Os aliados celebram, neste 6 de Junho, os 80 anos do desembarque na Normandia, o "Dia D" decisivo para o início da vitória contra a Alemanha nazi. O aniversário acontece em vésperas de eleições europeias e numa altura em que a guerra assola novamente o continente, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022. Excluído das comemorações ficou o Presidente russo, enquanto o chefe de Estado ucraniano é um dos convidados de destaque.
O Presidente russo, Vladimir Putin, foi excluído do aniversário dos 80 anos do "Dia D", apesar do papel da Rússia na luta contra o nazismo. Já o chefe de Estado ucraniano,Volodymyr Zelensky, é uma das personalidades em destaque nestas comemorações, ao lado dos presidentes de França, Emmanuel Macron, dos Estados Unidos, Joe Biden, de Itália Sergio Mattarella, do Rei britânico Carlos III, do chanceler alemão, Olaf Scholz, do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, entre muitos outros.
Que imagem ficará deste encontro nas vésperas de eleições europeias, em ano de eleições nos Estados Unidos e numa altura em que o conflito continua na Ucrânia? Fomos perguntar ao historiador Victor Pereira, para quem o dia representa “a união das forças aliadas e democráticas que se juntaram contra a ditadura”. Nesse caso, ficará a Ucrânia associada às actuais forças democráticas e a Rússia, outrora essencial na guerra contra o nazismo, definitivamente rotulada como autocrática? O que é certo é que “o espectro” de uma nova guerra mundial ensombra as comemorações.
RFI: Qual o peso do Dia D, do desembarque de 6 de Junho, para acabar com a ocupação alemã em França e rumar para o fim da II Guerra Mundial?
Victor Pereira, Historiador: "Foi um papel fundamental. Obviamente não foi o único. Houve o desembarque das tropas americanas na África do Norte, logo em Novembro de 1942, mas foi o início da presença aliada - americana, inglesa, canadiana, também de alguns franceses - para começar a entrar na Europa. Também houve o desembarque na Sicília [Julho de 1943] e no sul de França [15 de Agosto de 1944], mas foi o início de uma longa batalha, a batalha da Europa contra a Alemanha, que apenas acabou um ano depois. Foram precisos 11 meses ainda para que a Alemanha perdesse e houvesse rendição sem capitulação."
Na noite de 6 para 7 de Junho, durante bombardeamentos aliados, houve entre 50.000 a 70.000 vítimas civis, 10.000 só na Normandia. Fala-se suficientemente disto?
"Sim. Na Normandia, em todas as praias há cemitérios enormes. Em Caen, que é uma das capitais da antiga Basse-Normandie, há um museu ligado à Segunda Guerra Mundial. É um território mesmo muito ligado a essa memória da guerra. Aliás, o Arquivo em França sobre as vítimas de guerra é em Caen. Há um conhecimento desta zona e, além disso, é um dos pontos que todos os alunos de colégio e liceu conhecem, na disciplina de História. No território francês, como noutros países, há uma memória de pedra da guerra, no sentido em que há monumentos aos mortos em qualquer aldeia com os mortos da Primeira Guerra Mundial, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Argélia. Acho que isso está bastante presente nas memórias, obviamente talvez não dos mais jovens que não vão saber isso ao pormenor, mas neste território, em qualquer sítio, há um monumento ligado a esses mortos - tantos militares, quanto civis."
O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, participa nas comemorações do Dia D, em que estão também o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o presidente italiano, Sergio Mattarella, e o rei britânico Carlos III, por exemplo. Qual é a simbologia destas personalidades juntas?
