
Sign up to save your podcasts
Or


A pouco mais de 100 dias das eleições presidenciais nos Estados Unidos, o Presidente Joe Biden abandonou a corrida eleitoral e declarou apoio à vice-presidente, Kamala Harris, para ser a candidata do Partido Democrata. Quem se segue? A investigadora Diana Soller diz que “o único nome com força para derrotar Donald Trump é o de Michelle Obama” e sublinha que a renúncia de Biden “era inevitável” e “peca por tardia”.
Este domingo, Joe Biden, o mais velho Presidente da história dos Estados Unidos, com 81 anos, anunciou desistir da sua recandidatura e declarou o apoio à sua vice-presidente, Kamala Harris, para ser a candidata presidencial do Partido Democrata.
Diana Soller, Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais e coautora do livro “Donald Trump: O Método no Caos”, considera que “o único nome com força para derrotar Donald Trump é o de Michelle Obama”, ainda que sublinhe que “até agora” pareça haver uma preferência por Kamala Harris no Partido Democrata. A investigadora diz que a renúncia de Joe Biden não é uma surpresa porque “era inevitável” e “peca por tardia”. Por isso, o partido tem de se recompor em tempo recorde para poder pesar face ao candidato republicano Donald Trump.
RFI: A renúncia de Joe Biden era uma decisão inevitável ou acabou por ser surpreendente?
Diana Soller, Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais: “Era uma decisão inevitável. Aliás, é uma decisão que, do meu ponto de vista, peca por tardia. Ou seja, desde o dia 27 de Junho, quando ocorreu o debate entre Joe Biden e Donald Trump, percebeu-se de forma inexpugnável que era preciso um novo candidato democrata, que Joe Biden não tinha capacidade nem para fazer campanha, nem para fazer um novo mandato. E até houve quem perguntasse quem estaria a governar a América nos últimos tempos porque aquilo não aconteceu de um momento para o outro, como é evidente. Portanto, era preciso que Joe Biden renunciasse à sua recandidatura.
Não, não tem nada de surpreendente. Houve uma série de pressões, quer relativamente aos senadores, congressistas e governadores que também estão na corrida de 5 de Novembro para que Biden não os representasse porque sentiram que podiam ser prejudicados pela candidatura de Biden. Houve muitas pressões da parte da cúpula do Partido Democrata, nomeadamente os Obama, Nancy Pelosi e outros líderes do Partido Democrata que acharam que Joe Biden não tinha condições para ganhar as eleições. E, finalmente, houve uma grande pressão por parte de um conjunto significativo de doadores que ameaçaram retirar os donativos caso Joe Biden se mantivesse na corrida.”
Não é uma surpresa, mas não deixa de ser um sismo político…
“Eu acho que a desistência em si não é um sismo político. O sismo político aconteceu precisamente no dia 27 [de Junho]. Agora, evidentemente, que há todo um aparato do Partido Democrata que vai ter que se recompor e que se restabelecer rapidamente. Aparentemente, pelo menos até agora, parece haver uma preferência grande pelo lugar de Joe Biden ser ocupado por Kamala Harris, mas ainda nem disso há a certeza. Há o ‘endorsement’, mas ainda não há certeza.”
A Convenção Democrata é em Agosto. Até lá vai-se saber quem é o candidato? Apesar de Joe Biden ter apontado Kamala Harris, quem é que se segue?
“Nós não sabemos exactamente quem é que se segue. Aquilo que muitos democratas gostariam que acontecesse é Michelle Obama que, apesar de não ter experiência política, parece que faz nas sondagens o melhor resultado possível para os democratas. Há de haver uma parte do partido - que é a parte do partido que Kamala Harris representa, que é a parte mais radical - que vai querer a manutenção de Kamala Harris e há uma parte do partido que gostaria que o seu representante fosse alguém com mais experiência política que Michelle Obama e com uma posição menos radical perante a política que Kamala Harris. Aí aparecem nomes como o do governador da Califórnia, da governadora da Pensilvânia, que são nomes que são mais consensuais nesse aspecto. O problema desses nomes é que são nomes absolutamente desconhecidos para a maioria do público americano.”
Quem é que teria força face a Donald Trump a pouco mais de três meses das eleições presidenciais?
“O único nome com força é o de Michelle Obama. Mesmo Kamala Harris, que faz relativamente bem nas sondagens, não parece ter força para derrotar Donald Trump. Michelle Obama também não seria evidente que ganharia a Donald Trump, mas parece ser a única candidata ou a única possível candidata que tem essa capacidade, o que é muito má notícia para o Partido Democrata porque quando a única candidata que pode ser eficaz na corrida contra Donald Trump é alguém que tem zero experiência política no seu currículo, a não ser o facto de ter sido casada com o presidente dos Estados Unidos, isso não é uma boa notícia. Não é.
É um sinal de que não houve efectivamente uma renovação no Partido Democrata, como aliás, o Partido Republicano está a tentar fazer agora com J.D. Vance. O que houve foi um ‘ticket’ Biden-Kamala Harris que pretendia, no fundo, fazer o pleno do Partido Democrata, ou seja, agradar a todas as sensibilidades. Esses ‘tickets’ são eficazes, acontecem com alguma frequência em ambos os partidos, mas o problema é se o Presidente falha, ou seja, acaba por se entregar o país a uma sensibilidade política minoritária e que pode não ser positiva e não o é, do meu ponto de vista, para o futuro do Partido Democrata e dos Estados Unidos da América. O que acaba por acontecer é que o Partido Democrata cai na sua própria armadilha de querer agradar a todos, querer não criar fissuras dentro de um partido que por si só já está muito dividido e acaba por criar uma fissura muito maior e muito mais difícil de resolver. Mas isto são as circunstâncias políticas, não é? Não há boas decisões.”
Diz que Michelle Obama é a única que teria força face a Donald Trump…
“É o que dizem as sondagens.”
Mas Joe Biden apontou Kamala Harris, ou seja, ela conta com essa força. Quando é que vamos saber quem será, de facto, a/o candidata/o democrata?
“Uma coisa de cada vez. Em primeiro lugar, Joe Biden fez o ‘endorsement’ [apoio] da Kamala Harris porque não tinha outra hipótese. Não se pode escolher alguém para vice-presidente - e supostamente escolhe-se para vice-presidente quem nós achamos que é mais competente para o lugar - e depois não fazer um ‘endorsement’ dessa figura no momento de retirada. Portanto, Joe Biden não tinha propriamente nenhuma opção. Agora, o ‘endorsement’ de Joe Biden neste momento só vale do ponto de vista eleitoral. Joe Biden vai desaparecer do Partido Democrata e, na realidade, nós continuamos sem saber o que é que vai verdadeiramente acontecer.
Segundo as regras da democracia americana, nós só vamos ter um líder ou uma líder consagrado na Convenção Democrata. O que é que acontece? Há primárias e são primárias do ‘winner takes it all’ ou praticamente todas são primárias do ‘winner takes it all’ e Joe Biden ganhou todas as primárias. Portanto, tem cerca de 95%, 96% dos delegados que votaram nele e, por maioria de razão, esses delegados deveriam votar em Kamala Harris que é a pessoa escolhida por Biden.
No entanto, as circunstâncias são tão excepcionais que pode haver alguém - e vamos saber isso nos próximos dias - que desafie Kamala Harris, o que não é o mesmo que desafiar Joe Biden, porque, na verdade, as pessoas não votaram nas primárias em Kamala Harris, votaram em Joe Biden. Se houver esse desafio, vai haver uma mini contenda política entre Kamala Harris e quem quer que a desafie que vai resolver-se em Agosto na Convenção Democrata, segundo as regras da democracia americana.
Agora, até isso acontecer, há duas hipóteses: ou não há desafio de todo e Kamala Harris começa a fazer campanha como a candidata democrata não entronizada ainda porque vai precisar dessa convenção de Agosto. Ou vai começar uma contenda política nos próximos dias se houver um desafio a Kamala Harris e, aí, até Agosto vamos ter uma mini campanha eleitoral entre democratas para escolher qual é o candidato que vai representar o Partido Democrata nas eleições de Novembro.”
Falou em Kamala Harris e falou em Michelle Obama. Ambas são mulheres. Mulheres não brancas. Que é que estas mulheres têm que pese contra Donald Trump, se é que pode realmente pesar contra ele?
“Isso é que é a questão. É difícil e não tem a ver com o facto de serem mulheres, tem a ver com o facto de serem candidatas que chegam muito tarde à corrida.”
O que quer dizer? Que a eleição já está fechada?
“Não. A eleição nunca está fechada até ao dia em que os votos são contados ou que os votos são postos nas urnas. Agora, para sermos completamente realistas, uma candidata ou um candidato que chega quatro meses antes das eleições, quando a campanha eleitoral já decorre há bastante tempo, tem menos condições de ganhar as eleições que um candidato que concorre desde o princípio.
