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  • #169 – Depois que o fogo apaga – Parte 2

    Neste episódio do Oxigênio, continuação do programa #168, seguimos falando sobre o processo de recuperação de museus e acervos que pegaram fogo no Brasil. Exploramos as etapas necessárias para a reabertura, quem são as pessoas que participam desse processo e quais as reflexões que esse momento provoca. Ao longo do episódio, você escuta sobre três casos, que estão em estágios muito diferentes desse restauro: o laboratório da Unesp em Rio Claro, o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. A produção e apresentação são da Mayra Trinca, bióloga e mestanda em Divulgação Científica e Cultural. A edição é da Elisa Valderano, bolsista do Serviço de Apoio ao Estudante e do Octávio Augusto Fonseca, da Rádio Unicamp. 

    Roteiro

    MAYRA: Oi! Aqui é a Mayra Trinca, você deve ter me ouvido no último episódio, o número 168. Se não ouviu, recomendo ouvir antes de começar esse aqui, porque este episódio é continuação da conversa que começamos lá.

    Nós estamos falando sobre o que acontece depois que um museu pega fogo e tudo se perde. No primeiro episódio, tratamos dos impactos que essas tragédias causam na vida das pessoas que trabalham diariamente nesses espaços. Neste segundo episódio, vamos falar sobre quais os passos necessários para a reconstrução dos acervos e se é que faz sentido usar essa palavra: reconstrução. 

    Pra ilustrar esse processo, vamos conhecer como tem sido a realidade de três coleções, que estão em etapas diferentes de restauro. O Instituto de Biociências de Rio Claro sofreu com o incêndio há mais ou menos um ano, em setembro de 2022. Então por lá a reconstrução ainda está nos primeiros passos. 

    O Museu Nacional pegou fogo há 5 anos, em 2018 e já está numa fase mais avançada, tanto que a fachada do museu foi reinaugurada esse ano e você já pode visitá-la se passar pelo Rio de Janeiro. E por fim, o incêndio no Museu da Língua Portuguesa que aconteceu em 2015. Nesse caso, a reconstrução já acabou e o Museu tá aberto pra visitação desde 2021, quase seis anos após o incêndio. 

    [VINHETA]

    MAYRA: O primeiro impacto gerado pelo incêndio que atingiu os laboratórios da Unesp de Rio Claro foi a comoção. 

    EMYGDIO: No contexto de UNESP são mais de 40 anos de existência, não é? Então se você pensar em curso de graduação, em pós-graduação, passou uma infinidade de alunos que agora tão tanto aqui no Brasil, como fora daqui, alguns lecionando outros já até se aposentaram, um certo tanto já até faleceu, né? Então a gente começou a ter uma dimensão disso nos dias posteriores, que começou chover mensagem, comunicação de tudo quanto é lado, do jeito que você nem sabia que existia. Externando, né, esse carinho pela gente e volta e meia vinha um relato, né? Ah eu lembro das aulas de fulano, eu lembro de tal laboratório, eu lembro de um material assim assado, entendeu? 

    MAYRA: Deixa eu te reapresentar o Emygdio, que é técnico do laboratório de zoologia lá na Unesp de Rio Claro. No primeiro episódio ele contou como esse evento afetou a rotina de trabalho dele. E agora, ele vai contar um pouco mais de como tem sido esses primeiros meses pós-incêndio. 

    MAYRA: Pra mim, essa fala do Emygdio ajuda a dimensionar a relevância dessa coleção, não só pra pesquisa ou pra quem trabalhava com ela, mas na história da formação acadêmica e de vida mesmo de tanta gente que passou por lá. Quando aconteceu o incêndio, eu tinha uma amiga fazendo Biologia lá na Unesp, o mesmo curso que eu fiz, e uma das coisas que eu pensei foi que ela nunca teria a mesma experiência que eu tive. 

    EMYGDIO: A principal propagação dessa tragédia tá se processando agora, quando os alunos já voltaram é para suas atividades didáticas normais, inclusive no início de Março, já veio a primeira turma pós incêndio, né? E a primeira coisa que a gente tá sofrendo é que os alunos têm as aulas práticas, que faz parte da carga horária, do conteúdo curricular, e a gente simplesmente não tem material para estar mostrando pra esses alunos. 

    MAYRA: O Emygdio é o responsável pela organização e manutenção dos materiais das aulas práticas, ou seja, era ele quem cuidava do acervo que pegou fogo. Mas não dá pra esperar que agora ele seja o único responsável por fazer essa coleção voltar a existir. Esse é um processo de muitas etapas e que precisa da colaboração de muitas pessoas, da própria instituição e de outras. 

    MAYRA: Como o acervo do IB era principalmente didático, o problema urgente a ser resolvido é conseguir material suficiente para as aulas práticas. Só que esse não é um processo tão simples quanto parece. A primeira possibilidade – e a mais rápida – é via doação. Outras instituições de ensino e pesquisa podem compartilhar objetos que tenham a mais nas suas próprias coleções. 

    EMYGDIO: Então, as doações estão acontecendo de uma maneira lenta e bastante pontual, né? Porque como eu disse, a nossa coleção englobava desde protozoário até os vertebrados mais diversificados e daí o que acontece, nem toda instituição, nem toda pessoa que entra em contato, tem capacidade de fornecer esses materiais. Então uma pessoa consegue “ó, eu tenho uma meia dúzia de esqueleto aqui, eu posso te doar, eu tenho, sei lá, uma meia dúzia de concha”, então é na verdade um quebra-cabeça, né? Ou uma colcha de retalho que você tá tentando recompor e por enquanto o negócio tá muito esparso assim, a gente tem mais lacuna do que material em si, né? E por que que isso tá acontecendo? Porque isso depende literalmente da boa vontade dos outros, né? De alguém fornecer o material que já tem sem que se comprometa. Se comprometa assim, você tem que abrir mão de uma parte do seu acervo para mandar para a gente, né? 

    MAYRA: Mesmo que essas doações ajudem muito, elas não vão ser capazes de cobrir tudo que é necessário porque as instituições doadoras também não podem prejudicar os seus próprios acervos. 

    EMYGDIO: A gente tem que caminhar para um outro nível, que é o que a gente está caminhando agora, que é o da aquisição. E o que que é aquisição de material? A gente vai adquirir esses materiais da forma direta, ou seja comprando aquilo que se pode comprar, por exemplo lâminas prontas.

    MAYRA: Essas lâminas são materiais preparados para lupas e microscópios, normalmente de animais pequenos ou de estruturas específicas. Esse tipo de material é mais fácil de encontrar pra comprar. Seres maiores, como os animais taxidermizados, são bem mais difíceis de encontrar. Aí entram as coletas, que é sair pra campo e tentar encontrar esses animais. 

    EMYGDIO: Sejam coletas nossas, seja custear coleta de quem tem condição para trazer material para gente. Condição de que tipo? Como eu disse, né? São diferentes grupos animais. Então você precisa de especialistas nesses grupos para coletar material.

    MAYRA: Imagina que cada grupo de animal tem hábitos de vida completamente diferentes, coletar uma borboleta é muito diferente de coletar uma água viva. E essas coletas não podem ser feitas de qualquer jeito, existe uma série de regras e controles dos órgãos ambientais, justamente para que as pessoas não possam sair por aí matando animais sem mais nem menos. 

    A Thamara é professora do departamento de entomologia do Museu Nacional e conhece bem esse processo de coleta de materiais. Ela trabalha com a ordem Lepidoptera, que é o nome do grupo de insetos das borboletas e mariposas. No episódio anterior, ela contou pra gente como sempre foi o sonho da vida dela trabalhar com essa coleção do Museu Nacional. 

    THAMARA: Era uma das maiores coleções da América Latina, né? Tinha cerca de 186 mil exemplares 

    MAYRA: Em 2018, ela prestou o concurso pra trabalhar como curadora dessa coleção, só que o incêndio aconteceu bem no intervalo entre ela prestar o concurso e ser contratada. E isso mudou completamente a perspectiva de trabalho que ela tinha. 

    THAMARA: No momento que eu prestei o concurso a visão que eu tinha do Museu Nacional era “nossa, se eu passo nesse concurso eu vou trabalhar na maior coleção de borboletas e mariposas, né?” 

    Mas aí nesse segundo momento, já depois do incêndio, a minha motivação foi outra. Era mais como se fosse uma missão de vida. Agora eu quero ajudar a reconstruir. E tentar contribuir de alguma maneira, para que outras pessoas também possam trabalhar com esse material, assim como ele foi importante para mim, né? Que outras futuras estudantes, futuros pesquisadores possam daqui a cinco, dez anos acessar o material.

    MAYRA: Mas, como eu disse, não dá pra sair por aí caçando borboleta de qualquer jeito e em qualquer lugar. Então, antes de iniciar esse processo, os curadores do Museu Nacional também acionaram outras instituições de pesquisa. Diferente do caso do Instituto de Biociências, eles não estavam pedindo doações, mas estavam atrás de itens do próprio Museu que tivessem sido emprestados no passado. 

    THAMARA:  Porque ali são os remanescentes ainda da coleção antiga, então todos nós como curadores, cada um do seu grupo, né? Fez esse eh e continua fazendo esse contato com outras instituições tanto nacionais quanto internacionais para verificar o que que tem de material do Museu Nacional e que a gente possa então trazer esse material de volta, já que é agora a gente já tem um espaço para receber esse material.

    MAYRA: Isso é algo relativamente comum, às vezes é mais fácil um objeto ir até um grupo de pesquisa do que uma pessoa de outra instituição ir até o Rio e ficar semanas ou meses lá, estudando o tal objeto. Mas isso também tem que ser feito seguindo uma série de regras, e graças a elas, a equipe do Museu conseguiu rastrear esses itens que faziam parte da coleção original. 

    THAMARA: Esses pesquisadores eles têm me procurado falando que tem um material e querem devolver. Isso vai ser muito importante para esse esse novo começo, né da coleção. 

    MAYRA: Mas, assim como o Emygdio falou, esse movimento não é suficiente pra repor todos os exemplares que existiam antes. 

    THAMARA: A gente tem que ir a Campo de novo coletar esses materiais 

    MAYRA: E mais uma vez, esse não é um processo tão simple, porque

    THAMARA: Muitas das áreas que foram coletadas, amostradas no passado, hoje já não existe foram convertidas em áreas de pasto, né de agricultura e não existe. 

    MAYRA: Esse é um dos motivos que faz a Thamara dizer que a palavra “reconstrução” não é muito adequada pra representar esse momento. Porque reconstruir dá a ideia de refazer, de que seria possível recriar exatamente a mesma coleção que existia no museu antes dele pegar fogo. 

    MAYRA: Só que isso é impossível, não só porque algumas áreas ou mesmo espécies nem existem mais, mas porque um museu se constrói ao longo de anos, às vezes centenas deles. É humanamente impossível levantar um acervo do tamanho e qualidade que existia no Museu Nacional, resultado de séculos de coletas e registros. Lembramos, você, ouvinte, que o Museu Nacional foi criado em 1818, ou seja, há mais de 200 anos!

    THAMARA: Então se a gente for pensar nesse novo acervo, aí eu vou focar apenas nas borboletas e mariposas, né? Antes eram 186 mil exemplares, agora em dois anos que eu entrei foi final de 2020. Então eu comecei a fazer essas expedições em 2021, até agora a gente já tem mais de 12 mil exemplares, né?

    MAYRA: O que pode até parecer pouco, mas considerando todo o trabalho envolvido, é um número gigante! 

    THAMARA:  Às vezes não fica muito claro como esse processo, né? De de como o material chega na coleção. A gente vê as gavetas com material preparado e não tem ideia do trabalho, né? Cada borboleta alguém teve que correr atrás com aquela rede parecendo o Bob Esponja. Então já envolve um exercício físico para coletar cada uma delas e depois que coleta você tem que preparar para aquelas asas ficarem esticadas, tem produtos específicos para conservar, tem uma rotina diária de curadoria para que fique preservado esse material. Depois temos a identificação, então assim é uma cadeia que uma única pessoa não consegue fazer.  

    MAYRA: Depois de toda essa conversa, eu fiz uma última pergunta pra Thamara, que foi a seguinte: 

    E aí o que eu fico curiosa é pra pensar assim, porque quando o museu ele já está estabelecido ele meio que já tem uma história contada, né? As peças elas estão distribuídas ali de uma forma que contam uma história que já foi dada. E aí esse momento de refazer o acervo de refazer o museu eu fico pensando que é um momento para repensar como contar essas histórias e eu queria saber se vocês estão pensando sobre isso, como é que tá essa ideia do tipo a gente vai tentar eh fazer exposição mais parecido com o que ela era antes ou assim como você falou a gente tá pensando num novo acervo numa nova exposição e a gente quer contar uma nova história a partir de agora? 

    THAMARA: Com episódio do incêndio ele acabou dando uma oportunidade de de repensar, né? Tem se formado grupos de trabalhos e comissões para tentar atualizar e buscar formas é mais atuais da gente apresentar por exemplo uma exposição é eu não sei te responder ainda o que vai ser porque tem um debate é interno ainda. Alguns são favoráveis a ter uma exposição exatamente como era antes outros nem tanto eu acho que vai para essa direção do nem tanto, né, mas tendo um espaço, talvez de memória do que foi.

    MAYRA: O nosso terceiro caso, do Museu da Língua Portuguesa, passou por um dilema muito parecido. O Museu pegou fogo em dezembro de 2015. 

    MARÍLIA: Acho que a primeira grande questão e é um diferencial triste aí da tragédia com o Museu da Língua Portuguesa é que a gente teve uma perda humana, né? Então a gente teve uma vítima que foi o bombeiro Ronaldo que fez a evacuação, né? A partir do plano ali eh de incêndio, ele conseguiu evacuar a equipe inteira foi uma sorte que o incêndio aconteceu numa segunda-feira um dia fechado para visitação, mas aí ele retornou para ver se podia fazer mais alguma coisa dentro do do dano que já tava acontecendo e não conseguiu sair. Esse, infelizmente, é um diferencial trágico do museu.

    MAYRA: Por sorte, nem o laboratório da Unesp, nem o Museu Nacional tiveram perdas humanas, diferente do Museu da Língua Portuguesa. Já em relação à estrutura física dos espaços, o menos impactado foi o laboratório da Unesp. Os prédios que abrigavam os dois museus foram muito danificados pelo fogo.

    MARÍLIA: E aí a outra questão também no caso do Museu da Língua que é o dano patrimonial do edifício da estação da Luz, né? Então é um edifício tombado pelo Patrimônio Histórico, uma estação que é uma das estações até hoje das mais movimentadas, né? Ela é um hub de muitas estações de trem e metrô em São Paulo e então teve uma uma perda bem expressiva, aí de uma parte da construção né? 

    MAYRA: Antes de continuar, deixa eu te apresentar essa nova voz. 

    MARÍLIA: Eu sou a Marília Bonas, sou diretora técnica do IDBrasil, que é a organização social gestora do Museu da Língua Portuguesa e do Museu do Futebol, e trabalho há quase três anos no Museu da Língua. Eh, sou historiadora e museóloga de formação, mas trabalho há mais de 20 anos na frente de gestão de instituições culturais, em especial museus.

    MAYRA: A Marília começou a trabalhar no Museu da Língua algum tempo após o incêndio, então ela participou mais ativamente das últimas etapas do restauro e da inauguração, que aconteceu durante a pandemia de COVID-19, em 2021. 

    Mas antes de chegar nas etapas necessárias pra essa reabertura, a Marília já começou a nossa conversa destacando aquilo que a Thamara nos falou. 

    MARÍLIA:  A gente não tinha acervo material, né? Então a gente não tinha objetos museológicos que são por natureza insubstituíveis, né? Então é sempre um debate assim. Ah, vai reconstruir museus que tem um acervo museológico, você vai de fato fazer um novo museu, né? Porque esse acervo ele não volta você pode ter objetos congêneres. Você pode ter coleções que são similares, né? Mas aquele objeto mesmo que se perdeu não tem volta. E é diferente do objeto nato digital, porque aí, se você tem um backup, o objeto existe.

    MAYRA: Esse é o caso do Museu da Língua, os objetos dele já nascem digitais, na forma de produções audiovisuais multimídias. Isso significa que o acervo não foi perdido, já que haviam cópias de todas as obras, que hoje estão expostas novamente. Mas a parte interessante é que, mesmo com essa possibilidade de refazer o museu igualzinho como era antes, esse não foi o caminho escolhido. 

    Mas eu tô me precipitando na conversa, tem muita coisa pra acontecer antes desse ponto. 

    MARÍLIA: O Museu da Língua ele levou cinco anos, né para ser reconstruído. acho que a primeira etapa foi de fato a etapa de articulação política para conseguir o recurso pra recuperação da edificação e não só recuperação da edificação, mas também já a criação eh de uma série de sistemas de prevenção a incêndio que em geral não existem em em edifícios tombados, né? 

    MAYRA: Eu vou abrir um parênteses importante aqui. Os objetos museológicos são extremamente sensíveis ao fogo. No caso do laboratório da Unesp, por exemplo, eu lembro de ter muitos materiais conservados em álcool, que eu não preciso nem dizer que é algo super inflamável. Foi algo que a Thamara também comentou, no caso do Museu Nacional, a voz dela aqui de novo. 

    THAMARA: Então assim quem tá no meio acadêmico já tem uma percepção, né? Sabe até mesmo da questão da fragilidade do material, né? Mas isso às vezes não fica muito claro, então é um material muito frágil e que na condição do incêndio que destruiu o palácio, obviamente não vai sobrar nada desse material, né? 

    MAYRA: Mas mesmo com essa visão muito clara da fragilidade desses materiais, a instalação de sistemas de combate ao fogo não é um consenso. Como a Marília confirma.

    MARÍLIA: Por muito tempo também foi debatida na área de museus do tipo; “Ah, mas a água também é um dano pro acervo, né”? Mas entre água e você tem acervo molhado e acervo que arde e que você não recupera, da água você consegue recuperar.

    MAYRA: Tanto o Museu da Língua quanto o Museu Nacional agora possuem sistemas de combate a incêndio nas novas instalações. Isso decidido, fechamos o parênteses e continuamos.

    Como a Marília estava dizendo, o primeiro passo foi a captação de recursos. Reconstruir os museus demanda dinheiro, e não é pouco. 

    MARÍLIA: Foi firmado um convênio entre a Secretaria de Cultura do Estado e a Fundação Roberto Marinho que foi a criadora do Museu da Língua Portuguesa e a organização social gestora que é o IDBrasil. Então foi firmado um convênio para essa reconstrução, um convênio inclusive que teve como objetivo principal estimular o apoio privado, pra captação privada, né dessa reconstrução.

    MAYRA: Beleza, recursos destinados, é hora de se debruçar diante das obras e exposições pra pensar o que continua fazendo sentido e o que precisa ser revisitado e repensado. 

    MARÍLIA: E aí cada uma dessas frentes também articulou uma série de revisões e releituras, a fundação Roberto Marinho ficou com a parte de reunir tudo que havia sobre o projeto original, convidou os curadores originais do projeto pra olhar, né, rever esse conteúdo e entender o que, depois da abertura ali dentro desse contexto  entre 2015 e 2020 o que tinha mudado de lugar, que outras camadas de debate tinham que aparecer nessa exposição, né? Então muito conteúdo novo foi produzido.Claro que o museu ele tem uma permanência do projeto original tanto expográfica, de ocupação, mas tem muitos .

    MAYRA: Eu acho muito legal a forma como o Museu da Língua abraçou essa oportunidade de repensar a proposta das exposições, porque pra mim, esse é um ótimo exemplo de como os museus também são feitos de presente. As mudanças só aconteceram porque os curadores perceberam que há outros debates sobre Língua acontecendo hoje, que eles são relevantes e que precisam aparecer também. 

    Mas essa é uma mudança que deve ser feita de forma muito atenta e cuidadosa, porque, como a Marília estava me contando, existe também um desejo da pessoa ao visitar esses espaços que, muitas vezes, é o desejo de encontrar algo familiar. 

    MARÍLIA: Muitas vezes ela tem uma expectativa de reiteração do próprio conhecimento no museu, o museu é quase um lugar onde aquele conhecimento que ela tem tá ali materializado de alguma maneira. Então quando você vai falar olha, mas vamos vamos pensar criticamente sobre esse conhecimento você tem que fazer com muita generosidade, né? 

    Falo até por experiência própria. Minha mãe é professora de português do Estado, vai fazer 80 anos esse ano. E aí ela num primeiro momento ficava muito reativa a todos esses debates. E aí quando ela foi no museu eu percebi que ela encontrava aquilo que ela esperava na exposição, mas que aí ela navegava numa telinha alguém que tinha um ponto de vista que problematizava um pouco ali sem virar um meta-museu sem virar um museu que problematiza só o tema, né? Então nem o Museu fala é uma única maneira de contar a história da Língua Portuguesa ou tudo que você aprendeu tava errado. É olha isso foi encontrado desse jeito porque foi contado por essas pessoas. Hoje, a gente tem múltiplas vozes e a gente convidou elas também para contar. Então é muito interessante, é muito desafiador nesse sentido.

    MAYRA: Eu perguntei pra Marília quais foram as principais mudanças que fizeram na exposição do Museu a partir desses debates. E, ainda que apareça alguma coisa sobre gênero neutro, as principais mudanças aconteceram do ponto de vista da decolonialidade. 

    MARÍLIA: Esse impacto do debate da decolonização no museu é bem interessante. Eh, então a gente tem essas vozes, não só do Krenak, não só quando a gente tá falando de populações indígenas, mas também quando a gente tá falando de escravizados, né a língua portuguesa falada no Brasil, não é o português de Portugal exatamente pela interferência das línguas originárias e das línguas africanas. Eu acho que isso passa a ter um destaque maior na reabertura.

    MAYRA: Algumas coisas também deixaram de ser foco das exposições. A Marília me disse que não teve nada que sumiu, mas que alguns temas deixaram de ter espaços formais pra serem inseridos como parte de um contexto maior. 

    MARÍLIA: Não tem mais aquela né, aquela parte que falava dos estilos literários. Ah, o simbolismo, o romantismo né? A literatura tá muito mais falada, a gente tem muito mais vozes trazendo a literatura, mas essa parte que é mais acadêmica digamos ela não não tá mais e e a gente trabalha isso em outros espaços educativos.  

