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O Presidente francês endereçou ontem, quarta-feira, uma carta aos seus concidadãos que foi publicada na imprensa regional. Nesta missiva, Emmanuel Macron considera que "ninguém saiu vencedor" das legislativas de domingo em que nenhum bloco obteve maioria absoluta. Neste sentido, ele apela as forças políticas a "encontrarem consensos" para construir uma "maioria sólida" capaz de governar.
Esta carta não deixou de suscitar comentários, nomeadamente na extrema-direita (RN) cuja líder, Marine Le Pen, denunciou um "circo indigno", dizendo que "Emmanuel Macron propõe fazer uma barragem contra a França Insubmissa, que ele ajudou a eleger há três dias e graças ao qual os deputados do seu partido foram eleitos, também há três dias".
No bloco dos partidos de esquerda, são vários os apelos para que Macron "aceite a derrota", o dirigente da França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon, considerando que a carta do Presidente marca "o regresso do direito de veto da realeza sobre o sufrágio universal".
Do lado da direita tradicional, o tom já menos crítico. Apesar de avisar o Presidente de que "não se brinca com a República", Gerard Larcher, Presidente republicano do Senado, disse concordar com o chefe de Estado relativamente à opção de dar tempo à formação de coligações.
Contudo, a mão estendida não funciona de forma automática: no seio do aparelho dos republicanos (LR), considerados possíveis aliados do campo presidencial, Laurent Wauquiez, líder parlamentar dessa formação, rejeitou uma "coligação governamental", evocando apenas a possibilidade de um "pacto legislativo".
Ao observar que existe efectivamente alguma proximidade de ideias entre os republicanos e o partido do Presidente Macron, o historiador Victor Pereira não deixa de apontar algumas fragilidades no campo conservador que saiu dividido destas eleições. Por outro lado, o estudioso considera que a pressão que Macron está a fazer sobre os partidos no sentido de encontrar consensos poderia incitar ainda mais a esquerda a unir-se e apresentar rapidamente um candidato a Primeiro-ministro.
RFI: Desde domingo, tem havido negociações entre o campo presidencial e os republicanos, o partido de Macron parecendo privilegiar um consenso à direita.
Victor Pereira: Há um discurso bastante comum da parte da coligação à volta do Emmanuel Macron e dos republicanos. Todos dizem que é inconcebível formar um governo que integra ministros da França Insubmissa e alguns até vão mais longe dizendo que é inconcebível ter um governo com pessoas dos Verdes, dos ecologistas. Então vê-se que há uma certa convergência entre republicanos e, no entanto, os republicanos, o presidente deles (Eric Ciotti) saiu do partido. Então, não sabemos muito bem para onde é que vai esse partido e ele não tem assim tanta força. Alguns estão prestes a colaborar, outros recusam qualquer colaboração. Mas de facto, parece que Macron pensa que ainda é possível governar, nem tanto à esquerda, mas talvez mais à direita. Ele avistou-se já duas vezes nos últimos tempos com Gérard Larcher, que é Presidente do Senado, que é uma das figuras dos republicanos e parece que vai tentar encontrar uma solução desse lado. A carta é um bocadinho ambígua porque é dirigida aos franceses, mas ele não se dirige tanto aos franceses como aos responsáveis políticos na Assembleia.
RFI: No meio disto tudo, a esquerda ainda não propôs um nome para Primeiro-ministro. Isto não é um pouco complicado para a esquerda nesta altura, com a pressão do Presidente, por um lado, e o facto de não se entenderem sobre o nome de um Primeiro-ministro?
Victor Pereira: Sim, de facto parece. Quando Emmanuel Macron dissolveu a Assembleia da República, ele não estava à espera de todo que a esquerda se unisse tão rapidamente e conseguisse em apenas quatro dias encontrar um programa comum e aceitar que haja uma unidade nos candidatos, que não haja vários candidatos da esquerda. Agora, acho que a aposta dele é, mais uma vez, a mesma. Isto é, que a LFI, os ecologistas, os socialistas e os comunistas que têm um historial de desunião, de zangas, que isso volte a acontecer. Mas não sei até se essa pressão que ele colocou ontem não vai mais uma vez ter o efeito contrário, isto é, obrigar os partidos da esquerda a encontrar um candidato comum ou uma candidata comum e ir além das tensões e das divisões. Talvez esta pressão que Emmanuel Macron colocou por cima deles, vai obrigá-los a encontrar uma solução. Então, mais uma vez, o tiro pode sair-lhe pela culatra.
RFI: Por um lado, no campo presidencial, há pessoas que estão mais inclinadas para negociar com a direita, outras mais com o campo social-democrata. O limite é a França insubmissa. Esse é também o limite fixado por Gerard Larcher, o Presidente do Senado, que, por outro lado, também avisa Macron que "não se brinca com a República". No fundo, o centro também está um pouco encurralado.
Victor Pereira: Pode-se pegar nos resultados eleitorais e na composição da Assembleia. É muito difícil encontrar uma maioria. Ou então é uma maioria, que já não pode contar com 120 e picos deputados da União Nacional (RN), também não pode contar com os deputados que ficaram leais ao Eric Ciotti (LR) e, por outro lado, tanto o centro como a direita recusam uma solução com a LFI. Por isso tudo, vai ser muitíssimo difícil encontrar uma solução. E, além disso, toda a gente está a pensar nessa eventual coligação de olhos postos sobre 2027. Isto é, já muitas pessoas já estão a pensar em 2027 com uma agenda pessoal, por exemplo Wauquiez (líder parlamentar LR). Mas também algumas pessoas têm medo, talvez mais à esquerda, que uma eventual coligação seja uma ajuda indirecta ou directa à União Nacional. Na perspectiva de 2027, se uma coligação de todos os partidos, talvez menos, governarem juntos durante três anos e se isso não for um sucesso, as dificuldades económicas, sociais, etc, etc continuam, isto será mais um argumento em 2027 para a União Nacional (RN) incitar à alternância, argumentando "Já tivemos de tudo, já tivemos de direita, já tivemos esquerda, já tivemos um Macron, já tivemos uma grande coligação, nada funciona. A única solução agora somos nós". Então alguns partidos de esquerda têm medo desta coligação e de um eventual fracasso que daria argumentos à União Nacional.
RFI: Qual é, para já, o cenário, a seu ver, mais provável? Avançou-se, por exemplo, a ideia de que o governo de Attal poderia durar pelo menos até Setembro, para dar tempo, digamos assim, para alguma coligação emergir de toda esta confusão. E a seguir?
Victor Pereira: Não se sabe muito bem, de facto, se o governo actual vai durar até meados de Julho, se vai ir além dos Jogos Olímpicos, porque a França recebe os Jogos Olímpicos (em Julho e Agosto) e o Attal vai até Setembro. Mas isso só pode alimentar a ideia de que Macron recusa o resultado das eleições e que o governo não tem legitimidade democrática. O partido de Macron foi o único partido que perdeu quase 100 eleitos. A União Nacional aumentou o número de deputados, a esquerda, também tem muitos deputados. O partido que quer ficar no poder foi o único que perdeu -e muitos- deputados. Isto é uma solução que pode parecer muito antidemocrática. A solução está em 1) a esquerda consegue encontrar e propor o nome de um candidato a ser Primeiro-ministro e que Macron aceite. E 2) a solução também pode ser numa eventual coligação, mas que por enquanto parece muito difícil. Então é muito provável que tenhamos governos muito fracos considerados pouco legítimos, e que talvez vá haver vários governos que se vão suceder e que vão ficar muito pouco tempo no poder, porque vão ter de cair por causa de moções de desconfiança que o Parlamento pode votar.
RFI: O cenário de uma maioria relativa não é muito habitual aqui em França. No entanto, noutros países, na Europa, como por exemplo na Itália, a maioria relativa é o "pão nosso de cada dia". Isto também aconteceu recentemente em Portugal, onde também não emergiu uma maioria absoluta e, no entanto, consegue-se constituir governos.
Victor Pereira: Em França, desde o início da Quinta República, ou pelo menos desde os primeiros anos da Quinta República, não há uma cultura do consenso. Há sobretudo uma cultura do confronto, em que um partido, um movimento, uma coligação está no poder e não vai negociar e não vai encontrar consensos na maioria dos casos. A França nisto tem uma falta de cultura democrática parlamentar muito importante e não parece que vai ser com Macron, que não tem de todo uma cultura parlamentar, uma cultura do diálogo e que, pelo contrário, tem uma visão muito mais vertical do poder do que isso possa parecer. Mas, de facto, para os partidos e nomeadamente os partidos de esquerda, a grande questão é isso. Uma ideia que foi enunciada, por exemplo, por um deputado da França Insubmissa, François Ruffin, que saiu agora desse partido e que diz que os franceses tinham dado apenas "uma pausa". E que se as coisas continuam do mesmo modo, é muito provável que a extrema-direita consiga ganhar nas próximas eleições (na presidenciais de 2027). Então, de facto, é uma pressão suplementar. Se não houver governo, se os governos não conseguem governar de forma eficiente, o que pode acontecer muito facilmente é que as próximas eleições sejam ganhas pela extrema-direita. Obviamente, muitas pessoas ficaram aliviadas pelo facto de a extrema-direita não ter sequer a maioria. O sistema eleitoral é bastante complicado e as sondagens enganaram-se. Mas não podemos esquecer que a Frente Nacional passou em poucos anos de oito deputados a 89 e agora para mais de 120. Isto é um partido que tem uma dinâmica eleitoral forte. Essa dinâmica talvez tenha ficado aquém do que as sondagens diziam e que a própria União Nacional pensou conseguir. Mas não podemos esquecer -parte da esquerda e obviamente do centro e de direita têm noção disto- que é uma dinâmica e que se não encontrarem soluções, essa dinâmica pode continuar até que a União Nacional consiga vencer.
RFI: Por fim, aventou-se muito a hipótese de se formar um governo de tecnocratas para desempatar tudo isto. Julga que esta é uma solução?
Victor Pereira: No papel é uma solução. é pouco comum na história recente francesa. Um governo de tecnocratas, foi o caminho, a solução que foi encontrada na Itália com um sucesso ambíguo. Parece-me um pouco difícil e, sobretudo, parece-me um pouco difícil por causa do Presidente da República. Isto é, um governo tecnocrata deveria poder delinear e pôr em prática as políticas públicas com o apoio da Assembleia. Mas em França temos um Presidente da República omnisciente, omnipotente, que muito dificilmente daria margem de manobra a um governo tecnocrata se não fizesse o que ele acha o melhor. Por isso, acho pouco provável que Emmanuel Macron consiga aceitar isto e vê-se, mesmo com essa carta que ele escreveu, que ele não tem uma visão de um poder parlamentar forte. Por isso parece-me pouco provável a solução de um governo de tecnocratas.
Decorre desde esta terça-feira e ainda até amanhã, em Washington, a Cimeira da NATO que marca o 75° aniversário da sua existência. Criada depois da segunda guerra mundial com o objectivo de garantir da defesa do bloco ocidental perante o então bloco soviético, a Aliança Atlântica encontra-se num momento complexo, com os desafios colocados pela guerra na Ucrânia na sequência da sua invasão pela Rússia em Fevereiro de 2022.
No âmbito desta cimeira que é, uma vez mais, dominada pelo conflito ucraniano, Kiev recebeu desde já a garantia de que Washington e outros parceiros vão fornecer-lhe sistemas de defesa antiaéreos, conforme vinha pedindo nestas últimas semanas. Num plano mais lato, contudo, Volodymyr Zelensky poderia continuar sem perspectivas claras quanto a uma eventual adesão do seu país à NATO.
