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Em França, a primeira volta das eleições autárquicas ficou marcada por um aumento dos extremos tanto à direita como à esquerda, assim como pelo quase desaparecimento do partido do Presidente, Emmanuel Macron. O investigador Victor Pereira explica as tendências destas eleições.
A primeira volta das eleições autárquicas em França decorreu no domingo e, especialmente nas grandes cidades, deixou muitos resultados em aberto, já que haverá uma segunda volta no dia 22 de março, onde se conhecerá o desfecho político para os próximos seis anos de cidades como Paris, Marselha, Lyon, Lille, Toulouse, Nice ou Bordéus.
A subida da extrema-direita, através da União Nacional de Marine Le Pen, e da extrema-esquerda, com a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, marcam esta primeira volta, assim como o desaparecimento do partido de Emmanuel Macron, como explicou Victor Pereira, investigador principal no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista à RFI.
"Assistimos ao quase desaparecimento do partido de Emmanuel Macron. Isto é, o centro à volta do Presidente da República quase não ganhou nenhumas cidades e as pessoas que estão nesse campo e conseguiram ter resultados é porque já traziam bons resultados antes. Outro ponto importante são os dois extremos. A extrema-direita, a União Nacional, consegue guardar várias cidades. O caso mais evidente é em Perpinhã, com Louis Aliot, que ganhou logo na primeira volta. Então a extrema-direita guarda as suas câmaras — o que não tinha sido o caso nos anos 90, por exemplo — e consegue ampliar os bons resultados, sobretudo no sudeste. Uma das principais surpresas do voto foi o resultado da França Insubmissa, que consegue bons resultados no norte da França; provavelmente vai ganhar Roubaix, tem um bom resultado em Lille e ganhou Saint-Denis, junto a Paris", detalhou o académico.
Até terça-feira à noite, as listas com mais de 10% que passaram para a segunda volta vão tentar criar alianças ou desistir em prol umas das outras, de forma a afinar o escrutínio de dia 22. Com várias eleições onde passaram quatro, cinco ou até seis candidatos diferentes, todas as possibilidades estão em cima da mesa.
"Vai haver vários casos. Nalguns casos, pessoas do mesmo campo político, seja esquerda, direita ou centro, talvez não vão encontrar soluções e vão manter-se. Na segunda volta não é preciso ter a maioria, é só preciso ficar à frente. Noutros casos, onde os candidatos se podiam manter, vão desistir para não permitir que o outro campo, direita ou esquerda, ganhe, e isso vai acontecer em vários sítios. Há ainda um terceiro caso, mais complicado, até porque há uma certa polarização, que é o caso das fusões. Isto é, de duas listas fundirem-se numa só. E isso implica negociações. Implica, às vezes, o sentimento de diluir os seus princípios e os valores", explicou Victor Pereira.
Estas eleições autárquicas permitem já fazer algumas reflexões sobre as eleições presidenciais que se realizam em 2027. Parece haver um desinteresse dos franceses pela política e, também, o aumento da extrema-direita e da extrema-esquerda mostra já possíveis desfechos para a escolha do próximo Presidente.
"Um ponto importante é a taxa de abstenção, que é muito alta, um bocadinho mais de 40%. As eleições municipais eram muitas vezes eleições em que as pessoas iam votar porque são as eleições do quotidiano, as eleições em que se fala do lixo, das ruas, da limpeza, e é bastante raro haver tanta abstenção, fora as últimas eleições por causa da Covid-19. Há um cansaço dos eleitores, que não vão votar e que acham que o voto já não faz assim tanta diferença. Depois, tanto a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, como a União Nacional, de Marine Le Pen, veem estas eleições como um estímulo, já que conseguem ver os seus bastiões e a França Insubmissa vai ganhando cidades. Por outro lado, os candidatos mais centrais, mais moderados, parecem não conseguir ter bons resultados", concluiu.
O conflito no Médio Oriente já vai no seu 13° dia sem sinais de abrandar, apesar de Donald Trump ter dito no começo da semana que a "guerra estava prestes a terminar". Em quase duas semanas de ofensiva israelo-americana, fontes oficiais dão conta de mais de 630 mortos no Líbano, enquanto o Irão contabiliza mais de 1.230 mortos. Paralelamente, os países do Golfo registaram dezenas de mortos, Israel, 14 mortos, entre os quais dois militares, e do lado americano, sete soldados foram mortos.
Para além do balanço humano, estes 13 dias de guerra tiveram igualmente consequências materiais não só no Irão como também nos países da região, onde Teerão visa as bases militares americanas, aeroportos e infra-estruturas petrolíferas, com o efeito imediato de obrigar os países do Golfo a diminuir de 10 milhões de barris a sua produção diária.
O Estreito de Ormuz, por onde passava até agora 20% do comércio mundial de petróleo, está bloqueado pelo Irão. Apesar de Trump prometer retaliações "nunca vistas" se Teerão persistir nesta direcção, as autoridades iranianas garantem que "nenhuma exportação vai transpor" este ponto de passagem, que o mundo "vai ter que se preparar para um barril a 200 Dólares" e que "vai ser impossível fazer baixar o preço do petróleo artificialmente".
Uma resposta implícita à iniciativa tomada pela Agência Internacional da Energia, uma entidade que junta 32 países, nomeadamente os Estados Unidos, que acaba de anunciar a sua decisão de colocar no mercado 400 milhões de barris provenientes das suas reservas estratégicas, no intuito de tentar evitar uma explosão dos preços, numa altura em que o barril já ronda os 100 Dólares.
Um momento particular aqui analisado por Ivo Sobral, Coordenador de Mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi.
RFI: Ficou surpreendido com este conflito?
Ivo Sobral: O Irão, estrategicamente é o país mais importante do Médio Oriente. Sempre foi assim desde o tempo de Alexandre Magno. Historicamente, na Antiguidade, é a passagem entre o Oriente e o Ocidente e o país é zona fulcral, assim como o Iraque. O Iraque antes era uma província do Império Persa. E olhando por esta óptica, o grande Império oriental que é a China tinha fez um acordo estratégico com a República Islâmica do Irão, no valor de 400 biliões de Dólares, um acordo de várias dezenas de anos para cooperação. Ou seja, a China tentou unir o Irão no seu projecto futuro de superpotência mundial, obviamente, accionando uma série de alarmes, particularmente no Pentágono, em Washington. Relativamente à posição estratégica dos Estados Unidos na zona, era uma situação inconfortável também. Existem três factores: o factor número um, a população iraniana, mais que sobejamente, várias vezes tentou libertar-se. Mas a crueldade do Governo da República Islâmica do Irão é quase inimaginável para nós, ocidentais. As informações que eu tenho, tenho ligações bastante grandes, faz cerca de 25 anos que visito o Irão, trabalhei no Irão e operei no Irão e é uma situação que de facto conheço bem. De facto, a população queria modificar o 'status quo' do país. Outra questão é a questão económica pura e dura. O Irão está sem controlo da sua moeda e completamente paralisado, com as pessoas a perderem todas as suas poupanças que arduamente conseguiram pôr de parte para tentar comprar uma casa e sobreviver nesta ditadura. O desemprego é enorme, particularmente nos jovens. Uma fórmula já vista que mais cedo ou mais tarde iria explodir em alguma coisa.
RFI: Estávamos a falar da situação económica do Irão. Dá a sensação, no fundo, que o Irão está a jogar tudo por tudo e que, apesar das dificuldades, tinha a sua estratégia bem montada.
Ivo Sobral: Sim, era a sobrevivência a todos os custos do regime. Ou seja, vender e basicamente dar como garantia todos os recursos naturais do país, pondo em xeque todas as gerações futuras de cidadãos iranianos. Dando basicamente a exploração do gás e petróleo do Irão, assim como muitos outros contratos multibilionários que iriam ser dados à China, neste caso, em troca de um apoio chinês ao Irão. Portanto, era este o grande negócio. Depois há uma linha vermelha que foi cruzada amplamente, que é a posição do Irão em relação à Rússia. Eu relembro que desde a criação da República Islâmica, a Rússia, em particular a União Soviética, foi um país que era visto com hostilidade pelo Irão. Não nos esqueçamos que o Khomeini, o fundador da República Islâmica do Irão, disse várias vezes que a Rússia era o "outro diabo que tinha que ser abatido". Portanto, o primeiro era os Estados Unidos e a União Soviética era o segundo. Existiu sempre alguma cooperação, particularmente nos anos 90 e a partir do ano 2000 com a Rússia, mas foram sempre contactos superficiais, em que o Irão esteve sempre um pouco à distância da Rússia, apesar de a Rússia tentar sempre atirar o Irão para a sua esfera de cooperação, sem nunca conseguir. Finalmente, foi preciso a guerra da Ucrânia para o Irão cruzar essa meta e apoiar a invasão russa da Ucrânia, com os célebres drones Shahed que agora estão a sobrevoar basicamente todo o Médio Oriente. Foram exportados para a Rússia e as vítimas dos drones iranianos foram e continuam a ser os civis da Ucrânia. Portanto, há aqui uma ligação, um eixo Rússia, Irão e China, que atiraram o Irão para o xadrez estratégico mundial como um alvo. Como dizia Churchill, um "softbelly" (elo fraco) do novo Império russo-chinês. Falando aqui também de questões puramente económicas e interesses estratégicos, o Irão tem uma economia gigantesca, com uma população altamente educada, com níveis de ensino, de engenheiros, médicos, muito superiores até ao Ocidente. Falamos de um país que normalmente fica em segundo ou terceiro lugar em termos de evolução da matemática nas escolas. A nível mundial, normalmente o primeiro é o Japão, depois é a Coreia do Sul e a seguir é o Irão. Portanto, é deste tipo de pessoas que estamos a falar. O Irão tem uma população acima de 90 milhões de pessoas, com todos os investimentos financeiros internacionais completamente congelados há quase 48 anos e um mercado central para o Médio Oriente, central para a Ásia Central e para o próprio subcontinente indiano. Portanto, é uma potencial economia que irá precisar de centenas de milhões de investimento para o futuro e é um país absolutamente crucial para qualquer cooperação internacional, americana e europeia. É uma conjugação de factores que consolidaram provavelmente esta guerra.
RFI: Neste momento, fala-se para os Estados Unidos de gastos em 13 dias de mais de 11 biliões de Dólares neste conflito. Mas há também outras consequências, nomeadamente a subida do preço do petróleo e os receios causados pelo facto do Irão estar a bloquear o estreito de Ormuz. Pode durar muito tempo?