    MAYRA: E a Marília ainda destacou um outro ponto importante desse repensar a exposição do Museu, que é um convite de retorno. 

    MARÍLIA: As pessoas que já visitaram ficam confortáveis de que elas chegam no lugar e elas reconhecem. Então elas reconhecem em termos espaciais em termos curatoriais e que elas reconhecem as novidades. Então é muito legal porque quem tinha uma expectativa de que “ai eu vim e tal antes do incêndio 10 anos atrás” e aí falar “mas não tinha esses vídeos, esse jogo era de outra coisa agora tá mais legal”, né? Então tem essa coisa da continuidade. O que é importante porque os museus são instituições que se constituem nessa longa duração, tem essa coisa da descoberta. Isso é bem legal assim e aí faz com que as pessoas voltem porque elas querem descobrir mais do tipo “Ah, isso não é exatamente assim, não. Quero voltar para ver com mais calma”.

    MAYRA: E esse convite parece estar sendo um sucesso. A Marília contou que aos sábados a visita ao Museu da Língua é gratuita e que eles têm batido recordes de visitação, chegando a ter quatro mil visitantes em um dia. 

    Essa também é uma informação super importante porque mostra que há interesse e há procura das pessoas por esses espaços de divulgação de conhecimento. Por isso a reconstrução e reorganização dessas coleções é tão importante, especialmente depois de tragédias previsíveis como foram esses incêndios. É uma forma de resistência, de mostrar que, apesar do descaso com que essas instituições são tratadas, elas permanecem e são capazes de atrair muitas pessoas. 

    Os três casos que falamos nesses episódios poderiam ter sido evitados se houvesse mais empenho em cuidar desses espaços. Por exemplo, o incêndio do laboratório 19, na Unesp, aconteceu por uma pane elétrica. Só que há anos havia pedidos de revisão e restauro do sistema elétrico do prédio, o que, até agora, não aconteceu. Quando eu estava na graduação, eu lembro de conversar com alguns amigos sobre a possibilidade do prédio pegar fogo, justamente por saber da necessidade desses reparos. A gente só nunca imaginou quão real era essa possibilidade. O Emygdio, técnico lá da Unesp falou muito sobre isso na nossa entrevista. 

    EMYGDIO: A gente tá falando de um prédio que tinha mais de 40 anos de uso ininterrupto e as reformas que ele tinha passado eram reformas pontuais. Reformava-se um laboratório, reformava-se um cômodo,reformava-se uma sala. Nunca houve uma reforma completa do prédio, seja da parte elétrica seja da parte hidráulica. Mais de 40 anos de um semi-abandono, né? Ou vou colocar melhor ainda num abandono sistemático, não é? 

    MAYRA: Eu gostaria que esses casos servissem de exemplo pra que as tragédias evitáveis fossem realmente evitadas. Mas isso só o futuro pode dizer. 

    Esse episódio foi produzido e apresentado por mim, Mayra Trinca. A revisão é da Simone Pallone, coordenadora do Oxigênio. Os trabalhos técnicos são da Elisa Valderano Santos. O Oxigênio é apoiado pela Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. A trilha sonora é do Freesound e do Blue Dots Sessions.

    Você encontra todos os episódios no site oxigenio.comciencia.br e na sua plataforma preferida. No Instagram e no Facebook você nos encontra como Oxigênio Podcast. Segue lá pra não perder nenhum episódio! E comenta o que você achou desse episódio duplo. 

    27 min
  • Meu divã interior (episódio 9)

    Este é o último episódio do romance radiofônico Meu divã interior e nesta despedida, nosso protagonista da série, o Fabiano, tenta esclarecer uma questão que ronda sua mente: a primeira é como ter o controle sem recorrer a uma fuga da realidade? E pensa que da necessidade de se libertar, há de se encontrar um equilíbrio.

    Meu divã interior é um projeto de extensão PROEC (Pró-Reitoria de Extensão e Cultura) que foi realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020 e que chega ao fim neste nono episódio.  

    Roteiro

    Alice: Vamos falar sobre essa questão do controle, Fabiano.

    Fabiano: Sabe o que eu acho, Alice? Eu acho… Não sei, tenho a impressão que…

    Alice: Fabiano, respira e tenta organizar o que você quer dizer.

    Fabiano: Uma vez, quando eu contei pra um amigo que eu tava mal por causa de uma briga com minha ex-mulher, ele falou: “Toma um porre!”. Parece que é isso: ao invés de tentar melhorar a realidade quando ela tá ruim, as pessoas procuram uma fuga da realidade. Algumas com o álcool, outras com drogas mais pesadas.

    Alice: E você não quer que uma substância psicotrópica tire de você o controle de si mesmo – observou Alice.

    Fabiano: Holmes, um dos heróis da minha infância, usava cocaína. O pai da psicanálise também usava cocaína.

    Alice: Mas nem sempre é assim, Fabiano.

    Fabiano: Sim, eu sei que outras pessoas buscam fuga com coisas mais saudáveis, como alpinismo, paraquedas, bangee jump ou com esportes mais radicais, que dão mais adrenalina. Ou com um livro, um filme, uma série. Mas parece que é preciso sempre fugir da realidade.

    Alice: Não é só uma questão de fuga, Fabiano. Envolve também libertação. É ótimo que você seja uma pessoa que controle bem o seu tempo, para desempenhar suas atividades, que organize suas coisas metodicamente, tanto na sua casa quanto no trabalho, e até mesmo que segure seus impulsos pra não xingar alguém no trânsito. Mas você não é só isso. Tem um outro Fabiano dentro de você pedindo para ser libertado e alçar vôo.

    Pensamentos de Fabiano: Incrível essa Alice! Eu não me lembro de ter contado a ela algum dia os meus sonhos em que sabia voar. Mas a relação entre o que ela está dizendo e aqueles sonhos que eu tinha parece evidente!

    Alice: Você precisa tentar um equilíbrio entre a responsabilidade e o compromisso social e o sonho. O sono interrompido é um sintoma de uma outra interrupção mais importante em sua vida.

    Pensamentos de Fabiano: Alguns diriam o mesmo que Alice de outra forma: eu precisava encontrar o equilíbrio entre o meu yin e meu yang, entre meu lado masculino e meu lado feminino. 

    Outros iriam além: um equilíbrio entre o meu elemento ar, que silencia, foca e decide, meu elemento terra, que conecta, constrói e entrega, meu elemento fogo, que cativa, queima e transmuta, e meu elemento água, que chora, limpa e flui. Pela segunda vez, senti meus olhos umedecerem diante de Alice.

    Fabiano: É isso! – falei, em uma mistura de lágrimas com sorriso. 

    Eu tenho que reaprender a voar! Obrigado, Alice.

     

    Epílogo

    Já são mais de três meses em confinamento. E Fabiano não consegue mais ir além das manchetes do noticiário. Como aquelas pessoas que antigamente paravam diante de uma banca de jornal e usufruíam da gratuidade da leitura das primeiras páginas em exposição. O pior, para ele, era que milhões lá e aqui escolheram ser liderados pela bestialidade. Em certas horas, Fabiano chega a acreditar que já não se sente brasileiro e nem cidadão do mundo. 

    Essa momentânea falta de fé o levava, invariavelmente, a evitar as redes sociais em que imperava o ódio ao anticristo tupiniquim. Por isso, acessava mais o Instagram. Fabiano cometeu a imprudência de procurar no Google os significados para corações verdes, azuis, rosas, solitários ou em duplas.

    Ele sabia que não podia fingir a si mesmo ser uma ilha por muito tempo. Então, volta e meia, criava coragem para ver se encontrava algo de bom no meio do mar de fúria da outra rede social. Quando dava a sorte de se deparar com uma das crônicas da Ana Salvagni, era sempre uma delícia! Para sua surpresa, outra amiga aproveitou os tempos de confinamento para também compartilhar crônicas suas por ali. Fabiano leu com gosto uma delas. Um tanto elitista, na sua avaliação, mas muito honesta e sincera.

    Com as consequências da pandemia e do isolamento social, muita gente estava recorrendo a ajuda por videoconferência. Mas a ideia que ocorreu a Fabiano foi outra. Pensou em simular sessões de terapia em uma história fictícia. Chegou a pensar em uma peça de teatro. O cenário inicial seria um consultório. Os personagens, a terapeuta e seu paciente. No decorrer da cena inicial, a iluminação geral diminuiria aos poucos, ficando apenas um foco de luz no paciente. Sua voz seria ouvida em uma gravação. “Será que esse seria um recurso muito batido pra diferenciar entre ele falando com a terapeuta e ele pensando consigo mesmo?”, indagou-se Fabiano. Não importa. Vou primeiro tentar esboçar alguma coisa. Depois eu vejo o que faço com isso.”

    FIM

    Você acabou de escutar o último episódio de “Meu divã interior”, um romance radiofônico que é um Projeto de Extensão PROEC (Pró Reitoria de Extensão e Cultura) realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. 

    Esse projeto consistia na adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado; ou seja, para um formato de áudio, que acabou virando este romance radiofônico. 

    Contado em série, com nove episódios, foi postado semanalmente ao longo desse semestre que se encerra agora.

    Obrigado por quem nos acompanhou. Ficamos por aqui. 

    Ficha técnica:

    Adaptação de roteiro, Direção e Produção:

    • Antero Vilela e Helena Chiste 
    • Atrizes / Atores e participações especiais, (por ordem de aparição):

      • Helena Chiste, como Alice
      • Antero Vilela, como Fabiano 
      • Narradores

        • Helena Chiste
          • Antero Vilela
            • Rodrigo Bastos

            • Trilha sonora original:

              • Antero Vilela

              • Edição, mixagem e finalização de áudio: 

                • Vitor Muricy
                • Apoio:

                  • LABJOR, Podcast Oxigênio do LABJOR e Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp 
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                    9 min
                  • Meu divã interior (episódio 8)

                    A insônia continua e a última esperança de Fabiano está na psiquiatria. Será que finalmente essa nova profissional poderá resolver o seu problema? Ou talvez o remédio que ele precise seja outro, ou alguém….

                    Este é o 8o episódio de Meu divã interior, um romance radiofônico, que é um projeto de extensão apoiado pela Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PROEC), e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. 

                    Roteiro

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: A médica indicada pelo barbudo afeminado lacaniano, além de psicanalista, era psiquiatra. Não sabia exatamente o que isso significava tecnicamente, mas imaginava que haveria, por um lado, uma terapia analítica tradicional e, por outro, a possibilidade de tratamento medicamentoso. Havia um divã no consultório dela. Não sei por que eu nunca tive coragem de perguntar se podia me deitar nele. Sempre me sentava na poltrona de frente para ela. Se me deitasse no divã, teria torcicolo caso quisesse ver minha interlocutora. Vi em um filme que o divã pode ser usado justamente em determinadas circunstâncias em que o objetivo é que paciente e analista não se vejam e apenas escutem a voz um do outro. Eu queria experimentar qual é a sensação de conversar com um analista deitado em um divã. Mas nunca tive coragem de pedir isso a ela. Era uma senhora. Não idosa, mas mais velha do que eu, com uma visão moderna. De vez em quando, ela fechava os olhos e eu ficava pensando se era uma tática de concentração, se estava refletindo sobre o que eu dizia ou se era um momento de descanso das lamúrias alheias que ela se permitia. Às vezes fazia umas ponderações sobre coisas que eu falava, reforçando, com argumentos próprios, que as coisas que me incomodavam eram, de fato, terríveis e que, diante de tudo aquilo, estranho seria se eu estivesse bem. Será que faz parte da estratégia de uma terapia dizer aquele tipo de coisa para o paciente? Sempre achei que um psicanalista iria futucar as profundezas da nossa alma, soltando todos os nossos fantasmas, em uma espécie de exorcismo. Não os fantasmas reais do dia a dia, que assombram a nossa vida, aqueles que a nossa consciência é capaz de perceber e somos capazes de relatar, seja para um analista ou para amigos em uma conversa de bar. Eu imaginava que a análise ia me fazer ter acesso aos fantasmas que me habitam, os que não apenas estão em mim, mas também me definem e fazem parte do que eu sou e de como eu ajo no mundo. Sobre a questão dos relacionamentos, depois de relatar algumas tentativas frustradas, eu disse a ela:

                    FABIANO: Acho que as mulheres, por mais que estejam interessadas em alguém, não chegam a se envolver pra valer antes que aconteça um beijo.

                    PSIQUIATRA: Pode ser.

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: foi apenas o que comentou. Achei que ela poderia ter sido menos vaga. Ela é mulher. Mas quem disse que as mulheres querem revelar aos homens o seu mistério? Uma hipótese que essa psicanalista levantou sobre o problema do sono é que ele poderia estar relacionado ao luto. 

                    FABIANO: A última perda importante que eu tive foi da minha mãe. Mas isso já tem muito tempo. E eu acho que consegui tocar a minha vida. Claro que sinto a falta dela, mas não fico pensando nisso o tempo todo. O luto pode durar tanto tempo assim?

                    PSIQUIATRA: O luto não necessariamente está ligado à morte. Pode ser outro tipo de perda significativa em sua vida.

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: Freud entende o luto como um fenômeno natural da mente humana em reação à perda não só de um ente querido, mas de coisas que tenham proporções importantes para o enlutado. Segundo ele, trata-se de um processo consciente, pois no luto, a pessoa tem a noção exata daquilo que perdeu. – (fala junto com a psiquiatra) 

                    FABIANO: O casamento também se desfez há muito tempo. Será que eu não superei isso até hoje?

                    PSIQUIATRA: Pode ser que você sinta muito a falta não daquela companheira, especificamente, mas de ter alguém do seu lado no dia a dia.

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: De acordo com Freud, além de ser um processo lento e doloroso, uma das características do luto é a incapacidade de substituição do amor antigo por um novo amor. – (Fala junto com a psiquiatra)

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                    PENSAMENTOS DE FABIANO: Em uma das sessões de análise, reparei em um broche numa bolsa da psicanalista, em que se via #EleNão. Aproveitei o tema do meu cansaço físico decorrente das noites mal dormidas e falei a ela também do meu cansaço moral em relação a certas coisas. Eu já estava farto do clima político no Brasil e cogitava me mudar para outro país. Mas não queria ser garçom ou faxineiro no primeiro mundo. Não tinha ideia de que tipo de trabalho poderia ter fora daqui. E também não era mais um jovem para viver uma aventura, tinha que pensar em meu filho. Outro cansaço que manifestei a ela foi em relação ao mundo acadêmico no qual eu tinha me metido não por escolha própria, mas por força das circunstâncias. Eu me sentia um peixe fora d’água e achava que era preciso buscar algo mais apaixonante para mim, que me estimulasse e me desse prazer em realizar. 

                    FABIANO: Além disso, eu sempre fiz escolhas que iam na direção contrária das escolhas da maioria das pessoas. (pausa) Eu não queria estudar os temas que a maioria das pessoas já estudavam. Não queria aderir às correntes teóricas mais aceitas. E chega uma hora que cansa nadar contra a corrente!

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: Também mencionei alguns conflitos que tive no ambiente de trabalho. Muito provavelmente as pessoas com quem tive os desentendimentos devem considerar esses episódios uma coisa normal, corriqueira, e não devem ter se abalado tanto quanto eu. Não sei se era trauma do casamento, mas eu não queria mais brigar com ninguém, não queria ser maltratado por ninguém. Nem correr o risco de virar o monstro que viro quando alguém me maltrata ou é injusto comigo. Mas eu não expunha com clareza esse sofrimento. (pausa) Nada é só bom ou ruim. Mas se alguma coisa, seja um relacionamento, seja o clima político do país, o trabalho, está mais ruim do que boa, a gente tem que tentar fazer alguma coisa para mudar. (pausa) Às vezes, antes da sessão de análise, eu olhava para o alto do prédio onde fica o consultório da psicanalista e imaginava se seria possível ter acesso ao terraço, no ponto mais alto. E logo em seguida, lembrava dos meus gatos e do meu filho. Eles precisavam de mim. (pausa) Nunca mencionei isso a ela. Foram muitas sessões de análise até a médica decidir que eu necessitava mesmo tomar medicação para não comprometer as atividades cotidianas, porque o cansaço era grande. Ela tentou diferentes tipos de antidepressivos, embora dissesse que meu quadro não era de depressão. Demoramos um tempo para encontrar os que tinham melhor efeito na qualidade do meu sono e, sobretudo, na minha disposição no dia seguinte. (pausa) No capítulo V da Classificação Internacional de Doenças, dedicado a transtornos mentais e de comportamento, a depressão aparece mais como um sintoma de doenças como transtorno bipolar ou esquizofrenia do que como uma doença em si. Posso dizer, mesmo sendo leigo,  que tinha parte dos sintomas da esquizofrenia: diminuição da interação social, da expressão de emoções e falta de motivação. Porém, sintomas mais significativos, como delírios ou alucinações auditivas, eu não tinha. Ninguém nunca relatou algum delírio meu. No caso específico da depressão, ela é descrita como um distúrbio mental que pode ser acompanhado por perda de interesse em atividades e pouca energia, o que pode afetar muito as relações familiares, o trabalho e o sono, entre outras coisas. Sei que o ovo nasceu primeiro que a galinha, mas o que teria surgido primeiro, o problema do sono ou os sintomas da depressão, mesmo que meu quadro não fosse depressivo? Eu não tinha dúvida que minha falta de energia vinha das noites mal dormidas. E com ela, diminuía também minha disposição e piorava o meu humor, o que inevitavelmente afeta as relações e o trabalho. O fato é que a medicação teve seu efeito positivo. Se não tinha propriamente o sono dos justos, ao menos sentia mais energia e disposição durante o dia. 

                    <><><>

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: Com a aparente melhora do meu quadro, as sessões de análise foram ficando mais espaçadas. Tanto que a psicanalista achou minha vida bastante movimentada quando contei de um caso – um reencontro. Coincidiu de sair, mais ou menos ao mesmo tempo, a publicação de um livro meu e o de uma amiga minha do tempo da graduação, a Helena. Combinamos um encontro para um dar seu livro ao outro. Ela sugeriu um restaurante vegetariano, mas mudou de ideia e propôs irmos a um lugar onde pudéssemos beber alguma coisa. Eu não sou muito de beber. E ainda tinha que me preocupar com o efeito da mistura da bebida com a medicação que estava tomando. 

                    (sons de pub/bar)

                    Mas Helena estava tão disposta a encher a cara naquele dia, que resolvi chutar o balde e acompanhá-la. Quanto palavrão surgiu na boca dela embriagada que é tão doce nas redes sociais! A conversa foi muito animada.

                    HELENA: Porra! E quanto tempo faz que não nos vemos? Tempo pra caralho!!

                    FABIANO: Desde a faculdade…

                    HELENA: Vamos fazer um brinde!

                    (brindam)

                    Esperei ela fumar uma cigarrilha e então, quando voltou, eu disse que queria fazer uma coisa que tive vontade de fazer durante toda a graduação, mas não fiz.

                    HELENA: (ri) O que?

                    Beijei-a.

                    Eu não fui apaixonado por ela no tempo da faculdade, mas sempre quis beijar ela. Um mistério que não sei explicar. 

                    Helena estava tão bêbada que nem se lembrava direito onde tinha deixado o carro; eu disse que a levaria para casa, eu não podia deixá-la sozinha naquele estado. Apesar da embriaguez, Helena foi capaz de me orientar até seu condomínio e indicar em qual vaga eu deveria estacionar. Ela colocou um colchão na sala e transamos loucamente. Achei que o fogo dela ia passar aos poucos, mas estava enganado. Helena queria sair de novo para dançar. Eu falei que não estava com tanta disposição como ela. Quando nos despedimos, pedi a ela que se cuidasse. No dia seguinte, Helena me contou que bateu o carro. Não se machucou, mas causou estrago. Não nos vimos mais. Acho que ela se envergonha de sua face oculta que me revelou naquele dia. Ou teve amnésia alcoólica e nada do que aconteceu entre nós teve qualquer significado para ela (pausa). Eu mantive o contato por mensagens, para tentar saber como ela estava. Entretanto, não insisti em um novo encontro. A própria Helena havia me encorajado a tentar aquilo que viria a ser um namoro: um reencontro com Raíssa, o meu primeiro amor, que durou praticamente toda a infância e sobreviveu às paixões que tive na adolescência. Era um sentimento que ficava adormecido e era sempre reavivado a cada novo breve encontro.

                    Depois de muitos anos sem nos vermos, retomamos o contato através de um grupo criado por familiares e amigos. Ela é do tipo de pessoa que trabalha muito.

                    (sons de teclado, empresa, telefone tocando)

                    RAÍSSA: Aham, faço questão de ter sucesso profissional e ser bem recompensada por isso, para ter uma vida de conforto e poder proporcionar o melhor para as minhas filhas.

                    Para mim, sempre foi mais importante ter tempo livre para estar com meu filho do que trabalhar alucinadamente para poder dar a ele o que o dinheiro pudesse comprar. Isso não é um mero detalhe que pudesse ser relevado. E outras coisas que foram aparecendo aos poucos desestruturaram nossa relação.

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: Depois que terminei esse namoro, decidi me concentrar no trabalho. Elaborei um projeto de pesquisa para ser desenvolvido em uma universidade do exterior e com todas as exigências burocráticas, esperei a demorada resposta ao pedido de bolsa. Foi parcialmente aprovado, mas não me deixei abalar com isso. Imagino que a psicanalista visse tudo isso como um norte que eu encontrei pra orientar minha vida. Tenho quase certeza que ela apostava todas as suas fichas no bem que me faria passar um tempo no exterior. E mesmo sem saber do plano que eu alimentava secretamente, sem falar a ela, de parar de tomar os remédios, recomendou, um pouco antes de minha viagem:

                    PSIQUIATRA: Se você for interromper a medicação, a mirtazapina pode ser suspendida a qualquer momento, sem nenhum problema, mas a quetiapina tem que ser tirada aos poucos, porque você pode sentir síndrome de abstinência. 

                    PENSAMENTOS DE FABIANO: Assim como Alice, não acho que a psicanalista estivesse lendo meus pensamentos. Deve ter percebido algum sinal da minha intenção. Nas últimas semanas no exterior, comecei a diminuir as doses da medicação. Em seguida, passei a intercalar um dia com e outro sem. E, assim, fui tirando aos poucos os remédios. Sabia que eles estavam apenas mascarando o meu problema. Não estavam resolvendo. Desde que voltei ao Brasil, estou sem medicação. E o problema do sono voltou. Talvez até com maior força.

