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O Presidente da Guiné-Bissau minimizou os pedidos de demissão do ministro da Juventude, Cultura e Desporto, Augusto Gomes, do responsável pela pasta da Energia, Hidiberto Infanda, e do secretário de Estado da Juventude, Garcia Biifan. Os três demissionários pertencem à APU-PDGB e a decisão resulta depois do líder do partido, Nuno Nabiam, ter retirado o apoio político a Umaro Sissoco Embaló. O analista político, Rui Jorge Semedo, considera que estas demissões representam uma ruptura na base de apoio do Presidente guineense.
O que representam estas demissões para a estabilidade governativa da Guiné-Bissau?
Do ponto de vista governativo, há quatro anos que a Guiné-Bissau não é um país estável. Estas demissões representam uma ruptura e um desgaste na base do apoio do Presidente da República Umaro Sissoco Embaló.
O APU-PDGB foi o partido que apoiou, na segunda volta das eleições presidenciais, o então candidato Umaro Sissoco Embaló. Depois das eleições, o presidente da APU-PDGB- Nuno Gomes Nabiam, foi quem assumiu a responsabilidade, no lugar do presidente da Assembleia Nacional Popular, de investir -à margem da Constituição da República- o actual Presidente da República.
Essa aliança durou até o momento em que Nuno [Nabiam] decidiu colocar o seu cargo de conselheiro do Presidente da República à disposição, porque - já nessa altura- estava a ver o interesse em se poder preparar para eventuais eleições.
A APU-PDGB considera que a situação política do país está a ser marcada por interferências do Presidente da República nos partidos políticos. Fala em sequestro das instituições do Estado e acusa Umaro Sissoco Embaló de querer garantir um segundo mandato. São acusações graves...
Essas acusações não são apenas da APU-PDGB, mas de todos os partidos que estiveram a apoiar o Presidente da República, refiro-me ao PRS e ao MADEM-G15. Neste momento, o Presidente da República está em ruptura com a principal base de apoio, correndo o risco de não ter apoio partidário para a sua reeleição, como aconteceu com o seu antecessor, José Mário Vaz, durante as eleições presidenciais de 2019, onde foi para o pleito sem apoio partidário.
Actualmente, o chefe de Estado conta apenas com o apoio de pequenos partidos. Um deles- o PTG- tem assento no Parlamento, os outros são partidos parlamentares, sem uma expressão eleitoral forte para suportar uma eventual candidatura para que Umaro Sissoco Embaló seja reeleito.
Outra acusação feita pela APU-PDGB tem a ver com a questão da circulação de drogas e com a participação de membros das estruturas do Estado. Penso que cabe à APU-PDGB e aos outros partidos comprovarem esta acusação que é grave e que precisa ser investigada.
O líder da APU-PDGB, Nuno Nabiam, pede que sejam marcadas eleições presidenciais ainda este ano. Acha que é esta a solução? O país tem condições para realizar essas eleições?
Para se estabilizar o país é necessário cumpri-ser com aquilo que está previsto nas leis. Isso nem deveria ser uma exigência de Nuno Nabiam, trata-se de uma obrigação constitucional e institucional do Presidente da República, Este deve cumprir com aquilo que está previsto na lei e não tentar incentivar ou provocar debates desnecessários a respeito daquilo que está previsto na lei.
A eleição presidencial foi realizada em 2019 e Umaro Sissoco Embaló assumiu o poder logo no começo de 2020, em Fevereiro. Então, tecnicamente. é obrigatório marcar eleições no final deste ano para que o novo chefe de Estado possa assumir o cargo no início de 2025.
Verifica-se uma tentativa de manipulação não só das instituições, mas também da própria opinião pública, nacional e internacional, particularmente com a intervenção [do constitucionalista português] Bacelar Gouveia a tentar contribuir para a manipulação das leis do país.
A situação ainda piorou com inoportuna intervenção do presidente da CNE que não tem competência alguma para se debruçar sobre esse assunto. Todavia, tendo em conta a agenda em que se meteu [o presidente da CNE] e o Professor Bacelar Gouveia, ambos fizeram de tudo para tentar aprofundar a crise político-institucional que o país tem vivido, nos últimos tempos.
Como se explica essa ingerência? Quais são as motivações?
Pretende-se provocar a incompreensão e má interpretação das leis do país. Porque um professor universitário, que tem acompanhado e participado na elaboração das leis do país -da Constituição da República- deveria ter a noção daquilo que estava a dizer a respeito de fazer as eleições gerais só em 2025, quando se sabe que o Parlamento foi dissolvido em Dezembro de 2023- constitucionalmente isso não enquadra.
Por outro lado, a CNE apenas tem a competência legal para se pronunciar sobre resultados eleitorais e não sobre o mandato.
O Presidente da República da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, considerou que estas demissões são “uma questão menor”. Fala em "infantilidade política" e remete a questão para o primeiro-ministro Rui Duarte de Barros...
Ontem, 18 de Julho, ficou evidente que o Presidente da República ficou muito preocupado. Só pelo facto de decidir fazer aquela comunicação já mostra, muito claramente, que não é assunto menor.
É um assunto que mexe com a pretensão que tem em ser reeleito nas próximas eleições. Estamos a falar de um desgaste na sua base de apoio que não foi iniciado pela APU-PDGB, outros partidos, caso particular do PRS e do próprio MADEM-G15, tiveram a mesma postura.
O assunto não é do primeiro-ministro, uma vez que estamos a falar de um primeiro-ministro de fachada, não resulta de eleições,foi indicado à margem da Constituição da República.
A responsabilidade daquilo que está a acontecer é do Presidente da República e ele deve assumir as responsabilidades pela instabilidade que se vive no país. Então, não se pode pensar em reeleição sem ter base de apoio, sem ter o apoio dos partidos. Pelo menos até hoje, os partidos são actores fundamentais para os processos eleitorais.
Umaro Sissoco Embaló afirma que pagou o apoio que teve destes partidos…
Penso que o Presidente da República fez essas afirmações sem reflectir na gravidade dessa comunicação. A lei eleitoral da Guiné-Bissau não permite que o Presidente da República financie os partidos durante o pleito eleitoral.
Ele disse que não é um fundo público e que tirou o dinheiro do seu próprio bolso. Então quanto é que o Presidente da República ganha para estar a financiar, com somas elevadas, estes partidos?
Talvez hoje o país não tenha condições para que o Ministério Público possa averiguar estas afirmações, mas futuramente são questões que Umaro Sissoco Embaló, depois de abandonar o poder, terá de enfrentar a justiça para clarificar essas declarações que o comprometem.
O papel do Presidente da República não é estar a financiar os partidos durante os actos eleitorais, mas sim permitir que os partidos concorram em pé de igualdade. Cada um deve ter liberdade, conforme aquilo que a lei prevê, de procurar os recursos e financiar a sua campanha. Não compete ao Presidente da República financiar os partidos, com fundos supostamente duvidosos.
A Cimeira sobre a Paz na Ucrânia terminou este domingo, 16 de Junho, em Burgenstock, na Suíça. São Tomé e Príncipe esteve representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades Gareth Guadalupe, que fez um apelo à comunidade internacional para que preste mais atenção "às consequências da guerra na Ucrânia", nomeadamente, "ao agravamento da insegurança alimentar que afecta os países mais pobres", como é o caso de São Tomé e Príncipe.
RFI: Que balanço faz da Cimeira sobre a Paz na Ucrânia que terminou este domingo?