Para já, Berlim e Washington não pretendem comprometer-se neste aspecto e o contexto de eleições presidenciais incertas nos Estados Unidos também faz com que as perspectivas da presente cimeira sejam pouco encorajadoras para a Ucrânia, do ponto de vista de Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, em Lisboa.
RFI: Considera que uma vez mais a Ucrânia não vai obter garantias quanto a uma possível adesão à NATO?
Carlos Gaspar: Para o bem e para o mal, essa é uma certeza que nós temos, porque os Estados Unidos e a Alemanha são contra qualquer tipo de compromisso que defina uma data ou um contexto específico para a entrada da Ucrânia na NATO. Com certeza que haverá e já estão aprovados, de resto, em quadros bilaterais pelos Estados Unidos, armamentos adicionais e apoios adicionais à Ucrânia, também do lado da União Europeia e dos aliados europeus. Mas esses apoios tenderão a diminuir. Não é, como já aconteceu, aliás, ao longo dos 6 primeiros meses deste ano e poderão diminuir muito radicalmente se os norte-americanos elegerem o Presidente errado em Novembro deste ano. Portanto, há que fazer previsões de certa maneira, não apenas materiais, mas também políticas e diplomáticas, para fazer face a essa possibilidade, que é uma possibilidade real.
RFI: A sombra de Donald Trump, no fundo, está a pairar sobre a cimeira da NATO?
Carlos Gaspar: É uma cimeira de campanha. Claramente é uma cimeira de campanha. Ela segue-se a um debate presidencial entre Donald Trump e Joe Biden, que correu mal ao Presidente dos Estados Unidos e que desencadeou um debate dentro do Partido Democrata em que está em causa quem vai ser, finalmente, na Convenção de Agosto, o candidato presidencial. Neste momento, o candidato presidencial é Joe Biden, mas a sua posição pode ser posta em causa. Está a ser objecto de um debate dentro do seu próprio partido. E, nesse quadro, inevitavelmente, a cimeira da NATO para lá da Ucrânia é uma etapa decisiva na campanha eleitoral norte-americana.
RFI: Esta cimeira da NATO é também a primeira em que participam enquanto membros de pleno direito, tanto a Finlândia como a Suécia. Isto, de certa forma, não será também, apesar de tudo, um símbolo forte para a NATO?
Carlos Gaspar: Muito forte, muito importante para a NATO. A Suécia é um dos estados neutrais mais antigos da Europa. A Finlândia tinha uma posição de neutralidade imposta durante a Guerra Fria pela União Soviética, mas os dois responderam à invasão da Ucrânia pela Rússia com uma decisão de integrar a Aliança Atlântica, que é muito importante para a NATO e para a defesa europeia e também importante para a União Europeia, na medida em que, neste contexto, há apenas quatro Estados membros da União Europeia que não fazem parte da Aliança Atlântica e isso reforça as relações cada vez mais importantes entre a NATO e a União Europeia, entre os dois pilares da Comunidade Europeia e transatlântica.
RFI: Esta cimeira decorre numa altura em que o actual Presidente do Conselho Europeu, Viktor Orban, acaba de efectuar visitas tanto a Kiev como a Moscovo e também a Pequim.
Carlos Gaspar: Visitas bilaterais, não visitas como presidente do Conselho Europeu, uma vez que os próprios parceiros europeus vincaram bem que se tratava de visitas bilaterais e que o primeiro-ministro húngaro não tinha qualquer mandato do Conselho Europeu para tomar quaisquer iniciativas junto da Rússia ou da China.
RFI: Isto não será, de qualquer das formas, um sinal de que reina alguma confusão, tanto a nível europeu como a nível da NATO, em termos de mensagens que se enviam a Moscovo?
Carlos Gaspar: De forma nenhuma. Isto é uma manobra de Moscovo na qual o primeiro-ministro húngaro é um actor consciente e voluntário que visa justamente tentar perturbar a reunião da Aliança Atlântica e pôr em causa os esforços daqueles que defendem a definição de um quadro de entrada da Ucrânia na Aliança Atlântica. Não é a única resposta da Rússia e da China à cimeira de Washington. A China e a Rússia também alargaram a Organização de Cooperação de Xangai à Bielorrússia, que é vizinha da Polónia e que entrou na Organização de Cooperação de Xangai no dia 4 de Julho passado. E neste momento há manobras militares conjuntas da China e da Bielorrússia junto à fronteira da Polónia. Foi a forma de a China e da Rússia, as duas principais potências revisionistas, participaram na cimeira da NATO, para a qual, naturalmente, não foram convidadas. É pena, mas não é uma surpresa que o primeiro-ministro húngaro seja um pião dentro da estratégia da China e da Rússia.
RFI: Mencionou precisamente a Organização de Cooperação de Xangai que esteve reunida na semana passada em cimeira. Uma das questões em cima da mesa foi precisamente reforçar a segurança regional. Esta organização, de certa forma, poderia ser uma concorrente da NATO e poderia obrigar a NATO a mudar radicalmente a sua estratégia?
Carlos Gaspar: A Organização de Cooperação de Xangai é o contrário da NATO. A NATO é um pilar da ordem internacional. A Organização de Cooperação de Xangai é um perturbador da ordem internacional e não tem nenhuma das funções de garantia de defesa, nem sequer para os seus membros. Os seus membros cooperam vagamente na luta antiterrorista e por aí fora. Mas não há nenhuma cláusula comparável ao artigo quinto ou mesmo ao artigo quatro do Tratado de Washington. E, nesse sentido, não é uma aliança militar, não é uma aliança de defesa, como é a Aliança Atlântica desde 1949.
RFI: Paralelamente, tem havido um certo bailado diplomático, tendo havido recentemente um encontro entre Putin e Xi Jinping. Putin também avistou-se com o Primeiro-ministro indiano. Putin está a multiplicar as parcerias. Como é que deve ser interpretado?
Carlos Gaspar: Deve ser interpretado como uma tentativa de demonstrar que a Rússia não está isolada diplomaticamente, que está preparada, o que é falso, para negociar seriamente com a Ucrânia uma cessão das hostilidades, de maneira a evitar que haja sinais fortes do lado da cimeira de Washington em relação à Ucrânia, que garantam que a Ucrânia continua a resistir à invasão da Rússia e a sobreviver aos ataques da Rússia de Putin. A visita de Modi é particularmente importante. Há cinco anos que o primeiro-ministro indiano não ia Moscovo para uma visita bilateral e é a primeira visita bilateral que ele faz depois da sua reeleição. O pretexto que o primeiro-ministro usa é retirar os soldados indianos que estavam integrados nas Forças Armadas da Rússia e que foram mobilizados para a Ucrânia. Esses soldados vão ser desmobilizados e voltar à Índia. Mas esse pretexto não chega para explicar por que razão é que o primeiro-ministro Modi está preparado para, mais uma vez, ser um pião na estratégia do Presidente Putin, num momento que para Moscovo é crucial, e em que Moscovo -como Pequim- tem que fazer tudo para pôr em causa a unidade dos aliados. Nem a China nem a Rússia jamais imaginaram que mais de dois anos depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, continuasse a haver uma frente comum dos aliados para defender a Ucrânia, contra os cálculos que foram feitos, quer em Pequim, quer em Moscovo.
RFI: Há pouco mencionou o facto de Biden, neste momento, estar a ser avaliado à lupa. Há também outro membro da NATO que também está a ser analisado: é a França, com o poder de Macron, neste momento, a ser abalado por alguma instabilidade interna. Que implicações é que isto pode ter a nível da NATO?
Carlos Gaspar: Tem com certeza um impacto, porque existe a possibilidade de um quadro de instabilidade governamental nos próximos anos, mas também tem um impacto limitado, no sentido em que o Presidente da França tem uma posição especial e, pelo menos, essa tradição da Quinta República determina a política externa e a política de defesa da França. Isso seria posto em causa se houvesse um governo da União Nacional (partido de extrema-direita), o que parece excluído na presente conjuntura. De resto, mais nenhuma força põe em causa o "domaine réservé", o domínio reservado, do Presidente da República Francesa em relação à política externa e de defesa. E nesse âmbito, há um quadro de continuidade naquilo que é essencial para os aliados. Seria diferente, certamente, se o resultado das eleições do Domingo passado não tivesse sido aquele que foi.
RFI: Além da Ucrânia, o que também está em cima da mesa é o próprio futuro da NATO, uma vez que, como mencionou há pouco, há a sombra do regresso de Trump, que já deu a entender que a sua política seria totalmente diferente em matéria de defesa e, por exemplo, os parceiros europeus teriam que ser mais activos no seio da NATO. Os europeus não deveriam ter já pensado nessa possibilidade?
Carlos Gaspar: E pensaram. Neste momento há apenas um pequeno número de membros da NATO que não gasta mais de 2% do seu produto no orçamento de defesa e isso resulta da pressão dos Presidentes norte-americanos Obama, Trump, Biden, para garantir que a Europa tenha uma parte maior na NATO e uma responsabilidade maior na defesa da Europa. E é esse o interesse dos próprios europeus. Esta é uma velhíssima questão no quadro da Aliança Atlântica. É uma velhíssima questão no quadro da construção europeia. Não faz sentido que os países europeus, os países mais ricos do mundo, sejam de tal maneira dependentes dos Estados Unidos no que diz respeito à questão essencial da sua defesa e estratégia. Desse ponto de vista, as pressões de Trump, como as pressões do Presidente Obama antes dele e do Presidente Biden depois dele, são muito bem-vindas por todos aqueles que querem que a Europa tenha uma autonomia estratégica relevante no quadro da Aliança Atlântica.
O Presidente da Guiné-Bissau anunciou nesta segunda-feira que tenciona marcar eleições legislativas antecipadas no próximo dia 24 de Novembro e que quando regressar da visita que efectua esta semana à China, vai conduzir consultas políticas no sentido de formalizar a marcação do escrutínio.
Esta decisão surge numa altura em que o país deixou de ter um parlamento a funcionar desde a dissolução decidida por Umaro Sissoco Embaló em Dezembro do ano passado, depois de acontecimentos que ele qualificou de "tentativa de golpe de Estado".
Esta decisão surge também e sobretudo depois de os chefes de Estado e de governo da CEDEAO terem recomendado, em cimeira no passado fim-de-semana na Nigéria, que o executivo guineense "acelere o processo de realização de novas eleições legislativas para restabelecer a Assembleia Nacional Popular e permitir a eleição de membros da Comissão Nacional de Eleições".
Uma recomendação que vem, de certo modo, contrariar os pedidos de esclarecimentos dos partidos guineenses com assento parlamentar que, para além de reclamarem -sim- a realização de presidenciais ainda este ano, argumentando que o mandato presidencial termina oficialmente em Fevereiro de 2025, também pretendiam obter um posicionamento da CEDEAO sobre a eleição de uma nova direcção para a CNE e para o Supremo.
Estes foram alguns dos aspectos que focamos com Sumaila Djaló, membro da plataforma da sociedade civil 'Frente Popular' com quem abordamos igualmente a situação de divisão no seio do PRS, bem como as iniciativas que a organização a que pertence tem vindo a tomar ultimamente.
RFI: Quais são os seus comentários à decisão presidencial de marcar legislativas antecipadas para o dia 24 de Novembro?
