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Em Villepinte, nas imediações de Paris, decorre desde o dia 17 de Junho e ainda até esta sexta-feira a edição 2024 da Eurosatory, a maior feira mundial da área de defesa e segurança, um sector em pleno crescimento, dado o aumento dos focos de conflito no mundo. Este ano, mais de 2 mil empresas vindas de 61 países participam neste evento algo discreto aos olhos do grande público que acontece de dois em dois anos desde 1967.
Para além da França, o país mais representado neste certame são os Estados Unidos, outros países como a China, a Coreia do Sul, a Alemanha, a Itália ou ainda Espanha tendo igualmente uma forte presença.
Particularidade desta edição, a Ucrânia também participa no evento, o grande ausente sendo a Rússia, enquanto Israel viu a sua participação ser cancelada pelo executivo de Emmanuel Macron, devido à situação vigente no Médio Oriente. Esta decisão acabou por ser invalidada pela justiça francesa na terça-feira, mas já demasiado tarde para as 74 empresas israelitas inicialmente previstas no certame.
O contexto mundial, com vários conflitos de alta intensidade, está de facto muito presente nesta feira que se estende por 2500 metros quadrados, indício de que têm vindo a aumentar as despesas de defesa e segurança. Isto aliás tem sido noticiado por institutos de pesquisa que ainda esta semana teceram alertas para o que consideram como uma "corrida ao armamento". Só a título de exemplo, dados oficiais apontam que, a nível europeu, o orçamento reservado à defesa aumentou de 20%, em 300 mil milhões de Euros desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em Fevereiro de 2022.
Foi por conseguinte nesta atmosfera peculiar que a RFI foi ao encontro dos operadores do sector da defesa e segurança no Eurosatory. Um ponto de encontro importante, como não deixaram de sublinhar alguns dos participantes lusófonos, nomeadamente o Coronel Armando Lemos, director-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Defesa e Segurança (ABIMDE), que coordena a presença de 13 empresas do seu país no evento.
Na sua óptica, a Eurosatory "é uma das principais feiras de defesa do mundo e a maior feira que atende às forças de terra. É uma feira muito importante, porque é uma feira pela qual passam delegações do mundo inteiro, uma feira em que a gente consegue também estar actualizado, verificar quais são as evoluções tecnológicas, quais são as tendências de produtos nessa área de defesa que estão ocorrendo no mundo e principalmente agora, com esses conflitos que o mundo tem vivido, a Ucrânia ali, a questão de Israel".
Ao avaliar a situação actual do mercado da defesa, o militar refere que "com esses conflitos que estão ocorrendo, esse mercado tem muita força, tem uma busca muito grande por produtos nessa área. E o Brasil tem uma política de não vender para países em guerra. Então o Brasil é um pouco mais limitado nisso. Mas o mundo todo está a vender".
Presente igualmente nesta feira está uma empresa portuguesa com cerca de 130 trabalhadores, a EID, que fabrica sistemas de comunicação terrestre e naval. A responsável da comunicação dessa sociedade, Sandra Perestrello, tem igualmente a percepção de que aumentaram os orçamentos aplicados à defesa e segurança.
"Nota-se que há um maior investimento, nota-se que há uma maior diversidade de clientes. Portanto, a EID há uns anos trabalhava com as marinhas e os exércitos e era uma relação de 'negócio para negócio' directamente com os governos. E hoje em dia também há uma diversidade de empresas que procuram a EID. Essa empresa também se relaciona com outro tipo de parceiros no mercado (...) Tem havido uma grande evolução nesse aspecto também. E é claro que ao longo destes anos, com todo o panorama político, económico e como sabemos, tem sido complicado. E na área da defesa, tem um impacto grande", refere a responsável da comunicação da EID.
No mesmo sentido, o francês Benoit Danne, fundador e presidente da Aiga Concept, pequena empresa baseada em Viseu que participa pela quarta vez no evento, dá conta de um crescimento do mercado da segurança. O empresário que fornece contentores para o tratamento de águas residuais ao exército francês, à NATO e à ONU dá designadamente conta de uma evolução dos seus produtos e uma diversificação dos locais de intervenção.
"Trouxemos o nosso equipamento que tem em curso de certificação pela tropa francesa e o equipamento de tratamento de água, composto de dois contentores que vão ser utilizados para a defesa da fronteira europeias no leste da Europa e que tem a particularidade de tem sete etapas de tratamento para tratar água potável para um quartel e para o exército francês", explica Benoit Danne. Ao referir estar "presente em vários países no mundo", o empresário sublinha que "antigamente (a Aiga) ia muito para África e ainda está presente em África, mas neste momento está mais focalizada no leste da Europa para proteger as fronteiras europeias com a Rússia e a fronteira com a Ucrânia."
Tal como os restantes participantes entrevistados pela RFI, o presidente da Aiga Concept constata que a edição 2024 da Eurosatory "parece que ser muito maior do que nos outros anos". Questionado sobre o aumento generalizado das tensões no mundo e o crescimento dos gastos na sua área de actividade, Benoit Danne prefere mostrar-se pragmático. "Eu costumo dizer que nós somos uma empresa que ajuda à pacificação, porque todo o dinheiro que vão gastar em tratamento de água, em limpeza do ambiente com as nossas empresas e os nossos produtos, não gastam em armamento. Portanto, eu gostava que todos os países do mundo fizessem como o exército francês que compra um sistema de tratamento de água potável, de águas residuais, para ter a certeza de não poluir os países onde vão fazer a intervenção", conclui.
O Petit Palais, em Paris, acolhe a sua primeira exposição de “street art” no seio da colecção permanente. A mostra chama-se “We Are Here” e junta artistas de todo o mundo, incluindo os portugueses ADD FUEL, Vhils e Pantónio.
É uma exposição que quer fazer história e assentar o reconhecimento internacional da “street art”. Um dos mais emblemáticos museus de Paris, o Petit Palais, acolhe artistas de todo o mundo que têm trabalhado na capital francesa e contribuído para a história da arte urbana. A mostra chama-se “We Are Here” e é uma declaração de presença deste movimento. “We Are Here” é mesmo a frase que acolhe o público, logo à entrada, inscrita numa escultura a representar uma lata de spray gigante do artista D*Face.
Deambulando pelo museu, ao lado de obras de Monet, Rodin, Courbet, Cézanne e tantos outros que outrora estiveram nas vanguardas artísticas, surgem peças monumentais de Shepard Fairey, Invader, D*Face, Seth, Add Fuel, Vhils, Inti, Hush e muitos outros.
O português Diogo Machado, conhecido como ADD FUEL, ocupa uma sala com os seus icónicos painéis de azulejos que dialogam com um imenso candelabro contemporâneo do artista Jean-Michel Othoniel. Há seis peças que “são das maiores peças, em termos de tamanho”, que ADD FUEL já criou no seu estúdio em Portugal e há outras seis peças, mais pequenas, a complementar o espaço.
“Todas as peças baseiam-se muito no meu trabalho da reinterpretação e do redesenhar do azulejo, esta nossa tradição que temos e que eu tenho vindo a trabalhar há 14, 15 anos. Há pequenas nuances e pequenos detalhes que fazem com que a instalação seja mais ‘site specific’, ou seja, apropriada para o espaço onde ela existe”, descreve ADD FUEL.
Como é que se colocam estas peças num museu de obras clássicas e figurativas? Para o artista, “a palavra-chave é diálogo” porque foi isso que ele quis fazer tanto com a sala onde as obras estão expostas, quanto com o candelabro monumental que já lá estava. E são os tons de cromado do candelabro que deram os tons prateado, azul e beringela aos painéis de ADD FUEL. “Como se fossem peças que já existissem no espaço e não o estivessem a invadir”, resume. A instalação acabou por chamar-se “Multilogue” porque mais do que um diálogo entre duas pessoas, é um diálogo entre os painéis, o candelabro e o espaço do museu.
Quanto à sua entrada no Petit Palais e à primeira exposição que este museu acolhe de “street art”, ADD FUEL fala numa etapa importante nesta sua “viagem” em que também tem visto e participado na evolução do reconhecimento da arte urbana.
“Eu não gosto muito de rotular as coisas como arte urbana ou street art ou new contemporary. Há muitas labels, muitos rótulos que podem ser dados. Mas arte é arte por si e a arte por si pode estar na rua como no museu”, acrescenta.
Retomemos agora a deambulação pelo museu, por mais uma sala de pinturas e esculturas oitocentistas, onde aparecem retratos monumentais de mulheres. Há telas dos artistas Hush e Inti e também um retrato esculpido pelo português Vhils em que uma mulher parece fixar, com o olhar, “a miséria” dos “Saltimbancos” de Fernand Pelez, o mesmo pintor do século XIX que mostrou o rosto exausto de uma mãe sem abrigo noutro quadro ali exposto.
Noutra sala, outro rosto marcante, o da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” do artista Shepard Fairey, ou Obey, que, nesta versão de 2024, lhe pintou uma lágrima de sangue. Há, ainda, outra alegoria da República Francesa do artista Seth, representada como uma criança abandonada e a olhar para um buraco.
Mais adiante, a Sala Concorde é das mais impressionantes pela quantidade de obras penduradas nas paredes: cerca de 160 peças de mais de 60 artistas. Esta é uma homenagem ao lendário “Salon des Refusés” [Salão dos Recusados], de 1863, que acolheu todos os artistas da vanguarda rejeitados pelos salões oficiais, como Manet e Cézanne, e que foi um marco na pintura moderna. Inicialmente, os pioneiros da “street art” também sentiram essa exclusão, mas os tempos mudaram e muito. A reafirmá-lo está esta exposição, uma iniciativa da Galeria Itinerrance que, em 2013, juntou 80 artistas para transformarem um prédio devoluto de Paris num museu efémero e agora investiu o Petit Palais. Pelo caminho, a galeria apoiou a criação de dezenas de murais no 13° bairro da capital francesa.
