Com as eleições presidenciais marcadas para este domingo, 18 de Janeiro, a campanha decorre sem abordar o trabalho migrante, apesar do seu peso estrutural. O economista angolano e investigador no ISCTE, Francisco Miguel Paulo, lembra que “os principais sectores que mantêm a economia a funcionar dependem essencialmente da mão-de-obra de imigrantes”. A precariedade é central no modelo laboral português e sem integração “os imigrantes ganham experiência e vão para outros países onde são melhor remunerados”.
A campanha para as eleições presidenciais entra na recta final com a ida às urnas marcada para domingo, 18 de Janeiro, e com a hipótese de segunda volta a 8 de Fevereiro, caso nenhum candidato ultrapasse os 50% na primeira votação. Num ciclo eleitoral em que a Presidência é frequentemente tratada como cargo de “magistratura de influência”, o debate público tem oscilado entre temas identitários e querelas de ocasião, deixando na sombra uma realidade económica persistente: o trabalho migrante como alicerce de sectores essenciais.
Esse silêncio contrasta com o dia-a-dia do país. Da agricultura intensiva no Alentejo à construção civil nas grandes cidades, passando pela restauração, limpeza e serviços aeroportuários, multiplicam-se actividades dependentes de mão de obra estrangeira, muitas vezes em regimes de precariedade laboral, habitação degradada e vulnerabilidade administrativa. A dependência do empregador para rendimento, alojamento e, em certos casos, para a própria regularização, tem exposto limites das políticas públicas e dos mecanismos de fiscalização.
Francisco Miguel Paulo, economista angolano e investigador no ISCTE traça um diagnóstico em termos directos: “Se reparar, os principais sectores de actividade que mantêm a economia a funcionar: a limpeza, o serviço urbano, a construção civil, a restauração dependem essencialmente da mão de obra de imigrantes. Sem os imigrantes, seria muito mais difícil Portugal conseguir fazer com que esses serviços continuassem a funcionar.” A ideia, insiste, não é abstracta: “até hoje, no aeroporto, as pessoas que manuseiam as bagagens ou fazem o apoio em terra, boa parte são imigrantes africanos que falam português.”
A explicação, acrescenta, começa na própria estrutura demográfica e laboral do país. “A população portuguesa, especialmente os mais formados, quando terminam a licenciatura e o mestrado, saem de Portugal e vão para outros países onde são melhor pagos. Poucos ficam aqui. Quem preenche essa vaga são os imigrantes.” E, no entanto, observa, a discussão política raramente sai do eixo “a favor” ou “contra” a imigração: “no debate, eu não vi candidatos a falarem sobre isso… fica-se pela xenofobia ou por ser contra migrante ou não, mas não se consegue enquadrar.”
Para o economista, o ponto crítico está na ausência de uma estratégia para aumentar produtividade e reter experiência. “Chegam, ficam cinco, seis anos, conseguem alguma experiência e muitos não permanecem: vão para França, Alemanha, Reino Unido, onde são melhor remunerados.” O efeito, diz, é um ciclo de substituição permanente: “os que se tornaram produtivos saem e são substituídos por novos que não têm experiência… e esses sectores ficam sempre a depender de mão-de-obra nova que não consegue trazer inovação.”
Daí a conclusão: “a precariedade não é uma excepção; é completamente estrutural.” E essa estrutura, argumenta, “faz com que Portugal não aumente a sua produtividade”, porque a estabilidade necessária para progressão profissional e melhoria de processos raramente existe. “As pessoas têm de ter alguma estabilidade dentro das instituições e crescer para conseguirem dar novas ideias, mas isso não acontece”, resume.
O impacto, sublinha, não é apenas social: é também fiscal e macroeconómico. “Portugal perde”, afirma, “porque esses trabalhadores saem e já não contribuem para a segurança social aqui; já não pagam aqui os impostos.” E distingue o padrão do emigrante português: “no caso dos próprios portugueses que saem… repatriam rendimentos, compram casa, vêm passar férias. Agora, como garantir isso aos imigrantes?” A questão, diz, é criar condições para “manter o link”, permitindo poupança e investimento, em vez de uma saída definitiva sem retorno económico.
Quando se pergunta o que poderia mudar, Francisco Miguel Paulo aponta para um vazio de incentivos. “O único incentivo que o governo português dá, e agora vai mudar com essa lei da nacionalidade, é atribuir nacionalidade”, mas “depois disso não há incentivos económicos.” O resultado, sugere, é uma integração incompleta: “falta integração quase em todos os sectores”, com um sub-texto de segmentação do trabalho, “nota-se que, para alguns, especialmente os africanos dos PALOP ‘só valem’ para a construção civil”, apesar de existirem “médicos e pessoas altamente especializadas” que acabam por sair.
A mesma lógica aplica-se à investigação e ao ensino. Na ciência, reconhece, há portas abertas à entrada: “a FCT… é uma candidatura de mérito, com painel internacional.” Mas volta a surgir o problema depois: “termina a investigação, como fazer com que ele fique cá? Se concorrer para universidades portuguesas, é muito difícil.” E o argumento alarga-se ao reconhecimento de carreira docente: “chega cá para pedir equivalência… não consegue porque dizem que essa experiência não vale. Isso é discriminação. E quem perde é a sociedade portuguesa.”
Neste contexto, o calendário eleitoral evidencia a dissonância: vota-se já a 18 de Janeiro, mas o tema permanece periférico. Para o economista, a campanha tem privilegiado “troca de palavras e acusações pessoais” em detrimento dos “principais problemas que fazem a comunidade portuguesa funcionar”, incluindo a integração laboral e a habitação. E aponta, sem rodeios, a contradição de um país de salários baixos e rendas altas: “um salário mínimo de 900 e tal euros e rendas de 1000, 1200… não faz sentido as pessoas cá ficarem.”
A objecção habitual, a de que o Presidente tem poderes limitados, não elimina, para Francisco Miguel Paulo, a responsabilidade política. O cargo é “maioritariamente” não-executivo, mas dispõe de instrumentos relevantes em momentos de crise, incluindo veto e dissolução do Parlamento. E, na leitura do economista, há um papel de orientação: “o Presidente deve interpretar qual é o plano, a agenda nacional de consenso, e fazer com que, não importa qual seja o governo, essa visão seja concretizada.”
A ideia é substituir o ruído pelo essencial: definir prioridades, exigir coerência e pressionar para reformas que atravessem legislaturas. “É importante que haja um plano nacional supra-partidos”, defende, para que “assuntos transversais” como trabalho, integração, produtividade, habitação, serviços públicos não sejam tratados como episódios. Num país com envelhecimento acelerado e dificuldades em reter quadros, diz, o custo de ignorar a base laboral que sustenta sectores inteiros “é vergonhoso e é triste”.
Segundo o economista, sem trazer o trabalho migrante para o centro, não como arma retórica, mas como variável económica e social, Portugal continua a gerir o país “pelo curto prazo”, aceitando que a precariedade seja, não um desvio a corrigir, mas a engrenagem que mantém tudo a funcionar.