Sumaila Djaló: É, mais uma vez, um sinal da continuidade da crise política na Guiné-Bissau, iniciada em Dezembro de 2023, com a dissolução inconstitucional da Assembleia Nacional Popular, por um decreto assinado por Umaro Sissoco Embaló, que vai contra todas as orientações da Constituição da República da Guiné-Bissau. Como se disse na altura, a Assembleia não podia ser dissolvida a menos de 12 meses das últimas eleições legislativas, nem poderia, nos últimos seis meses do mandato do Presidente da República em que estamos agora a entrar também. Mas Umaro Sissoco Embaló fez o que fez, e o país há seis meses está com a Assembleia Nacional Popular a não funcionar por uma decisão ilegal, e a crise política a agudizar-se cada vez mais, com consequências na vida das populações. Mas agora, marcar eleições legislativas para o mês de Novembro coincide com um outro acto também importante, no sentido de agravar a situação política e social no país, que é a CEDEAO adoptar uma resolução vinda da última cimeira dos chefes de Estado e do Governo, a também orientar para a realização das eleições legislativas antecipadas ainda neste ano, o que é uma forma de a organização sub-regional homologar a dissolução contra constitucional da Assembleia Nacional Popular, e mais uma vez, a não contribuir para a democratização de um Estado-Membro e a demonstrar-se cada vez mais incapaz de monitorar os Estados membros, a consolidar as suas democracias e também a debater-se com diferenças com outros países da sub-região. E a Guiné-Bissau é um caso que se torna cada vez mais paradigmático, porque a CEDEAO tem vindo a revelar-se incapaz de, de facto, ajudar o país a orientar-se para a democratização.
RFI: Relativamente a outro anúncio feito ontem, o Presidente da República, uma vez mais, deu a entender que as presidenciais seriam no ano que vem e não ainda este ano, conforme é reclamado por uma série de partidos políticos. Quais são os seus comentários?
Sumaila Djaló: Estamos, mais uma vez numa situação em que Umaro Sissoco Embaló reafirma o seu desdém para com a Constituição da República e a legalidade democrática. A Constituição ordena que o mandato do Presidente da República cesse depois dos cinco anos em que esse mandato deve acontecer. Em Novembro próximo, nós vamos entrar nos cinco anos desde a realização das últimas eleições presidenciais que conduziram Umaro Sissoco Embaló à Presidência da República, embora a tomada de posse tenha sido em Fevereiro, dia 27, de forma unilateral, devido a um contencioso eleitoral que estava a decorrer no Supremo Tribunal de Justiça. No entanto, é preciso também dizer aqui que Umaro Sissoco Embaló não se preocupa muito em infirmar acções que vão contra a Constituição da República e a legalidade democrática na Guiné-Bissau. Se não houver uma oposição política à altura dos desmandos de Umaro Sissoco Embaló e que consiga convocar o povo e outras forças vivas, políticas e cívicas da Nação Guineense para enfrentar a deriva absolutista de Embaló, as eleições vão se realizar em 2025 e teremos um Presidente com mais de cinco anos no poder. E depois, não sabemos quando é que isso vai terminar. E é preciso dizer que tudo isto acontece numa altura em que na Comissão Nacional de Eleições, temos uma direcção caduca e, mais grave ainda, no Supremo Tribunal de Justiça, temos um presídio fora da legalidade constitucional, porque o presidente legitimamente eleito pelos seus pares, foi destituído de forma abusiva das suas funções, e desde então não houve legitimação da presidência do Supremo Tribunal de Justiça através de uma eleição que deveria ser livre e imune a qualquer interferência política, como tem acontecido neste momento na Guiné-Bissau. Portanto, mais uma vez, a única forma de a Nação Guineense, toda ela reunida pela salvação da democracia e pela reposição da constitucionalidade no país, ultrapassar esta questão é as lideranças políticas, organizações cívicas e movimentos sociais encontrarem mecanismos de mobilização popular internos que consigam influenciar na retoma da ordem constitucional e regresso à democraticidade através da realização de eleições no Supremo Tribunal de Justiça, através do retorno do funcionamento da Assembleia Nacional Popular e, a partir daí, eleger-se uma nova direcção da Comissão Nacional de Eleições e só após a realização, neste ano ainda de eleições presidenciais, porque é a única via verdadeiramente democrática e constitucional de retorno à normalidade democrática no nosso país.
RFI: Relativamente ao desempenho do Supremo Tribunal de Justiça, ele acaba de validar a eleição do presidente do grupo dos "Inconformados" dentro do PRS. Portanto, ele considera que este é o líder legítimo do PRS. O que é que se pode dizer sobre este parecer, uma vez que a outra ala do PRS rejeita esta decisão e considera-a ilegal?
Sumaila Djaló: Há duas notas a tomar aqui: duas notas muito importantes, porque o PRS tinha sido um partido que ajudou Umaro Sissoco Embaló a chegar à Presidência da República, mesmo sabendo que, enquanto Primeiro-ministro entre 2017 e 2018, tinha sido muito autoritário e já tinha revelado o seu apetite para o absolutismo e para o exercício de violência como forma de restringir liberdades democráticas. Depois, houve, sim, um período relativamente curto de ruptura entre a actual direcção do PRS com Umaro Sissoco Embaló, que é o período que antecedeu as eleições legislativas de Junho de 2023, para o período que culminou com a dissolução do Parlamento que veio dessas eleições. Quando se dissolveu o Parlamento de forma claramente inconstitucional, o presidente do Partido da Renovação Social, apesar de ser jurista e de conhecer muito bem a Constituição da República e de ter informações suficientes para saber que aquela dissolução tinha sido contra a Constituição da República, não se posicionou de forma clara contra esse acto abusivo do Presidente da República. Neste momento, estamos perante, por outro lado, a afirmação de uma estratégia de caos de Umaro Sissoco Embaló no seio dos partidos políticos com assento parlamentar, de modo a que esses espaços de mobilização política se esvaziem e ele se afirme como o único salvador do país. Uma espécie de interferência nos partidos que não se alinham com a sua ditadura. Está a acontecer com o PRS. Está a acontecer no MADEM-G15 que é o partido que curiosamente ajudou a fundar, mas do qual se desvinculou. Está a acontecer no PAI Terra Ranka, nomeadamente no PAIGC que é o maior partido desse espaço, mas também no APU-PDGB, que foi outro partido que o ajudou a chegar à Presidência da República e que teve o seu líder no governo ilegal instituído por Umaro Sissoco Embaló, desde Março de 2020 até as últimas eleições legislativas de 2023. Portanto, o caso do PRS é mais uma demonstração de que o Supremo Tribunal de Justiça está ao serviço de Umaro Sissoco Embaló e não a funcionar dentro do quadro da legalidade. Porque, repare, a direcção interina do PRS liderado por Fernando Dias, veio de uma escolha do Conselho Político Nacional do PRS, que é o órgão que funciona entre congressos para a tomada de decisões nesse espaço político. A tal direcção, eleita num dito congresso extraordinário dos "Inconformados", não teve nem anuência do Conselho Político do Partido da Renovação Social, nem teve caminhos estatutários no quadro do mesmo partido para a realização desse Congresso. Fê-lo em paralelo a um Congresso convocado pela direcção legítima do Partido da Renovação Social, para instalar uma onda mais aguda de confusão no seio do Partido da Renovação Social e possibilitar que Umaro Sissoco Embaló construa o seu caminho, sem oposição política contundente no sentido de obrigar a respeitar os ditames constitucionais e a legalidade democrática no país. Mas também é uma forma de dizer aos partidos políticos que a defesa da Constituição e da legalidade democrática, não pode ser feita por conveniência. Esses valores têm de ser defendidos independentemente dos interesses localizados, independentemente das conveniências partidárias. São valores que nos podem assegurar a justiça, a equidade e a igualdade de circunstâncias, tanto na mobilização política, como no exercício de cidadania em geral no nosso país. O PRS tem-se demonstrado titubeante na realização do seu compromisso com esses valores democráticos e hoje está a pagá-lo na sua pele, através de interferências do tipo que estamos a verificar nesta altura do Supremo Tribunal de Justiça, orientado por um interesse político claramente identificado.
RFI: É neste contexto que a Frente Popular anunciou há dias que não só interpunha uma acção contra o Estado e membros do Governo da Guiné-Bissau pelos acontecimentos do passado mês de Maio, mas que também tenciona lançar acções no exterior. O que é que nos pode dizer exactamente sobre a vossa iniciativa e, sobretudo, sobre as vossas expectativas relativamente a estas acções?
Sumaila Djaló: Nós estamos a preparar um conjunto de acções, tanto de protestos, como de resistências de outras formas, a partir do próprio território guineense e a partir de outras instâncias internacionais. Há uma queixa-crime a ser preparada através da Frente Popular, com assistência da Liga Guineense dos Direitos Humanos e apoio de um conjunto de advogados franceses, especialistas nestas questões de justiça internacional. Uma queixa que se vai apresentar a partir dos tribunais franceses para outras instâncias que se venham a identificar como sendo possibilidades nesse sentido. Trata-se de denunciar ataques de que os nossos colegas foram alvos na nossa última manifestação, a 18 de Maio, em que 93 pessoas foram presas e torturadas de forma brutal nos cárceres do Ministério do Interior, a mando do regime instituído no país e encabeçado por Umaro Sissoco Embaló. Mas no próximo dia 27 de Julho também temos uma manifestação a acontecer em Bissau, mais uma manifestação popular para exigir o retorno à ordem constitucional, a realização de eleições presidenciais ainda neste ano, a legitimação do Supremo Tribunal de Justiça, mas também da Comissão Nacional de Eleições e, por outro lado, a resolução de graves problemas sociais na saúde, na educação e de uma população que perde poder de compra a cada dia que passa. Também essa manifestação estender-se-á a várias localidades da diáspora, como aconteceu na manifestação de 18 de Maio passado em Portugal, na França, possivelmente no Brasil e noutras localidades. Temos colegas a se mobilizarem nesse sentido para denunciar a ditadura encabeçada por Umaro Sissoco Embaló, para defender os valores da República e da democracia, porque a República da Guiné-Bissau está ameaçada pela instituição de um absolutismo, um autoritarismo encabeçado por uma única pessoa que se autodenomina de único chefe. E nós não podemos ficar passivos perante todas estas situações de violações gritantes da Constituição da República e de perigos ao multipartidarismo e ao processo de fortalecimento da democracia no nosso país.
A nova frente popular venceu as eleições legislativas deste domingo. A coligação de esquerda elegeu 182 deputados.
O movimento presidencial juntos pela república elegeu 168 deputados, a União Nacional e aliados conquistam 143 lugares no parlamento. A participação foi de 66,6%. "Estamos numa situação muito complicada, numa tripartição da vida política francesa e vamos viver um momento de experimentação", defende o professor auxiliar na Universidade de Paris-Nanterre, Christophe Araújo.
RFI: Que leitura se pode fazer, venceu a frente republicana ?
Christophe Araújo: É uma leitura um pouco complicado com esta nova configuração que nunca conhecemos durante a V República Francesa. Temos de um lado, uma curta vitória dos partidos de esquerda que se uniram nesta Nova Frente Popular, que é uma criação muito recente. Vemos aqui o sucesso da Frente Republicana que uniu as forças centrais com as forças de esquerda contra a extrema-direita. Mas, ao mesmo tempo temos de considerar e de olhar que as conclusões vão ser complicadas porque há uma parte do centro que não quer governar com a esquerda. A esquerda não quer também governar com o centro, mas vemos muito bem que há uma impossibilidade, porque para encontrar uma maioria absoluta vai ser sempre necessário negociar, que é um hábito pouco francês desde o início da V República, onde havia quase sempre uma maioria absoluta ou então pelo menos um partido com o qual era possível fazer uma forma de coligação. Aqui estamos numa situação muito complicada de uma tripartição da vida política francesa e vai ser um momento de experimentação política da qual ainda não sei muito bem como é que vai resultar este cenário.
