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Trump, Mamdani e a política do deboche


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Ao rir de ser chamado de “fascista”, Trump esvaziou a crítica e reafirmou a lógica em que política e entretenimento se confundem – e em que a ameaça autoritária avança sob a capa da piada.

Thomás Zicman de Barros, analista político

Na última sexta-feira, 21 de novembro, assistimos a uma cena que sintetiza muito do que significa viver numa era em que a extrema direita aprendeu a rir de tudo, inclusive do próprio fascismo. O prefeito-eleito de Nova York, Zohran Mamdani, viajou a Washington para seu primeiro encontro com o presidente Donald Trump. Ao final, já diante da imprensa, uma jornalista lembrou que Mamdani o chamara de “fascista”. A reação de Trump, risonho e zombeteiro, revelava algo profundo: a capacidade da extrema direita de converter a política em entretenimento e de usar o humor como arma para neutralizar qualquer crítica.

Há algum tempo, venho insistindo que a extrema direita conseguiu monopolizar a ideia de transgressão. No plano das promessas, a transgressão aparece como ruptura do possível: a capacidade de imaginar outro mundo, ainda que distópico, mas diferente do presente. É uma ironia da história que seja justamente a extrema direita, com seu projeto regressivo, quem hoje ofereça a fantasia de transformação. Já o campo democrático se retraiu. Em vez de transformar a democracia, limita-se a defender a cidadela da democracia liberal, sem encarar seus próprios desfuncionamentos, sem reconhecer que muitos dos “bárbaros” à sua porta são, na verdade, produtos das falhas estruturais dessa mesma fortaleza sitiada.

Esse desequilíbrio também tem um lado teatral. Enquanto candidatos democráticos se apresentam como impecavelmente comportados, a extrema direita assume a rebeldia: gestos provocadores, grosseria, insultos, rompimentos deliberados das regras de civilidade. Trump domina esse repertório: interrompe jornalistas, humilha adversários, testa tabus e observa o que permanece de pé. Usa palavrões, insinuações racistas, piadas misóginas. Tudo isso encenado diante das câmeras para conquistar atenção, impor seu discurso.

Zohran Mamdani também transgride, mas em outro registro. Imigrante, muçulmano, eleito por uma coalizão jovem e diversa, ele rompeu com normas do establishment ao driblar a mídia tradicional e mobilizar redes sociais para amplificar vozes que geralmente permanecem à margem da política. Sua transgressão é inclusiva: abre a política a novos atores, expande quem pode ser ouvido. É justamente o contrário da transgressão de Trump, que reanima velhas hierarquias, revive preconceitos e devolve centralidade a grupos que haviam sido empurrados ao subterrâneo da política.

É por isso que o momento do “fascista” se tornou tão revelador. Ao ser questionado sobre declarações antigas, Mamdani tentou responder com polidez, contextualizando. Trump o interrompeu, rindo, e sugeriu que ele simplesmente dissesse “sim”. Brincou com a acusação. Mamdani, visivelmente desconfortável, sorriu sem graça. Trump, satisfeito, insistiu que era mais simples assim e que ele não se importava. O presidente, que não gosta de capachos, disse ainda que via em Mamdani um líder “promissor”.

Toda a cena teve algo de cômico. Mas é aí que mora o perigo – e a esperteza de Trump. Tanto Trump quanto Mamdani usam do humor, mas Trump o usa de uma forma específica, típica da extrema direita. Ele encarna como poucos o que a pesquisadora brasileira Paula Diehl chama de “politainment”, essa fusão entre política e entretenimento que embaralha a fronteira entre realidade e ficção, entre o sério e a brincadeira. Como observa a produtora cultural Alessandra Orofino, trata-se de um humor ambíguo, que permite flertar com discursos autoritários sem nunca assumi-los frontalmente. É o mesmo mecanismo que vimos no gesto nazista de Elon Musk, seguido do contra-ataque de que seus críticos “estão vendo coisa onde não tem”. É um grande jogo de “apito de cachorro” no qual quem precisa entender, entende, e quem denuncia vira o chato que não sabe rir.

O riso, aqui, não é inocente: é estratégia. Ao rir da acusação de fascismo, Trump desarma a palavra, esvazia seu peso, dissolve sua gravidade num espetáculo farsesco. E, no entanto, a última década mostrou que o perigo é real: a extrema direita cresceu atacando imigrantes, precarizando direitos, corroendo garantias democráticas, limitando liberdades reprodutivas, estimulando a homofobia e protegendo privilégios econômicos consolidados. Rir disso tudo é contribuir para a normalização do intolerável.

O encontro entre Mamdani e Trump simbolizou o contraste entre dois outsiders que caminham em direções opostas. A política exige realismo, e o prefeito de Nova York precisa manter canais abertos com o presidente, sobretudo se pretende avançar uma agenda de reformas profundas. Mas é preciso evitar a acomodação. Nas fotos oficiais do encontro, Trump aparece rindo, satisfeito consigo mesmo. Já Mamdani, habitualmente expansivo, aparece contido, quase sério. Talvez tenha sido melhor assim. Porque rir diante do fascismo, mesmo em sua versão farsesca, é arriscar-se a rir com ele, e dissolver a fronteira entre farsa e tragédia.

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