Nesta Sala Concorde, que é um autêntico templo imersivo de “street art”, há duas telas de outro português, Pantónio. Uma remete para o princípio da sua carreira e a outra é do meio do percurso. “Uma é aceitar e embarcar numa onda e a outra é remar um bocado contra a onda até porque tem a forma de um globo e são falcões em atitude de choque uns com os outros”, descreve o artista.
Quanto a estar no Petit Palais, Pantónio diz que representa “estar ao lado de pintores que fizeram a história e que estão a fazer a história ».
« Na minha história pessoal, já há muito tempo que não vinha a Paris e estou com estas pessoas que estão a fazer esse caminho”, acrescenta.
A exposição “We Are Here”, no Petit Palais, em Paris, abriu a 12 de Junho e vai estar patente até 17 de Novembro.
Nesta edição de Roland Garros que decorre até este domingo, 9 de Junho, o ténis português esteve representado por Henrique Rocha, Jaime Faria e Francisca Jorge nas qualificações do segundo Grand Slam da temporada, juntaram-se a Nuno Borges e Francisco Cabral, no quadro principal de singulares e de pares.
Jaime Faria começou a temporada fora do top-400 do ranking, ocupa agora o lugar 183.º ATP. Estreou-se no Grand Slam francês, saíndo no terceiro e último encontro da fase de qualificações. O tenista português de 20 anos jogou o primeiro encontro no court Susanne Lenglen, o segundo maior de todo o complexo.
Jaime Faria: Joguei no Lenglen a primeira ronda, depois de passar pelo Lenglen, os outros courts iam ser mais fáceis de encarar. Tive apoio dos portugueses e fiquei um pouco triste de desiludir a massa associativa.
RFI: O que é que leva de Roland Garros?
Levo uma boa experiência e muita vontade de voltar cá. Tenho muita vontade de jogar no quadro principal. É tudo um bocadinho novo para mim. Tive um bocadinho deslumbrado nos primeiros dias, mas isso já passou e agora é trabalhar para isto. Este é o nível em que quero estar. Quero bater-me com os melhores e para isso tenho que ganhar estes jogos. Comecei o ano fora do top 400, estou nos 180. Senti que fiz uma boa semana. Não posso ir de cabeça para baixo, mas tenho que ir com muita vontade de melhorar e para o ano apresentar-me melhor, com um melhor nível, melhor de cabeça, melhor de experiências vividas. Acho que no final de contas foi um balanço positivo.
Agora vou estar no Challenger de Zagreb e no Challenger de Bratislava. Quero jogar uma semana de relva antes de Wimbledon. Porque também só fui uma vez à relva nos juniores. Foi espectacular, mas tenho que pisar um bocadinho mais para depois chegar bem preparado a Wimbledon.
Até ao final do ano, há expectativas ou não?
Para ser sincero, ainda não defini muito bem objectivos de ranking. Eu acho que no ténis é complicado, nunca sabe muito bem, para o bem e para o mal. Vou continuar a trabalhar semana após semana para querer mais, mais e mais, ambicionar mais, mais e mais. É assim que eu tenho subido ao longo deste ano. Não consigo pôr uma meta, um ranking definido, até porque eu tinha definido para este ano jogar um primeiro Grand Slam, que seria à partida, o último, que era o mais fácil de lá chegar, porque tinha mais tempo para me preparar. Chego logo no primeiro possível porque a Austrália fecha antes de 2024. Vou continuar a trabalhar e tentar quebrar cada vez mais barreiras.
Está a trabalhar com alguns dos antigos melhores jogadores de Portugal, com Neuza Silva, com o Pedro Sousa, com o Rui Machado. Como é que é trabalhar com eles? Estiveram nos três jogos na bancada a apoiá-lo e imagino que fora dos courts e dos jogos também estejam permanentemente a ajudá-lo. É bom a crescer com eles?
Sem dúvida, eles já passaram por tudo isto. Já não sei em que timings ao certo, mas eles sem dúvida que passam muita experiência, passam muita tranquilidade também. Eles têm me acompanhado desde o início do meu caminho. Eu cheguei ao CAR, Centro da Alto Rendimento, com 16 anos. Fazer este trajecto com eles é especial. O Pedro entrou no ano passado, mas o Pedro tem uma grande experiência, muita rotatividade ao nível de Challenger e ATP, portanto tem passado muito boas experiências. Tê-los na bancada a puxar por mim é especial porque sinto que eles acreditam em mim e eu acredito muito no trabalho deles.
Para quem não o conhece, como é que surgiu a paixão pelo ténis?
O meu pai jogava ténis e foi um bocadinho por aí. Eu vivi no Algarve, na altura, com sete anos, fui ver um torneio de exibição que era o Grand Champions, que reunia uma série de lendas do ténis que iam lá jogar e eu era muito novo... Os meus pais compraram bilhete para todos os dias e eu e o meu irmão íamos ver os jogos e ficávamos ali mesmo atentos e adorava aquilo. Pedi ao meu pai para jogar e, claro, como ele também jogou ténis, disse que sim, claro ! Desde aí tem sido uma paixão. Chegar aqui também é um bocadinho um sonho que eu cumpri. Um grande sonho.
Faz parte desta nova geração de jovens portugueses estão a crescer tal como o Henrique ou o Nuno. Sente que a modalidade está a crescer cada vez mais em Portugal?
Acho que a modalidade está a crescer, não sei se a largas passadas ou não. A cultura do ténis em França ou em Itália, mesmo na República Checa, onde tive agora há duas semanas, o ténis em Portugal está a crescer e ter pessoas para quem olhar e ter referências como o João Sousa, que foi muito importante, trouxe muita gente. O Nuno está a conseguir quebrar muitas barreiras e acho que eu e o Henrique também podemos vir a estar nesse lote de jogadores de topo. Estamos a fazer o nosso caminho. Mas acho que sim, acho que o ténis português está a crescer.
A número 1 portuguesa, Francisca Jorge, foi eliminada na primeira ronda da qualificação para Roland Garros. Este foi o segundo Grand Slam desta temporada da 194.ª do ranking mundial.
Francisca Jorge: Queria muito jogar Roland Garros. Às vezes não é a abordagem mais fácil e gerir emoções torna-se difícil, claramente, mas acho que faz parte. Sem dúvida que espero voltar para cá para o ano e jogar melhor, desfrutar um bocadinho mais do momento, desfrutar do jogo e conseguir levar uma vitória.
RFI: Gerir emoções será uma das maiores dificuldades desta modalidade, do ténis?
Acho que o ténis está cada vez mais mental, física e mental, mas acima de tudo porque toda a gente joga bem ténis e passa por quem conseguir gerir melhor as emoções e conseguir manter-se mais presente no jogo e em todos os pontos para conseguir jogar o seu melhor nível, para conseguir levar as vitórias para casa.
Esta foi a sua estreia aqui em Roland Garros, isso é importante?
E importante. É de valorizar que tenha chegado aqui e consegui marcar presença. Vou tentar levar o lado positivo desta experiência. Mas sem dúvida continuar a trabalhar porque a época não acabou. Agora tenho um caminho muito longo pela frente para garantir presença em Wimbledon e todo o resto.
Imagino que esteja focada no próximo Grand Slam, em Wimbledon?
O auge do ténis é jogar os grandes Slams. Vou jogar mais dois torneios, agora em terra batida, acabar essa gira de terra batida e o resto está ainda em aberto. Depende também como estiver o meu ranking, a ver se asseguro a entrada ou se tenho que jogar mais um torneio ou outro para fazer pontos e garantir a minha entrada em Wimbledon.
É a jogadora portuguesa melhor classificada neste momento, como é que olha para o ténis no feminino em Portugal?
Sinto que está a evoluir, sem dúvida. Faltam mais jogadoras, há poucas miúdas a jogarem ainda. Acho que está a evoluir. Acho que estamos a crescer enquanto comunidade, enquanto desporto em Portugal, mas sem dúvida que falta ainda um bocadinho de nível. Falta às miúdas de base crescerem com a Jogar melhor ténis. É um caminho bastante longo e vai crescer, mas precisa de tempo.
A edição de Roland Garros deste ano contou com a participação de cinco portugueses o que não aconteceu nos últimos anos. Este é um marco importante para o ténis português?
Sim. Sim, claro. Acho que houve uma época, há uns cinco ou mais anos atrás, que tivemos aqueles portugueses todos a jogar Grand Slams e não havia assim uma comitiva tão grande. É muito especial, sem dúvida. Eu fui a única portuguesa do lado feminino e estou super orgulhosa do Henrique e do Jaime por terem conseguido tão cedo esta entrada nos Grand Slams Seniors. É sem dúvida um orgulho. Acho que eles deviam também estar super contentes com o trabalho que têm vindo a fazer. É super importante para as camadas jovens também para acreditarem que é possível. O Borges também está a representar muito bem e o Cabral na vertente dos pares. Acho que cada um está a fazer o seu caminho e estou super entusiasmada pelo que vem aí para a frente.
Também joga em pares com a sua irmã, que também joga ténis, de onde é que vem esta paixão desta modalidade, vem da sua família?
Sim, os meus pais sempre foram amantes do ténis. Nunca levaram muito a sério. Conheciam as estrelas da altura deles, sempre foram acompanhando bastante, porque é um desporto que gostam, Mas nunca tiveram como ambição ter duas filhas tenistas profissionais. Acabamos por ter o gosto pela modalidade e realmente vimos nisto uma paixão imensa. É com muito orgulho que represento esta modalidade e Portugal. Por isso é continuar a trabalhar para continuar a crescer e a evoluir e ser maior ainda.
Este sábado, o festival “1 Km de Danse”, em Pantin, na região de Paris, mostrou que bailarinos e coreógrafos amadores também contam no mundo da dança. É o caso da companhia Danse en Seine que apresentou um espectáculo feito por não profissionais e assinado por um português, Pedro Gomes.
Associações de dança, conservatórios, companhias amadoras, artistas e coreógrafos emergentes investiram, este sábado, cinco palcos junto ao Canal de l’Ourcq, em Pantin, junto a Paris. A terceira edição do evento “1km de Danse”, organizado pelo Centre National de la Danse, cruzou diversos estilos e danças e mostrou que a prática amadora também conta.