Um mês depois da dissolução do Parlamento, o Chefe de Estado está perante uma Assembleia ingovernável?
Se continuarmos na maneira com a qual foi sempre praticada a vida política francesa com maiorias é ingovernável. A única solução seria propor, como já foi o caso na Itália, mas nunca foi o caso em França, creio eu, um governo técnico além dos partidos, para conseguir continuar a vida política sem que haja um bloqueio do lado da Assembleia legislativa. Mas não sei se será algo de muito viável e isto irá daqui um ano, no mínimo, já que não podemos ter novas eleições antes de um ano, novas eleições e de novo uma forma se calhar de incerteza. Não sabemos muito bem como é que vamos conseguir sair desta situação, tirando esta necessária cooperação entre os partidos, quer do centro quer da esquerda, para encontrar uma plataforma de ideias para encontrar uma maneira de governar.
Nenhum partido consegue uma maioria absoluta. Para isso seria necessário eleger 189 deputados. Nenhum partido pode governar sozinho. A nova configuração parlamentar pode criar um risco de 'paralisia' e a Constituição da V República foi feita para que fosse possível governar sem maioria, nomeadamente com artigos como o 49,3?
Sim, é uma situação muito difícil. Estamos muito longe dos 289 deputados. A situação anterior era uma minoria, um governo sem maioria absoluta. Os centristas conseguiram encontrar com muitas dificuldades, uma maneira de negociar, quer com a direita, quer com a esquerda.
Aqui estamos numa situação ainda mais complicada porque o primeiro partido só tem 182, com os outros deputados de esquerda, que são os 12 dá 190 e então faltam quase 100 deputados para conseguir esta maioria absoluta. É impossível encontrar uma maneira de governar sem ter uma negociação entre pelo menos dois partidos dessas grandes coligações que foram criadas; a nova Frente Popular, Renascença, que é o partido centrista, ou então também a extrema-direita. Mas mesmo assim, quer do lado da União Nacional, não há possibilidade, até com os partidos de direita, de encontrar esses 289 deputados. É uma complicação e vai ser algo de mesmo difícil de governar.
O primeiro-ministro entregou a demissão ao Presidente esta manhã. Emmanuel Macron pediu a Gabriel Attal para que fique fica à frente do governo mais um tempo. Isto significa que vai haver um tempo de transição entre o actual governo demissionário e o próximo governo com vista ao calendário dos Jogos Olímpicos, mas também porque as conversações vão ser demoradas, podem ser longas para se chegar a um entendimento?
Temos claro este contexto um pouco internacional, tendo em conta a aproximação muito rápida dos Jogos Olímpicos e a necessidade de haver alguém, pelo menos um governo num país que vai acolher o mundo. Era um previsível que houvesse esta continuidade, pelo menos durante umas semanas ou, digamos, até o início de Setembro.
Agora vai ser também uma maneira de entrarem num processo de negociação, quer do lado também da nova Frente Popular, que apesar de ter chegado em primeiro lugar, não há um nome no qual todos os partidos concordam para apresentar ao Presidente da República, para depois entrar num processo de negociação com as outras forças da qual vai ser necessário, porque é preciso ter uma avaliação da Assembleia Nacional para haver uma confirmação do governo. Se houver uma rejeição dos outros partidos que formam a Assembleia da República, haverá um bloqueio. Vão ser mesmo momentos de negociações tensos, quer do lado da esquerda, quer do lado do centro, para ver o que é que vai ser possível formar como governo. Nesta dinâmica, já estamos a ver que a França Insubmissa, que é uma das principais tendências da nova Frente popular, é um pouco a figura que é muito criticado, quer do lado do centro, quer do lado da extrema-direita, também um pouco no seio da nova Frente Popular. Vai ser necessário encontrar uma figura que é mais do centro para poder abranger um pouco mais deputados, para ter um governo que seja possível.
O Presidente francês ainda não se pronunciou, está à espera de conhecer a nova configuração parlamentar, os deputados têm até dia 18 deste mês para constituir a nova Assembleia. Quem nomeia o primeiro-ministro, segundo a Constituição francesa, é o artigo número 8 é Emmanuel Macron. O Presidente vai chamar a Matignon o líder do partido mais votado? Quais é que são os cenários possíveis?
O cenário mais lógico seria de dar a possibilidade de formar um governo ao partido mais votado, ou seja, à nova Frente Popular para ver se consegue ou não eleger depois, ter uma avaliação de parte da Assembleia Nacional. As várias possibilidades; uma pessoa de direita é quase impossível porque nunca chegaram a um número que seja suficiente. O mais provável um candidato da nova Frente Popular que seja designado e vai ser necessário encontrar uma figura que não seja assim repelente - estou a pensar no caso da França Insubmissa, que foram muito criticadas por causa dos posicionamentos que tiveram durante a legislatura que acabou.
Vai ser um pouco um momento de grande negociação. Não sabemos se será uma figura política ou uma figura da sociedade civil, ou seja, uma figura um pouco fora dos partidos, com uma tendência ou com uma proximidade ideológica da nova Frente Popular -para não ter esta dimensão muito partidária e vai ser, creio eu, necessário encontrar uma figura que crie consenso e que não seja uma figura que vai ser mesmo repelente ou que vai complicar esta negociação que vamos ter de criar em França, que é uma coisa, como já já referenciei, inédita e que vai ser necessário encontrar, senão vamos ver esta paralisia. Há um pouco uma necessidade de encontrar uma figura. Não sei se será a esquerda, se calhar também pode ser no centro uma figura mais do centro-esquerda para tentar um pouco aproximar as pessoas da nova Frente Popular. Mas vai ser muito complicado mesmo. Vai ser muito complicado encontrar este nome para um governo francês.
Houve um nome proposto há dez dias pelo socialista Raphaël Glucksmann, o do antigo dirigente sindicalista, Laurent Berger, como possível primeiro-ministro. Ainda faz sentido hoje?
Pode ser uma figura que seja interessante, no sentido em que não faz parte da vida política, dos partidos políticos. Tem uma tradição de participação sindical mais de centro-esquerda ou mais do centro. Até porque o partido é um sindicato que não é assim muito próximos das tendências mais da esquerda radical. Pode ser um nome que tenha um pouco uma possível capacidade de atracção das pessoas do centro, mas também é uma figura que foi uma proposta do Partido Socialista, mas não vejo assim muito dos outros partidos da esquerda, que pertence a esta nova Frente Popular, aceitarem o nome de uma pessoa da qual temos este marco de uma aceitação da reforma das pensões de 2019. Não é uma figura tão apreciada na esquerda francesa, então não sei se seria um nome mais sensato para um actual governo.
A União Nacional de extrema-direita consegue eleger de quase duas vezes mais deputados. Em 2022, conseguiu 4 milhões de votos, dois anos depois, ontem, votaram 9 milhões de franceses para a União Nacional. Na campanha assistimos à violência e a propósitos racistas, estes comportamentos foram, de alguma forma, legitimados pela União nacional?
Penso que sim. Houve uma forma de legitimação, mas ao mesmo tempo, foram também argumentos e ideias que incentivar as pessoas a reagir e a ir votar contra essas ideias. Porque vimos também que muito dos candidatos da União Nacional não estavam de todo preparados para participar na vida política. Vimos também o passado destes candidatos que tinham tido propósitos racistas, homofóbicas, anti-semitas. Essas figuras contrariaram um pouco esta imagem da União Nacional que se apresenta como um partido que é mais sério, que já não é tão extremo como o foi [no passado]. Ao mesmo tempo, como vemos com esta progressão do voto de extrema-direita que é cada vez mais forte - não podemos esquecer estes dado até porque toda a gente pensava que eles iam ficar na frente. Ficaram aquém do que estávamos a pensar, mas ao mesmo tempo há uma progressão clara. Essas ideias, essa questão do papel da imigração, da questão do racismo assumido e dessas ideias, vemos aqui, é o sinal de uma forma de fragmentação e de dificuldades sociais que podemos observar para essas pessoas que são consegue convencer outras pessoas neste sentido.
Em França, decorre hoje a segunda volta das eleições legislativas com a extrema-direita a ter a dianteira em muitas dos 501 círculos eleitorais que ainda falta apurar. Em Bernes-sur-Oise, uma aldeia de cerca de 2.500 habitantes, vota-se numa triangular em que a extrema-direita tem a dianteira, algo que chocou a população.
Em Bernes sur Oise, uma aldeia na extremidade norte da região de Ile de França, a região de Paris, é um dia importante para Jocelyne Borges de Carvalho, franco-cabo-verdiana, que hoje veio votar para impedir a chegada ao poder da extrema-direita no seu cículo eleitoral.
"É extremamente importante votar hoje, este domingo, na segunda volta das eleições legislativas, porque é importante pelo menos para alguém que nasceu e cresceu em França, com pais cabo-verdianos, é importante defender os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que são valores franceses, mas também o valor da diversidade. Por isso, eu própria não tenho necessariamente uma cor política, mas convido realmente as pessoas a virem votar para que possamos viver todos serenamente", disse a eleitora em entrevista à RFI.
É no 1º círculo eleitoral da região de Val d'Oise que acontece uma das 89 eleições triangulares onde três candidatos disputam a segunda volta das eleições. Aqui, em Bernes sur Oise, a candidata da União Nacional, Anne Sicard, chegou em primeiro lugar há uma semana, com 33,65% dos votos. O candidato da Nova Frente Popular, Maximilien Jules-Arthur, em segundo, e Emilie Chandler, do campo do Presidente, decidiu não desistir e continuar na corrida. O aumento dos votos na extrema-direita face às eleições de 2022 chocou uma parte da população.
"O que marcou mais as pessoas aqui em Bernes sur Oise foi a ascensão da extrema-direita, um partido que defende valores que são contra a diversidade e contra os direitos das mulheres. Portanto, espero realmente que as pessoas venham votar contra este partido", constatou.
Esta manhã, por volta das 13:00, já tinha votado 38% da população, mais do que a média nacional que se situava por volta dos 26%.
Com 34 anos, e tendo crescido em cidades multi-culturais entre a região parisiense e Amies, Jocelyn vê-se agora confrontada com um discurso de ódio e uma agressividade que diz nunca ter visto até agora em França.
"É verdade que este discurso de ódio e racista está a crescer cada vez mais. Antes, em todo o caso, a União Nacional, antiga Frente Nacional, não tinha esta força. Desde que vivemos nesta crise e neste período de grande inflação, as pessoas estão a ter dificuldade em sobreviver e já não acreditam no que lhes é oferecido, por isso tendem a ir para um partido porque não conhecem. Mas também se esquecem de onde vem esse partido. Portanto, acho que as pessoas estão muito preocupadas por tudo o que afecta a sua vida quotidiana e querem mesmo mudar", declarou.
Para esta franco-cabo-verdiana, o que a assusta mais são os valores com os quais o filho será confrontado caso a extrema-direita triunfe.