                    ENCERRAMENTO 

                    HELENA CHISTE: Você acabou de escutar o primeiro episódio de “Meu divã interior”, um romance radiofônico que é um Projeto de Extensão PROEC, Pró Reitoria de Extensão e Cultura e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Esse projeto consistia na adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado; ou seja, para um formato de áudio, que acabou virando este romance radiofônico. 

                    Contado em série, com nove episódios, seguirá sendo postado semanalmente ao longo deste semestre. 

                    No próximo episódio: O sono interrompido é um sintoma de uma outra interrupção mais importante na vida de Fabiano. Será que Alice finalmente encontrou a resposta que ele tanto procura? Fique com a gente!

                    Ficha técnica:

                    Adaptação de roteiro, Direção e Produção:

                    Antero Vilela e Helena Chiste 

                    Atrizes / Atores, (por ordem de aparição):

                    Antero Vilela, como Fabiano
                    Geovana Mangiavacchi, como Psiquiatra
                    Débora Piccin, como Helena
                    Joyce Nobre Dourado, como Raíssa

                    Trilha sonora original:

                    Antero Vilela 

                    Edição, mixagem e finalização de áudio:

                    Vitor Muricy

                    Apoio:

                    LABJOR, Podcast Oxigênio e Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp

                    18 min
                  • #168 – Depois que o fogo apaga

                    Neste episódio do Oxigênio e no próximo, vamos tratar dos incêndios no Laboratório do Instituto de Biociências da Unesp, campus de Rio Claro, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro e no Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista. Por meio das conversas com pessoas que atuam nesses espaços de divulgação científica, buscamos conhecer o que aconteceu, e compreender as diferentes fases dos processos de recuperação. As entrevistas, roteiro e apresentação foram feitos pela Mayra Trinca, bióloga e mestranda em Divulgação Científica e Cultural e a edição é de Yama Chiodi, doutorando no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências, da Unicamp e bolsista Mídia Ciência da FAPESP.

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                    Roteiro

                    MAYRA: Oi! Eu sou a Mayra Trinca, talvez você já me conheça de outros episódios aqui do Oxigênio. Eu faço mestrado no programa de Divulgação Científica e Cultural aqui do Labjor, mas, antes disso, eu fiz biologia na Unesp, em Rio Claro. 

                    MAYRA: No curso de biologia a gente tem, ou pelo menos deveria ter, muitas aulas práticas, pra gente realmente ter contato com aquilo que está estudando, seja planta, bicho, célula e por aí vai. Pra isso, as universidades precisam manter uma série de coleções biológicas, com esses seres preservados pros estudos. Lá em Rio Claro, a coleção dos animais ficava no prédio central, mais especificamente, no laboratório 19. 

                    EMYGDIO: O prédio que sofreu com incêndio, é conhecido como prédio central do IB. Esse prédio, ele era um prédio, ele era não, ele é um prédio, porque ele ainda tá aqui. Ele é um prédio de dois andares, né, no andar térreo ficavam concentrados salas de aula utilizados principalmente pelos cursos de graduação do Instituto de de biociências, né? E no andar superior é ainda existia a estrutura do departamento de biologia geral e aplicada, é, e uma parte ainda do antigo departamento de Zoologia do qual eu faço parte, agora departamento de biodiversidade, né? Então nesse segundo andar, é, existiam alguns laboratórios de docentes, né e gabinetes de docentes; no piso inferior como eu falei eram as salas de aula e alguns laboratórios de apoio pras aulas práticas. 

                    MAYRA: No dia primeiro de setembro de 2022, esses laboratórios pegaram fogo.

                    EMYGDIO: Foi um dia normal de trabalho, né? A gente não teve nenhuma rregularidade. Aconteceu numa quarta-feira, do meio pro final da tarde entre dez pras quatro, quatro horas. 

                    MAYRA: O incêndio, que começou durante a tarde, se alastrou pelo andar de cima elevando chamas e uma cortina de fumaça assustadora. Com sorte, ninguém ficou ferido, o prédio foi rapidamente evacuado e o corpo de bombeiros acionado. O fogo só foi completamente apagado por volta das dez da noite. 

                    EMYGDIO: Eu saí com tudo certo, a hora que eu voltei o laboratório já estava completamente eh tomado por chamas, não não tinha mais o que se fazer. Da parte onde havia a coleção não sobrou absolutamente nada, sobrou as paredes, só. Tudo que existia lá dentro, simplesmente foi carbonizado.

                    [PAUSA] 

                    MAYRA: A coleção de zoologia pegou fogo em setembro, às vésperas do aniversário de outro desastre semelhante. Quatro anos antes, no dia dois de setembro de 2018, o Museu Nacional no Rio de Janeiro estava em chamas. E antes dele, em 2015, foi o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que também queimou

                    Neste episódio do Oxigênio e no próximo, vamos tratar dos incêndios no Museu da Unesp, no Museu Nacional e no Museu da Língua Portuguesa, por meio das conversas com pessoas envolvidas nas diferentes fases dos processos de recuperação desses espaços de divulgação científica. 

                    [VINHETA]

                    MAYRA: Você provavelmente viu esses incêndios nos jornais. Eles não foram os únicos, talvez você até se lembre de outros casos, mas esses dois ganharam manchetes por serem museus grandes e conhecidos. Infelizmente, esses ambientes são muito vulneráveis ao fogo, seja pelas características próprias dos materiais que ficam ali, seja pelo descaso com  que esses ambientes são tratados. 

                    Quando eu fiquei sabendo do incêndio na Unesp, minha primeira reação foi lembrar desses outros casos. Me bateu uma tristeza enorme de pensar em tudo que se perdeu. Mas aí, o segundo pensamento foi: e agora? O que acontece depois que o fogo apaga? 

                     EMYGDIO: Meu nome é Emygdio de Paula Neto, eu sou técnico aqui do departamento de biodiversidade da UNESP de Rio Claro. 

                    MAYRA: Eu conheci o Emygdio durante a graduação, no tal laboratório 19. Ele é a pessoa responsável por ajudar os professores a organizar as aulas práticas de zoologia, que é  o estudo dos animais. É o Emygdio que organiza os materiais e mantém o laboratório funcionando. Nesse laboratório existia um acervo zoológico considerável, tanto pela quantidade quanto pela diversidade de grupos zoológicos e de materiais relacionados a esses grupos de animais.

                    EMYGDIO: Foi uma perda assim irreparável, porque é um acervo que se iniciou aqui em Rio Claro com a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, eh que depois veio a se transformar em Unesp. Então a gente tá falando aí de mais de 50 anos de acumulação de material por diferentes docentes que aqui passaram. 

                    EMYGDIO: E o que eram esses acervos? Como a gente tinha um acervo de Zoologia, então a gente tinha de tudo um pouco lá, materiais de diversos grupos zoológicos, então desde protozoários até os vertebrados mais derivados aí, mamífero, coisa desse tipo. Englobava o que? A gente tinha material em laminário, material fixado em via líquida, material taxidermizado, é, a gente tinha pranchas com desenho da época que ainda se usava desenho pras aulas. A gente tinha material em via a seca, né? Que era parte de coleção osteológica, né? Então a gente tinha crânio, tinha esqueleto completo. 

                    MAYRA: Esses materiais eram usados nas aulas práticas de cursos de graduação, como Biologia, Ecologia e Engenharia Ambiental, e também em aulas e pesquisas de pós-graduação do departamento. 

                    No dia do incêndio, estava acontecendo uma aula pra turma de Biologia. Mais ou menos no meio da tarde, o pessoal parou pra fazer um intervalo e tomar um café.

                    EMYGDIO: Foram procurar o pessoal na cantina e falar: “olha é vocês que estão tendo aula lá, eu acho melhor vocês voltar porque tá saindo fumaça ali dentro do laboratório”. 

                    MAYRA: No tempo de voltarem ao prédio, a sala já estava inundada pelas chamas. O resto do prédio foi rapidamente evacuado e não houve nenhum ferido. 

                    EMYGDIO: E foi tudo assim muito rápido, muito rápido mesmo. A quantidade de material inflamável que tinha na nossa coleção era muito grande, a área era muito extensa. Então ali houve uma dificuldade muito grande para para se controlar o incêndio.

                    MAYRA: O corpo de bombeiros foi acionado, mas o fogo só foi completamente contido à noite, por volta das dez. 

                    EMYGDIO: Onde pegou fogo a destruição foi total, né? Não teve como é salvar nada, só umas poucas partes de alvenaria permaneceram, né? Do ponto de vista interno, por exemplo, mobiliário, equipamento, acervo. Isso aí é destruição foi quase por completo, não vou falar que foi completa porque uma outra coisa ainda conseguiram é salvar né, mas mais de 90% do que tinha nos espaços que pegou fogo foi completamente perdido. 

                    MAYRA: Como não houve nenhuma vítima, é muito natural a gente pensar de cara na perda de todo o material que tava guardado ali. Eu lembro que uma das primeiras coisas que me veio na cabeça foi uma coleção de conchas, centenas delas, de vários lugares do mundo. Algumas de espécies que nem se encontram mais. Mas a gente vai falar sobre isso mais tarde. 

                    Tem um outro lado desses eventos, que é bem pouco falado. A gente tende a associar museus, acervos e coleções com os objetos dentro deles. E acaba esquecendo que esses também são ambientes de trabalho, que tem pessoas que trabalham e convivem naquele espaço todos os dias. 

                    MAYRA: Esse bastidor dos museus e acervos é algo pouco divulgado. Além das peças que ficam em exposição, que a gente vê quando visita um museu, tem sempre várias outras peças escondidas. Muitas vezes porque elas estão sendo usadas pra alguma pesquisa. Por exemplo, na Unesp

                    EMYGDIO: Naquele momento a gente tava com um total de seis alunos de graduação, que estavam desenvolvendo diferentes projetos que se utilizavam dos elementos da nossa coleção, principalmente pra atividades de extensão. 

                    MAYRA: No andar de cima do laboratório que o Emygdio trabalhava ficava um outro laboratório, que desenvolvia principalmente pesquisa com genética. Lá, tinha vários materiais produzidos por estudantes de pós-graduação, como resultado de mestrados e doutorados. Tudo isso foi perdido também. 

                    EMYGDIO: Poucas pessoas sabem que a minha vida universitária aqui na UNESP de Rio Claro começou no departamento de biologia exatamente no laboratório do andar de cima que também pegou fogo e eu fiz a minha pós-graduação lá também.  Então, num evento só eu perdi todo o meu histórico de graduação, de pós-graduação e da minha vida como funcionário até aquele momento, né? Eu perdi todo o meu registro, desde que eu era aluno  em um único evento. 

                    MAYRA: Outros funcionários, docentes e mesmo estudantes que estavam trabalhando ali dia após dia. Pesquisadores que como o Emygdio fizeram ali sua graduação e toda a pós-graduação e de repente não podem mais desenvolver suas pesquisas ali… 

                    EMYGDIO: E a parte de vista psicológica e emocional é terrível, né, Mayra, porque você tava trabalhando num dia, no outro dia simplesmente não existe nada lá para você trabalhar mais, né? Então pensar que um espaço que foi um espaço de vivência de construção, de acolhimento, né? Quantos docentes não passaram lá, quantas atividades não foram desenvolvidas e simplesmente você perdeu, não só espaço como qualquer possibilidade de se fazer alguma atividade futura nesse sentido. Então foi assim, uma coisa terrível. 

                    EMYGDIO: Imagina um docente que tem 30 anos de atividade dentro do laboratório, os dados que estão ali acumulados, os equipamentos que ele acumulou aí em 30 anos de pesquisa e todas as linhas de fomento que ele tinha né? Seja graduação, seja pós-graduação, sejam outros tipos de parceria isso aí, o sujeito ele perdeu literalmente da noite para o dia né? Um dia ele vinha trabalhar no outro dia o laboratório dele simplesmente não existia.

                    MAYRA: O Emygdio me contou  como tem sido difícil, pra ele e pra outras pessoas que trabalhavam nesses laboratórios, retomar o ritmo de trabalho. Os dias seguintes do incêndio foram muito desgastantes pra todos, que tiveram que voltar pro prédio na busca de itens que pudessem ter sobrevivido ao fogo. 

                    EMYGDIO: É um drama que quase diariamente a gente revive toda vez que tem que botar o pé lá é uma pontadinha de ânimo que vai embora.

                    MAYRA: Eu fico tentando imaginar a sensação de entrar nesse espaço depois do incêndio. Eu passei por lá, queria ver de perto o lugar onde eu criei tantas memórias legais, procurar pelo crânio de golfinho que eu tirei foto, pelo pepino do mar que virou história entre amigos, os desenhos que eu tive que copiar, mas é claro que nada disso existe mais. A área estava interditada e só pude ver por fora. Ainda assim, já foi uma sensação super melancólica porque o ambiente fica escuro, as paredes queimadas e o teto preto de fuligem. 

                    EMYGDIO: Para onde você olhava era preto, fuligem para tudo quanto é lado, cinza e escombro espalhado pro chão, para onde você andava para onde você pisava, vidro misturado com água misturado com resto de coisas semi carbonizadas, o cheiro fortíssimo de coisa queimada. Foi muito impactante ver e ter que lidar com isso. 

                    MAYRA: Depois de conversar com o Emygdio sobre o incêndio de Rio Claro, eu falei com a Thamara, que é professora no Museu Nacional do Rio Janeiro. Aquele mesmo que também pegou fogo, em 2018, que eu comentei no começo do episódio. 

                    THAMARA: Eu me chamo Thamara Zacca, atualmente eu sou professora do departamento de entomologia do Museu Nacional, na minha linha de pesquisa eu trabalho com borboletas e mariposas, que são os insetos da ordem Lepidoptera, então eu sou coordenadora do laboratório de pesquisas em Lepidoptera. 

                    MAYRA: Na nossa conversa, esse aspecto mais emocional que envolve lidar com esses incêndios também foi uma coisa que apareceu bastante. E na verdade, isso acabou me chamando muita atenção, porque, antes de eu começar a conversar com as pessoas pra esse episódio, esse não era um tema tão evidente pra mim. 

                    Tá, mas antes de seguir nesse tópico, deixa eu apresentar melhor a Thamara. 

                    THAMARA: Eu sou bióloga formada pela Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, aí eu fui para a Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, fazer mestrado e doutorado, mas o Museu Nacional sempre é referência para quem trabalha com taxonomia que a minha área primária de formação, né?  

                    MAYRA: Taxonomia é a área da biologia que estuda como os seres vivos são aparentados, e como a gente pode organizá-los em grupos a partir de características físicas e genéticas. 

                    THAMARA: Desde o meu mestrado eu visitava a coleção de borboletas e mariposas do Museu Nacional que é uma era uma das maiores coleções da América Latina, né? Tinha cerca de 186 mil exemplares, que foram coletados aí na década de 20, de 30 em locais, que hoje nem existem mais, né? Antes eram florestas e depois foram convertidas. Então tem esse valor super importante do temporal.

                    E era meu sonho poder continuar e atuar nessa área. Então eu tentei direcionar a minha carreira nesse sentido e quando eu pensava em locais de trabalho no Brasil que fossem mais próximos desse meu ideal desse meu sonho o Museu Nacional sem dúvidas, ele tava nesse lugar, né?

                    MAYRA: Aí, quando ela já tava no pós-doutorado, que a Thamara fez aqui na Unicamp, por sinal, abriu o concurso pro Museu Nacional. Isso foi no começo de 2018, por volta de abril ou maio. 

                    THAMARA: Apareceu esse concurso que é na área de entomologia. Eu prestei, na verdade foi o meu primeiro concurso, é! E aí na ocasião eu fiquei em segundo lugar nesse concurso e como só tinha uma vaga então não tinha passado, né? 

                    Então veio o incêndio em setembro e com incêndio, do ponto de vista pessoal. Eu vi ali meu sonho pegando fogo também, né? Então era desesperador pela pesquisa, mas também esse sonho meu de estar no Museu Nacional, ele tinha ido embora naquelas chamas assim.

                    MAYRA: Eu não cheguei a conhecer o Museu Nacional, e lembro que quando chegaram as notícias do incêndio eu pensei que eu nunca iria conhecer esse espaço tão importante pra ciência do Brasil. Em todos os materiais que foram perdidos e as histórias que eles contavam. 

                    THAMARA: Mas tem a parte que eu acho que mais interessante ainda que é por trás dos bastidores. Né, então o Museu Nacional,é um museu que também forma pesquisadores. Temos pós-graduações de várias áreas. Então tem todo uma parte de ensino também sendo realizada no museu. A gente direciona muito o olhar naquela exposição aberta ao público ou o impacto só na pesquisa, mas também teve um impacto na formação dos profissionais, dos estudantes que estavam ali no processo de formação.

                    MAYRA: Esse impacto do incêndio, a perda de projetos de pesquisa e como isso interrompe de forma muito brusca anos de trabalho, de quem estudava ou trabalhava no museu, eu não vi aparecer nas reportagens que li na época em que aconteceram esses dois episódios. A gente associa tanto os museus como um lugar de objetos inertes e de história do passado, que esquece da relevância deles pras pessoas no presente. É difícil mensurar como isso afeta, profissional e emocionalmente as pessoas que atuam nesses espaços. 

                    THAMARA: Eu vejo muito isso nos outros docentes que já trabalhavam lá, alguns com mais de 30 anos trabalhando no departamento desenvolvendo suas pesquisas. Falo isso pelos técnicos, pelos estudantes, que já estavam lá. No meu caso, eu cheguei depois, e eu sei o quanto dói em mim o caso deles. São exemplos de resiliência, né? Então eu olho para eles e eles me dão uma esperança assim que por mais que tudo deu errado, essa capacidade do ser humano de se reinventar, eu acho isso algo muito bonito e isso me inspira.

                    MAYRA: A Thamara e o Emygdio ficaram muito emocionados em falar sobre os incêndios comigo, porque lidar com esses eventos é um processo contínuo. Não é algo que acaba depois que apagam o fogo, existe uma série de etapas que acontecem depois, já que esses espaços precisam ser reconstruídos. 

                    Só que pra reconstruir, é preciso visitar toda a história de novo, procurar o que sobrou, coletar ou buscar novos materiais, reorganizar o espaço, tentando trazer mais segurança pra que isso não aconteça novamente. A reconstrução em si pode ser um processo bem desgastante, sob vários pontos de vista. 

                    THAMARA: E aí tem essa questão da reconstrução, que até um termo que eu particularmente fico um pouco incomodada, porque reconstruir parece que você vai partir desse ponto de salvar algo e continuar e eu já tenho uma leitura um pouco diferente, porque como o material foi todo destruído, tem um novo começo então eu vejo como um novo começo, uma nova coleção. Porque é um tanto doloroso falar sobre isso. Já tem certo tempo, mas toda vez que eu tenho que falar sobre o Museu Nacional e o incêndio, é que são muitas memórias associadas né pessoais e de trabalho, então fico um tanto emotiva com relação a isso e eu percebi logo no início que se eu ficasse pensando em reconstruir eu ficaria triste porque eu falei nossa, eu nunca que vou atingir os 186 mil exemplares que existiam nessa coleção, que foi construída aí por tantas gerações que passaram. Então nunca vou chegar nisso, é frustrante, e eu tento sempre olhar para um lado um pouco mais otimista. Então acho que isso me ajudou a ver como uma nova coleção, eu vou começar do zero e eu vou tentar ter a melhor coleção melhor material que possa servir de estudo. 

                    MAYRA: No próximo episódio, a gente parte desse ponto: como é o processo por trás de criar uma nova coleção? Dá pra dizer que é reconstrução ou serão novos museus e novos acervos? 

                    Pra continuar essa conversa, eu vou falar  com a Marília Bonas, sobre a reconstrução de outro museu que também pegou fogo, o Museu da Língua Portuguesa. 

                    MARÍLIA: Mas no caso do museu, a gente trabalha essencialmente com esse patrimônio em suportes digitais então havia backup de todos esses materiais. Então tudo isso claro foi uma das coisas que ajudou, né, na reconstrução do museu. O que é bem diferente de outros museus em que você não reconstrói o acervo, né? Então no Museu da Língua a gente conseguiu nesse processo aí uma reconstrução mesmo. 

                    MAYRA: Mas essa conversa, você escuta no próximo episódio. 

                    Esse episódio foi roteirizado e apresentado por mim, Mayra Trinca. A revisão é da Simone Pallone, coordenadora do Oxigênio. Os trabalhos técnicos são de Yama Chiodi. O Oxigênio também é apoiado pela Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. A trilha sonora é do Freesound. 

                    Você encontra a gente no site oxigenio.comciencia.br, no Instagram e no Facebook, basta procurar por Oxigênio Podcast. Te espero no próximo episódio. 

                    E se você ainda não conhece o Mundaréu, um podcast sobre Antropologia produzido em parceria entre o Labjor, aqui da Unicamp, e o Departamento de Antropologia da UnB, fica a dica pra você conhecer. No último episódio “Fome de pesquisador” elas falaram sobre como a epidemia de Zika influenciou na publicação de artigos sobre o tema. O episódio faz parte de uma temporada inteira sobre as relações entre a Zika, as pessoas que sofreram com ela e as pessoas que fizeram pesquisa nesse período. Quando terminar esse episódio aqui, procura por Mundaréu lá na sua plataforma preferida.

                     

                    24 min
                  • Meu divã interior (episódio 7)

                    Neste sétimo episódio de Meu Divã Interior, Fabiano divaga sobre sonhos que teve e tem tido com Alice, além de conversar sobre antigos desejos que permearam por sua vida, entre lembranças com sua ex-namorada e a relação com seu irmão. Meu divã interior é um romance radiofônico realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020. Trata-se de um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura). ___________________________________________________________________________

                    Roteiro

                    Personagens:

                    • Fabiano
                    • Alice
                    • Ex namorada 
                    • Irmão de Fabiano
                    • Alice: Então, Fabiano, você conseguiu se lembrar de seus sonhos e anotar o que sonhou? 

                      Pensamentos de Fabiano: indagou Alice.

                      Fabiano: Sim

                      Pensamentos de Fabiano: Respondi, abrindo um caderno. 

