Vida em França

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Vida em França episodes

  • Alain Delon: “A força magnética” e “tenebrosa” do cinema moderno

    Alain Delon foi um ícone da história da 7ª Arte. Trabalhou com Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Louis Malle, René Clément, Jean-Pierre Melville, Jean-Luc Godard, Romy Schneider, Monica Vitti, Claudia Cardinale, Jean-Paul Belmondo, Jean Gabin e tantos outros. Foi considerado "o homem mais bonito da história do cinema”, mas tinha uma personalidade reaccionária que nunca escondeu. Guillaume Bourgois, professor de Estudos Fílmicos, falou-nos sobre a “força magnética” e “tenebrosa” de Alain Delon.

    Alain Delon foi descrito como “o homem mais bonito da história do cinema” pela revista New Yorker, enquanto o jornal Corriere della Sera fala de uma lenda e de "estrela bela e maldita”. O El Pais recorda uma “aura incomparável” e “um ícone do cinema europeu conhecido pelo seu talento e pelo seu poder de sedução”, mas não esquece os seus comentários machistas e homofóbicos, nem a sua amizade declarada com a figura da extrema-direita francesa Jean-Marie Le Pen.

    O francês, que morreu aos 88 anos, entrou na 7ª Arte “por acidente” – dizia ele - e acabou por ser um dos seus protagonistas mais lendários. Foi actor em cerca de 90 filmes, foi realizador, produtor e até argumentista. Trabalhou com os melhores e maiores realizadores do seu tempo: Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Louis Malle, René Clément, Jean-Pierre Melville, Alain Cavalier, Jean-Luc Godard. A sua história também cruzou os maiores actores de então: Romy Schneider, Monica Vitti, Claudia Cardinale, Jean-Paul Belmondo, Jean Gabin. As suas personagens integram o panteão de símbolos universais: Delon foi "O Leopardo", "Rocco", "Monsieur Klein", "O Samurai" e tantos outros.

    Neste programa, Guillaume Bourgois, professor de Estudos Fílmicos na Universidade de Grenoble, falou-nos sobre “a força magnética” e “misteriosa” de Alain Delon, um autodidacta que se tornou num dos monstros sagrados do cinema francês e europeu.

    Alain Delon foi um actor e uma figura importantíssima da história do cinema, especialmente da história do cinema moderno, desse novo cinema que aparece nos anos 60. Foi, sobretudo, graças a Visconti que o mundo ficou a conhecer o Alain Delon. Ele convidou Alain Delon a participar no “Rocco e i suoi fratelli” que é um filme extraordinário. Eu acho que foi mesmo o Visconti que descobriu a força magnética, quase aristocrática, que tinha o Delon na interpretação dele, na intensidade dos seus olhares, dos seus gestos. Depois, grande parte dos cineastas mais importantes foram sempre buscar essa energia, essa dimensão tenebrosa, misteriosa, enigmática que tinha o Delon e que fez com que ele pudesse ter essas interpretações extraordinárias nos papéis mais famosos.

    Alain Delon foi um artista que “fez avançar o cinema moderno”, mas também construiu “uma personalidade mediática extremamente egocêntrica”. O actor falava de si na terceira pessoa e inscreveu-se numa “tendência reaccionária da história da indústria cinematográfica francesa que sempre existiu de contestação dos meios de esquerda que estavam a tentar utilizar o cinema para desenvolver as suas ideias”. Defendeu, várias vezes, as posições do amigo Jean-Marie Le Pen, líder da extrema-direita francesa, e nunca refreou comentários machistas e homofóbicos.

    “Nos anos 90, essa legitimação [da extrema-direita] não existia e houve figuras que participaram francamente e de forma assumida para essa legitimação. Alain Delon foi uma delas, outra foi Brigitte Bardot. É sempre importante relembrarmos isso quando se fala do Alain Delon”, acrescenta o professor de Estudos Fílmicos.

    Neste programa, oiça a entrevista a Guillaume Bourgois sobre quem foi Alain Delon, quais foram os principais filmes, papéis e o legado que ele deixa para o mundo do cinema.

    15 min
  • B-Girl Vanessa: «Dei o meu melhor para representar Portugal no breaking»

    Os Jogos Olímpicos que decorreram em Paris, a capital francesa, foram palco de uma nova modalidade, o breaking.

    Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, o breaking foi introduzido como prova oficial em Paris em 2024. O breaking é uma prova de dança urbana conhecida como break dance.

    Uma competição que poderá ser a primeira e a última por enquanto, visto que não está no programa de 2028 em Los Angeles nos Estados Unidos.

    Em Paris, a prova arrancou a 9 de Agosto no Parque Urbano da Praça da Concórdia com as mulheres a estrearem o breaking nos Jogos Olímpicos.

    Uma portuguesa estava presente, a "B-Girl" Vanessa. A atleta lusa acabou por perder os três ‘battles’ (confrontos), terminando no último lugar na primeira fase, uma fase de grupos com quatro atletas em cada agrupamento.

    No primeiro embate, Vanessa perdeu frente a India, atleta dos Países Baixos, sendo derrotada nas duas rondas com um total de 3 votos contra 15.

    No segundo confronto, a portuguesa foi derrotada pela atleta da China, 671, nas duas rondas com um total de 4 votos contra 14.

    Por fim, no terceiro e último ‘battle’, Vanessa perdeu perante a norte-americana Sunny nas duas rondas com um total de 5 votos contra 13.

    Isto significa que em cada embate, os juízes preferiram a actuação das adversárias.

    Em declarações à RFI, Vanessa lembrou que não foi fácil estar presente na prova e afirmou que deu tudo nos ‘battles’.

    Em relação ao espectáculo apresentado, a portuguesa admitiu que o público estava um pouco longe das atletas, isto apesar de estar feliz com a estreia da prova.

    Vanessa ficou, no entanto, maravilhada com a experiência em Paris, com o ambiente em torno das Olimpíadas.