"Tenho muito medo destas convulsões porque, hoje, não sabemos o que vai mudar. Mas eu preferia que o meu filho crescesse num país que defende a liberdade e a diversidade, onde todos podem viver juntos, tanto mais que ele também cresceu em Sarcelles, uma cidade muito cosmopolita onde todas as nacionalidades vivem juntas. E eu quero realmente que ele cresça num ambiente são, sem ódio, mas que também respeite estes valores ligados à igualdade, uma igualdade que lhe permita dizer que aqui é possível, e se ele quiser ser Presidente, pode ser Presidente, sem se sentir limitado pelas escolhas politicas deste país", concluiu.
A preocupação estende-se a toda a comunidade cabo-verdiana, com alguns membros a ponderarem mesmo um regresso ao país de origem ou país de origem dos seus pais, embora esta seja uma volta difícil para quem viveu toda a sua vida em França.
As pessoas partilham os seus medos, os seus receios de ter obstáculos aos seus direitos em França. Por isso, inevitavelmente, estamos sempre a falar disso, a toda a hora. Neste momento, as pessoas não estão serenas e têm medo do resultado. Já ouvimos as pessoas dizerem talvez volte para Cabo Verde. Se alguma vez a extrema-direita chegar ao poder, fala-se nisso. Temos sorte em poder voltar ao nosso país de origem. Só que não é também não é uma vontade, porque Cabo Verde é um país onde gostamos de ir de férias, mas faltam algumas infra-estruturas, nomeadamente a nível da saúde e alguns reformados aqui em França de cuidados de saúde e têm medo de voltar. Mas ainda é muito cedo para falar deste tipo de extremos.
Este final de tarde, Jocelyn estará entre um número limitado de cidadadãos que vão ajudar a contar os votos, fazendo viver em cada mesa eleitoral o espírito republicano independentemente do candidato mais votado.
Catarina Falcão,
Bernes sur Oise,
RFI
Termina esta sexta-feira, 5 de Julho, a campanha para a segunda volta das eleições legislativas francesas. À segunda volta concorrem 1094 candidatos em 501 círculos eleitorais. O partido d'Os Republicanos foi o único a não dar indicação de voto aos seus eleitores. "Não queremos dar hipótese aos extremos que tentam monopolizar o discurso extremista", justifica o vice-presidente da câmara municipal de Aulnay-sous-Bois, na região parisiense, Paulo Marques.
RFI: O que espera do escrutínio de domingo?
Paulo Marques: Esta segunda volta, no que diz respeito aos Republicanos, obviamente, vão ser poucos os candidatos em França. Vai haver escassos candidatos, esperando que haja perto de uns 80 que possam ser eleitos dos 577 deputados à Assembleia da República Francesa. Esta é uma segunda volta que permite, nomeadamente de ter em vez de ter as 300 triangulares, isto é com três candidatos por circunscrição, nomeadamente, houve vários que se desistiram, mais de 200 desistiram, permitindo uma escolha binária, escolher entre dois candidatos. Estamos a falar de umas eleições onde não se fala de um programa, mas de se colocar contra um ou outro candidato. Isso é muito mau e não facilita, nomeadamente a leitura de um próximo governo e da próxima Assembleia da República.
O risco é precisamente esse, do país ficar ingovernável?
Sim, Emmanuel Macron tinha uma maioria muito escassa na Assembleia da República. O que pode suceder é que haja uma coabitação, mas quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente da República. E, sabendo-se que não vai haver maioria clara, Emmanuel Macron escolherá muito provavelmente um primeiro-ministro que lhe seja mais favorável ou não. Também pode depender do resultado da União Nacional e aí iremos ver qual será a iniciativa. Mas não esquecer que o regime presidencialista de França e as directivas de orientações do governo são feitas pelo Presidente da República e, óbvio, se ele escolher o candidato mais votado no próximo domingo, terá o que nós dizemos uma coabitação. Coabitação essa que não permitirá que na Assembleia da República se possa construir um programa que foi, aliás, divulgado durante esta campanha escassa. De frisar também que quem estiver a governar irá trabalhar com a Assembleia da República e com o Senado, cuja maioria é d'Os Republicanos. Aqui está a grande dificuldade em que haver novas leis e o exercício democrático das nossas instituições será facilitado.
Em sete círculos eleitorais, os candidatos do partido Os Republicanos não desistiram para evitar que a extrema-direita chegue ao poder, como o fez, por exemplo, a coligação de esquerda, a Nova Frente Popular, ou coligação presidencial Juntos pela República. Pergunto-lhe por que motivo estes sete candidatos não desistiram?
Houve desistências só que foi, nomeadamente, do Éric Ciotti. Aí é que se vê o que é que é um indivíduo fascizante; o presidente d'Os Republicanos decidiu unilateralmente aliar-se com a União Nacional da Marine Le Pen. Nós verificamos aí que ele nem às bases solicitou para essa medida. Ele hoje está só e os republicanos de França, obviamente, em função do lugar onde estão, de território em território, fizeram ou não a possibilidade de se retirarem. Nós temos, nalguns distrito e nalguns territórios, a França Insubmissa contra outro candidato da França Insubmissa. Temos também noutros lugares também a União Nacional contra Os Republicanos. Esta é uma eleição local, é uma eleição com candidatos uninominais que não é de lista. É óbvio que a realidade territorial faz com que haja uma diversidade de acordos ou não acordos, mas não são os acordos nacionais que permitem uma realidade depois no terreno.
Pode se dizer que existe um braço-de-ferro entre duas alas do seu partido, do partido d'Os Republicanos?
Não, não há duas alas. O presidente decidiu estar sozinho e fazer um acto fascista, decidindo unilateralmente o que nós, militantes, deveríamos fazer. O que nos diz respeito é que não temos Éric Ciotti como presidente, já não é o nosso presidente e nós, que temos a maioria dos municípios em França, nós estamos em responsabilidade com os nossos munícipes, com a nossa realidade e é isso que nos interessa.
É possível uma reconciliação com o Éric Ciotti?
Não, não, obviamente. Eu, aliás, nunca votei em Éric Ciotti, mas como eu, muitos decidiram ficar no partido d'Os Republicanos, porque não é fugindo, não é ao estar ausente que nós participamos no debate, que nós participamos a dar as nossas ideias e termos um partido pró-activo. Obviamente que Éric Ciotti se pôs à margem d'Os Republicanos e nós continuamos o nosso trabalhinho iniciado nas autarquias porque temos maioria, no Senado também temos maioria e somos um partido responsável. E quem não estiver bem nesse partido, olhe, como se diz cá: podem juntar-se a Éric Ciotti.
Temos em mente as nossas populações e podem confiar nos nossos autarcas, nos nossos presidentes de câmaras, nos políticos que estão mais próximos dos cidadãos e dos seus munícipes.
Fala-se do risco do partido dos Republicanos desaparecer. Quando em 2017, Emmanuel Macron chegou ao poder acabou com a dicotomia entre os partidos tradicionais de esquerda e de direita. Os republicanos já formaram muitas vezes governo, tiveram sucessivos presidentes, nomeadamente Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy. O perigo do partido desaparecer é real?
Esta foi a promessa que Emmanuel Macron fez quando chegou a Presidente da República: comigo não haverá nem esquerda nem direita. Ele conseguiu e tem os extremos; a extrema-direita e a extrema-esquerda. No entanto, nos territórios, a realidade é que as pessoas quando vão eleger os seus presidentes de câmaras, os seus conselheiros distritais ou os seus conselheiros regionais vão eleger pessoas que estão muito próximo dos seus munícipes e do dia-a-dia. Os primeiros políticos com quem lidamos são os que nos são próximos e muitas vezes são os presidentes de câmaras. Aí temos que ter essa noção muito clara de proximidade, de resposta aos nossos munícipes, aos anseios das nossas populações e é verdade que com este trabalho conseguiremos muito provavelmente ter uma direita, não sei se será os republicanos ou se temos que encontrar eventualmente outra estrutura, mas a realidade é que nos territórios municipais são os republicanos que têm a maioria e no Senado também.
Por que motivo é que o partido d'Os Republicanos não deu indicação de voto?
Nós não damos é hipótese e oportunidade de os extremos tentarem monopolizar o discurso extremista. De um lado, os que querem retirar as armas aos polícias e andarem na rua com as mãos nos bolsos e do outro lado, os que estigmatizam os imigrantes. Isto não tem lógica nenhuma. Aliás, os nossos munícipes já não compreendem essa problemática dos partidos e também dizem por que é que são os partidos, porque é que é a nível nacional que tem que nos dizer qual é o voto que eu tenho que indicar? Temos que ser realistas.
Depois da forte participação de domingo passado, as pessoas não estão à espera das posições dos partidos ou dos presidentes de partidos a nível nacional para decidir em quem votar.
Os Republicanos passaram os últimos anos a criticar a política de Emmanuel Macron. É possível que criem uma aliança com o Partido Presidencial Renascença. O primeiro-ministro Gabriel Attal afirmou nos últimos dias que seria possível uma grande aliança com partidos de esquerda, com partidos do centro e os republicanos. Este figurino faz sentido para si?
Fala-se muito numa aliança quando 'existe um perigo em casa ou dentro dos partidos', eles querem decidir pelos militantes. Parece-me que são medidas unilaterais, pensamentos muito nacionais e hoje temos que ter em preocupação qual estado do país vamos ter domingo. Qual será o futuro da situação política? A grande problemática é a nível nacional não responder aos anseios das pessoas. Eles não responderam à inflação e foram muitas vezes as autarquias que tiveram que responder à ausência de Emmanuel Macron no que diz respeito à proximidade com as nossas comunidades francesas. Isso foi muito mau. Hoje ele tem o resultado que é quase uma brincadeira de mau gosto porque aniquilando a esquerda e a direita e estamos com dois extremismos que se enfrentam. Depois das eleições temos de ter a maior união possível porque o que é importante é responder aos anseios das pessoas.
Portanto, o seu partido vai posicionar-se, muito provavelmente a partir de segunda-feira, como um partido da oposição, independentemente dos resultados?
Exactamente, haverá uma oposição construtiva porque nós estamos nos nossos terrenos, estamos com as pessoas e o facto de estarmos com as pessoas, elas querem compreender e nós temos que explicar regularmente quando estamos com o movimento associativo, quando estamos com os pais nas escolas, etc. Temos que ter esse posicionamento muito terra-a-terra e de proximidade, porque a situação é complexa. Nós seremos obviamente uma oposição de construção e em responsabilidade.
Os franceses são chamados às urnas, novamente este domingo para a segunda volta das eleições legislativas francesas. Philippe Pereira, vereador em Nogent-sur-Marne, arredores de Paris, e militante do partido presidencial Renascença (Renaissance) reconhece que a complexidade do panorama nacional e relembra que estão fora de questão alianças ou coligações com a extrema-direita.
Os franceses são chamados às urnas, novamente este domingo para a segunda volta das eleições legislativas francesas.
Na corrida à Assembleia Nacional estão, essencialmente, o partido de extrema-direita União Nacional, Rassemblement National, favorito nas sondagens, a aliança das esquerdas na Frente Popular e a lista presidencial juntos, Ensemble.
Philippe Pereira, vereador em Nogent-sur-Marne, arredores de Paris, e militante do partido presidencial Renascença (Renaissance) reconhece que a complexidade do panorama nacional e relembra que está fora de questão alianças ou coligações com a extrema-direita.
Quais são as expectativas para a segunda volta das eleições no domingo?
Expectativas para quem? Para mim, para o nosso partido?
Para si e para o partido que também representa?