Exemplo disso mesmo é a Companhia Danse en Seine que nasceu em 2010 para ser um espaço de criação e de partilha da cultura coreográfica entre amadores. O grupo apresentou o espectáculo “Hantises” [“Assombrações”], do português Pedro Gomes, que integrou a companhia há dez anos. Ele tinha 28 e era a primeira vez que entrava num estúdio de dança. Desde então, tem participado em espectáculos como bailarino e agora assina a sua primeira peça de dança contemporânea, que reúne seis mulheres, de ténis e gabardines, juntas e solitárias, em movimentos sincronizados e alguns instintivos, todos repetidos num compasso lento e contemplativo. Com gestos quase em suspensão e olhares distantes, as intérpretes sugerem ausências e as tais “assombrações” que inspiraram Pedro Gomes, com que estivemos à conversa durante o festival.
RFI: O que conta o espectáculo “Hantises”?
Pedro Gomes, Criador do espectáculo "Hantises": O espectáculo vem de dois tipos de situações quotidianas. A primeira é quando, às vezes, estás com a cabeça um bocado ausente e há uma espécie de movimento um bocado parasita que tu fazes, não sabes muito bem porquê ou uma palavra que tu dizes em voz alta ou, às vezes, dás por ti e estás a cantar. Então é assim um bocado essa ideia dessas coisas que tu fazes sem saber porquê. E o outro sentimento são os sentimentos das vezes - sobretudo quando vou ouvir música a andar na rua - de uma espécie de alegria extraordinária ou de uma melancolia também muito grande como se as minhas emoções não coubessem no meu corpo. E é a ideia de juntar essas duas sensações e pensar que, se calhar, somos outros de nós que existem noutros planos e que nos atravessam nesses momentos.
A peça chama-se “Hantises”. Porquê e como traduziria em português?
Ao princípio, a peça tinha título francês e português: “Hantises- Assombrações” e era a ideia destes espectros que nos atravessam, ou seja, somos nós noutros planos.
A peça desenrola-se com ritmo bastante lento, com um movimento repetitivo, com um círculo de mulheres. Porquê só mulheres? E que forças são estas que as atravessam?
Ao princípio não havia necessariamente uma vontade de fazer uma peça que fosse só com mulheres. O grupo com que começámos a fazer os primeiros ensaios eram oito, nove pessoas e havia um só homem, o que trazia uma dramaturgia para a peça, o facto de haver um só homem no palco. À medida que fomos criando, acabou por a peça transformar-se numa forma também de alguma “sororité”, irmandade entre estas mulheres que estão em palco. E nós gostámos, nós quisemos preservar isso. Acho que é um bocado essa ideia que também tem a ver com esse movimento circular que é estarmos sempre a fazer a mesma coisa, sozinhos e juntos ao mesmo tempo. E aqueles momentos fugazes em que elas se tocam são momentos em que essa ligação ao outro existe.
Em relação à companhia, esta companhia de dança é feita com criadores amadores, ou seja, não profissionais. Qual é a história da companhia Danse en Seine?
A companhia foi criada em 2010 por um conjunto de mulheres que queriam poder ter um espaço de criação e de partilha da cultura coreográfica entre amadores e também para com públicos que podem estar, à partida, mais afastados da criação coreográfica. É uma companhia que faz imensas coisas e uma dessas coisas é um dispositivo de acompanhamento à criação artística que se chama “Scènes Ouvertes” (Palcos Abertos), em que nós, membros da companhia, podemos propor peças enquanto coreógrafos. Foi o que eu fiz nesta peça. Foi a primeira vez que criei uma peça e, portanto, somos acompanhados, acompanhamo-nos uns aos outros e somos também dançarinos para as peças uns dos outros.
Como é que o Pedro Gomes veio parar à companhia? Qual é o seu percurso até aqui?
Eu cheguei a França em 2011 para fazer a minha tese de doutoramento e quando comecei a escrever a minha tese, achei que precisava de fazer um bocado de uma actividade física porque estava farto de estar sempre sentado a tentar escrever a tese.
A tese era sobre o quê?
A tese era sobre o espaço público. Portanto, hoje até calha bem estarmos a fazer um espectáculo aqui…
No festival “1 Km de Danse” em Pantin...
Eu achava que precisava de me mexer, mas eu não gosto de fazer desporto e cruzei um amigo no meu bairro que me disse que estava a sair de uma aula de dança nesta companhia e eu inscrevi-me. Quase dez anos depois, cá estou eu.
Ou seja, contrariamente àquela ideia de que é preciso começar a dançar em criança, afinal é possível começar a qualquer idade?
A primeira vez que eu entrei num estúdio de dança foi com 28 anos, hoje tenho 38, continuo a não conseguir dobrar-me, tocar com as mãos nos meus dedos do pé, mas isso não me impede de dançar muito, com muita alegria e agora, também, de criar as minhas próprias peças.
O lado “amador” dá mais liberdade à criação?
Eu acho que permite pôr a alegria e o prazer de dançar e de fazer isto com um colectivo de pessoas que através da dança se tornam tuas amigas, pôr isso em primeiro lugar e, de facto, estar num lugar que é, acima de tudo, marcado por muita generosidade e por muita disponibilidade para o outro.
No site da companhia vocês falam em "reinventar a dança" graças aos criadores amadores. Como assim?
Sim, é também reinventar aquilo que, enquanto amador, tu podes fazer. Há aquela ideia que quando és dançarino amador não podes ter necessariamente uma proposição artística, que aquilo que tu fazes não é arte, que não te podes dar a ambição de trabalhar com criadores profissionais - o que nós às vezes fazemos - e também que tu não tens nada a dar aos outros, que és sempre só receptor daqueles que detêm o saber. Aqui também dizemos que nós temos coisas a transmitir às outras pessoas e a fazer sempre em colectivo.
"As minhas sensações são tudo o que tenho para oferecer" é uma curta metragem da portuguesa Isadora Neves Marques. O filme compete na Semana da crítica, mostra paralela do Festival de cinema de Cannes.
A cineasta portuguesa Isadora Neves Marques começa por se referir às expectativas quanto à sua presença neste certame.á
"Com o filme que eu trago aqui à Semana da Crítica era já um objectivo estreá-lo em Cannes e também o meu próprio percurso chegar a Cannes e trabalhar a partir daqui.
Por isso, foi com imensa felicidade que nós fomos recebendo as notícias da estreia."
Então a sua curta metragem. "As minhas sensações são tudo o que tenho para oferecer" na Semana da Crítica está em competição. São cerca de dez curtas metragens.
Imagino que se tenha interessado também pelas outras propostas cinematográficas. Documentou-se? Viu ? O que é que pretende fazer? Quais são os seus objectivos, além de defender, obviamente, as cores do seu filme?
"Confesso que não. No meio de todo o trabalho, não tive muito tempo para olhar profundamente para os outros filmes, mas há algumas outras curtas e também longas que tenho interesse em tentar ainda ver até fora do meu próprio programa. Sim, sim."
E, portanto, só para lembrar que então, o júri presidido pela produtora francesa Sylvie Pialat.
Vamos então falar de "As minhas Sensações são tudo o que tenho para oferecer". Como é que você descreve o seu filme?
"É um filme muito íntimo, telepático, literalmente. Sobre duas jovens mulheres que vão passar um fim de semana a casa dos pais de uma delas.
E esse encontro é a primeira vez que que uma delas conhece a família da outra. E é um trabalho de tanta honestidade, dessa telepatia também emocional, mas também de uma certa violência e de falta de espaço, um certo sufoco.
Com um tom que para mim tem sido comum no meu trabalho, um pouco especulativo, um pouco fora do normal também na narrativa, Mas isso os espectadores vão ver."
Você tem-se tornado muito por questões do género, mas também por questões ecológicas, por questões de tecnologias de ponta. É também algo que encontramos aqui, onde efectivamente há uma relação mesmo telepática, entre as duas jovens que não necessitam de se falar para comunicarem.
"Exactamente, essa foi a premissa do filme. Para mim interessava-me esta ideia de sentir as sensações do outro, de estar dentro do outro.
E isso evoluiu para uma ideia de telepatia a certo ponto, porque também era um dispositivo interessante para a realização e para o trabalho com os actores. Portanto, foi num processo de trabalho que as coisas foram ganhando forma.
Foi um projecto muito rápido de realizar. E sim, este filme em particular tem esse elemento de uma certa tecnologia na sua relação com o corpo, que é tão contemporânea como lá está, especulativa."
Mas são actores com os quais você até já colaborou no passado, alguns entre eles. Como é que foi a constituição do elenco?
"Na verdade, neste filme não. Todo o elenco é novo. Não é a primeira vez que trabalho com os quatro actores. Uma das actrizes eu já conhecia pessoalmente. Já não era a primeira vez que tentávamos trabalhar juntas e finalmente aconteceu.
Mas foi um processo muito fácil. Eu faço um processo de casting normalmente muito íntimo e muito selectivo e então foi muito rápido e fácil construir o elenco. Mas é a primeira vez que trabalhámos."
E é tudo muito fluido. Portanto, são duas jovens, portanto um casal lésbico. E os pais são gays. Mas é um filme bastante fluido.
Faz também evocar muito a sua trajectória até anteriormente com o nome de Pedro Neves Marques.
Por exemplo, "Tornar-se um homem na Idade Média", onde se falava do desejo de ter um filho, situações de infertilidade ou mesmo a implantação de um ovário no corpo do Vicente, nomeadamente.
Ao fim e ao cabo a questão da filiação e da paternidade é também uma questão que a si lhe apraz bastante, não é?
"Sim, este filme, de facto, traz de novo um tema que, sob diferentes formas, eu tenho trabalhado nos meus filmes, que é uma ideia de família, mas que não tem de ser uma família de sangue. Pode ser um colectivo.
Neste caso, há claramente uma família. Há dois pais, um casal homossexual que tem uma filha. Portanto, há e há esse espaço também.
O espaço: essa casa que é estranha. A outra mulher que a vem visitar, não é E é um filme para mim também muito sobre sobre ambição, sobre confronto.