    O breaking não estará presente nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 2028, no entanto, há a esperança que, após a experiência em Paris, a prova regresse por exemplo em Brisbane em 2032 na Austrália.

    Para a B-Girl Vanessa, o breaking é uma modalidade que tem provas todos os meses, afirmando que acredita que um dia regresse aos Jogos Olímpicos porque é uma modalidade que traz algo diferente às Olimpíadas.

    Vanessa, a atleta portuguesa, terminou no 13° lugar na prova feminina de breaking. A vencedora foi a japonesa Ami, que derrotou na final a lituana Nicka, sendo que o terceiro lugar foi conquistado pela chinesa 671.

    Do lado dos homens, o canadiano Phil Wizard triunfou, à frente do francês Dany Dann e do norte-americano Victor.

    Os Jogos Olímpicos de Paris terminaram a 11 de Agosto, mas os Jogos Paralímpicos começam a 28 de Agosto igualmente na capital francesa e serão para acompanhar nas antenas da RFI e no nosso site rfi.fr/pt.

    9 min
  • "Até eu tive uma lágrima no olho com a actuação da Celine Dion", conta presidente da Torre Eiffel

    A Torre Eiffel está no centro das celebrações dos Jogos Olímpicos de Paris e continua a receber visitantes mesmo com provas a decorrer a escassos metros deste monumento emblemático. Manter a Torre Eiffel aberta durante este evento e fazê-la brilhar para promover Paris durante estes Jogos Olímpicos sempre foi o objectivo de Patrick Branco-Ruivo, presidente da sociedade que gere a Torre Eiffel.

    Durante os Jogos Olímpicos, o Desporto é rei, mas a Torre Eiffel, durante esta edição em Paris é definitivamente a rainha. Desde o lugar de destaque dado em toda a imagem visual deste grande evento à apoteose na cerimónia de abertura em que Celine Dion cantou para milhões de pessoas a partir do primeiro andar desta grande dama de ferro, a Torre Eiffel voltou a invadir o imaginário de milhares de milhões de pessoas em todo o Mundo.

    A Torre Eiffel vai mesmo para casa com todos os campeões olímpicos, já que dentro de cada medalha olímpica está um fragmento deste monumento. Em entrevista à RFI, Patrick Branco-Ruivo, presidente da sociedade que gere a Torre Eiffel, explicou o papel deste monumento nos Jogos Olímpicos e respondeu à questão de um milhão de dólares, ou seja, de onde vêm os fragmentos que estão dentro das medalhas dos atletas – e não se preocupe, a Torre Eiffel não foi danificada para produzir as medalhas!

    "Temos um armazém fora de Paris a mais ou menos 100 quilómetros e é um sítio secredo onde temos ainda peças antigas da Torre Eiffel, porque quando fazemos as obras na torre, às vezes temos que retirar umas partes, mas acontece raramente. Há cerca de dois anos, o Comité de Organização dos Jogos Olímpicos veio com essa ideia e a ficámos logo entusiasmados com a ideia, já quetambém estávamos envolvidos com o projecto dos Anéis Olímpicos também, que marca estas Olimpíadas. A imagem da Torre com os anéis é a imagem que vai ficar dos Jogos Olímpicos. Então, isso é um prazer trabalhar com o comité de organização e desde o início fomos associados e até ao fim com a cerimónia de abertura, mas com uma confidencialidade muito importante", contou Patrick Branco-Ruivo.

    Para o presidente da Torre Eiffel, era essencial que o monumento continuasse aberto durante toda a duração dos Jogos Olímpicos para que franceses e turistas vindos de fora do país pudessem visitar este emblema parisiense.

    "Eu, desde o início, insisti muito para a Torre ficar aberta durante as provas, porque, por razões de segurança, não era simples de garantir uma acessibilidade com todas as provas à volta da Torre quer seja com o vólei de praia ou um bocado mais longe o judo e a luta greco romana, mas também as provas no Rio Sena, por exemplo, a maratona vai tudo passar à beira da Torre. Isto dá-nos uma imagem fantástica de Paris que fica uma cidade fantástica e tão bonita. Nunca vi essa cidade assim tão bonita e isso é o resultado de um trabalho feito aqui na Torre Eiffel", contou.

    E como manter o segredo sobre a actuação de Celine Dion na cerimónia de abertura? É simples, mantendo esta informação fechada a sete chavez e até dando um nome de código à diva canadiana.

    "As minhas equipas é que trabalharam muito para o sucesso desta cerimónia. Preparamos esta cerimónia já há mais de um ano e meio e estávamos com um código especial para não nomear a pessoa. Há mais ou menos um mês, não sabíamos quem era a artista? Até as pessoas das minhas equipas, encarregados da cerimónia não disseram quem era. E eu não quis saber porque o que foi importante foi também esse efeito surpresa. Então os jornalistas querem sempre ter assim um scoop. Querem sempre saber o que se vai passar. Não souberam e acho que era importante para criar uma emoção. E esse efeito surpresa ao fim da cerimónia, com a chama a subir e depois a Celine Dion na Torre Eiffel. Toda a gente ficou completamente entusiasmada e muita gente, incluindo eu, teve uma lágrima de emoção quando viu assim a Torre Eiffel assim tão bela, com a força da Celine Dion e com a força dos anéis olímpicos", concluiu o gestor de origem portuguesa.

    11 min
  • Portugueses brilham em Paris apesar das polémicas

    Paris, a capital francesa, acolhe desde a passada sexta-feira 26 de Julho, os Jogos Olímpicos, o maior evento desportivo do Mundo.

    Uma das provas mais polémicas era o triatlo, visto que a prova conta com uma parte de natação que tinha como palco o rio Sena.

    Desde a cerimónia de abertura, com chuva torrencial à mistura, os triatletas não tinham treinado e a prova masculina tinha sido adiada de terça para quarta-feira, isto devido aos níveis de poluição do Rio Sena.

    As amostras concluíam que os atletas não podiam entrar nas águas parisienses devido também ao nível alto de bactérias.