Estou actualmente a conduzir a campanha de um candidato da Renascença (Renaissance) na minha circunscrição. Estamos com algumas esperanças, mas a lutar até à última hora para confirmarmos o resultado da primeira volta e numa triangular com o Rassemblement National (União Nacional), o que não facilita as coisas. No que diz respeito aqui à circunscrição, tudo leva a crer que o Rassemblement National (União Nacional) não vai alcançar os objectivos.
A nível nacional, temos que reconhecer que a situação está muito complicada. Não acredito que a Rassemblement National (União Nacional) chegue à maioria absoluta. Na segunda volta, as pessoas nem sempre confirmam o descontentamento que tinham na primeira volta e também tomam consciência da gravidade que seria termos uma maioria absoluta primeiro, e depois um Governo formado pelo Rassemblement National (União Nacional), pela extrema-direita.
Equaciona a possibilidade do seu partido, o partido presidencial, poder vir a formar Governo?
Pelo que temos agora à nossa frente, não acredito que consigamos por nós próprios formar um Governo maioritário ou, pelo menos, alcançar uma maioria que nos permita ter um Governo sozinhos. Governo de coligação, com certeza. E acho que é a única hipótese imaginável a partir do dia 08 de Julho, tendo em conta a situação do país. A nossa esperança tem de ser essa.
Mas coligação com quem?
Tem que ser com as forças republicanas e com os candidatos republicanos que tenham sido eleitos no dia 07 de Julho. Quando digo republicanos, não estou a pensar nos LR [Os Republicanos, Les Republicans, partido de direita tradicional] propriamente dito. Estou a pensar nos candidatos, que apesar de serem do novo Front Populaire [Frente Popular, aliança de esquerda] sejam oriundos dos partidos mais dispostos a governar o país.
Os seus deputados que não sejam da França Insubmissa [esquerda-radical]?
Exactamente.
O facto de nem o primeiro-ministro Gabriel Attal, nem o Presidente da República Emmanuel Macron, darem uma indicação de voto clara e explícita, não pode deixar os eleitores do seu partido confusos?
Sim, à primeira vista, pode ser a impressão que temos de não haver instruções claras a nível nacional, mas acho que, apesar de tudo, trata-se, obviamente, de eleger os deputados da nação, mas também se trata de ter uma análise local em cada circunscrição.
Nem sempre o contexto é o mesmo e nem sempre as equações são as mesmas.
Parece-me ainda necessário poder haver alguma análise de caso por caso. Acho que é indispensável.
Mas numa disputa entre Rassemblement National, União Nacional, e a Frente Popular, em quem é que votam os eleitores do Juntos (Ensemble), a lista presidencial?
Até agora, deste ponto de vista, a mensagem tem sido clara. Vale mais votar pela Frente Popular e convém votar Frente Popular, quando os candidatos do Juntos (Ensemble) já não estão a concorrer.
Com o Rassemblement National, União Nacional, e falo aqui a nível pessoal, não há hipótese de alianças e de coligações. Isso não é possível.
Depois é ver caso por acaso. Quem é o candidato da Frente Popular, circunscrição por circunscrição, que não seja LFI (França Insubmissa) se possível.
A França Insubmissa que era diabolizada até há uma semana, agora é menos diabolizada para a não subida ao poder da extrema-direita. Acaba por haver aqui alguma confusão ou falta de clareza.
De certa forma é, não posso desmentir. Temos de ser claros e objectivos. Mas tem havido, talvez não por parte do Presidente da República, mas por parte de outros ministros ou responsáveis políticos a distinção entre os candidatos da Frente Popular, os que sejam oriundos do PS, dos Verdes ou do Partido Comunista e aqueles que são oriundos da França Insubmissa.
Ainda dentro da França Insubmissa, há certos políticos que têm apresentado um discurso muito mais responsável e racional do que outros. E aí também se poderá fazer alguma diferença. Agora, conhecemos bem os candidatos da França Insubmissa que não estão numa postura republicana e consensual.
Mas, em todo o caso, a extrema-esquerda não é igual à extrema-direita?
Não é, os valores não são os mesmos. Falo a título pessoal, uma vez que não sou porta-voz do meu partido, mas o Rassemblement National, União Nacional, faz diferença entre os homens pela sua qualidade humana.
O seu partido, chega a este acto eleitoral algo fragilizado. Não corre o risco de o partido Renaissance desaparecer.
Não acredito que a questão seja da sobrevivência ou desaparecimento. Agora, o que é necessário é uma recomposição do nosso partido e do bloco central. É necessário haver alguma alternativa, convém haver uma recomposição alargada no centro para poder haver outras alternativas, que sejam responsáveis como partidos de Governo.
Se efectivamente a extrema-direita chegar à maioria na Assembleia Nacional, a responsabilidade não é de Emmanuel Macron, que acabou por lhe abrir as portas?
Responsabilidade tem a partir do momento em que tomou essa decisão. A responsabilidade é dele. Mas maior ainda será a dos franceses. A responsabilidade dos franceses escolherem dar uma maioria, seja ela relativa ou absoluta, ao Rassemblement National, União Nacional. É responsabilidade dos franceses, não estou a fazer juízo nenhum. Mas quem tem responsabilidade, quem elege, são os eleitores.
Os cidadãos portugueses, cabo-verdianos, de origem estrangeira, que vivem aqui em França estão ameaçados caso a extrema-direita consiga uma maioria parlamentar?
Espero bem que não. Ainda tenho muita fé e confiança no sistema institucional francês, que é bem feito e com muitos contrapoderes e que mesmo assim, um Governo, seja lá qual ele for e nem que seja de extrema-direita, não poderá fazer tudo o que entende e tudo o que promete.
Depois, o princípio da realidade levará o Rassemblement National (União Nacional), se no pior dos casos alcançar o Governo, a não tomar as decisões todas que prometeu no programa.
Agora, algum receio temos de ter. Os meus pais nunca me pediram a nacionalidade francesa. São estrangeiros. A minha esposa é britânica, não tem nacionalidade francesa. Eu tenho dupla nacionalidade e os meus filhos têm três. Portanto, estamos no olho do furacão Furacão.
Mas diga-se de uma vez por todas, cidadão francês ou cidadão de um país, seja qual ele for, não é só uma questão de papel e de autorização. Há princípios que fazem com que ninguém nunca tenha o direito de me recusar a mim, por exemplo, o facto de ser cidadão francês pleno e inteiro, como também sou cidadão português.
Virgínia de Oliveira é candidata da União Nacional e concorre no 3º círculo eleitoral de Loir-et-Cher. A luso-descendente acredita que a "França governada pelo nosso partido [União Nacional] será a verdadeira França". No domingo, a candidata de origem portuguesa quer levar o maior número de eleitores a votar na segunda volta das legislativas francesas.
No domingo, 7 de Junho, decorre a segunda volta das eleições legislativas em França em mais de 500 círculos eleitorais. No 3º círculo eleitoral de Loir et Cher há dois candidatos Virgínia de Oliveira, candidata da União Nacional, que conquistou 40% dos votos e Christophe Marion da coligação Juntos pela República que se apresenta como candidato do partido Renascença e que obteve 36% na primeira volta.
Em entrevista à RFI, Virgínia de Oliveira, luso-descendente, defendeu que o seu partido não é de extrema-direita, mas sim um "partido patriótico e de direita" e esclareceu que Jordan Bardella só aceita ser primeiro-ministro caso o seu partido consiga uma maioria absoluta.
RFI: Quais é que são as expectativas para a segunda volta das eleições no domingo?
Virgínia de Oliveira: Bem, as minhas perspectivas para esta segunda volta são as de conseguir o maior número possível de pessoas a votar. Nesta segunda volta, é preciso entender que enfrento um político macronista cessante, o Senhor Christophe Marion, que aceita -pelo menos, é a minha leitura - formar uma aliança com a Nova Frente Popular. Não compreendo de todo esta postura, mesmo a nível nacional em aceitar trabalhar com estes indivíduos e estas pessoas. Porque quando se conhece bem as ideologias e, especialmente, aquilo de que são capazes fico indignada... fico mesmo indignada. E digo, cá para mim, se esta é a sua única forma de quererem manter o seu lugar, não é nada bom.
Estão prontos para governar com e sem maioria absoluta?
Penso que Jordan Bardella deixou isso bem claro. Ele aceita ser primeiro-ministro só no caso de conseguirmos uma maioria absoluta.
A França passa a ser uma país diferente com um governo da União Nacional?
Não.. quer dizer, a França governada pelo nosso partido não será nem mais nem menos França, mas será a verdadeira França. É isto.
Temos de manter e preservar a nossa identidade. E penso que mesmo eu, oriunda da imigração, quando os meus pais chegaram, e posso até recuar mais longe porque na minha família foi o meu bisavô veio para França durante a Primeira Guerra Mundial, penso que nos assimilámos... Não gosto da palavra assimilar, apenas soubemos adaptar-nos com normalidade porque este é um país que nos acolheu e porque respeitámos as regras deste país.
Acho que toda a gente deveria fazer o mesmo. Há que respeitar o país em que se vive e, sobretudo, no que diz respeito à minha família, respeitámos o país que nos acolheu e que nos permitiu, a mim de ir à escola, aos meus pais de se desenvolverem profissionalmente em bons empregos, uma vez que o meu pai foi director de uma empresa. É o respeito antes de tudo e posso garantir-vos que, se chegarmos ao poder, não vai haver problemas nem para as pessoas de oriundas da imigração, nem para qualquer outra coisa. Há que respeitar o país, há que respeitar as regras, e nós não temos qualquer problema com isso. Por isso, esse rótulo, se quiserem, de racista. Não há racismo no nosso movimento. Pronto !
Como é que explica o aumento substancial de eleitores nestas eleições legislativas deram a vitória à União Nacional, que votaram no seu partido nesta primeira volta?
É muito simples, penso que os franceses estão fartos! Querem acções reais e medidas concretas. Penso que lhes mentiram muitas vezes, lhe mentiram demasiadas vezes. Como já dissemos, e como já disso o presidente do nosso movimento, Jordan Bardella, temos de ser transparentes com os franceses e ser capazes de lhes dar respostas a todas as suas perguntas e a todos os seus problemas. E é por isso que a nossa prioridade é o poder de compra dos franceses e a sua segurança, porque, de qualquer forma, quando olhamos para as sondagens, essa é também a sua prioridade no dia-a-dia. Temos conseguir mesmo dar aos franceses meios para terem um maior poder de compra do que aquele que têm hoje e mais segurança.
No seu círculo eleitoral, o 3° de Loir et Cher enfrenta na segunda volta um candidato da ala presidencial, da coligação Juntos pela República, Christophe Marion, isso dificulta a possibilidade de ganhar ou está confiante?
A minha resposta é que me mantenho sempre confiante. Confio no povo francês e, neste caso, confio no povo do meu círculo eleitoral, porque estou num círculo eleitoral muito rural e, sinceramente, acredito neles porque penso que se querem uma mudança. É para isso que estamos aqui e para isso que sou candidata ! E sim, continuo confiante e vou lutar até ao fim.
Quando é que aderiu à União Nacional e por que motivo o fez?
Desde antes de eu ter 18 anos já me sentia atraída e fazia parte da Frente Nacional porque acredito que a identidade nacional é muito importante para mim e acredito que devemos respeitar o país em que vivemos e as suas regras, os seus costumes. Portanto, é isso. Penso que não devemos retirar a identidade de um país ou, pelo menos, apagá-la.
Há pouco dizia defender uma França verdadeira e agora fala de desrespeito das regras. O que está a dizer é que hoje os franceses não respeitam as normas e as regras?