Porque há uma diferença de classe que é colocada em cima da mesa. Entre as duas jovens há uma família mais não necessariamente privilegiada, mas culturalmente bem integrada, que me interessa também. É um perfil particular. E uma ou outra jovem mais artística que vê aquilo como um objectivo, mas também como uma ameaça. Não é uma culpa de classe."
A dada altura estala o verniz, não é ? Com uma pergunta, nomeadamente: Mas qual dos dois é que ela detestava mais, não é?
Ora, obviamente, nós não temos muita noção que, durante a infância, as crianças possam efectivamente detestar os próprios pais, não é? Mas acontece...
"Sim, é uma fala que lá está. É um filme muito simples. É um filme de um fim de semana, mas que está recheado de pequenos momentos de diálogo. A escrita, para mim, é um dos prazeres maiores do cinema."
Interiores e exteriores.
"Sim, e em vários elementos. Há vários momentos em que há estas frases corrosivas ou provocadoras para testar um pouco aquele campo, aquele terreno familiar. Como se aquela personagem, a Lana, que seria a personagem principal do filme se estivesse a testar um pouco os limites do que pode fazer, não é? É sim."
E no entanto, você não é só cineasta, tem uma obra tão versátil. Obviamente. Esteve na Bienal de Veneza, por exemplo, representando Portugal com "Vampires in the space", por exemplo.
É artista plástica e poetisa, ensaísta. Como é que consegue encaixar tantos perfis numa única identidade? E o que é que lhe apraz, se calhar, fazer mais, entre tantas coisas que faz ?
"Para mim é muito natural. Flui tudo muito naturalmente e eu preciso de todos esses elementos para me sentir satisfeita.
Eu venho de um percurso da arte contemporânea, onde estabeleci uma carreira que, como disse, terminou ou culminou na Bienal de Veneza há dois anos atrás.
Mas o cinema tornou se algo para mim, muito, muito estimulante já há alguns anos. E é onde eu tenho, onde eu tenho estado a focar as minhas energias, muito de facto. E estar em Cannes agora e para mim é um pouco essa prova, essa seriedade. Mas eu multiplico-me um pouco."
Inclusive geograficamente: Brasil, Estados Unidos, Portugal, obviamente não é?
"Sim !"
Neste momento está está mais aonde?
Neste momento, numa fase de transição, é complexo ainda falar sobre o assunto, mas estou em mudança novamente.
Eu vivi muitos anos nos Estados Unidos. Foi onde eu vivi mais tempo. Vivi quase uma década em Nova Iorque e foi muito importante para mim por vários motivos.
Mas o regresso à Europa também foi... Veio com o cinema também, na verdade, foi um processo conjunto do regresso e tem sido mesmo o reencontro com Portugal também através muito do cinema.
Acho que esta relação com o cinema também me devolveu a Portugal. E tem sido esse processo conjunto. Mas sim, faz parte de mim, do meu perfil, da minha história. "
E que tipo de filmes é que vê, quais são as influências que de facto a marcam sobremaneira ?
Eu divido-me muito entre um cinema muito clássico, muito de guião, de actores. É algo de que eu gosto muito de "slice of life", como se diz no inglês, e tenho-me encaminhado muito para esse registo.
Trabalho com actores, profundo, etc. Divido-me entre esse perfil e algo mais especulativo, mais ficção científica, mais B. É o que eu tenho tentado fazer muito naturalmente. É essa união desses dois universos: narrativas muito naturais, mas que também tem sempre algo um pouco estranho por lá.
E de repente, em 2024, há muito cinema falado em português e nomeadamente cinema, mesmo português. Que olhar e que tem tido curiosidade e que tem em relação aos filmes que estão em cartaz, nomeadamente com uma longa metragem portuguesa que está em competição na seleção oficial ?
Refiro-me a "Grand Tour" do Miguel Gomes.
Vai tentar ver, tem interesse ? E como é que interpreta o facto de este, neste ano, o cinema português ter tanta visibilidade?
"É incrível como o cinema português nos grandes festivais vai sempre manter uma presença forte. Não é um filme ou dois, são vários, não é ?
Para um país com uma incapacidade estrutural de financiamento tão profunda é impressionante ! Impressiona-me. E impressionou-me também quando voltei. E lá está, quando voltei da América para Portugal e ver a energia com que se faz cinema em Portugal e é contagiante.
E as pessoas de facto são muito generosas. E é por isso que o cinema português existe, é porque há essa generosidade é sim, sem dúvida.
Por exemplo, o filme do Miguel Gomes. Sem dúvida que é um filme que eu quero ir ver e irei ver, na verdade.
Tenho imenso interesse também por algumas escolhas de realização e de narrativa do Miguel já há bastante tempo. Apesar de ser um projecto diferente do meu, mas acompanho com bastante interesse sempre e vou ver."
Mas você nunca ficou muito dentro de fronteiras. Fez nomeadamente dois filmes implicando o Brasil. Como é que isto se articulou para estes dois filmes no Brasil?
"Eu vivi. Eu vivi em São Paulo. Na verdade, em 2011, 2012, antes de ir para os Estados Unidos, tinha interesse de viver e consegui na altura um financiamento para ir para lá e depois fiquei lá um pouco.
E desde então que nos últimos mais de dez anos tenho uma relação íntima com o país e tenho não só amigos, como parceiros de trabalho, actrizes, por exemplo, actores com quem tenho trabalhado mais de uma vez.
E é muito naturalmente, não é ?Eu deixo-me também beber dessas relações.
Para mim, as relações interpessoais acabam por influenciar muito os meus trabalhos e a minha escrita. E foi assim. Neste momento não tenho tido projectos no Brasil, mas tenho sentido o "bichinho" de novo de voltar, mas logo se verá quando."
E em que medida é que, de facto, o seu percurso pessoal é complicado de se viver em Portugal.
Você tem o atrevimento de assumir e portanto sempre pegou nas questões do género. E isto é complicado no dia-a-dia. Como é que as pessoas a veem? Isso é algo que lhe é muitas vezes colocado como problemático?
"Não, não.
Sinto-me bem. Não me sinto... não me tenho sentido confrontada pessoalmente, o que é incrível !
A maneira como eu, no meu trabalho, penso muito essas questões de género, por exemplo: tento fazê-lo sempre de um modo muito incorporado nas histórias, nos personagens, algo que está claramente inserido nas narrativas.
Que as histórias sejam a mensagem, digamos assim,
E eu, enquanto pessoa trans, para mim é muito importante. Eu sei o que isso significa, mas é algo que eu escolho sempre estar dentro do meu trabalho e eu depois estou lá atrás. Mas. Mas sim, tem sido muito bom."
Decorre até 25 de Maio em Cannes a edição de 2024 de um dos maiores e prestigiosos festivais de cinema.
Em competição na selecção oficial consta a curta metragem "Mau por um momento" de Daniel Soares.
Trata-se de um retrato da especulação imobiliária em Lisboa e dos seus malefícios em relação a pessoas de baixa renda, nomeadamente.
O cineasta português, já premiado internacionalmente, começa por se referir às suas expectativas em torno deste certame.
Ele admite que ter sido seleccionado para a competição na selecção oficial é algo que o faz feliz.
"Eu não tenho assim grandes expectativas. Ou seja, no sentido eu acho que eu já estou já, pronto, feliz por fazer parte do festival. Tipo, foi bastante inesperado e foi assim, sei lá, uma surpresa. Embora se possa a esperança fazer parte. Mas esse aspecto é ver filmes e, sei lá, apresentar o filme. E é um bocado por aí muita gente da equipa que vai estar presente também. E é isso é desfrutar do momento."
Não é a primeira vez que vai a festivais. Eu sei, por exemplo, que já teve estreias aqui perto, em Locarno, portanto já tem passado pela Galiza, pelos Estados Unidos, obviamente, onde esteve radicado.
Cannes é um festival diferente dos demais, daqueles que você vem fazendo ao longo dos tempos ?
"É assim: ainda não fui, então não consigo responder. Agora, na teoria, é o festival não é ? É o festival que do qual queremos fazer parte. Ou seja, nesse sentido, sim, será mais especial que os outros, imagino.. Depois eu posso confirmar, depois do festival."
Então falemos um pouco precisamente da competição, das curtas metragens da selecção oficial que você integra. São 11 ao todo, incluindo um outro filme lusófono, no caso brasileiro.
Teve curiosidade? Documentou-se em relação às outras curtas metragens que terá pela frente ?
Também imagino que se tenha interessado pelo júri, que é presidido pela actriz belga Lubna Azabal. Que olhar é que tem então acerca precisamente desta competição, dos filmes que lá vão estar e do júri que estará lá precisamente para avaliar os filmes ?
"É engraçado porque eu tenho um amigo meu que tem um filme em competição lá também, que é do Kosovo. Que é Samir Karahoda, que eu já conheço de outros festivais de Clermont-Ferrand.
Acho que foi aí que nos conhecemos pela primeira vez
E no ano passado também estive no Kosovo, no Docufest e ele faz parte lá da organização, ou seja, é um amigo. Eu, aliás, eu até já vi o filme dele também. Ele viu o meu. Gosto muito dos filmes dele, por acaso. Esse é o único filme que eu conheço e a única pessoa em competição que eu conheço.
Os outros filmes. É óbvio que se vai ver quais são os países, mas ao mesmo tempo não dá para saber muito dos filmes, não é? Porque só tem a sinopse. É sobretudo uma alegria de fazer parte deste grupo.
Eu não vejo tanto a competição do prémio e não sei o quê Porque eu acho que senão nunca vou estar satisfeito e para mim, fazer parte desses 11 filmes de sei lá, acho que foram 4 400 filmes submetidos. Para mim isso já é um sucesso, Isso se eu não curtir esse momento, não aproveitar e não ficar contente e satisfeito com isso eu acho que nunca ficarei satisfeito com nada.
Falemos um pouco da sua trajectória, que é deveras interessante, não é? Você é de pais portugueses. Nascido na Alemanha, vivia nos Estados Unidos e foi fazendo filmes por onde passou. Não é só nos Estados Unidos, salvo erro, foram três do normal. "People totally free". Depois, efectivamente, "O que resta" "Please make it work"... Alguns destes já premiados e aqui então chega com "Mau por um momento".
