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Os aliados celebram, neste 6 de Junho, os 80 anos do desembarque na Normandia, o "Dia D" decisivo para o início da vitória contra a Alemanha nazi. O aniversário acontece em vésperas de eleições europeias e numa altura em que a guerra assola novamente o continente, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022. Excluído das comemorações ficou o Presidente russo, enquanto o chefe de Estado ucraniano é um dos convidados de destaque.
O Presidente russo, Vladimir Putin, foi excluído do aniversário dos 80 anos do "Dia D", apesar do papel da Rússia na luta contra o nazismo. Já o chefe de Estado ucraniano,Volodymyr Zelensky, é uma das personalidades em destaque nestas comemorações, ao lado dos presidentes de França, Emmanuel Macron, dos Estados Unidos, Joe Biden, de Itália Sergio Mattarella, do Rei britânico Carlos III, do chanceler alemão, Olaf Scholz, do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, entre muitos outros.
Que imagem ficará deste encontro nas vésperas de eleições europeias, em ano de eleições nos Estados Unidos e numa altura em que o conflito continua na Ucrânia? Fomos perguntar ao historiador Victor Pereira, para quem o dia representa “a união das forças aliadas e democráticas que se juntaram contra a ditadura”. Nesse caso, ficará a Ucrânia associada às actuais forças democráticas e a Rússia, outrora essencial na guerra contra o nazismo, definitivamente rotulada como autocrática? O que é certo é que “o espectro” de uma nova guerra mundial ensombra as comemorações.
RFI: Qual o peso do Dia D, do desembarque de 6 de Junho, para acabar com a ocupação alemã em França e rumar para o fim da II Guerra Mundial?
Victor Pereira, Historiador: "Foi um papel fundamental. Obviamente não foi o único. Houve o desembarque das tropas americanas na África do Norte, logo em Novembro de 1942, mas foi o início da presença aliada - americana, inglesa, canadiana, também de alguns franceses - para começar a entrar na Europa. Também houve o desembarque na Sicília [Julho de 1943] e no sul de França [15 de Agosto de 1944], mas foi o início de uma longa batalha, a batalha da Europa contra a Alemanha, que apenas acabou um ano depois. Foram precisos 11 meses ainda para que a Alemanha perdesse e houvesse rendição sem capitulação."
Na noite de 6 para 7 de Junho, durante bombardeamentos aliados, houve entre 50.000 a 70.000 vítimas civis, 10.000 só na Normandia. Fala-se suficientemente disto?
"Sim. Na Normandia, em todas as praias há cemitérios enormes. Em Caen, que é uma das capitais da antiga Basse-Normandie, há um museu ligado à Segunda Guerra Mundial. É um território mesmo muito ligado a essa memória da guerra. Aliás, o Arquivo em França sobre as vítimas de guerra é em Caen. Há um conhecimento desta zona e, além disso, é um dos pontos que todos os alunos de colégio e liceu conhecem, na disciplina de História. No território francês, como noutros países, há uma memória de pedra da guerra, no sentido em que há monumentos aos mortos em qualquer aldeia com os mortos da Primeira Guerra Mundial, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Argélia. Acho que isso está bastante presente nas memórias, obviamente talvez não dos mais jovens que não vão saber isso ao pormenor, mas neste território, em qualquer sítio, há um monumento ligado a esses mortos - tantos militares, quanto civis."
O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, participa nas comemorações do Dia D, em que estão também o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o presidente italiano, Sergio Mattarella, e o rei britânico Carlos III, por exemplo. Qual é a simbologia destas personalidades juntas?
"O dia 6 de Junho é para estes países ocidentais uma data muito importante porque é o início da vitória contra a Alemanha nazi, contra a ditadura nazi, contra uma ditadura que matou, massacrou e cometeu um genocídio. Então, é a união das forças aliadas e democráticas que se juntaram contra a ditadura e o sacrifício de milhares de homens dos Estados Unidos, ingleses, do Canadá, franceses e do Império Inglês. Este ano, uma das grandes mudanças é que tradicionalmente havia um representante da Rússia. Agora, obviamente não é o caso e o facto de ser a Ucrânia convidada coloca a Ucrânia nos países democráticos que defendem a democracia, enquanto a Rússia do Putin é uma autocracia. Então, a simbólica é muito forte porque obviamente houve muitos ucranianos que, nessa época, estavam na União Soviética e que combateram na Frente de Leste."
A Rússia não foi convidada para as cerimónias dos 80 anos do desembarque. Antiga aliada contra a Alemanha nazi, a Rússia é hoje o país pária das comemorações?
"Sim, é o país pária. Nas outras comemorações, houve a vontade de incluir Vladimir Putin e a Rússia nas comemorações porque houve milhões e milhões de russos que morreram durante a Segunda Guerra Mundial a combater depois do ataque alemão em 1941 e depois do contra-ataque russo a partir de 1942, 1943. Havia uma vontade de incluir e de manter essa relação entre a Europa Ocidental e a Rússia, mas a última invasão [russa] da Ucrânia acabou por colocar de lado completamente."
O evento é uma demonstração de força contra a Rússia, com a presença do Presidente ucraniano?
"Não diria que é uma demonstração de força porque, de todos os modos, os países ocidentais iam comemorar uma data tão importante nos vários países. Neste caso, a mudança é ter incluído a Ucrânia para não descartar o esforço e o sacrifício de milhões de soldados da antiga União Soviética."
Mas não vai simbolicamente mais além? Não é mostrar que os aliados ocidentais estão em peso contra uma Rússia cada vez mais isolada?
"Não sei se é propriamente contra a Rússia. De todas as formas, era impossível, neste momento, com a guerra da Ucrânia, Vladimir Putin ir a um país ocidental. Mostra, sobretudo, a união entre os países ocidentais e, nesta data, eles não podiam não comemorar por causa da não vinda do Putin. Era obrigatório comemorar, sobretudo porque vai ser provavelmente uma das últimas vezes em que há comemorações com antigos soldados - devem ser muito poucos. Provavelmente nos 90 anos [do Dia D], já não haverá nenhum soldado que desembarcou nas praias da Normandia."
Oitenta anos depois desse desembarque, a guerra está de volta à Europa. Paira, de novo, o espectro de uma guerra mundial?
"Sim, com o que se passa na Ucrânia, também com o que se passa em Gaza, mas sobretudo na Ucrânia, há de novo esse espectro. Um dos últimos pontos que foi referido por Macron e Biden é o uso de armas ocidentais dentro do próprio território russo e isso não foi feito até agora porque houve sempre o medo de uma retaliação russa e de um alargamento da guerra. Obviamente que esse aspecto de uma eventual nova guerra mundial está sempre presente, também com o medo que se a Rússia ganhar à Ucrânia, ela continue a tentar invadir os países bálticos. Essa ameaça de uma guerra com a Rússia está sempre presente. Agora estamos um bocadinho a esquecer, mas essa possibilidade está sempre presente também com a China, com Taiwan e as tensões que agora falamos menos na Europa, mas as tensões continuam a existir na Ásia."
Estamos também nas vésperas das eleições europeias. A mensagem da luta pela liberdade é suficientemente forte perante a subida dos extremismos na Europa? Esta comemoração também passa essa mensagem?
"Obviamente que para pessoas como Emmanuel Macron, comemorar o 6 de Junho, o início da derrota do nazismo e do fascismo, tem um papel importante nas vésperas das eleições. No entanto, o que se vê há vários anos é que a extrema-direita continua a subir e que muitas pessoas, nomeadamente os mais jovens e grande parte do eleitorado, não ligam assim tanto ao que foi a extrema-direita nos anos 30 e o que foi o nazismo e o fascismo. Apesar de eu ser historiador, acho que parte das pessoas não pensa nos quadros históricos."
De onde vem a responsabilidade? O que é que se passa? Não há transmissão da memória?
"Eu não sei se há uma falta de memória. Por exemplo, nos Estados Unidos, há o papel dos veteranos na Segunda Guerra Mundial e o facto de milhares de americanos visitarem a Normandia para verem os cemitérios onde foram sepultados soldados. Em França, muitos feriados estão ligados à guerra e às vitórias: 11 de Novembro, 8 de Maio... Não sei se há propriamente falta de comemorações e falta de memória. Mas para muitas pessoas, isto já não é assim tão actual nas vidas delas, já não as toca e já não fazem a relação entre o que foram as ditaduras e as guerras e o que é hoje a União Europeia.
No caso francês, por exemplo, o Rassemblement National apresenta-se como patriota, como país de resistentes, quando parte da extrema-direita francesa vem de Vichy e da colaboração. O Rassemblement National fala muito do Charles de Gaulle e do Gaullismo quando inicialmente a extrema-direita francesa tentou matar o De Gaulle várias vezes. Muitas pessoas conhecem a História mais ou menos, mas já não a ligam à actualidade porque há outros elementos como as condições económicas e sociais, o sentimento de desclassificação, os medos que vão passando por alguns media em França ou nos Estados Unidos, com a Fox News… Então, acho que há uma disrupção entre a História e a memória e vê-se nos Estados Unidos com Trump que tem valores da extrema-direita, quando muitos americanos têm uma memória familiar da Segunda Guerra Mundial e da luta contra o nazismo."