Ivo Sobral: Eu não creio que irá durar muito tempo, porque é incomportável. Agora, no curto prazo, é óbvio. É uma outra crise petrolífera e muito parecida aos anos 70. Mas existem países que serão mais expostos à crise. A Europa normalmente é mais exposta, assim como países na Ásia, como o Japão, a China. Dos dois lados do Golfo, a China, particularmente, depende do petróleo iraniano. Todo o outro golfo, o Kuwait, os Emirados, a Arábia Saudita, Bahrein, dão o petróleo para, por exemplo, a Coreia do Sul e o Japão, assim como para o Ocidente. A Europa e a Ásia serão os que irão mais sofrer em termos económicos, a curto prazo, deste mesmo bloqueio. Agora o bloqueio, é um bloqueio efectivo do Ormuz? Não. Neste momento é mais uma ameaça, um outro tipo de ameaça terrorista. O Irão não tem meios para efectivar este bloqueio. O que o Irão neste momento usa é uma estratégia de terror. Portanto, existe uma estratégia baseada em mísseis e drones que foi montada há mais de 30 anos. O Irão investiu maciçamente na criação de meios para projectar estrategicamente as suas posições. Um bloqueio, não creio que seja possível. Os Estados Unidos, assim como Israel e outros países não irão deixar que isso aconteça. E depois, estrategicamente, particularmente, os Emirados Árabes Unidos possuem vários 'pipelines' que trazem o petróleo não através do estreito de Ormuz, mas directamente para o Oceano Indico. Uma zona muito perto de Omã, onde exportam o petróleo, sem passar pela posição do controlo de Ormuz. Portanto, é uma maneira de estar ao lado desta zona de Ormuz. Existirão, obviamente perturbações, porque há perturbações vindas também ainda do petróleo russo que está a ser alvo de um boicote internacional e o mercado internacional já estava com algumas fontes de pressão. Esta nova pressão obviamente desequilibra no curto prazo. Agora, no longo prazo, não creio que isso irá acontecer. Esta estratégia foi feita já há algum tempo. Existem reservas energéticas, existem outras fontes energéticas. E se esta guerra tivesse ser feita pelo menos dez anos atrás, seria pior. Neste momento, existem outras fontes alternativas. Obviamente, não ajuda termos a crise russo-ucraniana e uma guerra a ocorrer ao mesmo tempo. Esse facto é o problema.
RFI: Em resposta ao facto de os países do Golfo serem obrigados, neste momento a produzir menos e também haver esse problema no Estreito de Ormuz, a Agência Internacional da Energia disponibiliza 400 milhões de barris de petróleo para manter o preço mais ou menos estável. Julga que esta medida pode ser eficaz?
Ivo Sobral: No curto prazo, irá ajudar, seguramente para melhorar a situação. Eu recordo que o valor do petróleo estava relativamente há pouco tempo atrás, a menos de 50 Dólares o barril e aqui já se fala talvez em 100 Dólares até ao final desta semana. 100 Dólares ainda é muito abaixo dos preços que nós normalmente pagamos quando tínhamos crises. Eu recordo que quando foi o Iraque, o petróleo chegou a um pico de 150 Dólares cada barril. Ainda é financeiramente barato. Existem também, obviamente, as enormes reservas americanas e depois há aqui um gigante petrolífero que poderia ajudar a equilibrar toda esta situação que é a Venezuela. A Venezuela, neste momento, está ainda sob embargo. Ainda há a possibilidade de explorar outros acordos com o governo vigente, onde o petróleo seria libertado para o mercado. Teria algum impacto limitado, talvez 10%, porque o petróleo venezuelano é ligeiramente diferente do petróleo produzido no Médio Oriente. Existem condicionantes técnicas para a sua refinação, enquanto as refinarias europeias e asiáticas estão mais centralizadas no petróleo do Médio Oriente. Portanto, há aqui uma facilidade para isso. Agora, penso que todas estas reservas a ser libertadas neste momento são reservas que foram de criadas depois da guerra do Iraque e que visam fazer uma espécie de protecção e isolamento relativamente a choques energéticos futuros. E veremos se serão eficientes ou não. 400 milhões de barris não é uma quantidade bastante importante, mas obviamente poderá durar talvez duas semanas. A partir daí, a situação terá que voltar à normalidade. Se não voltar à normalidade, aí o petróleo vai ultrapassar muito mais os 100 Dólares, talvez chegar aos 150. Depende. Tudo o que acontecer nestas próximas duas semanas, como a guerra e como a questão do governo iraniano estará solucionada, que tipo de governo será instaurado, o que é que vai sair de Teerão para o futuro, o que vai acontecer, isto tudo está dependente da guerra.
RFI: Tem-se a sensação que os países do Golfo estão relativamente desprotegidos no âmbito deste conflito. Para já, os Estados Unidos não conseguem garantir a segurança dos navios que andam pelo Golfo e designadamente junto do estreito de Ormuz. E durante todas estas ofensivas por parte do Irão contra as diversas monarquias do Golfo, elas tiveram que responder pelos seus próprios meios.
Ivo Sobral: Isto era relativamente expectável. Já tinham existido outros ataques no passado por parte das milícias Hutis, pelo menos dois incidentes bastante graves, em que drones Hutis de longo alcance aparentemente foram bombardear a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. E desde que isto aconteceu, estes dois países prepararam-se abundantemente para um conflito futuro em que estes drones iriam vir directamente do Irão. E foi isso que aconteceu. Portanto, em termos estratégicos, em particular os Emirados Árabes Unidos, tem uma série de sistemas antimíssil e anti-drones de várias nacionalidades e sistemas antimísseis Americanos, antiga e nova geração, tem sistemas antimísseis da Coreia do Sul que são bastante eficientes. E temos ainda vários sistemas antiaéreos de origem alemã que são utilizados para garantir uma protecção de médio e curto alcance em zonas específicas e que são também bastante eficientes. São sistemas que protegem fábricas e zonas estratégicas na Ucrânia contra os mesmos drones utilizados pela Rússia. E estes sistemas, por exemplo, existem também nos Emirados. A Arábia Saudita também tem vários sistemas antiaéreos. E a questão é que, obviamente, o Irão, uma vez mais, prova que não é um parceiro recomendável. Eu recordo que estes ataques visaram todos os países do Golfo, inclusive o Qatar, que era visto como um aliado do Irão, assim como Omã. Omã, até há pouco tempo, fazia exercícios militares com a própria República Islâmica do Irão. A Academia Militar de Omã tinha oficiais iranianos que vinham estudar e trabalhar com os seus congéneres e nem sequer Omã e Mascate escaparam aos drones iranianos. Portanto, estes ataques ocorreram em todos os países do Golfo, Omã, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Kuwait, Iraque. Todos os países foram visados unilateralmente por estes ataques iranianos e indiscriminadamente. O Irão, ao início, falou de ataques em zonas onde estão bases americanas. Mas afinal visou aeroportos, shoppings, hotéis. Agora falam em bancos. O que normalmente acontece quer em zonas completamente civis, indiscriminadamente, como tecnicamente, estes mísseis de cruzeiro e drones não têm qualquer precisão e caiem indiscriminadamente em qualquer sítio, inclusive dentro do próprio território iraniano. Por 100 mísseis e drones iranianos, dez caem no próprio território iraniano, o que é impressionante. Portanto, muitos dos países do Golfo já tinham alguma protecção. Eu relembro os números, por exemplo, Israel teve um ataque com por volta de mil drones e mísseis, em particular mísseis balísticos, que são muito mais difíceis de serem detectados. Os Emirados já foram visados por 1800 ataques. Só os Emirados foram ainda mais visados do que Israel. Também houve ataques de várias centenas de drones na Arábia Saudita e no Koweit. Houve também uma tentativa de ataque no Azerbaijão. Portanto, o Irão, nos dez minutos após o seu ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que o "Irão é um país que visa a paz e que visa a cooperação com o Golfo para acabar com esta agressão iraniana", dez minutos após este discurso, atacou com drones os Emirados, a Arábia Saudita, o Kuwait e Omã. Portanto, aqui demonstra que o governo islâmico do Irão é uma ameaça regional e internacional. Não só é um absolutamente brutal ao nível medieval, com a sua própria população, como é também um país extremamente perigoso para qualquer dos seus vizinhos mais próximos. Um dos princípios da sua própria Constituição é a destruição de outros Estados, assim como a imposição da sua própria religião em todos os países à volta e chegar, inclusive à própria Europa. Isso está escrito em vários documentos basilares da República Islâmica do Irão desde 47 anos atrás. Portanto, é interessante que os países da Europa continuarão a fazer negócios com o Irão, pensando que os iranianos eram realistas. Mas não são. O governo iraniano é um governo ideologicamente conectado, com uma forma de radicalização islâmica xiita. Muito recentemente, foram descobertos vários detalhes, inclusive em França, e este é um livro bastante conhecido feito pelo chefe dos serviços secretos franceses, que fala especificamente na cooperação entre o governo francês e a República Islâmica do Irão, em termos de perseguição, monitorização de todos os iranianos dentro da França, assim como a Inteligência francesa deixou os membros da República Islâmica do Irão executar, raptar e torturar cidadãos iranianos dentro da França. Isto aconteceu na França e aconteceu noutros países. Há outro país que foi um grande amigo do Irão, no passado, que é a Áustria com a qual houve contratos de cooperação técnica. Os motores actualmente utilizados pelo Irão, que mataram milhares de pessoas na Ucrânia e continuam a matar neste momento em todo o Médio Oriente, foram desenvolvidos na Áustria, foram copiados pela República Islâmica do Irão num projecto de cooperação e são utilizados para fazer puro mal. As suas maiores vítimas são a sua própria população. Um dia, quando o governo cair e nós iremos todos, todos os jornalistas europeus, americanos irão filmar as prisões, serão numa escala gigantesca. Eu lembro-me muito bem que vimos na Síria as salas onde os guardas prisionais eliminavam os restos humanos das pessoas que matavam. Quando nós queremos observar isto, não podemos perceber a escala do puro mal que estará dentro deste país. Continuo a receber contactos, apesar de neste momento a internet não estar bloqueada há várias semanas, mas existe ainda a possibilidade de mandar mensagens a partir dos próprios cartões da Telecom do Irão para fora do país. É uma coisa que eles não conseguiram bloquear. Eu tenho algumas informações secundárias sobre o que está a acontecer no Irão e as pessoas, neste momento, olham para este ataque como um mal necessário. Estão bastante contentes para o futuro, porque se neste momento não existir uma mudança de governo e se Israel e os Estados Unidos perderem esta guerra. A República Islâmica do Irão, irá massacrar ulteriormente à sua própria população. Isto é uma realidade. Falamos das prisões que foram descobertas na Síria. Falamos de dezenas de valas comuns. Na Síria, a população era quase 18 milhões de pessoas. Num país como o Irão, com 90 milhões, com um regime de 47 anos, eu não tenho imaginação suficiente para pensar na mortandade que foi feita no passado e poderá ser feita ainda mais no futuro, se não existir uma mudança de governo.
A segunda edição do Festival de cinema português "Olá Paris" decorre até este domingo.
A abertura, nesta sexta-feira, contou com a ante estreia de "A vida luminosa", a primeira longa metragem de ficção do cineasta João Rosas, que estreou em Portugal no ano passado.
O retrato de um jovem lisboeta, à procura de um lugar ao sol, entre uma ruptura amorosa, e a descoberta de uma jovem cuja luz o vai ajudar a afirmar-se.
A RFI esteve no local e falou com a actriz Cécile Matignon, o co produtor François d'Artemare e, obviamente, com o próprio realizador João Rosas que começa por comentar como descobriu Francisco Melo, quando este era apenas um adolescente de 11 anos.
O actor não profissional que deu corpo a Nicolau, hoje com 24 anos, e o protagonista de "A vida luminosa" e que vimos crescer, nas três curtas metragens que antecederam esta longa.