Há assim, algum fio condutor que nos possa explicar relativamente às obras que você foi concebendo ao longo do tempo acerca dos temas que lhe são caros ?
"Eu acho que o primeiro filme é o "Forgotten", ou seja, todos os anteriores não são bem filmes, foram os exercícios onde eu fui, sei lá, documentando por exemplo, o "Totally Free". Eram uns skaters, uns roller skaters."
Patins !
"Exacto. Que eu fui seguindo e não sei quê. Mas eu cheguei ao cinema muito tarde e nessa altura eu fazia coisas sem saber muito bem o que é que era o cinema. E fui-me apaixonando com o cinema muito tarde. Porque eu trabalhei muito tempo como director de arte e como designer gráfico. Isso foi assim, como você já disse exactamente. Eu nasci na Alemanha, os meus avós e os meus pais eram imigrantes [portugueses].
Eu acho que a partir do filme "O que resta" é quando eu começo a fazer ficção.
Ou seja, estes últimos três e depois "Please make it work", que foi filmado em Locarno, na Suíça, sobre uma imigrante mulher de limpeza que limpa Airbnb sofisticados nos Alpes suíços. Ou seja, eu acho que há aqui uma coisa que o fio condutor que é: Muitas vezes os meus filmes são sobre a classe trabalhadora ! Que é enfim, é de onde eu venho, de certa forma.
Ou seja, esta ideia de... Em França será o mesmo: estas raízes na imigração dos anos 70/80.
Os portugueses que foram para lá foram fazer trabalhos que se calhar os alemães, os suíços, os franceses não queriam fazer.
E foi assim um bocado aí que eu cresci.
E depois, claro, através do esforço dos meus pais e depois dos estudos e não sei quê, eu fui por outro caminho, graças a eles, é claro.
E aí muitas vezes eu vejo-me do outro lado. Então interessa-me muito esta coisa das classes sociais, das divisões, das classes sociais, das tensões e mesmo de solidificação."
Eu fiquei com a noção, por exemplo, em "O que Resta", que tem muito o governo, precisamente com o êxodo rural, com a desertificação do interior em Portugal ?
"Esse filme foi filmado na aldeia dos meus avós e da minha mãe, de onde eles saíram. Ou seja, foi o primeiro filme de ficção. Eu queria filmar num lugar que eu conhecesse, com muitos portugueses. Eu vivia na Alemanha e voltava nos verões para passar os tempos lá.
Aquelas férias de seis semanas longas e nós íamos todos os anos. E para mim eu conhecia muito bem os espaços, os lugares, as pessoas e portanto, para mim fazia sentido fazer esse filme.
E esse filme também era sobre um agricultor que se separa do seu último animal e que também foi baseado na história do do meu avô, que depois quando eles voltaram para Portugal tinham uma quinta, uns animais, enfim, os campos e trabalhavam nos campos. E eram felizes dessa forma, depois de voltar."
"Mau por um momento", já é um retrato bastante contemporâneo do Portugal de Lisboa, da gentrificação desta mega-metrópole. Do facto de as pessoas de baixa renda terem cada vez mais dificuldades em se manterem na cidade, porque há projectos imobiliários que obrigam a desalojamento para se conseguir ter porventura a vista mais bonita sobre a capital portuguesa, não é?
"Exacto. E não é só a vista mais bonita, mas também assim a vista mais bonita é vista a que não estamos habituados a muitas vezes, por exemplo, da Ponte 25 de Abril.
Estamos habituados a ver a ponte de um lado, de um certo lado.
E aqui o filme começa com este postal da Ponte de Lisboa da Ponte 25 de Abril, mas depois tem esta panorâmica e acabamos neste bairro social.
E é isso, ou seja, esta exploração do espaço que parece não ter fim e que depois começa a chegar a lugares que há dez anos ninguém queria viver lá e hoje em dia começa a ser.. E depois, muitas vezes com nomes ingleses, existe um rebranding dos Passos e não sei o quê. E é isso. Constrói-se então esses lugares. Sim, é esta luta pelo espaço, é quase de certa forma, uma guerra pelo espaço."
Eu retenho sobretudo uma frase "O mundo será melhor lá fora se descarregarem a raiva aqui dentro". Quer comentar ?
"Sim. Ou seja, esta ideia do filme começou não necessariamente com gentrificação, mas começou-se com esta ideia de pronto.
Aí em Paris, por exemplo, eu lembro-me também de ver nos subúrbios de Paris muitas pessoas a atacarem carros, a destruírem carros muito jovens, revoltados com as suas situações.
E ao mesmo tempo, como os media, catalogaram estas pessoas. E ao mesmo tempo este fenómeno que existe à volta do mundo, de lugares, de espaços onde o pessoal pode, em troca de algum dinheiro, destruir coisas por simples prazer.
Ou seja, a motivação de destruição acaba por ser se calhar uma coisa parecida, uma de uma motivação parecida. Mas para quem tem dinheiro. E para quem tem dinheiro não há nenhum problema e para quem não tem, obviamente tem repercussões diferentes.
Ou seja, e é isso, esta ideia de estes espaços que se chamam "Car smash" ou "Red rooms". Existem muitos nomes para isso. E esta teoria quase filosófica de que se todos tivermos um espaço onde possamos livrar-nos da nossa raiva através da destruição que o mundo lá fora podia ser um lugar melhor."
E que as empresas possam fomentar este tipo de eventos, precisamente do chamado "team building" .
"Depois existem as empresas que também vão fazer isso com eventos de team building e não sei quê... Que mostra claramente que aquilo que muitas pessoas fazem no seu dia-a-dia, no seu trabalho, é uma coisa que os deixa de certa forma..."
Enraivecidos.
"Enraivecidos. E é isso. E por exemplo, agora, depois da minha história pessoal, eu também trabalhei muito tempo com publicidade e muitas vezes eu questionava-me.
Ou seja através daquilo que, das campanhas que fazemos e não sei o quê, que isto pá,: Isto não torna o mundo um lugar melhor, não é?
Esta. As campanhas, muitas vezes pelo contrário, Mas mesmo assim nós vamos fazendo e íamos fazendo e as pessoas vão fazendo.
Interessava-me muito também no processo da gentrificação, não só contar a história de quem está no fundo, mas quem activamente participa nisso.
E como é que essa pessoa auto-justifica as suas ações ? O que muitas vezes é tal coisa que passa por pôr comida na mesa, tem que pagar a renda.
E isso é o início de justificações que contamos a nós próprios, depois vai por aí além. E podem ir a outros espaços."
Eu sei que fala muito em Abbas Kiarostami, em Haneke, nos irmãos Dardenne como influências.
E sei também que este filme chega através do "Som e da Fúria" e de "Kid With a Bike", que é também o nome de um filme dos irmãos Dardenne, não é? Pode explicar ?
"Exacto. Aquilo que é uma produtora minha e de uma amiga, Romina Orsini, que fomos criando desde o filme "O que resta."
E sim, exactamente vem desse filme" Kid with a bike" que é um filme que me encantou bastante quando eu o vi pela primeira vez, dos irmãos Dardenne.
E ao mesmo tempo evoca o meu primeiro emprego, quando tinha 14 anos, era um gajos que entregava tipo revistas de porta em porta na Alemanha.
Então com uma bicicleta lá ia também a distribuir essas revistas grátis que existem lá, com publicidades e não sei o quê !
Então achei que faria sentido chamar a produtora, isso sim.
O filme é produzido pela "Som e Fúria", maioritariamente, e sem eles isto não teria sido possível fazer este filme.
Sim, como disse também que "O Som e a Fúria" já tem toda uma história no cinema mundial, e, sobretudo português. E foi um orgulho também fazer este filme com ele."
A chama dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 chegou, esta quarta-feira, a Marselha, a bordo do navio francês Belém e foi recebida com muito entusiamo por milhares de pessoas, que aguardavam por este momento, nesta cidade do sul de França.
Os preparativos duraram vários meses para que estivesse tudo pronto para este grande dia em que Marselha foi "o centro do mundo".
Em entrevista à RFI, Jorge Mendes, advogado franco-português residente em Marselha, falou-nos do grande impacto que este evento teve na cidade e explicou-nos os preparativos que foram feitos para este dia em que França acolheu este símbolo olímpico.
Recorde-se que a chama olímpica foi acesa no passado dia 16 de Abril, no Monte Olimpo, na Grécia. Navegou depois pelo Mar Mediterrâneo e chegou ontem aqui a França, onde fará um mítico périplo pelo país, passando por mais de 400 cidades até chegar depois a Paris, cidade onde se vai realizar a cerimónia de abertura, deste que é o maior evento desportivo do mundo.
Aqui em França, o nadador Florent Manaudou, campeão olímpico de 2012, foi o primeiro a transportar este símbolo olímpico. Os Jogos Olímpicos de Paris acontecem de 26 de Julho a 11 de Agosto.
No 25 de Abril, é tempo de recordar os heróis, e se comparação não pode haver, é certo que heróis surgem em quaisquer circunstâncias.
Há 50 anos, houve a revolução conhecida como a “Revolução dos Cravos” em Portugal com o fim da ditadura em 1974.
Desde então, e na história de Portugal, houve sempre heróis em várias vertentes, não apenas no campo político.
No desporto, a história de Portugal é marcada por feitos realizados em competições de alto nível.
No Râguebi, por exemplo, a Selecção Portuguesa participou no primeiro Mundial em 2007 em França. A coincidência foi que a segunda participação dos ‘Lobos’, alcunha da selecção de râguebi, aconteceu novamente em território francês em 2023.
Um Mundial marcado por uma vitória, a primeira frente às Ilhas Fiji, um empate, perante a Geórgia, e duas derrotas com a Austrália e o País de Gales.
Este percurso é contado pelo escritor e jornalista independente, Sérgio Lopes, que escreveu um primeiro livro após a participação em 2007, reeditando o feito desta vez com ‘Lobos’, que retraçou o percurso de Portugal no Mundial de 2023 em França.
