Convidado

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By RFI Português
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  • Franceses mobilizam-se "porque extrema-direita está à porta do poder"

    Emanuel Mayassi votou este domingo nas eleições legislativas francesas. O eleitor franco-angolano exerceu o seu direito de voto na mesa de voto número 49 do 18 bairro de Paris. "Habitualmente, quando esse partido chega próximo do poder, cada vez que obtém um bom resultado, todo o país se mobiliza e constitui o que se chama de frente republicana para travar esse partido", defendeu.

    RFI: Era importante votar este domingo?

    Emanuel Mayassi: É um dever que tenho enquanto cidadão deste país e sempre votei desde que me tornei cidadão francês. Há uma participação crescente nestas eleições pelo facto de o partido da extrema-direita ser favorável a vencer essas eleições e isso fez com que as pessoas se mobilizassem mais para poderem votar. Os pedidos de procuração, aquelas pessoas que não estão disponíveis para votar, que estão de férias ou que têm viagens programadas, todas essas pessoas antigamente não se importavam, ia embora de férias e não votavam. Desta vez houve mais de dois milhões de pedidos de procuração para poderem votar este domingo. Isso significa que esta é uma eleição muito importante para a França.

    Pode explicar-nos como é que funciona o sistema eleitoral francês para as eleições legislativas? 

    O sistema eleitoral francês é de duas voltas. Quer dizer, vamos à primeira volta e se nenhum dos candidatos obtiver a maioria absoluta, quer dizer, 50%, mais um voto, ai vamos à segunda volta com os dois candidatos mais votados. Na segunda volta, quem tiver a maioria absoluta é que vence e forma o próximo governo.

    Nas últimas eleições legislativas houve oito triangulares na segunda volta, isto é, passarem três candidatos à segunda volta. Há a possibilidade de haver muito mais triangulares este ano?

    Sim, sim. Ultimamente a imprensa fala muito disso, que em certas circunscrições haverá muitas triangulares dos três blocos principais. Isso é a democracia e nessa caso onde houver triangulares, os eleitores vão decidir quem é que dos três ficará à frente. 

    O que é que espera deste escrutínio?

    Muita gente está com medo que a extrema-direita chegue ao poder, mas se isto está a acontecer é porque todos os partidos que governaram a França nos últimos anos, digamos nos últimos 30 ou 40 anos, não satisfizeram as necessidades da população e a população está farta, a população está cansada de promessas não cumpridas, da falta de poder, de compra da vida cara. Tudo isso faz com que a população queira colocar no poder um partido que nunca governou, um partido que foi sempre diabolizado e actualmente esse partido fez um trabalho de branqueamento da sua imagem e a população já considera esse partido como sendo um partido normal. 

    Vamos lá ver o que acontece porque, habitualmente, quando esse partido chega próximo do poder, cada vez que obtém um bom resultado, todo o país se mobiliza e constitui o que se chama de frente republicana para travar esse partido. Dessa vez não está a acontecer, não está a ser o caso. Então vai ser uma surpresa. Estão todos num suspense para saber se esse partido vai vencer ou não porque a esquerda também se uniu de uma maneira incrível. Numa semana, a esquerda, que estava muito dividida, conseguiu unir-se e constituir a nova Frente Popular. As pessoas estão a tentar saber se a extrema-direita vai passar ou é nova frente popular.

    Estas eleições acontecem depois de, no dia das eleições europeias a 9 de Junho, Emmanuel Macron ter decidido dissolver a Assembleia Nacional. Conseguiu perceber a decisão do Presidente francês? 

    Não. Não achei que fosse uma boa decisão. No momento em que França vai organizar os Jogos Olímpicos daqui a um mês, a situação do país é complicada e todos concordam em dizer que a dissolução foi uma boa ideia. Acho que foi uma dissolução estratégica e só ele é que pode explicar a ideia porque não podemos esquecer que a extrema-direita está sempre a progredir, está em ascensão. 

    O presidente não quer deixar a extrema-direita chegar ao poder em 2027, que é o ano em que haverá as eleições presidenciais, a extrema-direita poderá chegar ao poder à Assembleia e à Presidência da República e dirigir o país durante cinco anos e consolidar-se. Ao Presidente faltam-lhe apenas um pouco menos de três anos e está a dar a oportunidade da extrema-direita para poder chegar ao poder e mostrar a sua incapacidade para depois, em 2027, não vencer as presidenciais. Acho que foi por isso que o Presidente dissolveu ele não era obrigado a dissolver, mas dissolveu no momento em que ninguém esperava.

    É inesperado também o resultado deste escrutínio. Como disse há pouco, não se sabe o que vai acontecer. Acha que os resultados desta primeira volta podem já desenhar um figurino do vencedor da segunda volta para a semana? 

    Tudo é possível e não acho que nessa primeira volta um dos grupos possa ter a maioria absoluta. Esta mobilização de hoje acontece porque a extrema-direita está à porta do poder. Eu acho que não haverá nenhum grupo com a maioria absoluta logo a primeira volta. Se a extrema-direita estiver à frente na primeira-volta, pode não acontecer o mesmo na segunda volta. Não temos a certeza que este partido possa conquistar eleitores indecisos, que certamente podem votar noutros grupos para impedir que a extrema-direita chegue ao poder. É aqui que reside a incerteza de não sabermos quem vai realmente ganhar.

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  • Legislativas: "França vive um grande momento de incerteza política"

    Depois da dissolução da Assembleia Nacional anunciada por Emmanuel Macron na noite das eleições europeias, os franceses são chamados às urnas este domingo, 30 de Junho, para eleger os 577 deputados. O professor auxiliar na Universidade de Paris-Nanterre, Christophe Araújo, afirma que "a França vive um grande momento de incerteza política".

    RFI: O que reteve desta curta campanha eleitoral?

    Christophe Araújo: Esta campanha eleitoral, como referenciou, foi muito curta. Não era nada prevista. Como já deve saber, não estávamos assim com tanta expectativa de haver novas eleições. E foi uma campanha muito rápida, com muitos confrontos. Sabemos muito bem que a reforma nacional está a ganhar cada vez mais peso e houve muitos confrontos ideológicos. Uma defesa muito forte também da parte do actual governo, que está a tentar ver se consegue limitar a fuga dos votos. Foi algo surpreendente, direi, e intenso. Muita incerteza a nível nacional, como a nível internacional, creio eu. 

    Houve tempo em duas semanas para conhecer as propostas e o que defende cada candidato dos principais partidos?

    Vemos muito bem com estas eleições legislativas antecipadas, que foi um pouco uma continuação das eleições europeias e vemos também que essas eleições europeias foram muito nacionalizadas. As temáticas dos principais candidatos, nas eleições de 9 de Junho, tinham como principal enfoque uma dimensão nacional.

    Ou seja, em vez de ter um programa que fosse europeu, era muito focado no contexto francês. Acho que as pessoas pouco lidaram com o projecto a nível nacional, porque já havia as principais temáticas, a questão da imigração, as questões económicas já estavam no espaço público e creio que houve uma continuação.

    E houve muito poucos partidos,de esquerda, do centro e da extrema-direita, que tivessem uma dimensão mais europeia, exlcuindo o candidato do PS, Raphaël Glucksmann. Os Verdes também, talvez, mas não tiveram muita audiência nesta campanha. É uma sequência quase lógica destas eleições europeias. As pessoas não estão muito focadas nos programas dos candidatos de cada círculo eleitoral.

    Quando vemos os panfletos dos partidos distribuídos esta semana, as pessões que aparecem, por na União Nacional, são o Jordan Bardella e a Marine Le Pen. E os nomes aparecem muito pequenos. Ou seja, esta dimensão local que podia haver nas legislativas está muito atrás. Aliás, acho que estas eleições aparecem como um referendo, "sim ou não", contra ou a favor de Macron. As pessoas já conhecem as temáticas porque já tinham sido muito referenciadas durante as eleições europeias. 

    Portanto, acho que as pessoas não ligam tanto ao programa, apesar de haver também, claro, estas propostas que foram lançadas com a nova Frente Popular, coligação que conseguiu realizar um programa em escassos dias, mas que tiveram tendência para aglomerar um pouco as propostas feitas nas eleições presidenciais de 2022.

    Estão a tentar reactualizar o debate sobre a pensão das reformas, muito contestada pela esquerda, e lembrar quais foram as principais medidas que foram criticadas nesta legislatura e presidencial desde 2022. 

    A França é hoje um país fragmentado?

    Por um lado há divisões, há divisões, como sempre houve em todos os países. Penso também que o presidente possa estar a incentivar esta dimensão de fragmentação e insistindo até numa ideia de uma possível guerra civil para tentar aparecer com a força política mais moderada.

    De facto, há umas fragmentações que estão cada vez mais fortes. Muito acerca da questão da imigração, da preferência nacional, do facto de dar prioridade aos franceses "de raíz", como eles dizem. A questão também da mundialização, da europeização. Há muitas tensões que estão a aparecer.

    Penso também no conflito que está a ocorrer entre Israel e Palestina. É também claro que há uma fragmentação que é incentivada, quer pela extrema-esquerda, quer também pela extrema-direita. Acho que todos os partidos estão um pouco a incentivar esta fragmentação e de facto perde-se a ligação entre os cidadãos franceses. A situação está a ficar cada vez mais tensa. Vamos ver qual será o resultado, mas acho que vai ser um pouco tenso. 

    Há motivos para apreensão quanto ao desfecho destas eleições? Falava em tensão e falava na incógnita do que pode vir a acontecer depois destas eleições legislativas antecipadas. O autarca de Lyon, por exemplo, pediu reforços policiais, Grégory Doucet mostrou-se preocupado com uma crescente instabilidade ?

    De facto, há uma tendência em haver uma contestação muito forte. Os resultados serão logicamente democráticos, não duvido disto, mas as tensões estão cada vez mais fortes e se o país se vir dominado pela extrema direita, vai haver uma reação, creio eu.

