplesmente não estavam de acordo com a guerra, ou se se tinham lá chateado com os capitães ou com alguns tipos militares, estilo generais do tempo do Spínola e antes do Spínola”.
O capitão Ernesto Melo Antunes, membro da direcção do MFA e co-autor do seu programa político, chegou a encontrar-se com Palma Inácio e Armando Ribeiro em Paris.
O Melo Antunes veio falar com o Palma e disse: ‘Vocês não façam nada, eu sei que vocês estão equipados, mas vocês não façam nada porque isto agora vai mesmo para a frente’. E o Palma disse: ‘Olha, a primeira vez que eu que eu me meti nisso foi em 1947’ [O Palma tomou parte e sabotou os aviões da base de Sintra em 1947] ‘Em 1947, já me vieram com essa conversa, mas está bem. Ficamos assim, vocês façam lá, andem para a frente que a gente apoia-vos’. Que eles fizessem, mas que nós íamos continuar a fazer aquilo que a gente achava porque, desde 1947, ele tinha-se metido nisso e o exército, no último momento, tinha sempre falhado.
A Revolução acabou mesmo por ser feita pelo Movimento das Forças Armadas, com o apoio em massa do povo.“Os tanques todos na rua e milhares de portugueses na rua e fez-se uma revolução que é das coisas mais espectaculares que existe na segunda metade do século 20. E o resto é conversa. O 25 de Abril foi uma coisa exemplar”, resume.
Depois do 25 de Abril, Armando Ribeiro fez parte da Comissão da Extinção da PIDE-DGS, ao lado, nomeadamente, do companheiro de luta também exilado em Paris Fernando Oneto. Desarmar, tratar dos arquivos e interpelar agentes da PIDE eram algumas das funções. Armando diz que, pessoalmente, só prendeu Silva Pais, que era o director da PIDE/DGS, o agente Domingues que era “o assassino do pintor Dias Coelho que a PIDE tinha morto a tiro” e um português em Paris “que era o Manuel não sei quantos que andava com o “Portugal Livre” e que andava a enganar as pessoas, a dizer que era antifascista e era um tipo que era pago pela PIDE”. Houve, ainda, um agente infiltrado da PIDE na LUAR, Ernesto Castelo Branco, que acabou por ser entregue ao MFA.
Quanto aos torcionários das prisões do fascismo, Armando Ribeiro só pode condenar a actuação da justiça portuguesa: “O sistema judicial português, que ainda hoje é aquela miséria que a gente conhece, puseram-nos na rua e os PIDES todos que foram presos, depois fugiram e fizeram 30 por uma linha!”
Durante mais de um ano, Portugal viveu e acreditou na sua revolução, com comissões de trabalhadores, associações de moradores, ocupações de terras e de empresas, nacionalizações, etc. Porém, a demissão, em Setembro de 1975, do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, Capitão de Abril e rosto do Processo Revolucionário em Curso, anunciava o fim de uma época. Armando Ribeiro percebeu que o ideal revolucionário acabara e decidiu deixar novamente Portugal e instalar-se em França, onde ficou até hoje e onde nos recebe. Meio século depois, avisa: “É no solo podre que nascem os cravos”.
Mafalda Fernandes criou em 2021 uma conta no Instagram para denunciar e combater o racismo em Portugal, fazendo publicações sobre a discriminação na sua vida, mas também explicando conceitos e lembrando a história dos negros no Mundo. Mais tarde acabou por criar no Porto, a sua cidade natal, a primeira visita-guiada que mostra a história dos negros na Invicta.
O combate ao racismo também se faz hoje através das redes sociais. Para denunciar o racismo vigente em Portugal, mas também desconstruir ideologias políticas ou ainda falar de movimentos globais, Mafalda Fernandes, uma jovem do Porto, criou o perfil “Quotidiano de uma negra” no Instragram onde já reúne uma comunidade de mais de 10 mil pessoas.
"Eu acho que as redes sociais são muito importantes para partilharmos informação credível e informação que dificilmente instituições ou jornais muitas vezes não conseguem partilhar e portanto eu uso muito as minhas redes sociais, mais no sentido de criar consciência nas pessoas do que é que é ser uma vivência em Portugal como pessoa negra", explicou Mafalda Fernandes.
Esta jovem activista que nasceu e cresceu no Porto, disse que desde que a extrema-direita começou a ganhar relevância em Portugal, a presença na internet já lhe valeu ameaças de morte.
"Claro que eu acho que os ataques têm muito a ver com com a nossa exposição, não é? Apesar de tudo, as minhas redes sociais aparecem. Sinto que ultimamente os ataques são mais constantes, não tanto nas redes sociais, mas mais no meu dia a dia. Sinto uma insegurança muito maior na minha vida do que o que sentia no passado, nas redes sociais. No ano passado lembro-me de ter uma situação muito complicada, de uma ameaça de morte a que nunca tinha acontecido, mas aconteceu ali", indicou a jovem.