Descobri-lo foi um acaso, porque quando ele participou no "Entrecampos", ele nem sequer era o protagonista desse filme. Na altura ele tinha 11 anos, portanto era apenas uma criança engraçada. Enfim, como outras que participaram no filme, mas com quem eu me entendia bem. E como eu na altura, depois já estava logo a seguir escrevi o "Maria do Mar", que era sobre um jovem de 13, 14 anos e como protagonista e tinha que estar a trabalhar com o Francisco... Depois decidi continuar a trabalhar com ele e a partir daí é que começou um bocadinho a ganhar forma. A ideia, depois de ser uma história mais longa e de continuá-la noutros filmes.
Apesar de lhe dizerem que ele até nem tinha muito jeito para isso, não é ?
Sim, ele próprio o diz. O que é interessante e para mim, fascinante, a um nível puramente pessoal é que de facto, acompanhar o crescimento dele também foi acompanhar o meu próprio crescimento como cineasta e, portanto, ir aprendendo a olhar o mundo através do cinema, construindo o meu próprio olhar, mas também através do olhar do Francisco, ão é ?
Portanto, do Francisco/Nicolau que é esta personagem em que todos os filmes ele está em períodos de transição e, portanto, perante o ter que tomar decisões ou descobertas, pequenas descobertas do quotidiano, mas que podem por vezes ter o valor de uma epifania no curso da nossa vida.
E, portanto, para este filme foi mais uma vez essa ideia de retratá-lo num período de transição, um bocadinho de no final da juventude, para o que seria o início de uma idade adulta. E como é que essa idade adulta é vista ou vivida pelos jovens de hoje em dia ?
Portanto, até nem é só ele, também há a Mariana também há o Miguel, não é ? Há duas personagens que já acompanha há algum tempo.
Mas também há agora aqui a personagens novas. Cécile Matignon, por exemplo, um elenco também internacional. As cenas são muito escritas, pensadas, concebidas. Pode falar-nos do processo de escrita, do guião e depois da rodagem?
Sim, o processo acaba por ser um vai e vem entre o meu trabalho, mais solitário de escrita e, depois de dramaturgia e de preparação, ão é ? Um trabalho de secretária, é um trabalho de diálogo e de partilha com as pessoas que vão entrando no filme ao longo do processo. E, portanto, é um processo muito longo, porque, de facto, eu aproveito também o casting para saciar a minha própria curiosidade por pessoas que quer conhecer, neste caso os jovens, muitos deles estrangeiros, que estão a viver em Lisboa e que mudaram também uma certa maneira de viver em Lisboa.
E, portanto, aproveito ao máximo os recursos da produção para estender este casting e saciar a minha própria curiosidade. E depois os ensaios também são um período muito longo em que há, de facto este vai e vem entre o que as pessoas, a voz das pessoas ao ler o texto e a voz que eu quero, depois, também dar aos personagens escrevendo.
É por isso é que os filmes são muito escritos. Mas a partir deste trabalho conjunto. Mas claro, pois isto tudo é fixado numa dada altura através dos ensaios, não é? E há muitos ensaios. E, portanto, são muitos escritos, mas escritos muitas vezes a várias mãos, sendo que depois eu tenho de tomar a decisão como um maestro que decide quem é que fala quando, mas respeitando a linguagem e a música de cada um.
Neste filme em particular, interessava-me também trabalhar esta ideia dos vários sotaques de portugueses, os estrangeiros. Do Brasil e dentro, mesmo de Portugal, portanto do Sul do Norte, enfim, ter esta riqueza também polifónica de uma língua.
E você também gosta muito de tratar a dúvida. A dúvida, que é uma coisa desorienta muita gente, não é? E o Nicolau está cheio de dúvidas. Tem 24 anos. Gostaria, eventualmente, de ser autónomo, mas não é. Ter um trabalho, ter estabilidade, mas não tem. Também há uma denúncia de uma precariedade que se calhar tomou conta também de Lisboa, a sua cidade ?
Sim. Enfim, a precariedade, não é que tenha chegado agora, não é ? Portanto, a precariedade, também já se falava em precariedade quando eu tinha a idade do Nicolau e a vida também já era precária na altura. Agora era uma precariedade talvez menos evidente. E era diferente. Obviamente. Era uma cidade muito diferente, não necessariamente melhor, mas já existia precariedade nessa altura, não é? E, portanto, eu acho que a dúvida que...
É introduzida aqui num canto magnífico no início do filme.
Sim, sim, de uma peça do Brecht. Mas eu acho que a dúvida, embora possa ser paralisante, não é ? Porque todos nós provavelmente passámos por isso momentos que temos dúvidas e não conseguimos decidir. E isso paralisa-nos e cria-nos angústia.
Mas há também uma dúvida que é um questionamento que faz avançar e como é que nós, através da dúvida, do questionamento, podemos avançar e descobrir coisas ? É, portanto, a dúvida é sempre um caminho para uma descoberta e, portanto, para mim, o próprio fazer o filme e daí também ter começado com esse canto.
Para além de espelhar um bocadinho o estado emocional do protagonista do Nicolau, reflecte o próprio processo em que as dúvidas que eu tenho sobre o filme são o que fazem o filme avançar e, portanto, acho que também, hoje em dia, em particular em que vivemos numa época em que há todo um discurso identitário em que apresenta certezas e visões fechadas sobre o mundo... A dúvida, pelo contrário, é porosidade e abertura. E acho que isso é cada vez mais um gesto político que é preciso sublinhar.
Precisamente, falemos um pouco da multiculturalidade. Já no filme anterior, no documentário, você tinha se aproximado e de que maneira, dos operários das obras, naquele estaleiro de um prédio que se veio a tornar um hotel de luxo em Lisboa. Uma Lisboa a mudar a uma velocidade muito rápida. E são pessoas que vêm dos quatro cantos do mundo, nomeadamente de África.
Guiné-Bissau, sim ! Diria que os protagonistas, embora seja um filme plural, portanto, não há propriamente um protagonista. talvez a cidade, mas não é um filme. Portanto, num estaleiro de obra onde há dezenas de trabalhadores e nenhum acaba por ter mais protagonismo que os outros, uma regra um bocadinho de todos são protagonistas por igual nessa ideia de filme coral.
Mas é verdade que, em particular, um grupo de trabalhadores da Guiné-Bissau foi aquele do qual eu me senti mais próximo e que, depois, mais uma vez, como neste filme de ficção, perante uma realidade completamente diferente.
O filme foi também uma maneira de desenvolver relações de amizade com estas pessoas e o filme foi feito nesse espírito da partilha, do diálogo e não necessariamente de um gesto meu de lançar um olhar sobre este grupo de pessoas, neste caso guineenses, mas de estar tempo com eles.
E, portanto, o filme ser feito a partir desse tempo passado em conjunto. No fundo, como este filme de ficção, portanto, a ideia acaba por ser sempre essa.
Tanto na ficção como no documentário e o cinema ser uma forma também de passar tempo com as pessoas que eu convido para os filmes ou que a realidade me traz, por acaso e por ser uma forma de relacionamento com a cidade, o próprio cinema.
A vida luminosa pode ser vida do Nicolau, o protagonista, mas é também, de alguma forma, a vida de Lisboa, a capital portuguesa, que é uma personagem de pleno direito, diria eu no seu filme.
Você continua apaixonado pelas cidades, pela sua arquitectura e pela maré humana que lá vive, não é ?
Sim, eu acho que filmar cidades foi um bocadinho o que me levou a começar a pensar o cinema.
Com "Birth of a city" [filme documental de 2009 rodado em Londres].
Sim, mas mesmo como espectador. Lembro-me de, ainda adolescente, ver por acaso, com a minha mãe no cinema, o filme "Caro Diário", do Nanni Moretti. E aliás, até adormeci a meio do filme. Mas [o cinesta iraniano] Kiarostami dizia que alguns dos filmes preferidos dele eram filmes em que ele tinha adormecido.
Portanto, ele, no início do filme diz isso ao filmar umas imensas fachadas e bairros de Roma. "Que belo Seria um filme feito apenas com fachadas !" Portanto, eu desde aí isso ficou como uma espécie de mantra que, pela minha própria depois vivência das cidades em que vivi. Tornou-se um fascínio de facto pela vida urbana, não tanto pela arquitectura, embora a arquitectura obviamente também faça parte de uma cidade, mas mais as práticas do quotidiano e, portanto, a vivência quotidiana.
E como é que a cidade é um lugar de encontro entre pessoas diferentes? E como é que essa negociação da alteridade ou com a alteridade não é com as pessoas que são diferentes de nós e com quem nós partilhamos o espaço?
E como é que as cidades podem ser vistas, pelo menos para mim, como arquivos de histórias, Seja a própria cidade enquanto espaço físico que me dá elementos que me inspiram para escrever as cenas, sejam bairros, ruas, cafés, esquinas, paragens de autocarro ou de metro ou as próprias pessoas, obviamente. Que levam cada uma a sua história pela cidade e que através de viver a cidade, constroem a cidade. E assim me ajudam a construir cada fio.
Cécile Matignon encarna Chloé, jovem francesa instalada em Portugal, cuja energia positiva vai iluminar um Nicolau, algo perdido perante os tantos desafios com que a juventude o confronta.
Esta começa por se referir ao gosto desta estreia na sua terra natal, a França, do filme de João Rosas.
Teve o sabor de uma viagem, de uma viagem de volta a uma das minhas casas. E foi um excelente pretexto para voltar a ver os meus amigos e esta cidade que já conhecia há alguns anos. E também de ver quais são as reacções do filme num país que não é lusófono.
E ver como é que isto está recebido. E finalmente ver com algumas conversas, já que começamos a ter que essas questões que aparecem no filme finalmente são transversais a outros países também são questões de gerações que partilhamos de um país a outro.
Há muito de Chloé em si ?
Há muito de Chloé em mim ? Sim, acho que temos uma energia parecida. Acho que é uma coisa que nos diferencia muito é que eu sou muito mais precária do que Chloé. Porque a Chloé, no filme, é esta pessoa que é menos precária de todos porque vem de fora e tem essa energia de" Pá, vou trabalhar em França e vou viajar e não sei o quê ! Insurge-se contra os preços dos salários em Portugal. E é uma coisa que é muito engraçada. É que no filme digo nunca vou trabalhar por 5 € a hora. E o que faço eu, que fiz e que faço, às vezes, porque a realidade é assim.
Mas, ou seja, é engraçado. Essa diferença de "Eu não sou portuguesa, venho de fora, mas fiz a escolha de trabalhar para a cultura portuguesa e para o país português". E então também estou a jogar este jogo dessa precariedade. E finalmente, eu acho que me identifico mais neste aspecto a outras personagens do filme do que à própria Chloé. Mas de resto, energia e tudo, somos parecidas.
François d'Artemare, presença assídua no cinema português, com Manoel de Oliveira, João Canijo, ou lusófono, como com o guineense Flora Gomes, ou francês, como com Nadine Trintignant, este produtor dos Filmes do Tejo e dos Films de l'Après midi, co-produziu "A vida luminosa". Ele comenta a satisfação desta estreia parisisense no cinema Club de l'étoile com o qual tem tantas ligações.
É um percurso um pouco... tortuoso, não, quase direito... Porque esta estreia aqui no "Clube de l'étoile", quando estava a preparar o filme de Nadine Trintignan em Paris, em 94, até... Era aqui no Club de l'étoile, era com uma produtora francesa que era na época dona do Clube de l'étoile. E o nosso escritório era no Club de l'étoile. Era no prédio ao lado, e passávamos todo o nosso tempo aqui no Clube de l'étoile.