Quais são as forças de cada uma delas? Michelle Obama é muito popular entre o eleitorado democrata. Kamala Harris não cometeu nenhum erro excepcional enquanto vice-presidente, apesar de ter sido uma vice-presidente com muito pouca presença na política norte americana. Quer dizer, nenhuma delas tem uma força extraordinária que possa derrotar Donald Trump. Não tem nada no sentido de podermos apontar uma característica que pode pôr Trump em maus lençóis. Até porque o eleitorado nos dias de hoje está muito dividido e não tende a mudar de partido, tende é a não votar num candidato se não gosta dele.
Ou seja, os democratas tendem em não ir votar num outro candidato que não seja aquele que eles escolheram. Poderiam tender em não votar em Joe Biden porque ele estava com a saúde muito frágil, não quer isso dizer que passa o voto para Donald Trump e vice-versa.
Aquilo que seja quem for tem que fazer é convencer o eleitorado a levantar-se do sofá no dia 5 de Novembro a ir votar. Se Kamala Harris ou Michelle Obama têm essa capacidade, é muito cedo para saber. Agora, evidentemente que partem em desvantagem relativamente a alguém que está a pedir ao seu eleitorado que se levante da cadeira há um ano e tal, não é? Isso é inevitável, são as ironias da história.”
"Liberte-se, Sr. Presidente" é o mais recente livro de Luzia Moniz. A obra, que é uma saudação ao centenário de Amílcar Cabral e aos 50 anos da revolução de 25 de Abril, reúne 50 textos centrados na questão da liberdade.
No prefácio, Graça Machel identifica Liberte-se Sr. Presidente como "um apelo urgente e necessário dirigido aos líderes africanos, naturalmente, mas também, aos europeus, ocidentais ou ocidentalizados" para que se libertem e liderem as suas nações "rumo a uma liberdade genuína e sustentável para todos."
Em "Liberte-se, Sr. Presidente", um título que vem de um texto que a autora dirigiu ao Presidente de Angola, João Lourenço, onde manifestava "tristeza pelo rumo que o país está a seguir.", é de forma clara e acutilante que a socióloga, jornalista e activista angolana Luzia Moniz observa e critica a classe dirigente do país natal e o que identifica como "regime autocrático" de Luanda. Mas ao longo da obra facilmente se percebe que a luta que a autora trava em nome da liberdade, em nome dos mais desfavorecidos, não conhece qualquer tipo de fronteiras.
O livro lançado em Portugal pela Nimba Edições, com capa assinada pela artista Dília Fraguito Samarth, divide-se em sete capítulos: África, Pan-africanismo e diáspora; Racismo e paternalismo; Género e Liberdade, Cultura e Educação; Endo-colonialismo e intolerância política; Liberdade de imprensa; Resistência à mudança.
“Promesse” de Anne Rehbinder e Antoine Colnot com coreografia de Tânia Carvalho é uma peça que debate a questão do género. O espectáculo pode ser visto até ao próximo domingo, 21 de Julho, no Théâtre 11, em Avignon, no âmbito do festival OFF de Avignon.
Em palco, cinco bailarinas, uma escritora e um encenador debatem a criação de um espectáculo sobre o género. Uma temática difícil onde cada uma delas se bate contra os limites da identidade, da imposição de papéis, das heranças geracionais.
Um espectáculo onde teatro e dança se fundem, como sublinhou ao microfone da RFI o encenador Antoine Colnot:
Tínhamos feito um espectáculo com cinco homens. E havia esse assunto do género. Então aceitamos esse tema. Mas é difícil, como um problema que não tem solução. Jogamos com esse tema impossível e fazemos um espectáculo impossível de se fazer. Há muito humor e emoção. A dança da Tânia Carvalho entra em relação com o nosso trabalho.
Em palco estão cinco bailarinas e uma escritora, cuja autoridade é questionada pelas intérpretes da peça. “Quando se fala em género, fala-se muito, muitas vezes em poder, nos jogos de poder e também na herança com a qual crescemos: a posição da mulher, a posição do homem. É muito difícil esta desconstrução” acrescenta Antoine Colnot.
Tânia Carvalho é coreógrafa convidada deste espectáculo, à RFI explicou a sua contribuição para este “Promesse”:
Foi o Antoine Colnot que me contactou. Eu não os conhecia. Fizemos, primeiro, uma conversa por internet e eles explicaram o que queriam fazer e mostraram trabalhos deles.
Eles já tinham a ideia toda definida. Eu fiz o trabalho de encontrar aquilo que eles queriam. Também ia propondo mais movimento. Estive muito com eles nos ensaios. Pensei mais na parte coreográfica, a nível de forma. Como é que a forma pode complementar isto?
Mas eu não estava a pensar ter que fazer movimentos que retratam o género, estava mais a ver o que é que eles estavam a fazer, que movimentos é que faziam naturalmente já a falar e tentar trazer qualquer coisa para dar mais força às palavras, fossem elas quais fossem.
A peça “Promesse” de Anne Rehbinder e Antoine Colnot com coreografia de Tânia Carvalho, pode ser vista até ao próximo domingo, 21 de Julho, no Théâtre 11, em Avignon, no âmbito do festival OFF de Avignon.
O movimento cívico Mudei apresentou nesta quarta-feira, 17 de Julho, o relatório trimestral sobre violações de direitos humanos nas províncias de Luanda, Bié e Lunda Norte. No documento são relatadas execuções sumárias, torturas, intimidações e detenções arbitrárias ocorridas entre Abril, Maio e Junho, alegadamente executadas por agentes do Serviço de Investigação Criminal. Jaime Domingos, jurista do MUDEI, fala num agravamento das violações dos direitos humanos e na banalização do bem jurídico “vida”.
Quais são as conclusões deste relatório?
Neste novo relatório, além das intimidações e prisões arbitrárias, presenciamos execuções sumárias e extra-judiciais. Três cidadãos, do município do Cazenga, foram alvejados à queima roupa por um suposto agente do SIC. Seis residentes no município de Quilamba Quiaxi, bairro do Palanca, foram raptados, agredidos de forma severa, que culminou na morte de um deles. Tivemos a outra situação de rapto no município de Cacuaco, bairro Vidrul, adolescentes foram raptados na madrugada e três dias depois os familiares aperceberam-se que os mesmos tinham sido abatidos. Foram raptados, executados sumariamente na via pública, abandonados e três dias depois foram encontrados na morgue do Hospital Maria Pia.
Descrevem execuções sumárias, mortes por tortura, intimidações, detenções arbitrárias, pessoas que são convocadas para comparecer junto das autoridades sem acusação formada. Quem são as principais vítimas dessas violações de direitos humanos?
As principais vítimas de prisão arbitrária, na província do Bié, são activista cívicos que denunciam o estado crítico que se vive no nosso país. Os casos de raptos e execuções sumárias são cidadãos normais que não fazem parte de nenhum grupo de pressão ou de interesse. São simplesmente cidadãos que foram vítimas de raptos e agressões extrajudiciais.
No relatório descrevem que, no passado mês de Junho, pelo menos 10 jovens adolescentes, residentes do bairro do Vidrul, município do Cacuaco, foram raptados por supostos agentes do Serviço de Investigação Criminal. Os jovens que foram encontrados depois numa morgue registados como sinistrados e pertencentes a outro município. Como se explica esta situação?
Testemunhas contam que [os jovens] foram raptados e os familiares não sabiam para onde eles tinham sido levados. Então estamos a falar de rapto, não de uma detenção normal. E por não ter havido aviso prévio, nenhuma notificação aparente, a execução sumária ocorreu no município de Viana, um município distante do município do Cacuaco onde foram raptados.
Eles foram abandonados no local e foram registados como sinistrado pelos agentes da Polícia Nacional, pertencente ao Comando Municipal de Viana, que fizeram a recolha dos corpos. Todavia, a teoria de sinistrados não faz sentido porque os jovens apresentavam hematomas de agressões físicas e perfurações de balas de fogo.
Não se admite que os agentes da polícia falem em sinistros com os instrumentos e mecanismos existentes no nosso país- como a balística, por exemplo. Os casos de pessoas sinistradas têm as suas características e não apresentam perfuração por balas. Esta é a uma forma que [a polícia] encontrou para fugir à responsabilidade. Tiveram de ser ainda os familiares a arcar com todos os gastos pelo tempo que [os jovens] ficaram na morgue do hospital de Luanda.
De acordo com o relatório, há ainda o caso dos três membros da mesma família que foram mortos por um agente do Serviço de Investigação Criminal que se encontrava numa festa e que estava embriagado. Este homem já foi identificado?