    Não sei se vai haver barricadas, não sei em que medida as coisas vão correr bem ou mal, espero eu que não vamos ter uma situação de pré-guerra civil. Creio que não, também porque as pessoas já estão um pouco conformadas com a ideia de um papel crescente da extrema-direita em França e de uma vitória dessas ideias. Poedrá haver epsaço para uma resposta republicana, mas sem o uso da violência.

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  • "Uma 'guerra civil fria' é possivelmente aquilo a que assistimos em França"- Álvaro Vasconcelos

    Em França, esta sexta-feira marca o fim da campanha para a primeira volta das legislativas antecipadas de domingo 30 de Junho, na sequência da dissolução do parlamento decidida há três semanas pelo Presidente da República, em resposta à pesada derrota do seu campo nas eleições europeias.

    Durante esta campanha extremamente curta, surgiu o retrato de uma França profundamente dividida, uma França que assusta os seus vizinhos na Europa, uma França descrente nas políticas até agora conduzida pelos tradicionais partidos de governação e com uma fracção significativa da sua população tentada pelo discurso da extrema-direita.

    Nestas três semanas de campanha, também se dramatizaram e se agudizaram as oposições, nomeadamente no campo de Macron que agitou inclusivamente o risco de guerra civil. Por outro lado, à medida que se foram normalizando as ideias e agendas da extrema-direita, diabolizou-se ainda mais a esquerda e algumas das suas figuras, como Jean-Luc Mélenchon.

    Estes foram alguns dos fenómenos que analisámos com Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.

    RFI: Em paralelo com uma banalização da extrema-direita, tem-se assistido a uma diabolização da esquerda. Qual é a base disso ?

    Álvaro Vasconcelos: Creio que, como em muitos sítios do mundo, há duas esquerdas. Há uma esquerda que é representada pelo Partido Socialista e pelos ecologistas, que é uma esquerda alinhada com os valores da integração europeia, alinhada com a ideia de que é preciso criar consensos na sociedade para que exista democracia, porque a democracia baseia-se na criação de um espaço público com alguns consensos essenciais. Depois, há uma esquerda de certa forma representada por um sector da França Insubmissa, muito particularmente por Mélenchon, que olha para esta questão dos consensos nacionais, de criar o quadro da convivência democrática entre diferentes forças, como algo contrário aos seus objectivos e, evidentemente, isto esteve presente na campanha. Por outro lado, nós temos uma particularidade em França hoje, que é, para além de existir uma frente de esquerda, a Nova Frente Popular, e um partido fortíssimo da extrema-direita. Temos ainda um centro, um partido que foi criado por Macron, que alguém chama de "partido do extremo-centro" -o próprio Macron usou essa expressão- e que, encontrando se numa situação extremamente difícil do ponto de vista político, procura chegar mais perto de objectivos que são pouco claros. Qual é o objectivo? Não é certamente de maioria absoluta, porque isso é absolutamente impossível. Mas procura chegar perto desses objectivos dizendo que "somos nós ou o caos". Isto é uma estratégia que já o general De Gaulle tem utilizado noutras circunstâncias e que é uma estratégia também condenada ao fracasso, porque é uma estratégia que radicaliza também a política francesa. Por exemplo, a declaração de Macron que estávamos "perto de uma guerra civil" é uma declaração extremamente grave, porque contribui para essa radicalização da sociedade e para a ideia que há fracturas na sociedade que são irreconciliáveis. Essa estratégia não tem tido sucesso, não terá sucesso e vai, de certa forma, contra os valores com que Macron tinha sido eleito pela primeira vez em 2017, quando apareceu como alternativa aos partidos políticos tradicionais, partidos que estavam desgastados por anos de governação sem resultado e apresentou-se como uma terceira força, o que tem acontecido várias vezes em França. E essa terceira força, para crescer e para existir, vai destruindo os partidos tradicionais e vai radicalizando sectores dos partidos tradicionais. Esse é um dos problemas. Outro problema que eu vejo, que é extremamente grave, é que as ideias da extrema-direita e, por exemplo, a ideia de há uma ameaça à identidade francesa, de que os imigrantes são uma ameaça que os valores e as conquistas como direitos para as comunidades homossexuais e LGBTQ, para os direitos das mulheres, etc, destroem a sociedade. Essas ideias extremamente reaccionárias e conservadoras que dividem profundamente os franceses, foram banalizando-se e aí a responsabilidade é de muita gente. Essa banalização ela dá-se, por um lado, porque a direita tradicional, em perda de velocidade e de eleitorado, sobretudo, foi pensando que teria mais sucesso, se assumisse as ideias da extrema-direita, porque iria retirar eleitorado à extrema-direita. Mas, como dizia o pai (Jean-Marie) Le Pen, as pessoas ao terem que escolher entre o original e a cópia, escolhem o original. O original é o racismo, mas eu acho que há muito mais sectores da sociedade francesa que contribuíram para essa banalização da extrema-direita.

    RFI: Nomeadamente a comunicação social, por exemplo. Há órgãos de comunicação social que partem do princípio de que a extrema-direita vai ganhar. Há também, inclusivamente canais de televisão que fazem campanha de forma assumida pela extrema-direita. Isto, no fundo, não vai contribuir também para orientar o voto dos franceses?

    Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida que houve um papel importante e muito significativo daquilo que podemos dizer o "marketing da sociedade do espectáculo", em que um político radical, um político de certa forma "Bouffon", um político que cria controvérsia e que diz coisas violentas, aumentaria as audiências. E aí, evidentemente, nós sabemos que há canais de televisão francesa, como a CNews, que foram, digamos, empoderados por essa corrente e que hoje estão ao serviço claramente da Frente Nacional. Mas há outros sectores. Por exemplo, há uma série de intelectuais franceses que ainda gostam de se chamar de intelectuais. Eu dou o exemplo de Alain Finkelkraut que escreveu há já vários anos um livro que se chamava "L'identité malheureuse" (a identidade triste) em que ele dizia, apesar de ele ser filho de imigrantes, que no seu tempo, integrava completamente os valores franceses, que agora há comunidades que não integram plenamente os valores franceses e que vivemos num momento de uma "Identidade triste". A teoria da "grande substituição" também é uma teoria de um intelectual. Ou seja, nós temos que pensar que a produção intelectual tem impacto também nessas questões. Evidentemente que isto se dá num contexto que facilita o desenvolvimento dessas ideias reaccionárias e o voto contra, embora o voto contra assumiu essa ideologia como sendo a ideologia que lhe pode dar um outro tipo de vida -o que é absolutamente falso- como já se viu em muitos sítios do mundo. Mas o contexto favorável é o contexto da consciência de enormes desigualdades na sociedade. Foi também toda a política agora, nos últimos anos, do Banco Central Europeu aumentar as taxas de juro, a inflação provocada pela guerra e a falta de resposta a nível europeu, mas também global, a especulação financeira, tudo isso a que se chama, e com razão, o triunfo da ideologia económica neoliberal, para o qual não há alternativa. Isso criou uma consciência muito grande na sociedade francesa da desigualdade numa sociedade onde o valor da igualdade é extremamente forte. Lembremos que a França, tem como lema a Liberdade, Igualdade e a fraternidade. Os grandes princípios da Revolução Francesa. Mas a desigualdade tem uma força muito grande na sociedade francesa. É a consciência da desigualdade. Depois, a crise de 2008, acho que também contribuiu para o crescimento da extrema-direita.

    RFI: Estava a falar do neoliberalismo. Ele é, de certa forma, personificado e cristalizado na personagem de Emmanuel Macron. E, por oposto, temos também Jean-Luc Mélenchon, que também é uma figura que divide a sociedade francesa. Ambas essas figuras foram, de certa forma, rejeitadas pelos seus próprios aparelhos partidários durante esta campanha. Apesar disso, eles não respeitaram o seu "dever de reserva". Julga que isto pode também contribuir para orientar o voto dos franceses?

    Álvaro Vasconcelos: Certamente que essa é a questão-chave das eleições francesas. Como nós sabemos, são eleições com duas voltas. E o que será decisivo para voltar atrás? A extrema-direita e a resistência republicana e os votos a serem orientados para o candidato em melhores condições para derrotar a União Nacional, seja ele de que partido for. E é a demonização recíproca, a demonização que foi feita de Macron durante estes anos por um sector da França Insubmissa, e agora a campanha que é feita contra a França Insubmissa nesse período eleitoral em particular, não facilitarão que na segunda volta das eleições, quando for um candidato da França Insubmissa ou do partido do presidente, que os votos se canalizem de um para o outro. E isso junta-se ao facto de o anti-semitismo ter reaparecido em França. Isso é algo que nós não podemos negar. Quer dizer, a França é um país onde as correntes islamofóbicas são extremamente fortes. Mas se nós formos na nossa própria análise -e eu me incluo- menosprezamos a força que o anti-semitismo histórico tem ainda nas sociedades europeias. E com a crise, nós não nos podemos esquecer que nós acabamos de viver a crise do covid, que foi uma crise extremamente grave. A crise da pandemia afectou profundamente as pessoas e apareceram as teorias mais absurdas, isto muito antes da Guerra de Gaza. Isto começou a ganhar uma dimensão significativa, durante a crise do covid, quando se começou a equacionar a vacina e a própria epidemia com os interesses da finança internacional, ligando essa finança internacional a várias teorias conspirativas sobre os judeus. Isso eu ouvi em vários sítios, até em Portugal, onde o anti-semitismo é latente, mas não tem essa dimensão. De repente, teve em França, por causa das circunstâncias actuais, e isso contribui para que uma parte da população olhe para os judeus como uma ameaça, além de olhar para os muçulmanos, o que torna a questão do racismo extremamente complexa e extremamente grave. Porque, para ser coerente, nós temos que ser claramente contra a islamofobia e contra o anti-semitismo. E aí não há dúvida que o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, não foi claro sobre essa questão, inclusive ao dizer que (o anti-semitismo) era "um problema residual". Ora, parecia-nos um problema residual, dado a dimensão da islamofobia, mas deixou de ser um problema residual. E não se deve desvalorizar nenhuma forma de racismo. Todas as questões que têm a ver com os direitos das pessoas, nomeadamente os direitos a não serem discriminados pela sua origem étnica, religiosa, nacional, etc. têm que ser tratados com enorme rigor, porque se contaminam uns aos outros e acabam por legitimar o horror, o absurdo do racismo.