Não imaginava nesta época, onde tinha 28 anos, era jovem director de produção que 32 anos depois, já assistia a projecções de filmes que produzi, que co-produzi.
Mas não imaginava, nesta época, que eu ia continuar a fazer, a organizar projecções aqui. Estou feliz com isso. Estou feliz de continuar a guardar uma ligação com Portugal. É óbvio que tenho uma ligação com Portugal. O meu filho é português. Depois de viver alguns anos em Barcelona, voltou a viver em Portugal há dois meses atrás. Continuo a ir aí a Portugal imensas vezes. Mas o facto de continuar a fazer filmes em Portugal e continuar a produzir em Portugal é para mim importante.
É uma coisa natural que me permite guardar uma ligação profissional de que gosto. Estava a produzir o filme do João Canijo...
Que entretanto nos deixou...
Que nos deixou agora. Era o quarto filme do João que estava a produzir. Gostava imenso do João e gosto de continuar a ter esta ligação com Portugal.
Trabalhou também, penso, obviamente em Flora Gomes. A maior parte dos nossos ouvintes estão precisamente em África e conhecem este cineasta da África Ocidental da Guiné-Bissau. O que é que viu aqui no João Rosas e neste filme para apostar nele?
Conheço o João há imenso tempo também. Há 20 anos acho. Eu tinha tinha visto as curtas do João e o documentário do João sobre Lisboa.
A morte de uma cidade !
Sim, e gostei imenso do olhar que João tinha sobre os personagens. Nas curtas que ele fez e do olhar que João tinha sobre o personagem da cidade de Lisboa enquanto personagem. No documentário é sobre a evolução da cidade. Vivia esta evolução desde o fim dos anos, um meio dos anos 90 até hoje. Acho que o olhar do João era bastante pertinente e sensível. Sentia isso no guião. E sinto isso no filme dele.
Instantâneos da reportagem da ante estreia parisiense de "A vida luminosa" no âmbito da segunda edição do Festival de cinema português "Olá Paris" que decorre até este domingo, 8 de Março.
Esta semana, o Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, apresentou a candidatura do ex-Presidente senegalês ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Até agora, os Estados africanos ainda não reagiram oficialmente a esta proposta. A candidatura de Macky Sall não conta com o apoio do Senegal, uma vez que o ex-chefe de Estado é acusado pela nova liderança do país de ocultar dados económicos importantes, como a dívida pública. O último mandato do Presidente senegalês ficou ainda marcado por episódios de violência e repressão da população. Régio Conrado, professor de Ciência Política e Direito na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, afirma que “Macky Sall não é a pessoa certa para representar os interesses africanos”.
Esta semana, o Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, apresentou a candidatura do ex-Presidente senegalês ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Que comentário lhe merece esta candidatura?
É profundamente complicado que um Presidente que já foi chefe de Estado num país que não o reconhece como candidato oficial -e, portanto, não é apoiado pelas autoridades do seu próprio país -seja apresentado pelo actual presidente da União Africana, o Presidente do Burundi, e não necessariamente pela própria União Africana. Isto já significa que há um duplo problema.
Por um lado, há um problema de legitimidade no próprio país de origem, onde foi chefe de Estado. Por outro lado, os restantes chefes de Estado do continente africano ainda não se pronunciaram sobre o assunto, o que mostra que esta é uma iniciativa particular do Presidente do Burundi.
É muito provavelmente uma má iniciativa e Macky Sall está, provavelmente, à procura de uma saída internacional, talvez para escapar a eventuais responsabilizações que possam recair sobre ele, não só no plano interno do país, mas também como uma forma de sobrevivência política através de dinâmicas internacionais.
O antigo chefe de Estado do Senegal é a pessoa certa para representar o continente africano nos fóruns internacionais?
Não, ele não é a pessoa certa para representar os interesses africanos. Quando esteve na presidência do Senegal e mesmo na presidência rotativa da União Africana, esteve muito mais ligado aos interesses franceses, funcionando quase como um dispositivo operativo -um cipaio, digamos -não dos interesses africanos, mas sobretudo dos interesses franceses e, por consequência, dos interesses europeus.
Não é uma figura que, no continente africano, possa ser vista como a mais razoável para ocupar este lugar neste momento. Precisamos de uma figura pan-africana, com uma percepção de independência profundamente entranhada. Alguém que tenha uma visão de África fora das relações de subordinação ou de neocolonialismo com o Ocidente.
Portanto, uma figura que congregue e agregue respeitabilidade no plano da defesa dos interesses africanos.
E quem poderia ser essa pessoa?
A actual Presidente da Tanzânia poderia, provavelmente, sugerir alguém da sua máxima confiança para representar os interesses africanos. Temos também Carlos Lopes, que é uma grande figura no continente africano e que tem estado sempre na linha da frente da defesa dos interesses africanos.
Para além da sua carreira académica, é uma figura que já trabalhou com vários secretários-gerais das Nações Unidas e que tem uma longa experiência dentro das estruturas da organização e da União Africana. É uma figura alinhada com a defesa dos interesses africanos.
Carlos Lopes, antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas em África , poderia reunir o consenso dos líderes africanos?
Penso que ele tem todo o potencial para reunir muitos consensos. Primeiro, porque não se trata de uma figura amarrada a um determinado país. Mesmo sendo originário da Guiné-Bissau, é uma figura completamente pan-africana.
Isso poderia evitar, talvez, algumas clivagens regionais. Agora, também sabemos que os processos de negociação para apresentar uma candidatura são sempre profundamente complexos. E, obviamente, esses processos nem sempre traduzem aquilo que são as verdadeiras convicções de todos os actores envolvidos.
África tem reclamado uma maior presença nas diferentes organizações das Nações Unidas. Já houve dois secretários-gerais africanos, Boutros Boutros-Ghali e Kofi Annan. Há possibilidade de o próximo secretário-geral das Nações Unidas ser oriundo do continente africano?
Fica muito difícil. O que podemos dizer é que, neste momento, tendo em conta aquilo que África tem defendido -uma maior presença nos diferentes organismos das Nações Unidas, e muito particularmente ao nível do Conselho de Segurança, essa reivindicação faz sentido.
Estamos a falar de 54 países e de um continente com uma população que ultrapassa mil milhões de pessoas. É um continente que tem um peso muito profundo e determinante para o futuro do mundo. O problema é que o mundo em que vivemos hoje mostra que várias potências procuram também controlar as Nações Unidas.
Até ao momento foram apresentadas duas candidaturas oficiais: a da ex-Presidente chilena Michelle Bachelet e a do responsável da Agência Internacional de Energia Atómica, Rafael Grossi. A Costa Rica também nomeou a ex-Presidente Rebeca Grynspan, mas a candidatura ainda não é oficial. Segundo uma tradição de rotação geográfica, que nem sempre é observada, o cargo estaria agora a ser disputado pela América Latina. Muitos países defendem também que uma mulher deveria ocupar este cargo. A organização está preparada para ter uma mulher na liderança?
Neste momento, o continente que está melhor posicionado parece ser a América Latina, onde há quase um consenso generalizado. Grandes potências regionais como o Brasil e a Argentina, bem como outros países que orbitam à volta destas potências, podem ser determinantes para orientar a dinâmica da escolha do próximo secretário-geral.
Na minha opinião, mais do que nunca ficou demonstrado que as mulheres têm capacidade para dirigir determinadas agências das Nações Unidas, grandes programas e a diplomacia de alto nível no sistema internacional.
Não me parece irrazoável pensar que uma mulher possa reunir consensos para dirigir a organização. Seria também uma forma de chamar a atenção para a necessidade de confiar responsabilidades às mulheres que demonstraram competências, ao longo das suas carreiras, sobretudo quando se trata de figuras que têm estado empenhadas em temas centrais como a paz, o desenvolvimento e outras questões fundamentais da agenda internacional.
Relativamente à questão da paz: de que forma o contexto actual, com uma guerra no Médio Oriente e outros conflitos em várias partes do mundo, pode influenciar a escolha do novo secretário-geral da ONU?
Está cada vez mais evidente que as Nações Unidas precisam de uma reforma profunda para aprimorar a sua capacidade de resolução dos grandes conflitos.
Com a emergência de novos conflitos, marcados pela força física e pela brutalidade nas relações internacionais, assistimos também à erosão do direito internacional e à fragmentação da capacidade das Nações Unidas para resolver problemas complexos.
Veja-se, por exemplo, a situação envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos. Torna-se claro que chegou o momento de repensar a arquitectura das Nações Unidas, a arquitectura do Conselho de Segurança e o próprio sistema internacional de promoção da paz.
O que é facto é que, neste momento, as Nações Unidas têm demonstrado limitações profundas - para não dizer fragilidades - na capacidade de conter os conflitos no mundo. Muitos dos conflitos em que a organização interveio continuam por resolver.
São os membros do Conselho de Segurança que deverão iniciar o processo de selecção até ao final de Julho, em particular os cinco membros permanentes com poder de veto -Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França - que detêm, na prática, o futuro dos candidatos nas mãos. São conhecidas as divergências actuais. O que se pode esperar desta eleição?
A Grã-Bretanha é hoje um país que pesa muito pouco no sistema internacional. Tem pouca capacidade de influenciar o processo. O verdadeiro debate vai acontecer entre as grandes potências.
A China e a Rússia estão em confrontação directa com o Ocidente e encontram apoio em vários países do chamado Sul global, como o Brasil e a África do Sul, que são actores importantes. Há também países como o Irão e outros que defendem que não é positivo que haja uma dominação ocidental das instituições internacionais.
Estas clivagens já existentes e o agravamento das tensões internacionais -como a situação envolvendo o Irão - vão certamente tornar o processo mais complexo.
O que está em jogo nas próximas eleições para secretário-geral das Nações Unidas não é apenas a questão da eficácia, como defende a Grã-Bretanha. O que está em jogo é quem vai influenciar o rumo do sistema internacional nos próximos anos: sobre que bases serão tomadas as decisões, qual será a arquitectura das Nações Unidas e sob que orientação política actuará o próximo secretário-geral. Essas são as grandes questões.
Que força terão os países africanos nesta escolha?
Hoje não é possível pensar qualquer arquitectura das Nações Unidas sem considerar os 54 países do continente africano.
O que será profundamente importante é perceber até que ponto os países africanos conseguirão articular posições comuns. Muitos deles estão hoje mais alinhados com o discurso do chamado Sul global, nomeadamente com posições defendidas pela China, pela Rússia e pelo Brasil, e menos próximos das posições do Ocidente.
Infelizmente, há também divisões dentro do próprio continente. Existem países que estão mais alinhados com interesses externos. A Costa do Marfim, por exemplo, mantém uma forte proximidade com a França e, por consequência, com a União Europeia. Há também outros países pequenos que seguem essa linha.
Mas há igualmente países com posições fortemente pan-africanas -como a África do Sul, o Quénia, a Tanzânia, Moçambique ou Angola -que podem defender um posicionamento mais autónomo do Sul global.
O peso do continente africano dependerá da capacidade de coordenação política entre os seus líderes e da capacidade do presidente da União Africana de construir consensos entre os diferentes países e regiões.