Gareth Guadalupe: Todos nós reconhecemos que era importante que nessa cimeira a Rússia estivesse presente. Quando digo todos nós, falo até mesmo da Ucrânia, que o reconheceu. Também devo dizer que se não falarmos da paz, a paz nunca chegará. O entendimento é que nós consigamos essa paz por via do diálogo, então é preciso falarmos, mesmo que não esteja presente um dos principais interlocutores desta matéria. Creio que foi um primeiro passo que uma centena de países e organizações internacionais deram. O grande objectivo é continuarmos a apelar à via do diálogo e numa solidariedade ao nível da comunidade internacional para podermos atingir essa paz o mais rapidamente possível. São Tomé e Príncipe é amigo da Suíça, é amigo da Ucrânia, mas também não deixa de ser amigo da Rússia. Nós podemos ser pai de alguém e condenar uma acção da pessoa. Podemos ser amigo de alguém e condenar uma determinada acção da pessoa. Creio que os amigos devem ser verdadeiros entre si. Em termos gerais, creio que a cimeira sobre a paz na Ucrânia foi produtiva. É verdade que, não tendo aqui um dos principais interlocutores, temos que continuar a falar. Falando em nome de São Tomé e Príncipe, continuamos abertos e estamos disponíveis a dialogar e tudo fazer para que mais rapidamente possa se atingir a paz na Ucrânia.
É possível ser amigo e verdadeiro, como diz, com os dois lados deste conflito?
É possível. Desde a primeira hora manifestamos de forma inequívoca que condenamos a acção da Rússia na Ucrânia ou a invasão da Rússia na Ucrânia. Em momento algum desviámos de tal apoio a resolução das Nações Unidas. Entretanto, assinámos um acordo técnico militar com a Rússia, que foi apenas um acordo técnico militar como qualquer um, e mesmo depois de ter assinado o acordo técnico militar, continuamos a dizer que condenamos a invasão da Rússia na Ucrânia. Temos um acordo geral com a Rússia que data de 1966, um acordo geral de cooperação e neste acordo Geral de Cooperação de Outubro de 1966, já dizíamos que condenamos toda e qualquer acção internacional por via das armas. Continuamos a manter-nos coerentes. Não é o facto de continuarmos amigo da Rússia que não implica que continuemos a apoiar a Ucrânia porque São Tomé e Príncipe também é um país pequeno e nós não estaríamos interessados, por exemplo, a ser invadidos pela Nigéria. Por isso sim, é possível, e aliás, são países como São Tomé e Príncipe que muitas vezes conseguem ser intermediário porque consegue apoiar a Ucrânia, mas ao mesmo tempo condenando a acção da Rússia.
Qual é a validade das resoluções tomadas na Cimeira sobre a Paz sem a presença da Rússia?
Como disse desde o início, todos reconhecemos que não tendo a Rússia aqui presente, torna mais complicada a validade da resolução ou da declaração conjunta, adoptada por mais de uma centena de países e organizações internacionais. Mas, como eu também disse, inicialmente, se não falarmos de paz, ela nunca estará sobre a mesa e queremos que essa paz aconteça por via do diálogo e não que uma das partes se sobreponha a outra para se atingir a paz. Continuamos a defender que é preciso salvaguardar a soberania e a integridade territorial dos países e é preciso nos sentarmos com as duas partes para conversar. Portanto, o que fizemos é dar um apoio claro à Ucrânia, mas não deixamos, conforme digo e repito, de continuar a ser amigo da Rússia e chamar a Rússia à razão, pedindo-lhe que, o mais rapidamente possível, pare com o conflito e para que nos possamos sentar todos à mesa e chegar a uma decisão da paz que seja do interesse de todos.
A declaração final enfatiza que a segurança alimentar "não deve ser uma arma de guerra". Nos últimos dois anos, a invasão da Ucrânia teve consequências importantes no abastecimento alimentar mundial e, sobretudo para os países mais pobres, além do impacto na inflação mundial. De que forma é que é possível controlar esta questão da segurança alimentar?
Deixe-me dizer que, falando propriamente de São Tomé e Príncipe, quando olhamos para o nosso cabaz de consumo, parto de 20%, mais concretamente 17% da nossa cesta básica são produtos à base de cereais. Naturalmente, isso também tem um grande impacto ao nível da inflação em São Tomé e Príncipe. Quando chegámos ao governo em Novembro de 2022, já tínhamos uma inflação de 25%. Agora, com a guerra na Ucrânia, com este conflito na Ucrânia, o preço dos cereais tem tendência a aumentar. Já vinha a aumentar, mas com a guerra na Ucrânia aumentou ainda mais. É importante que trabalhemos em conjunto para que este conflito na Ucrânia cesse o mais rapidamente possível. São Tomé e Príncipe é um dos países que apoia não só o transporte seguro dos cereais, mas também a produção segura ininterrupta dos cereais porque antes de haver o transporte é preciso que haja essa produção e que ela seja segura e livres de qualquer tipo de ameaça para que não haja especulação de preços ao nível mundial.
Os conflitos que normalmente têm tendências à escala mundial é preciso que a gente entre os resolver de forma global. É neste sentido que estamos aqui todos a unir forças e esperamos que todas as partes se possam sentar com a Rússia para chegar a um comum ground do interesse de todos. Estamos em crer que a Rússia também não quer ficar de fora. Por isso é que é preciso haver uma coordenação conjunta e apelar à comunidade internacional para que assim seja. Nós não queremos ser hipócritas. Neste momento deparamo-nos sem programa com Fundo Monetário Internacional e uma das exigências do FMI para que tenhamos programa é aceitar o aumento do preço dos combustíveis e o aumento do preço da electricidade. Sabendo que a população já sofre, de forma severa com o poder de compra. Fizemos aqui [na Suíça] um apelo à comunidade internacional para que olhe para esta perspectiva, não na perspectiva do transporte seguro dos cereais da Ucrânia para países terceiros, mas que também dê atenção a países como São Tomé e Príncipe e outros países de África que possam estar nesta situação, para que os produtos possam chegar de forma segura a países terceiros. Se a população não tiver poder de compra para os adquirir, estamos a pôr em causa a questão da segurança alimentar.
O senhor ministro está a dizer que a guerra da Ucrânia pesa na política interna de São Tomé e Príncipe, nomeadamente no que toca ao bloqueio de acordo com o FMI?
O que eu estou a dizer é que a guerra da Ucrânia já tem as suas consequências na política interna de São Tomé e Príncipe. Se tivemos que juntar isto àquilo que são as imposições do FMI para que possamos ter o programa, mais difícil ainda fica a questão da segurança alimentar. Em São Tomé e Príncipe queremos trabalhar naquilo que chamamos de soberania alimentar. Para que possamos atingir a segurança alimentar é preciso que cada vez mais a gente possa produzir aquilo que são as nossas necessidades. Isto não algo que se consiga a curto e médio prazo, é preciso ainda contarmos com a importação de produtos de países terceiros, como por exemplo, da Ucrânia.
O comunicado final da cimeira exige "a libertação de prisioneiros de guerra, a libertação de crianças ucranianas que foram deportadas e deslocadas de forma ilegal", mas também "a libertação de civis ucranianos que estão detidos de forma ilegal na Rússia". Que resposta se pode esperar do Kremlin?
Não estando aqui a Rússia, é mais um apelo que se faz. Não posso dizer o que é que se espera do Kremlin, mas podemos continuar a fazer o apelo e unir as forças para que assim seja porque São Tomé também apoia a questão dos direitos humanos e vamos continuar a fazê-lo sempre com base na Carta das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos. É de todos o interesse que esta situação se possa resolver o mais rapidamente possível.
O Primeiro-ministro são-tomense esteve presente na sexta-feira, 14 de Junho, na Conferência sobre "Democracias em África" organizada pela Internacional Democrática do Centro, que decorreu no Senado francês. Em Paris, Patrice Trovoada reagiu às criticas da oposição, afirmando que "a oposição não contribui para encontrar solução para o país", e defendeu que São Tomé e Príncipe "não está numa situação de abismo como a oposição descreve".
RFI: Foi um dos intervenientes do segundo painel intitulado "Desafios da Democracia, Estado de Direito e Eleições Transparentes". Que desafios enfrentam os países africanos nas questões de democracia e, nomeadamente, São Tomé e Príncipe?
