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Entre China, Venezuela e Oriente Médio: a diplomacia dispersa dos EUA


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É possível olhar hoje para a política externa dos Estados Unidos como um grande exercício de “zapping” geopolítico. Em tese, há uma narrativa clara: defender a democracia, conter rivais estratégicos, proteger cadeias de suprimentos e devolver empregos à classe média americana.

Thiago de Aragão, analista político

Na prática, porém, Washington tenta pivotar ao mesmo tempo para o hemisfério ocidental, para o Indo‑Pacífico e para dentro de casa, com uma agenda econômica “America First” que se mistura cada vez mais com diplomacia e segurança. O resultado é um excesso de frentes abertas e uma hierarquia de prioridades que muda ao sabor do noticiário, deixando aliados, adversários e até partes da própria administração sem saber exatamente qual é o eixo central da estratégia.

A América Latina, e em particular a Venezuela, é um bom exemplo dessa confusão. De um lado, a retórica de dar mais atenção ao “quintal” americano, associando migração, narcotráfico e a presença de Rússia e China na região a temas de segurança nacional. De outro, a resposta prática oscila entre sanções, ameaças militares e gestos de aproximação, sem uma visão clara de qual seria o objetivo final: mudança de regime, negociação gradual ou simples contenção simbólica. Quando cada crise é apresentada como um teste histórico de credibilidade, mas a atenção de Washington rapidamente se desloca para o próximo dossiê urgente, a sensação é de uma política hemisférica mais reativa do que estratégica.

Algo semelhante ocorre com a combinação de tarifas, guerra tecnológica e contenção militar em relação à China, ao mesmo tempo em que a Rússia continua tratada como ameaça imediata na Europa. O discurso oficial coloca Pequim como principal competidor sistêmico, justificando controles de exportação, tarifas e reconfiguração de cadeias industriais. Moscou permanece como foco de dissuasão militar clássica e, no entanto, há também a promessa de “encerrar guerras eternas” e reduzir o peso das aventuras externas no orçamento americano. Na prática, o país vive uma espécie de hiperativismo seletivo: não quer novas grandes intervenções no estilo Iraque, mas amplia presença militar, sanções e disputas comerciais num arco que vai do Báltico ao Mar da China Meridional.

No Oriente Médio, o contraste entre discurso e realidade é ainda mais visível. A Casa Branca se apresenta como guardiã de uma ordem mais estável e menos militarizada, mas multiplica operações pontuais, ataques cirúrgicos, mediações improvisadas e promessas de redesenhar a arquitetura de segurança regional sem aprofundar o debate interno sobre o custo político e financeiro disso. Para o público americano, esta é uma “saída” da região; para quem observa de fora, soa como uma permanência em modo mais difuso e menos assumido, em que Washington quer continuar indispensável, mas sem admitir o grau de envolvimento que isso exige.

Até frentes aparentemente periféricas, como a atenção renovada ao Ártico ou episódios como o interesse em comprar (ou até mesmo invadir) a Groenlândia, ajudam a compor a imagem de uma superpotência que transforma qualquer espaço geográfico potencialmente relevante em tema de segurança. O problema não é que esses temas sejam irrelevantes, mas que todos são apresentados como vitais. Quando tudo é prioridade estratégica, nada parece realmente prioritário. Do ponto de vista burocrático, isso cria listas infindáveis de “teatros críticos”; do ponto de vista político, gera mensagens contraditórias: um dia o foco é conter a China, no seguinte é punir a Europa com tarifas, depois é sinalizar força contra o Irã, logo em seguida é prometer mais atenção à fronteira com o México e à instabilidade na Venezuela.

Para aliados europeus, especialmente em Paris e Bruxelas, a experiência recente com Washington é a de um parceiro não tão indispensável e, ao mesmo tempo, cada vez mais imprevisível. O mesmo governo que pede coordenação apertada contra a China e Rússia ameaça com invasão contra um território europeu, medidas comerciais unilaterais, critica níveis de gastos em defesa e muda de tom conforme o calendário eleitoral interno. Esse vaivém não significa ausência total de lógica: há um fio condutor, que é a tentativa de recompor a primazia americana num mundo mais competitivo, usando simultaneamente instrumentos militares, econômicos e tecnológicos. Mas esse fio é fino e nem sempre visível para quem está do outro lado do Atlântico ou no Sul Global, mais exposto à impressão de improviso permanente.

Daí a sensação de que a política externa americana, sob a administração atual, vive uma espécie de fadiga de liderança: ainda dispõe de recursos, bases, alianças e poder financeiro para agir em múltiplos tabuleiros, mas encontra cada vez mais dificuldade em explicar por que está em tantos lugares ao mesmo tempo e qual projeto de longo prazo justifica esse ativismo. Para o leitor francófono ou lusófono, a imagem que emerge é a de um país que ainda dita a pauta do mundo, mas que mudou de canal tantas vezes que começa a perder a narrativa do próprio filme.

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