    Vários factores que dificultaram o decorrer da prova, mas na quarta-feira, as mulheres como os homens foram autorizados a dar o pontapé de saída do triatlo, que conta com natação, ciclismo e atletismo, isto devido a níveis ‘aceitaveis’ para a prática da modalidade no Rio Sena.

    Do lado masculino, o vencedor foi o britânico Alex Yee, enquanto os portugueses arrecadaram dois diplomas olímpicos, terminando no 5° lugar para Vasco Vilaça e no 6° para Ricardo Batista.

    Em entrevista à RFI, Vasco Vilaça admitiu estar feliz com o resultado obtido, ele que chegou exausto e até teve de ser evacuado de cadeira de rodas da linha de chegada.

    Igualmente ao microfone da RFI, Ricardo Batista afirmou que a prova não foi fácil, mas mostrou-se satisfeito por ter acabado a prova com o seu colega de equipa, Vasco Vilaça.

    Do lado das mulheres, a vencedora foi a francesa Cassandre Beaugrand, enquanto as portuguesas terminaram respectivamente no 11° lugar para Maria Tomé e no 45° posto para Mélanie Santos.

    Em entrevista à RFI, Maria Tomé, que não estava à espera de alcançar este resultado, realçou sobretudo o facto da prova ter decorrido no Rio Sena.

     

    Igualmente ao microfone da RFI, Mélanie Santos estava decepcionada com a sua prova e já apontava as baterias para a prova de segunda-feira, a estafeta mista por equipas.

    A selecção portuguesa na estafeta mista por equipas vai contar com as duas atletas femininas e os dois masculinos.

    No entanto a polémica em torno da qualidade da água do Rio Sena vai voltar à ribalta para a prova que decorre na segunda-feira 5 de Agosto, e também antes das provas de águas abertas, uma maratona de 10 quilómetros de natação que vai também decorrer nas águas parisienses, a 8 de Agosto para as mulheres e a 9 de Agosto para os homens.

    Tanto na terça à noite, bem como quinta-feira de manhã, houve chuva na capital francesa, o que vai ditar novas análises nos próximos dias para tentar salvaguardar a saúde dos atletas.

    Os Jogos Olímpicos em Paris decorrem até 11 de Agosto.

    10 min
  • Clarinetista português vai tocar na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris

    Carlos Ferreira é Clarinete Principal numa das mais conhecidas orquestras mundiais, a Orchestre National de France, e é com esta orquestra que o jovem de 30 anos vai tocar na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, esta sexta-feira. É simplesmente “algo incrível”, resume o músico, que nos falou sobre a sua carreira iniciada aos cinco anos numa banda filarmónica do norte de Portugal e que tem passado pelas mais prestigiadas orquestras do planeta.

    Carlos Ferreira é Clarinete Principal na Orchestre National de France que, esta sexta-feira, vai tocar na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. É um concerto histórico para o clarinetista português multipremiado, que estudou em diferentes cidades europeias, entrou em algumas das mais prestigiadas orquestras do mundo e vive entre Lille e Paris.

    Carlos Ferreira foi academista da Orquestra Royal Concertgebouw, em Amesterdão, continuou o seu percurso orquestral na Orchestre Philharmonique de Monte Carlo e depois ocupou o lugar de Clarinete Principal na Orchestre National de Lille e também na Philharmonia Orchestra de Londres.

    Também tocou como solista com diversos ensembles e formações, como a Orquestra Filarmónica Portuguesa, a Transylvania State Philharmonic Orchestra, a Orchestre de Chambre de Genève, a Münchener Kammerorchester, a Münchener Rundfunkorchester, a Orchestre National de France e a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música.

    Em 2022, Carlos Ferreira lançou o seu primeiro álbum intitulado “XX-XXI”, com obras para clarinete e piano, com o pianista e compositor Pedro Emanuel Pereira.

    Fomos falar com ele num parque de Paris, na véspera da cerimónia inaugural dos Jogos Olímpicos, um evento que se anuncia como “algo incrível”, resume o músico. Pela primeira vez fora de um estádio e ao longo de seis quilómetros no rio Sena e nas suas margens, o espectáculo está envolto em mistério e medidas de segurança, contando com a participação de artistas de todo o mundo e esperando-se cerca de 300.000 pessoas. Por outro lado, milhões vão poder assistir em directo pela televisão.

    "Estamos muito entusiasmados com este evento. Pensamos que vai ser algo único na história dos Jogos Olímpicos", começa por contar o músico na entrevista que pode ouvir neste programa e em que ele percorre as principais etapas de uma carreira que começou ainda menino numa banda filarmónica do norte de Portugal.

    28 min
  • “La fleur au fusil” de Lionel Cecílio no OFF de Avignon

    “La fleur au fusil” é a nova criação de Lionel Cecílio. Uma peça inspirada no 25 de Abril de 1974, em Portugal. Uma história que entrelaça as memórias da avó Celeste, com factos históricos que levaram à Revolução dos Cravos. A peça pode ser vista até ao próximo domingo, 21 de Julho, no Théâtre des Brunes, em Avignon, no âmbito do festival OFF de Avignon. 

    “La fleur au fusil” é a nova criação de Lionel Cecílio. Uma peça inspirada no 25 de Abril de 1974, em Portugal. Sozinho em palco Lionel Cecílio interpreta 18 personagens numa história que entrelaça as memórias da avó Celeste, com factos históricos que levaram à Revolução dos Cravos. A peça pode ser vista até ao próximo domingo, 21 de Julho, no Théâtre des Brunes, em Avignon, no âmbito do festival OFF de Avignon. 

    RFI: Que peça é esta?

    Lionel Cecílio: É uma peça sobre a Revolução dos Cravos, com um único actor em palco que sou eu, com 18 personagens para contar não só o que foi a Revolução dos Cravos de uma forma histórica, mas também o que foram os percursos humanos daqueles que viveram essa revolução, para também contar, uma maneira um pouco universal, como homens e mulheres são capazes de se livrarem de uma ditadura. 