Patrice Trovoada: Felizmente, São Tomé e Príncipe é uma democracia que funciona. Somos poucos exemplos como Cabo Verde e poucos países que têm um sistema que funciona, mas que precisa de ser consolidado. Hoje, de facto, o que nós observamos no mundo, não só em África, mas também na Europa, na América Latina, Ásia é que a democracia está em perigo. No nosso caso, há dois aspectos que eu acho que são fundamentais: o primeiro é continuar a consolidar o sector da Justiça, para que não seja só uma justiça que se manifeste apenas durante as eleições - e, felizmente, no nosso caso, não tem havido problemas - mas que seja uma justiça que as pessoas sintam presente todos os dias. Isso é algo em que estamos empenhados, na reforma do sistema judicial em São Tomé e Príncipe. O outro aspecto é o desenvolvimento económico, como sabe estamos numa situação bastante crítica do ponto de vista financeiro e a comunidade internacional precisa de olhar para países como os nossos, que são bons exemplos de democracia, mas também bons exemplos pelas condições de várias ordem, precisam sempre do concurso financeiro dos outros.
Apostamos muito no sector privado em São Tomé e Príncipe, como sendo um dos maiores parceiros para o desenvolvimento do sector privado nacional. O Sector privado é, evidentemente, externo, estrangeiro e que tem mais capitais. Há um certo número de aspectos que só podem ser abordados com financiamento multilaterais, donativos ou concessões para que haja sustentabilidade da dívida. Tem sido cada vez mais difícil os países africanos contarem com esses contributos, não só dos organismos internacionais, mas também de alguns parceiros bilaterais ocidentais, nomeadamente.
Na alocução que fez referiu, várias vezes, a palavra "consenso", o consenso que é necessário para o desenvolvimento e para haver democracia num país. Que consenso é esse?
Refiro-me ao consenso porque a democracia abre a porta também à alternância. É preciso que os actores políticos tenham o entendimento consensual daquilo que são as grandes obras, os grandes dossiês estruturantes que irão servir fundamentalmente ao povo, mas a qualquer partido político que é chamado a governar como sendo os alicerces fundamentais do desenvolvimento económico.
Quais são esses alicerces?
Por exemplo em matéria de sustentabilidade das finanças públicas, eu herdei de um país sem reservas cambiais. Um país com inúmeros problemas funcionamento do aparelho do Estado, com uma corrupção que alastrou como uma dívida, nomeadamente, no sector dos combustíveis insustentáveis. Só com Angola quase 300 milhões de dólares e essas questões têm que ser tratadas de modo a que elas não continuam a ser um impedimento. Quando o povo decide pela alternância e você chega e herda numa situação que o povo, depois de dois, três anos, fica com dúvidas sobre a sua escolha. A educação, por exemplo, é fundamental que haja consenso sobre a reforma da educação para perceber o que pretendemos. Falei na questão da Justiça, das infra-estruturas também, é preciso que nós tenhamos modelos consensuais para lidar com as infra-estruturas. É nesse aspecto que eu disse que a alternância não pode ser um recomeçar, no que diz respeito aos alicerces fundamentais de um ponto de vista económico.
No primeiro painel sobre democracia foi evocada a forma como a guerra na Rússia e Ucrânia está a criar uma nova configuração de paz e segurança para o continente africano. Qual é que é o seu posicionamento relativamente ao que está a acontecer? Existem impactos em São Tomé e Príncipe?
Essa guerra trouxe impactos, nomeadamente, numa primeira fase naquilo que foi a segurança alimentar, mas traz também outros tipos de inquietações; primeiro, os recursos que são disponibilizados para atender essa situação de guerra. Toda a gente vê os números bastante altos que hoje são consagrados ao esforço de guerra por parte de países parceiros com da Europa, nomeadamente, que é um grande parceiro do continente africano. Mas também coloca o problema da corrida aos armamentos e essa questão parece-me um pouco em contradição com aquilo que tem sido a política internacional, que é a resolução pacífica dos conflitos, a primazia do direito internacional e a necessidade de estamos sentados à mesa de negociação e dialogar. Estamos preocupados porque estamos convencidos de que não estamos a evoluir no bom sentido quanto à resolução desse conflito, que nos afecta a todos.
No continente africano temos os nossos conflitos também e que, por ordem de ideias, têm sido esquecidos. São conflitos que, do ponto de vista humano e humanitário, são de extrema gravidade. Na RDC são milhões de mortos, no Sudão há centenas de milhares de mortos e eu acho que a humanidade é uma e é preciso termos um pouco de consciência disso - não quero também falar aqui do novo da situação na Palestina e de Israel - ficamos todos a perder porque existe uma categorização do horror, uma categorização da guerra, uma categorização da miséria e faz com que essa grande comunidade que nós éramos há uns anos, comunidade de destino, partilha de princípios que seja a democracia, direitos do homens e liberdade de expressão, está-se a fragmentar em detrimento dos democratas e dos povos.
Os tratados de acordo militar que São Tomé e Príncipe assinou com a Rússia não chocam com os princípios e a postura do partido IDC?
Não, nós não somos democratas, somos de centro-direita e não choca. Aliás, temos durante esses dias temos [em São Tomé e Príncipe] a visita do Almirante Gouveia Melo, que reafirmou os laços muito estreitos que temos com Portugal, de uma maneira geral, e com todos os países do Atlântico, na defesa daquilo que é o nosso bem comum. É evidente que cooperar no domínio da formação, no domínio de trocas de informações ligadas aos tráficos, ao terrorismo com a Rússia, para nós não constitui problema nenhum. Aliás, eu quero dizer que no domínio da segurança, quando existem ameaças comuns, os países mais teoricamente antagonistas conseguem cooperar.
Vou vos dar um exemplo, na situação do Médio Oriente, há países que, por razões específicas, conseguem falar. Por isso não há exclusão. Nós não temos um conflito com a Rússia. Nós condenamos a Rússia por ter violado o direito internacional ao invadir a Ucrânia. Nós estamos presente na conferência na Suíça, mandei o ministro dos Negócios Estrangeiros representar São Tomé e Príncipe, embora a Rússia não esteja presente, mas nós entendemos que era preciso nós estarmos presentes para marcar a nossa solidariedade com a Ucrânia nesse conflito, embora nós pensamos que a via negocial seja a melhor e não continuamos com o conflito armado.
Uma questão sobre a política interna: O movimento Basta, que conta com dois assentos no parlamento são-tomense, pede um diálogo nacional para analisar a situação do país que "enfrenta uma crise económica e social sem precedentes". A oposição acusou-o de "não respeitar as instituições democráticas". Como é que responde a estas acusações?
Felizmente somos uma democracia com liberdade de palavra, de expressão. A oposição, o MLSTP e o Basta são os principais responsáveis da situação de crise em que se encontra o país e da ruptura das negociações com o FMI. Isso é preciso ser claro. Eu não vejo como o movimento Basta, que tem muitos problemas com a gestão do país, alguns dirigentes que são delinquentes fiscais. O MLSTP que teria que responder também de muitos actos de má gestão, querem vir sentar na mesa da negociação com o FMI. Nós havemos de conduzir essa negociação, defendendo os interesses superiores da nação que foi o mandato que nós recebemos e nós não recebemos o mandato para co-gerir a relação do FMI com esses movimentos. Se é preciso pedimos esforços aos são-tomenses, existem mecanismos de facto para podermos falar com os são-tomenses e pedir-lhes para fazer o esforço necessários, como também os são-tomenses têm mecanismos para poderem manifestar o seu agrado desagrado com o governo. Creio que é uma manobra politiqueira que de momento não interessa, que não vai distrair o governo porque o que nos preocupa agora é o dia-a-dia dos são-tomenses, é o abastecimento em combustível do país, é encontramos, de facto, a melhor via de tornar as nossas finanças sustentáveis. Não se trata de um exercício simplesmente sobre papel. É um exercício que temos que fazer tomando em consideração as consequências sociais para as populações.