O facto de Emmanuel Macron fazer as comemorações três dias antes das eleições europeias e ao longo desses três dias, não pode ser visto como oportunismo político?
"Ele não tem culpa que o 6 de Junho seja três dias antes das eleições. Isto é, ele não podia deixar de comemorar."
Mas calha bem…
"Bom, eu não sei se as pessoas vão ligar. Por exemplo, as pessoas que iam votar na extrema-direita, seja no Rassemblement National ou no Reconquête ou outros partidos da extrema-direita, não sei se vão pensar: 'Ah, afinal não vou votar no partido da extrema-direita porque há 80 anos milhares de pessoas morreram nas praias da Normandia para combater o fascismo'. Isso não acredito muito. Acho que o problema até do próprio Emmanuel Macron e de parte da classe política é que o discurso que eles têm sobre história já não toca as pessoas. Então, cai bem, mas acho que não vai fazer muita diferença nos resultados eleitorais. As pessoas que iam votar na extrema-direita, votam na extrema-direita. O que talvez pode mudar um pouco é nas pessoas indecisas ou nas pessoas que não pensavam ir votar, talvez… Mas mesmo assim, eu tenho algumas dúvidas."
O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também vai visitar um cemitério de soldados que morreram na Primeira Guerra Mundial. Em 2018, durante a sua visita, Donald Trump não o fez, alegando que não havia condições meteorológicas. Simbolicamente, num ano em que também há eleições nos Estados Unidos, esta visita de Joe Biden, do lado dos Aliados, tem peso?
"Sim porque os Estados Unidos combateram duas vezes na Europa, nas duas grandes guerras, e vai além de um certo isolacionismo. Donald Trump era mais essa tradição americana de não se envolver nos outros conflitos e houve muitos conflitos dentro da NATO, com a ideia que os americanos pagavam pela defesa da Europa e aquela ideia da “America First”.
O Joe Biden com esta dupla comemoração, da segunda e da primeira guerras mundiais, vai, em primeiro lugar, comemorar os mortos, os soldados - sabemos que Trump não fez a tropa e pôs em relevo esse discurso de ser patriota, mas ter conseguido não ir combater. Em segundo, vai comemorar esse lado dos Estados Unidos como democracia que interveio duas vezes na Europa para defender democracias contra regimes autoritários. Então, nesse quadro das eleições em breve, é uma dupla mensagem."
As eleições europeias em França estão a servir como tubo de ensaio para as presidenciais de 2027, altura em que Emmanuel Macron não se poderá voltar a candidatar e em que a extrema-direita pode subir ao poder. Esta "nacionalização" das eleições está a levar a um desinteresse da população, sobretudo dos mais jovens, como explicou Adeline Afonso em entrevista à RFI.
A 9 de Junho, os 27 Estados da União Europeia vão a votos. Em França, um dos maiores países do bloco europeu e também o país mais jovem entre os 27, a extrema-direita de Marine Le Pen, liderada agora por Jordan Bardella, deverá sair vencedora, segundo as sondagens. Já o partido de Emmanuel Macron deverá eleger metade dos eurodeputados da extrema-direita.
A participação e o potencial interesse dos jovens nestas eleições é uma das maiores interrogações, mas Adeline Afonso, investigadora de Estudos Europeus na Sorbonne, considera que em França a campanha tem sido instrumentalizada para a política interna.
"Na faixa etária mais jovem já não se acredita assim tanto na actual classe política e também no próprio sistema democrático. Então isso leva os jovens a não terem aquele interesse de ir votar para tentar mudar as coisas. E isso também vai talvez explicar a taxa de abstenção, sobretudo nas faixas etárias mais jovens. Mas o interesse pela pelo tema da Europa existe. Eu acho que nesta campanha actual em França há ali uma espécie de instrumentalização destas eleições para fins de política interna", declarou.
Defesa, migrações e poder de compra são os temas que marcam esta eleição em França, mas acabam por ser discutidas nos vários debates já organizados nas rádios e televisões nacionais mais ao nível gaulês do que nas perspectiva europeia.
"Sobre a questão do poder de compra, a verdade é que se pode fazer legislação a nível europeu que vai ter impacto no poder de compra dos franceses e em geral, dos europeus. Agora, aquilo que eu acho que é preocupante é que durante as eleições europeias se aproveite também para, de alguma forma, nacionaliza-las. Ou seja, durante o debate entre o actual primeiro ministro, Gabriel Attal, e o actual cabeça de lista do Rassemblement National que é o Jordan Bardella eles acabaram por atacar-se um ao outro sobre questões de política interna, em vez de abordar as questões mais europeias", disse a investigadora.
Largamente na frente das sondagens, estima-se que o partido de extrema-direita Rassemblement National tenha cerca de 32% dos votos, enquanto que o partido de Emmanuel Macron, que tem como cabeça de lista Valerie Hayer, se fique pelos 14%. A seguir será a lista de esquerda de Raphael Glucksman, seguida depois pela extrema-esquerda com 9%, os Republicanos de centro-direita com 7,5% e os escologistas com cerca de 5%.
"Se formos ver, em comparação com os resultados de 2019, o emblema nacional em França já tinha ficado em primeiro lugar. Eu acho que eles vão ter muito mais deputados do que em 2019. Tendo em conta as actuais sondagens em comparação com o partido do Presidente. E sim, se formos a ver no contexto mais global europeu, creio que também em outros países, não só em França, a extrema direita tem tendência, de alguma forma, a atrair bastante o voto nas eleições europeias", explicou Adeline Afonso.
A França, que elege 81 deputados, pode assim mandar quase 30 eurodeputados de extrema-direita pa Bruxelas, um recorde para o partido de Marine Le Pen. Isto pode fortalecer a imagem do novo líder da extrema-direita, Jordan Bardella, mas também enfraquecer externamente a imagem da França já que estes eurodeputados vão contribuir para um possível bloqueio do Parlamento e das restantes instituições europeias.
"A nível de consequências, a primeira consequência eu acho que se o resultado for assim muito bom para o Rassemblement National isso vai ter um grande impacto positivo na figura do Jordan Bardella que poderá de facto ser escolhido como potencial candidato a presidente em 2027. O facto de a França ter uma grande delegação de extrema direita, sabendo que este grupo no Parlamento, tem tendência em bloquear mais do que tentar fazer avançar os diversos assuntos, isso claramente vai ter também uma incidência na projeção da França dentro do contexto da União Europeia", concluiu Adeline Afonso.
A primeira cimeira Coreia/África decorre esta terça e quarta-feira, em Seul, na Coreia do Sul, com delegações de 48 países africanos. O Presidente sul-coreano prometeu milhões de dólares em ajuda ao desenvolvimento e em incentivos ao investimento. A cimeira é também um “acto de soft power”, descreve Álvaro Nóbrega, professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa.
“O Futuro que Construímos: Crescimento Partilhado, Sustentabilidade e Solidariedade” é o lema do encontro em cuja abertura o Presidente sul-coreano comprometeu-se em duplicar a ajuda pública ao desenvolvimento em África para chegar aos 10 mil milhões de dólares em 2030 e também prometeu 14 mil milhões de dólares de financiamento em exportações para ajudar as empresas sul-coreanas a expandir o comércio e os seus investimentos no continente africano.
À semelhança de outras cimeiras, o encontro Coreia-África “é um acto de soft power” em que o país anfitrião procura alargar a sua influência num continente hoje reconhecido pelas potencialidades de investimento e pela abundância de riquezas minerais, explica Álvaro Nóbrega, professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa. Se até agora a presença sul-coreana em África era discreta, com destaque para a África do Sul, a cimeira “marca uma afirmação da Coreia do Sul e da sua política africana”.
A Coreia do Sul visa, nomeadamente, recursos minerais como o cobalto, a platina ou o lítio que são essenciais para sectores tecnológicos de ponta, desde o fabrico de veículos eléctricos, à indústria da Defesa. Tanto é que o Presidente sul-coreano admitiu, em entrevista à AFP, que a Coreia do Sul “é uma potência industrial de alta tecnologia, mas depende fortemente das importações no que toca a 95% das suas necessidades em minerais”. Nesse sentido, Álvaro Nóbrega aponta que o primeiro objectivo da cimeira de Seul é “garantir o aprovisionamento de matérias minerais que são essenciais para a economia sul-coreana e para a transição para a chamada economia verde”.
O que é bom para a economia, é bom para o ambiente e a sustentabilidade local? “Os investimentos são importantes. Claro que quando associamos as áreas extractivas aos investimentos, vemos sempre que eles poderão ser predatórios, mas se esses apoios forem bem acolhidos e bem aplicados, naturalmente que se revertem progressivamente para as populações. Se, pelo contrário, forem desaproveitados, não chegarão às populações e, portanto, a questão da distribuição é fundamental”.