De forma a acabar com a discriminação, segundo Mafalda Fernandes, falta ainda a sociedade portuguesa reconhecer o racismo vigente no país e haver uma maior atenção às necessidades das pessoas racializadas.
"Primeiro, nós precisamos reconhecer que Portugal é um país estruturalmente racista para podermos ter qualquer tipo de medidas contra este racismo estrutural, nós temos que o reconhecer, não é? É algo que é muito difícil para muitos partidos de fazer. Depois temos a questão dos números. Nós não sabemos quantas pessoas negras vivem em Portugal e se nós não sabemos quantas pessoas negras vivem em Portugal, fica muito difícil avaliar quais é que são as necessidades deste grupo. Depois temos a questão da violência policial, que é muito pouco falada em Portugal", descreveu a activista.
Este activismo nas redes sociais levou-a também a criar a primeira visita-guiada que mostra a história dos negros no Porto, que atrai pessoas vindas um pouco de todo o Mundo, mas especialmente muitos norte-americanos que querem saber mais sobre o tráfico de escravos iniciado por Portugal no século XV. No entanto, para Mafalda Fernandes esta foi uma forma de se aproximar de outras pessoas negras.
"Esta visita é uma forma de eu me poder aproximar mais a outras pessoas negras aqui na cidade do Porto e perceber também qual é que é a vivência delas. O objectivo principal é que as pessoas que vêm, os meus clientes que aparecem nestas visitas que eu faço possam conhecer diferentes negócios negros aqui no Porto e que possam consumir nos mesmos, para também assim elevar a comunidade através daquilo que possa ser o seu poder económico, que também é algo muito importante numa sociedade capitalista", concluiu.
Após uma candidatura à Câmara de Lisboa e a deputada, Ossanda Líber ressurge na vida política portuguesa como fundadora do partido Nova Direita que situa entre o PSD e o Chega, defendendo quotas de imigração, mais contrução de casas e maior convicção nos valores ligados à família.
Ossanda Liber é a cabeça de lista e fundadora do partido Nova Direita, que no dia 10 de Março concorre às eleições legislativas em Portugal. Em 2021 concorreu à Câmara Municipal de Lisboa com o movimento "Somos Todos Lisboa" e em 2022 voltou à ribalta política ao ser candidata pelo partido Aliança ao Círculo da Europa.
Em entrevista à RFI, a partir da sede do Nova Direita no centro de Lisboa, a candidata defende que o seu partido se posiciona politicamente entre o PSD e o Chega, estando disposta a servir de ponte entre estas duas forças para que a direita volte ao poder.
"Queremos representar uma série de pessoas que como nós tem essa visão de Portugal, dos valores, da família, etnão porque não criar um partido, na medida em que não havia nenhum em nos pudessemos inserir. E é aí que nos encontramos, com um PSD muito virado para a esquerda e um Chega que se torna inaudível, que faz o trabalho de protesto, mas não tem ideias de fundo para a resolução dos problemas", disse a candidata.
A Nova Direita quer assim "servir de ponte" à direita do espectro político português, acusando, no entanto, o Chega de não manter uma constância nas suas propostas, nomedamente no que diz respeito à imigração.
"O André Ventura oscila muito sobre o tema da imigração, chegou a ser muito duro e agora, de repente, perto das eleições, começa a suavizar o discurso. Ele não tem nenhuma solução concreta e nós achamos que é absurdo pensar que a imigração não é necessária, mas não pode ser de qualquer maneira. Precisamos de saber que pessoas são, que lacunas é que vêm preencher aqui? E como vão viver? E como é que o país as vai integrar. É por isso que achamos que é preciso uma selecção", declarou.
Uma das suas propostas com mais destaque é a imposição de quotas de imigração em Portugal tendo sobretudo em conta a "pertinência económica" e a "proximidade cultural" dos imigrantes. No entanto, a candidata refuta que estas propostas tenham qualquer carisma racista ou xenófobo.
"Nós não temos medo de falar de assunto nenhum. [...] Se falar sobre imigração é ser xenófobo, é ridículo. Nós falamos sobre os temas. É muito difícil atribuir-em qualquer caracterísitica xenófoba como é óbvio e eu sinto legitimidad eporque eu própria venho da imigração", indicou.
Ossanda Líber diz estar de acordo com a livre circulação na CPLP, mas que esta liberdade não deve servir apenas para facilitar a imigração para Portugal, devendo primeiro aprofundar a "cooperação económica" e as "trocas culturais" entre os países lusófonos.
Já para a habitação, um dos temas que mais preocupa os portugueses, em conjunto com um maior conhecimento sobre as casas devolutas que pertencem ao Estado e a revisão das zonas Reserva Ecológica Nacional que não permitem construção, a Nova Direita defende que se criem mais alojamentos.
"Não há casas? Tem de haver casas. A única lei que vigora e funciona no mercado imobiliário é a procura e a oferta. Portanto se temos mais procura que oferta, temos que aumentar a oferta. O Estado pode intervir como quiser, mas os proprietários privados se não quiserem pôr as casas no mercado, não põem e não os podemos obrigar", concluiu.
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