Portanto, está aberto ao diálogo?
Com o FMI, sim. Com a oposição, eu estou aberto, sou uma pessoa muito concreta, sou trabalhador. O país precisa de gente concreta e que falam de coisas concretas, com soluções concretas. A oposição só está realmente a distrair as pessoas e estão com uma agenda política, mas têm tempo. As eleições são em 2026 e até lá o governo governa e o governo realmente vai à procura dos recursos que podem contribuir para uma solução. A postura da oposição hoje não é nenhum recurso que contribui para a solução do país.
Quando descrevem que "São Tomé e Príncipe está à beira da derrocada económica", qual é que é a solução para a situação económica do país?
São Tomé e Príncipe tem problemas de curto prazo. São Tomé e Príncipe não tem problema de médio prazo. São Tomé e Príncipe é um dos poucos países que é capaz de fazer uma transição energética, uma descarbonização de 40% naquilo que é a produção energética dentro de 12 a 18 meses. Por conseguinte, a médio prazo, o país não tem problema. O país tem sim, uma situação crítica que advém da gestão anterior, que é um país que se encontra sem divisa quando é dependente a 90% das importações. Essas questões têm que ser resolvidas de uma maneira técnica, que seja aquela que não compromete demasiado o futuro. Quer isso dizer que o ideal seria donativos e créditos concessionados para podermos sair da situação em que nos encontramos.
No imediato?
Sim, no imediato, mas se não é possível, há um preço a pagar. Se você vê hoje qual é a taxa de juro da Federal Reserve nos Estados Unidos, o país com economia forte, a taxa de juro e uma taxa de juro que está se a pedir a São Tomé e Príncipe a encontrar empréstimo a taxa de juro três vezes inferior que a taxa de juro do Fed e com um período de maturidade muito superior. Cabe às autoridades são-tomenses de fazer o esforço e decidir em função das várias oportunidades que lhe aparecem. E vamos fazer isso porque o país não pode parar.
Como é que se explica isso aos santomenses que vivem numa precariedade, os são-tomenses que querem deixar o país. Nos últimos meses houve um aumento substancial da taxa de emigração?
Sim, a taxa de emigração deve-se a várias razões e isto não me preocupa. Quer dizer, as pessoas saem à busca de melhor e é perfeitamente normal. Agora se olharmos para os índices em São Tomé e Príncipe, comparando com outros países que não quero citar, nós não estamos assim tão mal. Se olharmos para o nível de inflação, posso dar vários exemplos de países que estão com uma inflação muito maior que São Tomé e Príncipe. Se eu falar do salário mínimo em São Tomé e Príncipe, há países cujo PIB e os recursos naturais são 100 vezes superior a São Tomé e não têm o salário mínimo que nós praticamos em São Tomé e Príncipe. A expectativa dos são-tomenses e a exigência dos são-tomenses é normal e apreciável, mas o país não está numa situação de abismo como a oposição quer descrever. Qual é o nosso desafio hoje? É encontrar dinheiro barato, taxas de juro que sejam compatível com sustentabilidade da dívida e com aquilo que o FMI definiu como aceitável.
É nisso que o senhor primeiro-ministro está a trabalhar neste momento?
É isso que me leva a correr o mundo, a desdobramos em contacto, em reuniões. Vou deixar a conferência agora para me encontrar com instituições financeiras privadas aqui em Paris. Estarei na próxima semana no Médio Oriente também para discutir com autoridades, países árabes e também instituições financeiras, para ver se nós encontramos uma solução. Uma solução terá que haver. Qualquer que seja a solução, não será o penso ideal, mas é um problema de curto prazo que nós temos, porque o médio prazo e longo prazo parece que as perspectivas são muito melhores.
Relativamente à concessão do aeroporto ao FB Group de investidores turcos, quando existe financiamento de 100 milhões de dólares na China. Há quem o acuse, nomeadamente o movimento Basta, de fazer uma gestão que "não inspira confiança". Como é que reage?
Honestamente, eu tenho dificuldade em comentar o movimento Basta, muito honestamente, Nós encontrámos um projecto de alargamento da pista do aeroporto por 100 milhões de dólares e um alargamento no lado do mar, em que, do ponto de vista dos agregados e do impacto ambiental no espaço é um bocadinho perigoso. Nós definimos que não era prioridade o alargamento da pista com 100 milhões de donativos. Dissemos aos chineses que se houver 100 milhões de donativos, nós preferimos pistas rurais, estradas para permitir aos agricultores do interior do país de trazer, de ter mais motivação em produzir e escoar os seus produtos para a capital e para a exportação. Os chineses entenderam isso perfeitamente. Nós dissemos que, quanto ao aeroporto, nós preferíamos ir para uma solução de parceria público-privada, o que aconteceu de forma tranquila. A China vai investir em duas estradas rurais que vão descentralizar uma parte também do interior do país e está muito contente de intervir nesse sector. E nós temos agora o FB Groupque vai, dentro de 20 meses, dotar São Tomé e Príncipe de um aeroporto da classe internacional para 500.000 passageiros, por isso estamos tranquilos.
Em 2022, a esquerda francesa uniu-se na coligação NUPES, mas acabou por encontrar problemas na Assembleia Nacional devido a desacordos internos. Agora, segundo João Martins Pereira, candidato do partido socialista e desta nova Frente Popular pelo 8º círculo eleitoral do Val-de-Marne, os problemas estão resolvidos, com uma coligação mais sólida, mais alargada e com o apoio de toda a esquerda.
A esquerda em França anunciou um acordo para um programa comum que será apresentado pela Frente Popular, uma coligação constituída pelo Partido Socialista, France Insubmissa, Partido Comunista, Partido ecologista e outras forças de esquerda para concorrer às eleições legislativas antecipadas convocada pelo Presidente e que acontecem já no dia 30 de Junho e 07 de Julho.
Em entrevista à RFI, o candidato no 8º círculo eleitoral do Val-de-Marne pela Frente Popular, João Martins Pereira, disse que os problemas à esquerda estão mais do que ultrapassados, estão “resolvidos” e que o foco agora é ganhar as eleições.
"Estas duas coligações distinguem-se desde logo pelo contexto político. Em 2022 não tinha nada a ver porque tínhamos um partido de esquerda radical que era forte. Todo o resto dos partidos tinha quase desaparecido e só reunia quatro partidos. Agora a diferença é também naquele momento, muita gente dentro destes partidos não, não estavam a favor. Agora estamos noutro contexto dado o resultado da extrema-direita, dado a incapacidade do Governo em lutar contra a extrema-direita e de propor um caminho para este país, agora temos uma união que abrange todos os partidos de esquerda", indicou o socialista.
Entre as figuras que já disseram apoiar esta nova Frente Popular está, por exemplo, o antigo Presidente, François Hollande, e Raphaël Glucksmann, que obteve o terceiro lugar nas eleições europeias que acabaram de se realizar. Para João Martins Pereira, os problemas nesta nova coligação como a nomeação de um primeiro-ministro de extrema-esquerda ou as posições relativas à Ucrânia ou Palestina estão "resolvidos".
"Toda a gente fez um esforço. Ou seja, também nós tínhamos uma grande preocupação em relação a certos aspectos, mas também por certas pessoas que não queríamos que tivessem um papel muito grande, porque sabemos que podem provocar divisão na esquerda. É o caso do Jean-Luc Melenchon e ele próprio reconheceu este facto quando foi entrevistado ontem à noite. E então agora não quer dizer que estamos a esquecer das diferenças ou não quer dizer que já tudo vale, mas todos os partidos tiveram que dar um passo em frente e no caso da França Insubmissa também fizeram este esforço", declarou.