Álvaro Nóbrega elenca um segundo objectivo da cimeira Coreia/África que “é retirar apoios ao vizinho do lado, à Coreia do Norte, que contou tradicionalmente com uma boa ligação com alguns países africanos, especialmente durante o período da Guerra Fria e no tempo que se seguiu e que tem vindo de alguma maneira perder essa ligação”.
O encontro junta chefes de Estado e de governo de 48 países africanos, nomeadamente os Presidentes de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Angola é representada pelo secretário de Estado das Relações Exteriores.
O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, participa no fórum de negócios Coreia-África e, à margem da cimeira, tem um encontro bilateral com o seu homólogo Yoon Suk Yeol, assim como com executivos de empresas sul-coreanas. Moçambique tem já um investimento sul-coreano da empresa Kogas, que detém 10% no consórcio de pesquisa de gás natural da Área 4 do Rovuma. A Samsung Heavy Industry anunciou, esta segunda-feira, que prevê arrancar com a construção da segunda plataforma flutuante para a extracção de gás natural liquefeito no terceiro trimestre deste ano, depois de já ter instalado uma primeira infra-estrutura. Mas até que ponto a segurança em Cabo Delgado permite estes investimentos, quando a francesa TotalEnergies suspendeu as operações de construção da unidade de processamento de GNL em Cabo Delgado e ainda não retomou os trabalhos?
Para Álvaro Nóbrega, os investimentos sul-coreanos mostram que “há uma vontade, uma aposta nesse sector” e que “a questão da segurança vem sendo trabalhada”, nomeadamente graças à presença doRuanda que indica uma "tentativa de criar alguma estabilidade nessa zona”. “É uma forma de energia muito relevante que interessa a um conjunto de países e é de esperar que o processo continue”, acrescenta. Da mesma forma, a indústria petrolífera de Angola também atrai a Coreia do Sul que oferece tecnologia no âmbito da construção naval e da construção das próprias plataformas.
Ainda na cimeira, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, integra um painel sobre “Expansão do Comércio e Criação de Emprego” e tem marcado um encontro com o chefe de Estado sul-coreano. Na véspera do evento, Cabo Verde e a Coreia do Sul assinaram um memorando de entendimento para promover acções de cooperação nas áreas da economia, comércio, cultura, ciência e educação.
Para terminar, outro aspecto realçado por Álvaro Nóbrega é a questão de Seul mostrar que não se quer imiscuir nos assuntos internos dos outros países: “As áreas que são classificadas como prioritárias da cooperação com África são sete e nestas a questão da política interna nunca é referida. É um aspecto interessante destas relações porque não tem o chamado condicionalismo político, ou seja, não é sensível à questão do sistema político. Se é democrático ou se não é democrático não entra nessa equação.”
O México elegeu, pela primeira vez, uma mulher para dirigir o país. Este é um “momento histórico” num país marcado pela violência baseada no género, onde, por exemplo, no ano passado, 10 mulheres foram assassinadas diariamente. Claudia Sheinbaum, cientista climática que fez parte do painel que venceu um Nobel em 2007, tem também como desafios o combate contra a violência do crime organizado, a luta contra a pobreza e o desenvolvimento económico e sustentável do país.
Claudia Sheinbaum foi eleita a primeira mulher Presidente do México, onde, de acordo com a ONU, 10 mulheres foram assassinadas diariamente em 2023. Há um ano, a ex-governadora da Cidade do México dizia que “México já não se escreve com M de machismo (…), escreve-se com M de mãe e de mulher” e agora promete ajudar as mulheres a “viverem sem medo”. Além do combate contra a violência baseada no género, outro dos seus desafios é lutar contra a violência do crime organizado que, desde 2006, fez 450.000 mortos e 100.000 desaparecidos.
Claudia Sheinbaum herda o projecto do seu mentor e líder cessante, Andrés Manuel López Obrador, que se empenhou na luta contra as desigualdades sociais, num país onde um terço da população ainda vive na pobreza. López Obrador distribuiu milhões em ajuda directa a idosos, jovens e pessoas com deficiência, e tirou 8,9 milhões de pessoas da pobreza.
Cientista e investigadora nas áreas da energia, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, Claudia Sheinbaum fez parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2007.
O que representa a sua vitória e que perspectivas se abrem para o México? Fomos perguntar a Pedro Abrantes, professor de sociologia na Universidade Aberta de Lisboa, que viveu vários anos no México, onde fez investigação e deu aulas.
"É uma eleição histórica"
RFI: O que representa esta vitória esmagadora de Claudia Sheinbaum nas eleições presidenciais do México?
Pedro Abrantes, Professor de Sociologia: “É uma eleição histórica, primeiro pela eleição de uma mulher. No México, de facto, os presidentes têm historicamente um poder bastante grande porque são, de certa forma, presidentes e primeiro-ministros ao mesmo tempo e nunca tinha ocorrido ser uma mulher. Além disso, é uma académica, portanto, dedicada à investigação científica na maior universidade pública do país e uma das maiores do mundo. Efectivamente, corresponde a um novo perfil que nunca esteve na Presidência do México e que também representa a mudança que tem atravessado a sociedade mexicana.”
Há um ano, ela dizia que “o México já não se escreve com M de machismo (…), escreve-se com M de mãe e de mulher”. No entanto, o México é um dos países com recordes de feminicídios. Dez mulheres são assassinadas diariamente, segundo a ONU. Esta eleição pode mudar alguma coisa?
“Sim, Eu penso que, do ponto de vista da afirmação das mulheres é realmente um momento histórico. Por outro lado, o grande problema que tem hoje o México tem a ver com a violência - e aí realmente as mulheres estão mais expostas - mas não afecta só as mulheres. O México tem um problema gravíssimo relativamente ao crime organizado que, em muitos casos, não se vê como é que vai ser possível desmontar e combater nos próximos anos de uma forma eficaz. Embora seja verdade que a Presidente tem uma estratégia relativamente ao combate à pobreza, estamos a falar de grupos que já alcançaram um nível de organização tão grande que realmente será muito difícil de desmantelar.”
Falou na questão da violência. A guerra contra os cartéis, lançada já pela direita em 2006, continua a fazer mais de 30.000 mortos por ano. Como é que se pode lutar contra esta violência tão enraizada do crime organizado no México?
“Este novo movimento, do qual a Claudia Sheinbaum faz parte, já no último sexénio esteve na Presidência e procurou desenvolver uma estratégia que tem mais a ver com a criação de oportunidades para que, sobretudo nos sectores mais pobres da população, seja possível ter outras possibilidades de enriquecer e, desta forma, não estar tão vulnerável aos cartéis.
No entanto, a verdade é que, até ao momento, o crime organizado não tem diminuído nos últimos anos e tem mostrado uma grande diversificação em termos de actividades, em termos de regiões em que actua e isso é um problema bastante complicado. Quer dizer, actualmente, mesmo mobilizando as forças militares, há várias regiões do México que estão muito condicionadas pela acção do narcotráfico.”
Claudia Sheinbaum afirma-se como feminista, mas relativamente ao aborto, ela não falou sobre a eventual legalização, escudando-se que este já foi despenalizado pelo Tribunal Supremo. Não seria preciso legalizar o aborto para melhorar o acesso e diminuir as desigualdades entre as mulheres?
“Sim, sem dúvida. A estrutura política do México é complexa. Por um lado, a Igreja Católica continua a ter muita força e, nesse sentido, é uma sociedade ainda bastante tradicional. Para além disso, tal como, por exemplo, nos Estados Unidos, há uma série de áreas em que o poder dos estados acaba por se sobrepor ao poder da federação. Ela até era já presidente do Distrito Federal da Cidade do México, onde esse direito já está consagrado, e teve alguma dificuldade em poder defendê-lo claramente relativamente a estados, sobretudo no norte do México, que são mais tradicionais e que ainda não o legalizaram. Estará na mão do Estado fazer essa reforma, a não ser que haja uma alteração constitucional, o que não é impossível, mas também não é uma situação fácil. Eu penso que daí vem um pouco a sua prudência relativamente a essa medida porque a situação é bastante diferente de uns estados para outros.”
Falou na questão da mudança da Constituição. Estas eleições são uma vitória para a esquerda em vários níveis porque também conquistou a maioria necessária no Congresso e tudo indica que conseguirá o mesmo no Senado. Esta vitória não se limita às presidenciais…
“Sim, é verdade, foi uma vitória em várias frentes. Por um lado, embora os resultados ainda não sejam definitivos e ainda possa haver algumas dúvidas, pelo menos na Câmara dos Representantes terá alcançado uma maioria qualificada, o que lhes permite aprovar um conjunto de leis sem precisarem de acordos com outros movimentos políticos e, nesse sentido, poderão alavancar mais do que no sexénio anterior um conjunto de medidas que já vinham defendendo e que consideravam que os outros partidos estavam a limitar ou a atrasar.
No Senado, ainda não se sabe - pelo menos eu não tenho indicação do número de deputados exacto, mas estará ali próximo da maioria absoluta - mas não se sabe ainda se terá alcançado no Senado e isso poderá fazer muita diferença, por exemplo, em termos de mudanças constitucionais.