Em entrevista exclusiva à RFI, Sérgio Lopes abordou a obra e a relação directa que o râguebi português acaba por ter com França, quer no que diz respeito às participações em território francês, quer em relação aos jogadores franco-portugueses que representam a Selecção dos Lobos.
A selecção portuguesa vai agora iniciar o percurso para alcançar o apuramento para o Mundial que vai decorrer na Austrália em 2027, talvez a oportunidade para uma terceira obra para Sérgio Lopes.
O livro ‘Lobos’ de Sérgio Lopes está disponível nas plataformas de vendas online de livros ou directamente no site da editora primebooks.pt.
No 25 de Abril, é tempo de recordar os heróis do passado e do presente, que passaram pelo território gaulês.
O livro “La Révolution Des Oeillets Au Portugal – Du pouvoir populaire au pouvoir parlementaire” ["A Revolução dos Cravos em Portugal – Do poder popular ao poder parlamentar"] de José Rebelo e Maria Inácia Rezola, é lançado, em França, na semana dos 50 anos do 25 de Abril. A obra junta meia centena de reportagens, escritas entre 1975 e 1976 por José Rebelo, então correspondente do jornal francês Le Monde em Lisboa, que são acompanhadas por uma contextualização histórica. Oiça aqui a entrevista.
RFI: Foi para o exílio, em Paris, em 1969, e entra no jornal Le Monde em 1972. Qual foi o ambiente na redacção no dia 25 de Abril de 1974? E como é que era essa primeira página de há 50 anos?
José Rebelo, Autor de “La Révolution Des Oeillets Au Portugal – Du pouvoir populaire au pouvoir parlementaire”: O ambiente foi extraordinário, sobretudo da parte de alguns jornalistas franceses do Le Monde que já tinham ido a Portugal. Penso no Marcel Niedergang que conhecia bem Portugal e tinha as suas fontes de informação em Portugal. Foi ele que se encarregou nesse dia de tratar a questão portuguesa. A questão portuguesa ocupou a primeira página do jornal com títulos a toda a largura, à excepção de 'Bulletin Français' que vinha sempre à esquerda, mas em todas as outras colunas o título dizia respeito à revolução, que não se sabia ainda muito bem como é que ela ia ser dirigida. Mas o que se noticiou logo no dia 25, desde a primeira edição do Le Monde, foi que havia um movimento militar em Portugal e que a queda do regime era iminente.
Volta para Portugal quando o Le Monde decide criar o posto de correspondente permanente em Lisboa. Inicia funções em Janeiro de 1975 e conta que a partir daí viveu “o período mais exaltante” da sua vida. Porquê?
Exactamente. E é, aliás, por isso que escolhemos este período de 1975 e 76. Durante este período, eu escrevi cerca de 240 artigos e nós escolhemos 53 que consideramos mais significativos. E porquê? Porque 1975 foi o período da explosão popular. Foi sobretudo após uma tentativa de golpe de Estado da direita, o 11 de Março. E aí as posições radicalizaram-se à esquerda.
Foi quando começaram as ocupações de casas que tinham sido deixadas pelos proprietários, muitos dos quais fugiram para Espanha, para o Brasil. Foi nessa altura que começaram as ocupações das fábricas que passaram a ser geridas por comissões de trabalhadores. Foram ocupadas propriedades agrícolas no Alentejo, os grandes latifúndios, com a criação de unidades colectivas de produção. O Partido Comunista tinha uma posição forte junto destas comunidades, impulsionando e encorajando essas ocupações. Mas o movimento alargou-se muito, não era só o Partido Comunista.
Houve uma multiplicidade de organizações da esquerda mais radical que participavam também neste movimento. E, sobretudo, o que é extraordinário é que havia gente que se manifestava e gente que gritava nas ruas sem pertencer a nenhum partido. Foi uma espécie de libertação das vozes e das utopias das pessoas que pensavam que conseguiam tudo realizar e que se juntavam. Juntava-se um grupo e ocupava, mesmo sem ser com um partido político a apoiar. Nessa altura fala-se muito do poder popular, o poder popular que extravasa as próprias dimensões partidárias.
O PREC, Período Revolucionário Em Curso, foi marcado por confrontos políticos e pela rivalidade entre a legitimidade revolucionária e a legitimidade eleitoral. Mas o que é certo é que viu emergir esse tal poder popular que levou a que muitos acreditassem que essa via revolucionária popular pudesse vencer. Sentiu isso?
Sim, eu senti. Não estava muito claro o que é que as pessoas queriam efectivamente fazer, qual era o modelo político. Quase que podíamos pensar nesse modelo mais pela negativa do que pela positiva, isto é, pensava-se democracia, sim senhor, mas não na democracia tradicional europeia. Daí que alguns grupos e até mesmo militares fossem apelidados de terceiro-mundistas porque pensavam um bocado naquele sonho do terceiro mundo. Não havia uma ideia muito clara quanto às instituições a criar, mas havia uma vontade clara que era de fazer alguma coisa de diferente. No género de economia directa, das tomadas de decisão por grupos de trabalhadores informais, etc, sem serem enquadrados politicamente. Foi extraordinário.
Depois, há uma confrontação entre duas legitimidades: a legitimidade eleitoral, sobretudo pelo Partido Socialista, e a legitimidade revolucionária, sobretudo pelo Partido Comunista. O Partido Comunista, que invocava, para defender a sua posição como expressão da legitimidade revolucionária, a resistência contra o salazarismo e os seus heróis e os anos que passaram na cadeia e as torturas a que foram sujeitos. O Partido Socialista não tinha este passado. O Partido Socialista tinha sido criado na Alemanha pouco tempo antes.
O que sucedeu foi que, em 25 de Abril de 1975, um ano imediatamente após a Revolução dos Cravos, houve eleições para a Assembleia Constituinte e o Partido Socialista teve um resultado absolutamente inesperado que ultrapassou os 37%. Quer dizer, as pessoas tinham um bocado a ideia que o poder estava na rua e, portanto, atribuíam ao Partido Comunista uma grande força junto do povo, que não se traduziu em termos eleitorais. Em contrapartida, o PS, que até então estava mais ou menos ausente dessas manifestações de rua, foi o PS que captou essa maior atenção eleitoral. E isso permitiu ao PS assumir-se como representante dessa legitimidade eleitoral. E deu-se a eclosão do chamado 'caso República' que teve uma grande repercussão, nomeadamente em França.
Porque foi acompanhado pelo Edgar Morin?
Edgar Morin e muitos outros intelectuais que discordavam das posições que o Le Monde teve em relação ao caso República. Quer dizer, houve várias posições no Le Monde, mas a posição dominante não coincidia com a opção do Partido Socialista. O Partido Socialista dizia que o caso República tinha sido uma tentativa do Partido Comunista Português - e diz isso no estrangeiro - para pôr fim à única voz socialista que havia em Portugal. Quando falavam em Portugal, os socialistas diziam que era uma tentativa do Partido Comunista para pôr fim à única voz independente que existia em Portugal. Portanto, mobilizava o discurso.
O Le Monde tinha uma posição diferente a esse respeito, achou que aquilo foi um movimento provocado não pelo Partido Comunista porque já havia muito poucos jornalistas do Partido Comunista. Foi muito mais provocado pelos operários da gráfica, que já vinham de antes, muito antes, e que eram sobretudo republicanos antifascistas. Eles não queriam era um jornal conotado politicamente, nem com o PCP, nem com o PS. Eram republicanos antifascistas e queriam um jornal independente. E depois havia núcleos de extrema-esquerda na administração e foram sobretudo esses núcleos que se impuseram.
O Partido Comunista já tinha retirado do jornal República praticamente todos os seus jornalistas que foram transferidos para o Diário de Notícias. Na altura, o Partido Comunista não podia denunciar o que se passava porque denunciar o que se passava era pôr-se em oposição também ao poder popular. São antigas as divergências entre o Partido Comunista e os partidos da esquerda radical ou da extrema-esquerda. Não podia apoiar a extrema-esquerda, mas também não se podia pôr em oposição porque senão perdia uma boa parte da sua base de manifestações, de ocupações, etc.
Todo este caso vai marcar o "Verão Quente". O ímpeto revolucionário calou-se a 25 de Novembro de 1975, depois do tal braço-de-ferro marcado por ameaças de guerra civil em Portugal. Numa das reportagens publicadas no livro, o José Rebelo relata que Mário Soares acusou os comunistas e os seus alegados aliados militares de "tentativa de instauração de uma ditadura totalitária" em Portugal. Esta acusação era fundamentada? Sentiu que, de facto, havia esta ameaça de guerra civil ou foi algo instrumentalizado pelos partidos?
Eu, pessoalmente, nunca senti que houvesse essa ameaça. Poderá ter existido, mas eu, enquanto jornalista, nunca senti esse risco de um golpe de Estado comunista. Nunca achei que o Partido Comunista tivesse força suficiente para se impor e para tomar o poder em Portugal. Mas houve quem pensasse isso e, se calhar com algum fundamento. Eu não posso negar a existência de algum fundamento nessa espécie de acusação. Eu pessoalmente, não sentia, mas poderá ter acontecido.
Parece-me que o Partido Comunista teve mais força e foi mais apoiado pela União Soviética até à independência de Angola. Portanto, o que interessava para os partidos dos outros países que davam o seu apoio ao Partido Comunista era sobretudo a descolonização e a forma como ela se iria fazer. Quando Angola se torna independente, o suporte do Partido Comunista enfraquece. Aliás, é nessa altura também, pouco depois da independência de Angola, que se dá o 25 de Novembro, que é a confrontação entre as duas alas militares, a ala mais radical e a ala mais moderada.
E há muitas versões do 25 de Novembro. O que é certo é que o Partido Comunista Português guardou uma atitude de relativa passividade e de muito silêncio em relação ao 25 de Novembro. Ele não se colocou ao lado da ala radical dos militares para evitar a confrontação. Havia dois sectores, sobretudo um onde ele era muito forte, que é o da área dos fuzileiros navais que eram muito controlados por um dos almirantes da esquerda radical, que é o Almirante Rosa Coutinho. E os fuzileiros nunca saíram da sua base.