                      Fabiano: Acho que alguns sonhos são estimulados por coisas que eu vi ou que aconteceram um pouco antes. Uma noite, sonhei com uma prima do meu pai. Nós estávamos, ao que parece, em um ponto de ônibus cheio de gente. Comentei que a diferença de idade entre ela e o meu irmão não era muito grande e que eu não tinha percebido isso quando era criança. Ela falou que eu era o bebê de todo mundo da família. Ela fez um sinal para um carro que passava. O motorista parou e entregou uma almofada pra ela. Geralmente, meus sonhos são curtos. Ou pelo menos o que eu lembro é pouca coisa.

                      Alice: Esse sonho foi estimulado por alguma coisa que aconteceu antes?

                      Fabiano: Sim. Essa prima do meu pai postou sua contagem regressiva pro aniversário que estava chegando. Por isso eu pensei nessa coisa da diferença de idade entre ela e o meu irmão. Quando a gente é adulto, alguns anos de diferença entre uma pessoa e outra parece muito pouco, mas do ponto de vista de uma criança, qualquer ano a mais é muito tempo.

                      Alice: Verdade. Os outros elementos do sonho, o lugar, a entrega da almofada, têm algum significado pra você?

                      Fabiano: Eu não identifico o lugar do sonho como um lugar conhecido. Essa prima nem é do tipo que anda de ônibus. O final, com a almofada, pra mim, é só maluquice de sonho, mesmo.

                      Alice: Você costuma sonhar com pessoas da sua família mesmo que não haja um estímulo anterior, como aconteceu nesse caso?

                      Fabiano: Sim 

                      Pensamentos de Fabiano: Respondi, consultando minhas anotações novamente. 

                      Fabiano: Outro dia, sonhei com outra prima minha. Eu estava fritando ovo. Vi que ela pegou a frigideira e falei pra ela tomar cuidado com o óleo quente. Respingou um pouco na blusa dela. Não me lembro muito bem desse sonho, mas acho que ela estava usando uma calça social, estilo masculino. Passei um papel toalha onde tinha caído óleo. Depois, acho que ela foi ao banheiro para se trocar.

                      Alice: Você achou pouco usual sua prima aparecer no sonho usando calça social masculina?

                      Fabiano: Como é um detalhe que cheguei a lembrar, devo ter achado. Pode ser que já tenha visto ela vestida assim, mas não é o estilo dela.

                      Alice: A curiosidade descuidada dela te diz alguma coisa?

                      Fabiano: Doideira de sonho, Alice.

                      Alice: E o seu gesto de limpar o óleo que respingou nela?

                      Fabiano: Você acha que é um desejo contido de tocar na minha prima?

                      Alice: Eu queria saber o que você acha, Fabiano.

                      Fabiano: Não me lembro de ter sentido um prazer especial em limpar a blusa dela com um papel toalha. E também não me lembro de ter deixado minha prima embaraçada. Pareceu uma coisa bem natural, espontânea.

                      Alice: E depois de acordar, pensando no sonho?

                      Fabiano: (ainda irritado) Não sei. Achei legal ter sonhado com ela. Eu gosto muito dessa prima.

                      Pensamentos de Fabiano: Talvez Alice tenha percebido que não conseguiria arrancar de mim muito mais sobre esse sonho. E indagou:

                      Alice: O que mais você anotou aí, Fabiano?

                      Fabiano: Algumas noites atrás, eu sonhei com a minha primeira namorada, que na época em que namorei, era a melhor amiga daquela que viria a ser a minha futura esposa e mãe do meu filho. Foi um primeiro namoro tardio. Não é que eu não tenha ficado com outras garotas antes, mas ela foi a primeira que ficou publicamente comigo na condição de namorada.

                      Alice: Sei. Sua necessidade de testemunhas, para que não te pareça uma ilusão, uma mentira.

                      Pensamentos de Fabiano: – comentou Alice – Incrível como ela, mesmo sem nenhum caderninho, conseguia se lembrar de cada detalhe do que já conversamos!

                      Fabiano: No sonho, acho que eu tava em uma reunião de escola do meu filho ou alguma coisa parecida. Essa ex-namorada, que eu não vejo e com quem não tenho contato há séculos, apareceu no meio da reunião. Parecia triste. Eu estendi um dos braços, ela apoiou a cabeça em meu ombro. Depois, levantou o rosto e disse:

                      Ex namorada: “Eu te amo!”.

                      Fabiano: Não lembro qual foi a minha resposta, mas no fim a beijei.

                      Alice: O que você sentiu depois desse sonho?

                      Fabiano: Nada. Achei bizarro sonhar com ela, assim, sem mais nem menos.

                      Alice: O que essa ex-namorada significa pra você?

                      Fabiano: Alice, sinceramente, eu juro que pensei muito pouco nela nesses anos todos. Já nem lembrava mais dela, pra falar a verdade. O significado que ela tem pra mim é só o fato simbólico de ter sido minha primeira namorada. Nada mais.

                      Alice: Percebe o que você acabou de dizer, Fabiano? Você questionava a importância da simbologia e acaba de falar em algo simbólico. Mas o que importa agora, pra pensar no seu sonho, não são os símbolos que nos rodeiam por todos os lados, como o sinal da cruz, que não tem para você o mesmo sentido que tem para a sua mãe e para os cristãos. No caso dos sonhos, Jung diz que o símbolo é a expressão daquilo que é pressentido e não está conscientemente claro. Ter sonhado com o seu consolo à tristeza da sua primeira namorada e com uma declaração de amor dela seguida de um beijo, depois de tanto tempo, não te diz nada?

                      Fabiano: Acho surreal sonhar com isso. Não tenho um desejo contido de que uma coisa desse tipo pudesse acontecer de verdade. Nunca tive nostalgia ou saudade do tempo de namoro com ela. Que foi muito curto, por sinal.

                      (Pausa)

                      Fabiano:  E também não tive vontade de retomar o contato pra saber se estava tudo bem com ela, como se o sonho tivesse sido um sinal. Se não estivesse, eu seria a última pessoa no mundo de quem ela esperaria um consolo. Ela nem deve se lembrar que eu existo.

                      Alice: Então o sonho não teve nenhum efeito posterior em você? Pensamentos de Fabiano: Gozado, o pior é que teve.

                      Fabiano: O efeito é que sonhei com ela de novo.

                      Pensamentos de Fabiano: comentei, olhando para o caderno.

                      Fabiano: Nesse outro sonho, uns dois ou três dias depois do primeiro, eu estava na sala dos professores de um cursinho pré-vestibular onde eu trabalhei. Alguém entrega a ela umas coisas que ela havia esquecido, junto com um bilhete. Eu a ajudo a desocupar uma caixa. 

                      “Eu sonhei com você”,

                      digo, baixinho, em seu ouvido. Fico pensando se ela não ia perguntar como tinha sido o sonho. Ela apenas sorri. Depois diz:

                      Ex namorada: “Vamos fazer assim. Em fevereiro, eu vou dar uma festa. Você vai e aí a gente fala sobre isso. A festa é pra isso mesmo.”

                      Fabiano: Pra isso o quê? Rever as coisas do passado? Saber se ainda ficou alguma coisa dentro de nós? Mas fevereiro está tão longe! Depois vejo pela janela uma amiga antiga passando na rua. – “Sorte sua aparecer agora! Eu já tava de saída!”, falei pra ela. E acordei.

                      Alice: Uma festa no mês de fevereiro te diz alguma coisa?

                      Fabiano: No caso dela, não faço ideia. Ela é de escorpião. Nada a ver com fevereiro.

                      Alice: Mesmo dizendo que não sente mais nada por ela e que, conscientemente, não teve vontade de retomar o contato para saber se ela está bem, no segundo sonho, ou seja, no seu inconsciente, você quis revelar a ela o seu sonho, num sussurro. E até ficou na expectativa de que ela te pedisse para você contar o sonho.

                      Fabiano: É verdade. Eu acho bizarro e surreal, mas ao mesmo tempo divertido sonhar com ela. Mas imagino mesmo que ela ia achar muito estranho qualquer tentativa de retomada de contato.

                      Alice: No primeiro sonho com essa ex-namorada, você oferece o ombro a ela. No segundo sonho, se mostra prestativo e a ajuda a guardar coisas que entregaram pra ela. Como você vê isso?

                      Fabiano: Eu não sei o que isso quer dizer, mas acho que porque não guardo rancor e posso ser uma pessoa prestativa. Só que com ela, acho difícil que eu fizesse alguma coisa parecida na vida real.

                      Alice: Por quê, Fabiano?

                      Fabiano: Porque a gente é praticamente estranho um pro outro, não se vê e não se fala há muito tempo. Mas você não achou esquisita a parte final do sonho, em que aparece uma amiga que não tinha nada a ver com o período daquele namoro?

                      Alice: Imagino que você ache esquisito. Eu queria ouvir o que você acha.

                      Fabiano: Sei lá. Os sonhos são malucos mesmo. Mas sabe o que eu acho? Quando eu percebo que alguma coisa não se encaixa no sonho, meio que dá tilt, o sonho trava e eu acordo. Será que é por isso que eu acordo tantas vezes à noite?

                      Alice: Você não acha que a estranheza ou a sensação de que alguma coisa não se encaixa é uma interpretação que a sua consciência faz depois que você acorda?

                      Fabiano: Pode ser que sim. Não sei. Você quer que eu te conte outros sonhos que anotei?

                      Alice: Sim. Por favor.

                      Pensamentos de Fabiano: Olho minhas anotações e começo a contar:

                      Fabiano: Sonhei que eu estava com meu irmão e outras pessoas da família. Não sei dizer onde, só sei que íamos pegar a estrada. Meu irmão abriu uma lata de cerveja. Perguntei: 

                      “Por que você sempre tem que tomar uma cerveja antes de sair, mesmo que seja sem álcool? Não te dá vontade de fazer xixi no caminho?” Ele rebateu: 

                      Irmão: E por que, mesmo sozinho, você continua com as mesmas manias de quando era casado?

                      Fabiano: Retruquei: “O que o cacete de uma coisa tem a ver com o caralho da outra? Você não respondeu a minha pergunta!”

                      Meu pudor me impede de contar à Alice a minha resposta. Disse a ela apenas que não entendia a relação entre a minha pergunta e a dele.

                      Alice: Você não vê mesmo nenhuma relação entre uma coisa e outra?

                      Fabiano: Na hora, não vi. Pensando, depois, achei que podia ser mais ou menos como se ele estivesse dizendo que a gente faz certas coisas sem pensar, meio que no piloto automático. É isso?

                      Alice: Vamos tentar ver o que as duas coisas significam pra você. Por que você se incomoda de seu irmão tomar uma cerveja sem álcool antes de pegar a estrada? E por que você imagina que ele se incomode com o fato de você continuar sendo tão metódico, quanto você costumava ser quando era casado? E por que te incomoda o fato de ele mencionar que você é metódico?

                      Pensamentos de Fabiano: Como Alice interpretou tantos incômodos em meu relato tão curto? Eu não mencionei estar incomodado. Não acho que Alice leia meus pensamentos. Ela deve perceber algum sinal, algum franzir de testa… Faz parte da arte do analista.

                      Em um ensaio que Freud escreveu sobre a escultura do profeta Moisés, feita por Michelangelo, ele menciona o método que um especialista de arte usava para distinguir pinturas originais de imitações. Esse especialista, que Freud descobriu mais tarde ser um médico italiano, não se atinha a traços gerais da pintura e sim a detalhes como as unhas e as orelhas das pessoas retratadas nos quadros. Freud viu nesse método um parentesco com a psicanálise e sua arte de penetrar, através de detalhes que podem passar despercebidos, naquilo que está oculto.

                      Fabiano: Pode ser que o meu incômodo seja o fato de as pessoas normalmente verem um metódico como uma coisa ruim e não como uma coisa positiva. Pra mim, ser metódico é uma forma boa de organizar a vida.

                      Alice: E de te fazer acreditar que é você quem está no comando e que pode ter o controle da sua vida – sugeriu Alice.

                      Fabiano: O que você quer dizer com isso? Você também acha que ser metódico é uma coisa ruim?

                      Alice: Eu não estou dizendo se é bom ou ruim. Estou dizendo que você não gosta do imprevisto, do improviso, do aleatório. É mais cômodo lidar com o previsível. E como você mesmo disse, você quer escrever sua própria história. 

                      Fabiano: Eu sei que eu não sou Deus. Eu tento controlar aquilo que eu posso controlar, que são os meus próprios atos. Eu não tenho como controlar os atos dos outros, mas posso tentar, pelo menos, manter o controle dos meus.

                      Alice: Mesmo sabendo que nem sempre isso é possível.

                      Fabiano: Sim, eu sei que nem sempre é possível manter o controle. Posso te contar um outro sonho que tem a ver com essa coisa do controle que você tá falando?

                      Alice: Pode contar.

                      Fabiano: Sonhei que estava dirigindo em uma estrada e por falta de sinalização errei uma entrada, entrei em uma curva e perdi o controle do carro. Enquanto o carro caía do barranco lentamente, pensei: “Não é possível! Isso não pode estar acontecendo!”. E acordei.

                      Alice: Como você vê esse seu pensamento sobre o acidente?

                      Fabiano: A perda de controle parecia sem sentido.

                      Alice: Você diz que foi por falta de sinalização, mas você nem cogita a possibilidade de ter se distraído e perdido essa entrada?

                      Fabiano: Eu não sei se eu pensei isso na hora do sonho. Sei que as duas coisas podem acontecer. A minha distração e a falta de sinalização. O que pra mim parece inverossímil é a minha perda do controle da direção do carro.

                      Pensamentos de Fabiano: A hipótese que eu tentava levantar para a Alice é que tanto a minha incredulidade diante de um acidente pelo qual eu supostamente seria responsável quanto o fato de eu estranhar ao ver uma amiga aleatória na rua enquanto sonhava com a minha ex-namorada, levaram-me a desconfiar desses sonhos e acordar. Um amigo meu do tempo da adolescência dizia ter controle sobre os próprios sonhos. Eu ficava desconfiado, imaginando se esse tipo de coisa seria realmente possível. Será que ele não estava iludindo a si próprio de que tinha essa capacidade de controle? Será que eu interrompia o sonho por não saber como controlá-lo? Será, de fato, que eu interrompia o sonho? 

                      Fim

                      Você acabou de escutar o sétimo episódio de “Meu divã interior”, um romance radiofônico que é um Projeto de Extensão PROEC (Pró Reitoria de Extensão e Cultura) realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. 

                      Esse projeto consiste na adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado; ou seja, para um formato de áudio, que acabou virando este romance radiofônico. 

                      Contado em série, com nove episódios, seguirá sendo postado semanalmente ao longo deste semestre. 

                      Fique com a gente no oitavo episódio, em que Fabiano rediscute as raízes de seu problema de sono em sessões psiquiátricas. Além do mais, reencontra uma antiga amiga da faculdade e vai viajar pro exterior.

                      Continue escutando, até mais!

                      Ficha técnica:

                      Adaptação de roteiro, Direção e Produção:

                      • Antero Vilela e Helena Chiste 
                      • Atrizes / Atores e participações especiais, (por ordem de aparição):

                          • Helena Chiste, como Alice
                          • Antero Vilela, como Fabiano 
                            • Maressa Gomes, como Ex-namorada de Fabiano
                              • Heitor Brisola, como Irmão de Fabiano
                              • Trilha sonora original:

                                • Antero Vilela
                                • Música, edição, mixagem e finalização de áudio: 

                                  • Vitor Muricy
                                  • Apoio:

                                    • LABJOR, Podcast Oxigênio do LABJOR e Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp
                                    • 17 min
                                    • #167 – Ciência estampada no peito

                                      Este novo episódio do Oxigênio fala sobre moda, estilo, tendência, grifes a serem seguidas, mas de um modo diferente do que nossos ouvintes encontram numa revista com alguma modelo famosa na capa. Pra falar sobre um estilo que vem ganhando força com mais oferta de lojas e produtos e porque as pessoas estão cada vez mais preocupadas em expor seu modo de pensar e sua admiração pela divulgação científica, a repórter Mayra Trinca entrevistou a Aline de Campos, professora de Moda no SENAC, o Igor Borges, da Doppel Store e a Beijanizy Abadia, da Opará Arqueológico, que são produtores de camisetas com temática de ciência. E aí, que tal vestir essa ideia?

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                                      Roteiro

                                      ALINE: Eu acho que nós temos né, exemplos, é… no nosso guarda-roupa, de camisetas que a gente se relaciona, né? Então você pode ter uma camiseta aí de um personagem de filme, de série, que você curte muito e admira. Você pode ter uma camiseta com uma frase que você acredita, um desenho que você se identifica muito. Então eu acho que é muito mais profundo, né? Não é só uma camiseta bonita que eu vi numa vitrine, não, eu me identifiquei com aquela estampa, com aquela frase 

                                      MAYRA: Isso não significa que todo mundo se apresenta com uma camiseta que tem a tabela periódica estampada. Por exemplo, uma dessas minhas camisetas afetivas tem uma estampa que mostra diferentes mulheres: branca, negra, gorda, cadeirante. Emoldurando o desenho tem a frase “This is what a scientist looks like”. É assim que uma cientista se parece.

                                      Várias estampas com temas de ciência acabaram se popularizando durante a pandemia de Covid-19. Teve de jacaré, do Zé Gotinha, de comemoração à vacina e ao SUS. Mas antes delas já existiam outras que traziam estampas de cientistas ou frases associadas às mais diversas formas de ciência, da química à literatura. 

                                      Eu sou a Mayra Trinca e nesse episódio do Oxigênio, vamos falar sobre o que as roupas que usamos dizem sobre nós e como isso pode se relacionar com a divulgação científica. 

                                      Pra pensar isso, eu conversei primeiro com a Aline, que é professora de Moda no SENAC e me contou um pouco sobre como as roupas que a gente usa sinalizam nossos ideais. Depois, eu falei com duas pessoas que resolveram colocar em prática essa ligação entre moda e ciência. No segundo bloco, você escuta a conversa com o Igor, que é criador da Doppel Store, uma loja de camisetas de divulgação científica. E por fim, com a Beijanizy, que é arqueóloga e idealizadora da Opará, uma loja de roupas estampadas com pinturas rupestres. 

                                      ALINE: O meu nome é Aline de Campos e eu trabalho com moda já há bastante tempo. 

                                      MAYRA: A Aline me contou que desde criança ela se interessava muito por esse mundo das artes, no começo eram os desenhos, mas na adolescência ela começou a trabalhar numa confecção, e aí

                                      ALINE: Comecei a conhecer esse mundo das roupas. E primeiro eu conheci esse mundo do glamour, né, dos desfiles, das revistas de moda e tal, e depois eu comecei a me aprofundar um pouquinho mais, trabalhando já na área, na questão de que não era só isso, né? Que isso era apenas uma visão da moda, essa visão meio Emily em Paris, né? O Diabo Veste Prada, uma coisa, mais glamurosa. E aí eu comecei a conhecer os outros pensamentos sobre moda. 

                                      MAYRA: A primeira coisa que eu quis saber sobre esse processo de vestir foi sobre as nossas escolhas. Por que escolhemos vestir o que vestimos? Quais os impactos que essa escolha causa? E pra explicar isso pra mim ela voltou nos tempos pré-históricos, com aquelas cenas clássicas de homens das cavernas usando casacos de pele de animais. 

                                      ALINE: É que mesmo nesse processo ancestral de se vestir já existia uma comunicação através da roupa, que é uma comunicação de status e de poder. Então, quando esse homem, por exemplo, capturava esse animal, consumia a carne, vestia a sua pele, ele também usava os ossos e as presas desse animal pra confeccionar adornos, colares, né e etc e esses acessórios, eles também passavam uma comunicação para outros homens, né? Quando ele se encontrava ali dentro das comunidades, ele estava comunicando o seu poder. Então, “olha só o animal que eu capturei como ele é grande e poderoso”. 

                                      MAYRA: Na verdade, essa pessoa tava é querendo dizer “olha como EU sou grande e poderoso por ter capturado esse animal. E de certa forma, isso segue até hoje.

                                      As roupas que usamos são formas, ao mesmo tempo de individualização e de socialização. Como no passado, elas carregam marcas do grupo, por exemplo, no estilo ou na combinação de peças dependendo das exigências sociais. Mas também possuem detalhes, sejam símbolos, acessórios, tipos de tecido ou estampas, que destacam diferenças individuais.

                                      ALINE: Por exemplo, todos os dias antes de sair de casa para trabalhar a gente faz uma escolha. A gente abre o guarda-roupa e escolhe. 

                                      MAYRA: Mesmo que essa escolha seja uma calça jeans e uma camiseta, ela é uma escolha que passa uma mensagem ao grupo. Que pode ser de escolher o conforto ou a praticidade. Mas que também pode ser de defender um ideal. 

                                      ALINE: A moda é política. Porque é sobre a escolha do que vestir, de que forma vestir, das marcas que eu me relaciono, das ideias que eu acredito, dos grupos em que eu me conecto. A gente está vestindo algo e a gente está passando essa informação e a gente tá bancando isso, né? A gente tá dizendo “Olha, eu acredito nisso”. 

                                      MAYRA: Quando a gente tava falando sobre os impactos que uma roupa pode ter, a Aline me deu um exemplo ótimo pra ilustrar o impacto de uma simples camiseta, de um evento super recente na história da moda. 

                                      ALINE: Que foi com a Maria Grazia, né, que entrou como diretora criativa da Dior. 

                                      MAYRA: Em 2016, no seu primeiro desfile, ela trouxe uma camiseta branca com a frase “We should all be feminists” (Sejamos todos feministas). Frase que ficou famosa por ser título do livro da autora nigeriana Chimamanda Adichie. E essa simples camiseta foi capaz de levantar uma questão muito importante

                                      ALINE: Dela como mulher, como primeira mulher dentro da direção criativa da marca, uma marca extremamente tradicional dentro do universo da moda e aí ela traz isso na primeira coleção, né? Essa provocação. 

                                      MAYRA: Essa estampa acabou ficando famosa e foi reproduzida por várias marcas várias vezes depois disso, o que mostra pra gente como as pessoas se apropriam dos símbolos que acreditam e usam isso como uma forma de expressar seus valores. 

                                      A partir disso tudo, eu e a Aline conversamos um pouco sobre como essas roupas podem ser um meio pra falar de Ciência. Nós estávamos conversando sobre como a gente  tá muito acostumada a pensar em mensagens curtas de Ciência em posts ou cartazes. 