Esta força política anunciou hoje o seu programa, prometendo revogar pelo três reformas feitas nos últimos anos: a reforma do sistema de pensões que aumentou a idade da reforma para 67 anos, a reforma da imigração e ainda a reforma do subsídio de desemprego. Os custos da revogação destas reformas serão, segundo a esquerda, pagos pelo melhor redistribuilção fiscal.
"As pessoas pediam-nos isto. Estas três medidas em concreto foram aprovadas sem o apoio da população, não houve uma maioria, nem parlamentar nem social sobre estas propostas de lei e que se converteram em lei. Então, eu acho que é uma maneira muito forte também de dizer ao povo em geral qual é a nossa maneira de fazer as coisas e de não deixar pensar que agora estamos a fazer uma união só para ter o poder e não fazer nada com ele. A ideia é utilizá-lo para melhorar a vida das pessoas, que é para isso que estamos em política. Há um impacto orçamental e nós propomos também como foi o caso nas eleições europeias, uma fiscalidade que seja mais redistributiva e mais justa, porque hoje em dia quem paga mais impostos são mais pobres e a classe média", indicou.
Nos dias 30 de Junho e 07 de Julho resta agora aos franceses escolherem, segundo o candidato a deputado, entre três cenários possíveis.
"Como é que eu vejo a situação do país no dia 8 de julho? Teremos um país liderado pela extrema direita e temos Jordan Bardella como primeiro ministro? Eu acho que isto seria um desastre para o país, para a Europa e para o Mundo, especialmente no contexto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, porque já sabemos a ligação que eles têm com a Rússia. Depois temos a alternativa com a esquerda a liderar o país. E acho que há uma grande possibilidade de que isso aconteça. Estamos a trabalhar nisso. E a terceira, que não é inevitável, é um possível bloqueio por causa da atitude também do bloco central de Emmanuel Macron, que também tem estratégias um pouco diferentes segundo os territórios, e então não se percebe muito bem aquilo que eles querem", concluiu João Martins Pereira.
O Partido Socialista, Os Verdes, os Comunistas, a França Insubmissa criaram na segunda-feira, 10 de Junho, uma Frente Popular. À direita, o líder d'Os Republicanos, Eric Ciotti, foi expulso do partido por ter apelado a uma aliança com a extrema-direita. Na extrema-direita, Marion Maréchal foi expulsa do partido Reconquista. "Emmanuel Macron deu provas de alguma humildade em dissolver a Assembleia", defende o vereador em Nogent-sur-Marne, Philippe Pereira, militante do Partido Renascença.
RFI: Emmanuel Macron dissolveu no domingo, a Assembleia Nacional, convocou novas eleições antecipadas legislativas. Qual é que foi a intenção do Presidente da República?
Philippe Pereira: É difícil de falar por ele porque a decisão deve ter sido tão complexa de tomar. Imagino que o Presidente da República, depois de várias situações como as últimas eleições legislativas, em que se encontrou em minoria na Assembleia Nacional, depois de várias dificuldades em termos de governação, numa relação muito específica, nomeadamente com a Marine Le Pen, e neste contexto de eleições europeias., teve uma decisão bastante democrática, uma decisão além daquilo que se espera. O resultado alcançado nas europeias não foi à altura daquilo que esperava. Houve uma mensagem forte enviada pelos franceses que foram votar no domingo e talvez [Emmanuel Macron] tenha feito prova de alguma humildade em dissolver a Assembleia e deixar a última palavra aos cidadãos.
Nos últimos anos, Emmanuel Macron foi acusado de não ouvir os franceses. Alguns eleitores continuam a reafirmar o facto de não se sentirem ouvidos pelo Presidente da República?
Exacto. Temos todos ouvido isso e creio que o Presidente da República também tem ouvido isso. Nesta situação, cinco dias depois da dissolução do Parlamento, talvez possamos ter outros argumentos e outros comentários, mas não podemos ter o argumento de não ser ouvidos ou de os cidadãos não terem sido ouvidos desde domingo.
Esta quarta-feira, em conferência de imprensa, Emmanuel Macron disse querer conquistar todos os franceses que não se quiserem juntar aos partidos extremistas e os eleitores que não querem alianças 'contranatura'. O Presidente disse que não se vai demitir depois das eleições. Emmanuel Macron pode, em duas semanas, fazer esquecer as sucessivas crises sociais e reconquistar uma parte dos eleitores que o elegeram em 2017?
Em duas semanas estou convencido que não pode, mas é um ponto de vista muito pessoal. O primeiro objectivo deve ser a forma de convencer os cidadãos a ir votar para um bloco central alargado, o mais democrático possível e, digamos, republicano, no sentido em que os franceses utilizam o bloco republicano. É convencer todos aqueles que não querem pôr no poder os extremos e sejam eles de direita ou de esquerda, convencer essa força central e maioritária, imagino, mesmo apegada aos valores fundamentais e à democracia. Neste primeiro tempo com a meta do 30 de Junho e depois do 7 de Julho. Depois é que virá o tempo de tomar as decisões que permitam convencer os franceses que tomaram a boa decisão também em voltar para o bloco central. Acho que é em dois tempos que temos de ver as coisas. Convencer hoje os franceses de que tudo vai mudar é complicado, mas tem que mudar. A seguir às eleições, as coisas têm que mudar no bom sentido.
Evoca o Bloco Central, esta Frente Republicana. A Frente Republicana ainda existe?
Ainda deve existir porque não é uma questão partidária, é uma questão de valores e de consciência de cada cidadão para si próprio ou consigo próprio. Eu creio que ainda existe. Ao ver os diferentes resultados nas últimas eleições, talvez não seja aquela frente republicana que elegeu Jacques Chirac com 80% há 20 anos atrás, mas ainda existe e estou convencido que é uma parte maioritária da sociedade francesa.
Olhando para o mapa dos resultados das eleições europeias do domingo, que deram vitória à extrema-direita da União Nacional de Jordane Bardella, como é que interpreta estes resultados?
Eu não acredito que o resultado das eleições europeias seja precisamente o resultado que teríamos tido em eleições mais locais ou legislativas. Há uma forma de défouloir, como se diz em francês, numa eleição que diz respeito a instituições vistas como longínquas e mais afastadas do que é a própria nação ou do que são as cidades. Talvez muitos eleitores, no domingo, tenham votado em favor da União Nacional ou de certos partidos mais extremos na sua posição em forma de contestação e de afirmação do descontentamento. Não deixa de haver e não podemos objectivamente negar que há hoje uma força muito grande atrás da União Nacional, incluindo até O Zemmour e a Reconquista da parte da extrema-direita e uma força muito menos importante do lado da extrema-esquerda, mas a extrema-direita tem o vento em popa.
Para Emmanuel Macron, as máscaras vão cair e a luta dos valores vão voltar à superfície. Foram as palavras do Presidente francês. Emmanuel Macron quis agitar novamente as várias alas políticas para evitar a chegada ao poder da extrema-direita?
Acho que sim. De certa forma, é o que se tem visto há dois dias para cá, a posição do Eric Ciotti, a situação da Maréchal, as tensões do lado da esquerda com a constituição desta falsa Frente Popular, mas que não, não tem ouvidos e não tem escutado também as posições do Glucksmann no dia a seguir às eleições mostra que esta situação movimenta muito as posições políticas dos diferentes partidos e dos diferentes decisores desses partidos. Há muita confusão, é evidente, e acho que para quem se concentrar essencialmente nos valores, as coisas são claras.
Esta não é uma decisão arriscada, criar uma possibilidade de coabitação com a extrema-direita?
É, mas não sei qual teria sido a melhor decisão a tomar naquele dia. Emmanuel Macron tendo tomado esta decisão é qualificado de de inconsciente, de arrogante e de tirano irresponsável. Não tivesse ele tomado esta decisão, tivesse ele conservado o governo na forma em que estava, ainda mais críticas teria tido porque, imagino que lhe tivessem dito que não ouvia, que não escutava, que não tirava conclusões do resultado das eleições e ainda mais, que era um tirano verdadeiro e arrogante e ilegítimo que tem sido o processo que tem sido feito há uns anos para cá.