    Como é que surgiu esta ideia de contar esta história? 

    Eu não tinha bem ideia do que aconteceu a 25 de Abril de 1974 em Portugal. Sabia que havia uma data, sabia que havia uma ponte [Ponte 25 de Abril em Lisboa], mas não sabia bem o que tinha acontecido. 

    Um dia, durante o confinamento, aqui em Paris, vi passar nas redes sociais uma coisa a propósito do 25 de Abril. Comecei a ler e a ver, a interessar-me um bocadinho sobre o que aconteceu e compreendi que tinha passado ao pé de um facto histórico muito importante.

    Telefonei à minha avó que estava em Portugal nesse momento e disse-lhe: Porque é que tu nunca me contaste? E ela me respondeu: Porque é que tu nunca me perguntaste? E assim compreendi que não tinha considerado a minha avó e a vida que ela teve antes de ser avó.

    Subi num avião desde que foi possível e fui passar quatro dias com ela a Lisboa. Ela contou-me tudo e foi assim que eu descobri tudo quanto era para descobrir através dela, do que aconteceu durante os anos 50, 60, 70 até ao 25 de Abril 1974. 

    Portanto, esta avó Celeste existe mesmo?

    O que existe são duas coisas diferentes que eu pus junto no espectáculo. Celeste Martins é a mulher, ainda viva, que deu os cravos aos militares. A minha avó chama-se Celeste. Portanto, no palco, eu imaginei um neto que podia ser eu, uma avó que podia ser a minha, numa história que era aquela que aconteceu mesmo em Portugal. E foi através deste nome Celeste, que eu digo muitas vezes, que se faz esse ponto de encontro entre realidade e ficção. Foi aí que eu fiz o nó disso tudo para contar a história como eu queria contar e que fosse narrativamente mais interessante no palco. 

    Queria contar esta história com estes personagens e com esta Celeste, que efectivamente foi a senhora que teve a ideia dos cravos, mas aproveitou o facto também da sua avó se chamar Celeste para juntar aqui estas duas histórias. 

    Sim, porque era importante para mim. Queria contar três coisas: historicamente, o que aconteceu em Portugal de uma forma humana; depois, como é importante ir ao contacto da vida que tiveram os nossos avós e dessa passagem de geração em geração. Portanto, criei uma avó e um neto. Em terceiro queria dar um ângulo mais universal. A história é o mais fiel possível à história de Portugal e o mais humano possível nessa passagem entre gerações de uma avó e de um neto. 

    Na sua peça também se fala das condições da comunidade portuguesa que residia em França. Nessa altura, viviam nos bairros de lata, nos bidonville como são conhecidos. Só de há uns anos a esta parte é que se começa a falar dessa história, só agora é que o que se passou começa a ter voz, porquê?

    Em todas as histórias um bocadinho difíceis, negras e complicadas, há uma sensação de pudor daqueles que o viveram, que não querem compartilhar para não estar nesse lugar de contar o que foi complicado. Eu acho que todas as gerações passadas têm a vontade de proteger as novas gerações e não contar o que foi difícil, quer seja a guerra da Algéria ou sobre outras guerras. 

    Por cima disso, eu acho que o nosso povo português, do qual eu sou e os meus avós, também são, não somos muito faladores dessas coisas. Na nossa comunidade há muitas coisas que não se dizem, que não se partilham. É isso também que eu queria fazer com esse espectáculo, uma passagem de conhecimento, de palavra aberta, de dizer que as coisas existem, que a gente fala delas, que também são bonitas, lindas, apesar de serem duras, elas têm uma parte histórica muito forte para nos ajudarem para o futuro, compreendendo o que foi o nosso passado, as nossas raízes. Vamos estar mais armados para o futuro. 

    Agora, há pouco tempo, houve aqui em França, mas também em Portugal, um grande medo da extrema-direita, dessas ideias e desses partidos. Eu acho que se a gente tiver mais ao corrente de como as liberdades são comidas, pouco a pouco estaríamos mais armados para não pensar em coisas como: nunca tentamos a extrema-direita, vamos tentar? Não, já tentamos e foi muito difícil sair daí. Portanto, eu artista, mas todos temos que ter essa responsabilidade de dizer as coisas para dar armas às gerações futuras. 

    Ao longo da sua peça há um género de homenagem à própria mulher.

    Eu acho que era muito importante essa passagem, que é um bocadinho complicada e um bocadinho longa. Esse controlo da PIDE com a Celeste e, também, depois ela a contar ao Zé e depois ao Chico que também que é o irmão dela, como foi torturada. 

    Para mim era muito importante a homenagem às mulheres. Acabo o espectáculo dizendo isso: Portugal não vai ser sempre salvo por causa dos homens portugueses serem poetas, mas porque as mulheres são inspiradoras. 

    Nessa história, e em todas as histórias, as mulheres são as primeiras a serem oprimidas e são elas que fazem tudo. Eu acho que a gente deve muito às mulheres. Se elas são as primeiras oprimidas, é porque os homens - que são os opressores - têm interesse em oprimir as mulheres, porque elas é que têm a força.

    Esta peça já tinha sido apresentada em Paris… 

    Uma vez. A criação foi para Avignon. A gente faz sempre uma estreia em Paris para tentar ver como as coisas são recebidas. E eu disse ao meu encenador - que não é português e não tinha essa consideração tão forte como eu tinha, filho de imigrantes portugueses, da força que era um dia como o 25 de Abril - se temos que tentar uma data em Paris, tem que ser dia 25 de Abril. E assim foi.

    Fizemos a primeira tentativa no dia 25 de Abril, no Théâtre du Ranelagh, mas foi a única. E o que a actuamos lá não tem muito a ver com o que a fazemos aqui, porque entre o dia 25 de Abril [de 2024] e agora várias coisas foram feitas de outra maneira, até cenas que não existiam e que agora existem. 