O homem está completamente identificado e é um suposto agente do SIC. É importante referirmos também que é vizinho dos cidadãos que foram [mortalmente] alvejados. É um agente com cadastro, com crimes de execuções sumárias, no município do Cazenga. Então não é um hábito novo.
Este homem está a ser investigado?
Não, ele está a ser acobertado pelos investigadores. O agente da polícia criminal que está a conduzir a investigação é um companheiro da corporação. Ou seja, aqui é a polícia a investigar um polícia que agiu em contramão com a lei. Entendemos, enquanto movimento cívico, que isto fere claramente com os preceitos legais vigentes no nosso país e com outros ordenamentos jurídicos supra-estaduais que o Estado angolano é signatário. Não há nenhuma corporação ou outra instituição mais importante que a vida humana. O Serviço de Investigação Criminal não é mais importante do que a vida de uma pessoa.
No relatório citam a Constituição angolana, sublinhando que todos os cidadãos têm direito à liberdade, à integridade física e moral, à segurança e à proteção contra os abusos por parte das autoridades. Dizem ainda que em Angola vigora a banalização do bem jurídico “vida”. Esta é a realidade que se vive no país?
É esta a realidade que se vive no nosso país. Nós chegamos a esta afirmação com os dados colectados neste relatório. A vida é um bem inalienável e um bem insubstituível. Apesar de estar inscrito na Constituição da República, que é entendido por nós como direito positivo e também um direito natural, não é um Presidente, um comandante, ou um agente da polícia que nos dá o direito à vida. É um direito natural. É o dever do Estado reconhecer este direito natural e dar protecção jurídica. O artigo 30 da Constituição da República de Angola diz que protege a vida e a dignidade da pessoa humana e não é o que se vê. Até ao momento, não ouvimos nenhum pronunciamento do titular do poder executivo a condenar as detenções e as execuções sumárias em Angola.
Quais são as vossas recomendações com a publicação deste relatório?
Esperamos que se faça justiça e que os órgãos de direito- o Ministério Público- despoletem uma diligência, porque [este relatório] pode servir como denúncia pública. O Ministério Público, através de uma denúncia pública, pode intentar uma ação, um inquérito de investigação para constituir o corpo delito, directo como indireto, para aferir a veracidade dos factos alegados neste relatório. O movimento cívico Mudei vai, nos próximos tempos, formalizar uma acusação pública contra a banalização da vida humana que está a ser feita pelo Estado angolano. Vamos remeter às instituições internas e iremos também accionar os mecanismos regionais e internacionais. Este relatório será entregue ao Comité Africano de Direitos Humanos para responsabilizar criminalmente o Estado angolano e também vamos contactar as Nações Unidas com o mesmo propósito. O objectivo é que os prevaricadores sejam responsabilizados pelos crimes que tenham cometido.
O que é que esperam do Estado angolano com a publicação deste relatório?
Era suposto que o tempo da impunidade tivesse acabado com a vigência do novo Presidente [João Lourenço]. Infelizmente, o atual Presidente da República continua com os mesmos excessos. Ele é o comandante em chefe e quando um agente da Polícia nacional se comporta mal e o comandante chefe nada diz nada… Esta omissão significa que concorda com as acções dos seus subordinados.
Face a essa postura, apelamos a um pronunciamento urgente do comandante em chefe para repudiar os actos de execuções sumárias no nosso país. Esperamos igualmente um posicionamento do titular do poder executivo sobre a violação de direitos humanos em Angola e um pronunciamento do Presidente da República, João Lourenço, uma vez que ele governa para todos. Não se pode acreditar que um país que se diz democrático, que elege um Governo-os cidadãos sejam pisoteados, mortos e não haja nenhum pronunciamento por parte daquele que diz ser eleito pelo povo.
O relatório sobre violações dos direitos humanos foi assinado pelas associações Mizangala Tu Yenu e Handela, em representação do Movimento Cívico Mudei.
O Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, anunciou por decreto presidencial a marcação de eleições legislativas antecipadas para 24 de Novembro, apesar da falta de consenso com as diferentes forças políticas que defendem, nomeadamente, a realização de eleições presidenciais. Em entrevista à RFI, o activista e jurista guineense Fodé Mané, considera que se não forem realizadas eleições presidenciais ainda este ano o país estará face a um golpe de Estado palaciano.
O chefe de Estado guineense ouviu nesta terça-feira os partidos com assento parlamentar e, apesar da falta de consenso entre as forças políticas, Umaro Sissoco Embaló anunciou por decreto presidencial a marcação de eleições legislativas antecipadas para 24 de Novembro. Considera ter sido a decisão correcta?
Eu não entendo que o chefe de Estado tenha ouvido os partidos porque, desde dia nove deste mês, Umaro Sissoco Embaló já tinha anunciado que pretendia marcar eleições legislativas, em vez das eleições presidenciais, para o dia 24 de Novembro. Um dos representantes dos partidos [que esteve reunido com o Presidente] referiu que, inicialmente, a reunião devia ter durado cinco minutos, mas o encontro nem chegou a três minutos. Disse que era um facto consumado que ia marcar eleições legislativas no dia 24 Novembro.
O nosso sistema prevê diálogos de conversa entre diferentes entidades. Por isso, estabelece órgãos de encontros, como o conselho de Estado, as comissões permanentes, dando essa possibilidade de ouvir e procurar consenso.
O que é que diz a lei guineense nesta matéria? O Presidente da República tem ou não poder para marcar eleições legislativas?
Tem poderes em termos formais. Agora, é preciso perceber em que condições são marcadas. As eleições legislativas envolvem os partidos políticos e depois o nosso legislador pensou em eleições antecipadas e eleições de fim do mandato dos deputados. Quando são antecipadas, registam-se certos requisitos para a dissolução do Parlamento ou para a demissão do Governo, o que não se verificou. Significa que, já à partida, a lei foi violada. Depois, quando são eleições antecipadas, devem ocorrer dentro de 90 dias e o Parlamento foi dissolvido no dia 4 de Dezembro de 2023. Vai-se fazer eleição, quase um ano depois, estamos novamente perante uma nova violação.
A coligação PAI- Terra Ranka, alguns membros do MADEM G15- e a APU PDGB pedem antes a marcação de eleições presidenciais este ano. O PRS e o PTG apoiam a decisão do chefe de Estado de marcar eleições legislativas. A coligação PAI-Terra Ranka defende que antes da marcação das presidências a prioridade deve ser a abertura da Assembleia Nacional para que possa ser eleita uma nova Comissão Nacional de Eleições e exigem ainda eleições no Supremo Tribunal. São estes os passos a adoptar?
É o que a lei prevê. Está prevista na nossa Constituição e na Lei eleitoral que a eleição presidencial deve ser realizada 90 dias antes do fim do mandato do presidente em exercício. Se considerarmos que Umaro Sissoco Embaló assumiu o poder no dia 27 de Fevereiro de 2020, isto significa que a 27 de Fevereiro de 2025 o seu mandato acabou e que no dia 28 já não é Presidente, a não ser que seja reeleito. Mas se se marcar a eleição depois de 27 de Novembro, já é fora da data, por isso é que a data prevista, vendo o calendário para a marcação, era precisamente 24 de Novembro de 2024. Se essas datas não forem respeitadas, estamos perante um golpe de Estado palaciano.
Como se explica esta relutância do Chefe de Estado em marcar as eleições presidenciais?
Basta vermos que, neste momento, a única instituição a funcionar no país chama-se Umaro Sissoco Embaló. A Assembleia Nacional não funciona, mesmo se em caso da dissolução, a Comissão Permanente e o serviço administrativo deviam estar a trabalhar. Neste momento está apenas a Guarda Nacional a impedir a entrada das pessoas.
Recentemente, o Supremo Tribunal deu um sinal muito importante de que está sob o controle de Sissoco Embaló. Na sexta passada, um juiz mandou libertar duas pessoas que tinham sido detidas há mais de seis meses sob caução e esse juiz foi demitido pelo vice-presidente que tomou de assalto o Supremo Tribunal. Não podemos falar de Estado de Direito. Umaro Sissoco Embaló pretende aprofundar este poder concentrado e marcar eleição neste ambiente de crispação. Os partidos não estarão em condições para defender a legalidade.
Qual é a margem dos partidos, face à decisão do Presidente Umaro Sissoco Embaló?
Os partidos não têm muita margem. Alguns partidos [ MADEMG-15 e APUPDGB] contribuíram para a redução desta margem, porque apoiaram soluções não democráticas, como o empossamento de Umaro Sissoco Embalóeaté a dissolução do Parlamento. Esses partidos também não têm muita vontade de se juntar às antigas reivindicações do PAI Terra Ranka, que apoiam o regresso à legalidade. Apesar da pouca margem, os partidos têm o amparo da sociedade civil. Surgiu recentemente uma frente popular, uma organização de cidadãos, que começou a questionar a desgovernação da Guiné-Bissau.