    RFI: Relativamente à diabolização que tem havido, tanto de um lado como do outro, tem havido apelos para que, depois da primeira volta, os candidatos que fiquem em terceiro lugar nos seus círculos eleitorais, desistam da sua candidatura para fazerem barragem à Frente Nacional, no caso de ela estar presente na segunda volta. Todos os partidos concordaram, excepto o partido de Macron. Ou seja, a estratégia do "Ni-ni", como se diz aqui em França. É uma estratégia perigosa?

    Álvaro Vasconcelos: É uma estratégia muito perigosa, embora me pareça que é uma estratégia para a primeira volta das legislativas. É uma estratégia para tentar que o partido do Macron saia da situação extremamente difícil em que se encontra, aparecendo como o único partido que não teria nenhuma corrente extremista, que seria um partido do centro. Mas eu acho que na segunda volta, as coisas vão se colocar de forma muito diferente, algo que eu estou absolutamente convencido. Temos que relembrar que se a nova Frente Popular concorre com essa sigla, é que cada um dos partidos tem os seus próprios deputados em círculos diferentes e as pessoas sabem quem é o seu respectivo deputado. E quando forem candidatos, o Partido Socialista, os Ecologistas e o Partido Comunista, a transferência de votos do partido de Macron para esses candidatos vai passar e vice-versa. Quando forem candidatos da França Insubmissa e do partido do Macron, vai já ser muito mais difícil a transferência de votos. Mas eu penso que vai ter muito mais a ver com os candidatos específicos do que com os partidos em geral. Embora nós tenhamos visto, nos últimos dias, uma série de políticos e até intelectuais franceses a fazer abaixo-assinados a dizer que nunca votariam na extrema-direita, nem na França Insubmissa. Evidentemente que dizer isso hoje é extremamente perigoso, é grave. Estou a pensar como, por exemplo, em Manuel Valls e o caso e outros dirigentes. Hoje, eu penso que estes responsáveis não vão mudar de posição. Mas acho que os eleitores e mesmo os candidatos, quer do partido de Macron, quer do Partido da França Insubmissa, nos sítios em que tiver um candidato da extrema-direita pela frente, muitos deles irão apelar ao voto contra a extrema-direita. Vamos ver. Isso aí é um grande ponto de interrogação, mas não está bem encaminhado para que essa frente republicana exista. Mas temos que pensar que são em duas voltas as eleições e que estamos na primeira volta.

    RFI: Mencionou há pouco o risco de guerra civil que foi agitado nestes dias pelo Presidente da República. Julga que este é um risco plausível?

    Álvaro Vasconcelos: Acho isso um absurdo. Quando estive no Brasil nas vésperas da eleição do Bolsonaro, escrevi um artigo em que falei de "uma guerra civil fria", ou seja, uma guerra em que não há batalha, não há sangue, mas há uma destruição política significativa, como no Brasil, com a vitória do Bolsonaro. Uma guerra civil fria é possivelmente aquilo a que nós estamos a assistir em França, com uma sociedade extremamente polarizada como era a do Brasil, com a subida do Bolsonaro e seus apoiantes e com os partidos e pessoas a colocarem-se em dois campos absolutamente irredutíveis. A gravidade de se dizer "guerra civil" sem explicar o conteúdo, é que se está a dizer que amanhã os franceses se podem matar uns aos outros. É muito possível, perante a vitória da extrema-direita que haja em França manifestações que ganhem alguma dimensão violenta. Mas isso não tem nada a ver com uma guerra civil. Tem a ver com a revolta que a vitória da extrema-direita vai provocar e depois, como é que a polícia vai reagir. Tudo isso pode criar uma situação extremamente difícil. Mas dizer que se está em situação de guerra civil é também um velho discurso extremamente perigoso, porque é um discurso que foi usado pela extrema-direita para dizer que o que se passava nos bairros periféricos de Paris era um ambiente de guerra civil entre os franceses e os muçulmanos. Não era disso que Macron estava a falar. Estava a falar da clivagem entre a extrema-direita e a esquerda mais radical. Mas ele está a deitar fogo sobre o fogo. E não se percebe como é que um político eleito com uma política centrista (diga isto), a não ser numa situação de desespero, porque aquilo que ele tinha pensado que ia acontecer ao dissolver a assembleia, não se deu. Ele pensaria que a esquerda não se iria unir porque era o que tinha acontecido durante as europeias e portanto, o seu partido apareceria como sendo a única alternativa face à extrema-direita. Não foi assim. Criou-se uma nova Frente Popular, que é hoje a verdadeira alternativa à extrema-direita, embora esteja convencido que sem uma aliança entre a esquerda e o centro, em França, não se derrota a extrema-direita, mas não se pode polarizar a situação política ainda mais do que ela está.

    RFI: No fundo, com esta dissolução, a vítima colateral de tudo isto não terá sido o próprio campo de Macron que aparece ainda mais isolado depois desta refundação política?

    Álvaro Vasconcelos: Eu acho que o campo de Macron já estava extremamente fragilizado, que a dissolução foi uma tentativa um pouco desesperada para dar ao campo centrista uma força nova que falhou, mas se vir o resultado das europeias em que o partido de Macron teve 14,6%, já estava um partido com muitos problemas numa Assembleia Nacional extremamente dividida, em que o Partido de Macron tinha cada vez mais dificuldade em aprovar fosse o que fosse. Possivelmente havia outras alternativas, como dizem alguns dos políticos do campo de Macron, até o primeiro-ministro Gabriel Attal. Eu diria que, em tempos normais, o apelo ao voto dos eleitores é o fundamento da democracia e, portanto, isso acontece em imensos países do mundo em que, perante um impasse político significativo, se pede ao eleitorado para votar. Isso funcionava bem quando a democracia liberal era um regime que não era contestado de uma forma radical por forças iliberais de extrema-direita. Hoje, pelo contrário, esta situação, que é extremamente perigosa para a democracia. Nós hoje temos medo do voto e temos razão para ter medo do voto. Isto, para além da questão do timing, acho que é uma questão mais de fundo. Eu lembro que quando o Berlusconi perdeu pela primeira vez as eleições em Itália, houve uma discussão sobre convocar novas eleições e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, foi à Itália para dizer "não façam eleições, porque se houver eleições, será o partido Cinco Estrelas que vencerá". E não houve eleições. Puseram um tecnocrata, o Mario Monti, a governar a Itália e depois houve eleições, o Cinco Estrelas governou em aliança com Salvini e hoje temos a Meloni e a extrema-direita no poder na Itália. Ou seja, o medo das eleições é um problema grave da democracia. Mas a gente percebe porquê. Agora, onde eu seria crítico em relação à dissolução, não é que a dissolução da assembleia não seja um acto legítimo. É um acto que devia ser clarificador da situação política, mas devia ter sido feito noutras circunstâncias, não no momento em que a extrema-direita saía de umas eleições europeias muito reforçada. E o Presidente tinha esse poder de decidir quando dissolver a Assembleia e não com o impulso que a extrema-direita já tinha das europeias de fazer o país ir a eleições. Só mesmo com base naquele cálculo de que a esquerda não seria unida é que Macron pode ter pensado que faria sentido fazer eleições. Eu não entro naquelas análises psicológicas que estão hoje na moda em França, que é que o Macron se quis suicidar. Há uma série de análises que são do domínio psicológico. Eu acho que foi uma opção política, uma opção política feita no timing errado, uma opção política que era, penso eu, inevitável, cedo ou tarde. Porque se não houver uma clarificação política antes, há um problema muito mais grave para a democracia francesa, que é a vitória da Marine Le Pen em 2027. Então a extrema-direita tem a presidência e o Parlamento e aí estamos noutra França, noutra Europa e estamos numa numa situação de extrema gravidade. Travar o caminho da Marine Le Pen para a presidência é um objectivo essencial da política. Agora, para fazê-lo, tem que se fazer de forma que, de facto, trava o caminho. Porque mesmo que o partido da Marine Le Pen tenha a maioria absoluta, a coabitação não vai desgastar o partido da Marine Le Pen, na minha opinião, porque eles vão passar os três anos e tal do governo a dizer que não podem governar e não podem fazer aquilo que querem, porque o Presidente não deixa, porque o Tribunal Constitucional não deixa, porque não podem fazer referendos que alterem a Constituição e que todas as suas propostas, algumas delas extremamente perigosas, como retirar direitos aos franceses com dupla nacionalidade, todas essas propostas não avançam porque são bloqueadas pelo Tribunal Constitucional e que é preciso fazer um referendo e só podem fazê-lo se tiverem a presidência. Portanto, será extremamente perigoso.

    RFI: Entretanto, esta semana, o chanceler alemão expressou os seus receios relativamente ao desfecho destas eleições, que têm implicações também para a Europa.

    Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida. E aí estamos num capítulo em que, com todas as críticas que podemos fazer e devemos fazer, à incapacidade que o Macron teve de unir a sociedade francesa e de, apesar de ele ter tido que enfrentar a crise do covid, que foi extremamente difícil, a crises dos "coletes amarelos" etc... o balanço do ponto de vista interno é claramente negativo, porque senão também nós teríamos uma situação em que estamos. Mas ao mesmo tempo, e no domínio europeu, a França foi um país extremamente importante nestes anos. Macron, desde o discurso da Sorbonne, tem uma visão para a Europa, visão que faltava aos outros Estados-Membros. Foi muito importante para o plano de recuperação e resiliência a seguir ao covid. A Europa construiu-se e tem-se construído desde a sua fundação no eixo franco-alemão. Ora, se a França for controlada pela extrema-direita, só será totalmente controlada se essa tragédia acontecer em 2027. Mas com um governo de extrema-direita, a dinâmica europeia da França e a capacidade da França de influenciar a política europeia será muito diminuta. O eixo franco-alemão será muito mais frágil e temos que pensar que o chanceler alemão também saiu enfraquecido das eleições europeias, para tornar a questão mais complicada. O partido da extrema-direita foi o segundo partido mais votado, os partidos da coligação ficaram todos atrás quer da CDU, quer da extrema-direita. E quando se olha para os Landers de Leste -é um susto- a extrema-direita é dominante nos landers da antiga Alemanha do Leste. Depois, há a Itália. O terceiro maior país europeu tem um governo de extrema-direita. Portanto, se tiver um governo de extrema-direita em França e uma Itália dominada pela extrema-direita e uma Alemanha enfraquecida, teremos um problema gravíssimo para a Europa. Ou seja, eu diria que o chanceler alemão não está preocupado apenas com a situação francesa. Deve estar preocupado com a sua própria situação, com o peso da Meloni na Itália, e espero que ele tenha o mesmo nível de preocupação que eu tenho. E, evidentemente, com a situação francesa. Embora no domínio da coabitação, o Presidente francês continuará a ter muito peso nas questões europeias, mas muito enfraquecido. 

    25 min
  • Amílcar Cabral e José Carlos Schwarz inspiram espectáculo Ora di Kanta Tchiga

    O palco do B.Leza, em Lisboa, vibrou de forma intensa num espetáculo criado pela Casa da Cultura da Guiné Bissau. Celebrar o centenário de Amílcar Cabral e homenagear José Carlos Schwarz foi o mote da primeira edição do espectáculo Ora di Kanta Tchiga.

    Numa noite em que se testemunhou um dos momentos mais emblemáticos de celebração da cultura guineense, onde a música comprometida brilhou com potência redobrada, o palco do espaço lisboeta B.Leza transbordou de energia com as prestações de Maio Coopé, Karina Gomes e Remna, filho de José Carlos Schwarz.

    A força inspiradora e o engajamento de Amílcar Cabral, o "pai da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau", e José Carlos Schwarz, nome cimeiro da história da música guineense, vibraram de forma intensa num espectáculo criado pela Casa da Cultura da Guiné Bissau com o apoio da Fundação José Carlos Schwarz.

    Após o primeiro grande evento da Casa da Cultura da Guiné-Bissau, a RFI falou com Remna, músico e membro fundador da Fundação José Carlos Schwarz, e Bia Djassi, da Casa da Cultura da Guiné-Bissau.

    Link Casa da Cultura da Guiné-Bissau:

    https://casadaculturagb.org/

    11 min
  • "Ucrânia é o grande desafio" da Hungria na presidência do Conselho da UE

    A Hungria assume a presidência do Conselho da União Europeia no próximo dia 1 de Julho. São conhecidas as posições eurocépticas do primeiro-ministro, Viktor Orbán, e ainda os desentendimentos no apoio à Ucrânia e à indústria de defesa europeia. O analista em assuntos europeus, Paulo Sande, fala das consequências desta presidência húngara, sublinhando que o apoio à Ucrânia será o grande desafio. 

    RFI: A Hungria assume a presidência do Conselho da União Europeia, a 1 de Julho. São conhecidas as posições eurocepticas de Viktor Orbán. O que é que se pode esperar desta presidência?

    O que se espera desta presidência é que não seja um entrave para as várias políticas e orientações da União Europeia em matérias, nomeadamente, relacionadas com a guerra na Ucrânia. No entanto, em relação a outras políticas europeias, sabendo que está a ser feita uma transformação em todos os órgãos e instituições da União Europeia, uma presidência desta natureza pode não ser tão complicada do ponto de vista das consequências para o bloco europeu. Considero que a grande questão da Hungria será a relação com a Ucrânia.

    O que se pode esperar do apoio à Ucrânia e à indústria de defesa europeia, dois temas especialmente significativos, dados os laços historicamente estreitos de Viktor Orbán com Moscovo?

    Aquilo que faz a presidência do Conselho da União Europeia, que é o nome formal destas presidências semestrais, é gerir as agendas, gerir as reuniões do Conselho de Ministros- nas suas várias declinações e perante as várias formações- onde estão ministros de diferentes áreas. Eu diria que poderemos assistir ao retardamento de muitas das decisões indispensáveis, sabendo que os alemães têm pressionado muito no sentido de conseguir ainda mais apoio para a Ucrânia.

    O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, está em Bruxelas para assinar um pacto de segurança com a União Europeia….

    Há esta necessidade por parte da Ucrânia, sobretudo neste período muito complicado. No entanto, é preciso lembrar que não tem a ver com a presidência do Conselho da União Europeia por parte da Hungria, mas sim com as eleições em França. Saber qual será a pol´tica da França.  A Ucrânia sabe que precisa, mais do que nunca, não apenas da concretização das promessas, mas precisa das promessas. Ou pelo menos precisa de um sinal político de que o apoio europeu não esmoreceu

    Precisa de uma Europa mais unida?

    Volodymyr Zelenskysabe sabe que é isso está em causa. Há ainda outros acontecimentos a ter em conta, nomeadamente a situação muito complicada na Alemanha, as eleições nos Estados Unidos, no final do ano, tudo isto representa para a Ucrânia uma ameaça existencial, num período em que a situação no terreno está complicada. Por outro lado, Putin e a liderança da Rússia têm multiplicado as suas diligências diplomáticas, nomeadamente com o reforço de laços.

    Refere-se à Coreia do Norte?

    Exactamente. Zelensky sabe que tudo isso está em causa e, portanto, o que ele precisa é desse tipo de afirmações.

    Depois de se ter encontrado com o chanceler alemão Olaf Scholz, em Berlim, com a Primeira-Ministra George Meloni, em Roma, o chefe do executivo húngaro encontrou-se, ontem, com o Presidente Emmanuel Macron. O que é que procura Viktor Orban com estes encontros?

    Viktor Orbán procura convencer os restantes líderes europeus para aquilo que têm sido as reservas colocadas pela União Europeia, em particular pela Comissão, nos últimos anos, relativamente à forma como a democracia húngara funciona. Orbán quer convencê-los- aproveitando no fundo este período e formalmente fazendo esse périplo- demonstrando a sua boa vontade em termos de integração europeia. Ou seja, normalizar um pouco como tem feito, nos últimos tempos, muitas das lideranças e até partidos políticos, alguns deles em vias de chegar ao poder.

    Normalizar as políticas?

    No fundo, Viktor Orbán quer reduzir a preocupação dos restantes líderes europeus relativamente à possibilidade desses partidos se tornarem Governo em vários países europeus, como é o caso de Viktor Orbán. E sabemos que  Hungria têm tido problemas com a Comissão Europeia

    A Hungria que viu bloqueados 19 mil milhões devido às violações de direitos de Estado…

    Esta é a oportunidade para conseguir isso, a partir do momento em que vai assumir a presidência do Conselho da União Europeia, ao mesmo tempo que cria obrigações do ponto de vista do funcionamento da própria União Europeia.

    Há aqui uma espécie de relação transacional em que Viktor Orbán, no fundo, procura obter vantagens e, nomeadamente, libertar uma parte desses recursos ou todos, se for possível, com a promessa dessa normalização. Vai tentar justificar aquilo que, aos olhos de muitos europeus, não é aceitável. Não é apenas a relação com a Rússia, mas também o funcionamento da própria democracia húngara.

    Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia vão decidir se aprovam o nome, nomeadamente António Costa, para a liderança do Conselho Europeu, Ursula Vanderlan para um segundo mandato na Comissão Europeia e a primeira ministra da Estónia, Casa Kallas, para chefe da diplomacia comunitária. Apesar do consenso sobre estes três nomes, os primeiros-ministros da Itália, Geórgia Meloni, e da Hungria, Viktor Orban, já demonstraram estar contra o pacote que está destinado aos cargos de topo. Que margem têm estes dois países para negociar?

    Eles não podem fazer muito. No entanto, é preciso ver que Geórgia Meloni e Viktor Orban têm posições diferentes. No fundo, o que Geórgia Meloni veio dizer é que quer ter uma uma participação nas negociações, tendo em conta o resultado do partido Fratelli de Itália, nestas últimas eleições europeias, e o facto do grupo político a que pertence na União Europeia ter passado a ser, pelo menos em princípio, o terceiro grupo mais importante do Parlamento Europeu. Órban faz um pouco a mesma coisa. Tem, apesar de tudo, uma posição e um ponto de partida diferente, tentando neste momento conseguir outro tipo de reconhecimento por parte dos seus pares.

    A escolha da actual presidente da Comissão Europeia como candidata ao um próximo mandato é uma escolha quase que obrigatória, no sentido em que ela foi apresentada como a candidata principal. Vai ser feita essa votação, mas a partir do momento em que o acordo é feito em conjunto, não há margem para que não seja aprovada.

    No caso do presidente do Conselho Europeu, por exemplo, há uma votação. Essa votação implica maioria qualificada reforçada de 72% dos países e 65% da população que à partida está garantida, não se podendo opor a essa escolha. E em relação à Kaja Kallasa [primeira-ministra da Estónia] a escolha é obviamente simbólica.

    Trata-se de uma mensagem para a Rússia?

    É uma mensagem clara, associada à escolha do Secretário-Geral da NATO, para a Rússia, mostrando que a Europa continua unida nos seus desígnios de se opor aos objectivos da Rússia nesta guerra com a Ucrânia. O facto de ser alguém de uma área que está directamente preocupada com a ameaça russa, estamos a falar dos Estados Bálticos, é uma mensagem forte no sentido de dizer nós continuamos empenhados nesta via.

    8 min
  • Lighthouse Reports publica investigação "Promessa falhada dos sistemas biométricos"

    A Lighthouse Reports e a Bloomberg conduziram uma investigação que revela casos de irregularidades nos processos de recenseamento e eleitoral em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, onde "sistemas sofisticados de recenseamento eleitoral se tornaram um meio para o partido no poder, a Frelimo, manter o controlo", explica a jornalista Beatriz Ramalho da Silva que fez parte da investigação.