"O dia 6 de Junho é para estes países ocidentais uma data muito importante porque é o início da vitória contra a Alemanha nazi, contra a ditadura nazi, contra uma ditadura que matou, massacrou e cometeu um genocídio. Então, é a união das forças aliadas e democráticas que se juntaram contra a ditadura e o sacrifício de milhares de homens dos Estados Unidos, ingleses, do Canadá, franceses e do Império Inglês. Este ano, uma das grandes mudanças é que tradicionalmente havia um representante da Rússia. Agora, obviamente não é o caso e o facto de ser a Ucrânia convidada coloca a Ucrânia nos países democráticos que defendem a democracia, enquanto a Rússia do Putin é uma autocracia. Então, a simbólica é muito forte porque obviamente houve muitos ucranianos que, nessa época, estavam na União Soviética e que combateram na Frente de Leste."
A Rússia não foi convidada para as cerimónias dos 80 anos do desembarque. Antiga aliada contra a Alemanha nazi, a Rússia é hoje o país pária das comemorações?
"Sim, é o país pária. Nas outras comemorações, houve a vontade de incluir Vladimir Putin e a Rússia nas comemorações porque houve milhões e milhões de russos que morreram durante a Segunda Guerra Mundial a combater depois do ataque alemão em 1941 e depois do contra-ataque russo a partir de 1942, 1943. Havia uma vontade de incluir e de manter essa relação entre a Europa Ocidental e a Rússia, mas a última invasão [russa] da Ucrânia acabou por colocar de lado completamente."
O evento é uma demonstração de força contra a Rússia, com a presença do Presidente ucraniano?
"Não diria que é uma demonstração de força porque, de todos os modos, os países ocidentais iam comemorar uma data tão importante nos vários países. Neste caso, a mudança é ter incluído a Ucrânia para não descartar o esforço e o sacrifício de milhões de soldados da antiga União Soviética."
Mas não vai simbolicamente mais além? Não é mostrar que os aliados ocidentais estão em peso contra uma Rússia cada vez mais isolada?
"Não sei se é propriamente contra a Rússia. De todas as formas, era impossível, neste momento, com a guerra da Ucrânia, Vladimir Putin ir a um país ocidental. Mostra, sobretudo, a união entre os países ocidentais e, nesta data, eles não podiam não comemorar por causa da não vinda do Putin. Era obrigatório comemorar, sobretudo porque vai ser provavelmente uma das últimas vezes em que há comemorações com antigos soldados - devem ser muito poucos. Provavelmente nos 90 anos [do Dia D], já não haverá nenhum soldado que desembarcou nas praias da Normandia."
Oitenta anos depois desse desembarque, a guerra está de volta à Europa. Paira, de novo, o espectro de uma guerra mundial?
"Sim, com o que se passa na Ucrânia, também com o que se passa em Gaza, mas sobretudo na Ucrânia, há de novo esse espectro. Um dos últimos pontos que foi referido por Macron e Biden é o uso de armas ocidentais dentro do próprio território russo e isso não foi feito até agora porque houve sempre o medo de uma retaliação russa e de um alargamento da guerra. Obviamente que esse aspecto de uma eventual nova guerra mundial está sempre presente, também com o medo que se a Rússia ganhar à Ucrânia, ela continue a tentar invadir os países bálticos. Essa ameaça de uma guerra com a Rússia está sempre presente. Agora estamos um bocadinho a esquecer, mas essa possibilidade está sempre presente também com a China, com Taiwan e as tensões que agora falamos menos na Europa, mas as tensões continuam a existir na Ásia."
Estamos também nas vésperas das eleições europeias. A mensagem da luta pela liberdade é suficientemente forte perante a subida dos extremismos na Europa? Esta comemoração também passa essa mensagem?
"Obviamente que para pessoas como Emmanuel Macron, comemorar o 6 de Junho, o início da derrota do nazismo e do fascismo, tem um papel importante nas vésperas das eleições. No entanto, o que se vê há vários anos é que a extrema-direita continua a subir e que muitas pessoas, nomeadamente os mais jovens e grande parte do eleitorado, não ligam assim tanto ao que foi a extrema-direita nos anos 30 e o que foi o nazismo e o fascismo. Apesar de eu ser historiador, acho que parte das pessoas não pensa nos quadros históricos."