                                      ALINE: Quando a gente tem, por exemplo, um cartaz que apoia alguma causa, a gente tem ali uma mensagem genérica, ela tá ali trazendo essa informação e se apropria disso ou concorda quem quer, né? 

                                      MAYRA: Ai eu fiquei pensando como essas mensagens impactam ou não as pessoas. Será que existe alguma diferença entre exibir a mensagem em um cartaz ou post na rede social e vestir uma peça de roupa que carrega a mesma mensagem? 

                                      ALINE: Talvez nesse ponto seja diferente, quando a gente veste uma mensagem, quando eu visto isso, quando eu coloco esse tecido na minha pele e eu saio nas ruas, eu tô na verdade comunicando aquilo que eu acredito. Isso tem a ver com, é, a minha formação como pessoa, com os ideais que eu acredito. 

                                      MAYRA: Ou seja, o impacto parece mais intenso né? Tipo aquele chavão de “vestir a camisa da empresa”, que sugere que aquilo está colado na sua pele, que você está totalmente engajado, seja na instituição em que trabalha ou em alguma causa.

                                      Também é interessante a gente pensar como as roupas são muito mais transitáveis do que cartazes ou posts, elas podem circular por vários ambientes, enquanto os cartazes são fixos e os posts ficam presos dentro das bolhas das redes sociais.

                                      ALINE: As pessoas, elas param para olhar o que tá escrito na sua camiseta, por exemplo. Então você tá disseminando uma informação onde você tiver. Você tá no metrô, você tá na rua, você tá na faculdade, você tá em casa, você tá num barzinho e você tá passando essa informação para as pessoas, né?

                                      MAYRA: Foi nessa vontade de vestir coisas que gosta e querer espalhar mais símbolos e mensagens sobre ciência e cultura geek que o Igor criou a marca Doppel Store. Uma loja especializada em estampas científicas, que aparecem em camisetas, moletons e até meias. No perfil do instagram da marca, você encontra que a Doppel está “divulgando a ciência com camisetas desde 2013”. 

                                      IGOR: Todo mundo quer ter camiseta de coisas que gosta, né? E nunca acha as camisetas que você quer. Eu falei “poxa, vou abrir uma loja de camisetas”. Aí eu fui pesquisar como que estampava camiseta, e tudo começou assim. 

                                      MAYRA:  O Igor me disse que no começo a loja era basicamente sobre coisas que ele gostava, como literatura, jogos, e claro, ciência. Com o tempo, os outros temas diminuíram um pouco e as peças que falam sobre ciência acabaram ganhando mais espaço. 

                                      IGOR: Mas eu foquei mais em divulgação científica porque eu realmente não tem, até hoje não tem direito assim. E a ideia sempre foi pegar isso e usar como meio de divulgação científica na internet, sabe? E você financiar mais projetos de divulgação científica, é… mas a ideia sempre foi longo prazo é que a Doppel seja uma fomentadora de divulgação científica de projetos sociais e  das coisas que eu acredito. Nunca deixou de ser isso. 

                                      MAYRA: Esse fomento, na Doppel, acontece de duas maneiras. Uma delas é na criação de coleções em parceria com divulgadores, com estampas exclusivas e que conversam com o trabalho desses parceiros. O Igor enfatizou que o Pirula, professor de biologia que ganhou fama no Youtube, foi pioneiro nessas parceiras. Na coleção dele você encontra várias estampas relacionadas com evolução das espécies, por exemplo, que é um assunto que ele pesquisa, ensina e fala bastante em seu canal. 

                                      A outra forma de fomento acontece através das redes sociais. 

                                      IGOR: Eu patrocino eles, um vídeo, um reels deles, e eles postam como colab com a Doppel. E daí o pessoal dele conhece a Doppel, o meu pessoal conhece eles. Tem conteúdo interessante, conteúdo que engaja e assim ele é sustentável, porque mais gente vai conhecer a Doppel, conhecer o projeto e vai aumentar o número de seguidores e isso vai se auto financiando. 

                                      MAYRA: Ao longo da nossa conversa, pude perceber bem os dois lados de trabalhar com divulgação científica. Não dá pra esperar que esse seja sempre um trabalho voluntário, pesquisadores e divulgadores também tem contas pra pagar, então é importante terem um retorno financeiro. 

                                      Por outro lado, deu pra sentir como esse projeto é importante pro Igor, como um retorno importante pra sociedade que, na prática, é responsável pelo financiamento das pesquisas. 

                                      IGOR: O pagador de imposto não consegue visualizar sabe, então eu quero pegar essa coisa da academia ser uma coisa escondida lá na universidade de trazer ela pra vida real.  Mostrar que essas pessoas estão produzindo sabe, mas eles são os pesquisadores, o meu trabalho é fazer o trabalho deles é chegar nas pessoas, entendeu? 

                                      MAYRA: Só que ele bem sabe que esse trabalho não é tão simples assim, principalmente quando a gente fala de áreas como matemática e física, que possuem conceitos bastante abstratos. É nesse momento que, pro Igor, o desenho pode ter um papel importante. 

                                      IGOR: Então acho que você pegando design, ilustração e você pegando o conceito da ciência diz assim, e passando para eles, para você conseguir visualizar aquilo ajuda muito você entender. 

                                      MAYRA: Quando a gente traz mais elementos estéticos pra ciência, a gente contribui pra chamar a atenção das pessoas pro assunto, nem que seja porque viram uma estampa e acharam bonita, e a partir desse interesse inicial, podem acabar descobrindo mais sobre o assunto e se aproximando um pouquinho do mundo da ciência. 

                                      IGOR: E não só aproximar como trazer novos cientistas.Tem garotas que viram as camisas da Marie Curie,  viram uma camiseta “coisa de menina” e querem estar ali, se inspiraram naquilo. 

                                      MAYRA: Essas camisetas que o Igor citou fazem parte da coleção “Mulheres na Ciência” e trazem diversos exemplos de figuras femininas importantes pro desenvolvimento de diversas áreas científicas. É uma forma de, além de levar conhecimento, engajar as pessoas nos aspectos mais sociais da prática científica. 

                                      Bom, a minha camiseta de mulheres cientistas, que eu mencionei no início do episódio, poderia fazer parte dessa coleção. Mas existe uma diversidade de temas de ciência para estampar camisetas e outras peças do vestuário, como vamos ver com a nossa próxima entrevistada. 

                                      BEIJANIZY: Por exemplo, a pessoa viu o vestido: “Ah, ele é bonito”. Mas aquele vestido vem com a história. Eu digo que eu vendo a informação e o vestido vai de brinde, entendeu? 

                                      Meu nome é Bejanizy e eu sou uma Goiana, já com cidadania sergipana, que já tem 30 anos que eu moro aqui em Sergipe. E eu sou sou formada em História e eu fiz mestrado em Arqueologia.

                                      MAYRA: A Beijanizy se apaixonou pela Arqueologia ainda quando era professora de História no ensino básico e levava os alunos em visitas na Universidade Federal de Sergipe, onde ela acabou fazendo uma segunda graduação e um mestrado em Arqueologia. Depois disso começou a trabalhar com projetos de defesa do Patrimônio. 

                                      BEIJANIZY: Da época que eu estava no IPHAN 

                                      MAYRA: Que é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

                                      BEIJANIZY: Eu comecei a perceber que sem sensibilizar as pessoas antes para a preservação do patrimônio, não tem como se preservar. E foi daí que eu comecei a trabalhar com esse outro tipo de de Divulgação Científica. 

                                      MAYRA: Foi aí que surgiu a Opará Arqueológico, uma loja cheia de produtos artesanais estampados com registros rupestres. 

                                      BEIJANIZY: A palavra Opará significa “rio grande como o mar” em Tupi. Era o nome do rio São Francisco antes da chegada do Américo Vespúcio que colocou esse nome de Rio São Francisco. 

                                      MAYRA: E essa ideia veio não só pela divulgação dessas pinturas e das pesquisas realizadas a partir delas, mas também porque a Beijanizy se incomodava ao perceber tantas pessoas sofrendo com a pobreza numa região tão rica em turismo.

                                      BEIJANIZY: E eu comecei a conversar, principalmente com as mães naquela comunidade: “ Vocês fazem algum tipo de artesanato? Eu comecei a fazer uns projetos nessa área, para que eles tivessem um material para poder vender que tivesse a ver com essas pinturas rupestres. 

                                      MAYRA: Além de ajudar com a renda dessas famílias, esse trabalho tem um segundo impacto. Porque ao trabalhar produzindo essas peças, as pessoas da comunidade também aprendem mais sobre o assunto. 

                                      BEIJANIZY: Tem esse público que tem condição de comprar uma roupa que eu tô vendendo e tem esse outro público que não tem acesso a isso, mas que pode ganhar alguma coisa com isso. E quando eu falo a respeito das comunidades, essas pessoas, se não fosse dessa forma, talvez nunca teriam acesso a essa informação. 

                                      MAYRA: Ela me contou que está planejando uma nova coleção, mas dessa vez a inspiração veio de desenhos em louças e cerâmicas Tupis. Na preparação para o lançamento dessa nova coleção, ela montou uma cartilha com as principais gravuras e um pouco da história de cada uma delas. Para que as pessoas da comunidade que estivessem trabalhando nesse projeto também tivessem acesso a essa informação. 

                                      E esse material também fica disponível depois pra quem compra esses produtos. 

                                      BEIJANIZY: Todos os trabalhos estão lá no meu site para fazer o download. Todas as camisetas, ela vem com explicação sobre o sítio, na camiseta mesmo. E aí a pessoa entrando lá no site aí pode fazer esse download.

                                      MAYRA: E ela não para nesse material disponível, não:

                                      BEIJANIZY: Eu fico com o e-mail dessas pessoas, de todo mundo que compra, né, com e-mail, WhatsApp, para tá mandando mais informação depois. Porque eu já vi que é uma pessoa que se interessa por arqueologia.

                                      MAYRA: Ou seja, se alguém compra, por exemplo, uma camiseta, porque achou a cor, as estampas bonitas, além de andar por aí carregando essa estampa e mostrando pras pessoas esses desenhos, ela também pode contar sobre a história daquele grafismo, onde ele foi encontrado, quando foi feito, qual o contexto. E assim, acaba espalhando um pouco de conhecimento sobre o tema. 

                                      Agora, além do site, a Opará Arqueológico tem uma loja física, e a Beijanizy tava me contando sobre como essa experiência acaba abarcando ainda mais pessoas que podem se interessar pelo assunto. 

                                      BEIJANIZY: Coloquei a palavra arqueologia bem grande, assim, na vitrine. Aí, interessante como os homens, eles vão passando, principalmente os homens, aí vão passando, aí olha, aí daqui a pouco você vê ele voltando para perguntar o que que tem de arqueologia ali, sabe? 

                                      Porque tem gente que não não se interessa muito por isso. Aí você vai pegando ela devagarinho, você vai levando, sabe? É, é como se fosse um ganchozinho, principalmente quando você tá conversando pessoalmente com as pessoas. 

                                      MAYRA: Esse ganchozinho pode ser muito importante pra aproximar as pessoas de um mundo que parece afastado do cotidiano, além de mostrar que a Ciência não é algo frio e sem emoção. Pelo contrário, ela pode despertar nossos afetos de diversas maneiras.

                                      BEIJANIZY: Eu sempre converso com o pessoal da arqueologia: “Gente, tem espaço para todo mundo, cada um na sua região, vamos fazer alguma coisa parecida e assim eu fico brilhando meu olho quando eu falo no meu trabalho porque eu amo fazer isso. Eu amo. Eu não quero fazer outra coisa, sabe? 

                                      MAYRA: Essa fala da Beijanizy me lembrou muito o começo da nossa conversa com a Aline, quando ela falava sobre esses apegos que as roupas podem nos trazer. Então eu trouxe ela de volta pra falar mais um pouquinho com a gente. 

                                      ALINE: Porque assim essa relação com a roupa, ela é muito mais profunda, né? Quando a gente fala: “Ah, eu não ligo para a moda, eu visto qualquer coisa. Não, não é verdade, a gente não veste qualquer coisa, né? É por mais que você OK, você não é um entusiasta da moda de ficar por exemplo. Ah vendo desfile ou indo em lojas e ficar olhando admirando roupas, né. Você sempre tem uma relação que pode ser afetiva, como você tá dizendo, é, ou uma relação com algum tipo de tecido, com algum tipo de estampa, com alguma marca. E isso se reflete através do seu guarda-roupa. 

                                      MAYRA: Parte do trabalho da Aline também é incentivar esse relacionamento mais profundo com as nossas roupas. Ela tem um projeto de restauração e customização de roupas usadas, trazendo mais personalidade e ajudando as pessoas a criar vínculos com essas peças. 

                                      A gente percebe ainda mais a importância disso quando se depara com as notícias sobre o lixo gerado pela indústria da moda, ou com os relatos das condições de trabalho na fabricação dessas peças. Dar novos significados pras peças que usamos é uma forma de contribuir pra redução desse problema. 

                                      E nós terminamos esse episódio por aqui. Você encontra mais sobre o trabalho da Aline na @a.deantonia. E pode comprar os produtos da Doppel pelo instagram @doppel.store (doppel com dois Ps) ou pelo site doppelsotre.com.br e da Opará pelo instagram @opara.arqueologico ou pelo site oparaarqueologico.com (tudo junto e sem acento). Os links estão na descrição do episódio. 

                                      Eu sou a Mayra Trinca e esse episódio foi roteirizado e apresentado por mim. A revisão é da Simone Pallone, coordenadora do Oxigênio. Os trabalhos técnicos são da Elisa Valderano e do Daniel Faria, bolsistas do Serviço de Apoio ao Estudante, da Unicamp.  Lembramos que o Oxigênio é apoiado pela Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. A imagem da capa é da Doppel Store.

                                      Quando estiver procurando as nossas entrevistadas, aproveita e dá uma olhada no site do Oxigênio: oxigenio.comciencia.br. Você pode comentar o que achou do episódio por lá ou pelo Instagram que é @oxigeniopodcast. Estamos no Facebook também. Basta buscar por Podcast Oxigênio. 

                                      E conta pra gente se você também tem aquela camiseta afetiva, com alguma estampa ou mensagem que remetam à ciência. Você pode postar uma foto com sua camiseta, que tal? Esperamos você e até a próxima!

                                      22 min
                                    • Meu divã interior (episódio 6)

                                      Meu divã interior é um romance radiofônico realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, a partir do romance homônimo, escrito por Rodrigo Cunha e neste sexto episódio o protagonista Fabiano parece preferir a yoga à psicanálise, mas é por um bom motivo. Uma grande paixão surge, dessa vez essa é a pessoa certa! Até o tarot confirmou, não tem como dar errado.

                                      Meu divã interior é um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura).

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                                      Roteiro

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Embora eu não me lembre exatamente, imagino que tenha feito menos tempo de terapia com Nadini do que com Alice. Nadini cobrava caro demais e como meu sono não melhorava e eu não via perspectiva de mudança nos relacionamentos, achei que aquilo não valia a pena. Minha terceira tentativa foi a psicanálise. Procurei, primeiro, o pai de uma colega de escola do meu filho. Na sessão experimental, ele foi bastante desbocado, bem mais do que nas festas de criança a que eu havia ido no prédio dele. Percebi, pelos livros da estante, que ele era lacaniano. Sempre me incomodou um pouco o quanto a psicanálise parecia colocar o sexo como centro de todas as questões psíquicas. Esse foi um dos motivos do rompimento de Jung com Freud. Após o período de críticas à abordagem de Freud, foi Lacan quem propôs a retomada das ideias freudianas. No caso desse meu psicanalista, especificamente, que contrastava uma barba máscula com um jeito afeminado de falar, me incomodava a importância que ele dava para a fantasia. Segundo Lacan, a fantasia vem do que falta ao sujeito, que está em constante busca do seu objeto perdido. Sei que a noção de fantasia é muito ampla, mas para mim era evidente que ele estava falando de sexo. Para ele, todo mundo tem suas fantasias sexuais. Se eu não tivesse, seria uma aberração? Por que eu sabia que ele estava falando de sexo? Esse tema foi o mote para ele dizer:

                                      PSICANALISTA: Talvez você não se sinta à vontade de contar suas fantasias, já que temos um círculo de relações em comum entre pais da escola.

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Acho que ele devia imaginar que eu tinha um desejo contido por sua mulher. Em uma das festas no seu prédio, lembro de perceber que ele me flagrou olhando pra ela. O meu olhar não tinha nada a ver com um desejo sexual. Eu tentava decifrar o enigma daquela mulher tão interessante e ao mesmo tempo tão estranha. Em função do meu suposto desconforto em expor minhas fantasias a um conhecido, ficava a meu critério seguir a terapia com ele ou pedir indicação de outra pessoa.

                                      FABIANO: Você tem razão. E além da relação dos nossos filhos e de pais de amigos deles, você também fez análise com a minha primeira namorada.

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Eu não estava inventando. Pedi a ele indicação de outra pessoa. Jung conta, em suas memórias, que dedicou muitos anos de sua vida a analisar suas próprias fantasias. Não consigo me lembrar de nada tão elaborado sobre minhas fantasias pessoais, ao contrário de Jung que descreve com riquezas de detalhe suas alucinações e sonhos . Tive um sonho muito recorrente na minha juventude. Eu sonhava que sabia voar. Não era um super-poder. Era uma capacidade que eu descobri que tinha. Eu não possuía asas. Sentia a sensação do movimento de impulso com os braços. Quase como se estivesse nadando no ar. Sentia também a sensação de atrito do meu rosto com o ar durante o vôo. A sensação do vôo é maravilhosa! Lá do alto, eu não era mais um míope. Assim como Clark Kent, eu não voava de óculos. E via tudo abaixo de mim com muita clareza. (pausa) Outro sonho que teve uma certa recorrência, podemos chamar de pesadelo. Eu caía em queda livre de uma altura muito grande, mas sempre acordei antes de me esborrachar no chão. Não era uma sequência do sonho em que voava, são sonhos distintos que aconteciam em momentos distintos. Pode até ser que um tenha alguma relação com o outro, mas a interpretação disso foge ao meu alcance. (pausa) Também vivi, acordado, uma grande fantasia, por um longo tempo. Foi uma imensa paixão, que nas palavras de Vinícius de Moraes, na canção lindamente musicada por Tom Jobim, seria “uma ilusão que é só desilusão”. 

                                      Fui o primeiro a chegar e ser recebido por Luna, a professora, naquele que seria o meu primeiro dia de aula de yoga. É muito fácil ficar deslumbrado à primeira vista com aquele tipo de beleza que os publicitários adorariam colocar em um anúncio e produtores de cinema e televisão não hesitariam em contratar. Eu, que não costumo acreditar em coisas transcendentais, percebi, não sei como, que a beleza de Luna ia muito além do que os olhos podiam ver. Uma espécie de “aura clara”, diriam os que crêem nisso. Antes dos outros alunos chegarem, o namorado dela apareceu pra combinar alguma coisa com ela. Fomos apresentados. Só então, percebi que ela usava uma aliança de compromisso na mão direita. “Claro que essa informação tinha que surgir logo de cara, no primeiro dia! Ela é mesmo muita areia pro meu caminhão”, foi o que pensei. Depois que os alunos chegaram, a maioria, mulheres, antes de começar a aula, duas pessoas falavam sobre política e o comentário de Luna em torno do tema que conversavam me deu a impressão de que ela era alienada politicamente. Muito tempo depois, re-interpretei essa cena e entendi que a percepção de Luna estava muito acima dos assuntos mundanos e o comentário aparentemente alienado seria apenas um desvio estratégico de um assunto que só poderia trazer energias negativas naquele momento que tínhamos escolhido para uma prática centrada no equilíbrio entre o corpo e o espírito. Já era, nesse tempo, a interpretação de um apaixonado. 

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Eu e outras duas mulheres éramos os alunos mais assíduos. Quando passei a ficar mais tempo ajudando Luna a guardar os tapetes e outros materiais, percebi que seus assuntos comigo eram distintos dos que tinha com as alunas com quem mais conversava. Ela falava sobre sua vida pessoal. E se queixava bastante do namorado.

                                      LUNA: Ai… É complicado…

                                      Ele tinha conseguido um trabalho na Espanha e queria que Luna fosse com ele pra lá. Para ela, faria bem ao namorado essa ida para o exterior, para aprender a se virar sozinho. Luna o achava um mimado.

                                      LUNA: Eu sou quase como a mãe dele!

                                      Moravam juntos. Luna contou que ele reclamava quando acabava papel higiênico e não tinha iniciativa de ele próprio comprar.

                                      LUNA: Sabe? Sempre teve tudo na mão…

                                      Também criticava, às vezes, a roupa que ela tinha escolhido usar quando iam sair à noite

                                      LUNA: As minhas roupas? Acredita?

                                      E teve a infeliz ideia de comemorar um aniversário de namoro em uma churrascaria. Luna é vegetariana.

                                      LUNA: (suspiro fundo de incômodo)

                                      E é evidente que o namorado sabia disso.

                                      LUNA: Complicado…

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: A rotina de Luna estava longe de ser aquela coisa tranquila e zen que podemos imaginar para uma professora de yoga. Essas aulas não deviam ser financeiramente suficientes e eu achava mesmo a mensalidade muito barata. Ela também trabalhava como monitora em uma brinquedoteca e interpretava personagens infantis em festas de criança. E além disso, fazia mestrado em psicologia. (pausa) Mesmo sabendo de sua rotina agitada, arrisquei-me, um dia, a convidá-la pra tomarmos um café na minha casa. Ela aceitou, aí passamos várias horas em uma deliciosa conversa sobre nossas vidas, nossos pais, nossos sonhos realizados ou a realizar. Eu não sabia o que, exatamente, eu significava para ela, mas só podia interpretar que tinha alguma importância, tanto pelos assuntos íntimos, quanto pelo tempo que dedicou a mim naquele dia do café na minha casa. Já não era mais possível eu esconder de mim mesmo o meu encanto por ela, mas a aliança estava sempre ali a frear minha ilusão. O namorado já havia ido pra a Espanha e esperava uma decisão de Luna.

                                      LUNA: Não sei ainda…

                                      Ela não queria abrir mão de tudo o que fazia pra viver à sombra dele. Havia conquistado sua independência muito cedo e gostaria de conquistar mais. Almoçamos juntos um dia e conversamos sobre esse seu dilema.