    RFI: A Lighthouse Reports e a Bloomberg conduziram uma investigação onde revelam detalhes sobre o contrato de recenseamento eleitoral assinado pelo governo moçambicano com o consórcio moçambicano Artes Gráficas e com empresa estrangeira Laxton. A investigação, intitulada "Promessa falhada dos sistemas biométricos", decorreu durante um ano e destaca várias irregularidades sobre o recenseamento e sobre o processo eleitoral em Moçambique. Que conclusões se tiram desta investigação?

    Beatriz Ramalho da Silva: Esta é uma investigação que é parte de uma série maior que estamos a fazer na Lighthouse Reports sobre as falsas promessas da tecnologia biométrica. O que encontramos em Moçambique, onde o enfoque é o sistema de recenseamento eleitoral, é uma situação de uma família muito bem conectada à Frelimo, que é beneficiada em milhares de euros através de contratos eleitorais e que nas últimas eleições, tanto 2018 como 2023 trouxeram esta empresa estrangeira Laxton para providenciar o recenseamento.

    O que descobrimos que acontece em 2018, através de, nomeadamente organizações locais de observação e da União Europeia, é que houve uma série de irregularidades, ou seja, inflação de eleitores em locais simpáticos à Frelimo e depois complicações no recenseamento de eleitores em áreas de oposição. Falámos com pessoas próximas do governo e que trabalhavam para a Laxton, esta empresa estrangeira, que nos disseram que os técnicos informavam os seus superiores dentro da empresa, de que havia tentativas de manipular o equipamento, de suprimir o recenseamento da oposição. Isto podia passar por equipamento desconectado ou alocado propositadamente a áreas sem corrente eléctrica.

    O que nós conseguimos apurar, em primeiro lugar, foi que esta empresa tinha conhecimento e que escolheu não actuar sobre isto, ou seja, ignorou aquilo que lhe foi colocado pelos seus técnicos. Naturalmente, há uma responsabilidade não só do lado do governo moçambicano, mas das empresas estrangeiras que vendem estas tecnologias, pois elas devem assegurar que a transparência na forma com a tecnologia é utilizada. Mas, para além disso, o que também conseguimos apurar foi que em 2023 foi aprovado um segundo contrato por ajuste directo, ou seja, uma situação excepcional no valor de 127 milhões de dólares para esta empresa Laxton em consórcio com Artes Gráficas e o que descobrimos foi que dentro do sector, ou seja, dentro do órgão eleitoral moçambicano, tivemos acesso a documentos que demonstram que havia uma série de reservas e preocupações quanto ao custo e a viabilidade técnica da proposta desta tecnologia.

    No entanto, o governo acaba por renovar este contrato com a empresa estrangeira Laxton, um contrato dispendioso e o executivo acaba por recusar lançar um concurso público?

    Exactamente. Segundo o que apuramos, ao falar com um antigo alto funcionário dentro do governo, parte da razão para o qual a Laxton teria sido escolhida como fornecedora era pelo facto de terem sido contratados anteriormente. Deveria ter havido a possibilidade de reutilizar estes kits de identificação móvel, ou seja, os kits utilizados para o recenseamento para reduzir custos. Mas em vez disso, houve uma apresentação feita para um equipamento completamente novo, por um preço que esta fonte chamou de "assustador". Tivemos acesso a documentos que mostram que funcionários dentro do órgão eleitoral consideravam que este equipamento seria frágil, seria lento, que poderia haver dificuldades de transporte para as zonas rurais, ou seja, havia uma série de reservas.

    Houve, nomeadamente, a introdução de um novo cartão de eleitor, que é um cartão PVC, ou seja, supostamente mais durável, que iria substituir os que tinham sido emitidos em 2018. O que acontece é que tivemos acesso as atas de uma reunião confidenciais que mostram que funcionários dentro do governo puseram em causa os benefícios destes cartões, dado o facto que em Moçambique o recenseamento não é permanente, tem de ser feito a cada cinco anos, ou seja, não havia uma boa relação de custo benefício. Inclusive uma pessoa dentro da CNE chamou esta introdução dos cartões de PVC como um artifício para fazer aumentar o preço e depois, naturalmente, em 2023, constatou-se os mesmos padrões de irregularidades que tinham sido vistos em 2018 e, aliás, os observadores locais disseram que foi ainda mais acentuado os problemas que viram no terreno.

    Na investigação são citadas várias fontes anónimas, há medo em denunciar estes processos de irregularidade?

    Absolutamente. As pessoas têm bastante receio no que toca a falarem sobre o facto que a Frelimo suprimiu o recenseamento da oposição, que houve irregularidades, que há também uma família conectada ao governo que repetidamente recebe milhares de euros em contratos directos e, curiosamente, uma das pessoas que são referidas na peça Shafee Sidat é um presidente do município em Moçambique e também recebe dinheiro, digamos, para contratos eleitorais. E toda a gente com quem falei tinha bastante receio e tivemos que proteger a sua identidade. Inclusive as pessoas que falaram e dando o seu nome fizeram no também com reservas.

    Como é que surge a ideia de fazer esta investigação? Durante vários processos de recenseamento e processos eleitorais houve organizações da sociedade civil, observadores que denunciaram irregularidades. Este foi o vosso ponto de partida?

    Em parte, como eu dizia anteriormente, esta é uma investigação que é parte de uma série maior que estamos a fazer na Lighthouse Reports e onde examinamos contratos de tecnologia biométrica em diferentes países africanos, quer seja pela introdução de cartões de cidadão e depois para demonstrar que, de facto, aquilo que é vendido como uma promessa de maior transparência ou democratização acabam por abrir caminhos para novos modos de irregularidades. O que se constata em Moçambique é uma tecnologia que é vendida, mas que acaba, na verdade, não só para criar uma nova via de irregularidade, como também para trazer um negócio lucrativo para empresas estrangeiras e empresários locais em Moçambique. Era claro que teríamos que nos debruçar sobre o recenseamento eleitoral e aí foi peça chave ter todos os relatórios das pessoas que estão no terreno, ou seja, observadores locais fazem este trabalho, às vezes com poucos recursos e fazem um trabalho excelente de denunciar todos os temas dentro do recenseamento e também observadores da União Europeia. A partir daí, soubemos que tínhamos que examinar ainda mais o que é que estava por trás disto e também qual era a responsabilidade da empresa estrangeira que foi trazida para trabalhar em Moçambique.

    Que metodologia utilizada para conduzir a investigação?

    O que fizemos primeiramente falámos com várias pessoas que estavam intimamente implicadas no processo eleitoral, portanto, várias entrevistas com pessoas dentro do governo, dentro dos órgãos eleitorais, dentro desta empresa Laxton, e a partir daí, criarmos um caminho onde conseguimos ter acesso a documentos internos e atas, reuniões confidenciais e outro material que fez com que a investigação fosse possível.

    Tentaram confrontar as autoridades moçambicanas; representantes do governo da Frelimo, o gabinete da Presidência com os resultados desta investigação e não obtiveram resposta?

    Exacto. Tivemos conhecimento através de relatórios de observadores locais e eleitorais tanto da parte da União Europeia, como outras pessoas que estão no terreno, nomeadamente uma organização de anti-corrupção em Moçambique, CIP, que fizeram vários relatórios sobre isto, revelavam que havia várias tentativas de desligar o equipamento em zonas onde haveria um maior número de eleitores pela oposição. Ou seja, este equipamento era desligado e diziam que eram avarias. Havia uma restrição para que estes eleitores não se conseguissem recensear. Havia questões em que o equipamento era deliberadamente posto em zonas sem electricidade. Isto depois que também foi dito por técnicos dentro da Laxton, da imprensa estrangeira, situações onde impressoras paravam de funcionar. Ou seja, criava se como, digamos, uma artimanha para dizer que o equipamento aqui não funciona, mas na verdade eram muitas vezes situações de manipulação ou situações criadas para que os eleitores da oposição não se pudessem recensear. Em 2018, aquilo que se constatou, por exemplo, aqui novamente, é que depois há uma inflação no número de pessoas recenseadas em zonas simpáticas à Frelimo é muito menor número de pessoas que são recenseadas da oposição. Portanto, isto tem uma repercussão muito real naquilo que é o exercício de cidadania dos moçambicanos.

    Na investigação, a dada altura, pode-se ler que um dos "objectivos principais era recensear os nossos", que o objectivo não era atingir uma meta diária de recenseamento, mas recensear potenciais eleitores que "pudessem votar no partido no poder, portanto, na Frelimo".

    Exactamente. Nós tivemos acesso a uma série de mensagens e isto foi bem reportado em Moçambique, tivemos acesso a mensagens de WhatsApp onde havia um director distrital do STAE da Beira de uma zona de Moçambique que estava a instruir os seus técnicos a recensear selectivamente os eleitores, ou seja, apenas a recensear eleitores da Frelimo. Portanto, eram situações bem coordenadas para a supressão do recenseamento de alguns eleitores.

    Moçambique tem eleições gerais a 9 de Outubro. Há razões para ter apreensões quanto ao que está a ser preparado pela Comissão Nacional de Eleições e pelo Secretariado Técnico de Administração Eleitoral. Em que medida é que a falta de independência e transparência da CNE e do STAE pode vir a comprometer a confiança pública no processo eleitoral?

    Acredito que aquilo que esta investigação demonstra é que há, de facto, reais preocupações da forma como o sistema eleitoral é gerido. O que vemos aqui é uma enorme falta de transparência e de irregularidades só na parte do recenseamento. Acho que quem acompanha o processo eleitoral em Moçambique acompanhou as eleições autárquicas, onde houve uma nova onda de irregularidades e portanto penso que a situação em geral é preocupante e sabemos que este equipamento e estas tecnologias são utilizados para criar novas avenidas para promover outras irregularidades.