Para além disso, há as eleições também num conjunto de estados, sendo que realmente no México os estados têm também poderes bastante alargados. Se realmente este movimento MORENA [partido do governo] conseguir vencer em vários estados, isso também acaba por dar um impulso muito maior a certas reformas que podem ser articuladas entre os Estados e o governo federal. Nesse sentido, de facto, ainda se está a aguardar os resultados finais, mas a indicação que existe é que já existe um reforço relativamente ao mandato anterior e isso será muito importante para este governo conseguir realmente desenvolver as políticas que tem defendido.”
Quais serão os principais desafios da nova Presidente, que se comprometeu em continuar com o legado do Presidente cessante, Andrés Manuel López Obrador? Que marca poderá ela deixar?
“Primeiro que tudo, ela situa-se numa posição de continuidade relativamente a uma mudança que o anterior Presidente já impulsionou também desde o mandato anterior e que tem, sobretudo, a ver com o combate às desigualdades que são muito profundas no México e à possibilidade de alguns grupos, desde os grupos com rendimentos mais baixos, desempregados, camponeses, reformados conseguirem aceder a níveis de vida e de bem-estar superiores. E isso faz muita diferença em termos sociais porque o México continua a ter uma estrutura muito polarizada com uma grande parte da população muito pobre.
Por outro lado, eu penso que esta candidata, até pelo perfil que tem de ser uma académica, ainda para mais ligada às questões do meio ambiente, poderá fazer uma diferença também ao nível do desenvolvimento económico e sustentável do México. O México tem, hoje em dia, uma população muito mais qualificada do que no passado, mas ainda acaba por ter uma estrutura económica algo tradicional e, portanto, terá também que dar um salto.
Eu penso que esse será o grande desafio que ela tem pela frente: conseguir realmente que a economia mexicana também possa ser uma economia que não funcione na dependência, sobretudo, dos Estados Unidos, mas que possa, ela própria, impulsionar uma actividade que seja mais inovadora, com maiores níveis de sofisticação, criadora também de mais rendimentos e, além disso, que seja mais sustentável porque o México tem problemas complexos que agora se estão a sentir muito, como a falta de água, por exemplo, ou com o desregrado dos plásticos, e isso terá que ser combatido com muito conhecimento. Uma académica nesta área acaba por ser uma esperança que possa trazer algum conhecimento e algumas soluções mais sofisticadas para problemas que são bastante complexos.”
Falou da dependência económica dos Estados Unidos. Ora, 80% das exportações são feitas para os Estados Unidos e há uma grande emigração para os Estados Unidos. Que relações é que se podem esperar, em termos diplomáticos e económicos, num ano em que vamos ter eleições nos Estados Unidos e que o candidato Donald Trump falou em deportação em massa de migrantes?
“Eu penso que o México tem beneficiado - e creio que continuará a beneficiar - de um cenário a nível mundial em que os Estados Unidos acabam por ter um conjunto de restrições e de tensões com a China e com a Rússia e isso faz com que, em grande medida, uma parte do investimento que era canalizado para essas regiões tenha sido mais canalizado para a América e para o continente americano, em particular, para o México. Nesse sentido, a situação é melhor para o México do que era há 10 ou 20 anos.
Esta dependência que existe faz com que alterações que existam nos Estados Unidos se sintam sempre no México e se houver um resultado como a eleição de Donald Trump ou uma situação de alguma instabilidade, isso vai-se repercutir no México, até porque, como nós sabemos, há uma parte grande que foi muito apoiada pelo Donald Trump que busca no México e nos mexicanos o bode expiatório para um conjunto de problemas que existem na economia e na sociedade americana. Nesse sentido, claro que vai haver alguma tensão e não será fácil de gerir, mas neste momento os Estados Unidos precisam muito do México, assim como o México também precisa dos Estados Unidos. Eu penso que essa relação próxima se vai manter nos próximos anos, independentemente de haver alguns atritos em termos diplomáticos.”
O Festival de Cinema IndieLisboa chega ao fim este domingo. Com 250 filmes distribuídos por várias secções, a 21.ª edição do festival regista um recorde de 26 películas portuguesas em competição.
A par das diferentes secções competitivas e não competitivas, o IndieLisboa apresentou duas grandes retrospectivas: Uma dedicada ao artista visual e realizador palestiniano Kamal Aljafari e outra dedicada ao MFA.
No ano em que se celebram 50 anos do 25 de Abril, a retrospectiva é uma homenagem às Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do Movimento das Forças Armadas (MFA).
Uma das novidades da edição deste ano é a secção Rizoma.
Aqui é apresentado "um conjunto de obras que destacam questões relevantes da actualidade, cineastas de renome e antestreias."
Um programa "em torno do cinema como entretenimento, reflexão e debate," onde, por exemplo, as co-produções entre Portugal, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Brasil e França ganham espaço.
França, Alemanha e Estados Unidos autorizaram a Ucrânia a utilizar o armamento francês, alemão e norte-americano contra alvos militares em território russo. O Major-General na reforma, Carlos Branco, lembra que estamos perante "uma campanha mediática que visa obscurecer o que está a ocorrer na frente de batalha", isto é, "a derrota progressiva das forças ucraniana".
RFI: Qual é o alcance desta autorização dada por França, Alemanha e os Estados Unidos, pode ter impacto no decurso da guerra?
Carlos Branco: A resposta a essa pergunta tem de ser analisada de várias perspectivas: Em primeiro lugar, perceber que, desde o início da guerra, o armamento fornecido pelas potências ocidentais à Ucrânia tem sido utilizado a atacar a Rússia e, portanto, há várias situações em que isso tem ocorrido e têm sido públicas. E isso, de certa forma, é uma prática que tem sido utilizada desde há uns tempos a esta parte, eu diria quase desde o início da guerra. Portanto, não há um grande elemento de inovação. O que nós estamos aqui a enfrentar é fundamentalmente uma campanha mediática que visa, de certa forma, obscurecer o que está a ocorrer na frente de batalha, que é a derrota progressiva das forças ucranianas, que se encontram numa dificuldade cada vez maior.
Quando estamos a falar deste equipamento, estamos a falar fundamentalmente de equipamento, dado o seu alcance, que tem impacto táctico na conduta das operações. Há aqui outro elemento que nós temos que introduzir neste debate que se prende com a guerra psicológica. O Ocidente começa a entrar numa situação de grande ansiedade com o que poderá decorrer desta guerra no domínio estratégico, que passa fundamentalmente por uma derrota que se poderá traduzir numa humilhação, sobretudo se aquilo que o Presidente Putin tem vindo a falar se concretizar, ou seja, não se falar apenas do congelamento da situação táctica ou de um armistício ou de um congelamento das operações, mas no desenho de uma nova arquitectura de segurança e defesa Na Europa. E perante esta situação de grande desconformidade no Ocidente, surgem algumas soluções que e alguns discursos que me parecem pouco adequado.
Que soluções são essas?
O caso da França que fala em enviar tropas para a Ucrânia, que numa primeira fase serão apenas instrutores, mas que poderão rapidamente evoluir com uma intenção directa que é alterar e afectar o desenvolvimento da situação táctica e depois operacional. Há países que já disseram claramente que estão disponíveis para isso. Estamos a falar da Polónia e estamos a falar dos Bálticos, embora os bálticos não tenham capacidade militar e não sejam relevantes neste processo. Ou seja, tem uma voz muito grossa, mas aquilo não é consequente. Já não se pode dizer a mesma coisa da Polónia. A probabilidade de esses países, meramente a França e a Polónia, participarem com forças na Ucrânia. Isso pode nos conduzir a um resultado que nós não sabemos qual é.
Aliás, eu gostava de recordar que no Vietname as forças americanas começaram também exactamente com os formadores e depois, a partir do momento em que os formadores começam a cair e a voltarem em sacos de plástico pretos. Depois, a seguir, há sempre aquela questão da humilhação que as grandes potências têm e depois não moderam a forma do seu empenho nas operações, que é sempre a tentativa de escalar. Portanto, essa possibilidade existe. Nós estamos a ter um debate desfocado, descentralizado, porque quando se trata de utilização de equipamento ocidental na Rússia, nós temos que distinguir entre aquele equipamento que tem sido utilizado até agora. Vai continuar a ser utilizado e daqui não há nada novo. Não há notícia que o presidente Biden tenha impedido a utilização, por exemplo, dos Excalibur, dos HIMARS, dos HARM.
Estamos a falar de quê, precisamente?
Estamos a falar de mísseis. Estou a falar concretamente dos americanos porque tem sido utilizado fora das fronteiras da Ucrânia até agora. Por exemplo, os AGM-88 HARM, que é um equipamento fundamentalmente dirigido aos radares de defesa aérea do inimigo, tem sido utilizado. Este tipo de equipamentos são fundamentalmente pelo seu alcance de natureza táctica, porque os centros de comando e controlo russos estão muito para lá do alcance destes equipamentos. E reitero outra coisa importante que estes equipamentos não são decisivos para alterar o curso da batalha.