Bem, ouça, em todo o caso, há alguns franceses que não respeitam as regras. Porque quando vemos os membros da França Insubmissa e o respectivo comportamento que têm, vemos que não estão de todo no mesmo estado de espírito que nós.
Isto é ?
Por outras palavras, revoltam-se à mínima coisa. Bem, não sei, não estamos a apelar à guerra civil ou à guerra no terreno. Quero dizer, não estamos a apelar a motins nas ruas, e isso é realmente desrespeitoso. Temos de ser respeitosos, os franceses pronunciaram-se. A partir do momento em que a União Nacional está a liderar, todos se revoltam e há que respeitar as regras. Os franceses pronunciaram-se e querem a União Nacional no poder. Há que respeitar e aceitar.
Consegue perceber por que motivo muitos franceses têm medo de um governo de extrema-direita. É perceptível para si?
Desde logo não somos um partido de extrema-direita, párem com isso. É o tipo de coisa que não aceito de forma alguma, ser descrita como candidata de extrema-direita. Não sou de todo de extrema-direita. Não creio que os franceses tenham medo da extrema-direita. A prova é que, ainda no domingo passado, chegámos a pouco mais de 34%, por isso é impossível. Portanto, os franceses não têm qualquer receio de que tomemos o poder. E o facto de se jogar com o termo da extrema-direita incomoda-me imenso porque eu não me considero de todo de extrema-direita.
Qualifica-se de direita?
Sim, é essa a nossa posição. Somos um partido patriótico e de direita.
O candidato Maxime da Silva, militante da França Insubmissa e que concorre no 5º círculo eleitoral dos franceses no estrangeiro pela Nova Frente Popular, considera que a esquerda pode sair triunfante da segunda volta das eleições em França e que os direitos das comunidades estrangeiras no país estão ameaçados.
Já no próximo domingo acontece a segunda volta das eleições legislativas em França. Mais de 500 círculos eleitorais vão a votos, incluindo os do estrangeiro. Na quinta circunscrição dos franceses que vivem no estrangeiro, ou seja, Portugal, Espanha, Mónaco e Andorra, restam dois candidatos, Stephane Vojetta, antigo deputado do partido do Presidente Emmanuel Macron que se apresenta como independente, e Maxime da Silva, candidato da Frente Popular, coligação de esquerda.
Em entrevista à RFI, Maxime da Silva, luso-descendente, disse que a esquerda pode ainda ganhar esta eleição e que não faltam bons possíveis primeiros-ministros para lideratr um Governo da Frente Popular.
RFI: A nível nacional quais são as suas expectativas para a segunda volta das eleições no domingo?
Maxime da Silva: Vemos bem que há duas forças que estão em condições de governar o país, tanto a União Nacional, que representa a extrema-direita, como a Nova Frente Popular. Por isso, a minha expectativa para domingo é que o povo francês ofereça um horizonte de esperança e de felicidade para o país, votando maciçamente na Nova Frente Popular.
No caso de a União Nacional não conseguir uma maioria absoluta, a Frente Popular está pronta para uma coligação com o partido de Emmanuel Macron?
Representamos a oposição face a Emmanuel Macron, que infligiu uma grande violência social e ecológica ao país nos últimos sete anos. Por enquanto, o que estamos a pedir ao povo francês é que nos dê uma maioria. Penso que isso é possível. Precisamos do maior número possível de deputados da Nova Frente Popular para que possamos ser o maior grupo na Assembleia Nacional. E se os franceses tiverem confiança em nós, ainda há tempo. Faltam cinco dias para vencer a União Nacional.
Quem seria o primeiro-ministro num Governo da Frente Popular?
Temos muito por onde escolher, graças ao facto de termos tanto talento na esquerda. Por isso, acho que não vale a pena entrar neste debate. Vamos ver o que dizem as urnas e temos a possibilidade de ter não um, mas quatro, cinco, seis, sete Primeiros-Ministros da Nova Frente Popular, porque temos muitas pessoas capazes.
O que significa para a França ser governada por um partido de extrema-direita? Como é que a França Insubmissa pensa reagir?
Respeitaremos obviamente a escolha do povo francês e entraremos numa oposição muito firme, numa resistência, se isso acontecer. Mas não creio que os franceses estejam dispostos a eleger um governo que quer pôr em causa os direitos das mulheres e os direitos das pessoas LGBT. Mesmo ao aproximar-se do poder, a União Nacional é ainda um partido que promove ideias racistas, tendo adoptado a maior parte do programa de Macron. Por isso, penso que os franceses têm de estar conscientes do perigo que representa a União Nacional e do perigo que seria ter Marine Le Pen ou Jordan Bardella à frente do país a partir do próximo domingo.
Como é que é ser comparado à União Nacional quando se fala de extremos políticos?
É uma estratégia do poder mediático para tentar normalizar a União Nacional. Mas as pessoas sabem que partido foi criado por colaboradores nazis, que é um partido que tem um programa de ódio. E não há dúvida de que todas as forças da nova Frente Popular são forças humanistas, anti-racistas, que lutam contra o antissemitismo e todas as formas de discriminação. Por isso, podem sempre tentar comparar-nos, mas podemos ver pelos resultados de domingo que os franceses sabem que somos pessoas com elevados padrões morais e depositaram a sua confiança em nós, algo que eu agradeço.
No seu caso, no seu círculo eleitoral, está a bater-se contra um candidato que já pertenceu à maioria do Presidente, mas que se apresenta como independente. É um pouco o que se passa em toda a França, com uma rejeição de Emmanuel Macron?
A pessoa contra quem eu me vou bater na segunda volta, que é Stéphane Vojetta, é um macronista convicto que votou a favor de todas as leis anti-sociais e anti-ecológicas de Macron e que agora se apresenta falsamente como independente. Ele fez toda a sua campanha da primeira volta pedindo aos eleitores que o elegessem para que ele pudesse construir uma maioria alternativa. O resultado das eleições de domingo mostra que isso é muito claro. Ou haverá uma maioria da nova Frente Popular, ou haverá uma maioria da União Nacional. Assim, a conclusão a que podemos chegar é que o senhor deputado Vojetta fez uma promessa ao eleitorado que é incapaz de cumprir. E hoje simboliza um boletim de voto inútil.
Foi acusado de ter sido colocado artificialmente neste círculo eleitoral. Como explica esta candidatura?
Como temos o programa mais adaptado às exigências dos franceses no estrangeiro, tentam atacar-me por outros aspectos da minha personalidade. Mas eu sou filho de emigrantes portugueses. Sou neto de Pieds-Noirs. Estou presente no círculo eleitoral. Estou a falar convosco no comboio entre Madrid e Barcelona. Por isso, sinto-me muito em casa aqui, com os franceses no estrangeiro, muitos dos quais conheci durante a campanha. E sabe, acho que é melhor ter um deputado combativo como eu aqui no círculo eleitoral, do que um que é inútil há cinco anos. E os franceses do círculo eleitoral, creio que, no domingo, têm a oportunidade de virar a página do Macronismo no círculo eleitoral e de Vojetta.
Os franceses que vivem fora do país estão preocupados com a situação em França?
Obviamente, é claro, eles estão preocupados. Em primeiro lugar, porque A União Nacional propõe transformar em cidadãos de segunda classe as pessoas com dupla nacionalidade e, logo no início das eleições, o senhor deputado Vojetta disse que preferia um governo da União Nacional a um novo governo da Frente Popular. Por isso, penso que estão preocupados com os resultados que poderemos obter no domingo, uma vez que temos aqui muitos cidadãos com dupla nacionalidade. Também estão preocupados porque os franceses são imigrantes no estrangeiro e, por isso, ter um partido a governar a França, seguindo uma política de rejeição de estrangeiros, vai coloca-los também em dificuldades. Coloca também a França em dificuldades diplomáticas com os nossos parceiros europeus. Em suma, o boletim de voto da União Nacional não traz nada de bom. Tal como o voto em Stéphane Vojetta.
Considera que os portugueses ou os cabo-verdianos em França estão ameaçados no caso de um Governo de extrema-direita?
Sim, penso sinceramente que sim. Quando temos pessoas que consideram cidadãos de segunda classe os outros só porque ou não têm a cor de pele correcta, ou talvez tenham um sotaque ou até pela religião, sim, temos um problema e há um perigo para todos os estrangeiros em França. Sabe, a minha avó, que morreu há poucos meses, tinha um nível de francês relativamente baixo porque vinha de um meio muito humilde e não tinha estudado. Não teve qualquer educação formal, nem em casa nem em França. Pois bem, vi-a sofrer discriminações enquanto portuguesa. E vejo ainda em relação a franceses no estrangeiro que não são contratados no estrangeiro também por causa dos seus sotaques.
A França está a viver um “momento histórico capital”, resume o filósofo Diogo Sardinha, olhando para os resultados da primeira volta das legislativas em França. O académico diz que “o resultado é muito inquietante” porque “se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder”, com graves consequências internas e internacionais, mas acredita que “a esquerda tem margem de manobra” para a segunda volta de 7 de Julho.
“Há momentos históricos que são capitais”, alerta o filósofo Diogo Sardinha ao olhar para os resultados da primeira volta das eleições legislativas deste domingo em França. A União Nacional, de extrema-direita, e os seus aliados, venceu com 33,1% dos votos, ultrapassando a Nova Frente Popular, de esquerda, que obteve 28% dos votos, e o movimento Juntos pela República, do Presidente Emmanuel Macron, que reuniu 20% dos votos.
O filósofo da Universidade de Lisboa avisa que “o resultado é muito inquietante” porque “se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder” em França, o que pode levar a “um enfraquecimento da estrutura da União Europeia”. Porém, ainda que esta primeira volta seja “um balde de água fria” para a Nova Frente Popular, Diogo Sardinha acredita que “a esquerda tem margem de manobra” para a segunda volta no próximo domingo, 7 de Julho.
RFI: Cerca de dez milhões de franceses votaram pela extrema-direita. Como descreve este resultado da primeira volta das eleições legislativas em França?
Diogo Sardinha, Filósofo: "O resultado é muito inquietante por dois motivos. Primeiro, por aquilo que expressa em relação ao sentimento da população francesa e, por outro lado, pelo risco que representa de realmente haver uma mudança de governo que seja um governo da extrema-direita neofascista. Só para dar um exemplo, quando se vê o Jordan Bardella, representante da União Nacional - que é o mesmo nome do partido de Salazar em Portugal na ditadura - quando o vemos vestido de fato cinzento escuro, gravata negra, cabelo curto, risca ao lado, ar marcial, isso é a estética fascista e nazi. É preciso dizer as coisas tal como são."
Isso é a forma. Vamos ao conteúdo.
"Mas é que a forma é essencial! Quando se pensa nos regimes fascistas, quando se pensa nos regimes históricos - em Portugal aconteceu o mesmo, aconteceu na Alemanha, aconteceu na Itália - são regimes da estética. Se viu ontem a conferência de imprensa, a primeira parte em que o Bardella toma a palavra, nem a parte vermelha da bandeira francesa aparece. O fundo é cinzento claro, ele está vestido de cinzento escuro, gravata preta. Veja o corte de cabelo dele e compare um bocadinho com o corte de cabelo dos dirigentes nazis: cabelo curto, sem patilhas, risca ao lado. É exactamente a mesma estética e aquilo não é um acaso. Eles sabem que aquele tipo de estética, em certos momentos da sociedade, tem um poder sedutor. Portanto, nós que sabemos isso, quando vemos essa estética reaparecer hoje, temos que saber que há uma reclamação directa da história da parte daquelas pessoas. Aquilo é mais do que uma piscadela de olho ao passado, aquilo é um recuperar, é um assumir de uma estética que é uma estética ligada a um certo regime político."