    10 min
  • Quénia envia primeiro contigente de 400 polícias para o Haiti

    O Quénia enviou esta terça-feira, 25 de Junho, 400 polícias para o Haiti no âmbito de uma missão internacional de apoio à segurança, a pedido das autoridades haitianas e sob os auspícios das Nações Unidas. A decisão foi tomada em resposta à crise de segurança que o Haiti enfrenta. O professor universitário em Bordéus, de origem haitiana, Rafael Lucas, descreve um sentimento de esperança e de desconfiança por parte das população haitiana quanto à chegada da missão internacional.

    RFI: Quais são os objectivos desta missão e de que forma esses objectivos podem vir a ser alcançados?

    Rafael Lucas: Os objectivos são ajudar o governo haitiano a restabelecer a ordem, mas nem sempre corresponde à necessidade da população haitiana, que é eliminar os bandidos, porque a população, na sua maioria, não quer que os bandidos sejam julgados. Eles preferem que o contigente queniano os ajudem a impor tranquilidade e paz, sobretudo nas vias de circulação inter-urbanas porque os bandidos atacam veículos de transporte e também querem que as crianças possam ir à escola, que os veículos possam circular e que a vida económica possa ser retomada.

    Esta decisão foi tomada em resposta à crise, como explicou de segurança que o Haiti enfrenta e que se agravou desde o passado mês de Fevereiro, marcado por um aumento de violência entre gangues, sequestros e uma situação humanitária crítica Esta missão pretende restaurar a ordem, combater gangues, fornecer ajuda humanitária, É isso?

    Por enquanto, o contigente queniano vai garantir a possibilidade de proteger os prédios oficiais. A maioria desses prédios já foi assaltada pelos bandidos e a maior parte dos funcionários já fugiu desses prédios, incluindo os hospitais. Então, as forças quenianas têm como missão garantir a tranquilidade desses prédios. A questão dos prédios não constitui a prioridade da população.

    Qual é a prioridade da população?

    É primeiro a circulação e depois querem que o contigente possa eliminar os agrupamentos de bandidos porque eles já tinham começado há um ano, um ano e meio, mais ou menos uma operação para reduzir bandidos, chamada "linchamento", muitos bandidos foram linchados, foram queimados. É um método brutal e quase medieval, mas esse método deu resultados, pelo menos durante certo tempo, até que os bandidos se conseguiram adaptar e também mudar de estratégia.

    Que cooperação existe entre o contigente queniano e as forças haitianas locais, bem como outros contingentes internacionais presentes no terreno?

    Acho que o governo haitiano estava à procura de uma ajuda internacional que no princípio devia começar a partir dos países mais próximos. Só que os países da América Latina, a maior parte deles, recusaram aventurar-se no atoleiro haitiano. Os Estados Unidos, por razões históricas, a França também, e o Canadá e outros países como o Brasil, também recusaram. Eles foram buscar ajuda a África e o Presidente do Quénia propôs enviar um contigente

    Por que é que esses países todos recusaram ajudar e enviar polícias para o Haiti?

    Os Estados Unidos já tinham invadido e ocupado Haiti entre 1915 e 1934 e a ocupação americana deixou um verdadeiro traumatismo no Haiti. A França também, pelas mesmas razões depois, os outros países sabem que os bandidos podiam utilizar a presença deles como pretexto para se redimir e mostrar que lutavam contra a ocupação estrangeira. Mas com os africanos, eles não têm os mesmos argumentos.

    Existe a relação histórica entre o Quénia e o Haiti, apesar de ser limitado em termos de profundidade histórica e interacções directas. Os dois países partilham fortes laços simbólicos, como nações que lutaram pelas suas independências contra potências coloniais e contribuíram para o surgimento de movimentos de descolonização e cooperação internacional...

    Sim, é um argumento que eles utilizam, mas no Haiti a população não tem nenhuma referência a propósito do Quénia, tirando alguns filmes sobre animais, filmes dos anos 60 ou 80, eles não conhecem a história do Quénia, não ouviram falar do Jomo Kenyatta e da Revolta dos Mau-Mau.

    Quais são os principais desafios que o contigente queniano podem vir a enfrentar no Haiti?

    Para já, as infra-estruturas urbanas estão em péssimo estado. Depois vão intervir num país cuja cultura e língua não conhecem. Uma parte da população têm um certa esperança nessa intervenção porque eles sofreram demasiado com as crueldades dos bandidos e outra parte considera que é uma nova forma de ocupação porque as intervenções anteriores internacionais, nomeadamente as missões enviadas, como por exemplo a MINUSTAH [Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti] não tiveram resultados. Há uma parte de desconfiança e outra parte de esperança, mas acho que a parte esperança, por enquanto, é maioritária. Se as primeiras acções, pelo menos simbólicas, forem acções eficazes, a parte da esperança vai crescer.

    A comunidade internacional, em particular as Nações Unidas, apoia o envolvimento do Quénia no Haiti, apesar de outros países não terem dado este passo. Como é que explica que a comunidade internacional queira apoiar o contigente queniano?

    Porque a situação no Haiti representa um descalabro total e porque as forças haitianas estão em número muito inferior às capacidades dos bandidos, em termos de número e em termos de armamento. A única solução, tirando as linchagens que não podem constituir uma solução viável. A última solução era uma intervenção exterior, com forças exteriores multinacionais, se possível.

    8 min
  • "Divisão de Luanda é uma medida para o MPLA se eternizar no poder"

    O Bureau Político do Comité Central do MPLA recomendou recentemente, ao grupo parlamentar, a criação de mais uma província, resultante da divisão de Luanda, capital de Angola, no âmbito da discussão da divisão administrativa do país. Em entrevista à RFI, Serra Bango, presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia, fala num desnorte do MPLA, sublinhado que é mais uma medida para o partido se eternizar no poder.

     

    RFI:  Bureau Político do Comité Central do MPLA recomendou a criação de mais uma província, resultante da divisão de Luanda, no âmbito da discussão da divisão administrativa do país. Considera pertinente a divisão administrativa de Luanda?

    Serra Bango, presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia de Angola: O MPLA não diz claramente o que pretende, qual é o estudo que fez e o que determina que o aconselhável seria a divisão administrativa de Luanda. Ficamos com a impressão que há aqui um desnorte por parte do MPLA relativamente a esta matéria.

    A primeira iniciativa era dividir cinco províncias, depois recuaram para duas, passando de 18 para 20 províncias. Luanda inicialmente não estava prevista, até porque Luanda já foi dividida várias vezes em municípios, distritos, comunas, etc.

    Tanto é que Luanda é das províncias mais pequenas em termos de extensão territorial. O problema tem que ver com a densidade populacional, a falta de emprego e o estímulo para o retorno das populações mais jovens às suas zonas de origem.

    O facto de dividir Luanda, com forte densidade populacional, em duas províncias não poderá trazer melhorias para a população?

    Não trará. Se não há iniciativas actuais para resolver os problemas para a distribuição de água, energia, emprego e mobilidade, quem ao nível do MPLA- nessa altura- teria iniciativas para aquelas circunscrições mais pequenas? Não há, porque se tratam de vícios perpetrados pela administração do MPLA.

    Na minha opinião, o que resolve o problema das populações é a de oferta de emprego, soluções para o fornecimento de água, energia e para o problema da mobilidade

    Actualmente, Luanda tem apenas duas vias para quem circula na capital. Uma via circular que liga Benfica/Cabo Longo e vai até Cacuaco, a via expressa, e há outra que liga Mutamba até à 33. Mas as vias secundárias, terciárias não dependem da divisão política administrativa da província de Luanda. Isso depende da existência de projectos estruturantes que visem o desenvolvimento da cidade de Luanda.

    O MPLA refere que esta recomendação pretende dar resposta mais eficaz à população, dadas as dimensões da actual província de Luanda...

    Sim, mas então para isso teriam que dividir todas as províncias, uma vez que os problemas são os mesmos. Parece-me que com esta questão o MPLA quer encontrar formas de acomodar o excesso de membros do grupo e do Comité Central, ou seja repartir os bens com esses membros do partido.

    Depois, numa perspectiva futura, o partido pretende aumentar o número de deputados e distribuí-los pelo MPLA. Se olharmos para os resultados eleitorais, nas últimas eleições, o MPLA em Luanda não teve bons resultados e quase perdeu a divisão administrativa da cidade. Nestes termos, a divisão de Luanda, faria com que o MPLA, provavelmente, naquelas áreas em que tem algum militante, consiga no futuro, para além das autarquias, ter mais dois ou três deputados. Isto à semelhança do que poderá vir a acontecer no Cuando Cubango e no Moxico.

    Na proposta de divisão política administrativa do país, em discussão no Parlamento, prevê-se a divisão das províncias do Moxico e do Cuando Cubango. Aquilo que me está a dizer é que com esta divisão administrativa, o MPLA se quer eternizar no poder?

    O antigo secretário do Grupo Político para a Informação do MPLA, Rui Falcão Pinto Andrade, quando questionado pela Rádio Eclésia sobre a possibilidade do MPLA deixar o poder, respondeu que sim, mas só daqui a 50 anos. Estas declarações permitem-nos concluir que o MPLA fará todas as artimanhas possíveis e imaginárias para se perpetuar no poder.

    Por outro lado, parece-me que estas permanentes tentativas de divisão política administrativa do país visam protelar para as calendas gregas apesar de já ter sido discutido e aprovado na generalidade a lei da institucionalização das autarquias a efectivação das autarquias.

    Este é o argumento da oposição UNITA, CASA-CE e o FNLA- que afirma que esta medida pode ter como objectivo adiar as eleições autárquicas. Acha que é disso que se trata?

    Mesmo que não se faça esta visão política e administrativa, o MPLA não quer realizar as autarquias. Para já, este ano não haverá, porque não foi discutido no Orçamento Geral do Estado. Vamos lá ver se no próximo ano, em Outubro, quando se discutir a proposta do Orçamento Geral do Estado, já consta a proposta de Orçamento para as autarquias.