                                      FABIANO: Quem sou eu pra te dar um conselho, mas acho que você merece alguém melhor do que esse seu namorado. Alguém que te respeite, que te valorize! 

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Eles se falavam com alguma regularidade por videoconferência. E mantinham, à distância, a rotina de brigas que já tinham por aqui. Um dia, ela apareceu na aula sem aliança. Delirei de felicidade! Quase explodi por dentro quando senti Luna me tocar para corrigir uma postura em determinado exercício. Mas a aliança voltou à sua mão pouco tempo depois. No entanto, eu sabia que uma relação cambaleante não tinha como sobreviver à distância. E ela estava decidida a ficar no Brasil. Luna conseguiu um espaço em sua agitadíssima agenda para dar uma passada rápida no lançamento do meu primeiro livro. E aproveitou para me convidar para a sua defesa de mestrado. O namorado tirou férias e veio para a defesa. Confesso que não entendi boa parte da apresentação de Luna, mas certamente achei bastante interessante, e inusitada, para um trabalho acadêmico. Pelo menos para mim. Luna falou de mandalas, hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo e também de psicologia! Sobretudo, de Jung.

                                      LUNA: Obrigada por ter vindo, Fabiano! Significa muito pra mim!

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: O namorado só olhou de longe, desconfiado.

                                       Em uma manhã de sábado, chovia torrencialmente e fui mesmo assim à aula de yoga. Parecia ser o único maluco disposto a sair de casa naquela tempestade para não perder uma aula. Luna já havia comentado, em certa ocasião, que sabia ler cartas de tarô. Como dificilmente alguma aluna apareceria naquele dia, perguntei se ela tinha um baralho ali e se podia ler o tarô para mim. Fiz esse pedido inspirado em um episódio que assisti de uma série da TV Brasil chamada Entre o Céu e a Terra. Um personagem cético observou que uma moça lia a mão de outra, e mesmo não acreditando naquilo, pediu que ela também lesse sua mão. A pergunta inicial que fiz para Luna foi a mesma que o personagem cético fez à quiromante:

                                      FABIANO: Quando eu vou encontrar o grande amor da minha vida?

                                      (som de carta)

                                      LUNA: Em breve. 

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Creio que a segunda carta falava sobre como estava o cenário atual. Havia nuvens.

                                      LUNA: Há algo que precisa ser dissipado para que você consiga ver as coisas com mais clareza. 

                                      FABIANO: O que é preciso fazer para que essas nuvens se dissipem?

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: A carta seguinte mostrou um par de alianças. Luna interpretou que uma união precisava ser rompida para que o laço definitivo com o grande amor acontecesse. Pouco tempo depois da leitura do tarô, compartilhei uma postagem de uma amiga minha, que dizia que se voltasse a ficar de novo com alguém, queria que fosse com uma pessoa disposta a ser minha namorada para o resto da vida. A primeira a curtir essa postagem foi Luna. E no mesmo dia, ela compartilhou o vídeo de um casal de velhinhos, uma senhora em uma cama de hospital e um senhor declarando o seu amor a ela, com o fundo musical de Dick Haymes cantando You’ll Never Nnow, de Mack Gordon e Harry Warren. Um apaixonado como eu só poderia ver a curtida e a subsequente postagem como um sinal. Outro sinal, daqueles a que chegamos por interpretar pelo viés da paixão, evidentemente, foi a indicação de Luna para eu assistir a um filme que em condições normais de pressão e temperatura, não seria o tipo de filme que me atrai. Eu provavelmente não veria se não estivesse tomado pelo “fogo que arde sem se ver”. Era uma espécie de conto de fadas mas adaptado para o público adulto, não era uma animação. A história é do tipo de romantismo utópico no qual minha experiência pessoal não permitia acreditar antes da paixão por Luna. Nessa mesma época, caí na besteira de entrar em uma página de jogos que são apenas brincadeiras em cima de uma combinação algorítmica das pessoas que curtem, comentam e compartilham nossas postagens. Perguntei ao jogo quem seria o grande amor da minha vida. E o resultado da minha pergunta foi Luna. Quando notei que ela ficou novamente sem usar a aliança por duas aulas seguidas, esperei a saída das outras alunas e falei a Luna que queria dizer uma coisa a ela.

                                      FABIANO: Provavelmente, você já deve ter percebido, mas eu queria deixar bem claro. 

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Ao invés de dizer o que pretendia, entreguei a ela um poema que havia escrito em casa. Era uma evidente declaração de amor, que brincava com o nome dela e falava de um náufrago que encontrava o seu porto seguro.

                                      LUNA: Nossa, Fabiano! Obrigada! Eu fico lisonjeada! Não sei nem o que dizer!

                                      FABIANO: Sabe aquela carta do tarô com a aliança, a união que tinha que ser rompida para que eu pudesse ficar com o grande amor da minha vida? Só podia ser aquela que você tinha, Luna! (fala sem titubear) O grande amor da minha vida é você. 

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Pelo que me lembro, essa deve ter sido a primeira vez, em toda a minha vida, que expressei meus sentimentos a alguém dessa forma. O único caso parecido foi antes do meu casamento, aquele que foi interrompido por um ex. Após um tempo, durante o qual ela tentou descobrir se queria mesmo seguir com o ex ou não, essa pessoa ressurgiu em minha casa. Sua simples aparição me levou ao delírio! Falei que queria me casar e ter filhos com ela. Em resposta, disse que queria ter ouvido isso do ex. E que só tinha ido à minha casa para se despedir. Luna, como taróloga amadora, havia dado uma interpretação genérica para a carta com as alianças. A fatídica tarefa de dar um significado ficou a cargo da minha ilusão pessoal, do meu delírio apaixonado. Embora eu sempre tivesse desejado ficar e dar certo com alguém para envelhecermos juntos, nunca acreditei nessa história de “grande amor da minha vida”. Mas eu já não era mais eu mesmo quando expressei isso à Luna. Sua resposta foi dilacerante:

                                      LUNA: Desculpe, Fabiano, mas o da minha não é você.

                                      PENSAMENTOS DE FABIANO: Descobri, depois, pelas redes sociais, que ela provavelmente já devia estar namorando, naquela época, um produtor de vídeo com quem tinha começado a trabalhar. Ele fazia o par romântico das princesas que ela interpretava nas festas infantis. Ela e seu par romântico nas festas de criança conseguiram uma participação especial em um capítulo de uma minissérie infanto-juvenil de muito sucesso. Pelo que sei, a carreira televisiva de ambos terminou aí. Depois da minha declaração de amor cego por quem já estava em outra, algumas aulas após, Luna manifestou se sentir constrangida com aquela situação e pediu que eu não fosse mais à yoga. Não quis contrariá-la. Novamente pelas redes sociais, fiquei sabendo que ela não está mais com o videomaker. E declara com a mesma convicção de sempre seu amor pelo namorado da vez.

                                      Você acabou de escutar o primeiro episódio de “Meu divã interior”, um romance radiofônico que é um Projeto de Extensão PROEC, Pró Reitoria de Extensão e Cultura e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Esse projeto consistia na adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado; ou seja, para um formato de áudio, que acabou virando este romance radiofônico. 

                                      Contado em série, com nove episódios, seguirá sendo postado semanalmente ao longo deste semestre. 

                                      No próximo episódio: O passado volta para perturbar o sono de Fabiano. Alice tenta desvendar as simbologias que o inconsciente de Fabiano constrói, mas nem tudo ele conta a ela… Continue nos escutando!

                                      Ficha técnica:

                                      Adaptação de roteiro, Direção e Produção:

                                      Antero Vilela e Helena Chiste 

                                      Atrizes / Atores, (por ordem de aparição):

                                      Antero Vilela, como Fabiano
                                      Fredbacon, como Psicanalista
                                      Luê Vanoni, como Luna

                                      Trilha sonora original:

                                      Antero Vilela 

                                      Edição, mixagem e finalização de áudio:

                                      Vitor Muricy

                                      Apoio:

                                      LABJOR, Podcast Oxigênio do LABJOR e Secretaria Executiva de Comunicação, da Unicamp

                                      19 min
                                    • Meu divã interior (episódio 5)

                                      Neste episódio, Fabiano reflete sobre religião, crença e espiritualidade, Além de indagar-se à Alice acerca da necessidade de as pessoas criarem fantasias, perpassando pela futilidade das redes sociais e ancestralidade até a sua infância.

                                      Meu divã interior, um romance radiofônico, o qual é um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura)  realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp, ingressantes do ano de 2020. 

                                      ______________________

                                      Roteiro

                                      Alice: Os seus pais têm alguma religião?

                                      Fabiano: Pra falar a verdade, não faço a menor ideia se meu pai acredita ou deixa de acreditar em alguma coisa. Nunca conversamos sobre isso e eu nunca ouvi ele falar nesse assunto. Mas a minha mãe era católica e espírita ao mesmo tempo, ou pelo menos se dizia. Não do tipo que ia sempre à missa, mas rezava muito. E ia de vez em quando a sessões espíritas. Minha mãe também tinha uma crença própria dela, num mundo ideal, um planeta imaginário que ela chamava de seu “verdinho”.

                                      Pensamentos de Fabiano: Acho que por isso minha mãe estava ok com o fato de eu me sentir um extra-terrestre, mas não digo isso a Alice.

                                      Alice: Você tinha algum tipo de conflito com a sua mãe relacionado à religião?

                                      Fabiano: Eu só ironizava, de vez em quando. Talvez o que eu dizia pudesse ser considerado uma coisa ofensiva. Mas é o tipo de coisa que eu só faria mesmo com uma pessoa próxima como a minha mãe. Por exemplo, quando ela fazia o sinal da cruz enquanto passávamos de carro por uma igreja, eu dizia que era como um soldado que presta continência para seu superior. Ou quando eu saía para viajar e ela dizia:

                                      Mãe: “Vai com Deus, meu filho! Vou ficar aqui rezando pra você fazer boa viagem! Me liga quando chegar!”

                                      Pensamentos de Fabiano: Eu respondia:

                                      Fabiano: “Se Deus é onipresente, é uma redundância dizer ‘vai com Deus’. E se um cavalo atravessar a pista bem na hora que eu estiver passando, você acha que Deus vai tirar o meu pé do acelerador e apertar o freio pra mim? Eu que tenho que fazer isso, mãe!” A reza dela, pra mim, era muito mais uma forma de aliviar o próprio espírito. Mas minha mãe tirava de letra esse meu jeito. Achava graça.

                                      Alice: Pelo visto, o sentido que você via nas orações era muito diferente do dela. Você se lembra de algum momento, de algum acontecimento específico que tenha influenciado essa sua forma de ver as coisas?

                                      Fabiano: Não lembro. Acho que sempre fui desconfiado, questionador. Se a coisa não fazia sentido pra mim, se não me convencia, não tinha como eu acreditar. E eu imagino que desde que entendi como são grandes as desigualdades no mundo, passei a pensar que se existisse um Deus, ele era muito injusto. Aprendi o “Pai Nosso” e a “Ave Maria”. Sei de cor. Mas também aprendi a ficar calado nos natais em que as pessoas davam as mãos para rezar. Eu dava as mãos, mas não rezava. E junto com um amigo meu, que inclusive era filho de pastor, faltava às aulas de ensino religioso na escola.

                                      Alice: O que você sente quando alguém expressa sua crença?

                                      Fabiano: Se me incomodasse com isso, tava perdido, porque a maioria das pessoas acredita em alguma coisa, em algum Deus, pelo menos. E eu acho até que faz bem pra elas a crença. Acho que, no fundo, eu devo me incomodar com a minha falta de crença. Imagino que talvez não seja muito saudável não ter uma. Eu gosto da filosofia budista, mas tem certas coisas do budismo em que eu não acredito. E acho que me identifico mais com o politeísmo do que na crença em um único Deus todo poderoso. Por exemplo, no politeísmo grego e romano, tem o deus do céu, a deusa da terra, o deus do mar. No politeísmo indígena, tem o deus do sol, a deusa da lua, o deus do trovão. Ventos, tremores, marés, trovoadas a cada deus citado. Só que pra mim, não são entidades com forma humana. O ser humano é narcisista demais e imagina deuses à sua imagem e semelhança. Ou então, diz que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Esses deuses, pra mim, são o que são: céu, terra, mar, sol, lua, trovão. Ou seja, não são deuses. Tá vendo só, Alice? Nem quando eu tento, chego perto de uma crença. 

                                      Alice: Vamos pensar um pouco nesse incômodo que você diz ter por aquilo que você imagina ser sua falta de crença. – sugeriu Alice. 

                                      Fabiano: Você não acha que o meu problema de sono pode ter alguma relação com o meu ceticismo? Como uma perturbação do que as pessoas chamam de alma, de espírito… Falta de espiritualidade.

                                      Alice: Você tem, Fabiano! Você não precisa ter uma religião para ter uma espiritualidade. A etimologia da palavra “religião” aponta pra pelo menos três sentidos originais no latim: o culto aos deuses, a releitura dos textos sagrados e a religação com algo maior do que nós mesmos, que é interpretado como divino. Muita gente precisa da religião para se reconectar com esse algo maior. Mas essa conexão, que a gente poderia chamar de cósmica, ou se você preferir, com o universo, a natureza, você já tem.

                                      Pensamentos de Fabiano: A lembrança de um mini-documentário feito por minha irmã, na época de estudante, sobre diferentes religiões, em que ela começa falando justamente da palavra latina religare, umedece meus olhos. (breve silêncio)

                                      Alice: (quebrando o gelo) Você quer um copo d’água, Fabiano?

                                      Pensamentos de Fabiano: Faço que sim com a cabeça, sabendo que a água é só um pretexto para Alice me deixar sozinho por um instante, em silêncio, com meus pensamentos.

                                      (breve silêncio novamente)

                                      Fabiano: Imagina o seguinte, Alice. Pensa que esse diálogo que a gente tá tendo agora já tinha sido bolado por alguém e ele só acontece de fato quando uma pessoa lê num livro a nossa história que tinha sido criada por esse alguém, por um “criador”. E se a pessoa que estava lendo essa história fechasse o livro, eu deixaria de existir. Só voltaria quando outra pessoa lesse a mesma história. Não consigo suportar essa ideia, eu quero escrever eu mesmo a minha própria história. Entende por que eu não posso acreditar em Deus?

                                      Alice: O problema não é você não acreditar em Deus. É você achar que isso pode fazer mal pra você. 

                                      Fabiano: Eu não sei se faz mal. Sei lá, só levantei uma possibilidade. Sabe o que eu fico pensando às vezes? Por que os personagens fantásticos, os monstros, os semi-deuses, os bruxos, os super-herois fazem tanto sentido pras pessoas? Por que não fazem o mesmo sentido pra mim? Outro dia, uma amiga minha postou no facebook um relato sobre a história da relação dela com a literatura, uma crônica mesmo. O tipo da postagem que eu gosto e não aquela coisa das pessoas que se expressam naquela forma limitada. Em duas linhas, dá pra falar muita bobagem, mas nada que preste. É só isso o que elas têm a dizer, que concordam ou discordam da bobagem postada por outra pessoa. As pessoas consomem diariamente aquilo que não presta.

                                      Alice: Você estava falando do relato da sua amiga…

                                      Fabiano: Sim. A crônica dela me fez pensar na minha própria história com a literatura. Ela é professora de literatura e tem uma relação visceral com o que lê. Mas eu acho que a realidade já tem ingredientes suficientes para fazer a gente rir, chorar, pensar. A fantasia nunca fez sentido pra mim. Eu nunca entendi por que as pessoas precisam da fantasia e por que as narrativas tinham que ser metafóricas, não podiam ser diretas. 

                                      Alice: Você deve estar se referindo a uma fase mais madura. E na infância?

                                      Fabiano: Tem razão, devo ter gostado de certas coisas que vi quando eu era criança, tipo Guerra nas Estrelas, por exemplo. Sinceramente, não me lembro. Quando vi ET, eu achei a história bonita, mas juro que duvidava de que se houvesse vida fora da Terra, seria daquele jeito, não propriamente à nossa imagem e semelhança, mas bem parecido, com cabeça, dois olhos, braços, mãos, pernas e pés, só que verde.

                                      Pensamentos de Fabiano: Eu já era um adolescente com ideias um pouco mais claras na cabeça. Ou, pelo menos, era o que achava. Quando meu irmão via coisas pretensamente filosóficas que eu escrevia em um caderno, aconselhava-me a ler os filósofos. Primeiro, para saber se já não tinham dito antes aquilo que eu estava dizendo. Segundo, para ver se o que eu estava dizendo já não tinha sido derrubado por outros argumentos.

                                      Alice: Certamente, houve uma virada, uma mudança na passagem da infância para a adolescência. Você se lembra?

                                      Fabiano: Uma coisa que eu me lembro que marca essa passagem é a mudança do meu herói preferido. Deixou de ser o He-Man, do desenho animado, e passou a ser o MacGyver, de Profissão Perigo. Os dois tinham o mesmo dublador, a mesma voz. O MacGyver não tinha super poderes. Era um humano normal, que resolvia os problemas com sua inteligência. Fazia muito mais sentido pra mim, assim como Sherlock Holmes, que eu adorava. 

                                      Pensamentos de Fabiano: Não sei por que nem todo relâmpago que me vem à mente se traduz em algo que digo para Alice. Além do MacGyver, também adorava o Lula e o Juba, de Armação Ilimitada. Continuei.

                                      Fabiano: Depois disso, por não ver muito sentido na fantasia, sempre gostei de ler biografias, de assistir filmes baseados em fatos reais. E meu gênero preferido sempre foi o romance histórico. Meu preferido. Sabe o que eu fico pensando às vezes? De onde vem o gosto das pessoas?

                                      Pensamentos de Fabiano: E sem esperar resposta da Alice, porque percebo que ela quer ver onde vão dar minhas divagações, emendo:

                                      Fabiano: Eu sei que tem alguns gostos que são culturais. Por exemplo, gostar de pequi. Quem não é do cerrado, pode ser que nem conheça essa fruta. Sei que tem pessoas que influenciam os nossos gostos. Primeiro, nossos pais. Depois, algum professor que toca mais a gente. Mas dois filhos que escutam as mesmas músicas que os pais costumam ouvir, um pode se apegar mais ao Chico e o outro ao Caetano. De onde vem esse apego, essa identidade?

                                      Pensamentos de Fabiano: Uma amiga me perguntou, certa vez:

                                      Amiga: “Cê” sabe que quem gosta de café de verdade toma sem açúcar, né? 

                                      Fabiano: “Você gosta de café sem açúcar e eu gosto de café com açúcar! Dá licença?”.

                                      Pensamentos de Fabiano: Por que não dou a Alice os exemplos que relampejam em minha mente? Quando eu e minha ex-mulher ainda éramos namorados, ela quis que assistíssemos juntos a um filme que ela adorava. Devo ter gostado do filme mas não me emocionei como ela, não chorei. Por que ela criou a expectativa de que o filme causasse os mesmos efeitos em mim? Por que se decepcionou por eu não ter adorado? 

                                      Alice: Se eu te dissesse que pelo menos parte do que você se questiona tem origem na ancestralidade, na herança genética, eu sei que você não se convenceria facilmente, Fabiano. Você falou de coisas muito diversas. Vamos tentar nos concentrar na questão da fantasia – sugeriu Alice.

                                      Pensamentos de Fabiano: Eu não sei de onde vem o meu gosto pela música clássica. Não me lembro do meu pai ouvir. Só que eu detesto música contemporânea. Acho que é qualquer coisa, não faz sentido pra mim. O jazz por exemplo, que é considerado um gênero mais sofisticado, não é qualquer um que gosta. Eu gosto das canções do jazz. Mas não tenho a menor paciência pro improviso que os músicos acham o máximo. Acho um saco o improviso!

                                      Alice: Fabiano, isso tudo têm relação com o mistério da fantasia. E também têm relação com uma questão que já apareceu antes aqui nas nossas conversas e inclusive na sua fala de hoje sobre o tema da religiosidade. Você já me perguntou uma vez se eu fazia interpretação de sonhos. Acho que nós podemos tentar, juntos, conversar sobre seus sonhos, ver o que eles significam pra você. Tenta se lembrar do que você sonha. Tenta anotar alguns sonhos pra depois a gente conversar sobre eles. Pode ser?

                                      Fabiano: Sim, vou tentar lembrar e anotar. Posso só te fazer uma pergunta sobre aquela coisa da ancestralidade?

                                      Alice: Claro!

                                      Fabiano: Por que duas pessoas com as mesmas origens têm características tão distintas, em termos de gostos, de personalidade, de visão de mundo?

                                      Alice: Da mesma forma que uma pode ter os olhos do pai e a outra o sorriso da mãe, uma o temperamento da avó paterna, a outra o jeito de andar do avô materno, e mais uma infinidade de outras combinações possíveis. 

                                      Pensamentos de Fabiano: “OK, você venceu, batata frita!”, foi o que pensei, sem dizer nada. Apenas sorri.

                                      Você acabou de escutar o quinto episódio de “Meu divã interior”, um romance radiofônico que é um Projeto de Extensão PROEC (Pró Reitoria de Extensão e Cultura) realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. 

                                      Esse projeto consiste na adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado; ou seja, para um formato de áudio, que acabou virando este romance radiofônico. 

                                      Contado em série, com nove episódios, seguirá sendo postado semanalmente ao longo deste semestre. 

                                      Fique com a gente no sexto episódio, em que Fabiano parece preferir a yoga à psicanálise, mas é por um bom motivo. Uma grande paixão surge, dessa vez essa é a pessoa certa! Até o tarot confirmou, não tem como dar errado.

                                      Continue escutando a gente, até mais!

                                      • Ficha técnica:
                                      • Adaptação de roteiro, Direção e Produção:

                                        • Antero Vilela e Helena Chiste 
                                        • Atrizes / Atores e participações especiais, (por ordem de aparição):

                                            • Helena Chiste, como Alice
                                            • Antero Vilela, como Fabiano 
                                              • Sara Morais, como Mãe do Fabiano 
                                                • Anna Vilela, como Amiga
                                                • Trilha sonora original:

                                                  • Antero Vilela
                                                  • Edição, mixagem e finalização de áudio: 

                                                    • Vitor Muricy
                                                    • Apoio:

                                                      • LABJOR, Podcast Oxigênio do LABJOR e Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp 
                                                      •  

                                                        14 min
                                                      • #166 – Antropoceno: quando a humanidade é assunto da geologia

                                                        Antropoceno é uma palavra que se tornou mais popular nos últimos anos, uma vez que as ações humanas são centrais para determinar as mudanças climáticas observadas nesta era que vivemos, e que por essa razão recebe esta denominação. Para tratar desse tema, e como também o Antropoceno tem sido tratado pelas diversas ciências, em uma colaboração nem sempre muito amigável, o jornalista Yama Chiodi, entrevistou as pesquisadoras Ilana Wainer (USP), Susana Dias (Unicamp), Julia Guivant (UFSC) e o pesquisador Marko Monteiro (Unicamp). Este é o primeiro episódio de uma série que vai tratar de temas e pesquisas do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, sediado no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp. O episódio contou também com a narração de Luiz Henrique Leal.

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                                                        Yama Chiodi : Este episódio foi feito em parceria com o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, e com apoio da FAPESP por meio do programa Mídia e Ciência. 

                                                        Yama: Mudanças do clima sempre ocorreram, inclusive mudanças extremas. O que há nas mudanças climáticas do nosso tempo que as torna diferente de todas as outras? 

                                                        Luiz Henrique Leal: A resposta está na ponta da língua de muitos cientistas: a intensidade e a velocidade dessas mudanças. E tudo parece indicar que toda essa intensidade está relacionada com a presença humana na Terra. 

                                                        Yama: Eu sou o Yama Chiodi, jornalista de ciência do GEICT.

                                                        Luiz:  Eu sou o Luiz Henrique Leal e hoje falamos de Antropoceno. 

                                                        Yama: Você já ouviu falar de antropoceno? O termo tem ganhado popularidade nos últimos anos e parece ser uma oportunidade para discutir como ciência e política se misturam. Uma pesquisa no Google Trends, ferramenta que mostra o fluxo de pesquisa para um assunto ou termo ao longo do tempo, mostra que o termo em inglês teve uma notável crescente a partir de 2010, com seu maior pico em fevereiro de 2020. 

                                                        Luiz: As mudanças climáticas e o aumento da temperatura média do planeta são hoje fatos bem demonstrados e as principais causas são quase consensuais na comunidade científica: o aumento acelerado da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento, da produção de lixo e do consumo. Não restam dúvidas de que as atividades humanas têm força capaz de impactar o sistema terrestre. Mas as consequências das mudanças na terra não são apenas globais e, ano após ano, observamos consequências locais dessas mudanças. 

                                                        Yama: Calor recorde na Europa, frio recorde em São Paulo. Muita chuva, muita seca, muito calor, muito frio, pouca água, muita água, espécies se extinguindo massivamente e tudo só parece piorar. A extensão do impacto das atividades humanas no planeta é tão grandiosa que alguns cientistas das ciências da terra começaram a se perguntar se ele não seria grande o bastante para ser considerado geológico. É daí que surge a ideia de Antropoceno. Antropos, homem em grego, para substituir o Holoceno. Para a humanidade, uma época geológica para chamar de sua. 

                                                        Luiz: O conceito de Antropoceno interessa tanto a cientistas naturais como a cientistas sociais. Sua popularidade crescente é sinal de sua capacidade de capturar a atenção de parte da cultura popular e da opinião pública. 

                                                        Entre cientistas de todos os campos, contudo, o termo ainda é bastante controverso. 

                                                        Mas, você pode estar se perguntando, se não restam dúvidas que as mudanças climáticas são resultado das atividades humanas, por que o termo seria controverso? Essa é uma das perguntas que tentamos responder com a ajuda de especialistas que pesquisam as mudanças climáticas. 

                                                        Yama:  Em 2002, o químico neerlandês ganhador do Nobel,  Paul Crutzen, publicou um artigo na reconhecida revista Nature cujo título era “Geologia da humanidade”. Ele não foi o primeiro a usar o termo Antropoceno, mas foi a partir do trabalho dele que o termo se popularizou. Em termos gerais, Crutzen sugeriu que o impacto humano no sistema terrestre foi de tal forma relevante que nos últimos 300 anos houveram mudanças geológicas da ordem de milênios. Estes 300 anos coincidiram mais ou menos com a invenção da máquina a vapor e, portanto, com o início da revolução industrial. Mas foi no momento posterior à segunda guerra mundial que essas mudanças ganharam um contorno dramático. 

                                                        Luiz: Esse período, que Crutzen chama de Grande Aceleração, coincide com o nascimento dos chamados baby boomers. Um momento em que o aumento da população mundial, do consumo e da produção de combustíveis fósseis passa a ser acelerado e aumenta de modo descontrolado. Este impacto, ele argumenta, é suficiente para que seja decretado o fim do Holoceno. 

                                                        Yama: Pensando somente no impacto humano no sistema terrestre, mudanças climáticas e antropoceno parecem se confundir. Mas o conceito de mudanças climáticas passa longe de ser controverso como o de antropoceno na comunidade científica. Por que isso acontece? Seus maiores entusiastas acreditam que o conceito de antropoceno pode ser uma oportunidade sem precedentes de produzir ciência interdisciplinar.

                                                        Luiz: Entre cientistas da natureza, a controvérsia não é se humanos tiveram impacto no planeta, mas se esse impacto é de ordem geológica. Geólogos estão acostumados a lidar com o tempo na escala dos milhões, até bilhões de anos. Mesmo o holoceno contemplaria pelo menos os últimos 11 mil anos. Ainda que seja enorme a destruição de causa humana, será que faz sentido sugerir que os 300 anos propostos por Crutzen cumprem os requisitos materiais para serem uma época geológica?

                                                        Yama: Esta não é uma pergunta retórica. Foi exatamente o que eu perguntei para a Ilana Wainer, pesquisadora do Instituto Oceanográfico da USP, que pesquisa mudanças climáticas a partir da Antártida. 

                                                        Ilana Wainer: Olha só, eu acho que faz muito sentido. Deixa eu explicar o porquê. Se a gente for 500 mil anos lá na frente e a gente fizer um testemunho marinho ou for olhar um testemunho de gelo, a gente vai perceber que nessa época que a gente tá vivendo agora, o quê, um aumento desses combustíveis fósseis, um aumento da temperatura, aumento de lixo, aumento de plástico. Todas as coisas que estão relacionadas com a atividade humana. Então eu acho que faz muito sentido falar em antropoceno. Tudo que a gente faz, que a gente interferiu com o planeta é absolutamente evidente. Não tem como, se a gente for pensar daqui a 500 mil anos e olhar pra essa época agora, não tem como separar a atividade humana da atividade natural. E o antropoceno é exatamente isso. Olha, a gente tem certeza que é o homem que está causando todas essas transformações. 

                                                        Yama: A professora nos disse que o Antropoceno seria esse momento onde atividade humana e natural ficam inseparáveis. E é exatamente isso que sugere Paul Crutzen em outros de seus trabalhos. No título de um de seus artigos ele se pergunta se os humanos se tornaram mais destrutivos que as grandes forças da natureza.

                                                        Luiz: O cientista social Marko Monteiro, professor do Instituto de Geociências da Unicamp e especialista nos estudos sociais da ciência e tecnologia, também descreve o conceito de antropoceno em direção parecida, mas salienta seu aspecto controverso.

                                                        Marko Monteiro: Você tem uma pequena controvérsia se o Antropoceno existe. Se estamos numa era geológica específica que pode ser chamada de antropoceno. A gente, quando fala Antropoceno em termos mais gerais é pensando, bom, vivemos na era em que o ser humano causa impacto tão brutal que o ser humano tem a capacidade de causar mudanças no sistema terrestre em nível geológico. A discussão mais da cultura pop, do debate público, já podemos falar de uma era própria. Em termos geológicos, como eu falei, você tem que ter uma marcação geológica. Tem que ter uma camada sedimentar que possa ser nomeada. 

                                                        Yama: Fato é que, se as atividades humanas são tão centrais para o Antropoceno, é de se esperar que cientistas sociais também se interessem pelo conceito. Mas sua capacidade de gerar a interdisciplinaridade que seus propositores prometem tem sido alvo de controvérsia. O que está em jogo? Um diálogo mais profícuo entre entre ciências naturais e sociais ou apenas um maior número de disciplinas das ciências naturais?

                                                        Luiz: Colocando essa questão de lado por ora, é preciso reconhecer que as contribuições das ciências sociais para os estudos das mudanças climáticas antecedem bastante a controvérsia em torno do antropoceno. É o que me disse em entrevista a socióloga argentina Julia Guivant, da Universidade Federal de Santa Catarina, especialista no estudo da interdisciplinaridade na pesquisa ambiental. Apesar destas contribuições já não serem recentes, a interdisciplinaridade se mostra difícil. 

                                                        Julia Guivant: É a partir, mais ou menos, dos anos 90 que começou a ser mais intensa, mais significativa, a participação das ciências sociais na pesquisa sobre mudanças climáticas. Quando começaram a estar muito mais evidentes e identificados e reconhecidos pela comunidade acadêmica que as causas das mudanças climáticas não eram exclusivamente físicas, mas eram sobretudo provocadas pela ação humana. Então, as ciências sociais têm um papel central para entender, portanto, como se dá a influência humana na mudança climática. Mas, entretanto, é uma contribuição muito pouco reconhecida desde as ciências da terra, ou das ciências naturais ou das ciências do clima no geral, como se denomina. Elas viveram no controle da pesquisa sobre mudanças climáticas desde que começou e foram se transformando significativamente mas não necessariamente na direção de incorporar elementos das ciências sociais. E não vou dizer que a culpa é exclusivamente dos cientistas das áreas das ciências do clima. Há problemas também de comunicação desde o ponto de vista de cientistas sociais e os cientistas sociais entre si, também tem muita diferença.   

                                                        Luiz: Precisamos assumir de partida, portanto, que mesmo com um conceito mais sedimentado como o de mudanças climáticas, a cooperação entre cientistas sociais e naturais pode ser muito difícil. Os cientistas sociais que usam métodos quantitativos são os que encontram mais sucesso na cooperação com cientistas do clima, talvez por compartilhar uma mesma linguagem em torno da estatística e do uso de modelos computacionais.

                                                        Julia: Então, há, o que se diria usando uma terminologia de um sociológico o Weber, uma afinidade eletiva entre as ciências do clima que trabalham com modelagem e as ciências sociais mais quantitativas. Aí sim nós vemos que há mais diálogo. 

                                                        Yama: Outro problema mencionado pela Julia é a dificuldade de cooperação entre cientistas e os comunicadores da ciência. Muitas vezes ainda reina entre cientistas a chamada teoria do déficit, que, em termos gerais, consiste em assumir que a falta de pontes entre conhecimento científico e público seria a falta de conhecimento do público. Para esse problema, bastaria fazer a informação chegar… mas, infelizmente, não é tão simples assim. A informação correta pode chegar e as pessoas acreditarem nas fake news mesmo assim, alerta a professora Julia. O que mostra a importância das formas de comunicar ciência e como essa é uma parte fundamental da interdisciplinaridade.

                                                        Luiz: Parte do problema vem daí. Segundo a professora, há certa resistência de cientistas de todas as áreas em reconhecer a comunicação como especialidade capaz de fazer estas pontes entre pesquisa e público. Em muitos contextos, a mera divulgação da pesquisa pode não criar essas pontes e não ter os efeitos positivos esperados. 

                                                        Yama: Problemas antigos da cooperação entre ciências sociais e naturais reemergem com o antropoceno. Ainda assim, cientistas sociais mundialmente conhecidos como Bruno Latour e Anna Tsing defenderam que as possibilidades de cooperação colocadas pelo conceito não se limitam aos modelos computacionais. 

                                                        Luiz: Mas, para que haja avanço nesse sentido, vamos precisar entender que nem sempre quando se fala de Antropoceno, diferentes cientistas estão falando da mesma coisa. O nome guarda um princípio comum, mas é alvo de constantes disputas por seu sentido. Especialmente nas ciências sociais. 

                                                        Luiz: Quando vamos ao campo das humanidades e das ciências sociais, a controvérsia em torno do conceito é de outra grandeza. Embora o debate sobre qual o tamanho do impacto geológico também tenha importância, há muitas outras questões que levantam outros problemas. Há muitos antropocenos e sua popularidade veio acompanhada de muitas críticas. Para além do impacto geológico, cientistas sociais estão interessados em como o conceito captura o debate e muda as formas como pensamos sobre as mudanças climáticas. Algumas perguntas surgem e movimentam o debate teórico sobre o tema:

                                                        Yama: De que humano se está falando? É a espécie homo sapiens? Todos os humanos são igualmente responsáveis pelas mudanças do clima? As responsabilidades também serão divididas por igual? As mudanças climáticas afetam todos da mesma maneira? E se não, será que é outro recorte que seria mais apropriado para esse momento geológico, como o modelo de produção capitalista? Quando começou esse período geológico? Nas civilizações antigas? Nas plantations? No colonialismo? Na revolução industrial? No pós segunda guerra mundial? 

                                                        Luiz: Cada resposta para a origem dessa época geológica parece mudar a resposta sobre de qual humano se está falando e essa discussão importa muito para se discutir desigualdade e justiça no contexto de mudanças climáticas. 

                                                        Yama: Eu conversei com a Susana Dias sobre as controvérsias em torno do conceito. Ela é bióloga, mas está habituada a trabalhar na difícil interdisciplinaridade das mudanças climáticas. Isso porque é pesquisadora do Labjor, da Unicamp, coordenadora da rede latino-americana de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas, é editora da revista ClimaCom – Mudanças Climáticas e também líder do coletivo MULTItão. Ou seja, sua prática profissional é em grande medida voltada para pensar nas mudanças climáticas na interseção de artes, ciência e humanidades, e ela enxerga potências e riscos na noção de antropoceno. 

                                                        Susana Dias: Não é um conceito que está estabilizado, e talvez isso seja interessante. Não estar estabilizado. Eu gosto de pensar o antropoceno mais perto da Juliana Fausto, que vai problematizar essa noção de humano. A Juliana Fausto diz que o antropoceno é um regime de governo. Um problema de monocultura civilizacional. E vai localizar num regime de governo destruidor, nefasto, baseado no capitalismo e quem tem gerado, especialmente pra ela interessa muito pensar, essa 6a maior extinção de espécies. Não apenas a questão das mudanças climáticas. E aí no momento que a gente pensa que o antropoceno é um regime de governo, fica mais claro que não se trata de todos os humanos. Acho que o Latour fala de uma maneira bem bacana “nenhuma unidade é possível nessa noção de humano”. Eu penso que essa é a definição que mais me agrada hoje.  Pensar não que o antropoceno é uma era que os humanos são o centro de uma história, que agora os humanos ganharam essa dimensão de força geológica apenas. E é essa a questão, né? De pensar a potência política, ética e estética desse conceito. 

                                                        Luiz: Para Susana, é preciso recuperar outras formas de entender o antropoceno, para que a gente não fique somente com aquelas que colocam apenas a humanidade no centro do debate e não problematize que humanidade está em questão.  A questão de voltar o humano para o centro do debate é bastante problemática para as ciências sociais de modo geral, porque a história recente das humanidades foi fortemente impactada pelo combate aos discursos antropocêntricos, especialmente na ciência. Nesse sentido, propor um antropoceno poderia significar um retrocesso. 

                                                        Marko: Tem um debate interno das ciências humanas que tem a ver com esse descentramento do humano que vem desde pelo menos o Foucault, se não antes. Então não é um debate de agora. Mas ganha forma específica, ganha força nesse contexto. As críticas que eu conheço vão no sentido de que o termo antropoceno coloca o humano de volta no centro. O antropos volta a ser central e isso é um problema conceitual se a gente tá tentando com esse conceito falar de um descentramento do humano, de que o ser humano não é simplesmente separável dessas variáveis naturais, de fenômenos naturais. Que não é útil separar fenômenos naturais e sociais a priori. Você chamar de antropoceno, você pode facilmente recair na ideia do ser humano que causa impacto, não é? E separar ontologicamente o humano do não-humano, natural do social, etc. 

                                                        Yama: Isso que o Marko falou é uma contribuição importante do campo dos estudos sociais da ciência e tecnologia. Coisas sociais e naturais estão muito mais misturadas do que a gente costuma perceber. As mudanças do clima são um grande exemplo disso. Mas voltando ao Antropoceno, o conceito parece mesmo não estar estabilizado. Diante do risco de reforçar narrativas antropocêntricas, alternativas se acumulam, como reação. As noções de capitaloceno e de plantationceno, por exemplo, instrumentalizam as críticas à centralidade do humano e funcionam como uma forma de denúncia. Dessa perspectiva, a destruição geológica não é de origem propriamente humana, mas das práticas destruidoras que vieram com a ascensão do capitalismo e, no caso do plantationceno, da colonização europeia e da organização da agricultura à base de genocídios, monoculturas e da escravidão. 

                                                        Luiz: Para a professora Susana Dias, contudo, os diferentes nomes que os pesquisadores estão tentando dar para esse momento não são propriamente “alternativas”.

                                                        Susana: Os modos de nomear que estão surgindo, eu acho que eles não são alternativos ao antropoceno. Eu acho que eles estão junto com a noção de antropoceno compondo possibilidades de nomear o nosso tempo presente. Então capitaloceno, platationceno, por exemplo, são duas noções que pra mim mantém mais ou menos a mesma lógica do antropoceno que é a lógica do vamos dar um nome que denuncia as situações catastróficas que estamos vivendo.

                                                        Marko: O que eu acho interessante do capitaloceno, por exemplo, é você não colocar o ser humano no centro do debate teórico, metodológico, filosófico, mas colocar o capital, que é uma relação social, vamo dizer assim entre aspas, entre seres humanos, máquinas e uma divisão de atividades que foi extremamente poderosa para transformar o mundo e produzir o mundo que a gente habita e extremamente destrutiva. Então eu acho uma ideia fantástica que até renova a ideia a discussão de capitalismo, né?

                                                        Yama: No sentido de repensar o humano e as práticas capitalistas, Susana sugere que a noção de plantationceno é ainda mais interessante. 

                                                        Susana: Plantationceno traz, além do capitalismo, traz a questão da escravidão e as monoculturas, as plantations, então acho que é uma noção super potente pra pensar. 

                                                        Luiz: O fértil debate sobre nomear o nosso tempo, não se concentrou apenas em alternativas que, tal como o antropoceno, são denúncias. Outros nomes surgem para tentar lidar com o problema do antropocentrismo e mudar o olhar sobre como vamos encarar as catástrofes do nosso tempo. 

                                                        Yama: Uma alternativa mais filosófica é colocada pela pesquisadora estadunidense Donna Haraway, por exemplo, com o nome Cthulhuceno. A ideia dela é repensar o nosso tempo como presente continuado, em oposição a tempos geológicos, e na nossa conexão com a terra. Sai o antropos relativo ao humano e entra o ctnônico, relativo à terra, ao solo. Para ela, repensar nosso mundo passa por nos pensar mais como “terra”, como “húmus”, do que como humanos. Isso significa fazer justamente o caminho contrário do antropoceno. Ao invés de enfatizar o humano, sua proposta é enfatizar as relações multiespécie, porque o risco das catástrofes é compartilhado por todos os habitantes da Terra. Ainda há outros nomes em evidência, como o plantoproceno da antropóloga Natasha Myers, que propõe que nosso tempo presente precisa estar centrado onde surge a vida, o que a leva a dar essa centralidade para as plantas. Estas alternativas já operam numa outra lógica, como sugere a Susana Dias.

                                                        Susana: Então, são nomes que olham de uma maneira diferente, né? Eles não tão propondo uma denúncia. Eles tão propondo uma ação.  Assim como é o Vitaloceno, que é uma artista a Mariana Vilela, do Labjor Unicamp, ela propõe o Vitaloceno também passando por uma conexão com a noção de vida. Que… nos movimentaria. São nomes que partem da pergunta o que precisa nos movimentar nos próximos anos e não numa denúncia do que nos trouxe até aqui.  Porque o que a gente precisa é isso, né? Tornar o gesto de nomear parte do problema. Então eu  sinto isso, sinto que esses modos de nomear tão apresentando para nós criações de mundos. E também trazem alguns problemas de redução de mundos. A noção de antropoceno é uma noção que não apenas cria mundos, mas também reduz mundos e as críticas têm sido feitas nesse sentido, né? De tentar mostrar que essa noção tem limitações e por isso vão surgindo outras possibilidades. 

                                                        Yama: Outros nomes-denúncia e as alternativas que convidam para uma ação, contudo, não parecem ter sido capazes de competir com a força narrativa do antropoceno. A necessidade de criar termos comuns para a conversa interdisciplinar parece dar uma força desbalanceada para o antropoceno em comparação com suas alternativas. 

                                                        Marko: Quem se interessava ou já estava trabalhando nessa vertente mais inter ou transdisciplinar, eu acho que naturalmente se interessa por essa abertura que a discussão sobre antropoceno traz. Por outro lado, as pessoas não conseguem escapar do termo. Porque ele captura muito a imaginação então nos debates a gente vê essa dificuldade de você emplacar um novo termo. Eu acho que a crítica é importantíssima, mas não tem um outro termo que substituiu, na imaginação pública, digamos, né?

                                                        Luiz: Além das questões que o professor Marko Monteiro colocou, é preciso estar ciente que nem toda prática de pesquisa poderá ter tanta liberdade para a escolha de nomes. É o que me explicou a professora Susana Dias. Outra questão a se considerar é que para ela o antropoceno abre a possibilidade para falar de coisas que nem sempre é possível se falar quando se fala de mudanças climáticas, como mineração, racismo, extinção de espécies e tantas outras práticas destrutivas. 

                                                        Susama: Fico pensando assim, algumas pessoas, dependendo das suas práticas, elas podem escolher, ah eu vou usar essa, eu vou usar aquela. Isso é interessante. Você poder escolher, e poder criar outras. A Mariana, por exemplo né, essa liberdade de como artista criar uma nova maneira de nomear. Outras pessoas pelas suas práticas são forçadas a dialogar com determinados grupos. E, por exemplo, nós estamos ligados a grupos de climatologistas, engenheiros, agrônomos, e a gente é forçado a dialogar com eles, né? Então a gente pode até usar a noção de vitaloceno, plantoproceno, mas essas noções não vão criar uma possibilidade de diálogo com esses outros grupos. Então a noção de antropoceno para algumas pessoas é um encontro forçado. Você não pensa tão livre assim. Você é forçado, você é obrigado a manter o diálogo com essa noção e fazer com que dela proliferam outras possibilidades.  

                                                        Yama: A professora Julia Guivant até concorda que o conceito de antropoceno possa abrir possibilidades de diálogo entre cientistas naturais e sociais. Mas, talvez, o custo seja muito alto. 

                                                        Julia: O conceito é interessante porque, justamente, na medida em que você simplifica as diferenças entre as épocas, você pode pensar, bom, então isso pode ajudar ao diálogo entre disciplinas. Mas também, por outro lado, é tão geral que passa por cima de especificidades e leva a não ver assuntos que são altamente debatidos nas ciências sociais como a injustiça climática. Não? Quem é mais afetado, quem é menos afetado. Não somos todos afetados da mesma forma e por quê? E quem tem mais responsabilidades e quem tem menos responsabilidades. Quem deve ser apoiado e quem deve transformar suas práticas de consumo. Em termos de um diálogo assim geral, para mostrar o papel do ser humano na transformação do clima, vale. Mas, para pensar estratégias de mitigação ou de adaptação, mais imediatamente, precisamos pensar mais as especificidades de nossa época, de nossas regiões, de nossos locais. Os desafios são globais, sem dúvida, mas muitas das estratégias devem ser implementadas a nível local.  

                                                        Luiz: A professora também está descrente que o termo tenha grande importância para motivar a população a acatar sua denúncia. Mais uma vez, está em questão sua alta generalidade. Para ela, à exceção, talvez, de negacionistas que não estão convencidos na participação humana nas mudanças climáticas, são os apelos locais, de menor escala, que vão produzir as mudanças necessárias. É o que acontece nos bairros, cidades e rios que motiva a ação política ambiental da população, em sua opinião. 

                                                        Julia: Priorizo conceitos muito mais recortados. Muito mais singulares. Sem perder o geral. Mas o geral muitas vezes leva a pensar em leis naturais, não? Aplicadas à história da humanidade e isso é um risco enorme.  É importante construir conceitos e utilizar conceitos singulares sem perder uma perspectiva histórica, não? Mas não reduzir os conceitos a categorias geológicas exclusivamente. 

                                                        Luiz: Por fim, fica uma questão fundamental: até que ponto o potencial de cooperação compensa os riscos? Por um lado, parece mesmo ser um termo que permite algumas conversas entre cientistas e pesquisadores de diferentes áreas. Por outro, há riscos políticos e científicos no seu uso. 

                                                        Qual é o melhor caminho para se apostar em seguida, seja como cientista, seja como cidadão? Criar novos nomes? Disputar os sentidos do que pode ser o antropoceno? 

                                                        Yama: Dar nome para uma nova época geológica coloca muitas questões sobre as possibilidades de cooperação entre cientistas sociais, cientistas naturais, jornalistas, artistas, políticos e cidadãos em torno das mudanças do clima. Com o debate aberto, precisamos estar atentos sem deixar escapar os pontos comuns que nos trouxeram até aqui: as mudanças climáticas têm causas conhecidas e, se não podemos impedir seus terríveis efeitos, podemos reduzir danos. Se o conceito de antropoceno vai nos ajudar a reduzir danos é algo a se observar nos próximos anos. 

                                                        Yama: E você, acha que o conceito de antropoceno vai ajudar a gente nesse processo? Continue esse debate com a gente nas redes sociais do Oxigênio e no blog do GEICT. Acesse pelo site do Oxigênio em oxigenio ponto comciencia com m ponto br 

                                                        Um abraço e até a próxima. 

                                                        Esse episódio foi roteirizado, produzido e editado por Yama Chiodi. O Luiz Henrique Leal contribuiu como narrador e a supervisão foi feita pela Simone Pallone, coordenadora do podcast Oxigênio, e só pode ser realizado com o apoio da da FAPESP, através do programa Mídia e Ciência. 

                                                        Os sons utilizados foram retirados da base de loops do Garageband, exceto pela música Aerial, feita pelo Bio Unit e disponível para uso por licença Creative Commons. 

                                                        O Oxigênio tem o apoio da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp e do Serviço de Apoio aos Estudantes. 

                                                        Para nos acessar no Facebook e no Instagram, basta buscar por Podcast Oxigênio. 

                                                        34 min
                                                      • Meu divã interior (episódio 4)

                                                        Este é o quarto episódio de Meu divã interior, um romance radiofônico, que é um projeto de extensão PROEC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura) e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. 

                                                        Neste episódio, Fabiano se interessa por uma de suas alunas de pós-graduação, tudo parece correr bem até não correr mais. São muitas diferenças, era evidente que não daria certo. E além disso, sempre aparece um ex pra atrapalhar… Mas ele não desiste e continua a sua busca por um amor.

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Por indicação da Alice, procurei uma médica homeopata. Para tentar solucionar o problema do sono. Tentamos dois remédios diferentes, sem nenhum efeito. Não me lembro exatamente quando e por que decidi suspender as sessões de terapia com a Alice. Acho que tem a ver com a minha falta de persistência em relação a certas coisas. Eu tentei duas vezes o vestibular para arquitetura e não passei. Poderia ter insistido, mas desisti. Justamente depois do segundo malogro, ofereceram-me um cargo na cidade em que meus pais moravam e eu decidi voltar a morar com eles. Acontece o mesmo quando tento ficar com alguém. se não dá certo nas primeiras tentativas, eu não insisto. Se a pessoa não quer, não consigo acreditar que há alguma coisa que eu possa fazer para ela mudar de ideia. Por isso, não insisto. Além disso, não sou cachorro para ficar abanando o rabo até conseguir atenção. Como eu não via nenhuma mudança nas noites de sono e nem na perspectiva de ficar de novo com alguém, devo ter achado que a terapia não estava surtindo efeito. (pausa) Algum tempo depois, procurei outra psicóloga que já conhecia de longa data e que não via há muito tempo, a Nadini. Ela se dizia especializada em questões de relacionamento. 

                                                        NADINI: Para o seu problema de sono, indico melatonina, um remédio fitoterápico…

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: …Que também não surtiu nenhum efeito. Gosto dela como pessoa, mas como terapeuta, incomodou-me uma coisa que ela disse em uma das sessões. A pedido dela, eu estava contando uma das coisas que não deram certo no casamento. 

                                                        FABIANO: Tem vários outros motivos pra não ter dado certo, mas dá pra resumir a nossa relação pela falta de afeto, de carinho. Pra mim, essa é a base de um relacionamento. Se não fosse por mim, não havia afeto, não adiantava eu esperar isso dela. O exemplo que ela teve dos pais não era muito bom, eu nunca presenciei uma troca de carinho entre eles.

                                                        NADINI: É uma pena que você não tenha me procurado antes. Eu faço terapia de casal e poderia ter ajudado vocês no período difícil do relacionamento.

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: (irritado) Por que fazer aquele comentário sobre o leite que já estava derramado? Eu tinha contado só a parte mais suave do que não tinha dado certo, tinha coisa muito mais pesada na história.

                                                        FABIANO: (neutro) A última coisa que eu queria na vida era voltar a viver com ela. Só não digo que não tínhamos nunca que ter ficado juntos porque meu filho não existiria.

                                                        NADINI: OK. Você disse que não quer ficar sozinho. O que você tem feito pra não ficar sozinho? 

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: (irônico, agressivo) Retrucou Nadini, impassível, em sua saída pela direita de Leão da Montanha. (rugido de leão)

                                                        FABIANO: (segurando a irritação) Eu não sou muito de sair. Acabo só conhecendo novas pessoas nas aulas.

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Contei para Nadini sobre um quase namoro que tive com uma aluna minha de pós-graduação. Ela era professora em uma universidade particular. Mais uma Alice em minha vida. De todos os alunos da turma, a Alice era a que mais interagia comigo nas atividades extraclasse que eu propunha por e-mail e assim, fomos descobrindo afinidades em termos de visão de mundo (pausa). 

                                                        FABIANO: Você topa ir ao cinema comigo? 

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Perguntei um dia pra ela. Começou a resposta com um balde de água fria:

                                                        ALICE: Moro em outra cidade, Fabiano…

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Mas para minha surpresa, (ri) ela topou

                                                        ALICE: Mas com certeza gostaria, só peço que seja no sábado, depois do pôr do sol. 

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Demorei um tempo para descobrir o significado simbólico que aquilo tinha e eu desconhecia. Para alguns grupos religiosos, como os judeus e os adventistas, o sábado é um dia destinado a abrir mão de interesses pessoais, para dedicação completa a uma espécie de retiro espiritual, com orações, cantos e meditação. Quando nos encontramos na porta do cinema, achei que ela tinha exagerado na maquiagem. Por um lado, eu podia ver naquilo um sinal positivo, ela tinha dado importância ao encontro e achou que devia se arrumar. Por outro, o exagero, que me pareceu meio brega, podia indicar que as aparentes afinidades no campo das ideias não se estenderiam para todo tipo de coisa, como a preocupação com o visual, por exemplo. O que é normal, cada um é cada um. Depois do filme, ficamos conversando na praça de alimentação até os funcionários do shopping começarem a levantar as cadeiras e percebermos que tínhamos que ir embora, eles precisavam fechar. A conversa percorreu caminhos transcendentais, filosóficos, esotéricos, existenciais. A capacidade da Alice de transitar pelos mais diversos assuntos com desenvoltura e de sempre levar em consideração o meu ponto de vista de maneira incondicional, tanto nos momentos de concordância quanto nos de discordância, fazia-me pensar que a sua questão religiosa poderia não ser uma limitação para nós. Havia respeito mútuo e compreensão de ambas as partes. (pausa) Em retribuição ao convite para o cinema, ela me convidou para um concerto na sua cidade. Segundo ela, os músicos eram excelentes. Enquanto esperávamos o início do espetáculo, percebi que ela conhecia várias pessoas que chegavam para se acomodar na plateia. Deduzi que alguns seriam seus alunos. Peguei em sua mão. Ela suava. Mantive as mãos dadas assim mesmo, até começar o concerto. Era um espetáculo cantado, uma espécie de opereta. À medida que se desenrolava, percebi que o enredo era religioso. E pela reação da plateia em certos momentos, o evento musical parecia mais um culto. O público participava, em êxtase, numa espécie de catarse. Depois do concerto, conversamos um pouco sobre as atribulações sofridas pelo Saulo que virou Paulo. Embora eu não tivesse manifestado nenhum incômodo, era evidente que eu não tive nenhum tipo de reação catártica durante o espetáculo, como a maioria do público e, por isso, Alice tentou se desculpar por não ter me avisado antes que o tema seria religioso. Ela parecia muito preocupada em me convencer de que não era uma fanática religiosa. Baseado nas conversas que a gente já tinha tido, eu acreditava no que ela estava dizendo.

                                                        NADINI: Não tinha como dar certo. Mais cedo ou mais tarde, a questão religiosa geraria conflito

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: (guardando a raiva) Como ela podia dizer uma coisa dessas sem conhecer a Alice, baseada só no que eu estava dizendo? E não contei nem metade da história. 

                                                        Fomos de novo ao cinema e dessa vez a aparência da Alice estava bem mais próxima do seu natural, o que me agradava muito mais. Dessa vez, a conversa na praça de alimentação foi antes do filme. Falei do meu filho. Ela reagiu muito tranquilamente. (pausa) Um dia, ao final da aula, Alice perguntou se eu queria almoçar com ela e outros alunos. Eu tinha deixado um filé de frango descongelando em casa, mas aceitei assim mesmo. Agimos com certo distanciamento durante o almoço. Eu era só mais um no meio do grupo e, como sempre, exceto nos momentos de aula, mais ouvia do que falava. (pausa) Depois do almoço, falei a ela que iria para casa para passar roupa e se ela quisesse, podíamos ficar conversando enquanto isso. Ela topou. Depois de falarmos de assuntos genéricos, perguntei o que ela achava dos nossos encontros e da possibilidade de ficarmos juntos.

                                                        ALICE: Eu já pensei nisso. É uma possibilidade a se considerar.

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Pouco depois disso, ela sumiu por um tempo. Mandei mensagens, mas ela demorou bastante a dar sinal de vida. Depois, explicou o motivo do silêncio: um ex que não via há muito tempo, e que tinha tido uma importância muito grande para ela, reapareceu do nada, sem aviso prévio. Aquela reaparição repentina virou a cabeça dela do avesso. Ainda tivemos três encontros depois disso. O primeiro foi para assistirmos, junto com alguns alunos dela, ao filme Gravidade. O enredo pode não ser lá essas coisas, mas as imagens do espaço são fantásticas. Nesse ponto, todos concordaram. Gente boa, aquela turma. E pelo jeito, também simpatizaram comigo. O segundo encontro foi um almoço que ela ofereceu para mim em sua casa. Alice já fazia planos para o doutorado. Conversamos sobre isso e sobre a possibilidade de eu fazer uma viagem com meu filho, mas eu não tinha tanto tempo disponível. Ela contou que esteve e ainda estava dividida desde o retorno do ex. Ele iria trabalhar no exterior e propôs que ela fosse com ele. Alice era muito orgulhosa da carreira que estava construindo e não queria largar tudo para viver uma aventura incerta. Ainda assim, estava dividida, mas disse que me escreveria por e-mail. Não escreveu. Eis que, então, dois meses depois recebo um e-mail gigantesco em que ela abria toda a sua alma, se despia como mulher, contava boa parte da sua história com o ex e, entre milhares de outras coisas, fazia perguntas sobre nós dois, eu e ela, o que eu achava, o que eu sentia. E dizia que eu tinha sido um tolo de não tê-la beijado e que se tivesse feito isso, talvez ela não tivesse ficado tão dividida quando o ex reapareceu. Fiquei um período atordoado, digerindo tanta informação. Uma resposta à altura para aquele e-mail gigantesco demandava um tempo de dedicação que eu não tinha tanto de sobra naquele momento. Além do mais, se ela não tinha cumprido a promessa de escrever, alguns dias de atraso na minha resposta não seria tão grave assim. Mas o ser humano age com dois pesos, duas medidas, e convence a si mesmo de que os pesos são iguais. Quando mandei uma mensagem sugerindo que seria melhor a gente conversar pessoalmente, Alice achou que devia tratar minha mensagem, que não demandava tanta reflexão assim, da mesma forma que – na interpretação dela, evidentemente, – tratei o seu gigantesco e-mail, com silêncio. Sem pensar que seu silêncio anterior havia sido ainda maior. Dali em diante, foram só desentendimentos e falhas de comunicação. Até ela decidir romper com qualquer tipo de relacionamento comigo. Uma das coisas que eu teria dito a Alice, caso ela tivesse dado uma chance, é que a fila anda, muita água já tinha rolado e eu estava, naquele momento, apaixonado pela minha professora de yoga. Não fazia sentido eu ficar tanto tempo parado, esperando que a história dela com o ex desse errado. E eu não sou egoísta a ponto de interferir na história dos dois, que tinha uma evidente importância para ambos, só para satisfazer o meu interesse pessoal. Desde que ela havia falado da volta dele e do quanto ele tinha sido importante para ela, eu só via a Alice como amiga e me relacionei com ela esse tempo todo como amiga. A outra coisa que eu teria dito é que ela também tinha sido uma tola de não ter me beijado. E se isso tivesse acontecido, não seria garantia nenhuma de que as coisas teriam sido diferentes quando o ex reapareceu. Sobre o beijo não ter acontecido, acho, sinceramente, que nenhum dos dois queria tanto assim. O primeiro encontro foi iniciativa minha; para mim, a coisa acontece quando as duas pessoas querem que aconteça. E digo isso não como uma utopia romântica. Antes de me casar foi a mesma coisa, minha sina é que sempre aparece um ex para atrapalhar tudo. Por que não luto em nome de um sentimento? Ou melhor: por que não lutam por mim? Por que eu tenho que lutar? 

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Tive outra experiência com uma aluna da pós-graduação, a Meire. Embora tenha sido muito mais breve e menos intensa do que essa com a Alice, foi profundamente traumática para mim. A ponto de eu não querer mais me envolver com alunas. Mas um dia, numa das aulas, pesquei no ar uma conversa sobre novela e me aproximei do grupo da Meire, onde o assunto surgiu. Ninguém procurou disfarçar, deviam me conhecer como o professor bonzinho, que não se preocupa com aquele tipo de transgressão. Dei meu pitaco sobre a parte que ouvi da conversa, comentando o capítulo a que eles estavam se referindo. 

                                                        MEIRE: Aí, professor! Noveleiro, hein! Quem diria?

                                                        FABIANO: Eu vejo só essa. As novelas das oito costumam ser muito dramáticas. E as das seis são muito água com açúcar. As novelas das sete sempre foram mais bem humoradas, mais alto astral. 

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Sempre me incomodei com os estereótipos do tipo futebol é coisa de homem e novela é coisa de mulher. Como um homem e uma mulher vão ter o que se dizer um ao outro se as coisas entre eles forem tão excludentes assim? Adoro saber que uma mulher gosta de futebol e não vejo mal nenhum em um homem gostar de novela. Em outra dessas aulas, a dispersão do grupo da Meire girava em torno de questões feministas. Fiz uma provocação: 

                                                        FABIANO: Acho ótimo que as mulheres lutem por igualdade de direitos, mas elas também têm privilégio em determinadas situações.

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Meire olhou incrédula para mim e eu expliquei, apontando para ela: 

                                                        FABIANO: Você, por exemplo, pode mostrar suas belas pernas sem problema, mas eu, quando fui aluno desse mesmo curso aqui, fui impedido de vir de bermuda, num baita calor de verão. Acontece o mesmo nos tribunais, as mulheres podem ir de saia, mas os homens não podem ir de bermuda. Eu acho isso uma discriminação.

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Ela estava de short. Os outros alunos do grupo pareceram achar graça no meu comentário. Meire não. Ainda assim, com minha participação na conversa, ficamos mais próximos. Ela aceitou minha amizade no Facebook. (barulhinho de aceitar no face) E eu a elegi como minha representante junto aos alunos durante um período de greve na universidade. Se eles decidissem aderir à greve, mesmo que os professores do meu departamento não aderissem, eu seguiria a decisão dos alunos. O semestre estava quase no fim e eu imaginei que seria muito provável que não a visse mais depois do fim das aulas. Por isso, sugeri de fazermos alguma coisa juntos. 

                                                        MEIRE: Hmm, bacana. Olha, eu vou pensar, tá? 

                                                        Depois, mandou uma mensagem convidando-me para participar de um debate sobre cortes de bolsas da Capes. (som de mensagem enviada) Não era bem isso o que eu tinha sugerido. Agradeci, dei uma desculpa e não fui. Ouvi no rádio o anúncio de uma peça de teatro sobre o Martin Luther King, uma das figuras que mais admiro. Perfeito! Uma ativista não poderia recusar um convite para uma peça com esse tema! Mas recusou. Fui sozinho. Fiquei encafifado com aquela recusa. Em nossas trocas de mensagens seguintes, depois de uns dias, insisti em saber o real motivo. 

                                                        MEIRE: Você é machista mesmo, Fabiano! Eu sabia!

                                                        PENSAMENTOS DE FABIANO: Excluí o perfil dela do meu Facebook na mesma hora, sem responder nada. E descobri que ela passou a me seguir. Aprendi que era possível bloquear as pessoas. Bloqueei a Meire. Muito tempo depois, fiquei pensando que a acusação de machismo talvez não fosse pelo convite para o teatro. Pode ser que ela já me achasse machista e, por isso, recusou o convite. Mas por que eu era machista? Por ter dito que ela tem belas pernas? Por dizer que os tribunais discriminam quem pode e quem não pode mostrar suas pernas? Não suporto fundamentalismo! Não tenho e nem quero ter paciência com pessoas radicais! De gente louca, eu quero distância!

                                                        Você acabou de escutar o primeiro episódio de “Meu divã interior”, um romance radiofônico que é um Projeto de Extensão PROEC, Pró Reitoria de Extensão e Cultura e realizado por alunos do curso de Artes Cênicas da Unicamp. Esse projeto consistia na adaptação do romance homônimo, escrito por Rodrigo Bastos Cunha, para ser escutado; ou seja, para um formato de áudio, que acabou virando este romance radiofônico.

                                                        Contado em série, com nove episódios, seguirá sendo postado semanalmente ao longo deste semestre.

                                                        Fique com a gente! No próximo episódio Fabiano dará continuidade às suas sessões de terapia com Alice. Ele volta à sua infância e reacesa memórias que talvez interfiram na vida que ele leva hoje. Alice sabe quais perguntas fazer.

                                                        Até logo.

                                                        Ficha técnica:

                                                        Adaptação de roteiro, Direção e Produção:

                                                        Antero Vilela e Helena Chiste

                                                        Atrizes / Atores, (por ordem de aparição):

                                                        Alice Persson, como Nadini
                                                        Antero Vilela, como Fabiano
                                                        Ana Clara Libman, como Alice
                                                        Mariana Lobo, como Meire

                                                        Trilha sonora original:

                                                        Antero Vilela

                                                        Edição, mixagem e finalização de áudio:

                                                        Vitor Muricy

                                                        Apoio:

                                                        Labjor, Podcast Oxigênio e Secretaria Executiva de Comunicação, da Unicamp

                                                        22 min

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                                                      230 Listeners

                                                      Escafandro by Rádio Escafandro

                                                      Escafandro

                                                      41 Listeners

                                                      História FM by Prof. Dr. Icles Rodrigues

                                                      História FM

                                                      34 Listeners

                                                      O Assunto by G1

                                                      O Assunto

                                                      168 Listeners

                                                      WW – William Waack by CNN Brasil

                                                      WW – William Waack

                                                      5 Listeners

                                                      Ciência Suja by Ciência Suja

                                                      Ciência Suja

                                                      19 Listeners

                                                      BBC Lê by BBC Brasil

                                                      BBC Lê

                                                      14 Listeners

                                                      Rádio Novelo Apresenta by Rádio Novelo

                                                      Rádio Novelo Apresenta

                                                      104 Listeners

                                                      A Hora by UOL

                                                      A Hora

                                                      14 Listeners

                                                      IA Sob Controle - Inteligência Artificial by Alura - Hipsters Network

                                                      IA Sob Controle - Inteligência Artificial

                                                      3 Listeners