    A sala tem estado sempre cheia?

    No primeiro dia, estreamos a peça e tínhamos meia sala e a partir daí foi sempre sala cheia e espero que assim continue até o fim. 

    Desde a segunda representação até agora, todos os dias, o público tem-se levantado com muita força para aplaudir o espectáculo. E hoje o meu medo maior é que o público não se levante. Tenho agora muita pressão para que se levante até o fim. Eu não imaginava uma sessão do espectáculo assim tão forte. 

    Em nenhum momento teve medo de pelo facto de em algumas partes falar em português, alguma coisa pudesse escapar a quem não percebe as duas línguas? 

    Foi uma coisa que trabalhámos muito. O meu encenador não fala português e eu, no princípio, quando escrevi o espectáculo, tinha imaginado algo com uma tradução em videoprojecção para as pessoas poderem ler. E ele disse-me que não, disse-me: tens que imaginar uma escrita mais fina onde o português e o francês vão se casar de tal forma que aquele que não fala francês vai compreender tudo graças ao português, tens que casar as duas línguas e as duas culturas da mesma maneira que tu dizes no espectáculo que elas estão juntas em ti, elas têm que estar juntas no espectáculo. 

    Desde a primeira apresentação, os não portugueses, os franceses que não falam português, todos disseram que era incrível porque eles saíam do espectáculo com a impressão de falarem português e que não lhes afectava no entendimento da peça. 

    Por isso eu acho que ganhamos nesse sentido. 

    11 min
  • “Saudade, ici et là-bas”, as histórias e os acordes da lusofonia em Avignon

    “Saudade, ici et là-bas” está pelo segundo ano consecutivo no Festival Off de Avignon. As memórias, os cheiros, os sons e paladares que contam as histórias dos que já cá não estão, pintadas com os acordes da lusofonia! A autoria é de Isabel Ribeiro e conta com a participação do músico Dan Inger dos Santos.

    RFI: Isabel Ribeiro é a autora deste espectáculo, qual é a temática do “Saudade, ici et là-bas”?

    Isabel Ribeiro: A temática é a emigração portuguesa em França. Mas nem só. É uma história também de uma família que vende a casa dos pais em Portugal. Por isso, também é um assunto universal. É também uma história de amor. 

    Uma história de amor para com o país, uma história de amor para com as recordações dos pais. Uma história de amor entre os pais?

    Isabel Ribeiro: Sim, sim, é o amor com esse país, com essa cultura, essa ligação que temos com a história desse país, até mesmo quando estamos longe. É essa ligação através das gerações também. 

    Este é o segundo ano consecutivo que a peça está em Avignon. Quais são as alterações que o espectáculo sofreu ao longo deste tempo? 

    Isabel Ribeiro: Agora temos um novo actor em palco, por isso tivemos que nos adaptar um bocadinho às proposições dele. E afinal é sempre uma coisa positiva, porque fez com que o espectáculo evoluísse e nós, também, temos que procurar novas maneiras de ver os nossos papéis, as personagens. Não nos habituarmos, é uma maneira de fazer evoluir a história e evoluir a trajectórias desses personagens. 

    Temos uma ou duas canções a mais agora também no espectáculo. Quer dizer, é um espectáculo vivo. 

    É um espectáculo vivo que acaba por crescer e por se adaptar ao longo do tempo? 

    Isabel Ribeiro: É isso tudo! E também quando falamos com o público depois das representações, é sempre maneira de reflectir na maneira de apresentar a história. E porque não tentar? Porque eles vêm com perguntas, com pensamentos sobre o trabalho que viram em palco. Então nós pensamos: e porque não tentar assim, dessa maneira, como eles pensaram que podia ser possível de interpretar essa história? 

    Dan Inger dos Santos: E, depois, as observações do encenador quando vem com a gente aos vários teatros onde actuamos e, certamente, há ainda a adaptação ao local, ao espaço do teatro. Adaptamos a peça ao teatro, ao sítio. Por exemplo, fomos actuar no Mónaco. O palco não tinha pano de fundo. Era um muro em pedra com três janelas. Isso fez com que a peça tivesse um novo início, porque adaptámos a peça ao sítio, ao teatro. 

    Isabel Ribeiro: Deu outro ritmo ao início da peça e, afinal, quando estivemos no teatro seguinte, pensámos que temos de encontrar aqui nesse sítio esse dinamismo que tivemos no outro teatro, porque havia esse cenário diferente. Então tentamos sim adaptar-nos. 

    Há algum reflexo da vossa vida pessoal, da história da vossa família? 

    Dan Inger dos Santos: Sempre um pouco, mas não é uma peça biográfica. Mas há sempre uma parte de nós em cada papel. Mesmo assim, a história não é bem a mesma. No meu papel há sempre os sentimentos que levo da minha história, da história dos meus pais. 

    Isabel Ribeiro: Sim, eu inspirei-me um pouco da história da minha família, dos meus pais, um bocado, mas nem só, dos meus tios, das minhas tias e amigos à volta de nós e, também, de outras pessoas que conheci porque tive ocasião de fazer entrevistas também a certas pessoas.

    Falando com elas e depois também lendo testemunhos de percursos como esses, deu-me essa ideia de fazer uma história. Uma história que representa essas histórias todas, essas pessoas todas que migraram. Chamamos-lhes de Manuel e Ilda, são eles todos nessas duas personagens e nessa história. 

    Porque é que decidiu este caminho de falar sobre a imigração, sobre as dificuldades de terem vindo para França, as esperanças que se criam e as desilusões que também existem?

    Isabel Ribeiro: É uma ideia que tive há mais de dez anos, quando queria realizar um documentário sobre esse assunto, mas nunca tive a possibilidade. Depois, quando vieram falar comigo e dizer que eu tinha que criar uma história sobre a cultura portuguesa no palco, pensei que seria uma boa oportunidade para contar essa imigração de um povo que não fala muito, não transmitia muito.