Estamos perante uma recomposição da paisagem política?
Terá que ser porque por enquanto está uma forma aqui de movimentação que anuncia ou preanuncia uma recomposição. Mas terá que haver uma recomposição. Não podemos daqui a três semanas, seja lá qual for o resultado, e ainda mais se conseguirmos como espero manter uma estabilidade no governo com uma força central, não podemos continuar na mesma. Os franceses, mesmo se estão dispostos a resistir aos extremos, daqui a duas ou três semanas, não estão à espera que não haja reacções concretas.
O Partido Renascença está pronto, vocês estão prontos para a campanha que arranca a partir de domingo? Não existe um cansaço político, um cansaço por parte dos apoiantes e até mesmo dos eleitores?
Tem havido de uma forma geral, mas acho que além do nosso partido, veja o que aconteceu com o PS ou com o Partido d'Os Republicanos que há poucos anos dominavam a paisagem política completamente e de um dia para o outro desapareceram. Hoje não têm militantes, têm poucos eleitos e tem sido complicado. Do nosso ponto de vista, as coisas estão simples: Temos os nossos deputados a apoiar, queremos reconduzir a nossa Assembleia e tentar apoiar e apoiar novos candidatos. Estamos inteiramente a 200% atrás dos nossos candidatos e empenhados em manter a estabilidade do país.
O actual líder do partido do maior partido de direita em França, Os Republicanos, Eric Ciotti, deu luz verde a um acordo com a extrema-direita, o que está a incendiar as opiniões dos militantes e de figuras relevantes deste partido, com Paulo Marques, autarca em Aulnay-sous-Bois, a dizer à RFI que se trata de uma decisão "unilateral" e "descabida".
Em França, após o anúncio da dissolução da Assembleia Nacional e convocação de eleições legislativas relâmpago por parte de Emmanuel Macron, a vida política está em alvoroço. Na terça-feira, o líder do partido de direita, Os Republicanos, Eric Ciotti, anunciou que o seu partido aceitava coligar-se com o partido de extrema-direita, União Nacional, de Marine Le Pen. Uma união que surpreendeu e enfureceu os próprios militantes d’Os Republicanos, cujos líderes até agora sempre recusaram alianças com a extrema-direita.
Para Paulo Marques, vereador da cidade de Aulnay-sous-Bois nos arredores de Paris e membro do partido Os Republicanos, esta foi uma decisão unilateral, descabida e que não representa nem o seu partido, nem os valores de antigos líderes como Jacques Chirac.
"É uma decisão do presidente do partido, Eric Ciotti, que decidiu unilateralmente e sem mandato claro dos órgãos dos republicanos, de uma aliança com a antiga Frente Nacional e com Bardella e com a Marine Le Pen. Obviamente, há um encontro político na sede d'Os republicanos hoje e é óbvio que o presidente dos republicanos vai ter que se explicar sobre essa união", indicou Paulo Marques.
Esta reunião vai acontecer na sede do partido hoje à tarde, em Paris, mas Eric Ciotti já fez saber que não estará presente e que considera que este encontro não tem qualquer validade. Entre as possibilidades que restam à cúpula de decisão do partido, está a destituição de Ciotti como presidente desta força política.
Para Paulo Marques, esta decisão de Ciotti foi pensada a nível "individual" para garantir a sua própria reeleição em Nice, mas não representa a vontade do partido já que figuras como o antigo líder Laurent Wauquiez ou a presidente da região de Paris, Valerie Pecresse, vieram inviabilizar qualquer união com Marine Le Pen.
"A solução é clara: manter a nossa opinião, a nossa linha gaullista. Mas também Jacques Chirac, nomeadamente ele, que foi o Presidente da República que abriu os braços à comunidade portuguesa para ela poder se envolver, para ela ser ouvida. E ele sempre disse: n"ão podemos ir e aceitar os extremos, não podemos e nunca o faremos". E é o que nós nos sentimos. Sentimos nos nossos territórios que também o nosso eleitorado não está a compreender esta situação. Os republicanos vão continuar com as suas ambições, nomeadamente em prol das nossas comunidades, porque nós somos um partido de governo, um partido muito, muito próximo das comunidades. Aliás, é o partido que mais autarquias tem das 36.000 autarquias em França", explicou.
Paulo Marques disse ter já recebido telefonemas de imigrantes portugueses em França preocupados com este alinhamento da direita e que na sua cidade, marcada pela multiculturalismo, a ameaça está nos extremos, com a população apenas a querer paz.
"O nosso distrito foi o único onde foi a extrema esquerda que ganhou as europeias com perto de 40%. Nós temos um problema que é o extremismo. E há um culpado. Emmanuel Macron. Porquê? Porque ele não quis nem esquerda nem direita. Então ele ele aniquilou a esquerda, está a aniquilar a direita. E agora temos como opção ou a extrema esquerda e a extrema direita. É isso e é fracturante e fractura uns contra os outros. E nós sentimos que nos nossos territórios o que nos solicitam é paz, que haja união, coesão e que se fale dos problemas dos franceses no seu quotidiano, no seu dia a dia", concluiu.
Inês Rocha assumiu recentemente o cargo de directora para toda a Europa da Corporação Financeira Internacional (IFC), uma instituição do Banco Mundial, e vai estar presente em Berlim para a conferência que visa recolher fundos para a reconstrução da Ucrânia. Um país "resiliente", mas que precisa desde já de investimento privado para ultrapassar as dificuldades impostas pela invasão da Rússia, como explicou em entrevista à RFI.
A Conferência para a Reconstrução da Ucrânia decorre entre estas terça e quarta-feira em Berlim. Esta é a sua terceira edição e junta governos, organizações internacionais e sector privado de forma a encontrar soluções para apoiar a economia ucraniana desde já, mas também recolher desde já compromissos para o fim esperado da guerra, quando Kiev puder começar a pensar na reconstrução do país.
Um estudo recente do Banco Mundial mostrou que a Ucrânia precisa aproximadamente de 486 mil milhões de dólares para se reerguer, um número que se eleva todos os dias com a continuidade da presença russa em território ucraniano. Para Inês Rocha, directora para a Europa da Corporaçao Financeira Internacional, estes fundos serão necessários para todos os sectores.
"Estas necessidades de 486 mil milhões são relativas à habitação, transportes, comércio, indústria, agricultura. E também restauro da parte de geração eléctrica, porque a Rússia tem atacado particularmente os sistemas e as infraestruturas energéticas da Ucrânia", detalhou.
Volodymyr Zelensky está a participar nesta conferência em Berlim.
Nesta terça-feira, o chanceler Olaf Scholz disse que é preciso continuar a reforçar as defesas aéreas da Ucrânia, com o próprio Presidente Volodymyr Zelensky a marcar presença em Berlim, mas é a nível dos investimentos que se joga também o futuro da Ucrânia, já que apesar da sua "resiliência", muitos investidores saíram do país e quase todas as empresas ucranians foram afectadas pela invasão.
"A Ucrânia tem demonstrado uma resiliência incrível, apesar de todos o impacto negativo da guerra. De acordo com os dados do Banco Mundial, 84% das empresas foram afectadas em relação a vendas, investimentos, investimentos estrangeiros e temos o investimento estrangeiro a metade do que se tinha nos anos nos anos anteriores. Mas ainda há empresas que estão a investir", explicou Inês Rocha.
O IFC, que integra o Banco Mundial, assim como outros bancos de desenvolvimento estão presentes na Ucrânia tentando captar investimento internacional para manter a frágil economia ucraniana a funcionar e incentivando a novas investimentos, já que a reconstrução do país não se fará só com ajuda internacional
"É claro que sector privado novo, hesita porque estamos numa zona de conflito, mas por isso é que é ainda mais importante o papel desta [conferência] multilateral. O Banco Mundial e outros bancos de desenvolvimento estão lá para estimular o sector privado, os investimentos e também ajudar os investidores privados que querem continuar a operar na Ucrânia através, por exemplo, de algum apoio financeiro a nível de risco", indicou Inês Rocha.