Portanto, as pessoas podem interrogar-se e interpretar das maneiras mais diferentes que se possa imaginar esta atitude relativamente passiva do Partido Comunista. Será que ele não tinha forças para intervir ou será que ele, por análise da própria relação de forças, sentia que já não tinha condições para se impor e preferia a adopção de uma medida que salvaguardasse a sua existência em Portugal? Foi o que aconteceu porque no dia seguinte ao 25 de Novembro, um dos militares, Melo Antunes, que é um dos mais importantes militares do Conselho da Revolução, veio à televisão dizer "Viva a democracia, salvámos o 25 de Abril, mas não pode haver democracia em Portugal sem o Partido Comunista Português". Portanto, foi salva a situação. Quer dizer, não houve, na sequência do 25 de Novembro, um avanço da direita que afastasse claramente o Partido Comunista Português do leque partidário nacional. O Partido Comunista Português continuou a apresentar-se a eleições e a ver os seus resultados eleitorais cada vez mais enfraquecidos.
Por que é que as utopias revolucionárias do poder popular desaparecem depois do 25 de Novembro?
Quer dizer, já antes aquelas clivagens entre partidos políticos e facções dentro dos militares iam acentuando um clima desagradável. As manifestações contra as condições de vida aumentaram. Por exemplo, nas vésperas de 25 de Novembro, os operários da construção civil cercaram o Parlamento. Aliás, eu fiquei lá dentro e foi do lado de dentro do Parlamento que ditei o meu artigo para o Le Monde pelo telefone da Assembleia da República!
Já havia um certo 'clima de malaise', como dizem os franceses, mas depois, quando a situação mudou ao nível do governo, os militares que ganharam no 25 de Novembro, nomeadamente o general Eanes que os comandava, apareceram como os grandes vencedores. Isto contribuiu muito para enfraquecer o movimento que tinha bases pouco organizadas. Então, começaram a acontecer problemas às empresas auto-geridas porque elas podiam produzir enquanto tivessem tecido e também se houvesse importadores. Não havendo importadores, nem havendo onde comprar tecidos, a produção não se podia fazer, de modo que as empresas foram ocupadas mas acabou por acabar ao fim de alguns meses por haver grandes problemas de produção. O mesmo se passa noutros sectores industriais por falta de matéria-prima e falta de comercialização dos produtos que eram produzidos no interior dessas unidades produtivas. Nos campos é a mesma coisa.
Mas há um exemplo que dá que é um exemplo de sucesso. Publica uma reportagem, em Dezembro de 1976, de unidade colectiva de produção chamada "a esquerda vencerá", em Pias, no Alentejo. Quer falar-nos sobre esta conquista colectiva derivada da Reforma Agrária?
Essa é uma unidade colectiva de produção dirigida por um antigo operário agrícola que se chamava Manuel Carvalho. Eu acho que ele pertencia mesmo ao Partido Comunista Português, tinha uma grande actividade, um grande dinamismo e é muito bem aceite pela comunidade dos trabalhadores que formavam aquela unidade colectiva. Ele, como outros dirigentes de unidades colectivas, fizeram pequenos cursos de meses na República Democrática Alemã e vinham com cursos de aprendizagem acelerada. O que contava, essencialmente, era a capacidade que eles tinham de lidar com os militantes que formavam as unidades exclusivas de produção e beneficiavam também de algum apoio do Partido Comunista enquanto organização do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas.
Quando se começou a desfazer tudo, eles começaram a ver que isto não levava a parte nenhuma. Um ano e tal depois, houve uma reforma agrária que começou a restituir terras aos pequenos proprietários e as unidades colectivas de produção começaram a desfazer-se. Houve algumas que subsistiam, nomeadamente uma chamada Torre Bela que subsistiu durante mais algum tempo. A Torre Bela era estrategicamente uma unidade de produção muito importante porque estava no limite da metade norte de Portugal, onde predominava o minifúndio, e da metade sul dominada pelo latifúndio. Essa unidade colectiva de produção era dirigida por um revolucionário de um partido político que vinha de antes do 25 de Abril, Camilo Mortágua.
Que era da LUAR, a Liga de União e Acção Revolucionária...
Que dirigia a LUAR, exactamente. Era muito interessante porque ele tinha uma forma de organizar aquela unidade colectiva e de os trabalhadores se reunirem todos os dias. Eles ocuparam uma grande propriedade que pertencia, se eu não me engano, aos duques de Lafões, que se foram embora. Foi a gente mais pobre da aldeia e homens com hábitos de alcoolismo e tudo isso que vieram a formar a cooperativa.
Camilo Mortágua, todos os dias, à noite, reunia todos na sala de jantar do solar dos duques de Lafões, para dizer: "Bom, então o que é que vamos fazer amanhã?" E eu lembro de uma mulher uma vez dizer: "Ai, muitos de nós que somos católicos queríamos abrir a capela, podemos fazer uma pequena limpeza..." E ele disse: "Não. Se há muita gente, se a gente quer usar a capela, não tem que fazer uma pequena limpeza, tem que se limpar tudo integralmente porque a capela tem que estar em condições de as pessoas a utilizarem como um local de acolhimento e por isso tem que estar integralmente limpa." Foi ele mesmo que incentivou. Isto é quase um dos casos emblemáticos de uma reforma agrária que não era controlada pelo Partido Comunista, era esta esquerda utópica, mas que que revelou também um movimento popular absolutamente insuspeitável.
O último artigo do livro é datado de 29 de Outubro de 1982 e fala sobre o fim do Conselho da Revolução, mas, sobretudo, fala das críticas dos Conselheiros da Revolução quanto ao Presidente Ramalho Eanes que reintegrou salazaristas no aparelho militar e não manifestou "o mesmo espírito de abertura" em relação a militares envolvidos no "entusiasmo revolucionário de 75 e 76". Escreve, também, que o ministro do Interior da ditadura, o general Schulz, foi declarado inocente e que a Justiça ia abrir um inquérito à forma como ele foi detido depois do 25 de Abril. A dada altura escreve "Os cravos estão decididamente murchos". Porquê?
Bom, a dissolução do Conselho da Revolução, em 1982, é o último episódio daquele sonho revolucionário de 1975. Essas reacções vêm sobretudo do grupo dos militares mais radicais que foram derrotados no 25 de Novembro. O general Eanes representa aquele grupo de militares mais moderados e que eram contra esta ala radical. Houve receio que aquilo implicasse uma reviravolta total na relação de forças e houve desconfianças em relação ao próprio general Eanes quanto à sua orientação política e que ele fosse finalmente a expansão da direita militar.
Ele foi o primeiro Presidente da República eleito, apoiado pelo Partido Socialista e pelos partidos que estavam à direita do Partido Socialista, o Partido Popular Democrático e o Centro Democrático Social. Depois, foi ele que proclamou, desde logo, que o momento tinha chegado de fazer regressar os militares às casernas. Portanto, fazer regressar os militares às casernas era acabar com o mito dos capitães.
Mas as coisas alteraram-se porque, felizmente para Portugal, não houve um volte-face tão radical. O general Eanes, que em 1975 e nas eleições de 1976 aparecia como representante da direita, foi-se alterando. Mesmo fisicamente. Ele usava umas patilhas muito compridas, uns óculos de lentes grandes, tinha um ar hierático, muito rígido, sempre sério e tal. Depois, ele arranjou lentes de contacto, tirou os óculos, deixou de ter as patilhas compridas, perdeu aquele ar militar, aquele ar duro e passou a vestir-se civilmente como qualquer pessoa. Hoje o general Eanes é um dos grandes senadores ainda vivos de Portugal e é visto com respeito nos mais diversos meios, inclusivamente dentro do Partido Comunista.
E o Otelo Saraiva de Carvalho, que também entrevistou antes das presidenciais de 1976, como é que vê a forma como a História e como Portugal o tratou? Ele que libertou Portugal da ditadura?
Enquanto o general Eanes e outros generais como o Melo Antunes eram pessoas que tinham uma ideia mais clara quanto àquilo que importava fazer, o Otelo era - até pelo próprio nome - o homem das acções espetaculares. Ele foi fundamental no 25 de Abril, foi o ilustre estratega do 25 de Abril, mas depois tanto dizia que ia meter os sociais-democratas e a direita toda na Praça de Touros de Campo Pequeno (o que fazia com que as pessoas se lembrassem logo do Chile de Pinochet), como dizia, quando se deslocou a um país nórdico, que Portugal iria ter sucesso como um país social-democrata. Portanto, ele era uma pessoa extremamente simpática, extremamente afável, eu era muito amigo dele, mas ele perdeu um bocado o pé depois do 25 de Novembro.
Era alguém que gostava de estar sempre na boca de cena. Estava sempre ali sobre o palco e quando perdeu este poder que tinha enquanto chefe do COPCON, cometeu alguns erros graves, como dar cobertura - não digo que ele era dirigente - a grupos de esquerda mais radicais que foram responsáveis de alguns atentados terroristas. Não creio que ele fosse dirigente desses grupos, mas de alguma forma, alguns dirigentes desses grupos reclamavam-se dele e ele olhava-os com complacência, digamos. E quando ele perdeu esse grande prestígio e passou a não ter funções importantes do ponto de vista militar, acabou por ir para o outro lado. Foi condenado a 12 ou 13 anos de prisão, acabou por fazer metade da pena porque houve muitos dirigentes políticos estrangeiros, incluindo François Mitterrand, que fizeram pressão junto do primeiro-ministro de então, o doutor Mário Soares, no sentido de ele ser liberto.
Essa justiça também se fez em relação aos torcionários e aos antigos dirigentes do Estado Novo?
Não, eu diria que não. Aliás, foram poucos os que foram presos e mesmo uma grande parte dos que foram presos fugiram da prisão de Alcoentre. E é muito estranho como é que, de repente, 80 e tal presos acusados de pertencerem à polícia política fogem. Há várias coisas que se cruzam. Há o pensamento dos militares que o melhor é esquecer essa história toda, não vamos começar com represálias porque nunca se sabe onde é que acabam as represálias e o melhor é deixar isto esquecido.