    Nós, a descendência, sentíamos sempre que havia ali qualquer coisa a descobrir. Falar directamente com as pessoas não era fácil, porque eles não conseguiam falar e nós também tínhamos medo. Parece que ou iam ficar zangados ou iam chorar. Não sabíamos qual iria ser a reacção deles, mas é um assunto que eu acho indispensável, porque é uma parte da história que já aconteceu há muito tempo. Essas pessoas já têm uma idade avançada e alguns já faleceram. 

    Não podemos esquecer que temos a missão de transmitir e para mim também era a maneira de fazer um reconhecimento a essa geração, uma homenagem a essa geração tão discreta, tão silenciosa, essa “comunidade silenciosa” como costumava ser chamada cá em França e mostrar que é um percurso cheios de coragem e de esperança. Sobretudo quando se vê o que se passa agora na sociedade, no mundo. A história é sempre uma repetição. É também uma maneira de dizer que é um assunto actual e é uma necessidade, porque nós, a descendência, ficamos com essas bagagens que não sabemos bem como utilizá-las.

    A peça também é pintada com música, que não é só portuguesa, até porque começa com “Sodade” de Cesária Évora, com acordes da lusofonia. Como é que chegaram a este rol musical? 

    Isabel Ribeiro: Era essencial para mim e para o encenador. Ele queria música. Queríamos uma viagem, mas eu também queria mostrar a lusofonia. Queria mostrar esse poder da língua portuguesa, essa presença portuguesa em vários países do mundo através da música. 

    E que a música também não é só o fado.

    Isabel Ribeiro: Não é só o fado, não. 

    Dan Inger dos Santos: Morna, Bossa Nova…

    Isabel Ribeiro: E as pessoas quando saem da peça, em geral, perguntam que canções são essas? Quem são os artistas? Nós ficamos contentes porque também é uma maneira das pessoas procurarem e verem o que se passa musicalmente em Portugal. 

    O fado é aquele cartão-de-visita de Portugal. Mas não é só isso, claro. 

    Quando e onde é que a peça pode ser vista em Avignon?

    Isabel Ribeiro:Até ao dia 18 [de Julho] às 19h40, no Théâtre des 3S, 4 rue Buffon, em Avignon e depois - esperamos - em França toda. 

    Dan Inger dos Santos: O meu orgulho com essa peça é que falamos, certamente, muito dos portugueses, mas é uma peça que apresenta Portugal também ao público francês e que dá conhecimento da história de Portugal. 

    9 min
  • Legislativas francesas podem "afectar relações entre África e Europa"

    O projecto da União Nacional, em particular os temas de direitos humanos e de imigração, têm vindo a preocupar africanos e outros estrangeiros em França. A vitória de um partido extremista à primeira volta das eleições legislativas é vista com "apreensão", podendo ter "repercussões negativas no relacionamento entre África e a Europa", alerta o antigo representante de Cabo Verde junto da União Europeia, Fernando Wahnon.

    A União Nacional, partido de extrema-direita de Jordan Bardella, venceu no domingo as eleições legislativas, com 29,25% dos votos a nível nacional e 33,15% com a coligação com alguns deputados d'Os Republicanos. A esquerda, unida sob a bandeira da Nova Frente Popular, conquistou 27,99% dos votos e a coligação Juntos pela República, no qual se encontra o partido de Emmanuel Macron, ficou em terceiro lugar com 20,04% dos votos. 

    RFI: Quais podem ser as consequências destas eleições para África?

    Fernando Wahnon: Gostaria de dizer que em relação a essa questão para termos uma ideia um pouco mais clara será necessário esperar pela continuação das eleições, portanto, os resultados de domingo, os resultados definitivos sobre esta matéria. Fazer um escrutínio exacto do que é que poderá ser a nova política quer para a Europa, quer a nova política africana francesa e suas consequências parece-me ser difícil enumerar exactamente o que é que pode acontecer. Diria que, de uma forma geral, olhamos todos com bastante apreensão para as repercussões que a extrema-direita ou que a política de extrema-direita possa implementar e nas repercussões negativas no relacionamento entre África e a Europa, nomeadamente em todos os laços que têm a ver com a cooperação e, principalmente, as grandes questões ligadas à imigração. Quando falo de imigração, não falo daqueles que pretendem, eventualmente, ir para França ou trabalhar em França, mas falo essencialmente daqueles que já lá se encontram. Quais serão as consequências relativamente a esses que neste momento residem em França?

    "Além fronteiras francesas, a chegada de um partido extremista ao poder levanta preocupações", aponta o jornal maliano Malikilé. Isto é uma das preocupações para alguns países francófonos no continente africano, o receio desta ascensão da extrema-direita em França?

    Eu penso que, efectivamente, para toda a humanidade, a ascensão da extrema-direita em qualquer país representa um perigo e um golpe possível à democracia existente e, como tal, por consequência, afectará toda a humanidade. É um sinal de preocupação. Nós, de uma forma geral, em África, estamos preocupados com esta situação, pelas implicações, pelas razões históricas que unem a França ao continente africano, nomeadamente aos novos países que foram colónias de França e de que têm uma relação privilegiada com a França. Naturalmente olham para o futuro com alguma preocupação - e, sobretudo, penso eu, que com muitas interrogações. Interrogações essas que nós, neste momento não podemos esquecer, nem tão pouco saber exactamente até onde elas vão. Poderá afectar as relações económicas, poderá afectar as relações de cooperação, Poderá afectar as relações existentes até seguramente a nível político. Mas as questões advêm para a imigração e, portanto, isso tudo é uma grande interrogação, é uma grande dificuldade e uma grande apreensão para todos.

    A França tem ligações fortes com países luso-africanos, nomeadamente através de organizações, como é o caso da OIF?