Mas tudo começa mal quando um presidente da União Africana decide avançar com uma candidatura sem um consenso mínimo, porque isso revela desde logo um processo de divisão desnecessária.
António Lobo Antunes foi um escritor “radical”, revolucionário, que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio, uma língua sem equivalente". As palavras são de Dominique Nédellec, tradutor em França daquele que foi um dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea e que morreu, esta quinta-feira, aos 83 anos. Ana Lima, editora e parceira da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, explica que António Lobo Antunes é “um dos autores portugueses mais conhecidos em França” e “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas”.
A morte de António Lobo Antunes, esta quinta-feira, marca o desaparecimento de uma das figuras maiores da literatura portuguesa contemporânea. António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1 de Setembro de 1942, licenciou-se em Medicina em 1969 e especializou-se em Psiquiatria, mas optou pela escrita a tempo inteiro em 1985. Foi aos 37 anos que publicou o seu primeiro romance, “Memória de Elefante”, em 1979, ano em que também lançou “Os Cus de Judas” e iniciou a sua revolução na literatura portuguesa pós-25 de Abril.
A guerra colonial atravessou toda a sua obra, a partir da sua passagem por Angola entre 1971 e 1973 ao serviço do Exército colonial como médico. A sua forma de escrever e de explorar a condição humana no que tem de mais “terrível, cómico, ridículo e comovente” percorreu, como “um rio, uma tempestade”, os seus mais de três dezenas de romances, no entender de Dominique Nédellec, tradutor de António Lobo Antunes em França nos últimos quase 15 anos. O tradutor acrescenta que ele foi um escritor “radical”, revolucionário, que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio, uma língua sem equivalente". “Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional. Ele inventou um estilo próprio, conseguiu elaborar uma língua sem equivalente", resumiu.
Lobo Antunes foi , sem dúvida, “um dos autores portugueses mais conhecidos em França”, sublinha Ana Lima, parceira da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, falando em “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes”, ao lado de nomes como Fernando Pessoa e José Saramago. A editora fala de um escritor de “um grande modernismo”, com “um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente” e “sem compromisso”.
Dominique Nédellec: "Não é todos os dias que se tem a sensação de se traduzir um génio”
RFI: O que representa António Lobo Antunes para a literatura portuguesa e mundial contemporânea?
Dominique Nédellec, Tradutor de António Lobo Antunes: “O trunfo maior de Lobo Antunes foi este jeito de fazer uma revolução estilística. Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Eu acho que ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional, e ele inventou um estilo próprio, uma língua super tensa, uma língua que parece ao mesmo tempo um rio, uma tempestade, que mistura as histórias, que mistura os planos temporários, em que os mortos têm a mesma importância que os vivos, em que os mortos estão sempre a chegar, a falar, a participar na vida dos vivos. Ele conseguiu elaborar uma língua sem equivalente, carregada de sentimentos e da experiência humana no que tem de terrível, de cómico, de ridículo, de comovente. Para mim, o Lobo Antunes é isto tudo.”
Como foi traduzir toda esta “experiência humana” no que tem de mais complexo?
“É uma experiência única também porque exige um mergulho total na obra dele para ouvir principalmente. São livros que devem ser lidos com o ouvido. É muito sensorial, chama a atenção de todos os sentidos. Então, tentar traduzir a riqueza do estilo dele exige muito tempo, paciência, perseverança também. O paradoxo é que traduzir exige uma lentidão imensa para agenciar todo aquele esquema muito complexo, mas o objectivo final é que a última leitura seja tão fácil e tão fluida e rápida como no original. No dia a dia, eu avanço passo a passo, muito lentamente e só fico contente quando, no final, na altura da última leitura, eu recupero aquela naturalidade, aquela fluidez da mistura que ele consegue e da pungência do estilo dele. É uma tarefa complicada, mas ao mesmo tempo muito gratificante porque não é todos os dias que se tem a sensação de se traduzir um génio.”
Dos livros que traduziu de António Lobo Antunes ou da sua obra em geral, qual é aquele que mais o tocou pessoalmente?
“Há um que realmente faz a súmula de tudo o que ele sabe fazer e dos temas de predileção do autor. Se calhar seria ‘Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água” porque está lá tudo ao mesmo tempo. Está lá ‘Os Cus de Judas’ com o tema da guerra em Angola, o que foi obviamente fundamental para ele, mas é um livro que vai muito mais longe do que ‘Os Cus de Judas’. Tem uma mestria, um domínio total da técnica que ele elaborou ao longo dos anos. Então, para mim é uma soma, realmente é uma obra-prima total e para quem nunca leu o Lobo Antunes está lá tudo com uma virtuosidade ímpar.”
António Lobo Antunes fala da guerra colonial e dos seus fantasmas de uma forma muito particular e, também, se calhar, revolucionária. Quer falar-nos sobre sobre esse tema e outros que atravessem a obra dele?
“Bom, obviamente é central na vida dele e na obra dele. E, aliás, é possível reparar que são temas que voltaram sempre na cabeça dele e tem imagens ou episódios que se encontram logo em ‘Os Cus de Judas’, mas que também se encontram contados nas cartas que enviou para a mulher durante a guerra e que voltam nos últimos livros. Ou seja, na vida toda houve episódios que nunca conseguiu eliminar, que ficaram lá para sempre gravados na cabeça dele, na vida dele, no corpo dele. Ele conseguiu fazer desta matéria-prima traumatizante o motivo de uma obra e através destes temas conseguiu dar uma dimensão diferente daquela tragédia. Este tema alimentou a obra dele, mas também queria salientar que é preciso não limitar a obra do Lobo Antunes à guerra e a Angola. Depois, cada vez mais, ficou longe dos primeiros volumes muito autobiográficos e cada vez mais aprofundou uma pesquisa estilística. Também queria que as pessoas entendessem que há humor, há muito humor na obra dele, humor negro, mas também humor burlesco, há coisas muito divertidas, sem cinismo, humor também leve. Há de tudo, obviamente e também é uma das marcas dele passar de uma coisa leve e engraçada e infantil, pueril até, a uma coisa gravíssima ou negra ou deprimente. É aquela fornalha toda sem equivalente.”
Por que é que António Lobo Antunes não teve o Prémio Nobel da Literatura?
“Eu acho que, se calhar, porque é demasiado fora das categorias normais, não é liso o suficiente se calhar. É demasiado abrupto, demasiado inclassificável, demasiado exigente com ele próprio. Ele nunca fez nada para facilitar o acesso dos leitores à obra dele. É demasiado radical, se calhar. Se calhar é esta a explicação. Nos últimos anos, foi sempre complicado perceber o raciocínio dos júris do Prémio Nobel, mas não temos de chorar por isso. Até seria uma marca de nobreza porque claro que ele merecia o prémio, mas será que o prémio merecia o Lobo Antunes? Não tenho a certeza porque ele estava acima disto tudo.”
Falou na “sensação de traduzir um génio”. E a pessoa? Como é que era António Lobo Antunes?
“Também foi uma surpresa para mim porque fui sempre avisado que ele era uma personagem complicada, abrupta, mas comigo foi sempre de uma grande ternura, uma grande generosidade. Acho que ele gostava do meu trabalho e ele repetiu isso várias vezes, em privado, mas também em público e foi sempre um incentivo e uma honra enormes. Eu lembro-me desta ternura, era capaz de dar uma piscadela, um abraço forte e são as imagens que vou lembrar.”
Quais foram os livros de Lobo Antunes que traduziu em França?
“Eu traduzo-o desde 2011, ou seja, quase 15 anos, e acabo de entregar a décima tradução de Lobo Antunes, que é o ‘Dicionário da linguagem das Flores’. Os nove anteriores fui eu que traduzi. Comecei com ‘O Meu Nome é Legião’ e desde então fui eu a traduzi-lo.”
Ana Lima: António Lobo Antunes é “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas”
RFI: O que representa António Lobo Antunes nas livrarias em França?
Ana Lima, Parceira da Librairie Portugaise & Brésilienne: “António Lobo Antunes é, pelo menos em França, um dos autores mais conhecidos do século XX e início do século XXI e talvez o que conseguiu que a literatura portuguesa, com Fernando Pessoa e Saramago, tivesse uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes. É um dos autores mais conhecidos portugueses, mesmo se não foi necessariamente lido pelos que o conhecem, e os autores contemporâneos portugueses, também traduzidos em França actualmente, muitos também se reivindicam dele. Portanto, há um contínuo e há uma presença dele bastante importante.”
Qual é o ADN que compõe a literatura de António Lobo Antunes que faz dele um dos grandes autores do século XX e XXI?
“Antes de mais, foram umas temáticas muito importantes sobre a guerra colonial, sobre o Portugal pós-25 de Abril, sobre uma descrição da sociedade sempre sem compromisso, sempre com uma visão entre ironia e uma visão muito clara que era, às vezes, um bocado feroz e também um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente, um texto sempre a fluir, que era uma maneira de escrever um bocado nova na literatura portuguesa, que teve um impacto muito grande, um grande modernismo.”
Que livros de António Lobo Antunes recomenda?
“Desde logo ‘Os Cus de Judas’ que foi mesmo um marco na literatura portuguesa, o ‘Fado Alexandrino’, ‘O Regresso das Caravelas’, ‘A Morte de Carlos Gardel’. Quer dizer, há assim estes que eu pessoalmente gostei muito e que foram importantes para mim. Agora, ele produziu muito, muito. Aconselho a ler tudo, mas se se tiver que ler alguns é ‘Os Cus de Judas’, ‘Fado Alexandrino’, ‘O Regresso das Caravelas’ e talvez ‘A Morte de Carlos Gardel’. Mas isso é a minha escolha.”
Por que é que ele nunca chegou a ter o Prémio Nobel da Literatura?
“Isso é uma história bastante complicada. O Saramago teve o Prémio Nobel, sabe-se que era um bocado uma competição no prémio entre os dois. O Saramago teve o prémio e foi o primeiro Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa e antes que se desse outro sabíamos que íamos esperar um bocadinho, portanto era uma questão de tempo, o que é uma injustiça porque de língua portuguesa há autores enormes, também brasileiros que não tiveram e que deveriam ter tido.”
Hoje é o quinto dia da guerra no Médio Oriente, desencadeada pela ofensiva israelo-americana contra o Irão no sábado. Desde então, morreram mais de mil pessoas nos ataques americanos e israelitas no Irão, de acordo com os media iranianos. Teerão continua a retaliar com ataques sobre alvos americanos nos países do Golfo e em Israel, mas o especialista em Defesa, Rui Vilar, considera que o país está a perder fôlego no contra-ataque, o que poderá levar a “esfriar o conflito”. O analista louvou, ainda, a postura do Presidente francês, Emmanuel Macron, com o anúncio do aumento do arsenal nuclear e descreveu a posição de Espanha como “isolacionista do ponto de vista europeu”.
Ao quinto dia da guerra no Médio Oriente, desencadeada pela ofensiva israelo-americana contra o Irão, um conselheiro do antigo líder supremo avisou que o Irão está preparado para continuar a guerra o tempo que for preciso. Porém, o especialista em Defesa Rui Vilar considera que o Irão está a perder força.