A Ucrânia está a perder a guerra no campo de batalha. Estes novos equipamentos táticos vão mudar o panorama operacional?
Não, não, não. Este tipo de equipamentos não vai fazer a diferença no sentido em que a centralidade operacional, os centros de comando e controlo de natureza estratégica russa estão para além do alcance destas armas. Portanto, estamos mais uma vez a dar um tiro ao lado, o alvo errado. A questão central tem a ver fundamentalmente com o que foi a resposta de Putin. E isso tem a ver com o seguinte; Há poucos dias foram feitos uns ataques a dois radares do sistema de aviso prévio nuclear russo e aí são infra-estruturas de natureza estratégica e todos nós sabemos que a Ucrânia não tem capacidade para estas operações, que estas operações só são possíveis devido à ajuda exterior e isto é uma uma actuação permanente desde o início da guerra. Estará seguramente lembrada do afundamento Moskva e o Moskva só foi afundado porque teve ajuda externa e à fortes suspeitas que tenham sido os ingleses.
O que é que nós estamos a assistir nesta altura: A utilização destes meios que nós acabámos de referir, os mísseis só são possíveis de serem empregues com ajuda externa. Em primeiro lugar: a identificação dos alvos não é feita pelos ucranianos. É feita por um sistema que tem a colaboração da NATO e tem o envolvimento de aviões, de uma série de sensores de drones. Ou seja, são pertença de países da NATO. Há uma relação causa efeito entre estes ataques e a presença deste tipo de equipamento. Estou a falar fundamentalmente de drones e estes drones costumam ser drones norte-americanos que não só fazem o guiamento destas missões. E quando eu digo destas missões, isto aplica-se também ao caso dos drones aquáticos, que para além de identificar os alvos, quando eu digo identificar os alvos, estou-me a referir inclusivamente à localização dos alvos. Depois faz o guiamento até estes locais para atingir os alvos pré-identificados. Estes equipamentos não são operados pelos ucranianos. Estes equipamentos são operados por militares dos país...
São operados por norte-americanos?
Não, os que são norte-americanos são operados por militares norte-americanos, os que são ingleses por ingleses e os que são franceses e serão pelos franceses, porque isto é matéria muito sensível e não se pode colocar este tipo de informações na mão de pessoas que inclusivamente não pertencem à NATO, pelas circunstâncias todas que nós percebemos. A fuga de informação, questões de natureza tecnológica, etc. Ou seja, tem que haver aqui um controlo grande.
Os russos sabem perfeitamente que este equipamento que vem agora ser coberto pelo chapéu da utilização ilimitada dos meios dados pelos ocidentais no território russo. Eles sabem perfeitamente que isto é utilizar o argumento, o pretexto ucraniano e sabem efectivamente que isso não é bem assim. No fundo, são armas que os países ocidentais utilizam para atacar a Rússia. Mas enquanto estes ataques se limitarem às questões de natureza táctica e com impacto directo nas operações, eu penso que os russos aí não terão muita capacidade argumentativa. Se estes ataques forem em infra-estruturas de natureza estratégica e nesse caso, a estratégica nuclear. Ah, pois então, aí a reacção é outra. E aí a Rússia, seguramente, de acordo com a sua doutrina militar, terá respostas mais assertivas. E essas respostas mais assertivas podem ser várias coisas, desde o ataque a instalações americanas fora da América. É extremamente improvável um ataque ao território americano e quando eu digo o território americano, incluo também a França e o território do Reino Unido. Mas não podemos colocar de parte também a possibilidade de ataques a estes drones que voam no Mar Negro e que têm como finalidade fazer o tal guiamento destas munições que vão atacar o território russo na sua profundidade.
Não devemos reagir de uma forma excessiva porque há aqui uma componente de continuidade. Portanto, é apenas uma narrativa, porque o que está por trás da narrativa não é nada de novo. É uma tentativa de moldar as opiniões públicas. Passamos da questão mediática para a questão das operações psicológicas. Moldar as opiniões públicas para estarem receptivas à eventualidade de um confronto militar, parece extremamente grave.
Desviar atenções, portanto?
Quer dizer, não é bem, até desviar atenções é mais de moldar os pensamentos, actuar no domínio cognitivo para que fiquem mais receptivas ao uso da força posterior com uma natureza diferente daquele tem tido até agora a intervenção militar directa no território ucraniano.
O secretário-geral da NATO disse hoje que concorda com a decisão de alguns aliados de autorizarem que a Ucrânia use armas ocidentais para atacar o território russo. No entanto, avisou que o armamento deve ser utilizado de forma responsável e de acordo com a lei internacional. Pergunto-lhe o que é que significa esta afirmação? O que é que significa de acordo com a lei internacional?
O secretário-geral da NATO excede se muitas vezes na linguagem. Ele não é um primus inter pares. Ele não disse nada. Quem decide são os Estados e eu recordo que quem toma as decisões por consenso são os Estados. O poder está nos Estados. Ele limita-se a moderar e a dirigir as reuniões do Conselho do Atlântico Norte nos seus diferentes formatos. Ou seja, pode ser tanto a nível dos representantes permanentes em Bruxelas, como a nível dos ministros e como eventualmente até a nível de cimeiras, chefes de governo e de Estado. O papel dele é este e, portanto, como tal, ele deve-se limitar a ser um porta-voz e não é suposto que dê opiniões e que venha fazer comentários e dar indicações. Ele não dá indicações nenhumas. Ele pode ter dado indicações quando tinha responsabilidades governativas na Noruega. Aqui não. Portanto, tudo o que ele diz tem que reflectir o pensamento da NATO. A partir do momento que não existem decisões da NATO relativamente a essa matéria, o que ele diz não tem sentido. É uma vacuidade.
Aliás, se eu não estou enganado, esta última reunião foi uma reunião de ministros dos negócios estrangeiros informal, como sendo uma reunião informal não se tomam decisões. E tanto quanto eu saí, também não há declarações. Nós muitas das vezes até por desconhecimento damos muita ênfase e muita importância às declarações do senhor Stoltenberg. Mas o senhor Stoltenberg está a falar de coisas, muitas das vezes, para as quais não está mandatado e já teve várias vezes que recuar daquilo que disse, porque aquilo que ele diz não reflecte o pensamento dos membros da Aliança e sobretudo em determinados domínios em que essas decisões têm que tomar por consenso. Eu posso recordar-lhe, por exemplo, as posições que já foram tomadas sobre as últimas declarações dele pela Itália. A Itália foi clara sobre essa matéria; que não ia autorizar a utilização no elemento que fornece no território russo. E sabemos também qual é a posição da Hungria e da Eslováquia e de outros países que têm posições mais mais silenciosas. Mas sabemos o pensamento deles.
Fala de respostas silenciosas. Como é que explica estas respostas silenciosas, por haver receio?
Claro, porque quando há um primus inter pares muito assertivo.. Se um determinado país tiver posturas de discordância relativamente à posição do primus inter pares, tem que gerir essas discussões com muita cautela e, fundamentalmente, de uma forma discreta. Não pode vir afrontar publicamente a grande potência. É assim que funcionam as relações internacionais. E o que eu lhe estou a dizer relativamente a estas manifestações discretas é exactamente isto porque a grande potência, o primus inter pares, quando os estados secundários têm a divergência de pensamento, acaba por utilizar os recursos que têm ao seu alcance para o fazer alterar a sua posição. E os recursos são muitos, para além das diferentes formas de pressão.
As eleições para o Parlamento Europeu decorrem na próxima semana, do 6 ao 9 de Junho, num contexto geopolítico sem precedentes: A guerra nas fronteiras da União Europeia, um aliado americano instável, tensões no Médio Oriente que ameaçam a economia mundial. O especialista em questões de segurança ligado Universidade Lusíada em Lisboa, José Manuel Anes, espera que "estas eleições não ponham em perigo a unidade europeia para que a UE possa continuar a apoiar a Ucrânia".
RFI: Todos os cinco anos, os eleitores europeus são chamados às urnas para escolher os membros do Parlamento Europeu. A votação tem um impacto directo na política da União Europeia durante a próxima legislatura. As eleições europeias determinam o lugar da Europa e da União Europeia no mundo. O que é que estas eleições podem vir a mudar na questão de defesa e de segurança da União Europeia?
José Manuel Anes: Tenho receio que estas eleições possam vir a mudar a situação europeia num sentido negativo. Porque há toda uma direita radical e populista que anda para aí com avanços. Não é? Nem toda ela é perigosa porque, por exemplo, no caso da Itália, a Giorgia Meloni, primeira-ministra é completamente diferente do senhor Salvini. O Salvini é próximo de Putin, da Rússia de Putin e de Giorgia Meloni, tem uma aproximação à Europa, à NATO e também à Ucrânia. Portanto, há dois universos que curiosamente estão aliados. Não sei porquê, são de facto diferentes. Portanto, eu tenho receio é que essa direita radical e populista, por exemplo, lamento dizer, mas a senhora Marine Le Pen, na verdade ela tem uma posição agora, é dúbia, mas aqui há poucos tempos não era nada dúbia, era claramente uma aliada de Putin. Ora bem, e isto é que eu lamento, porque a Europa não pode correr riscos. Saúdo vivamente Macron porque tem tido alguma força para aguentar estas investidas de uma direita radical e populista.