Qual regime político?
"Um regime político fascista e, em França, um regime político de colaboração com o nazismo. Claro, isso é evidente."
Sociologicamente, o que é que explica esta vitória da extrema-direita? Há pouco disse que expressa algo em relação à população francesa. O que é? Uma crise de representação daqueles que não se sentem representados em França, que se sentem esquecidos?
"Primeiro, deixe-me dizer uma coisa: não é toda a população francesa que vota pela União Nacional. Isto é muito importante dizer. Há um grupo importante de pessoas, um grupo crescente de pessoas que vota e que assume explicitamente as suas escolhas no discurso quotidiano. Nós que estamos ligados ao mundo lusófono, não podemos esquecer-nos do que aconteceu no Brasil nos últimos 10, 15 anos. Houve realmente uma massa de população em conjunto com certos poderes, o poder dos media, o poder judicial que levou Bolsonaro ao poder e o bolsonarismo. Houve muita gente que lutou contra isso e até agora, pelos vistos, conseguiram recuperar. Portanto, não são os franceses que estão a votar pelo fascismo e pela União Nacional."
Ainda assim, é um terço… São 33% dos votos expressos na primeira volta…
"33% de 65% da população. Não foi a população toda que votou. E depois, se juntar os votos da Nova Frente Popular com os votos do partido de Macron, etc, supera largamente os votos da União Nacional. Portanto, não é a maioria dos franceses. Agora, é claro que é uma parte importante dos franceses que vota e que está profundamente descontente. Um descontentamento que vai crescendo há vários anos e que explodiu nos últimos anos com a política seguida pelo Emmanuel Macron. Isso é evidente. Quer dizer, quando ele apresenta o programa dele em 2016, para a primeira eleição de 2017, que é um programa de liberalização de tudo e mais alguma coisa, pronto, aqui estamos, oito anos mais tarde, sete anos mais tarde, a ver os efeitos."
O que é que o terceiro lugar do movimento do Presidente, “Ensemble pour la République” [Juntos pela República], representa? O Presidente Emmanuel Macron abriu as portas do poder à extrema-direita?
"Bom, isso já sabíamos que ele estava a abrir as portas do poder à extrema-direita no momento em que ele decidiu dissolver a Assembleia, portanto, isso não é propriamente uma novidade. Ele é intocável, ele é Presidente da República, será Presidente da República até 2027, de qualquer modo, não pode ter novo mandato. Agora, a política dele, a política de liberalização de tudo, dos serviços, de tudo pôr em concorrência a todos os níveis, essa política vemos bem que não era aquilo de que a França precisava e não é aquilo que torna as pessoas satisfeitas. Pelo contrário, a França não precisava daquilo. Repare até nos défices orçamentais franceses que explodiram e que são censurados pelas instâncias da União Europeia. Por outro lado, a população continua descontente e tão descontente que se volta agora para o extremo oposto, digamos assim."
A Nova Frente Popular aparece em segundo lugar na primeira volta. Juntou todas as forças de esquerda, ainda assim, não foi suficiente para bater a extrema-direita. Isto é o quê? Um balde de água fria? Era o esperado? Ou os dados ainda não estão todos jogados e ainda se pode esperar uma mudança na segunda volta?
"Eu penso que é tudo isso ao mesmo tempo. Em relação ao que vai acontecer, por um lado, não podemos saber e, por outro lado, como disse quando falei há pouco do exemplo do Brasil e há outros exemplos, é preciso nunca perder a esperança que há a possibilidade de a situação não se tornar completamente dramática. E é preciso bater-se para isto. As pessoas desses partidos da esquerda da Nova Frente Popular batem-se, com certeza, nesse sentido. Claro que é um balde de água fria porque se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder e, ao mesmo tempo, tudo isto já era esperado. Quer dizer, é uma receita que já está sendo cozinhada há bastante tempo. Nós sabemos que, a dada altura, o prato vai estar pronto e o prato agora está pronto e está prestes a ser servido. Vamos ver se ainda conseguimos impedir a coisa ou não."
As projecções dos institutos de sondagens antecipam uma larga maioria relativa de, pelo menos, 240 assentos parlamentares para a extrema-direita ou mesmo uma curta maioria absoluta [que começa com 289 deputados em 577]. Isto são só projecções, mas o que é que se pode esperar da segunda volta no domingo? A esquerda ainda tem margem de manobra?
"A esquerda tem margem de manobra. Resta agora saber como é que se vai comportar o eleitorado do centro, os 20% de pessoas que votaram pelo partido de Macron. Há algumas outras, de menor percentagem, que votaram pelo centro-direita, por aquela direita republicana. Essa própria direita republicana está muito dividida. Uma parte delas vai votar na União Nacional e depois vamos ver como é que se comportam as pessoas.
Agora repare, há muita gente que faz política e que está na política institucional, que já está a dizer que não vai inteiramente apoiar a união de esquerda por vários motivos que eles vão explicando. É claro que alguns desses motivos podem até ser sérios, mas há outros motivos que são tácticos. São pessoas que já estão a ver que a União Nacional vai governar ou vai ter um peso importante e elas querem estar bem com essas pessoas. Algumas dizem-no explicitamente - como o presidente d’Os Republicanos, o antigo partido de Sarkozy, que rompeu e levou uma parte do partido para a União Nacional. E depois há outros que moderam o discurso porque, no fundo, não se querem comprometer."
À esquerda, os líderes políticos apelaram aos candidatos para abandonarem, no caso de triangulares, para evitarem a vitória da extrema-direita. Ao centro e direita, o partido de Macron apelou a uma “frente republicana” contra a extrema-direita, mas sem precisar se isso inclui a França Insubmissa, que faz parte da Nova Frente popular, quando no seu partido e também n’Os Republicanos, várias personalidades se manifestaram contra o voto na França Insubmissa. Isto mostra uma grande divisão que também deve deixar os eleitores confusos. Que comentário faz?
"O comentário que isto merece e que há momentos históricos que são capitais. Na vida quotidiana, as coisas vão andando um bocadinho mais à direita, um bocadinho mais à esquerda, muita gente vai sofrendo com problemas económicos, etc. Depois, há momentos capitais, há momentos em que as coisas - de repente e infelizmente para nós todos - começam a aparecer entre o branco e o negro. E nesses momentos é preciso saber de que lado é que estão as pessoas. Estamos a viver um momento desses e veremos o que acontece, como é que cada um tomará as suas posições. Há muita gente de um centro direita clássico, como o Dominique de Villepin, que foi primeiro-ministro de Jacques Chirac, que já disse que é preciso votar contra a União Nacional. Depois há outros que dizem é preciso votar, mas não votando na França Insubmissa… São maneiras de distrair e dizer que eu estou do lado dos bons, mas também não em excesso. São pessoas que estão a pensar no que virá depois e que não querem estar em más relações com a família Le Pen. A política também é feita disso. A política também é feita dos interesses comezinhos de uns e de outros, para quem a história não é muito importante, o que é importante são as suas carreiras e os seus estatutos e os seus salários."
A estratégia da direita e da extrema-direita tem consistido, de certa forma, em “diabolizar” Jean-Luc Mélenchon, o líder da França Insubmissa, apresentado como uma ameaça. Não seria mais simples que ele se retirasse, por exemplo, dos nomes possíveis para primeiro-ministro em caso de vitória da esquerda?
"Não sei e não creio que ele o faça. O que é importante é ver o seguinte: claro que a extrema-direita tem que encontrar inimigos para dizer: “Atenção, aqueles são o perigo, o senhor Mélenchon é o perigo, ele e os dele, os da França Insubmissa. Isso é o papel da extrema-direita, encontrar o seu inimigo, seguindo a velha lógica da política como amigo inimigo, encontra o seu inimigo e depois tenta destruí-lo. Ora, o que é preocupante é que as pessoas que não estão ainda na extrema-direita ou que não querem estar na extrema-direita não rompam com este discurso, que é o discurso do Macron que diz que “há dois extremos e um ou outro nos conduz à guerra civil”. Isto é falso! Isto é uma estratégia politiqueira que não funciona e ainda por cima é falsa. Isto só serve para aumentar a inquietação e as tensões na sociedade. E isto prejudica claramente a política nacional e, por conseguinte, porque se trata da França, a política europeia e internacional também."
Quando começámos esta conversa, começou por falar do perigo que poderia representar um governo de extrema-direita em França. Ora, pela primeira vez na história, em França, os franceses estão a ponto de escolher pelas urnas um primeiro-ministro de extrema-direita. O que é que isto representa para a História de França?
"Bom, para a História da França, o que pode representar, no curto prazo, é um endurecimento das políticas em vários domínios: o endurecimento da política da imigração, o endurecimento da política de estabilização da sociedade pela atribuição de subsídios e de apoios aos mais desprotegidos. De qualquer modo, quem for governar vai ter um défice orçamental importante e eu não sei como é que vai resolver isso.
Eu penso que vai haver um enfraquecimento da estrutura da União Europeia. A França é um dos países-chave da estrutura da União Europeia e nós sabemos que esta extrema-direita neofascista não é apologista da União Europeia porque é precisamente apologista do nacionalismo. É por aí que eles fundam os seus argumentos e é por aí que conseguem também captar votos. Muita gente cai no erro de pensar que é voltando à nação de antigamente e acabando com a imigração que se resolvem os problemas dessas pessoas, quando não é. Qual é o país europeu hoje da Europa ocidental, que pode viver sem imigração? Os nacionais não têm mais filhos, têm um filho, têm dois. Quem é que vai trabalhar na construção civil? Quem é que vai trabalhar nas limpezas? Quem é que vai fazer esses trabalhos pouco qualificados? São os imigrantes. Como é que um país funciona hoje sem esse tipo de trabalho e sem esse tipo de mão-de-obra que, ainda por cima, é mão-de-obra explorada e mal paga?"
Em termos internacionais, esta é a primeira vez que há esta possibilidade de um grande país europeu fundador poder adoptar um partido anti-europeu à frente do Governo. Já tínhamos, por exemplo, a Itália, a Hungria, agora temos o espectro norte-americano do regresso de Donald Trump. Que consequências para a Europa e para o mundo, nesta altura, se a França tiver um Governo e um Primeiro-Ministro de extrema-direita?
"Falar do mundo é uma coisa muito vasta que não podemos fazer em três minutos, mas podemos falar um pouco da Europa. Houve um momento de abertura, de estabilização, de construção de um Estado social relativamente forte, com uma segurança social, com apoios. Porque o drama da guerra foi imenso, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, mas consideremos, como fazem alguns historiadores, que é uma guerra de 30 anos que começa em 1914 e termina em 1945. Houve tantos milhões de mortos, houve tantos crimes, houve tantos extremos que depois disso, conseguimos ter 70 anos de paz e de, mais ou menos, tranquilidade. Pode ser que esse ciclo, que nunca se viveu na história da Europa, esteja a terminar. Quer dizer, não vai terminar hoje ou amanhã, mas há cada vez mais sinais de que, por diversos motivos, há um fechamento da Europa, um fechamento de alguns países sobre si mesmos. As consequências que daí advirão, a médio e longo prazo, receio que sejam trágicas. Mas, cada dia é um dia e é, por isso, que é preciso não antecipar os resultados das eleições francesas que ocorrerão no domingo."
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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