“Estamos a entrar numa fase crucial para percebermos até que ponto é que a escalada pode ir. O Irão tem reduzido gradualmente, de dia para dia, o envio de mísseis, o que pode significar que está a ficar com pouca disponibilidade e isso vai certamente esfriar o conflito”, analisou Rui Vilar, em entrevista à RFI.
Esta quarta-feira, deveria começar - mas foi adiado - o funeral de Ali Khamenei, que liderou o Irão durante 36 anos antes de ser morto no sábado pelos ataques israelitas e norte-americanos. Hoje, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, ameaçou quem quer que o Irão escolha para ser o próximo líder supremo do país, será "alvo de eliminação". A ameaça não é uma surpresa, sublinha Rui Vilar, acrescentando que “a ausência de lideranças vai também enfraquecer a resposta militar”.
“Quem é que quer ser hoje, no Irão, designado como líder, sabendo que ao ser designado fica com um alvo na testa imediatamente e muito provavelmente será bombardeado pelos Estados Unidos? Quem é que, hoje em dia, mesmo no plano militar e de segurança e de informações, quer arriscar no Irão a fazer uma reunião para alinhar estratégias quando sabem que quer os americanos, quer os israelitas têm informações e acompanham dentro do Irão esses encontros?”, questionou Rui Vilar.
Interrogado sobre a legitimidade moral e jurídica para “eliminar” o líder de um outro país e onde fica o direito internacional, Rui Vilar lembrou que “o direito internacional infelizmente há muito que tem ficado na gaveta”, pelo que o melhor escudo, nomeadamente para a Europa, neste momento, é a força. Nesse sentido, o especialista louva a postura e as medidas do Presidente francês, Emmanuel Macron.
“A Europa tem que perceber que o tabuleiro mudou, o jogo mudou, as regras não são respeitadas como eram até há pouco tempo e, portanto, nós vivemos num mundo em que a lei da força está, de facto, a assumir a regra e é sobre esse tabuleiro que nós temos que jogar. Por isso saúdo, de certa forma, o Presidente Macron, que - apesar de todas as fragilidades internas que tem tido e que nós sabemos que tem tido, mesmo a nível económico - é o único líder europeu que me parece que quer assumir uma posição de força e quer liderar a Europa nesse equilíbrio de forças”, acrescentou Rui Vilar.
O chefe de Estado francês fez um discurso de dissuasão nuclear em que anunciou o aumento do arsenal nuclear. Por outro lado, Emmanuel Macron anunciou que França vai enviar reforços militares para o Médio Oriente, incluindo o porta-aviões “Charles de Gaulle”, a sua escolta naval e caças Rafale. Foram também destacados equipamentos de defesa antiaérea adicionais para o Chipre.
Posição diametralmente oposta é a de Espanha. O primeiro-ministro Pedro Sánchez disse não à guerra e rejeitou a utilização das suas bases militares, por parte dos EUA, para as operações relacionadas com os ataques ao Irão. Algo que enfureceu Donald Trump que já disse que vai cortar relações comerciais com a Espanha. Por causa das consequências, Rui Vilar olha para a posição espanhola como “um desastre em termos estratégicos” e “isolacionista do ponto de vista europeu”.
Questionado se Portugal pode ser considerado cúmplice na agressão ao direito internacional por ter deixado a Base das Lajes, nos Açores, ser usada pelos Estados Unidos na ofensiva no Irão, o especialista em Defesa diz que Portugal o faz ao abrigo de um acordo e que em termos geestratégicos “nem podia fazer outra coisa” para “proteger as nossas alianças, a nossa Defesa e o nosso interesse estratégico”.
No quarto dia do conflito no Médio Oriente, o exército israelita anunciou, esta terça-feira, o envio de forças terrestres para o sul do Líbano, depois de ter confirmado ataques aéreos simultâneos sobre Teerão e Beirute. Face à retaliação iraniana, o Departamento de Estado dos Estados Unidos recomendou a saída do pessoal diplomático não essencial e das respectivas famílias do Iraque, da Jordânia e do Bahrein, como medida de precaução perante o agravamento da situação na região. Em entrevista à RFI, João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico, analisa os objectivos estratégicos em jogo e sustenta que “não há uma única razão para estes ataques ao Irão”.
Qual é o objectivo desta guerra?
O objectivo desta guerra tem sido dúbio no discurso de Donald Trump. Tem havido diferentes cenários. Poderíamos dizer que o objectivo da guerra foi, até, mais por imposição de Israel: a queda do regime e, naturalmente, no seguimento disso, a criação de condições para que a liderança passasse para uma figura - não vou dizer imposta por Israel ou pelos Estados Unidos - mas para uma figura mais consensual e que alinhasse naturalmente nos propósitos de Israel e dos Estados Unidos.
A outra ideia era decapitar completamente o regime, o que não aconteceu, embora ele tenha sido em parte já removido. Estou a falar da liderança iraniana. Mas não há, objectivamente, uma única razão para que estes ataques à República Islâmica do Irão estejam a acontecer. Vimos agora Ali Larijani [secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional] a dizer que não vai ceder a qualquer tipo de reforma.
Ali Larijani é o homem com quem Donald Trump poderia negociar, o que leva a pensar que toda esta ofensiva não será capaz de derrubar este regime estruturado e autoritário…
Não, não vai acontecer. Porque, se nós verificarmos o perfil dos nomes que são apontados como principais candidatos, o regime teocrático vai manter-se. E nenhum deles vai alinhar com cedências a Israel e aos Estados Unidos. Poderá haver, e há, elementos de uma linha mais branda, mas há determinados pontos que são comuns. Portanto, não há nenhuma cedência aos interesses do Ocidente. São essencialmente interesses de natureza económica e, naturalmente, a preservação de alguma influência política e até securitária na região, que tem estado a ser protagonizada por Israel.
Vários Estados, como a Finlândia, a Noruega e a Colômbia, denunciaram um “ataque ilegal”. A Rússia fala em “agressão”. O Senegal condena o uso da força e países como a Suíça, a Irlanda e a Espanha pedem o respeito pelo direito internacional. Os Estados Unidos e Israel falam em “ataques preventivos”. Um ataque destes deveria ter sido lançado com a luz verde do Conselho de Segurança das Nações Unidas?
Absolutamente. Este ataque, desde logo, deveria ter sido discutido, votado e eventualmente aprovado no Congresso norte-americano. Isso não aconteceu. A nível macro, as Nações Unidas deveriam ter uma voz activa nesta decisão bilateral, incluindo também Israel. Isto vai, de facto, contra aquilo que são as normas do direito internacional, que não contempla este tipo de intervenção. Trata-se, objectivamente, de uma agressão a um Estado soberano.
E a Europa no meio disto tudo?
A classe política europeia está dividida. De um lado, há aqueles que afirmam peremptoriamente que esta iniciativa - norte-americana e israelita - faz todo o sentido, porque estão a tentar decapitar as intervenções de um país que é considerado atentatório das liberdades e da paz. E há outros que defendem que tudo isto vai contra aquilo que é o direito internacional instituído e que já deixou de haver regras, porque há um protagonista chamado Donald Trump que decide de sua livre iniciativa, desrespeitando as instituições.
O Irão retaliou, atacando não só cidades israelitas e bases norte-americanas, mas também alvos noutros Estados do Golfo, nomeadamente na Arábia Saudita, invocando a legítima defesa. Estes ataques são legais?
Aqui volta a haver uma divisão, porque se trata de uma violação da soberania. Mas há o outro lado, que defende a tese iraniana: trata-se de um acto de legítima defesa, porque não estão a atacar a soberania desses países; estão a atacar território - entre aspas - norte-americano que se encontra nesses países. Estou a falar de bases militares que estão nesses países, incluindo Omã, que se disponibilizou para mediar o conflito. E as pessoas perguntam: se Omã está a querer mediar o conflito, porque é atacado? É atacado exactamente porque as forças ocidentais se encontram instaladas nesses territórios. E vai acontecer o mesmo no futuro. Eles vão continuar - estou a falar do Irão e, eventualmente, dos seus aliados, o Hezbollah e, mais a nível regional, os Houthis no Iémen - a atacar as bases norte-americanas.
Mas é também uma forma de fazer pressão sobre os Estados Unidos para pararem com a ofensiva?
Essa pressão, julgo, não vai ter grande sucesso junto de Donald Trump e, mais ainda, de Benjamin Netanyahu.
Os Estados do Golfo poderão também invocar legítima defesa para responder aos ataques iranianos?
Não acredito nessa possibilidade. Haverá manifestações públicas de ataque, manifestações de descontentamento e declarações relativas a uma agressão que não deveria ter acontecido, de qualquer maneira. A reacção dos Estados do Golfo perante os ataques iranianos é uma reacção perfeitamente legítima e constitui um motivo de discussão ao nível do direito internacional.
O alastramento desta ofensiva já é visível entre Israel e o Líbano. De acordo com o último balanço, os ataques israelitas causaram 52 mortos e mais de 150 feridos. É real o risco de um conflito global?
O conflito regional já existe. O risco global não é desejável. E eu, pessoalmente - e muitos analistas - não acreditamos que este conflito se globalize. Até porque, vejamos: o Hezbollah, a partir do Líbano, enviou mísseis para o norte de Israel. A reacção de Telavive é considerada normal e legítima. E isso provocou, de imediato, por parte do Presidente libanês, uma reacção dirigida naturalmente ao Hezbollah, para terminarem com essas agressões.
E para entregarem as armas…
Exactamente. O Hezbollah vai continuar a ser um apoio para o Irão. Não é crível que estes ataques sejam interrompidos. O Hezbollah vai continuar a atacar território israelita.
Ainda sobre o Irão, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta segunda-feira, 2 de Março, que não hesitaria em enviar tropas norte-americanas para o Irão. Donald Trump, que sempre se opôs às guerras, poderá enviar homens para o terreno?
Homens para o terreno - como se diz, botas no terreno - é improvável. Até porque os Estados Unidos não estão a confrontar-se com um Estado como a Venezuela. A questão do Irão é bem diversa, muito arriscada e muito perigosa. Para já, porque estão mais preocupados - os Estados Unidos e Israel - em eliminar fisicamente determinadas figuras do que em trazê-las para o seu território para depois serem julgadas.
Quais são os impactos desta guerra no Médio Oriente? Impactos económicos? Fala-se já do preço do petróleo, que disparou, e do encerramento do Estreito de Ormuz. A China é o principal país impactado?
A China está preocupada, embora ainda não se tenha manifestado de forma contundente, e a Rússia também condenou os ataques. O preço do petróleo já vai na casa dos 100 dólares por barril. O Estreito de Ormuz foi fechado. Todavia, há a possibilidade de haver, por parte dos Estados Unidos, uma acção para eliminar esta intervenção iraniana no Estreito de Ormuz.
De qualquer maneira, a China vai contribuir decisivamente para que haja um abrandamento e para que o Estreito de Ormuz seja reaberto. Mas a troco de contrapartidas; terá de ser negociado. A China vai continuar a resolver o problema com a importação de petróleo e gás, mas, naturalmente, vai sofrer as consequências também ao nível dos preços. Esta situação, dentro de dias, começará a fazer-se sentir, com os efeitos do encerramento do Estreito de Ormuz, e estou naturalmente a falar da economia a nível mundial.