A subida da extrema-direita de que fala ou o risco do crescimento destes partidos de extrema-direita na União Europeia pode comprometer as relações geopolíticas tal como as conhecemos hoje?
De facto, pode ir. Pode haver uma fractura dentro da Europa e seria a coisa pior que podia haver. Já temos realmente sinais de fractura. Veja se o caso da Hungria. O Viktor Orban é um homem que toda a simpatia vai para os russos e vai para o Putin e põe em causa essa unidade, essa convergência que é desejável na Europa. Portanto, há sinais completamente perigosos e preocupantes. Portanto, eu creio que, e faço votos para que estas eleições não ponham em risco essa unidade europeia que tem sido muito importante para apoiarmos a Ucrânia, porque a Ucrânia não pode perder a guerra se a Ucrânia perder a guerra, é a Europa que perde. E, de facto, nós estamos em risco porque a Rússia de Putin não vai parar por ali de modo algum.
A defesa e a segurança são matérias internas dos Estados, mas a Cooperação estruturada permanente é uma questão em análise no seio da União Europeia. No momento em que a Europa vive uma guerra há mais de dois anos, faz sentido a União Europeia criar uma estrutura de defesa comum, um Exército europeu, como defendeu Emmanuel Macron, o Presidente francês?
Eu sou partidário dessa ideia. É evidente que isso custa dinheiro. Diziam aqui há uns anos, quando se começou a levantar essa ideia de que para nós termos dinheiro para esta questão social e o Estado social europeu, depois temos que desviar para a defesa. Mas eu acho que pode haver soluções intermédias e naturalmente, contamos sempre para além de uma capacidade própria da Europa a nível de defesa e segurança, podemos comparar também com os Estados Unidos da América e esperemos que Joe Biden ganhe as próximas eleições. Serão será uma desgraça, uma desgraça para os Estados Unidos e para a Europa e para o mundo.
Precisamente sobre as eleições presidenciais norte americanas, marcadas para o final deste ano, em Novembro, existe um perigo de uma eventual reeleição de Donald Trump provocar o fim da unidade europeia e haver mudanças reais nas relações transatlânticas?
Esse é um perigo enorme. Eu, como já sou uma pessoa de idade, realmente tenho muito medo do futuro. Sinceramente, a reeleição ou a eleição de Donald Trump eu não fui agora eleito, mas há o risco e esse risco real será muito mau, muito negativo. De facto, a Europa vai sofrer com isso claramente. E o mundo.
Mas que consequências poderiam decorrer desta reeleição de Donald Trump, na questão de defesa e de segurança da União Europeia?
Já ele tem aquele slogan de América First, primeiro a América e o resto não interessa. Essa é a primeira questão que tem consequências a nível da economia, da política, da diplomacia e também na segurança e defesa. É possível que Joe Biden, apesar de idoso que ainda possa vencer, mas será mesmo à tangente e tem que haver de parte dos democratas norte-americanos um esforço enorme, porque agora a esquerda do Partido Democrata está, digamos, de alguma maneira cindida do resto do partido. Porque por causa da questão de Israel. Agora, a verdade é que nós temos que passar por cima disso. É evidente que Israel não pode fazer o que quer e que lhe apetece, mas também tem o direito a defender-se. Foi essa política que Joe Biden lançou e acho muito bem, agora tem que ter cuidado com a população de Gaza, sem dúvida nenhuma.
Nesta questão do conflito na Faixa de Gaza, a União Europeia pode ter uma posição demarcada para que se concretize a solução de dois Estados Israel e Palestina?
Sim, a solução de dois Estados, eu creio que é para mim, no meu entendimento e de muita outra gente, é a única solução que pode assegurar paz para aquela zona. Porque, digamos, Israel sozinho no meio daqueles países todos, vai ter uma vida de inferno ao longo dos anos e, portanto, temos de assegurar essa situação dos dois Estados e com garantias de segurança para ambos os Estados. Temos que investir todos os nossos esforços diplomáticos, políticos, de toda a natureza para que essa solução se prevaleça. Isso é muito importante mesmo.
Voltando a falar do conflito à porta da Europa, da invasão russa na Ucrânia, até onde é que pode ir o apoio militar da União Europeia à Ucrânia, à integração da Ucrânia na União Europeia pode implicar mudanças internas na UE, a seu ver?
É evidente que nós temos que ajudar a Ucrânia tanto quanto nos for possível porque ajudar a Ucrânia é ajudarmos a nós próprios. A Rússia, como disse, não vai parar por ali no seu sonho imperialista e expansionista está claro. Eu lembro me perfeitamente que eu era um jovem radical e em 1968, à invasão da Checoslováquia, os tanques soviéticos, então em Praga. E eu nessa altura vi logo qual era o filme que se ia seguir e está à vista hoje. É dos últimos casos da Ucrânia, mas com outras, digamos, situações altamente preocupantes. Portanto, a Europa tem de se defender e para se defender tem que ajudar a Ucrânia. Isso é que não há a mais pequena dúvida.
A grande linha importante na defesa da União Europeia hoje é defender se da Rússia. E é isso que está a dizer?
Com certeza. É realmente impressionante. Depois de uma acalmia que há uns 20 anos atrás, em que a Rússia parecia ser um cordeirinho, ele está de facto aí a assumir o papel da pele do lobo e não vai parar por aí a Transnístria ali ao pé da Moldova. E também a questão do fim da Geórgia, que é um assunto que não está e por vários países. De facto, a Rússia é um perigo internacional. Temos de ter essa noção e portanto, ajudar a Ucrânia e defendermos contra a Rússia.
Esse é um dos pontos importantes nestas eleições europeias?
Claramente, claramente e volto a dizer, eu saúdo o Presidente Macron, que tem sido muito claro nesta postura. Não há meio-termo ou nos defendemos da Rússia e, portanto, apoiamos a Ucrânia, ou então o nosso futuro está muito em risco, mas muito em risco.
As eleições europeias de 2024 decorrem num contexto económico marcado pelas consequências da pandemia de Covid-19 e pelas tensões geopolíticas. Os europeus são chamados às urnas, nos dias 8 e 9 de Junho, para eleger os representantes no Parlamento Europeu, que vão desempenhar um papel fundamental na definição das políticas económicas e financeiras da UE para os próximos cinco anos.
Avelino Jesus, economista português, considera que o tema económico mais central na União Europeia é a estagnação da produtividade, uma situação que se deve ao facto de o Mercado Único Europeu ainda não estar completo.
RFI: O tema económico mais central na União Europeia é a estagnação da produtividade e a perda de terreno em relação a outros grandes blocos económicos, nomeadamente os Estados Unidos. Mario Draghi, o antigo primeiro-ministro italiano, está a preparar um relatório sobre a competitividade europeia e que será divulgado logo a seguir às eleições. Como é que a Europa pode recuperar competitividade e impulsionar o crescimento?
Avelino Jesus, economista: A União Europeia evoluiu rapidamente com a construção do Mercado Único Europeu, dando origem ao euro. Só que em resultado do êxito do Mercado Único, nos últimos anos, muitas pessoas consideraram que estava tudo feito, mas este mercado está incompleto, sobretudo na área dos serviços.
Hoje em dia, as economias são muito economias de serviços. A parte agrícola e a parte industrial têm vindo a perder peso, o que é perfeitamente normal e não vai haver com certeza a recuperação desse ponto de vista, mas não há nada de mal que as economias evoluem no sentido de um maior peso dos serviços. Só que o mercado único na área dos serviços está incompleto.
Mas o que falta para o completar?
Fazer-se aquilo que se fez na área da agricultura e na área da produção industrial. Na área dos serviços não há liberdade de circulação e de prestação de serviços. Este tema deixou de estar na ordem do dia, do meu ponto de vista, erroneamente. Houve um debate, aí há uns dez anos, no sentido de acelerar o Mercado Único Europeu na área dos serviços, mas devido a conflitos particulares de alguns países, nomeadamente no caso da França - que se opôs de forma veemente ao alargamento do mercado único aos serviços - o tema deixou de estar em cima da mesa. Actualmente, com a perda de competitividade da União Europeia, penso ser prioritário que esse assunto regresse para cima da mesa.
A União Europeia deve concentrar-se ainda em dar um novo impulso ao comércio internacional, tornar-se líder no crescimento verde, colocar a Europa na vanguarda da revolução tecnológica e da inteligência artificial. O Velho Continente ainda vai a tempo de se impor nesta corrida tecnológica?
Sim, penso que sim. Aquilo que precisa de ser feito é completar o Mercado Único Europeu na área dos serviços, liberalizando mais as economias internas, forçar os países que são mais burocráticos, como o caso português e o grego, a abrirem mais as suas economias e a liberalizar as suas relações às relações internas.