    Américo Chivukuvuku referiu que"com 164 municípios, o executivo mostra-se incapaz de resolver os problemas e com estas alterações em que o país passará a contar com 20 províncias neste caso serão 21- 325 municípios e 375 comunas. Como é que vai ser feita esta administração?

    Quem com uma província não consegue gerir, com duas será ainda pior. As populações serão as mesmas, elas não vão ser deslocadas. Haverá, simplesmente, uma divisão artificial das fronteiras, dos municípios e da administração. Todavia, os vícios continuarão a ser os mesmissimos, quer na administração do Estado, quer no dia-a-dia dos cidadãos.

    8 min
  • Vhils veste de azulejos estação de metro do Aeroporto parisiense de Orly

    Quando Paris se prepara para acolher os seus Jogos Olímpicos começam a sair de terra as novas estações de metro que vão alterar a fisionomia da capital francesa. Na Estação do Aeroporto de Orly, na linha 14 do metro, uma obra monumental de azulejos do artista Vhils presta homenagem a Paris e às suas gentes. A RFI participou na inauguração da estação e falou com este que é um dos maiores expoentes da arte contemporânea portuguesa.

    Paris acolhe o mundo a partir de 26 de Julho para os Jogos Olímpicos de 2024.

    Praticamente um mês antes do arranque da competição a capital francesa passa a ser ligada por metro, num trajecto de cerca de 20 minutos, até um dos seus aeroportos internacionais: o de Orly.

    A inauguração do prolongamento da linha 14 do metro parisiense, para norte e para sul, no caso até Orly, acontece a 24 de Junho.

    A estação do aeroporto, essa, foi inaugurada nesta quarta-feira, 19. 

    Como nas quase 70 novas estações que compõem a rede Paris Express, que devem alterar a fisionomia dos transportes, aqui também dois artistas deixaram uma obra perene.

    O desenhador francês de banda desenhada Edmond Baudoin e os seus "Jogos de crianças", ilustra, nas paredes da própria plataforma do metro, a forma como os mais novos olham para o mundo da aviação.

    Por seu lado o português Alexandre Farto, celebrizado mundialmente pelo nome artístico de Vhils assinou a obra "Estratos urbanos" [Strates urbaines].

    Trata-se de um mural de azulejos, azuis e brancos, de 34 metros de comprimento e 7 metros de altura representando Paris, os seus monumentos: mas também os rostos plurais dos seus habitantes que se confundem com a própria cidade.

    Do grafitti ilegal no Seixal, arredores da capital portuguesa, até muitas obras dispersas pelo mundo... aquele que era um dos maiores expoentes da chamada "street art", arte da rua lusitana, instalou-se no interior daquela que será uma das principais portas de acesso doravante para Paris: a partir deste aeroporto do sul da região da capital francesa.

    Foi entre os níveis -1 e -2 desta estação de metro do Aeroporto de Orly, junto à obra monumental do artista, que conversámos com Vhils, logo após a respectiva inauguração, abrilhantada pela presença de Luís Montenegro, primeiro-ministro português."

    Vhils admite que esta obra marca, mesmo, uma viragem no seu percurso.

    "Foi uma honra e foi, para mim, que comecei a trabalhar maioritariamente na rua, com 13 anos... Estar aqui a fazer esta obra, para mim é um novo caminho para o trabalho, mas também para toda a equipa.

    Já somos algumas pessoas e temos trabalhado bastante em vários sítios, mas nunca numa estação. E não um trabalho tão pouco efémero como este, porque é um trabalho que há-de ficar e que para nós teve muito significado.

    E acho que sim, é um marco, é um passo na carreira."

    Você fez questão de vincar de onde vinha. Falou das suas raízes alentejanas, para além de ser também um filho dos subúrbios de Lisboa, do Seixal. Porquê?

    "Primeiro porque tenho orgulho do sítio onde nasci, e que me deu muito. E depois também, numa altura em que no mundo há muitas questões a serem levantadas em relação a isso, de demonstrar também que todas estas estruturas que foram criadas depois da Segunda Guerra, maioritariamente a União Europeia...

    E o facto de haver estas interligações entre países, proporcionaram-me a mim e aos meus pais saírem do Alentejo. Hoje em dia vivem em Lisboa.

    E a mim também de chegar aqui e fazer um projecto que envolveu pessoas de França, de Portugal, mas também de outros países europeus e dos países do mundo inteiro. E que isso é importante ressalvar e preservar.

    E ter noção que foi, graças a uma série de investimentos em infra-estructuras, seja nas escolas, seja nos hospitais onde eu nasci e seja dentro desse percurso, que é um esforço colectivo que me permitiu também estar aqui.

     

     

    E acho que eu: vindo do graffiti e ter feito o meu percurso.. Tudo bem, houve muito trabalho e muita dedicação ! E não estou a falar que não há uma iniciativa própria de ter lutado por muita coisa.

    Mas houve uma série de condições que foram criadas pelo meio. E por uma Europa que me permitiu chegar a partir das ruas a trabalhar para conseguir chegar e fazer uma peça aqui.

    Todas as pessoas que fui também envolvendo no processo do atelier, tanto da fábrica de azulejos em Portugal, como a equipa que trabalhou também em França, que também tinha portugueses. E esta estação também tem portugueses a trabalhar !

    E isso demonstra também que quando nos unimos e quando temos esta integração, que existe entre os vários países da Europa, conseguimos ter mais força.

    Porque é na diversidade que também conseguimos, se calhar superar-nos. E foi por aí que também quis vincar esse lado."

     

     

     

    Pintou na ilegalidade, como o dizia, e agora é consagrado. Tem vários projectos simultâneos em Paris e este é aquele que vai ficar.

    Já está ligado a Paris: penso, por exemplo, naquela Torre de Paris 13 que acabou por ser dinamitada. Já esteve em várias galerias, agora também está em "We Are Here". Como é que de repente se criou este quase cordão umbilical tão forte com Paris?

    "Paris sempre foi uma cidade com uma força e um centro gravitacional à volta do mundo da arte muito importante ! E já desde os tempos em que pintava e que tinha muitos colegas e que pintavam em Paris, de Paris e de outros sítios.

    Desde então foi uma relação já de 15 anos. Quase que com frequência sou convidado para projectos, ou que venho pintar com colegas que também são artistas. E essa relação foi ficando e é para mim bastante importante."

    Esta matéria-prima é muito portuguesa, o azulejo. Todavia, tenho a impressão que você tem tido muitas outras matérias-primas que não necessariamente o azulejo.

    Como é que foi pegar neste património, neste DNA português? O que é que você quis, de facto, mostrar aqui com esta obra?

    "Primeiro de tudo, eu queria fazer uma obra que recebesse as pessoas e que de alguma forma humanizasse o espaço e a arquitectura.

    Toda a natureza de trabalhar no espaço público tenta trazer um bocadinho a humanidade e a relação a esta relação que as pessoas têm com a cidade e a arquitectura... Que a mim sempre me pareceu um pouco fria e de betão e cinza.

    E para mim eu queria quase partir a superfície da estação. E com ela deixar libertar o azul cobalto, que foi a cor que também escolhi aqui.

    E quase que revela uma série de monumentos, uma série de imagens, de olhares que muitas vezes vemos em estações. E queria criar uma relação com o "viewer". O azulejo, para mim; foi um caminho natural. Porque é uma coisa muito ligada a Portugal, às minhas raízes. Mas tentei-lhe dar uma outra leitura e ir mais longe.

    Ele não é pintado. São 11 658 azulejos, todos eles cravados, todos eles únicos, que envolvem o trabalho de uma fábrica que fechou a porta quase durante dois anos para produzir em Portugal.

    E que depois houve uma equipa também em França que as recebeu e que as montou e que comigo e com toda a minha equipa..."

     

    A cozedura das peças foi então numa fábrica portuguesa ?

    "Sim, foi em Portugal. E, basicamente, todo o processo que ele implica, cada um é único e é  cravado unicamente. Ele fica como o relevo e tem um género de umas paredes à volta.

    Ele é posto o pó de vidro em cima, o cobalto. E quando vai ao forno derrete. E, conforme está mais cravado de fundo fica mais escuro. Quanto mais está a superfície mais claro fica.

    E é nesse processo: ou seja, tentei trabalhar o azulejo e puxá-lo um bocadinho mais à frente. E fazer uma empresa familiar que trabalhava em azulejos há muito tempo e juntá-la com uma empresa de inovação que trabalha basicamente a gravação.

    E tentei basicamente dar um "push", não só na técnica de azulejo, mas algo também que fosse ligado ao meu trabalho, que é sempre esta ideia de destruir a superfície. E mostrar o que está por trás e revelar e deixar que ela crie a imagem."

    Voltam-se a ver os rostos como no passado. Você já desenhou muitos rostos nos prédios, nas paredes. Não há só a Torre Eiffel, que é tão simbólica de Paris. O que é que você vê mais aqui?

    "Temos vários edifícios: temos o Pompidou, temos uma série de pontos. E depois temos a planta, que vemos numa segunda "layer", que é a planta de Paris. E uma série de padrões também, de que me fui inspirando por várias partes de Paris.

    A ideia era mesmo conseguir criar quase este simbiose entre nós, o ser humano. Os rostos são anónimos, foram imagens que eu fui desenhando por Paris e aqui no aeroporto também.

     

     

     

    Mas quase que os rostos se misturam e eles misturam-se completamente com a cidade. E essa é a intenção, porque no final é aquilo que nós somos.

    No final, nós somos um reflexo do sítio de onde vimos, do sítio de onde vivemos e raramente influenciamos esses sítios. E esses sítios influenciam-nos muito mais !

    E é nesse sentido que também queria fazer aqui uma homenagem a isso.E também uma reflexão sobre a diversidade de Paris e a diversidade da riqueza cultural que existe. Não só do património, mas também das pessoas e das histórias que existem em Paris."