Aumento da tensão no Médio Oriente. Esta segunda-feira está em curso, pelo terceiro dia consecutivo, a operação conjunta "Fúria épica". Os Estados Unidos da América e Israel lançaram, no fim-de-semana, um ataque conjunto contra o Irão, numa operação que estava a ser preparada há meses. Washington e Telavive conseguiram eliminar a figura principal do regime iraniano, o aiatola Ali Khamenei, líder supremo do país, bem como vários altos quadros do regime iraniano.
Em retaliação, o Irão está a levar a cabo ataques contra vários países da região. Esta manhã, pelo terceiro dia consecutivo, foram ouvidas explosões no Catar. Várias pessoas ficaram feridas e o espaço aéreo continua encerrado.
A RFI falou com Vasco Leitão, português a viver há dois anos no Catar. Este jovem, de 32 anos, continua retido em Doha devido à suspensão dos voos. Este português, que trabalha na área da hotelaria, no Catar, explica que estão todos um pouco apreensivos no país e relata-nos qual é o sentimento dominante por estes dias.
RFI: Como é que tem vivido os acontecimentos das últimas horas aí no Catar, país que também foi visado por mísseis iranianos?
Vasco Leitão: Tem sido uma situação estranha e sempre a evoluir. Eu acho que aqui já tivemos uma situação no ano passado, em junho, quando tivemos também alguns mísseis que foram interceptados, mas desta vez está bastante diferente. Da outra vez, as coisas fecharam, o espaço aéreo fechou. Passado um bocadinho, houve um lançamento dos mísseis, depois voltaram a abrir o espaço aéreo. Foi tudo uma coisa de cerca de 8 horas. Agora, o sentimento de toda a gente aqui é bastante diferente. E especialmente agora, entrando no terceiro dia, em que estamos a ver que só está a piorar e não a melhorar... Estamos todos um bocadinho apreensivos.
RFI : E não teve receio de que os estilhaços dos mísseis afectassem a zona onde vive?
Vasco Leitão: Não muito. Nós temos visto onde é que têm caído e tem sido tudo muito longe. A base aérea americana também é bastante longe das zonas residenciais, portanto, aqui onde estamos, estamos relativamente protegidos dos estilhaços. Não tem caído nada aqui perto da nossa zona.
RFI: Que indicações é que têm recebido por parte das autoridades? Têm sido devidamente acompanhados? Como é que tem funcionado todo este processo?
Vasco Leitão: Sim. O Catar é muito, muito organizado e muito avançado na parte digital. Portanto, temos updates (atualizações) quase de 15 em 15 minutos através das redes sociais e dos canais oficiais. Temos também um grupo de WhatsApp com a embaixada onde a embaixada portuguesa vai pondo as atualizações, talvez duas ou três vezes por dia, mas através das redes sociais é bastante fácil estar a par de tudo o que se vai passando.
RFI: E o Vasco dizia-me que que já vive aí há dois anos. Já conhece certamente muita gente, já tem muitos amigos aí. Como é que a população está a reagir a tudo isto?
Vasco Leitão: Eu acho que calmamente. Acho que aqui no Catar nós estamos habituados a sentirmo-nos seguros e acho que temos todos muita confiança nas autoridades e especialmente na organização do país e, portanto, sabemos que, dentro do possível, é dos melhores sítios para se estar. E aqui eu acho que está tudo muito calmo, está tudo a fazer planos, está tudo a acompanhar as situações e a ver realmente o que é que poderá acontecer porque é muito imprevisível.
RFI: E nota alguma diferença na rotina habitual das pessoas? Houve avisos para fazerem compras antecipadas, alguma coisa deste género a acontecer?
Vasco Leitão: Não, nada disso. Aliás, o Catar faz o contrário que é anunciar que todos os supermercados e lojas vão estar abertos 24 horas por dia. Anunciaram também que não havia qualquer tipo de problemas na entrada de bens e comida no país e que, portanto, havia stock de tudo para ninguém se preocupar. Referiram que, por precaução, estariam todos os supermercados abertos 24h, portanto, não houve corridas às lojas, não houve corridas aos supermercados. Foi tudo relativamente tranquilo. Nesse sentido, eu consegui perfeitamente ir ao supermercado, comprar água e comprar comida, sem qualquer problema. E as plataformas de entrega em casa também estão a funcionar em pleno. Portanto, não houve assim grande alteração.
RFI: O Vasco estava a dizer-me que que a população está a reagir com calma. Sente que existe de alguma forma um sentimento de maior união agora por parte da população, num momento em que estão a enfrentar uma crise como esta e num momento em que o futuro é imprevisível?
Vasco Leitão: Eu acho que sim. O Catar é um país pequeno e nós somos todos expatriados aqui, ou quase todos. Portanto, já de si é normal haver este sentido de união porque estamos todos fora do nosso país. Estamos todos aqui. Portanto, acho que nesta altura claro que sim. Tem sido esse o sentimento.
RFI : Existe preocupação aí no país, de que a guerra possa prolongar-se e afectar mais directamente a vida no Catar, neste caso Doha?
Vasco Leitão: Isso acho que é a maior preocupação, realmente, porque lá está, no ano passado, quando tivemos aqueles pequenos incidentes, foi uma coisa de poucas horas e não gerou grande preocupação. Até as pessoas em Portugal ligavam a perguntar se estava tudo bem. E nós aqui muito, muito tranquilos. Desta vez, apesar de continuarmos tranquilos, acho que há uma preocupação muito maior das proporções que isto pode tomar e especialmente do tempo que pode levar a estar resolvido. O espaço aéreo está fechado. Acho que tudo isso são as maiores preocupações, a esta altura.
RFI: O Vasco é português… Não está propriamente habituado a este tipo de situações. Como é que é, enquanto português, está a viver tudo isto num país tão longínquo? Como é que está a reagir a todos estes acontecimentos?
Vasco Leitão: É estranho, É uma sensação estranha. O Catar é um país, eu diria, ainda mais seguro que Portugal, até mesmo no dia-a-dia. Eu deixo o carro destrancado com as chaves lá dentro à porta de casa, portanto, estamos habituados a uma sensação super, super segura aqui. E é muito estranho ver isto tudo a acontecer. Portanto, claro que sendo português e especialmente estando aqui num dos países mais seguros, esta sensação de insegurança é um sentimento que não estamos habituados a sentir. Portanto, estamos a ver as notícias. Estamos a acompanhar, a olhar lá para fora. É uma sensação mais estranha do que outra coisa qualquer.
RFI: Tem receio que, no fundo, as defesas antiaéreas não funcionem de forma devida e que caia eventualmente algum míssil perto do local onde está? Há este receio vincado por estes dias?
Vasco Leitão: Eu acho que pouco porque temos todos muita confiança na preparação do governo e na organização que o país tem. E até agora temos tido provas dadas de que todas as defesas estão a funcionar e todos os mísseis têm sido interceptados. Portanto, eu acho que não. Ainda não temos essa preocupação. Talvez porque ainda não aconteceu ou porque talvez ainda nos queiramos manter optimistas. Mas não sinto isso, nem sinto que as pessoas aqui estão com essa preocupação. Lá está, as plataformas de entrega de comida em casa continuam a funcionar. Há carros na estrada. Eu acho que há alguma confiança de que a defesa funciona.
RFI: Existe, portanto, alguma normalidade também perante o caos... Eu sei, Vasco que tinha um voo para Portugal, que tem sido consecutivamente anulado. Pergunto-lhe se pensa voltar para Portugal, de forma definitiva, depois deste aumento da tensão agora nessa região do mundo?
Vasco Leitão: Para já, penso em ir ter com a minha mulher, que felizmente já está em Portugal para passar o tempo de férias que já tinha programado antes disto tudo começar. Depois, vamos ver como é que a situação evolui.
RFI: Quais são as expectativas agora para o futuro? Há alguns relatos de que esta guerra, que estes ataques possam durar alguns dias. Crê que a situação se poderá resolver em breve?
Vasco Leitão: Não sei realmente o que esperar. É tudo muito imprevisível. Os líderes de um dos lados mudaram. Portanto, tudo o que se possa prever agora são só suposições. Eu acho que só o tempo nos dirá.
O Presidente dos Estados Unidos pronunciou esta semana o discurso sobre o Estado da União. Donald Trump descreveu um país dinâmico, destacando o aumento da produção económica, a redução da inflação e vangloriando-se da política migratória. No entanto, o fact-checking -a verificação de factos- revela que muitas das afirmações não correspondem à realidade, como explicou à RFI o especialista português em política internacional Germano Almeida, sublinhando que este discurso “é um insulto à inteligência dos americanos”.
Que análise se pode fazer do discurso de Donald Trump?
É um discurso que é um insulto à inteligência dos americanos. É o pior discurso sobre o Estado da União que ouvi até hoje. É um discurso que aumenta os receios de um progressivo autoritarismo de Donald Trump e que, pela sua duração, desrespeita também as regras. Quase duas horas -mais do dobro do normal, o triplo de muitos outros discursos- batendo recordes no número de mentiras. Um chorrilho de mentiras a apresentar uma realidade alternativa.
Dizer que herdou uma economia estagnada e que agora está muito boa, quando o crescimento económico com Trump está a cerca de metade do que era com Biden; dizer que a questão da inflacção está resolvida quando não está; voltar ao fantasma da fraude eleitoral, quando não há qualquer evidência nesse sentido. Já antecipando uma derrota nas intercalares, mostra um desrespeito pelos adversários. É alguém que, como tenho dito e escrito, não tem dimensão para ser Presidente dos Estados Unidos, embora os eleitores americanos, há um ano, o tenham querido reconduzir à Casa Branca. Tem legitimidade democrática, mas, na minha opinião, não tem dimensão para o cargo.
O slogan da campanha de Trump, “Make America Great Again”, prometia, entre outros aspectos, aumentar o poder de compra dos americanos. Essa promessa tornou-se realidade?
Decretam pela palavra que a questão da affordability, da sustentabilidade e do poder de compra, está resolvida. Não está. A instabilidade da política tarifária -que o Supremo considerou ilegal- já antes era marcada por avanços e recuos constantes de Trump relativamente às tarifas. Isso gera instabilidade nos mercados e nas empresas, que não sabem com o que podem contar. Tem sido um factor para que a inflação não se resolva. Não é o único, mas é um deles.
Depois há a questão da imigração. Em 2025, foi registado, pela primeira vez desde 1935, um saldo migratório negativo: saíram mais pessoas dos Estados Unidos do que entraram, numa economia que está em crescimento constante e que precisa de mão-de-obra. A perda rápida de imigrantes, nomeadamente em alguns Estados, gera perdas económicas por duas razões: pela falta de mão-de-obra, que cria dificuldades às empresas, e pela quebra no consumo. Os imigrantes são também consumidores.
Ainda relativamente à política de imigração e à actuação das autoridades, têm surgido críticas junto da população e até no seio dos republicanos.
Há estudos que mostram que 77% dos americanos defendem que as acções do ICE devem ser realizadas com mandado judicial, e apenas cerca de 20% apoiam acções sem qualquer mandado. Mesmo quem defende deportações em massa não defende que indivíduos mascarados, nas ruas dos Estados Unidos, abordem pessoas, as detenham ou usem força excessiva.
A morte de dois cidadãos americanos prejudicou a imagem do país?