Não houve essa perseguição de elementos da PIDE e houve alguns dirigentes da polícia política que depois apareceram, incluindo um que é responsável pela morte do general Humberto Delgado que foi o último candidato democrata às eleições presidenciais em Portugal e que foi assassinado em Espanha, perto da fronteira com Portugal.
Parece que há dois pesos e duas medidas em relação ao Otelo Saraiva de Carvalho e aos antigos responsáveis da ditadura…
Porque a situação também se modificou. A partir do 25 de Novembro, a direita portuguesa pôde aparecer livremente, enquanto que antes toda a direita se refugiava por detrás do Partido Socialista Português.
O que é que pensa de este ano terem sido eleitos 50 deputados da extrema-direita e um vice-presidente da Assembleia ser um antigo membro do MDLP, responsável por vários atentados no pós 25 de Abril?
Esse partido, o Chega, em poucos anos, passou de um deputado para 50 deputados, num parlamento que conta 230 deputados. É algo que mostra o mal-estar em Portugal em sectores como a educação, como a saúde, como a habitação, nas forças policiais que ganham salários de miséria. Há descontentamento e o que aconteceu é que aparece um partido populista de extrema-direita que promete tudo e mais alguma coisa.
Quer dizer, aconteceu em Portugal, o mesmo sucedeu em França, sucedeu na Holanda, sucedeu em Espanha, sucedeu na Áustria, está a suceder na Alemanha, etc. Direi até que em Portugal sucedeu um bocado mais tarde talvez porque a democracia em Portugal vem na sequência de um acto revolucionário, contrariamente ao que sucedeu nos outros países onde a extrema-direita progrediu rapidamente e muito mais cedo. Portanto, o que sucede em Portugal, neste momento, é algo que que sucedeu também nos outros países. Mas eu direi que mais de 80% dos portugueses votaram por partidos democratas, mesmo a direita que está no poder actualmente é um partido de direita que respeita as regras da democracia, enquanto o Chega diz-se anti-regime, contra a Constituição, contra o 25 de Abril e tudo isso. E a direita há-de continuar a defender o 25 de Abril.
Ou o 25 de Novembro...
E o 25 de Novembro. Aliás, a direita considera que já não haveria o 25 de Abril se não tivesse havido o 25 de Novembro. Mas o que é certo é que continua a respeitar o 25 de Abril, ao passo que este partido de extrema-direita não. Ele afirma-se contra o 25 de Abril.
Há historiadores que defendem que o 25 de Abril foi um golpe de Estado militar que o povo na rua transformou em revolução. O que foi para si a "Revolução dos Cravos"?
Essa interpretação é também a minha. O golpe militar inicialmente teve uma dimensão sobretudo corporativista. Havia, por um lado, um grupo de militares de alta patente, coronéis, generais e tal, que consideravam que o Governo de Marcello Caetano não tinha condições para encontrar uma solução que resolvesse a situação porque a posição não era de independência das colónias, era de uma autodeterminação, de uma independência relativa, de tal forma que as colónias pudessem ter alguma autonomia política, mas todas elas no seio de uma comunidade portuguesa que continuasse a ser dirigida por Lisboa. Em Moçambique, até havia quem pugnasse por uma independência do norte de Moçambique, a norte do Zambeze. O livro que Spínola publicou, “Portugal e o Futuro”, um ano antes, já mostrava esse descontentamento e achava que já não havia condições para o Governo português poder resolver a situação africana.
Depois, havia um grupo de militares que protestava pelas suas condições de existência, por dificuldades de imaginar a carreira, até porque o Governo português tinha sido obrigado a recrutar estudantes universitários recém-licenciados que partiam todos para as colónias com o título de tenentes e de capitães quando faziam mais do que uma missão em África. Portanto, os capitães de carreira reagiam mal ao verem os capitães que não eram profissionais, que eram universitários e que acabavam por ter as mesmas regalias que eles.
Terceiro aspecto, esses universitários que se tornaram capitães, tenentes, etc, também têm um papel de doutrinação política, ideológica junto de muitos oficiais de carreira.
Portanto, temos oficiais de carreira que estão dispostos a alinhar numa tentativa de golpe de Estado porque as suas carreiras não oferecem um futuro conveniente; temos oficiais de carreira que alinham também no golpe de Estado porque estão politicamente doutrinados à esquerda pelo seu contacto com os não profissionais que vêm da universidade; e depois temos tenentes, coronéis, generais que também alinham num golpe de Estado para encontrar uma solução que não seja de independência integral para as antigas colónias. Durante bastante tempo estes três grupos coexistiram com as suas contradições, mas coexistiram.
O 25 de Abril é a expressão desta espécie de compromisso tácito entre estes três grupos e o Spínola que é nomeado Presidente da República, que dirige a Junta de Salvação Nacional e que representa estes generais que entendem que não há solução dentro do regime, mas que não querem ir muito longe. Depois há as tentativas de golpe de Estado de 28 de Setembro e de 11 de Março que são levadas a efeito por esse grupo de generais. Mas cada vez que há uma tentativa dessa natureza, a ala radical dos capitães ganha posição.
Depois, há a rua, há o efeito popular que é enorme. As pessoas saem à rua. Eu estava em Paris nessa altura, mas fui no primeiro voo charter que aterrou no aeroporto de Lisboa. Foi uma viagem organizada em Paris. Tive a ocasião de assistir a esse movimento e ao primeiro de Maio de 1974 que foi uma coisa absolutamente extraordinária. Os militares, os cravos nas espingardas, os cravos nas bocas dos canhões, os militares todos... E depois havia o povo todo na rua. O povo saltou para cima dos blindados.
Isto teve nestes militares, tenentes, capitães jovens, um grande impacto. Sentiram-se dignificados, de repente reconquistaram o orgulho de ser militares que tinham perdido porque estavam votados a uma guerra africana que não era popular em Portugal e que aparentemente não tinha solução e que Portugal estava a perder. Portanto, eles ganham prestígio, sentem-se heróis e ganham a dignificação. E é isto também que joga um papel muito importante para que eles cada vez assumam posições mais à esquerda e que o golpe de Estado se transforme mesmo numa revolução.
É um exemplo desses militares a quem nós dedicamos o livro, que é o António Marques Júnior, que era tenente no 25 de Abril e foi ele que comandou as tropas que vieram de Mafra, que é o lugar onde se preparavam todos os universitários que iriam tornar-se tenentes e capitães. Ele foi um dos mais jovens militares graduados e foi o mais jovem membro do Conselho da Revolução, que era o órgão de decisão política e administrativa formado pelos militares. Ele morreu muito cedo, morreu há uma dúzia de anos e foi a ele que dedicámos o livro porque achámos que ele representava toda aquela pureza, toda aquela vontade de fazer alguma coisa de novo, toda aquela vontade de evitar retaliações, de procurar consensos e que tudo se passasse bem ou que tudo se passasse o melhor possível.
Desde o início de abril, as ruas de Paris estão a encher-se de figuras portuguesas que se distinguiram nos domínios da literatura, do desporto ou da música. Uma homenagem pensada em formato de calendário do advento pelo graffiteur Glaçon, português estabelecido em França, que até ao 25 de Abril está a pintar 24 rostos portugueses um pouco por toda a capital francesa para assinalar os 50 anos da Revolução dos Cravos.
Instalado há quatro anos em Paris, o artista urbano Glaçon, cujo nome próprio é Bryan Diegues, queria assinalar o aniversário emblemático da Revolução dos Cravos e decidiu pintar em diferentes ruas da capital rostos de portugueses que se distinguiram em diversas áreas e alguns com uma relação particular com a França, como é o caso da actriz Maria de Medeiros, o jogador Eder ou o comediante David Castello-Lopes.
"Eu quis fazer um calanedário do advento do 25 de Abril celebrando Portugal sem ser só MFA (Movimento das Forças Armadas), sem ser só capitães, porque seria sempre mais ou menos a mesma coisa. Quis fazer uma espécie de homenagem a Portugal. Então falei da ideia de irmos de Magalhães ao Ronaldo, passando pela cultura portuguesa, é claro", explicou em entrevista à RFI.
Assim, e olhando para a topografia de Paris e locais emblemáticos conseguiu "casar" figuras histórias portuguesas com muitos recantos da cidade.
"As pinturas não podem ser em qualquer sítio. Por exemplo, Camões tem que ser na Avenida de Camões. Não pode ser outra coisa. Então quis sempre fazer uma pintura à beira de algo ou numa parede que fizessem sentido. Por exemplo, pintei o Éder à frente do Stade de France, onde ele marcou o golo no Europeu de Futebol. Pintei, por exemplo, José Saramago e como não há uma Rua Saramago, há em Paris aquelas livrarias verdes à beira do rio Sena e pintei-o aí", declarou.
Auto-didacta, esta paixão de Glaçon (ou cubo de gelo em português) pelo graffiti acelerou quando o seu pai morreu e teve vontade o pintar um pouco por todo o lado. Os seus conhecimentos e tecnicas foram evoluindo e começou a ser contratado para pintar rostos em espaços privados, mantendo sempre a sua actividade de street artist.
É neste contexto que se insere este calendário, sendo que estas pinturas são ilegais e muitas vezes efémeras, como explicou o artista.
"Isto não é legal. Nada. E não há nenhuma tolerância. Por isso estou a arriscar multas porque ninguém sabe o que eu faço. Não avisei porque não posso fazer e se eu aviso pode demorar anos para receber permissão. Então tinha que ser antes do 25 de Abril, não podia ser em dezembro. E será que vai ficar ou não? Não sei. Isto é uma arte que pode desaparecer amanhã. Por isso eu não pintei tudo no mês de Janeiro. As pinturas vão desaparecer, então não faz sentido. Fico sempre à espera do dia de amanhã. Vou pintando hoje, publicar amanhã ou às vezes pinto hoje para publicar hoje. E assim, se alguém quiser vir ver a pintura, pode ir e ver, tirar fotografias até que a pintura um dia pronto, ficará pela história", concluiu.
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