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Ao ouvir o nome Dercy, uma imagem costuma vir à cabeça: uma mulher de 70 ou 80 anos dizendo absurdos e emendando palavrões na televisão —ou mostrando os seios no programa de Hebe Camargo.
Não dá para fugir da caricatura de velha escrachada e indecente ao pensar em Dercy Gonçalvez. Ao mesmo tempo, não dá para reduzir a comediante, que morreu aos 101 anos em 2008, a essa personagem que se tornou inconfundível.
Neste episódio, Adriana Negreiros, autora da biografia "Dercy: a Diva Debochada", faz essa distinção e fala sobre as tantas contradições da atriz, que teve uma vida marcada pela tragédia e pela violência e encontrou no humor uma salvação.
Para a autora, poucos artistas brasileiros construíram uma relação tão visceral com o público como Dercy Gonçalves, mas a pecha de comediante imoral ou pornográfica impediu que a sua genialidade fosse reconhecida.
Negreiros fala sobre a postura anti-intelectual da atriz, artista da improvisação que era vista como rebelde nos palcos e dizia ter sido formada pela realidade dura do Brasil, não por qualquer influência europeia.
A autora também discute as posições preconceituosas de Dercy a respeito de feministas e pessoas LGBTQIA+, por exemplo, que contrastavam com boa parte das atitudes dela ao longo da vida, e explica por que a considera uma heroína decolonial pioneira.
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Bruno Blecher, que acaba de lançar "O Sertão É o Mundo: Histórias de um Repórter Rural", é o convidado do Ilustríssima Conversa desta semana.
O livro reúne 35 artigos e reportagens publicados nos últimos 40 anos e testemunha a trajetória do autor na cobertura de temas relacionados ao campo. Blecher passou pela Redação de veículos como Globo Rural e O Estado de S. Paulo e editou o Agrofolha, suplemento agrícola da Folha, nos anos 1990.
Os textos da coletânea documentam como a agricultura brasileira se transformou profundamente nas últimas décadas, destacando, por exemplo, as inovações tecnológicas que abriram o cerrado para as grandes fazendas de soja e permitiram o aumento da produtividade agrícola do país.
Neste episódio, Blecher fala sobre o conservadorismo dos líderes do agronegócio brasileiro e sobre como o setor vem se posicionando frente às mudanças climáticas —seja avançando em práticas mais recomendadas do ponto de vista ambiental, seja se mantendo fiel a um modelo predatório de produção.
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O escritor Benjamin Moser diz que se mudar para um país desconhecido é como passar a viver em um mundo invertido. "No começo, você não sabe para onde olhar. Não sabe onde está nem o que está olhando. Não sabe nem por onde começar", ele escreve na introdução de "O Mundo de Ponta-cabeça", agora lançado no Brasil.
Quando tinha 25 anos, Moser deixou Nova York e foi morar na Holanda. Para lidar com a condição de estrangeiro, começou a olhar para a pintura da Idade de Ouro do país —percorrendo galerias e museus, se deparou com obras de Rembrandt, Vermeer e outros grandes pintores do século 17.
A curiosidade com esses artistas virou obsessão e, duas décadas depois, deu origem ao livro, que explora a vida e a obra de quase 20 deles, mas, sobretudo, a sua experiência de descobrir esses artistas e entender melhor o mundo invertido em que estava vivendo.
Neste episódio, o escritor fala sobre as circunstâncias históricas do período em que os pintores viveram e defende que é impossível separar a obra e a vida de um artista.
Moser, conhecido pelas biografias de Clarice Lispector e Susan Sontag, diz que tanto a trajetória das duas escritoras quanto a dos mestres holandeses lembra que nenhum artista sabe o destino que vai ter —um talento extraordinário não é suficiente para prosperar, e as chances de fracassar ou terminar a vida na miséria são enormes.
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Pouca gente já leu o texto da Convenção de Genebra, e a maior parte das pessoas provavelmente tropeçaria se precisasse explicar a diferença entre a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional.
No entanto, lembra João Paulo Charleaux, isso não é essencial para que quase todo o mundo entenda alguns princípios humanitários que devem ser respeitados nas guerras —por exemplo, que nada justifica atirar em inimigos rendidos, atacar ambulâncias e hospitais, matar uma população de fome ou torturar crianças.