    Naturalmente porque esta situação e daí nós não conhecermos a extensão do que poderá ser uma alteração da política externa e da política africana, em particular da França. Porque não sabemos, não nos foi dito, não está enunciado de uma forma consequente. Estamos ainda a falar de valores. As indicações que nos são dadas não nos deixam tranquilos, mas têm muito a ver também com todas as organizações internacionais. Qual será a postura da França no futuro nessas organizações internacionais, relativamente a todas as matérias da agenda internacional? Qual será a posição da França? Esta questão, que afectará de forma determinante as posições das organizações internacionais? A própria Organização das Nações Unidas, onde a França está representada, onde tem assento no Conselho Permanente.

    Bem como a União Europeia, que é o maior investidor em África. Que impacto é que estas eleições podem ter na Europa, já que a França é um dos dois eixos principais da organização. Pode vir a ter impacto nas relações entre a União Europeia e países africanos?

    Concordo em absoluto. Uma vez mais estamos face a uma série de incógnitas, porque não se trata aqui de uma relação meramente bilateral que pode ser afectada e mesmo essa sendo afectada, não conhecemos a amplitude que poderá atingir essas mudanças, mas também a nível multilateral. Que alterações poderão existir? Não falamos só de cooperação para o desenvolvimento, que é uma questão muito importante, nomeadamente, como acaba de citar na própria União Europeia. Saber qual é o futuro da França na União Europeia. Consequências terão? O chanceler alemão e as autoridades alemãs andam muito preocupadas também com esta ascensão da extrema-direita em França. É uma situação, como digo, que não só pode trazer grandes alterações na política europeia e, por consequência, na própria política da Europa, como diz bem da União Europeia em relação a África. Nós não sabemos o que poderá acontecer porque é difícil vislumbrar exactamente tudo o que poderá acontecer neste momento. Temos neste momento algumas pistas, mas não sabemos exactamente o que vai acontecer.

    Este sistema francês semi-presidencialista não salvaguarda a questão da política externa, nas mãos do Presidente Emmanuel Macron?

    Sim e não. Sim, porque o Presidente efectivamente tem essa força. Não porque acaba por não ter os instrumentos para o fazer.

    Isto é, uma maioria parlamentar?

    Exactamente. É o sistema francês, a Constituição francesa que assim determinou. E assim tem sido. Pode servir como algum travão em relação a determinadas políticas que, mais uma vez, nós não sabemos quais serão. Em termos práticos, quando eu digo que não sabemos quais serão refiro-me à sua exequibilidade. O que é que vai acontecer em termos práticos? Será difícil neste momento, o que é que vai ser legislado? Esta é a grande preocupação de todos. No fundo, a preocupação não é só dos europeus, nem só dos africanos. É uma preocupação global porque a França, sendo um actor maior das relações internacionais, acaba por afectar grande parte dos países, nomeadamente africanos.

    O site argelino TSA - Tudo sobre a Argélia - titulava esta segunda-feira o voto contra os outros. A publicação lembra que o partido de Jordana Bardella propõe acabar com ajudas sociais aos imigrantes em situação legal, prevê privilegiar a habitação social para os franceses, expulsar os imigrantes ilegais que fiquem, por exemplo, seis meses a viver de subsídios de desemprego, mesmo que tenham trabalhado durante vários anos. A União Nacional quer abolir os vistos e denunciar o acordo de imigração de 68, nomeadamente com a Argélia. Para este órgão de comunicação, o partido de extrema-direita pode criar um braço-de-ferro com parceiros do outro lado do Mediterrâneo. Este é um cenário possível?

    É um cenário possível. Efectivamente, essas medidas que a extrema-direita anunciou, como acaba de referir, são algumas das medidas porque poderão haver muitas mais, poderão muitas outras decorrer dessas medidas já enunciadas. Não sabemos exactamente até onde elas poderão ir. Seguramente, em relação aos países que têm uma forte emigração em França e nomeadamente, os países do Norte de África, esta situação é lhes particularmente preocupante. Se a estas ameaças de romper acordos, nós não sabemos quais são os acordos que vão ser rompidos. Estes, por exemplo, com a Argélia, é uma ameaça, não é? Mas nós não sabemos quais são todos os outros e o que é que pode decorrer disto. A meu ver, esta é a grande dificuldade, porque não é possível, neste momento, traçar um cenário completo. Traçamos partes do cenário que já não nos agrada e que nos preocupa e não sabemos exactamente tudo o que vai decorrer desse cenário. Porque o grande medo e o grande problema é esse não se esgotar por aí?

    9 min
  • Redifusão - A “Estação Cargaleiro” do Metro de Paris

    O metro de Paris tem cara nova em Champs-Elysées Clémenceau, o nome oficial para o que foi, entretanto, chamado de “Estação Cargaleiro”. É que a estação conta com uma nova obra do artista português Manuel Cargaleiro. Aos 92 anos, o pintor e ceramista inaugurou, esta segunda-feira, mais um trabalho de arte pública nos corredores do emblemático metro que já tinha decorado em 1995.

    Os aplausos começaram no metro e continuaram nos salões nobres da Câmara Municipal de Paris, onde o “mestre” foi duplamente condecorado esta segunda-feira: por Portugal, o país onde nasceu, e por Paris, a cidade onde renasceu.

    Para o ceramista, trata-se, modestamente, de “um ramo de flores” que oferece à cidade que o acolheu em 1967.

    Curiosamente, a homenagem aconteceu no dia em que a UNESCO oficializou um Dia Mundial da Língua Portuguesa a 5 de Maio. Mas 25 de Novembro de 2019 vai passar a ser o dia em que se “reparou uma injustiça”, nas palavras do chefe de Governo português, com a entrega da “medalha que faltava”, nas palavras da ministra da Cultura, a medalha de mérito cultural de Portugal.

    Anne Hidalgo, Presidente da Câmara de Paris, recordou que a cidade também é portuguesa e sublinhou que o português Manuel Cargaleiro também é parisiense. Perante dezenas de convidados, entregou-lhe a medalha de Grand Vermeil, a mais importante condecoração da capital francesa.

    Manuel Cargaleiro ouviu e agradeceu, com palavras guiadas pela emoção e a sensação de missão cumprida.