Para além das dificuldades ligadas à destruição da guerra, a Ucrânia tem também a cumprir um plano de reformas caso queira prosseguir com a integração na União Europeia, com Bruxelas a ter já dado 50 mil milhões de euros para este efeito, mas muito está ainda por fazer, com o Governo a pensar já na reconstrução que vá de encontro às metas europeias.
"Na habitação, por exemplo, há um apoio ao restauro e reparações que é muito importante, mas por exemplo, também se pode associar a medidas de eficiência energética. Portanto, olhando um bocado um bocado para o futuro. Há ainda necessidade de organizar a parte social, as instalações na área de educação, saúde, cultura, reformas na parte agrícola e aqui, infelizmente também um sector que é muito importante, que é tudo o que é minas anti-pessoas. Portanto, infelizmente, há uma grande parte do território na Ucrânia que também tem minas anti-pessoais e, portanto, tem que se fazer uma um processo de retirar estas estas minas que têm um custo, um custo elevado", explicou a directora para a Europa do IFC.
Esta conferência, que será procedida par um reunião do G7 na Suíça sobre a situação na Ucrânia, acontece poucos dias depois das eleições europeias numa altura em que os partidos de extrema-direita ganham terreno político e muitos têm posições menos claras sobre o apoio à Ucrânia. Para Inês Rocha, o apoio da União Europeia é ainda "inequívoco".
"Eu acho que a União Europeia, apesar de todas estas tensões políticas que existem, são inegáveis, tem e teve uma posição muito clara de apoio à Ucrânia e aliás, este pacote de 50 mil milhões é a prova que foi aprovado e que está agora a ser a ser posto em marcha é a prova disso. Neste sentido, há um apoio inequívoco à Ucrânia", concluiu.
Apesar da previsível subida da representação da direita radical e extrema houve uma viragem à direita no Parlamento Europeu. "O número de deputados continua a ser distribuído entre conservadores e socialistas", destaca o filósofo e investigador na Universidade de Lisboa, Diogo Sardinha, lembrando que "os partidos no poder em países como Portugal, Espanha, França ou Alemanha saem penalizados nestas eleições".
RFI: A União Nacional de Jordan Bardella venceu as eleições europeias desde domingo com pouco mais de 31% dos votos. Duas vezes mais do que a candidata macronista Valérie Hayer que atinge 14,6% e do líder o Partido Socialista Raphael Glucksmann com 13,8%. Uma derrota que levou Emmanuel Macron a convocar eleições legislativas antecipadas para o final deste mês. Qual é a análise que faz dos resultados das eleições europeias?
Diogo Sardinha: Creio que é necessário distinguir os resultados da eleição a nível europeu e os resultados a nível nacional. A nível europeu, não muda muita coisa na estrutura do Parlamento Europeu. Em princípio, há uma faixa da extrema-direita que se alarga, mas o número de deputados continua a ser distribuído entre conservadores e socialistas que, no fundo, vão partilhar os cargos de presidente da Comissão Europeia e presidente do Conselho Europeu. Nesse aspecto, não há grandes mudanças ao contrário do que talvez muita gente esperasse que houvesse uma maré da extrema-direita muito mais forte do que houve.
A nível nacional é preciso ver, pelo menos em alguns dos países, como é o caso de Portugal, de Espanha, de França ou da Alemanha, os partidos que estão no poder são penalizados, não ganham as eleições, não são os partidos mais votados. Os três partidos que compõem a coligação que governa a Alemanha neste momento perderam para os conservadores de, no fundo, Angela Merkel, esse conservadorismo de direita democrata cristão. Em Espanha, como em Portugal, não são os partidos que estão no governo que ganham: em Espanha são os conservadores que ganham, quando são os socialistas que estão no governo e em Portugal perde a AD para o Partido Socialista, mas por margens relativamente estreitas. E depois há realmente o caso de França, que é um caso particular.
O caso da França, um terramoto político. Dissolver o Parlamento e convocar eleições foi a forma de Emmanuel Macron reconhecer a derrota e dizer aos franceses que ouviu o descontentamento nas urnas. O Presidente procura uma segunda vida, mas esta decisão também pode levar a uma coabitação com a extrema-direita. É uma aposta inesperada, arriscada?
Sim, é arriscada. Só o tempo poderá dizer se a solução foi inteligente ou não. Parece-me, e provavelmente já foi dito por algum comentador, que a ideia é a seguinte: em França, os mandatos presidenciais e os mandatos legislativos coincidem em termos de datas. Emmanuel Macron tem duas soluções: a primeira é não fazer nada e não mudar o seu estilo do governo, de qualquer maneira, ele já não pode mudar o estilo do governo porque não tem maioria parlamentar, continua a passar algumas medidas que geram descontentamento com o recurso ao instrumento institucional, que permite não esperar uma maioria parlamentar. Portanto, nos próximos três anos, que é o tempo que ele tem ainda de mandato, a situação degrada-se, degrada-se, degrada-se, degrada-se e, quando houver eleições em 2027, claro que a Marine Le Pen é eleita presidente e claro que a Assembleia Nacional tem uma vaga da extrema-direita. Essa é a pior solução; ele deixa o país em todos os níveis do poder entregue à extrema-direita.
A outra solução é fazer uma espécie de coabitação, resta ainda saber se a União Nacional ganha as eleições legislativas ou não, se tem maioria parlamentar ou não. E, obviamente, em governos em situação de coabitação é muito difícil governar. Portanto, isso só pode servir - e penso que esta é a expectativa de Emmanuel Macron - para durante três anos desgastar a União Nacional para que, de alguma forma, quando se chegar a 2027, nem a Marine Le Pen seja eleita, nem a União Nacional obtenha novamente uma maioria parlamentar. Esta parece-me ser a lógica.
Houve uma taxa de abstenção importante 48,6% em França: um em cada dois franceses não votou este domingo. Este resultado, que dá a vitória à União Nacional e que lhe dá uma vitória histórica, o segundo melhor resultado de eleições europeias desde 1984, com a lista de Simone Veil, representa a França?
A França é um caso muito especial no seio da União Europeia neste momento. O presidente eleito é um fenómeno que sai não se sabe de onde. Quer dizer, nós sabemos mais ou menos de onde ele sai. Quando Emmanuel Macron anuncia em 2016 que vai ser candidato à Presidência da República, ele destrói completamente os partidos convencionais, destrói o Partido Socialista, destrói a direita clássica conservadora e aparece ali uma coisa que não é, como ele próprio diz, nem de esquerda nem direita, que no fundo vai buscar um pouco de gente a todo o lado. Emmanuel Macron não é um representante da política tradicional francesa. Isto é um caso especial, pelo menos no conjunto dos países da União Europeia.
Por outro lado, temos a União Nacional, que é o herdeiro com outro nome da Frente Nacional, um partido que tenta conquistar o poder há décadas. Não é um partido recente, não é como Chega em Portugal, nem é como Alternativa para Alemania na Alemanha. É um partido que tem adoptado estratégias diferentes para tentar chegar ao poder com algumas estratégias, nomeadamente, com um atenuar do seu discurso mais radical e tem realmente conseguido, de forma crescente, angariar simpatias e obter votos. Depois, o que isso representa para o Parlamento nacional teremos que ver.
Os partidos têm até ao final da semana para apresentar candidatos às eleições antecipadas de dia 30 deste mês. Esta vai ser a campanha francesa mais incerta da história recente e mais curta. Emmanuel Macron vai tentar federar forças, criar uma barragem republicana à extrema-direita. A França Insubmissa, através de Jean Luc Melanchthon, apelou a uma união "forte" e "clara" à esquerda. Os partidos de esquerda vão estar reunidos esta segunda-feira, acredita numa candidatura única à esquerda ?
Pelo que ainda pode haver de futuro na esquerda francesa, eu espero que haja uma candidatura única. Porque a ameaça mais provável é que a União Nacional e, portanto, a família Le Pen, no fundo, apesar de algumas divergências internas, chegue ao poder. Se a esquerda não se conseguir unir numa situação destas é dramático. É dramático para a política em geral e é dramático para a própria esquerda. Espero bem que consigam chegar a uma espécie de geringonça. O que nós vemos nos partidos de esquerda - e isto não é um caso especial da França - é uma divisão por disputas menores. O que vemos na direita são partidos mais sólidos e mais latos porque os seus membros aceitam trabalhar juntos, apesar de várias divergências.
A esquerda por uma mínima divergência; a Palestina, a União Europeia, ou não importa o quê cria um partido novo, acontece a mesma coisa na Alemanha, acontece a mesma coisa em Portugal. E a direita consegue, de uma forma ou de outra, trabalhar junta, apesar das suas divergências. É o caso da AD em Portugal ou da CDU/CSU na Alemanha. Espero realmente que que a esquerda, pelo bem da democracia e para que haja, digamos, uma espécie de debate sério e de convergência pelos interesses principais, consiga encontrar uma maneira de passar para lá das vaidades pessoais e dos interesses e opiniões e que consigam fazer uma uma candidatura de união.
Na Europa, apesar da previsível subida da representação da direita radical e extrema, o centro aumentou. Houve uma viragem à direita no Parlamento Europeu. Era previsível?
O que era previsível era que esse aumento da extrema-direita fosse maior. Isso era o que todos receavam, pelo menos era o que indicavam as sondagens em vários países. Daí a inteligência de Emmanuel Macron, que é um homem muito astuto. Se não fosse um homem astuto, não tinha chegado a Presidente da República com a idade que chegou, fintando, digamos assim, toda a política tradicional. Ele sabe perfeitamente que, nesta fase, por razões de conjuntura ou de estrutura, a extrema-direita tem tendência a ter mais peso. Portanto, ele sabe que daqui a três anos ele não poderá fazer mais nada e daqui a três anos ele deixa o poder, deixa de ser Presidente da República e termina a influência dele na política directa. A maneira que ele tem de conservar alguma influência na política directa é tentar prejudicar esse avanço da extrema-direita e dar uma espécie de entrada da extrema-direita no poder para, a seguir, tentar prejudicar a vida da extrema-direita com uma coabitação, esperando que daqui a três anos, ao sair da Presidência da República, não deixe a extrema-direita completamente no poder, na Presidência e no Parlamento. Penso que é essa a estratégia.
"Embodied Narratives" é a exposição colectiva que apresenta o trabalho de um conjunto de artistas contemporâneos africanos sobre o tema do corpo numa projecção associada ao território e ao tempo.
Alida Rodrigues; Benigno Mangovo, Cristiano Mangovo; Hennie Meyer; Kébé; Luís Damião; Nelo Teixeira; Osvaldo Ferreira; René Tavares; Saïdou Dicko; Sanjo Lawal, Teresa Kutala Firmino; Uólofe Griot e Vivien Kohler são os artistas que, em ruptura com a "fetichização e hiperestilização do corpo negro", apresentam, na galeria This Is Not a White Cube, um conjunto de trabalhos onde sobressai "a figuração e o retrato como veículos de expressão".
A RFI visitou o espaço da galeria This Is Not a White Cube na capital portuguesa. A co-directora artística, Graça Rodrigues, fez a visita guiada à exposição, ajuda-nos a entrar no universo dos artistas presentes na colectiva e começa por explicar como foi pensada a mostra "Embodied Narratives".
O número de eurodeputados de extrema-direita no Parlamento Europeu deve aumentar a partir de 10 de Junho, vindos da maior parte dos 27. Estes populismos foram alimentados durante décadas pelas políticas "declaratórias" de Bruxelas e a falta de um verdadeiro orçamento europeu, como sublinhou o professor universitário Viriato Soromenho Marques em entrevista à RFI.
Com um Parlamento Europeu em que o número de eurodeputados de extrema-direita deve aumentar um pouco por todos os 27 Estados-membros da União Europeia após as eleições de dia 09 de Junho, o crescimento do populismo e nacionalismo em Bruxelas tem as suas raízes em problemas de base do projecto europeu como a falta de um orçamento comum e políticas efectivas que cheguem aos mais de 500 milhões de habitantes deste bloco económico e político.
Em entrevista à RFI, o académico português Viriato Soromenho Marques considera que a extrema-direita pode vir a tornar-se na segunda força no Parlamento Europeu com o grupo Conservadores e Reformistas Europeus e o grupo Identidade e Democracia a poderem vir a unir-se.
"Estas eleições são uma plataforma que muitas vezes permite medir, preparar e incentivar o assalto eleitoral aos governos nacionais. E neste momento temos uma situação em que, do ponto de vista parlamentar, nós temos os partidos populistas e extremistas de direita, organizados fundamentalmente em dois grupos, mas é muito natural que, com o ganho de votos e o ganho de lugares no Parlamento Europeu, estas duas forças se inclinem para uma negociação no sentido da integração, para poderem eventualmente tornar-se na segunda força Parlamento Europeu, com as vantagens que isso tem em termos de gestão do Parlamento", declarou o professor universitário.
As causas deste crescimento um pouco por toda a União Europeia estão relacionadas segundo Viriato Soremenho Marques com a incapacidade da Europa promover políticas eficazes, tendo em conta a sua organização interna que não permite a existência de um orçamento comunitário.
"Acho que nós temos que fazer um exercício de autocrítica e ver o que é que está mal. Na minha perspectiva, fundamentalmente, é que a União Europeia funciona essencialmente num plano declaratório, num plano retórico com grandes objectivos, que depois não são acompanhados pelo financiamento nem pelos recursos financeiros, nem acompanhados pela coerência. Veja-se, por exemplo, a cumplicidade com o que está a acontecer em Gaza e qual o comportamento do governo irresponsável de Israel", indicou.
No entanto, mesmo num cenário político em que a União Europeia fosse dominada por forçar nacionalistas de extrema-direita, pensar que a Europa voltaria facilmente a um sistema de nações é "uma ilusão".
"Isso pode acontecer, mas isto não será um regresso pacífico. Eu penso que a grande ilusão dos partidos tradicionais europeus, socialistas, democratas, cristãos e liberais é a ilusão de que uma Europa unida e forte pode ser feita de forma low cost, uma espécie de União Europeia low cost, que é a que temos com 1% do PIB europeu, e que resolvemos o problema. A outra grande ilusão dos novos que estão a chegar, os populistas da extrema direita, é a de que podemos regressar a uma Europa das nações sem ser através de uma trágica fragmentação do que já se construiu na União Europeia. São duas ilusões", afirmou.
Apesar de o debate se ter concentrado sobre algumas questões comuns nos 27 como a Defesa, devido à guerra na Ucrânia, as migrações ou o custo de vida, um dos temas que preocupa os europeus e que ficou para trás foi o ambiente. Um esquecimento ligado ao limitado peso económico atribuído ao desenvolvimento sustentável.
"Nas alterações climáticas nós temos um grande foco nas questões de energia. Porquê? Porque as questões da energia e da mobilidade são interessantes também para os sectores económicos relacionados com a energia, as empresas da energia e as empresas do sector automóvel. Já outros aspectos fundamentais como a biodiversidade, como por exemplo, a boa gestão da água, a conservação dos solos agrícolas já são abandonadas na medida em que a agricultura intensiva, a agricultura de produção, aquela que utiliza muitos adubos, muitos pesticidas, é aquela que domina a agenda europeia", concluiu.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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