Isso não foi referido por Trump no discurso do Estado da União. Dois cidadãos americanos, que não constituíam qualquer perigo para a ordem pública ou para os agentes envolvidos, foram mortos nas ruas de Minneapolis. É de enorme gravidade.
Já aqui falámos das taxas alfandegárias, apresentadas como mecanismo para aumentar o poder de compra. O Supremo Tribunal considerou várias dessas taxas ilegais. Ainda assim, Trump avançou com novas tarifas de 15% para todos os países. Nada parece travar o Presidente. Essas taxas são utilizadas como forma de pressão da política externa?
Donald Trump usa as tarifas como instrumento de pressão geopolítica. O Supremo foi muito claro: o Poder Executivo não tem poder tributário. Está escrito no acórdão. O tribunal considerou a grande maioria das tarifas ilegais, especificando as excepções. Levanta-se agora a questão, colocada pelos democratas e por algumas empresas, de um eventual reembolso do que foi pago indevidamente. Não me parece que isso venha a acontecer, mas veremos. Trump insiste numa política de tarifas que considero uma aberração, mas tem legitimidade política para a defender.
Em termos de política externa, Donald Trump afirmou que -desde que regressou ao poder- acabou com oito conflitos e falou do Irão, um discurso ambíguo entre ameaças e acordos. Os Estados Unidos podem atacar o Irão?
Os Estados Unidos vão atacar o Irão. Não tenho qualquer dúvida, tendo em conta o grau de envolvimento militar actual na região. Noutro contexto, com outro tipo de alianças, poderia discutir-se, tendo em conta o regime actual e o risco do programa nuclear iraniano, que é real. Mas os Estados Unidos estão a agir praticamente sozinhos, contra a opinião de aliados regionais como a Arábia Saudita, a Turquia, o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos.
Há outra contradição: Trump rompeu, em 2018, o acordo nuclear negociado por Barack Obama, que estava a funcionar, classificando-o como “a pior coisa de sempre”, e agora pretende usar poder militar para forçar o Irão a aceitar um acordo semelhante.
Historicamente, os segundos mandatos tendem a privilegiar a política externa. É assim que se explica este intervencionismo -Groenelândia, Venezuela, Irão?
Há uma tendência para tentar racionalizar o que não é racional. Não vejo essa racionalidade. Trump dizia ser o Presidente que não fazia guerras. Mas Trump, como tenho escrito, não é para levar a sério. Está cada vez pior. Há sinais de decadência cognitiva e de crescente autoritarismo.
A base “MAGA” acreditava que tinha terminado a fase do intervencionismo americano. Mas Trump entusiasma-se com o poder militar. O Irão não é a Venezuela. É um país muito maior, mais distante, com mais capacidade. Sabe-se como uma intervenção militar pode começar; não se sabe como pode terminar.
No discurso, Trump procurou preparar o terreno para as eleições intercalares de Novembro. A popularidade do Presidente dos Estados Unidos está em mínimos. Há risco de implosão numa sociedade tão polarizada?
As eleições de Novembro podem funcionar como estabilizador, se os americanos, pelo voto, sinalizarem que esta administração está a falhar. Todavia, antecipando uma eventual derrota, Donald Trump e vários senadores republicanos já começam a falar de fraude eleitoral.
Nos Estados Unidos, as eleições intercalares envolvem 50 sistemas estaduais distintos. A narrativa será focar os Estados competitivos com administração democrata e alegar irregularidades nesses casos. Não falarão de todos. Nos Estados claramente republicanos, presumem controlo.
Há ainda medidas preocupantes, como cortes em programas federais em Estados governados por democratas, numa lógica de retaliação política. Isto é de enorme gravidade e coloca em causa a coesão federal.
A liberdade de expressão, a participação cívica e política e os direitos humanos estão a ser cada vez mais reprimidos em Angola. As conclusões constam do relatório semestral das organizações não-governamentais Movimento Cívico MUDEI, Associação Handeka e Mizangala Tu Yenu Kupolo, que acusam as forças de segurança de acções ilegais -nomeadamente em Julho de 2025, durante a greve dos táxis, marcada por episódios de violência que provocaram 22 mortos, incluindo três menores. Em entrevista à RFI, Jaime Mussinda, jurista do MUDEI, afirma que quem detém o poder em Angola nada faz para levar justiça às vítimas destas atrocidades.
Quais são as conclusões deste relatório?
O relatório do Movimento Cívico MUDEI, agora tornado público, visa apresentar as violações sistemáticas de direitos humanos que ocorreram, sobretudo com maior incidência, nos dias 27, 28 e 29 de Julho de 2025. No entanto, trata-se de um relatório semestral, no qual conseguimos compilar todos os tipos de atrocidades e violações ocorridas nos primeiros seis meses do ano de 2025.
No país, continua o encerramento do espaço cívico e as liberdades estão cada vez mais reprimidas. A participação cívica, política e até cultural continua a ser problemática. Registamos, com preocupação, um crescimento gritante das violações de direitos humanos. Em cada relatório apresentamos recomendações e documentamos as vítimas. Mas, pelo que parece, quem detém o poder político e os órgãos que deveriam auxiliar na investigação destas violações pouco ou nada fazem.
A repressão não se limita apenas aos activistas. Quem são as vítimas destas práticas repressivas, tendo em conta que falam em 22 mortos, incluindo três menores?
As vítimas desta brutalidade policial são cidadãos que podem ser activistas, jornalistas ou moto-taxistas. Vimos crianças serem executadas, sobretudo na província da Huíla. Vimos também uma mãe que saiu de casa à procura do filho, que se encontrava na rua, e que foi alvejada pelas costas. As vítimas desta brutalidade policial são todos os cidadãos que, em algum momento, se sintam encurralados ao exercer o seu direito de circulação.
As organizações não-governamentais criticam a actuação das forças de segurança e, passo a citar, “frequentemente à margem da lei, revelando um padrão de impunidade e de instrumentalização do aparelho de Estado para fins de controlo social e silenciamento de vozes críticas”. Qual é a responsabilidade do aparelho de Estado nestas práticas violentas?
Nos termos da Constituição da República de Angola e da legislação em vigor, a polícia tem como missão manter a ordem e a tranquilidade públicas e proteger o cidadão. Os serviços de investigação criminal, nos termos dos estatutos orgânicos do Ministério do Interior, têm como finalidade a investigação do crime.
No entanto, infelizmente, as organizações não-governamentais em Angola, apesar de demonstrarem vontade de investigar e apurar os factos relativos a cada violação de direitos humanos, não têm tido essa possibilidade. São reprimidas e rotuladas.
Os relatórios trimestrais e sequenciais que temos publicado são, de certo modo, actos de resistência. Mas quem investiga, neste caso, o agente da polícia que alvejou uma senhora que carregava o filho? É a própria polícia....
Qual é a resposta do Governo angolano a estes relatórios?
O Governo angolano nunca respondeu. Temos dito que os nossos relatórios são lidos em França, em Inglaterra, em Portugal e noutras partes do mundo, mas nunca fomos ouvidos ou levados em consideração pelos órgãos de direito em Angola.
Pediram para ser recebidos pelas autoridades angolanas?
Não. Utilizamos os canais de comunicação que chegam à Índia, à América e à Europa, e temos plena certeza de que esses mesmos canais chegam ao Palácio da Justiça e ao ministro da Justiça. Contudo, estamos a falar de um ministro que é um órgão político e não uma entidade equidistante de quem detém o poder.
Sempre que as violações de direitos humanos tenham como pano de fundo a protecção de quem detém o poder político, não podemos esperar imparcialidade de um ministro político, sobretudo quando não dispomos de instituições verdadeiramente independentes.
Após aquelas atrocidades [a greve dos táxis que ocorreu em Julho de 2025] o Governo angolano disponibilizou 500 mil milhões de kwanzas para reparar os supermercados que tinham sido vandalizados nesse período. Todavia, até ao momento, nenhuma das vítimas mortais foi indemnizada. Quem detém o poder político parece mais preocupado com bens patrimoniais e recursos do que com a vida e a dignidade do cidadão.
A seu ver, o que revela este silêncio dos responsáveis?
Revela falta de compromisso com a nação e com a dignidade da pessoa humana. Não há outra explicação. Temos o caso de uma menina de 13 anos que foi alvejada e perdeu a sensibilidade nos membros inferiores. Até hoje, não teve assistência médica, nem medicamentosa adequada num hospital público. Foi necessário que activistas cívicos e cidadãos comuns se solidarizassem para comprar uma cadeira de rodas, garantindo-lhe o mínimo de condições.
Foram membros do Movimento Cívico Mulheres que tiveram de a levar para um hospital noutra província, fora de Luanda, porque, sempre que recorriam a hospitais em Luanda, enfrentavam situações de tratamento indigno, como se a menina fosse uma vândala. Trata-se de uma criança de 13 anos que estava no local errado, à hora errada. É uma criança.
Quais são as recomendações deste relatório?
Pedimos uma investigação clara e aprofundada, despida de qualquer interferência política, sobre as violações de direitos humanos referidas no relatório. Exigimos igualmente a responsabilização criminal e civil dos agentes que alvejaram cidadãos indefesos.
Pedem o reforço das garantias processuais e o respeito pelos direitos fundamentais…
Certamente. Defendemos a responsabilização dos agentes envolvidos, desde o comandante-geral da Polícia ao ministro do Interior e, inclusivamente, ao comandante-em-chefe. Queremos também a responsabilização dos meios de comunicação social públicos que difundiram informações falsas antes, durante e depois destas atrocidades ocorridas em Julho 2025.
Exigem ainda a libertação dos detidos arbitrariamente. Está marcada para o dia 28 de Março uma manifestação para protestar contra a prisão de Serrote de Oliveira, conhecido como "General Nila", André Miranda, e de Osvaldo Caholo. O que se pode esperar dessa manifestação?
Vamos exigir a libertação do companheiro BuKa, que se encontra detido, acusado de terrorismo sem que tenha sido apresentada qualquer prova. O mesmo sucede com Osvaldo Caholo, detido por ter divulgado um vídeo nas redes sociais antes de uma manifestação em Junho de 2025. Até ao momento, não foi julgado.
Há também o caso do "general Nila", Serrote de Oliveira; que, no dia da manifestação, saiu para filmar um acto que decorria na comunidade.
Ele está impedido de ver a família ou um advogado…
Os contactos estão severamente limitados. Embora residam em Luanda, foram colocados numa penitenciária de Calombololoca, na província de Ícolo e Bengo. Há múltiplas violações de direitos num único acto.
Mesmo quando um indivíduo está detido, o único direito que lhe é retirado é o direito de circulação -o direito de ir e vir. Todos os demais direitos fundamentais: direito à vida, à integridade, ao lazer e ao contacto com a família e com os seus representantes legais devem ser mantidos.
Não se compreende como é possível negar-lhes o contacto com advogados e familiares. É isto que está a mobilizar a sociedade a sair à rua para exigir, no mínimo, a libertação imediata e a responsabilização daqueles que desencadearam estas acções ou que pretendem encarcerar cidadãos por criticarem ou se oporem ao modus vivendi e operandi do poder.
A RFI tentou contactar o ministro da Justiça de Angola, Marcy Lopes, para reagir às conclusões deste relatório, mas, até ao momento, não obteve resposta.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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