De onde vem a responsabilidade? O que é que se passa? Não há transmissão da memória?
"Eu não sei se há uma falta de memória. Por exemplo, nos Estados Unidos, há o papel dos veteranos na Segunda Guerra Mundial e o facto de milhares de americanos visitarem a Normandia para verem os cemitérios onde foram sepultados soldados. Em França, muitos feriados estão ligados à guerra e às vitórias: 11 de Novembro, 8 de Maio... Não sei se há propriamente falta de comemorações e falta de memória. Mas para muitas pessoas, isto já não é assim tão actual nas vidas delas, já não as toca e já não fazem a relação entre o que foram as ditaduras e as guerras e o que é hoje a União Europeia.
No caso francês, por exemplo, o Rassemblement National apresenta-se como patriota, como país de resistentes, quando parte da extrema-direita francesa vem de Vichy e da colaboração. O Rassemblement National fala muito do Charles de Gaulle e do Gaullismo quando inicialmente a extrema-direita francesa tentou matar o De Gaulle várias vezes. Muitas pessoas conhecem a História mais ou menos, mas já não a ligam à actualidade porque há outros elementos como as condições económicas e sociais, o sentimento de desclassificação, os medos que vão passando por alguns media em França ou nos Estados Unidos, com a Fox News… Então, acho que há uma disrupção entre a História e a memória e vê-se nos Estados Unidos com Trump que tem valores da extrema-direita, quando muitos americanos têm uma memória familiar da Segunda Guerra Mundial e da luta contra o nazismo."
O facto de Emmanuel Macron fazer as comemorações três dias antes das eleições europeias e ao longo desses três dias, não pode ser visto como oportunismo político?
"Ele não tem culpa que o 6 de Junho seja três dias antes das eleições. Isto é, ele não podia deixar de comemorar."
Mas calha bem…
"Bom, eu não sei se as pessoas vão ligar. Por exemplo, as pessoas que iam votar na extrema-direita, seja no Rassemblement National ou no Reconquête ou outros partidos da extrema-direita, não sei se vão pensar: 'Ah, afinal não vou votar no partido da extrema-direita porque há 80 anos milhares de pessoas morreram nas praias da Normandia para combater o fascismo'. Isso não acredito muito. Acho que o problema até do próprio Emmanuel Macron e de parte da classe política é que o discurso que eles têm sobre história já não toca as pessoas. Então, cai bem, mas acho que não vai fazer muita diferença nos resultados eleitorais. As pessoas que iam votar na extrema-direita, votam na extrema-direita. O que talvez pode mudar um pouco é nas pessoas indecisas ou nas pessoas que não pensavam ir votar, talvez… Mas mesmo assim, eu tenho algumas dúvidas."
O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também vai visitar um cemitério de soldados que morreram na Primeira Guerra Mundial. Em 2018, durante a sua visita, Donald Trump não o fez, alegando que não havia condições meteorológicas. Simbolicamente, num ano em que também há eleições nos Estados Unidos, esta visita de Joe Biden, do lado dos Aliados, tem peso?
"Sim porque os Estados Unidos combateram duas vezes na Europa, nas duas grandes guerras, e vai além de um certo isolacionismo. Donald Trump era mais essa tradição americana de não se envolver nos outros conflitos e houve muitos conflitos dentro da NATO, com a ideia que os americanos pagavam pela defesa da Europa e aquela ideia da “America First”.
O Joe Biden com esta dupla comemoração, da segunda e da primeira guerras mundiais, vai, em primeiro lugar, comemorar os mortos, os soldados - sabemos que Trump não fez a tropa e pôs em relevo esse discurso de ser patriota, mas ter conseguido não ir combater. Em segundo, vai comemorar esse lado dos Estados Unidos como democracia que interveio duas vezes na Europa para defender democracias contra regimes autoritários. Então, nesse quadro das eleições em breve, é uma dupla mensagem."