É pública a dependência que a Guiné-Bissau tem da comunidade internacional para realizar as eleições. Qual é a credibilidade do país para pedir novamente apoio financeiro à comunidade internacional?
Devemos dividir esta comunidade internacional. Se a Guiné-Bissau, nesta condição, decidir fazer eleição, Portugal e França vão financiar. A CEDEAO, nós sabemos que não é uma organização de povos, é uma organização de dirigentes. Então, um dirigente que pretende legitimar a sua posição, a CEDEAO vai apoiar. Não haverá questionamento da parte comunidade internacional e isso não será surpresa. Não se trata apenas da questão da realização da eleição, devia-se questionar a actuação das autoridades, os raptos, os espancamentos, as prisões. Se a comunidade internacional não questionar isso, então não vai questionar a eleição.
Qual é a melhor solução para que a Guiné regresse à legalidade?
Antes de apoiar o país, a comunidade internacional devia perguntar às autoridades porque é que querem realizar as eleições? Se vão respeitar o resultado? Se as eleições serão justas e transparentes? Quando houver respostas, a comunidade internacional ficará como guardião da transparência, deve-se encontrar um pacto, então vamos para as eleições gerais, presidenciais e legislativas para retomar a normalidade constitucional.
Eleições ainda este ano?
Se não for este ano estamos perante a violação da lei eleitoral.
E a comunidade internacional também deve ter esse papel?
Se considerarmos que a democracia é um valor universal, os direitos humanos são universais e que a violência não é boa, então a comunidade internacional tem legitimidade para exigir, impor, algumas regras de conduta aos actores políticos. Mas como a uma comunidade internacional, não digo todas as organizações, está muito interessada em que haja esta visível circulação de droga, de dinheiro em grande quantidade para lavagem, não temos esperança de que a comunidade internacional vai bater as mãos na mesa.
Está a referir-se à Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental- CEDEAO, à União Africana?
Não, a CEDEAO já é moribunda. A União Africana sim, porque por vezes dá sinais, mas tem um princípio que não intervém numa zona onde já está uma organização sub-regional.
A União Europeia tem fechado os olhos face aquilo que se passa na Guiné-Bissau?
Eu acho. Esta última representante que esteve cá foi uma das pessoas a defender a tese de que houve uma tentativa de golpe de Estado. Nós vimos a cumplicidade que tem com um Governo ilegal, mas todos os dias há anúncios de que a União Europeia vai financiar as acções Governo. As Nações Unidas financiam conferências, viagens e depois não há nenhum controle. Continuamos a acreditar na União Europeia, mas exigimos que seja mais ativos.
Começa a 16 de Julho a nova legislatura europeia, com um hemiciclo em que o grupo centrista Partido Popular Europeu mantém a liderança, seguido pelos Socialistas. A novidade desta nova assembleia é a expansão da extrema-direita, dividida em três grupos que juntos controlam 20% do Parlamento europeu. A campanha eleitoral ficou marcada pela ausência das questões ambientais e pelos debates hostis à imigração.
O hemiciclo europeu acolheu a 16 de Julho a primeira sessão plenária e os 720 eurodeputados da nova legislatura, em Estrasburgo.
O grupo de centro-direita Partido Popular Europeu (188 assentos) continuará, nos próximos cinco anos, a controlar a maior bancada do Parlamento Europeu. Os Socialistas e Democratas (136) representam a segunda maior força política, apesar de uma ligeira diminuição de mandatos.
A novidade desta nova assembleia prende-se com a expansão da extrema-direita, agora dividida em três grupos (mais um do que na anterior legislatura) que, juntos, somam 187 assentos.
Nesta ala da direita radical aparecem dois grupos novos: os Patriotas pela Europa (com 84 eurodeputados), composta pelos húngaros do Fidesz, os italianos da Liga, a União Nacional francesa e o Chega português; e o Europa das Nações Soberanas (25) composto essencialmente pela AfD alemã.
O grupo já existente dos Conservadores e Reformistas Europeus da família política da Primeira-ministra italiana Giorgia Meloni também conquista novos assentos (78).
Entretanto, o grupo dos Verdes encolhe, com apenas 53 eurodeputados, menos 18 do que na anterior legislatura e a Esquerda, apesar de alcançar uns lugares suplementares, conta apenas com 46 assentos.
Ausência das questões ambientais na campanha eleitoralNeste contexto, as questões migratórias e ambientais são as duas vítimas colaterais, com um expectável reforço de políticas restritivas em termos de migrações e a ausência quase total das questões ambientais no debate político comunitário.
Para Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, as políticas ecologistas poderão encontrar dificuldades com a viragem à direita do Parlamento europeu.
A isto se deve não só "a queda dos Verdes à escala europeia", como também a estratégia dos centristas do PPE "que não vão querer perder votos no centro direita" e poderão, por conseguinte, "vir a fazer cedências consideráveis na política ambiental nos próximos anos", de acordo com o activista.
O Pacto Ecológico Europeu, que marcou a última legislatura, impulsionado inicialmente pela grande coligação entre Socialistas e PPE acabou por sofrer "obstáculos" em diferentes áreas, desde a lei do restauro da conservação à lesgislação relativa aos automóveis, o que deixa antever "uma legislatura ainda mais difícil", analisa Francisco Ferreira.
A ciência, as associações, as organizações ambientalistas e os partidos políticos mais conscientes da necessidade de políticas sustentáveis poderão ter um papel importante. Para o ambientalista, trata-se de "procurar o diálogo, procurar pontes e soluções", "mesmo com a extrema-direita", mesmo que não sejam medidas "tão desejáveis" como poderiam ser numa outra constituição parlamentar.
"Não podemos arriscar um recuo das políticas devidamente estruturadas e fundamentadas das últimas décadas em termos de sustentabilidade das últimas décadas. É crucial percebermos que estão em causa questões fundamentais de preservação do planeta", conclui Francisco Ferreira.
"No caso das migrações, o status quo é difícil de mudar"A taxa de participação nestas eleições europeias foi de 51% (dos cerca de 360 milhões de europeus aptos a votar), cerca de um ponto percentual a mais do que em 2019. Estes baixos índices podem ser relacionados, em parte, com o sentimento por parte dos eleitores europeus de que o processo de tomada de decisões na UE é complexo, distante e desconectado da realidade diária.
A composição fragmentada do novo Parlamento, incluindo as divisões entre os próprios grupos de extrema-direita, pode reforçar este sentimento.
Segundo o investigador Pedro Góis, especialista das questões migratórias, "no que toca às políticas migratórias, apesar da subida da extrema-direita, não haverá consenso suficiente para alterar as políticas vigentes".
No caso do Pacto sobre Imigração e Asilo, aprovado em Abril, foram notórias as divisões no próprio campo das direitas. Giorgia Meloni, na Itália (país de entrada para os imigrantes vindos de Africa), elogiou o texto, porque previa uma "solidariedade obrigatória" entre Estados-Membros no acolhimento dos migrantes.
Este mesmo pacto foi criticado por Marine Le Pen em França, ou por Viktor Orbán na Hungria, cada país defendendo opiniões opostas consoante a geografia e economia.
Com cerca de 20% do hemiciclo europeu controlado pela extrema-direita, o certo é que "estamos perante um parlamento mais à direita e, portanto, tendencialmente menos capaz de fazer mudanças humanistas", de acordo com o investigador. No entanto, "o status quo actual é difícil de mudar, já que não haverá muita coragem para mexer no Pacto das Migrações a menos que haja algum fluxo de migração inusitado em direcção à Europa e fora daquilo que temos assistido nos últimos anos", ainda segundo Pedro Góis.
Resta ainda a margem de manobra de cada Estado-membro, sendo que estes podem decidir ser mais generosos do que aquilo a que o Pacto obriga. Caso as medidas não sejam respeitadas, cabe à Comissão Europeia tomar posição. "Até agora, a Comissão não foi capaz de assumir esse papel, e o futuro dependerá muito do ou da futura Presidente deste órgão. Neste cenário, países como Portugal, como a Espanha, como a França, vão ter que servir de contrapeso às medidas que são actualmente tomadas na Hungria ou em Itália e que vão em sentido contrário àquilo que são as tendências migratórias às necessidades que a Europa tem de acolher migrantes", conclui Pedro Góis.
A 16 de Julho, dia de abertura da nova legislatura, foi ainda reeleita para Presidente do Parlamento Europeu a maltesa Roberta Metsola.
A 18 de Julho, os eurodeputados decidirão se mantêm, ou não, Ursula Von Der Leyen como Presidente da Comissão Europeia.