Se fizermos isso, esses objectivos vão realizar-se efetivamente. Eu julgo que mais do que definir objectivos grandiosos, como estes que referiu, é preferível não ser tão ambicioso e tomar medidas concretas que levem à sua realização. Para não correr o risco de a frustração ser maior, levando as pessoas a deixarem de acreditar na definição de objectivos dessa natureza.
O grande desafio para os eurodeputados será o de influenciar as políticas industriais que visam aumentar a produtividade na Europa. Tem estado a ganhar força o argumento das intervenções estatais e de um certo proteccionismo. Considera que este é o passo certo?
Eu julgo que é um passo errado. Há certas pessoas que consideram que a União Europeia deve ser mais proteccionista face aos países fora da Europa, como é o caso da China e dos Estados Unidos. Porém, julgo que se trata de uma medida errónea, porque todos vamos perder pontos se optarmos por políticas proteccionistas face aos outros países que vão ripostar e vamos entrar numa guerra comercial que vai desfavorecer todos.
Devemos tentar negociar, quer com os Estados Unidos, quer com a China, quer com os outros países, o desmantelamento alfandegário de forma gradual, mas nunca entrar na via do proteccionismo.
Entre as questões ligadas à estabilidade financeira, a redução dos níveis de dívida pública que aumentaram acentuadamente devido às medidas de apoio económico implementadas durante a pandemia do Covid-19. Faz sentido manter este défice público, a menos de 3% do PIB, quando 13 dos 27 Estados não atingiram este objectivo?
Esse objectivo fez sempre sentido. É verdade que houve uma certa desigualdade no tratamento que os órgãos da União Europeia deram aos países com maior poder interno e aos países mais pequenos e mais vulneráveis, no que refere ao cumprimento deste défice, mas isso põe em causa a necessidade e o imperativo do objectivo dos 3%.
Do ponto de vista económico, o défice público a menos de 3% faz todo o sentido e é do interesse geral para a União Europeia como um todo. Não devemos pôr em causa a necessidade desse objectivo, pelo facto dos órgãos da União Europeia não terem sido incapazes e até injustos na sua execução.
O aprofundamento da União Económica e Monetária constitui também um grande desafio para a estabilidade financeira da União Europeia. O que é que se pode esperar nos próximos anos?
Considero que o sector financeiro faz parte da área dos serviços e por isso incluo-a também no melhoramento do Mercado Único Europeu. O sector financeiro deve garantir uma concorrência efectiva entre os bancos dos vários países e não a um "proteccionismo larvar" que continua a existir.
Digamos que há ainda muitos obstáculos à livre circulação no sector financeiro, tal como existem noutros serviços. Há outra questão importante e que é, de facto, o peso das dívidas públicas dos vários países e as implicações que isso tem para a estabilidade do euro. Eu diria que o adequado, do ponto de vista político, é ver o sector financeiro, digamos, no conjunto do sector dos serviços, abordando as questões de uma forma conjunta.
O poder de compra é uma das questões que mais preocupa os europeus quando se fala muitas vezes numa Europa a várias velocidades, como é que se pode responder a esta preocupação?
A questão das várias velocidades e a questão da desigualdade entre os países é inevitável. Quer dizer, estamos condenados a essa questão e sublinhamos essa questão, mas sem nunca encontrarmos uma solução, porque a natureza da economia é o que é. Devem ser os países, individualmente, a tomarem as suas próprias medidas no sentido de acelerarem o seu crescimento, deixando de estar à espera que essa desigualdade seja conforme ao nível europeu. Sim, tanto mais que com os alargamentos que aí vêm, essa questão torna-se cada vez mais uma questão insolúvel.
Com as sondagens a apontarem para a chegada em força da extrema-direita ao Parlamento Europeu, quais serão os impactos nas políticas económicas?
Isso é uma grande incógnita. Não haverá propriamente uma extrema-direita, mas sim uma recomposição que poderá integrar-se naturalmente ou aliar-se aos partidos tradicionais.
Os nove activistas detidos no passado dia 18 de Maio, durante o protesto da "Frente Popular», foram postos em liberdade nesta segunda-feira sob termo de identidade e residência, por ordem do Tribunal Regional de Bissau, depois de terem sido ouvidos durante mais de sete horas pelo Ministério Público. Luís Vaz Martins, advogado de defesa dos activistas, afirma que vão processar o Estado por sequestro e acusa a comunidade internacional de ser cúmplice com o está a acontecer na Guiné-Bissau.
Os nove actvistas foram colocados em liberdade, mas com medidas de coação. Que restrições são essas?
Saíram com termo de Identidade e residência. Ou seja, se eles tiveram que mudar de morada, ou se tiverem de sair do país, têm de informar o Ministério Público. Todavia, a meu ver, a audiência no Ministério Público não fez sentido, uma vez que já existia uma decisão judicial, transitada em julgado, a ordenar a libertação [dos nove activistas].
Se alguém tinha de ser ouvido, devia ser o secretário de Estado de Ordem Pública e o ministro do Interior, por terem incorrido num crime de desobediência agravada, obstrução da actividade jurisdicional e sequestro.
Tratou-se de mais uma técnica do regime para mostrar que, efectivamente, os nove actvivistas teriam estado numa situação de incumprimento de alguma lei, o que nunca aconteceu. Isto porque a liberdade de manifestação é uma liberdade consagrada na Constituição e não requer a autorização de quem quer que seja.
Mas de que é que são acusados estes activistas? Estas medidas de coacção baseiam-se em quê?
Ninguém entende as coisas deste país. Todo o mundo sabe que os tribunais também foram sequestrados pelo regime. Todavia, desta vez, o juiz teve coragem de fazer o que estava certo, decretando a libertação [dos nove actvistas].
E é nessa base que- com ordens vindas de fontes superiores- queriam fazer algum espectáculo em torno da coisa e foram inventar aquela audiência [no Ministério Público] que só acabou por volta das 18h00. São aqueles processos comprometidos para nunca andar, mas para mostrar a alguém que a privação de liberdade teria algum suporte legal.
O senhor lidera a equipa de advogados que representa os nove activistas. Pensam avançar com alguma acção contra as autoridades guineenses?
Vamos acusar o Estado de crime de sequestro. Alguém tentou vender uma retórica em torno da detenção, mas aquilo que aconteceu não preenche nenhum dos requisitos para que se efectue uma detenção. Isto que significa que os 9 activistas foram privados da sua liberdade, durante dez dias, sem qualquer suporte legal e com a agravante de ter havido tortura. Eles foram severamente torturados.
A privação de liberdade sem suporte legal é tortura. São crimes suportados pela agenda internacional, concretamente pela Organização Mundial Contra a Tortura. É nesta base que acreditamos que, sendo um crime contra a humanidade, devem ser responsabilizados [os autores destes crimes]. Independentemente de se entrar com uma queixa contra o Estado da Guiné-Bissau, os mandantes daquele acto de tortura devem ser responsabilizados. Estamos a trabalhar no sentido de cumprir essa agenda.
O Presidente Umaro Sissoko Embaló acusa os activistas de promoverem manifestações "encomendadas no país". Considera que existe a possibilidade de estar a haver ingerência externa no país?
Esta retórica já velha e já ninguém a compra. Umaro Sissoco Embaló não acredita que as pessoas possam pensar com as respectivas cabeças, que possam agir de forma livre. Esta situação não foi encomendada.
Estamos a falar de uma iniciativa da sociedade civil, de cidadãos livres e conscientes, confrontadas que o assalto às instituições da República, mais concretamente o golpe de Estado institucional que se deu na Assembleia da República, com a agravante de já ter sido verificado também golpe no próprio Supremo Tribunal de Justiça.
Hoje nós não temos um poder judicial independente. A esta situação junta-se os agravantes ligados à fome, à falta de assistência médica, ao não funcionamento do Serviço Nacional de Educação e o aumento do nível de vida de forma generalizada.
Face a este contexto, tinha que haver algum momento em que o povo iria assumir o seu destino e foi o que aconteceu com a Frente Popular. Não há aqui qualquer possibilidade de alguém ter sido instrumentalizado. As pessoas ligadas à Frente Popular são cidadãos idóneos, que não podem ser conotados com qualquer tipo de instrumentalização.
Os activistas dizem que não cometeram quaisquer crimes. Dizem que vão continuar a luta pela liberdade e pela democracia no país. O Presidente guineense diz que não vai permitir a "desordem", nem que se façam "manifestações encomendadas no país". Há o risco da situação se poder vir a agravar?
Esse risco existe, mas acho que o Presidente já esticou demasiado a corda. A coisa já chegou a um nível que não creio que ele conseguirá- com essas ameaças- dissuadir os implicados nessa iniciativa. A tendência é de haver mais aderência porque os guineenses, de forma geral, não compactuam com a injustiça e tendem a posicionar-se do lado do mais fraco.
O próprio Presidente sentiu que já não tem tantos apoios. É a primeira vez que fala da possibilidade de não ser eleito. O próprio discurso [de Umaro Sissoco Embaló] já está a mudar. Não se pode permitir que se atormente o povo. Não se pode permitir que qualquer voz dissidente, ou crítica do regime, seja vítima de algum tipo de atentado. E é o que se tem vivido aqui ao tentar amordaçar as liberdades.