    Trabalhou com arquitectos, necessariamente. Foi necessário integrar a sua peça numa estação de metro: a linha 14, que é prolongada até aqui, ao aeroporto.

    Como é que foi esse trabalho, também ? Com uma grande obra de transportes, que vai mudar Paris e que vai nomeadamente, ser um cartão de visita para os Jogos Olímpicos agora de 2024?!

    "O desafio foi-me feito por um projecto que fala de "Grande Paris" e de abrir Paris também. E da relação com uma estação de transporte: em que entramos. É quase entrar e poder ter o acesso a toda uma outra parte da cidade.

    E esta relação também com o céu e com a entrada e a saída. Daí também a escolha da cor e da técnica, que tem muito a ver com esta relação, que é um novo portal que nos permite, se calhar, aceder a uma parte de Paris que antigamente não estava ligada e que nos abre a porta a outros sítios e nos aproxima também."

    Aqui também há Edmond Baudoin, portanto, um outro artista com "Jogos de crianças". Como é que foi a vossa interacção? Porque, aliás, os tons, ao nível da cor, têm muita semelhança.

    "Eu sou um grande fã do trabalho dele. Todo o trabalho que ele faz de BD [Banda desenhada], já e a influência que ele teve é gigante !

    Foi a convite também do curador do 104 [Centro de arte da região de Paris dirigido por José Manuel Gonçalves] que nos fez este convite. E fizemos. E é interessante: porque cada um de nós seguiu um caminho.

    E, depois, encontrámo-nos e percebemos que tínhamos também sido inspirados e encontrado também um ponto em comum, não só na parte cromática como até conceptual: os trabalhos tocaram-se."

    Você também fez questão de vincar o facto de que tem uma equipa: uma equipa grande. E que não é só portuguesa, que está em vários recintos. O que é que é Vhils em 2024, então: para além do artista que nós conhecemos ?

    "Sou o artista que faz estes projectos, exploro o meu trabalho e estou constantemente em procura. Mas queria ressalvar que também que é um trabalho de equipa.Que muitas vezes é invisível e que é importante ressalvar. E, mais do que isso, é um trabalho também que inclui equipas que são muito diversas e que trabalhamos, não só em Paris, como já fizemos projectos em muitas partes do mundo. E sem o atelier, sem esta diversidade e sem as pessoas. E a sorte que eu tive..."

    Cabo Verde é um deles !

    "Cabo Verde, sim. Tenho dois colegas. Temos também do Brasil, temos em muitos sítios. Mas é nessa riqueza também que a equipa se vai crescendo, amadurecendo e também evoluindo também o trabalho.

    Eu queria ressalvar isso porque acho que é importante, nos tempos em que vivemos hoje, em que muitas coisas estão a se levantar em questão a importância de entender o outro e humanizar o outro.

    E do que é que ganhamos quando conseguimos criar um diálogo e pontes com outros sítios e outras culturas."

    Paris vai ser definitivamente uma cidade diferente das demais, então, para si, a partir de hoje ?

    "Já era. Mas ainda mais é hoje ! E também pela comunidade toda portuguesa que cá existe. Tenha também muitas pessoas conhecidas que emigraram para outras forças, noutras alturas, outras que estão cá por trabalho. Mas é uma cidade sempre muito especial para mim. Acho que para qualquer português."

    E a presença do primeiro ministro português aqui teve algum significado especial para si ?

    "Não estava à espera. Não foi uma coisa planeada. Pode sempre haver mais apoio e mais estratégia, mas sem dúvida que estar aqui foi importante para mim. Mas é sempre bom quando vimos o nosso trabalho reconhecido. E e o trabalho da classe e a cultura ! Um bom reflexo também para o trabalho que fizemos, e que a equipa fez também."

    Finalmente também está, como por exemplo, o "We Are Here", com o Pantónio, também, com Add Fuel [no Petit Palais]. Como é que foi abraçar esse projecto que envolve figuras muito consagradas da arte contemporânea, para não dizer do "street art"?

    "Foi muito bom e foi super bom voltar a rever o Pantónio e o Add Fuel. São colegas de longa data, já pintámos também noutros tempos e são artistas que sempre tiveram um impacto muito grande em mim. E dá-me um gosto enorme ver o trabalho reconhecido ! E ainda para mais na exposição que é, na Mostra que é, com os artistas todos que estão incluídos."

    Para os artistas em geral que gostariam de singrar e de insistir: o que é que você lhes diria?

    "Que nada substitui o trabalho, a intensidade de trabalho e dedicação. Acho que tudo é possível de aprender ! Não acredito que seja uma coisa que nasça connosco.

    E acho que é tudo uma questão de percepção e de trabalho e dedicação. E as coisas, se acreditarmos, conseguimos dar a volta.

    Nem sempre temos tudo a nosso favor, mas também nem sempre temos tudo contra nós. Por isso acho que é uma questão de não desistir e de ter força."

     

    12 min
  • Encontro entre Faye e Macron “vai dissipar” tensões entre Dakar e Paris

    O Presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, reúne-se nesta quinta-feira, 20 de Junho, com o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, durante um almoço no Eliseu. Os acordos comerciais que ligam os dois Estados, o franco CFA ou mesmo a presença militar francesa no país vão marcar a ordem dos trabalhos dos dois homens políticos. O analista político senegalês, Oumar Dialló, considera que esta visita "vai dissipar” as tensões entre Dakar e Paris.

    RFI: O que é que representa este encontro para as futuras relações entre o Senegal e a França?

    Oumar Dialló, professor na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar e analista político: Acho que esta visita evidencia as relações entre a França e o Senegal que são profundas e multifacetadas. Histórica e culturalmente os dois países estão ligados, sem esquecer as relações políticas e económicas. Há ainda a cooperação na área da defesa, da segurança militar e da diáspora. Portanto, penso que este encontro vai ser um momento para esclarecer muitos pontos ligados a esses grandes eixos.

    A imprensa escreve que as dívidas acumuladas por vários actores senegaleses com as empresas francesas poderão ser abordadas durante este encontro. O que é que se pode esperar relativamente ao perdão da dívida senegalesa com a França?

    O perdão da dívida não será uma questão muito importante, isto porque o actual Governo senegalês está muito apegado à questão de soberania e, portanto, essa soberania também o vai engajar a ser mais responsável com o pagamento dessas dívidas. Talvez, o [Presidente do Senegal] vá tentar renegociar as relações comerciais, o investimento e ajuda ao desenvolvimento.

    Não podemos esquecer que a França fornece uma assistência significativa ao desenvolvimento do Senegal, através da Agência Francesa de Desenvolvimento. Esta ajuda faz-se sentir ao nível dos projectos na área da saúde, educação, água e saneamento. Portanto, serão debatidas questões mais práticas e a questão da dívida não será muito importante. Penso que neste encontro [os dois estadistas] vão falar sobre o caminho a seguir nas futuras relações comerciais entre o Senegal e a França.

    Outra questão tem a ver com a possibilidade da saída do franco CFA. Bassirou Diomaye Faye tinha previsto medidas para a adopção de uma moeda nacional…

    Essa questão vai ser interessante porque há muitos países que estão contra esta moeda. Todavia, o Governo senegalês não está contra o franco CFA e, talvez, vá tentar renegociar os mecanismos do franco CFA, nomeadamente aquela história da paridade fixa. A meu ver, o único problema com o franco CFA são as reservas da moeda. Ou seja, os países membros devem depositar uma parte significativa das reservas cambiais em contas operacionais do tesouro francês e, na minha opinião, é este ponto que deve ser renegociado. Não acredito que a saída do franco CFA seja um objectivo do Governo senegalês. É preciso não esquecer que a paridade fixa, proporcionada pelo franco CFA, é uma vantagem enorme para todos os países da África do Oeste.

    Há ainda a presença das tropas francesas no Senegal. As novas autoridades já deram a entender que estão contra a presença destas tropas. Isto numa altura em que vários países, nomeadamente o Mali, Burkina Faso e o Níger, pediram a retirada das tropas francesas dos seus territórios. Acha que será essa a posição do Senegal?

    Não se esqueça que as tropas francesas estão no Senegal num contexto de cooperação militar e há textos que validam esta cooperação. Portanto, a França mantém uma presença militar no Senegal, mas esta presença é justificada por questões de segurança. Para ser honesto, em termos de segurança, nós somos países muito frágeis. Portanto, não é por causa de uma mudança política que todas estas operações militares, sobretudo com a França, que são muito importantes para a nossa zona muito afectada pelo terrorismo, vão ser postas em causa.

    Os jovens africanos estão muito revoltados contra a presença militar francesa nos seus países, mas é preciso não esquecer a “política real” e a questão da segurança. No combate ao terrorismo no Sahel, e Senegal faz parte dessa zona, a presença militar francesa é uma presença necessária. Todavia, penso que essa presença pode ser negociada, de forma a não impactar muito a soberania senegalesa em termos militares. Ainda assim, penso que o apoio à colaboração militar entre Estados - França e o Senegal - é uma necessidade para combater o terrorismo que afecta, actualmente, toda esta região.

    O primeiro-ministro senegalês, Ousman Sonko, condenou, recentemente, o silêncio da União Europeia e da França durante a repressão política no Senegal. Considera que esta visita de Bassirou Diomaye Faye pode dissipar as tensões entre Dakar e Paris?

    O Presidente Bassirou Diomaye Faye é um jovem muito inteligente e acredito que há um momento da política “politiqueira” e há um momento da realidade.

    Neste momento, o Presidente do Senegal e o primeiro-ministro, Ousman Sonko, estão a gerir um país que atravessa dificuldades económicas, com a inflação a registar níveis elevados, e são estas questões que serão analisadas.

    Acredito que este encontro vai dissipar as incompreensões que houve durante as eleições. Agora é preciso passar da vida política da oposição para uma política responsável com a França. Uma postura que será benéfica para os senegaleses, para a estabilidade económica, mas sobretudo para a estabilidade das empresas francesas, que continuam a empregar muitos jovens senegaleses.

    7 min

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