O ataque deste sábado contra Donald Trump mostra a “polarização extrema” da sociedade norte-americana. A imagem que fica para a história é a de um ex-Presidente de punho erguido, com um fio de sangue no rosto, ao lado de uma bandeira americana. Um “símbolo fotográfico”, na análise do investigador Álvaro de Vasconcelos, para quem a campanha dos republicanos ficou “muito facilitada” com Trump “transformado numa espécie de mártir sob protecção divina”. Já o actual Presidente Joe Biden “ganhou a possibilidade de aparecer como o homem que reconcilia a América”.
A imagem correu mundo e é "histórica", como escreve o jornal francês Libération. Donald Trump, de punho erguido, com um fio de sangue no rosto e ao lado de uma bandeira americana, após um ataque a tiro em plena campanha, este sábado à noite, na cidade de Butler, na Pensilvânia. Este ataque poderá alterar o curso da campanha eleitoral e ter um impacto no resultado das eleições presidenciais de Novembro? Foi o que perguntámos ao investigador português Álvaro de Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.
Álvaro de Vasconcelos considera que Trump sobreviveu ao ataque com uma imagem de “mártir sob protecção divina” e que a campanha dos republicanos ficou “muito mais facilitada”. Por outro lado, o investigador pensa que o Presidente Joe Biden pode ganhar fôlego como “o homem que reconcilia a América”, mas, para ganhar as eleições, o Partido Democrata teria de investir uma candidata que desse “novo alento” aos militantes.
RFI: Comecemos com a imagem do fotojornalista Evan Vucci, em que Donald Trump aparece com um fio de sangue no rosto, levanta o punho e há uma bandeira americana… Em termos de leitura política, o que significa esta imagem no contexto de campanha eleitoral?
Álvaro de Vasconcelos, Investigador: "No fundo, essa imagem vem valorizar, dar um símbolo fotográfico forte àquilo que tem sido a campanha de Trump e como é que os ‘trumpistas’, os membros do movimento MAGA (Make America Great Again) vêem o seu candidato e antigo Presidente como homem combativo, símbolo de uma América poderosa, de uma América patriótica - aí está a bandeira - de uma América pronta para o combate. Aliás, acompanharam essa imagem as palavras de Trump: ‘Fight! Fight! Fight!’ Houve ali um instinto político de Trump. Trump foi ele mesmo e reafirmou a sua visão de masculinidade, de combatividade, mas também deste poder de uma América combativa, de uma América que recusa o declínio."
Numa altura em que de Joe Biden, o actual Presidente, teve de passar os últimos tempos a garantir que estava de boa saúde e numa altura em que a sua idade, 81 anos, três anos a mais que Trump, é um tema de campanha, Donald Trump pode capitalizar com o ataque de que foi vítima? Pode criar essa tal imagem de força? Ou, por outras palavras, o punho erguido de Trump após o tiro é o fim da campanha democrata?
"Bem, eu poria as questões talvez um bocadinho diferentes. Naquele momento, essa afirmação da força de Trump e da sua visão da América pode ter triunfado e é a imagem que vai ser utilizada durante a campanha, certamente, pelo Partido Republicano. Mas não é a única. Já ontem surgiu outra, também muito significativa, uma imagem que foi divulgada por uma das noras de Trump - que é, aliás, uma alta personalidade do Partido Republicano - e que mostrava Trump com “a mão de Deus” a protegê-lo. Trump não só é o homem que procura essa imagem da velha América do Oeste, da América guerreira, mas também está muito ligado ao movimento evangélico e vai aparecer a ideia que ele foi salvo por vontade divina. Isso é um aspecto que é importante.
O outro - para Trump e ainda muito mais para Biden ou quem for o candidato do Partido Democrata – é que vai ser necessário ser o candidato que reconcilia a América, que combata esta polarização extrema que levou até a uma tentativa de assassinato, mas que levou também ao assalto pelos ‘trumpistas’ do Capitólio na recusa de reconhecimento dos resultados eleitorais. Essa América extremamente polarizada, em grande parte pela virulência com que Trump não aceitou o resultado das eleições, mas também pela forma como cada vez mais o Partido Democrata foi identificando Trump como um extremista - que ele é - e com o risco que ele representava para a democracia americana -o que também é verdade que representa um risco sério para a democracia americana. A campanha era muito à volta destes dois temas. Hoje acho que o discurso – quer o discurso de Biden, quer o discurso de Trump na Convenção Republicana – a questão da reconciliação dos americanos vai passar a ser um aspeto importante."
Nas primeiras entrevistas que Donald Trump deu depois do ataque, ele falou em unir a América e o mundo, portanto, ele já utiliza esse argumento. Os republicanos apontaram o dedo ao discurso dos democratas, considerando que Biden teria favorecido este clima de violência. Houve até um senador (J.D. Vance) que disse que o Presidente Biden "levou directamente à tentativa de assassínio de Trump". Quando se vê o ataque ao Capitólio em 2021, quando se vê a facilidade com que se adquirem armas nos Estados Unidos, estamos perante um aproveitamento político desta tentativa de assassínio ou os republicanos também têm a sua responsabilidade nesta violência política extrema?
"Que os republicanos são os principais responsáveis dessa violência extrema, qualquer análise da política americana dos últimos anos o confirma. O discurso racista, o discurso anti-imigrante, o discurso conspiracionista sobre a existência de um Estado dominador que controla tudo, as teorias conspirativas que acompanharam, por exemplo, a pandemia e o COVID, por parte dos republicanos... Tudo isso, aliás, e fundamentalmente a recusa dos resultados das eleições e a afirmação de que as eleições tinham sido roubadas ao candidato republicano Trump, tudo isso só polarizou a América. A América está polarizada, de facto, está pluralizada por muitas razões, mas os republicanos tiveram uma enorme responsabilidade na polarização da América. Disso eu não tenho dúvidas."
No entanto, a América já tem uma longa tradição de violência política. Houve diversos episódios em que candidatos, presidentes e ex-presidentes foram atacados e mortos - os casos mais conhecidos são os de Abraham Lincoln, em 1865, e John F. Kennedy, em 1963. Pode-se falar em polarização extrema nos últimos anos ou é a continuação, entre aspas, dessa violência política?
"Essa violência política existiu sempre na América, num país onde é facílimo ter uma arma, ter uma arma semiautomática quase metralhadora, e pode-se transformar uma arma semi-automática em metralhadora com autorização do Supremo Tribunal de Justiça americano, que ainda recentemente considerou que essa lei que proibia a transformação de armas em metralhadoras não ia contra os direitos fundamentais dos americanos, pelo contrário, que devia ser defendida, essa América existe, mas o que é novo é que o Partido Republicano e o Partido Democrata não sejam partidos que procuram, de certa forma, uma unidade da América, apesar das suas enormes divergências. E, sobretudo, esse desenvolvimento deu-se no Partido Republicano que se tornou num partido muito mais radical, um partido populista, um partido muito mais influenciado pelas ideias da extrema-direita. Isso é uma nova polarização.
A antiga polarização que, se calhar, não se devia chamar polarização, a não ser que fôssemos ao tempo da guerra civil em que houve, evidentemente uma extrema polarização que acabou numa guerra civil. Essa cultura de guerra civil e as divisões provocadas pela guerra civil e as razões que levaram à guerra civil, nomeadamente a questão da escravatura, continuaram a existir na sociedade americana. Mas o Partido Republicano e o Partido Democrata não eram partidos que estivessem em campos diametralmente opostos, ou seja, o Partido Democrata a defender a democracia, a Aliança Atlântica, a relação estável com a Europa e um partido republicano extremamente conservador e contra a continuação do apoio significativo americano à defesa da Europa no contexto da guerra da Ucrânia. Portanto há uma evolução, mas a evolução deu-se fundamentalmente no Partido Republicano e reflecte certamente uma polarização da sociedade americana."
Paralelamente, temos uma crise no Partido Democrata, com um crescente número de vozes que apela ao fim da recandidatura de Joe Biden e à nomeação de um novo candidato - face até às dúvidas sobre o estado de saúde do Presidente de 81 anos (ainda que, repito, Donald Trump tenha apenas menos três anos). Como é que vai reagir ou como é que deve reagir o Partido Democrata? Poderá haver, de facto, um novo candidato em vez de Biden? Quem?
"Eu estava convencido, antes desta tentativa de atentado contra Trump, que o Partido Democrata ia fazer um caminho para substituir Biden e a candidata óbvia para isso seria a vice-presidente Kamala Harris, que, aliás, nas sondagens aparecia numa situação mais favorável para derrotar Trump que o próprio Biden. Neste momento, não sei se essa dinâmica e esse debate vão continuar ou se Biden vai assumir, de uma forma clara, o homem que é capaz de reconstruir a América e se isso é possível.