    Uma reportagem que pode ouvir neste programa Vida em França.

    6 min
  • França: Procurações para as legislativas batem recordes

    Num contexto político sem precedentes, os franceses estão a mobilizar-se para votar nas eleições legislativas antecipadas marcadas para 30 de Junho e 7 de Julho. Depois do Presidente francês, Emmanuel Macron, ter anunciado dissolução da Assembleia Nacional mais de 1,3 milhões de procurações foram registadas, quase seis vezes mais do que em 2022.

    Quem vai beneficiar com este aumento de procurações e quais serão as consequências no resultado eleitoral, Luísa Semedo doutorada em Filosofia pela Universidade da Sorbonne, considera que vai depender de quem conseguir mobilizar mais eleitorado.

    RFI: Quem vai beneficiar com este aumento de procurações?

    Luísa Semedo doutorada em Filosofia pela Universidade da Sorbonne: vai depender muito de quem conseguir mobilizar mais eleitorado. Eu sei que à esquerda, logo que foi anunciada a dissolução da Assembleia Nacional, começou logo a fazer campanha para os pedidos de procuração. Mas por outro lado, as pessoas que mais votam por procuração, pelo menos é o que os estudos dizem, são pessoas com certo nível académico e social. Portanto, este benefício ainda não está claro.

    Este aumento de procurações pode significar uma maior mobilização dos eleitores, nomeadamente por parte dos abstencionistas?

    O que dizem os especialistas é que este aumento de procurações não significa que haverá mais votos da parte dos abstencionistas Este aumento de procurações foi pedido por eleitores que já iriam votar, mas por estarem de férias ou a trabalhar nesse dia, decidem dar o voto por procuração.

    Nos últimos dias, assistimos a uma série de iniciativas de mobilização por parte da sociedade civil a alertar os eleitores para os perigos da chegada da extrema-direita francesa ao poder. No momento em que as mensagens populistas ganham cada vez mais espaço, os eleitores franceses estão verdadeiramente conscientes da importância deste escrutínio?

    Os eleitores que já estavam sensibilizados para essa questão ou que já tinham uma visão precisa do que é a extrema-direita estão bastante mobilizados. Basta ver as manifestações que são bastante concorridas. Por ter estado em algumas, fico surpreendida com o número de pessoas presentes e as faixas-etárias, dos mais jovens até aos mais idosos.

    Há também uma grande mobilização nas redes sociais. Mas vai ser complicado porque a abstenção ainda está, pelo menos nas sondagens, bastante presente. O que me leva a afirmar que não talvez não haja tanta consciência do perigo que representa a chegada da extrema-direita ao poder. Não podemos esquecer que há uma parte do centro e da direita que está a fazer uma campanha contra a esquerda, banalizando, de alguma forma, a extrema-direita.

    Várias personalidades do mundo da música, do cinema, do teatro e até do desporto que enviaram mensagens a apelarem ao voto dos franceses. Esta semana, o director do Festival de Avignon, Tiago Rodrigues, pediu aos franceses para votarem contra a extrema direita nas legislativas de 30 de junho e 7 de julho. Este pedido chega a tempo?

    O tempo é escasso. Estamos numa das campanhas mais curtas da história da V República. Porém, é sempre importante que todas as vozes possam ser ouvidas e que possamos ser alertados sobre o perigo da chegada da extrema-direita ao poder. A cultura não é propriamente o domínio que a extrema-direita mais gosta. Trata-se de um domínio onde exercem sempre alguma censura e restrição. Por exemplo, agora no programa que eles apresentaram, a cultura aparece muito pouco e quando aparece é para ligá-la ao património, à tradição ou ao folclore. Não para proteger a liberdade artística ou a liberdade de criatividade.

    A esquerda apresenta-se unida nestas eleições. Esta união vem tarde demais?

    Esta união já tinha, de certa forma, sido testada com a NUPES, nas eleições anteriores. Portanto, já havia caminhos, vamos assim dizer,  de diálogo e havia mesmo essa vontade por parte do eleitorado. Depois de Emmanuel Macron ter anunciado a dissolução da Assembleia Nacional muitos eleitores pediram que a esquerda se unisse. Vários analistas afirmaram que o próprio chefe de Estado francês ficou surpreendido com esta união.

    Todavia, há algumas vozes polémicas na esquerda. Estou a pensar em Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, que diz estar preparado para ser primeiro-ministro da França. Este tipo de declaração pode afectar de alguma forma a esquerda nestas eleições?

    Sim, penso que pode. Nomeadamente, para aqueles eleitores sociais-democratas mais próximos, vamos assim dizer, do PS, da ala talvez mais centrista ou até de direita. Mas, por enquanto, a esquerda está completamente focada em não permitir que a extrema-direita chegue ao poder.

    Há o risco de o partido do Presidente da República, o partido de Emmanuel Macron, poder desaparecer nestas legislativas?Foi o próprio ex-primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, a afirmar que seria o fim do partido da República em Marcha, actual Renascença. Todavia, Emmanuel Macron está cada vez mais à direita e, portanto, esta ideia de um partido abarcar pessoas da direita, centro e da esquerda acabou.

    Todas as sondagens até agora dão vitória à extrema-direita. A confirmar se este cenário, que França passaremos a ter a partir do dia 8 de Julho?

    Penso que vai depender muito da maioria alcançada na Assembleia Nacional. Todavia, há coisas que já estão a mudar, pessoas que são atacadas por não serem francesas de origem. Estou a pensar no jornalista Karim Rissouli, que é apresentador na televisão pública francesa, que recebeu uma carta em casa-nem sequer no local de trabalho- com propósitos racistas. Acredito que haverá uma normalização dos ataques, nomeadamente a jornalistas que não sejam considerados como franceses.

    Ou seja, uma exacerbação dos comportamentos xenófobos e racistas….

    Sim, penso que esses comportamentos se vão normalizar.

    7 min

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