Odireito à liberdade de manifestação, de expressão e de imprensa estão consagradas na Constituição da República da Guiné-Bissau e ele não pode tolher, a quem quer que seja, o exercício desses direitos. O Estado tem o seu alicerce baseado numa norma que é a Constituição da República da Guiné-Bissau- a nossa lei magna- a vontade de um Presidente da República, ou de qualquer titular de cargo de soberania, não pode suplantar a Constituição da República da Guiné-Bissau.
Falou-me de situações de repressão, de violência, de activistas espancados, torturados. Não receia que o contexto mundial actual contribua para que a comunidade internacional não olhe para o que se está a passar na Guiné-Bissau? Que se possam cometer outras situações ainda mais graves?
As coisas graves já estão a acontecer e a comunidade internacional tem sido cúmplice com a situação que se vive na Guiné-Bissau. A comunidade internacional tem estado a suportar um regime ditatorial e que açambarca todas as normas democráticas. Portugal olhou para o lado e fingiu que não estava a ver o que está a acontecer aqui no país. A própria Europa, que vende uma imagem de defensora da democracia, olha para o lado e finge que não vê nada. O Presidente da França, Emmanuel Macron, faz a mesma coisa.
As pessoas estão a ser massacradas, as liberdades estão a ser restringidas e ninguém diz o que quer que seja. Nem a União Europeia, nem as Nações Unidas.
Que apelo faz à comunidade internacional?
Que assuma de forma coerente a posição que sempre tem assumido relativamente à situação de restrição das liberdades, à violação dos direitos humanos e ao não respeito das regras democráticas. A comunidade internacional, que inculca o modelo democrático que nós temos, deve ser pelo menos a ser solidária com aqueles que defendem o respeito pelas regras do jogo.
A África do Sul vai a votos na próxima quarta-feira, 29 de Maio. As sondagens indicam que o Congresso Nacional Africano (ANC), no poder desde 1994, irá perder a maioria absoluta no parlamento. José Gama, jornalista angolano baseado em Pretória, sublinha que as desigualdades sociais, injustiças económicas e a corrupção acabaram por desacreditar o ANC.
A África do Sul vai a votos na próxima quarta-feira, 29 de Maio. 27,6 milhões de eleitores são chamados às urnas para escolher 400 deputados, que irão posteriormente designar o próximo presidente do país. Cerca de cinquenta partidos estão na corrida legislativa.
As sondagens indicam que o ANC, o Congresso Nacional Africano, no poder desde as primeiras eleições democráticas em 1994, irá perder a maioria absoluta no parlamento, obtendo entre 40 a 46% da votação. A comprovar-se, o partido de Nelson Mandela vai ser obrigado a formar alianças para se manter no poder.
Pela primeira vez em trinta anos, a África do Sul vai a eleições com uma população maioritariamente jovem sem memória do apartheid. Se entre os eleitores mais velhos a divisão entre a lealdade ao ANC e as actuais preocupações do país existe, nos mais novos é o desemprego endémico, a violência e insegurança, a escassez de água e electricidade e a corrupção que são alguns dos factores que podem ditar o sentido de voto na próxima quarta-feira.
José Gama, jornalista angolano baseado em Pretória, sublinha que as desigualdades sociais, injustiças económicas e a corrupção acabaram por desacreditar o ANC.
RFI: O que é que está em jogo neste sufrágio?
José Gama, jornalista angolano baseado em Pretória: As sondagens apontam que, pela primeira vez, o ANC perde a sua maioria parlamentar, com uma percentagem inferior a 45%.
A África do Sul está no sistema democrático desde 1994. As pessoas foram depositando confiança no ANC para ver se corrigia as desigualdades sociais aconteciam no regime do apartheid. E este fenómeno não aconteceu. Então, as pessoas agora aguardam a eleição de uma nova força que possa ajudar a pôr fim a essas desigualdades sociais, às desigualdades económicas, às injustiças também económicas nas comunidades de brancos e negros.
Aguardam, também, [explicações] para um novo fenómeno que a África do Sul está a observar, que são os chamados apagões, que o ANC não tem sabido explicar às pessoas, de facto, o que é que falta.
As pessoas perderam a esperança, algumas, no ANC, mas ao mesmo tempo ainda têm aquelas que olham para o ANC por conta dos valores de luta, dos valores militares também, que ainda acarretam aos dias de hoje. O ANC consegue adoptar um discurso para fazer lembrar o papel que desempenhou para libertar o país. E há pessoas que ouvem isso, uma espécie de chantagem, e fazem recuo, dando ainda um voto de confiança no ANC.
Esta perda de popularidade do ANC deve-se a quê?
Primeiro, a sociologia eleitoral da África do Sul alterou-se. De 1994 até aos dias de hoje, temos uma nova geração de jovens que não se revêem no ANC. Não conhecem, não sentiram a luta do ANC.
Depois, a África do Sul tem uma taxa de desemprego na ordem dos 36%. Quase 60% da juventude está desempregada, logo nunca vão votar naquele que não está a ajudar a empregar ou a conseguir o emprego. Vão votando e se inclinando para as novas forças políticas, como é o caso do EFF de Julius de Malema.
A criminalidade na África do Sul aumentou. O Governo até hoje não consegue pôr cobro a esta prática, porque ela também está associada às taxas altas de desemprego e outros, é a disparidade social entre os brancos e os negros, com os brancos a prosperarem mais e muitos negros a viverem em condições vulneráveis nas localidades rurais.Outro fenómeno é a corrupção. Desde que o ANC chegou ao poder que a corrupção se tem estado a tornar mais grave.
Nós já tivemos aqui, em 2021, as eleições municipais em que o ANC passou para a oposição no governo local. A corrupção é feita nos municípios e os eleitores preferiram dar o seu voto aos partidos da oposição. Nestas eleições é provável que o ANC volta a ser penalizado também pelas práticas de corrupção.
O facto de o ex-Presidente Jacob Zuma ter deixado o ANC, ter formado um novo partido político, faz com que o próprio ANC chegue ainda mais fragilizado a estas eleições?
Com certeza, porque todas as sondagens apontavam que Jacob Zuma iria ter 8% dos votos ou das intenções de votos. Se o ANC já estava com uma sondagem na ordem dos 45%, o Zuma tira-lhe 8%. Depois, no ANC, Zuma passou a liderar a segunda maior praça eleitoral do país, que é o KwaZulu-Natal. Portanto, a entrada de Jacob Zuma em campo com uma nova bandeira, deixou de facto o ANC numa situação de intranquilidade eleitoral porque está a subtrair-lhe votos.
Jacob Zuma foi desqualificado de avançar para a corrida eleitoral, mas mesmo assim o seu nome continua nos boletins de voto. Já não há tempo de se tirar. Continua nos panfletos, nas ruas, já não há tempo de se remover. Portanto, pela primeira vez estamos a ir para as eleições com um candidato que já está desqualificado, mas com o nome ainda nos boletins de voto.
O que pode até gerar confusão no próprio acto de votação.
Exactamente e isso é um episódio que já aconteceu também em Angola em 1992, em que alguém saiu [da corrida eleitoral] e mesmo assim depois ficou na quarta posição, embora os votos já não eram válidos. Então, nós vamos ter isso também aqui na África do Sul, com Jacob Zuma. Ele também não indicou ainda ninguém para estar à frente do partido de forma oficial. Então, tudo indica que ele poderá vir a tornar-se, numa quarta ou quinta força da oposição política no país, depois dessas eleições.
Se as sondagens se confirmarem, o ANC precisa de encontrar parceiros de coligação para poder governar. Quais são os cenários que estão em cima da mesa?
Se o ANC não conseguir uma maioria parlamentar, terá de fazer uma coligação pós eleitoral para poder formar Governo. Pode fazer uma coligação com o EFF [Combatentes da Liberdade Económica] de Julius de Malema, que têm cerca de 10% e depois terá de fazer algumas cedências.
Nos governos municipais, Julius Malema tem estado a exigir algumas pastas, como as Finanças e a saúde.
Para o Governo central, é provável que vá pedir a pasta ou das Finanças ou de governador do Banco Central, porque o EFF de Julius Malema é a favor da nacionalização do Banco Central da África do Sul. O ANC também partilha desta mesma posição, mas entende que o momento não é o correcto porque ao fazê-lo pode mexer com o sistema financeiro do país.
Um cenário entre o ANC e o DA, o maior partido da oposição, a Aliança Democrática, está fora de hipótese, porque os dois estão num quadro extremo e o DA é o partido que, já no ano passado, anunciou a criação de uma coligação para operar na fase pós eleitoral para derrubar o Presidente da República, Cyril Ramaphosa.
O que resta ao ANC vai ser negociar com o Julius Malema ou com Jacob Zuma. Só que Jacob Zuma saiu há pouco tempo do ANC, está zangado com altas figuras, inclusive o Presidente. Então, acho que ainda é muito prematuro voltar a sentar-se com o ANC para negociar.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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