Ao mesmo tempo que a campanha do Trump ficou muito facilitada com o novo tema e com o seu candidato transformado numa espécie de mártir sob protecção divina, no caso da campanha de Biden, ele também ganhou, eventualmente, a possibilidade de aparecer como o homem que reconcilia a América, como um velho ‘sage’ [sábio], um homem com muita experiência, e isso pode travar essa discussão no Partido Democrata.
Mas eu continuo convencido - talvez ainda mais hoje do que estava antes destes últimos acontecimentos à volta de Trump - que se o Partido Democrata não muda de candidato, se não encontra uma candidata, uma mulher como a Kamala Harris que é naturalmente a candidata que deveria ser escolhida, que seja capaz de galvanizar os democratas e dar um novo alento à campanha democrata, como na América se ganham as eleições galvanizando os seus apoiantes e levando-os a quererem ir votar porque muito pouca gente vota, isso vai ser muito mais fácil no Partido Republicano, com o que passou com Trump, do que no Partido Democrata. Portanto, é mais urgente para o Partido Democrata encontrar um candidato que tenha essa capacidade, mas é mais difícil dada a circunstância."
Decorre até ao próximo domingo, 21 de Julho, a 78a edição do Festival de Avignon. A segunda edição dirigida pelo português Tiago Rodrigues, que assina igualmente a peça “Hécube, pas Hécube”.
Uma peça interpretada por actrizes e actores da Comédie Française e que entrelaça a tragédia grega com a vida pessoal de uma actriz, Nadia, na vida como no palco luta por justiça. Uma peça baseada num escândalo de maus tratos a crianças autistas que aconteceu em Genebra, na Suíça.
"Inspirei-me de um escândalo de maus tratos de crianças autistas que aconteceu em Genebra e continua, aliás, nos tribunais e de que tive conhecimento pelos jornais. Mas também descobri, mais tarde, que uma actriz com quem eu trabalhava era mãe de uma das crianças que tinha sido maltratada e liderava, por assim dizer, uma queixa contra o Estado no tribunal.
Algum tempo mais tarde, quando convidado pela Comédie Française para criar uma peça, essa história, a memória dessa história, continuava a interpelar-me ou a inquietar-me... a dar-me vontade de fazer qualquer coisa, na realidade e, na altura, com a autorização, obviamente dessa pessoa, inspirei-me muito livremente, nesse caso, para escrever uma história de uma actriz que é também mãe de uma criança que infelizmente foi maltratada numa instituição do Estado e que faz queixa, exigindo justiça para o seu filho.
Nessa altura, pensando no que é que poderia ser essa ficção, perguntava-me que peça é que esta actriz ficcional pode estar a ensaiar no teatro? E rapidamente a resposta foi Hécube, porque é uma tragédia grega de Eurípides, que, talvez melhor que qualquer outra peça que eu conheça desde há 25 séculos, descreve a cólera, a raiva de uma mãe por amor do seu filho, exigindo justiça, reclamando justiça para o seu filho. E esse superpoder, que é essa raiva que vem do amor incondicional, que permite às vezes a uma mãe de mover um carro só com um dedo para salvar o seu filho. E essa força, associada à reivindicação do direito à justiça e o direito à justiça dos mais vulneráveis, neste caso uma criança e, ainda por cima, no outro caso, na ficção que eu destilo a partir de casos verídicos de crianças maltratadas e autistas. Há uma entrada do Eurípides neste trabalho, porque eu precisava de uma peça que pudesse dialogar com esta ficção inspirada num caso verídico e que permitisse, de alguma forma, que atravessar um sofrimento pudesse ser iluminado de alguma maneira pela representação do sofrimento.
O que é que eu quero dizer com isto? Uma actriz, como qualquer artista ou qualquer pessoa em contacto com a arte, também procura pôr em relação a representação, por exemplo, do sofrimento com o sofrimento e, por vezes, o que eu observei, por exemplo, é que actores, actrizes atravessam sofrimentos na sua vida, mas também os representam em palco e que a representação do sofrimento em palco pode ajudá-los a atravessar o sofrimento na vida.
Lavam as lágrimas ali no palco?
Como nós quando atravessamos qualquer coisa na vida e a vemos mais ou menos representada, mesmo de uma forma longínqua, sentimos, enquanto espectadores, que aquilo que acabámos de ver nos diz, no mínimo, que não estamos sós, que o nosso sofrimento é um sofrimento partilhado noutros lugares, noutros tempos, também pela espécie humana.
Nesse sentido, o Eurípides serve para compreendermos melhor o que é que acontece no nosso quotidiano e o nosso quotidiano ajuda-nos a compreender melhor o Eurípides. E é esse ir e vir que na peça é muito presente, em que saltamos em permanência de uma cena que se passa no teatro, nos ensaios com texto do Eurípides, para uma cena que se passa no gabinete de um procurador e que tem a ver com a história desta personagem. Às vezes uma cena que já nem sabemos bem onde é que se passa, porque aquilo é um labirinto e os dois mundos começam a misturar-se porque a ficção está sempre presente nas nossas vidas também.
Mas esse vai e vem na peça também é feito pelo trabalho de luzes.
As luzes do Rui Monteiro, que tive um grande prazer em convidar para trabalhar com a Comédie Française, também ele pela primeira vez, e o som do Pedro Costa, que são elementos muito fortes desta equipa portuguesa, essencialmente, com o José António Tenente nos figurinos e o Fernando Ribeiro na cenografia, a trabalharem com este grande monumento vivo da cultura francesa e do teatro francês, que é a Comédie Française.
As luzes e o som são muito importantes para nos darem a mão e nos encaminharem por esse caminho, que é o de saltar permanentemente de Eurípides para o presente, do presente para o teatro, do teatro para a vida quotidiana. Sempre guiados também por esta personagem Nadia, actriz e mãe de uma criança autista que foi maltratada, interpretada pela Elsa Lepoivre, que com muitos poucos recursos, com uma enorme técnica, uma enorme sensibilidade, uma enorme humanidade, mas sem nos explicar demasiado, nos faz atravessar este caminho entre dois mundos e duas experiências que são a da vida quotidiana e a da ficção em palco. A luz e os sons estão lá para amplificar esse trabalho de viagem guiada que é feito pela Elsa Lepoivre junto do público.
Como é que foi trabalhar com a Comédie Française?
Foi magnífico trabalhar com a Comédie Française, porque se à partida era já uma honra, mas também uma responsabilidade que podia criar alguma pressão, é a companhia de teatro em actividade mais antiga do mundo e a companhia de Molière, é um monumento vivo do teatro francês. Ainda por cima, ia fazê-lo enquanto director do Festival de Avignon, é a primeira vez que acontece, que um director do Festival de Avignon em funções dirige a Comédie Française. Fazê-lo com estreia no festival, na Pedreira de Boulbon (Carrière de Boulbon) e com a digressão europeia que resta. A rara oportunidade de um autor português de entrar no repertório da Comédie Française.
Tudo isso poderia ser tão importante que criasse uma angústia e uma pressão. Mas depois, o que acontece com a Comédie Française, essa potência que é absolutamente indispensável para poder fazer um certo tipo de teatro e conseguir chegar a tanto público quanto aquele que eles chegam, é que quando cruzamos aquelas portas, é como se tivesse 20 anos e estivesse no Bairro Alto [Lisboa], numa cave, a tentar fazer teatro com amigos. Exactamente o mesmo prazer.
Tudo é sobre o prazer de fazer teatro para guardar esse prazer para o momento em que partilhamos os espectáculos com o público. Eu vou para cada ensaio, fui para cada ensaio, vou para cada representação com um sorriso nos lábios, como se estivesse a começar a fazer teatro na minha vida.
O Tiago escreve em português. Como é que é esse processo de tradução? Porque as palavras têm que ser escolhidas para terem exactamente o significado que o Tiago lhes quer dar. É solitário, é consigo? Como é que isso se passa?
Todo o trabalho, mesmo de escrita, para mim, é bastante colectivo. Evidentemente, exige momentos de alguma solidão e de concentração, mas é sobretudo colectivo. Eu escrevo em português mesmo se a peça é representada em francês e se escrevo durante os ensaios a partir do trabalho que vou fazendo com os actores.
Mas escrevo em português porque, embora possa escrever em francês ou em inglês ou em espanhol, que são línguas que nas quais sou mais ou menos fluente, os erros que eu faria escrevendo em francês são verdadeiros erros involuntários, enquanto que os erros que eu faço ao escrever em português são escolhas, são liberdades que eu tomo, são transgressões poéticas da regra da sintaxe e da gramática. E, portanto, escrevo em português para ter essa liberdade no momento da escrita.