Charleaux, autor do recém-lançado "As Regras da Guerra", analisa como essas normas evoluíram ao longo dos últimos séculos. Neste episódio, ele fala sobre alguns conflitos atuais, como a ofensiva militar de Israel em Gaza e o ataque de Trump ao Irã.
Para o autor, o Hamas cometeu uma longa lista de crimes de guerra no 7 de Outubro e Israel tem o direito de se defender. Contudo, em sua avaliação, o país vem ultrapassando de forma calculada os limites legais estabelecidos e isso deve ter um alto custo moral.
Ele diz considerar que Israel está cometendo crimes de guerra gravíssimos em Gaza e que o mandado de prisão do TPI contra Netanyahu é acertado.
Charleaux também discute os dilemas criados pelo uso cada vez mais frequente de drones e de ferramentas de inteligência artificial nas guerras e o papel que as Forças Armadas do Brasil devem ter em um cenário geopolítico mais extremo.
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No começo de "O Mundo Fora da Pedra", Rita Carelli narra as longas viagens de barco da sua infância rumo à aldeia dos enawenê-nawês, no noroeste do Mato Grosso. Ela se lembra, mais que tudo, das noites que passou no barraco do Vicente Cañas, às margens do rio Juruena.
O jesuíta espanhol chegou ao Brasil em 1966 e rumou para o estado. Era um tempo em que as missões da Igreja Católica na amazônia se transformavam: os religiosos mandados à região para converter os indígenas ao catolicismo e supostamente civilizá-los começaram a tentar entender os seus modos de vida e lutar para garantir os seus direitos.
Visto mais como riponga que como missionário, Vicente Cañas passou a viver entre os indígenas e, em abril de 1987, foi assassinado no seu barraco. O processo sobre o crime, cheio de falhas, só foi concluído em 2025, quando a Justiça determinou a prisão de um delegado aposentado condenado pelo homicídio.
Três décadas depois do assassinato, Carelli resolveu se dedicar a reconstituir essa história. Filha de uma antropóloga e de um cineasta envolvidos com a causa indígena, ela visitou os enawenê-nawês e outros povos desde criança e, hoje, o seu trabalho como escritora e diretora de cinema é perpassado por essas experiências.
Neste episódio, a autora fala sobre como construiu a narrativa de "O Mundo Fora da Pedra", que ela diz ser um livro estranho por combinar um mergulho em um inquérito policial de milhares de páginas, uma reflexão sobre a história do país e uma costura das suas próprias memórias.
Carelli explica algumas práticas rituais e outros aspectos da cultura exuberante dos enawenê-nawês e fala sobre como o mito de origem do grupo —sair de uma pedra ancestral em que todas as pessoas viviam juntas— ajuda a pensar o mundo de hoje.
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Em 1979, o maior jogador brasileiro de xadrez da história mal conseguia se mexer. Trancado no seu apartamento, Mequinho sentia muita fraqueza e tinha medo de morrer a qualquer momento.
O enxadrista teve que se afastar dos tabuleiros por causa da doença, que ele acreditava ser miastenia grave, e começou a frequentar um grupo de oração da Renovação Carismática Católica.
No auge dessa crise, Mequinho recebeu em casa uma das pioneiras no país das sessões de cura, que se impressionou com a suposta graça instantânea alcançada. O enxandrista retomou os movimentos e passou a dizer que tinha sido curado por Jesus —não totalmente, mas 99%.
Esse é um dos momentos de virada da vida de Mequinho, esquadrinhada por Uirá Machado, jornalista da Folha, na biografia recém-lançada "Entre Bispos e Reis".
O livro narra a infância do garoto prodígio no interior do Rio Grande do Sul, a glória nos anos 1960 e 1970 e o fervor religioso que marcou a vida do enxadrista a partir da década de 1980.
Convidado deste episódio, Uirá fala sobre a importância de Mequinho na história do esporte brasileiro e explica como o enxadrista trocou a obsessão pelos tabuleiros pela pregação religiosa —Mequinho passou a dizer nos últimos anos, por exemplo, que foi escolhido por Jesus como profeta do apocalipse.
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Vladimir Safatle, filósofo e professor da Universidade de São Paulo, está lançando o livro "A Ameaça Interna —Psicanálise dos Novos Fascismos Globais", pela editora Ubu.
No podcast Ilustríssima Conversa deste sábado (28), o autor argumenta que aquilo a que estamos assistindo na cena política contemporânea, com a emergência do populismo autoritário em diversos países, não é uma metáfora do fascismo ou uma regressão ao fascismo; é o próprio fascismo.
Safatle estabelece uma relação entre o que chama de fascismo global e as mentalidades e ideologias vigentes nas sociedades ditas neoliberais: o individualismo acirrado, a competição, a ideia de que alguém vai sempre perder. Ele prefere chamar esses regimes não de democracias, mas de fascismos restritos.
O professor ainda fala, no podcast, sobre a polêmica que se criou em torno de um artigo sobre as teorias decoloniais que publicou na revista piauí ("Estudos decoloniais e o grande FMI universitário").
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O ditado diz que a morte é a única certeza da vida —todo o mundo sabe, desde criança, que vai morrer, mas quase nada dá mais medo do que pensar no fim da vida.
Para falar sobre por que a gente precisa falar sobre a morte, o Ilustríssima Conversa recebe Camila Appel nesta semana. A jornalista é criadora do blog Morte sem Tabu, da Folha, e acabou de lançar "Enquanto Você Está Aqui", uma reflexão sobre vários aspectos do fim das nossas vidas endereçada à sua mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, 84.
Esta é a raiz do trabalho que Appel vem desenvolvendo desde 2014: disseminar a ideia de que a morte, por ser uma certeza para todos, precisa ser tratada com a maior naturalidade possível, tanto para podermos lidar melhor com o fim da vida de mães e pais, irmãs e irmãos, esposas e maridos, cachorros e gatos quanto para conseguirmos nos preparar para a nossa própria morte.
Esse assunto pode parecer sombrio, mas, como Appel lembra, olhar de frente para a nossa finitude é, antes de tudo, uma forma de pensar em como queremos viver.
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Em uma crônica, Manuel Bandeira escreve que a rua do Curvelo, onde morou de 1920 a 1933, "é uma ruazinha tranquila, e embora a dez minutos do centro da cidade parece um trecho de província".
A rua de uma quadra em Santa Teresa, no Rio, poderia ser um detalhe sem muita importância na biografia de Bandeira. No entanto, para Elvia Bezerra, pesquisadora de literatura brasileira, deve ser vista como um aspecto fundamental na sua formação e no seu destino de poeta modernista.
Bezerra diz que, imerso na atmosfera de província do Curvelo, um Manuel Bandeira recluso e tuberculoso redescobriu o encanto da rua —e esse universo de gente simples o arrancou do mundo fechado de poeta, se imbuiu nos seus versos e deu impulso a um dos períodos mais ricos da sua produção literária.
Nos anos em que Bandeira esteve lá, também moraram na rua, hoje chamada Dias de Barros, o poeta Ribeiro Couto e a psiquiatra Nise da Silveira, os três personagens a que a autora se debruça em "A Trinca do Curvelo".
Publicado pela primeira vez em 1995, o livro volta a circular em uma edição revista e ampliada, que incorpora fontes disponibilizadas nas últimas décadas, como a correspondência de autores modernistas.
Nesta entrevista, Bezerra explica como um encontro com Nise da Silveira se tornou o empurrão inicial do livro e conta o que descobriu ao investigar a vida e a obra de Manuel Bandeira, em especial as relações amorosas do poeta "ferozmente discreto", tema de dois ensaios inéditos incluídos na nova edição da obra.
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Condenado pelo STF e preso, Jair Bolsonaro vai ser capaz de emplacar um sucessor —e a direita vai conseguir ter um candidato competitivo nas eleições deste ano? Depois do ataque dos EUA à Venezuela, o que esperar de uma possível interferência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro?
No primeiro episódio de 2026 do Ilustríssima Conversa, o cientista político Leonardo Avritzer traça alguns cenários para a política brasileira nos próximos meses.
Para ele, a defesa da democracia nunca teve mais força na história do país, mas o regime democrático brasileiro continua em disputa —como sempre esteve nos últimos cem anos.
Esse é o fio condutor de "O Golpe Bateu na Trave", livro mais recente de Avritzer. Na obra, o pesquisador discute por que as ações de Bolsonaro nos últimos meses do seu mandato devem ser entendidas como parte de uma tentativa de golpe de Estado e aponta os motivos de a ruptura democrática não ter acontecido, destacando o papel da oposição, dos militares e do STF.
Nesta entrevista, o cientista político também aborda os valores antidemocráticos arraigados em uma grande parcela da sociedade brasileira, que explodiram no 8 de Janeiro.
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