Colaboro com um companheiro de viagem de há mais de dez anos, Thomas Resendes, que traduziu quase todas as minhas peças para francês e com quem trabalho durante o processo de trabalho e que muitas vezes está presente nos ensaios. O que eu faço é escrever de manhã para que possa depois ir para o ensaio à tarde. O Thomas, muitas vezes, está no ensaio, mas está a traduzir o que eu escrevi de manhã para me enviar à noite para eu rever, para que no ensaio de amanhã possamos trabalhar em francês aquilo que eu escrevi ontem. Portanto, há um gesto de tradução que é muito rápido, muito inicial, porque aquelas cinco ou seis páginas, por exemplo, de uma cena, serão reescritas várias vezes por causa das tentativas com os actores. O que significa que o tradutor terá direito a aperfeiçoar também a sua tradução. Mas o primeiro gesto tem de ser muito rápido para podermos continuar a trabalhar e continuar a ensaiar. E é um processo que se faz por camadas. Cada cena de uma peça minha foi escrita oito, nove, dez vezes até chegar àquela forma, o que significa traduzida oito, nove, dez vezes e ensaiada muitas vezes com os actores, até para permitir também essas reescritas.
É um trabalho colectivo, por camadas de muita escuta, de muita experimentação, em que a ideia inicial muitas vezes transforma-se completamente. Outras vezes estamos só a trabalhar em detalhe, mas é sobretudo um grande prazer de poder escrever informado pela imaginação dos outros e o sentido crítico dos outros. Quando não tenho ensaios, não consigo escrever. Porque é que eu hei-de escrever se depois nenhum actor vai ler aquilo?
O festival termina no próximo fim-de-semana. A edição deste ano começou uma semana mais cedo e levou com duas voltas de eleições legislativas antecipadas pelo meio. Para já há um balanço positivo?
Necessariamente que é um festival atípico porque antecipado nas suas datas para nos adaptarmos às datas dos Jogos Olímpicos, o que obrigou a grandes adaptações. E depois, mesmo antes do início do festival, sobressaltado pela dissolução da Assembleia Nacional em França e a convocação de eleições, ainda por cima concomitantes com a primeira semana do festival. Isso obrigou-nos também a desenvolver estratégias para que o festival que nós achamos essencial que se realize mesmo nos períodos de maior incerteza política, talvez sobretudo nos momentos de maior incerteza política, pudesse acontecer da melhor maneira.
O público disse presente e está. Temos as salas cheias. Uma bela taxa de ocupação até aqui. Evidentemente, a presença do público nas salas era algo que nos preocupava, porque vimos como o anúncio da dissolução da Assembleia punha em causa aquilo que estava a ser uma grande adesão do público na bilheteira, na preparação do festival até essa altura.
Estamos felizes de perceber que, mesmo no período entre as duas voltas das eleições, que eram períodos em que o espírito de cada pessoa estava muito ocupada, com a incerteza e a ameaça à democracia que pairava sobre um eventual resultado que desse a vitória e a maioria absoluta à extrema-direita, vimos como estarmos juntos à volta do teatro, de repente, tinha um valor fundamental que permitia ao público de sair de uma angústia individual e entrar numa preocupação colectiva que é muito mais rica e muito mais fértil e que se pode viver também através do teatro.
Foi uma primeira semana muito intensa porque, evidentemente, o festival sentiu também a obrigação de se mobilizar e mobilizar outros para fazer apelo à barragem à extrema-direita, à União Nacional, como nós dizemos em Portugal. E, felizmente, a lucidez democrática dos franceses ganhou estas eleições e permitiu que hoje estejamos num festival que é muito mais de celebração do que de resistência. E nós sentimos também essa diferença. Não é que haja mais público, o público já estava lá, já tínhamos muito público, mas sentimos a diferença de como, a partir de segunda-feira [8 de Julho], apesar da noção de que a ameaça continua a pairar, de que há um trabalho enorme a fazer, a celebração da afirmação absolutamente legítima do povo francês que recusou qualquer hipótese da extrema-direita no poder e votou por um programa que exige uma França progressista, popular, democrática, republicana, que são adjectivos que normalmente utilizo para descrever o festival.
O navio cargueiro português Angoche foi encontrado a arder ao largo de Moçambique sem ninguém a bordo. O facto aconteceu em 1971 e inspirou Eduardo Pires Coelho a escrever o "thriller" histórico "O Segredo de Lourenço Marques".
No romance, o mistério e as surpresas enredam-se a um ritmo trepidante numa sequência que leva o leitor além de Moçambique. Num espaço temporal que abrange desde o fim do século XIX até ao presente, a acção, que passa também por Portugal, pode conduzir-nos, por exemplo, até Cabo Verde, África do Sul, Angola, Zâmbia, Uganda ou Tanzânia.
Depois de O Segredo da Flor do Mar, livro centrado na presença portuguesa em Malaca, e Taprobana, cuja acção decorre maioritariamente no Sri Lanka, Eduardo Pires Coelho acaba de lançar, em Portugal, O Segredo de Lourenço Marques, o primeiro romance que escreve sobre África.
São Tomé e Príncipe assinalou hoje 49 anos de independência. Por esta ocasião, o Presidente cabo-verdiano deslocou-se àquele país com o qual os elos são fortes, dada a grande comunidade de origem cabo-verdiana que está radicada no arquipélago, desde o princípio do século XX. Nessa altura, milhares de cabos-verdianos juntaram-se a trabalhadores de Angola ou de Moçambique nas roças, mediante contratos cujas condições eram pouco melhores do que a escravatura que atinha sido abolida em 1875.
No âmbito dos encontros que o Presidente José Maria Neves tem mantido com as populações de origem cabo-verdiana no país, um dos descendentes desses trabalhadores 'contratados', Venâncjio dos Santos, conhecido como 'Joãozinho', produtor de café e fundador de uma associação que apoia os residentes de origem cabo-verdiana, foi condecorado com a ordem de 2a classe da Medalha do Vulcão pelo trabalho que tem desenvolvido. Em declarações à RFI, Venâncio dos Santos recordou o seu percurso.
"Trabalhei na roça e na plantação. Trabalhei na oficina e na agricultura. Na época, não havia essa liberdade. Como sabe, a gente estava sob o jugo colonial. A gente não tinha tanta expressão como dizem agora. Aquilo tinha um horário que tinha que respeitar. Era um bocadinho mais forçado. Às vezes davam tarefa que você não cumpria toda e não ganhava o dia. Não havia aquela liberdade. Depois, com o conhecimento, fui comerciante, fui condutor de praça. Depois dediquei-me à agricultura, café e transformação. Depois de 25 de Abril pensámos em criar uma associação. Dado o ambiente que estava a passar, pensámos, unimo-nos com algumas pessoas, criamos uma associação, a Kê Morabeza", conta o descendente de 'contratados' cabo-verdianos.
Questionado sobre a condecoração que recebeu de Cabo Verde, Venâncio dos Santos diz que lhe dá alento para continuar empenhado junto da sua comunidade. "Se houver possibilidades para fazer mais, eu vou fazer. Normalmente há sempre pessoas que precisam de uma mão, precisam de medicamentos. Precisam de alimentação, mais do que dinheiro, eles não têm dinheiro. Um bocadinho que eu tenho, às vezes ajuda para medicamentos e outras coisas essenciais", diz o líder associativo.
'Contratados' cabo-verdianos chegam a São Tomé e Príncipe no começo do século XX
Calcula-se que cerca de 8% da população de São Tomé e Príncipe tenha origem cabo-verdiana. Chegados em massa no princípio do século passado, foram para as roças e trabalharam sob o chamado regime de 'contratação'. A historiadora são-tomense Nazaré Ceita que tem pesquisado sobre este período e que ultimamente tem trabalhado juntamente com outros estudiosos dos PALOP na elaboração de uma obra sobre as lutas de libertação nacional, evocou com a RFI a história dos 'contratados', em particular os trabalhadores que deixaram para trás as ilhas de Cabo Verde.
Ao recordar que após a abolição da escravatura, verificou-se "uma terrível falta de mão-de-obra" e os antigos escravos, doravante livres, "correm para a cidade de São Tomé," muitos deles tornando-se sapateiros ou agricultores independentes, a estudiosa explica que começam a contratar pessoas vindas de fora para dar continuidade ao trabalho nas roças de cacau de que o país, naquela época, era um dos grandes produtores.
Chegam de Angola, Moçambique e até da China, segundo a historiadora que, relativamente a Cabo Verde, de onde vieram boa parte dos trabalhadores, refere que "havia agentes de contratação naquele país. A partir de lá, já eram direccionados para diversos patrões em São Tomé e Príncipe. Mas por causa desta avalanche de gente, nem sempre os cabo-verdianos que vinham já tinham patrão. À chegada, todos eram encaminhados para a antiga curadoria geral dos serviçais e colonos. E aí havia um barracão onde todos se concentravam no sentido de, a partir deste barracão, como um lugar de trânsito onde ficavam", até serem encaminhados para as roças onde iriam trabalhar.
"Os próprios contratos estabeleciam quais eram as regras. Este contrato estava dividido em duas partes; o dinheiro que era recebido aqui e, depois, outro dinheiro que deveria ser revisto quando chegassem aos lugares de origem após a repatriação. Havia um cofre, o chamado 'cofre de repatriação', e esses cálculos eram feitos neste sentido. Só que a verdade é que muitos não regressavam. Estes dinheiros que foram para o 'cofre de repatriação' nem sempre era recuperado," refere a universitária detalhando que os contratos tinham normalmente prazos de três a cinco anos.
"Só que houve uma determinada altura em que houve novas regras. Aliás, havia legislações atrás das legislações, umas que depois tornavam inviáveis as outras, porque vários trabalhadores foram confrontados com a questão da recontratação. Então muitos foram submetidos não ao regresso, mas a continuarem em São Tomé, sobretudo nos anos 50," recorda Nazaré Ceita ao especificar que foram criados assentamentos "para suprir sempre a mão-de-obra que faltasse".
As roças eram espaços herméticos com ferrolho
"As roças eram espaços herméticos com ferrolho. Os únicos dias em que os contratados podiam sair, às vezes eram ao domingo e com hora de sair e de regressar. Havia o terreiro com as casas dos patrões de um lado e do outro lado, as sanzalas, com filas de casas sem janelas, normalmente com um espaço apenas, sem casas de banho, casas compridas em que eram aí onde ficavam completamente controlados por um sino para regular o quotidiano. O sino que tocava para o recolher, o sino que tocava para a hora do trabalho, portanto, era um espaço hermético, violento para aqueles que desobedecessem. E daí que houvesse também muitas desobediências", relata a estudiosa que refere ter tido em mãos "imensas cartas trocadas entre os patrões, entre a administração do Conselho, com a curadoria geral dos serviçais e colonos para castigar aqueles que prevaricavam."
Na clausura das roças onde mal chegava o murmúrio do mundo, os trabalhadores 'contratados' foram mantidos de certa forma distantes do século e dos ventos de revolta que sopraram, por exemplo, em 1953, aquando do que foi recordado como 'os massacres de Batepá'.
"Batepá erroneamente foi considerado o local do massacre, porque as interpretações da altura assim o fizeram, tendo em conta que a zona de Mé-Zóchi, a zona da Trindade, as suas populações irreverentes, foram populações autóctones que nunca concordaram com os termos das repressões coloniais que estavam a verificar-se em São Tomé e Príncipe, desde os anos 30", conta Nazaré Ceita.
"Eu não posso dizer que essas populações roceiras vivenciaram da mesma forma os acontecimentos de 1953, como a própria população nativa são-tomense. Alguns patrões, alguns portugueses, foram solidários com a população autóctone. Não foram todos. Houve portugueses solidários que, por exemplo, aproveitaram para esconder nos seus espaços alguns momentos considerados irreverentes. Grande parte dos roceiros vai colaborar com Gorgulho (governador português entre 1945 e 1953) e os seus seguidores para reprimir os nativos são-tomenses que foram acusados de manobras comunistas. As roças eram um mundo à parte e a verdade é que uma repressão deste tipo, os muitos roceiros estavam a favor porque de facto isto acabaria por colocar em causa o status quo existente que era o trabalho roceiro", relata.
O 25 de Abril que marcou uma viragem em Portugal que viria depois a abrir a porta à independência das suas antigas colónias (ou ao seu reconhecimento no caso da Guiné-Bissau, que tinha declarado a sua independência em 1973), também foi sentido com alguma distância nas roças. "Foi uma situação de surpresa, isto é, ninguém compreendia o que se estava a passar. Acreditava-se que através das informações que havia um vento de mudança. Mas a consciência do 25 de Abril não chegou cedo. Nas roças, as pessoas continuavam a pensar que era apenas uma mudança ligeira. Só depois, no dealbar do 1974, com abertura para o país ao Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, da chegada da Associação Cívica para o MLSTP, Associação Cívica que vai depois entrar nas roças a chamar pela consciência das populações a esses ventos de mudança. A verdade é que inicialmente as pessoas não compreendiam o que se estava a passar. O que se passou é que nós não tivemos luta armada no país, não houve confrontos, havia perseguições da PIDE, é verdade, mas esses ventos de libertação por causa da questão da clandestinidade e das redes clandestinas, muita gente, sobretudo nas roças, com certeza não sentiam ainda este vento de mudança", diz a estudiosa.
Os habitantes das roças nos dias de hoje
Depois da independência em 1975, as terras são nacionalizadas. Esse momento coincide com uma queda da produção de cacau encetada alguns anos antes. "Creio que nós quando chegamos à independência, estávamos com 10.000 toneladas. Já era muito pouco em relação às imensas toneladas de 1913 em diante. E então já havia muitas dependências que estavam a ser abandonadas pelos próprios roceiros, quer pela falta de mão-de-obra, quer pelas doenças sazonais que apareciam nas plantações do cacau a que não se fazia frente em termos tecnológicos", observa a professora universitária.
Questionada sobre o estatuto dos antigos trabalhadores das roças, Nazaré Ceita reconhece que as suas condições de vida são difíceis mas considera não foram abandonados. "Uma das coisas que o partido no poder na altura fez, foi acabar com estas divisões que havia de que uns eram uma coisa, outros eram outra coisa, de que uns eram bem-vindos, outros mal vindos. Todos são-tomenses eram iguais. Aliás, a constituição política dizia isso. Podem ter falhado medidas administrativas no sentido de proceder ao registo dessas pessoas como são-tomenses, mas pela minha vivência eu não encontro motivo para que se diga que essas pessoas continuaram abandonadas", diz.
Quanto ao caminho de regresso que não se fez, a historiadora admite que houve falhas, mas considera igualmente que a situação em que se encontram essas comunidades acaba por não ser diferente daquela que é vivenciada pela generalidade da população."Foi uma falha do país colonizador e se calhar não poderia ser de outro jeito. Não houve tempo material para que as pessoas pensassem como é que ficariam esses trabalhadores após as independências. E, no entanto, o alarme foi feito por estudiosos, por imensas pessoas que achavam que os cabo-verdianos e outros antigos serviçais não estavam bem em São Tomé, que eram pessoas desprezadas, que viviam à sua sorte, o que é o apanágio, no meu ponto de vista, para toda a população são-tomense. Hoje mesmo são-tomenses que vivem nas zonas rurais, creio que enfrentam quase os mesmos problemas que enfrentam os cabo-verdianos nas roças. A situação é caótica para aqueles que não têm condições mínimas para sobreviverem. A subida vertiginosa dos preços que nós verificamos em São Tomé e Príncipe de há muitos anos a esta parte", observa.
O necessário trabalho de memória
Olhando retrospectivamente para a história comum dos países africanos e de Portugal, Nazaré Ceita considera que tem havido uma crescente tomada de consciência.
"Eu convivo com imensos académicos portugueses pela força da minha profissão e eu acho que há uma tomada de consciência. Há linhas de investigação que se estão a 'descolonizar'. Eu acho isso bastante bom. Isto é em Portugal, mas também já há imensos africanos a revolucionar, a ajudar a 'descolonizar' o pensamento colonial. Há muito mais gente a ter um olhar endógeno sobre as questões que nós vivenciamos desde o colonialismo até aqui", considera a pesquisadora.
Questionada sobre o trabalho que está a desenvolver com uma equipa de estudiosos dos PALOP sobre as lutas de libertação nacional e cujo resultado deve ser publicado para o ano que vem, no âmbito da celebração dos cinquenta anos da independência desses países, Nazaré Ceita insiste sobre a importância dessa pesquisa colectiva.
"Eu acho que é um trabalho necessário perante as novas tendências que tem havido no sentido da ridicularização de um momento político extremamente decisivo, que foi a luta de libertação nacional dos nossos países. Há uma espécie de descredibilização desta luta. Há uma espécie de rasurar esta luta, no sentido de que as pessoas que lutaram teriam acabado por não trazer coisas positivas ao país. E nós, o que queremos demonstrar é que se trata de um processo histórico próprio. Os países têm momentos históricos e, na verdade, essa história foi bem necessária no sentido de reverter a situação vigente que nos oprimia, denunciada por várias pessoas, por pessoas que sofreram na pele e que, portanto, estes movimentos de libertação foram uma forma, às vezes violenta, que os países, que as pessoas encontraram, que os dirigentes, os nossos pais da independência, encontraram para mudar de facto uma situação terrível de opressão", conclui Nazaré Ceita.
From the publisher's feed
De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners