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  • Zia Soares: Pérola Sem Rapariga "é um dos melhores espectáculos que fiz"

    Pérola Sem Rapariga é a primeira de duas criações que formam o díptico que resulta do encontro entre a encenadora Zia Soares e a escritora Djaimilia Pereira de Almeida.

    Pérola Sem Rapariga inspira-se na leitura de "Voyage of the Sable Venus and Other Poems", de Robin Coste Lewis, e no arquivo fotográfico de Alberto Hensche, que fotografou várias pessoas escravizadas no Brasil.

    Uma das condições acordadas entre Zia Soares e Djaimilia Pereira de Almeida para a criação do espectáculo foi que "não haveria texto pré-escrito".

    Depois de um périplo por diferentes cidades portuguesas, Pérola Sem Rapariga tem a última das apresentações no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, este domingo.

    Nos bastidores do CCB, a RFI falou com Zia Soares. O processo criativo de Pérola Sem Rapariga, o papel dos diferentes intervenientes na criação da peça e da actualidade desta, os projectos futuros com a Companhia Teatro Griot, ou que envolvem a Guiné Bissau, foram alguns dos temas da conversa com a encenadora.

    Pérola Sem Rapariga integra o Ciclo Abril Abriu, uma iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II.

    O espectáculo está integrado na programação comemorativa dos 50 anos do 25 Abril.

    Ficha Técnica

    Texto: Djaimilia Pereira de Almeida

    Direcção e encenação: Zia Soares

    Interpretação: Filipa Bossuet, Sara Fonseca da Graça

    Artista visual: Kiluanji Kia Henda

    Instalação e figurinos: Neusa Trovoada

    Design de iluminação: Carolina Caramelo

    Música e design de som: Xullaji

    Assistência à encenação de movimento: Lucília Raimundo

    Vídeo promocional: António Castelo

    Assistência geral: Aoaní d’Alva

    Co-produção Sowing_arts, Teatro Nacional D. Maria II, no contexto da apap - FEMINIST FUTURES (projecto co-financiado pelo programa Europa Criativa da União Europeia)

    Parceria Abril Abriu Centro Cultural de Belém

    Apoio Casa da Dança, Polo Cultural Gaivotas Boavista.

    14 min
  • Plataforma cultural moçambicana apresentada em Paris

    A plataforma digital moçambicana “Nuibrava Cultura” foi apresentada durante a Semana Africana na Unesco, em Paris, de 22 a 24 de Maio. O projecto de gestão e promoção da cultura moçambicana e africana pretende dinamizar a circulação de arte e cultura africanas e contribuir para a criação de um fundo africano para as artes.

    Foi na Semana Africana na Unesco, em Paris, que Moçambique apresentou a plataforma digital “Nuibrava Cultura”. Trata-se de um projecto de gestão e promoção da cultura africana que permite, por exemplo, comprar obras de arte e solicitar serviços artísticos e culturais. O objectivo é, também, dinamizar a circulação de arte e cultura africanas e contribuir para a criação de um fundo africano para as artes. A Nuibrava Cultura é presidida por Nuno Vazir Ibrahimo que explicou à RFI, na UNESCO, em que consiste o projecto.

    RFI: O que é esta plataforma “Nuibrava Cultura”?

    Nuno Vazir Ibrahimo, Presidente da “Nuibrava Cultura”: "Esta plataforma visa fazer a gestão e promoção da cultura não só moçambicana, mas também africana. Ela visa mapear a cultura, as etnias e os povos africanos congregados em uma única base de dados e cruzar muita informação."

    O objectivo também passa por criar um fundo africano para os artistas?

    Exacto, para a gestão cultural a todos os níveis, onde todos os fazedores das artes e de culturas possam depositar lá as suas ideias e seus projectos e possam ter um impacto directo no PIB africano. A ideia é termos um fundo a este nível. Segundo a União Europeia, a cultura contribui somente para 1,5% do PIB africano. Com esta iniciativa nós pretendemos fazer chegar a 6,5% até 10%. O fundo poderá ser a contribuição dos estados-membros africanos em alguma percentagem. É o mesmo fundo a fazer a gestão e a promoção de iniciativas de jovens, de mulheres, até de pessoas analfabetas, e promover as boas práticas ambientais, culturais.

    Até agora, o que é que fizeram? Quantos artistas, artesãos, pessoas do mundo da arte estão implicados neste momento na plataforma?

    O que nós viemos fazer [a Paris] foi a oficialização da plataforma nesta catedral que é a UNESCO. Foi o melhor sítio que nós tivemos para o fazer. Depois, segue para a União Africana porque o governo de Moçambique já tem conhecimento da mesma. Ela já tem alguns artistas e está a fazer o cadastro ainda ao nível do Moçambique. Nós viemos para estes corredores, onde estão outros países africanos a expor, e é aqui que nós estamos a convidá-los para fazer parte deste mega evento que é esta plataforma.

    E como funciona? Se eu sou um galerista, posso comprar um quadro?

    Sim, pode comprar, está lá disponível. Por exemplo, você está aqui em Paris e quer comprar uma obra de Moçambique. Pode fazê-lo nesta nossa plataforma e temos acordos com a DHL África através de Moçambique. Fizemos a conexão com as DHL em África e a empresa de logística que está mais bem assente em África. Outras hão-de vir mais à frente. Depois, é pago na plataforma através do e-commerce e o artista disponibiliza o material após o recebimento, também por via de plataformas digitais de pagamento.

    O objectivo é também evitar contrabandos e negócios “paralelos”?

    Não é só evitar, mas também consciencializar todos os que vamos operar nesta plataforma. É preciso defender os direitos de autor. Nós viemos aqui, à UNESCO, a casa do Direito. O nosso guião está aqui. Nós queremos valorizar a nossa cultura africana. Existe muito contrabando de material africano e a não contabilização disto para o PIB africano. Não existe nada que quantifique e esta plataforma vai quantificar.

    Mas há algumas galerias reconhecidas, em Angola por exemplo, que conseguem exportar artistas africanos. Qual vai ser a diferença?

    Bem, eu penso que Angola só está a exportar, mas não está a quantificar. Eu penso que Angola não está a trazer um contributo e quantificação para a sua economia, no meu entender, porque quando a gente fala exportar, qual é o agregar de valor que essa obra traz? Nós rastreamos o material até ao último cliente sempre que alguém compra.

    Nesta altura há o debate em Portugal - já houve noutros países europeus - da restituição de obras de arte espoliadas durante o tempo da colonização e escravatura. O que pensa de todo este debate que, no fundo, também vem ao encontro desta necessidade de reconhecimento da arte africana?

    É exactamente isso. Se nós hoje estamos a reivindicar a nossa identidade, temos que voltar a casa e evitar que isto aconteça, que alguém mais à frente continue a tirar-nos a identidade. Ao termos esta plataforma, este registo do que é nosso, jamais iremos perder a identidade que perdemos antes. Então é um pouco este resgate, esse renascer da consciência africana.

    Quais são, digamos assim, os cabeças-de- cartaz, para já, na plataforma? Por exemplo em termos de nome da arte moçambicana?

    Estamos a contactar muitos, desde os grandes nomes até os que estão no anonimato. Neste momento, temos aqui os quadros da Dora Chipande. Ela tem estado a fazer um trabalho sobre a consciência do terrorismo na província de Cabo Delgado, que é o tema que nos fez trazer as suas obras cá à UNESCO, que é para levar a consciência do grande mal que é o terrorismo.

    Neste momento, também temos o José Craveirinha e somos representantes da Fundação José Craveirinha. Estamos a apoiar a Fundação José Craveirinha na reedição do “Karingana ua caringana” que acontecerá no dia 29 de Maio, no Centro Cultural de Moçambique-China, e também estamos a promover na zona da região de Viseu, na Semana da República de Portugal, que é 15 a 20 de Outubro, um evento luso-moçambicano onde iremos levar as 23 etnias moçambicanas.

    10 min
  • Anésio Manhiça expõe urgência ambiental na UNESCO

    A urgência ambiental contaminou a arte contemporânea em Moçambique através da fotografia de Anésio Manhiça. As suas imagens extrapolam fronteiras e o “etnofotógrafo” tem levado esta causa a outros espaços de reflexão e de acção. Desta vez, entre 22 a 24 de Maio, Anésio Manhiça expõe na Semana Africana na UNESCO, em Paris.

    O fotógrafo, etnógrafo, “etnofotógrafo”, antropólogo, ambientalista e artista moçambicano Anésio Manhiça representa Moçambique na Semana Africana na Unesco, em Paris, ao lado da plataforma digital de arte Nuibrava Cultura. A RFI falou com o jovem de 32 anos que expõe cinco obras fotográficas das séries “As vidas do saco plástico” e “Simbiose”, nas quais mostra como a poluição já faz parte das paisagens. Na primeira, o fotógrafo mostra como o saco de plástico pode ter novas vidas graças à reciclagem, enquanto na segunda sublinha “como o social ou o capital acaba dominando o natural”.

    “Propus uma mistura entre a primeira exposição que fiz, 'As vidas do saco plástico' com a actual exposição 'Simbiose' que é para continuar e mostrar que, como africanos, estamos a pensar no clima, estamos preocupados, estamos a reflectir e que a arte da fotografia é um desses eixos pelo qual temos reflectido sobre estas temáticas”, afirmou o artista à RFI.

    Representar Moçambique na Semana Africana na UNESCO tem um peso simbólico e é “uma grande responsabilidade”, admite o fotógrafo. A ideia foi falar sobre educação ambiental, cruzando fotografia, arte contemporânea, educação e ambiente.

    “Representar Moçambique na UNESCO é realmente uma grande responsabilidade, mas, acima de tudo, é um sinal de que a minha fotografia está a ganhar uma visibilidade mais do que nacional. Sabemos muito bem que, em termos fotográficos, geralmente África tem sido marcada por fotografias que revelam muitos processos de tradição, da religião. Agora, trazemos algo que é diferente, que propõe uma participação de África neste debate global [da ecologia].

    Entre as imagens expostas estão “likoroxo do puto”, que mostra o pé de uma criança a brincar com uma bola de futebol feita com sacos de plástico e outros lixos. Há, ainda, “Acácias Molhadas” que mostram um plástico amarelo a flutuar em cima de uma vala de drenagem, e “Sobrenatural”, uma imagem em tons bastante mais escuros e azulados, que mostra um saco de plástico descartado num dia de chuva. São três imagens capturadas na rua, com uma câmara de telemóvel, para mostrar instantes de poluição que se tornaram recorrentes em cidades de todo o mundo.

    As outras duas imagens são oriundas de uma série fotografada em estúdio e com máquina profissional. Na primeira, aparece em grande plano um círculo estilhaçado a remeter para uma lente fotográfica quebrada ou para um copo partido, mas, na verdade, é uma garrafa de plástico de um refrigerante usado em Moçambique para conservar sal. Ao lado, outra imagem mostra um corpo em posição fetal, rodeado de tampas coloridas de garrafas. O objectivo é declaradamente crítico.

    “Aqui já estou a migrar para um outro tipo de conversa. Nestas duas imagens, eu já quero fazer uma crítica. Há as multinacionais, as empresas que poluem por plástico e aqui estamos a falar de empresas de refrigerantes. A ideia é mostrar que estas multinacionais estão a impor-nos o uso destes materiais. Na outra, estamos a ver um corpo, uma pessoa. A ideia é mostrar que sempre consumimos plástico e que o primeiro contacto que temos com o plástico é ainda no ventre porque vamos consumindo os microplásticos de diferentes formas, em diferentes comidas, às vezes, na água”, acrescenta Anésio Manhiça.

    O artista acrescenta que a fotografia sozinha não chega para despertar consciências, mas ajuda. Por isso, ele tem acompanhado as exposições de debates com os espectadores a propósito das ameaças e danos humanos sobre o meio ambiente. Anésio Manhiça define-se, acima de tudo, como “defensor do clima” antes de admitir ser fotógrafo, antropólogo e etnógrafo. O seu objectivo é “gerar um movimento em Moçambique de uso da fotografia para consciencialização” e investir espaços de arte com mensagens ecológicas.

    Anésio Manhiça é investigador na Kaleidoscopio – Pesquisa em Políticas Públicas e Cultura, em Maputo, e tirou o seu mestrado em Antropologia Social na Universidade Paris 8, em França, depois de uma licenciatura em Antropologia Social na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique.

    Em 2021, Anésio Manhiça venceu o prémio de fotografia “Katla”, da Associação Cultural Kulungwana, e classificou-se em terceiro lugar num outro concurso de fotografia organizado pela UN-Habitat em parceria com o Conselho Municipal da Cidade da Beira. Em Junho desse ano, inaugurou a primeira mostra individual intitulada “As vidas do saco plástico em Maputo”, depois de ter participado em duas exposições colectivas: “As viagens do plástico”, nos Caminhos de Ferro de Moçambique, em Maputo, e “Adaptar as cidades de Moçambique para a Resiliência Climática”, no parque das infra-estruturas verdes do rio Chiveve, na cidade da Beira.

    15 min
  • Noruega, Irlanda e Espanha comprometem-se a reconhecer um Estado da Palestina

    A Noruega, Irlanda e Espanha comprometem-se a reconhecer um Estado da Palestina. "Para além do efeito simbólico, este reconhecimento vai ter um efeito prático porque outros país se vão juntar a estes país", acredita o vice-presidente do observatório do Mundo Islâmico e investigador na Universidade Autónoma de Lisboa, João Henriques.

    RFI: A Noruega, Irlanda e Espanha comprometem-se a reconhecer um Estado da Palestina. O reconhecimento de um Estado palestiniano tem uma forte conotação simbólica. Mas também tem significados políticos e pode levar a medidas concretas. 

    João Henriques: Sim, na verdade, este reconhecimento oficial por parte da Noruega, de Espanha e da Irlanda é a materialização daquilo que já há muito tempo tem vindo a ser noticiado e até proposto pelas classes políticas dentro de cada um destes países. Isto vai ter, para além do efeito simbólico, um efeito prático porque na sequência deste reconhecimento, estou certo que outros Estados europeus e não só europeus, mas sobretudo os europeus ocidentais, vão avançar, também eles, para o reconhecimento do Estado independente da Palestina.

    Será que outros países se vão juntar a Espanha, a Noruega e a Irlanda? A França admitiu no início do ano, através do seu  Presidente, que não há tabus em relação ao reconhecimento do Estado da Palestina.

    Sim, dentro de outros Estados, isso é matéria de análise, de discussão e vai ter que passar pelos parlamentos de cada um desses países e certamente também em relação a Portugal.

    O que é que isto significa? Durante as últimas décadas não houve o reconhecimento do Estado da Palestina. Muitos países não fizeram. O que é que mudou agora?

    O 7 de Outubro terá agitado as consciências e o comportamento do Estado de Israel relativamente à população palestiniana. Mas na verdade esta tem sido uma reacção desproporcionada por parte de Israel e que vai configurando até o que já muitos analistas disseram e eu próprio já o referi isto configura um verdadeiro genocídio da população palestiniana. E esta tomada de consciência de que Israel não está a fazer tudo aquilo que devia, vai alertando estas tais consciências e os países vão se perfilando numa óptica de um efectivo reconhecimento do Estado da Palestina.

    Para Israel, os planos de reconhecer um Estado palestiniano sem uma solução negociada constituem uma “recompensa” para o Hamas pelo seu ataque de 7 de Outubro a partir da Faixa de Gaza em território israelita. Como é que interpreta esta declaração?

    Naturalmente que o Hamas iria aproveitar esta decisão ou este alinhamento com o Estado da Palestina para dizer que é o resultado da sua luta contra o Estado sionista. Mas, mais do que isso, é o reconhecimento internacional de que tem que haver conversações. Elas têm tido lugar em diferentes cenários, particularmente no Qatar e até no Egipto, mas não têm resultado em nada porque nenhuma das partes cede. Portanto, Israel diz que as propostas apresentadas pelo Hamas são bizarras, são ridículas mesmo. A comunidade internacional não está com isto a reconhecer a tarefa, a missão do Hamas, está sim, orientada a lançar o foco sobre o que tem acontecido à população palestiniana e que não pára, independentemente de haver reparos inócuos por parte dos Estados Unidos, por parte da administração Biden. Ainda ontem referiu, em diferentes intervenções, sobretudo no espaço universitário, que os Estados Unidos estão absolutamente do lado de Israel, olhando para o lado, quando, na verdade, o que está a acontecer à população palestiniana não tem nada a ver com a luta contra o Hamas. Porque essa luta que Israel iniciou a partir do dia não do dia sete, mas do dia 8 de Outubro, é uma luta legítima e uma acção legítima. Mas os chamados efeitos colaterais são absolutamente desproporcionados.

    A Jordânia saudou a decisão destes países de reconhecerem o Estado da Palestina, afirmando que se trata de um passo importante e essencial para a solução de dois Estados. Este reconhecimento internacional pode mudar alguma coisa no que está a acontecer na Faixa de Gaza?

    O que irá provocar, de acordo com a minha leitura, e até porque começa a haver levantamentos por parte da população israelita, vai resultar numa implosão no Estado de Israel, que dará lugar seguramente a eleições, que é exactamente isso que Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, está a tentar evitar. A partir do momento em que ele saia e caia do poder, ele vai enfrentar sanções por parte da justiça israelita. Portanto, julgo que a própria população de Israel vai ser decisiva, as iniciativas vão ser decisivas e elas são cada vez maiores e cada vez mais ruidosas.

    No plano interno, o que é que muda? O que é que significa para a Palestina? A Palestina precisa de se construir como país e qual vai ser o seu exército?

    Isso é o pós-guerra que têm diferentes leituras ou diferentes projecções. Aquilo que vai ter que acontecer naturalmente é Israel sair definitivamente dos territórios ocupados. Estou a falar também da Cisjordânia, de derrubar os colonatos e haver um amplo colégio internacional onde estarão representadas as organizações mais significativas. Estou a falar não só da União Europeia, estou a falar das Nações Unidas e dos diferentes departamentos das Nações Unidas. A par de outras iniciativas nacionais, o que vai ter que ser feito é um programa em que estejam previstas eleições em todo o território palestiniano.

    Estou de acordo que o grupo Hamas seja excluído dessas negociações, a menos que decidam abandonar a luta armada e comportarem-se de acordo com as regras do direito humanitário internacional. No entanto, nós temos figuras que, para além do Hamas, temos figuras dentro da própria Autoridade Palestiniana. Estou a falar do Mahmoud Abbas que é uma figura que irá ser, com toda a certeza, afastada do poder e de cargos políticos. E isto vai ser um processo demorado, até porque do lado de Israel não haverá grande contenção e irá sempre fazer valer as suas prerrogativas, as suas posições, não só alegadamente, mas diria que também legitimamente, por razões de segurança. Só que essas razões de segurança, que são ligadas por Israel, não têm em conta o Estado da Palestina, um Estado independente, um Estado legitimamente criado e relativamente ao qual Israel vai fazendo sempre tábua rasa daquilo que foram as decisões das Nações Unidas na primeira metade do século passado.

    Falou das regras do Direito internacional que nos últimos sete meses pouco têm sido respeitadas. Acredita que agora possam ser respeitadas?

    Não, não. Elas vão continuar durante algum tempo. Vão sendo pouco a pouco diluídas noutro plano de entendimento. Elas poderão, pouco a pouco, por via das pressões que a comunidade internacional e a própria comunidade israelita, por força dessas manifestações, por força das pressões internacionais, mas nada muda do dia para a noite.

    9 min
  • Mandado do procurador do TPI contra Netanyahu e contra Hamas "é golpe bastante forte para Israel"

    O Procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan, pediu ontem para que seja lançado um mandado de captura contra o Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o seu Ministro da Defesa, Yoav Gallant, e contra 3 responsáveis do Hamas, designadamente o seu chefe político Ismael Haniyeh, por presumíveis Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade na Faixa de Gaza. 

    Esta decisão não deixou de suscitar a indignação tanto das autoridades israelitas como dos Estados Unidos, seus aliados, enquanto a França diz apoiar esta iniciativa. A ser confirmado pelos juízes do Tribunal, para além de restringir a liberdade de circulação dos acusados, esse mandado de captura pode sobretudo ter um impacto em termos simbólicos, refere Ivo Sobral, coordenador de mestrado de Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi.

    RFI: Que impacto pode ter esta decisão sobre Israel, tendo em conta, nomeadamente que este país não faz parte do TPI e que a acção da África do Sul junto do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) contra Israel por genocídio não está propriamente a surtir efeitos?

    Ivo Sobral: Em termos de reais consequências para Israel, serão poucas, porque basicamente, os líderes israelitas, neste caso o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa, terão que basicamente evitar visitar a Europa e alguns países da América Latina e do Norte da Europa, também o Canadá e alguns países asiáticos. Mas basicamente, todo o resto podem visitar sem nenhum problema. Não há aqui nenhum impeditivo, como foi o caso, por exemplo, do presidente Putin, que também continua a visitar outros países e inclusive países que se recusam de confirmar o mandato, por exemplo, de captura, como foi o caso da África do Sul. 

    RFI: No caso de efectivamente os juízes promulgarem esta decisão, os países membros do Tribunal Penal Internacional, em termos legais, não podem ficar de braços cruzados se receberem a visita de Netanyahu e os seus co-acusados, nomeadamente os dirigentes do Hamas, que também estão abrangidos nesta acusação? 

    Ivo Sobral: Exactamente. Em teoria, em termos legais -são à volta de cinco pessoas, três pessoas ligadas ao Hamas, duas pessoas ligadas a Israel- este mandato de captura internacional terá que ser efectivamente utilizado por esses mesmos países se forem visitados. Agora, obviamente, isto não é tão automático como parece, pois a separação de poderes, inclusive dentro daqueles mesmos países, e em alguns casos, o poder político poderá inclusive não efectivar esta ordem. Isso já aconteceu várias vezes no passado. Obviamente é tudo uma conjectura, porque, em princípio, por que razão iria Israel mandar o seu líder mais importante visitar um país onde poderá existir um risco de ser capturado. Obviamente é algo que nem sequer passa pela cabeça. No entanto, em termos de reputação internacional, em termos de impacto, é de facto um desenvolvimento muito forte. Neste caso, Israel é o mais visado agora. Relativamente ao Hamas, em alguns países é considerado uma organização terrorista. Já qualquer um dos seus membros, muito provavelmente com algumas excepções, iria ser já capturado se visitasse esses países. Isto é mais uma lista de países onde estes líderes do Hamas não poderão visitar. E não creio que iriam visitar nunca porque seriam capturados na mesma antes. É basicamente um golpe bastante forte para Israel. 

    RFI: O que é que isto pode significar para Joe Biden, que até agora, apesar de tentar fazer alguma pressão sobre Netanyahu, continua a apoiar a sua política?

    Ivo Sobral: É uma derrota inclusive para a política americana. Muitos dos conselheiros do Tribunal Penal Internacional são de origem norte-americana e o próprio Tribunal Penal Internacional foi criado para evitar este tipo de crimes internacionais, os genocídios. E agora temos o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa da única Nação judia do mundo que são acusados de genocídio. Passados todos estes anos, é bastante forte. Os Estados Unidos têm tido sempre uma política bastante coerente relativamente a Israel, um apoio quase incondicional. E não mudou muito. Apesar das críticas do Presidente Joe Biden, o apoio continua. Terão existido algumas interrupções na exportação de algum específico armamento, mas já foi retomada. Entretanto, há aqui um vazio bastante importante por ver que os Estados Unidos não conseguem, como conseguiram no passado, desenvolver acções diplomáticas executivas fortes para evitar que Israel seja acusado destes mesmos crimes. Portanto, os Estados Unidos são um pouco um protector de Israel e falham aqui de uma maneira bastante forte. E isto mostra também que este estatuto de superpotência que os Estados Unidos sempre usaram, pelo menos a partir do início dos anos 90 até agora, começa a esvair-se em fumo. E outros países, outras potências, gradualmente, mas inexoravelmente, começam a demonstrar o seu poder. E este falhanço no chapéu-de-chuva de protecção americano a Israel é bastante forte. Mostra um falhanço bastante forte da política externa americana, e isso é algo que irá pesar fortemente nas próximas eleições americanas, onde Joe Biden estará em competição muito provavelmente com o Trump, e isto será utilizado como deficiência notável para atacar Joe Biden nestas próximas eleições. Portanto, é um falhanço externo para os Estados Unidos e é um falhanço interno muito forte para os democratas americanos e para Joe Biden, que muito provavelmente poderá pagar este falhanço nas próximas eleições.

    RFI: E lá está, Joe Biden ainda tem condições para continuar a sua política de financiar e de armar Israel, tendo em conta que ele está em campanha para a sua reeleição e que há um forte movimento estudantil no seu país contra a guerra em Gaza?

    Ivo Sobral: São estas pessoas que normalmente votavam em Joe Biden, que votavam nos democratas contra uma oposição normalmente mais tradicional, conservadora, de apoio a Israel, que existia, por exemplo, em Trump. São fracturas graves na política americana. Mexe directamente com a política interna americana, mexe directamente com o poderosíssimo lobby israelo-judaíco nos Estados Unidos, que é bastante forte. Mete estas duas forças fora da equação de suporte de Joe Biden para Israel. Israel está há muito a fazer o que sempre fez, que é o "Rally Flag", ou seja, Israel, internamente vê esta acusação como uma outra perseguição internacional, outra prova do anti-semitismo galopante que está a acontecer pelo mundo. Tanto os moderados, como várias partes do universo político vão dar apoio ao seu Primeiro-Ministro e ao ministro da Defesa israelita. Portanto, há aqui outra medida que não sei se será positiva para um cessar-fogo ou uma paz duradoura em Gaza. Internamente, os políticos israelitas, com esta condenação do Tribunal Penal Internacional, vão ter ainda mais apoio para continuar as suas acções em Gaza.

    RFI: Portanto, julga que Netanyahu sai reforçado desta iniciativa do TPI e que, por exemplo, figuras como Benny Gantz, que ainda neste fim-de-semana ameaçou demitir-se do governo de união nacional, poderiam recuar?

    Ivo Sobral: Exactamente, há aqui uma mudança de paradigma que pode-se compreender na lógica interna, fortemente nacionalista de Israel. É muito difícil para nós compreendermos este sentimento israelita que chamam "Sabra", ou seja, pessoas que nasceram em Israel. É um forte sentimento de pertença a Israel, de defesa e protecção do Estado judaico israelita. É um espírito quase de sobrevivência. Isto para Israel é uma outra perseguição e uma perseguição que vem da Europa. A Europa, na mitologia israelita, é o local das perseguições, a base de apoio israelita conservador irá ainda mais reforçar-se e as próprias forças mais à esquerda, forças moderadas de Israel, vão de novo suspender a sua contestação de Netanyahu e apoiar o Estado. Não vão apoiar Netanyahu, é o Estado hebraico. E Israel tem que ser ajudado pela sua própria população e pelas suas forças políticas. Neste momento, isto está a acontecer.

    RFI: Relativamente às reacções que tem havido pelo mundo fora, a União Europeia disse tomar nota desta iniciativa do Tribunal Penal Internacional, sendo que a França foi mais além e disse que apoia esta iniciativa do procurador do Tribunal Penal Internacional. Isto depois de ter apoiado incondicionalmente Netanyahu, há alguns meses, aquando dos ataques de 7 de Outubro. Há uma reviravolta da França?

    Ivo Sobral: A França tem sempre uma posição bastante flexível em quase tudo. Isso tem sido sempre visto nas várias políticas externas francesas, pelo menos nos últimos cinco a dez anos. A França utiliza o seu poder geopolítico na zona, a sua tradicional ligação ao Próximo Oriente, ao Líbano, à própria Síria, à própria Palestina. E, obviamente, também tem que apelar também ao grande norte africano. Há uma ligação cultural muito forte ao mundo árabe francês. Relativamente a Israel, apesar do tradicional apoio inicial, a mudança tem sido uma mudança bastante forte nos últimos três meses, onde a França, de facto aponta para que as acções militares israelitas tenham ido longe demais. Essa é a visão que a França terá já tido por várias vezes, de uma moderação solicitada, uma pausa nesta operação militar. Portanto, agora é uma questão de apoiar o TPI nesta acção, porque irá, teoricamente, pôr alguma pressão sobre Israel. Existem muitos países europeus com uma visão ainda mais muito mais radical, como a própria Espanha ou a Irlanda, que será o país europeu que mais criticou Israel desde o início e depois, agora a Espanha. Portanto, estes três países sim, está algo a mudar, mas grande parte da Europa permanece bastante conservadora, inclusive Portugal. O novo ministro dos Negócios Estrangeiros declarou que apoia incondicionalmente a defesa do Estado de Israel contra ataques terroristas e apela um pouco à paz na Palestina, em Gaza, no Médio Oriente. é uma declaração geral que dá continuidade à política de Portugal em Israel e fala de paz, mas nunca fala de Gaza ou especificamente da operação militar de Israel. Há aqui muitas forças em movimento na Palestina, em Israel e a Europa está um pouco fragmentada. Existem posições tradicionais expectáveis, como por exemplo, da Itália ou da Alemanha, que incondicionalmente apoiam Israel, assim como outros estados como a Hungria e ainda a Áustria e outros países que sempre apoiaram Israel e continuam a fazê-lo.

    13 min
  • Tentativa de golpe de Estado na RDC contribui para situação "complicada" do país

    A República Democrática do Congo foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado falhada no domingo, com as autoridades a garantirem esta manhã que a tranquilidade voltou a Kinshasa. Em entrevista à RFI, o brigadeiro angolano Correia de Barros, diz que a situação no país devido ao conflito na fronteira norte com o M23 e a intromissão do Ruanda já era complicada e que esta falta de estabilidade interna não beneficia o continente africano.

    Esta tentativa falhada terá sido levada a cabo por um grupo de comandos de cerca de 40 homens, liderados por Christian Malanga, uma figura destacada da diáspora congolesa, que acabou por ser morto pelas forças de segurança. Os atacantes tentaram invadir a residência do ministro da economia e um dos palácios presidenciais onde, nessa altura, não se encontrava o Presidente Félix Tshisekedi.

    Este é um golpe que se vem juntar à situação de conflito vivida pelo país na sua fronteira norte, com o M23, e onde há muito Tshisekedi acusa o Ruanda de ter uma forte implicação. Para o brigadeiro angolano Correia de Barros, até agora, a situação política na RDC era estável, no entanto, há grupos que consideram que a situação interna pode ser resolvida à base de tiros.

    "A RDC tem problemas nas fronteiras, principalmente essas no Norte, incluindo com o Ruanda. Mas em Kinshasa acho que não tem havido problemas complicados. Há uns tempos largos que isso não não acontece. Pelo aquilo que eu tenho visto, acho que o Presidente continua a fazer um trabalho relativamente bom. É preciso ver que ele também teve de lidar com o Presidente anterior. Aquilo foi complicado, mas ele saiu-se muito bem e o que é um facto é que agora estas eleições já falamos de eleições livres, já as outras também tinham sido, mas pronto, ainda há ainda quem ache que esses problemas podem ser resolvidos através de tiros", indicou o antigo militar,.

    Há ainda muitas interrogações em relação às motivações desta tentativa de golpe e sobre o restabelecimento da ordem, sabendo-se que pelo menos quatro dos atacantes terão morrido. Entre os comandos haveria várias nacionalidades, incluindo norte-americanos. Vital Kamerhe, ministro da Economia, e a sua família não sofreram qualquer ferimento, mas dois dos polícias que protegiam a sua casa foram mortos pelos comandos. Kamerhe é uma destacada figura da política congolesa e deverá ser o próximo presidente da Assembleia Nacional.

    Esta é uma situação que inquieta os Estados vizinhos, especialmente Angola, já que acontece no seguimento de vários golpes de Estado noutros países africanos.

    "A paz na RDC é algo que diz respeito a toda a África. A África, infelizmente, nestes últimos anos, voltou um pouco atrás naquilo que já tinha atingido tanto de paz e tranquilidade de funcionamento as democracias das eleições. Actualmente, em muitos sítios, viram-se golpes de estado, a tomada do poder pelas forças armadas. E oarece-me que era uma tentativa na RDC também de se chegar a uma situação dessas. Se calhar convém a muita gente", concluiu Correia de Barros.

    10 min
  • Western português e a mobilização contra o lítio em cartaz, em Cannes

    "A Savana e a Montanha" é uma longa metragem do português Paulo Carneiro em exibição na Quinzena dos cineastas, mostra paralela do Festival de cinema de Cannes. Trata-se de um western que retrata a luta da população de Covas do Barrroso, em Trás-os-Montes, nordeste de Portugal... contra o projecto da maior mina de exploração de lítio da Europa, denunciando as consequências para o meio ambiente e os habitantes.

    O cineasta Paulo Carneiro começa por se referir à sua presença neste prestigioso certame de cinema do sul da França, onde é candidato com "A savana e a montanha" à distinção "Oeil d'Or".

    "Para nós foi muito importante, porque este filme serve também, desde o início, é uma espécie de um contrato com as pessoas de Covas do Barroso.

    Era um bocado a ideia de amplificar a luta, aquilo que se está a passar ali na região, porque é algo que de uma grandeza muito, megalómana que nas cidades, mesmo em Portugal, ninguém quase tem ideia do que é.

    E estar aqui em Cannes acho que pode ajudar bastante ao filme, pode ajudar bastante à causa. Acho que o cinema não tem a capacidade de mudar nada, mas pelo menos que faça com que as pessoas possam discutir o assunto.

    E depois, quer dizer, as autoridades competentes lá, talvez de alguma maneira tenham a capacidade de reflectir sobre o que se está a passar e aquilo que querem impor a estas gentes, que é o que mostra o filme e que acho que é um bom microfone para isso."

    É uma matéria prima que serviu também para uma curta metragem portuguesa que está em exibição precisamente aqui na Quinzena dos Cineastas. Refiro-me à obra do Frederico Lobo "Quando a terra foge".

    Portanto, é possível vir a explorar-se o lítio em Trás-os -Montes, precisamente como dizia em Covas do Barroso, não muito longe da família do seu lado paterno.

    Você já tinha feito um filme sobre o seu avô, o "Bostofrio", não muito longe de lá. É um filme militante, pergunto eu? E porquê a opção por um western ?

    "Na verdade é curioso: eu soube do filme do Frederico quando houve a Selecção porque eu não sabia que o Frederico estava a fazer um filme ali, em Trás-os-Montes, a região do Barroso, que são dois concelhos, Boticas e Montalegre.

    Curiosamente, o Frederico filma em Montalegre e eu filmei em Boticas, o meu pai, é ali efectivamente de perto de Covas do Barroso, de Bostofrio, que fica a cinco quilómetros. Ou seja, é um sítio que eu já conhecia.

    Quando se começou a especular um bocado em relação a isto, eu ainda não estava tão informado. Tentei-me informar bastante antes mesmo de avançar para a região. Não para fazer um filme.

    Mas no início o objectivo era criar algum conteúdo para a internet para, de certa maneira, poder partilhar com outras pessoas, como tinha dito, anteriormente, na cidade.

    Parece-me importante que nós tenhamos a capacidade de nos rirmos de nós mesmos. Acho que o cinema é sério, é um trabalho sério, mas acho que é importante também não nos levarmos, por vezes tão a sério e conseguirmos rirmo-nos de nós mesmos.

    E foi daí que parte também a ideia do western. As próprias pessoas de Covas do Barroso encetaram esta coisa dos indígenas contra os cowboys, os cowboys contra os indígenas e de repente fizeram esse jogo.

    Começámos a escrever juntos e perceber de que forma é que as coisas no filme poderiam funcionar para caminhar para o lado do western, mantendo, ainda assim, uma sobriedade de um filme que, apesar de ser um filme militante, acho que continua a querer trabalhar muito. esta ideia do que para nós é o cinema.

    O gesto de cinema e a forma, e não relegando apenas para o canto do cinema militante, porque, parece-me a mim, muitas vezes, a ideia que surge com com o cinema militante é uma coisa muito de gueto, muito filmada, com uma forma que não interessa tanto e nós tentamos contrariar isso."

    Porém, as mensagens são muito claras: "A hora é de morrer ou de matar."  "Agora é hora de lutar !" "A voz do povo". Como é que foi escolher as músicas? Como é que foi trabalhar com o Carlos Libo ?

    "Na verdade, sim. Eu não nego que seja um filme militante. Só não o empurro para o gueto porque acho que é um filme de cinema, no sentido da forma. Só apenas isso.

    O Carlos Libo foi uma descoberta no início, quando começámos a ir a Covas do Barroso, frequentemente íamos filmando os conteúdos, que é o que se diz de conteúdos, não é para as redes sociais ?

    Descobrimos o Carlos Libo e eu percebi que ele gostava muito de ler e gostava muito de Zé Mário Branco, do Zeca Afonso.

    E encontrávamo-nos lá na carrinha dele, das abelhas, os livros do [Miguel] Torga e comecei a perguntar... Depois vi que tinha uma guitarra e começámos a perceber que ele tocava e compunha umas coisas. E instigando-o a criar umas músicas, não pensando que fossem músicas para o filme.

    Porque são músicas que são filmadas e gravadas ainda antes da existência da próprio ideia de um filme.

    E depois quer dizer, tudo muito orgânico e com naturalidade. Queríamos criar e quisemos... Não sei se está criado, se não ? Mas quisemos criar este músico que fosse um músico de referência para a luta ali, na região do Barroso, contra a mineração.

    E que já se amplificou e que já as músicas dele são palavras tidas em conta quando há manifestações sobre sobre outras explorações noutras regiões do país."

    E como é que se articulou a constituição do elenco para este filme?

    "Na verdade, a constituição do elenco também foi com muita naturalidade. São as pessoas que estão mais engajadas na luta. Acabam por ser as pessoas que também acabam por se engajar mais no filme. A comprometer -se mais no sentido que para elas era importante a forma que o filme poderia potenciar ou mostrar aquilo que se estava a passar foi muito natural."

    E aquele debate entre:  "Isto pode constituir oportunidades de emprego para uma terra que tantas necessidades tem." E, eventualmente, a destruição que isso implicará efectivamente para o património natural local, não é?

    Eu gostaria também que recuasse um bocadinho no tempo. Eu sei que há cerca de dez anos fazia uma curta metragem na Guiné-Bissau. "Água para Tabatô" e os problemas que ocorriam com uma embarcação.

    Como é que foi esse projecto que o levou à África Ocidental e à Guiné-Bissau?

    "Eu, na verdade, fui à Guiné-Bissau a trabalhar enquanto assistente de realização num outro filme.

    Esse filme a que que se está a referir é um filme com 40 e algo minutos e foi uma coisa que aconteceu efectivamente que eu vivi. Ou seja, não foi... também não foi muito planeado e acaba por ser um episódio que aconteceu, mas eu tenho em mim. Sim, isso acontece mesmo. E é o chamado cinema à "vérité", não é? E, na verdade. Quer dizer, depois isso foi durante a rodagem do outro filme em que eu estava a trabalhar como assistente.

    E depois quer dizer, as minhas ligações com África sempre foram muito próximas porque acabo por ficar com amigos.

    Alguns estão em Lisboa, outros ainda vivem na Guiné. Eu já fui à Guiné várias vezes e a outros países africanos, tudo um bocado também a trabalhar noutras áreas de cinema e quer dizer, festivais de cinema. Foi acontecendo."

    No "Bostofrio" já falava, então, da terra da sua costela paterna, não é? Em "Via Norte" você decidiu mesmo ir até à Suíça e falar, nomeadamente do apetite por muitos imigrantes portugueses, pelos automóveis e pelos bólides, não é?

    Agora, tem "A savana e a montanha". Tem, também, a sua própria produtora. Trabalha muito com o Uruguai. Sei que teve dificuldades para conseguir financiamentos e, uma vez mais, eles vêm também do Uruguai. Como é que isto se articula?

    "Na verdade o que acontece é que no cinema nós estamos todos muito... Trabalhamos muito com o coração. Não temos uma estratégia muito definida de como é que vamos... É um bocado e as pessoas querem estar perto umas das outras e as coisas vão surgindo.

    Eu conheço o Alex: o Alex Piperno, co-produtor, em 2019 quando mostro o Bostofrio no Festival do Uruguai.

    E depois encontrámo-nos novamente na Berlinale. Eu estava no "Talents", que é um programa de talentos do Festival de Berlim e o Alex estava a mostrar o seu primeiro filme no Festival de Berlim.

    Encontrámo-nos aí novamente. Começámos a discutir ideias de cinema durante a pandemia. Fomos falando sempre muito, muito, muito activa a discussão. E achámos que podia ser uma possibilidade. O

    s filmes que nos interessa são os mesmos. Ainda nos interessa mais a forma do que a história do que a narrativa. Queremos procurar novas maneiras, se quisermos, de fazer filmes.

    E abriu-se uma possibilidade: o Uruguai teve interesse. Acaba por financiar este filme. O filme teve financiamento da Câmara de Boticas e do Uruguai.

    Foi três vezes rejeitado no apoio à pós-produção. Nós não concorremos à produção, ao ICA (Instituto [português] do cinema e do audiovisual), porque, efectivamente, era um temática urgente e não dava para esperar. E foi começar a filmar e fomos fazendo o filme assim.

    Esta última vez que foi negado foi a mesma montagem que foi aqui aceite na Quinzena. Ficámos quase em último lugar no apoio à pós produção do ICA. Mas quer dizer: os filmes são o que são, têm a vida que têm. E não é por não termos um apoio do Instituto de Cinema que que iríamos desistir.

    Foi muito difícil, mesmo estar presente aqui em Cannes. Mas quer dizer, agora vamos para a frente e seguiremos com outros projectos, independentemente do que aconteça.

    Já temos financiamento também para o próximo filme, que temos apoio do Uruguai e aí temos o apoio do ICA, apesar de nos terem só financiado metade do montante a dividir com outro projecto.

    Mas, quer dizer, acho que o cinema deve ser pago e nós pagamos às pessoas, mas também não vai ser por não ter o apoio do ICA que não vamos fazer o filme."

    E há boas notícias, não é? O filme vai estrear em França, já é uma garantia, não é?

    "Sim, sim. Nós assinámos a distribuição comercial."

    Cannes está a dar já bons frutos !

    "Sim, sim, acho que sim.

    E acho que era isso que nós queríamos na verdade, poder mostrar o filme em mais sítios. E estamos muito contentes com isso, obviamente."

    Conhece bem esta região. Já houve um governo português que acabou por cair, o do governo socialista de António Costa, indirectamente por causa da exploração do lítio.

    Qual é o diagnóstico que faz de como estão os habitantes desta área actualmente em 2024?

    É de pessimismo ? Porque já vimos os pareceres da Agência Ambiental, contraditórios... E o projecto vai para a frente. Eles estão derrotistas ? Como é que eles se posicionam neste momento?

    "O que acontece é que quanto à queda do governo, o nosso filme já estava rodado. Já tínhamos até terminado a montagem. Ou seja, não houve essa intenção. O que eu verifiquei e acho que também é importante referir isso !

    O que eu verifiquei é que a nível municipal, tanto em Montalegre como em Covas, em Boticas, o que eu verifiquei e continuo a afirmar com muita força é que, de repente não há forças.

    Ou seja... nestas regiões, que são coisas muito concretas, em que a própria própria instituição "Câmara Municipal" está tão próxima das pessoas do género... o partido parece que fica mais esquecido.

    Ou seja, não é porque, sei lá ! É quase como dizer: pode ser oposição, sendo ou não sendo a oposição. O presidente da Câmara... neste momento, o lítio, a exploração do lítio, continua a ser uma prioridade para o novo governo AD.

    Mas o presidente da Câmara Municipal faz parte, tem a mesma cor e não é por isso que dá um passo atrás.

    Portanto, eu acho que isso é importante referir, até porque em Montalegre era o oposto e também não dá um passo atrás. E isso é importante. 

    Nos municípios há muito esta política, muito de proximidade."

    Como é que as pessoas agora, neste momento, olham para o projecto da Savannah Resources, se ele vai mesmo acabar por avançar, se a serra vai continuar a ser destruída ?

    "O que o que acontece é que neste momento existem máquinas que estão no vale. Foram feitas prospecções. Não se iniciou a extracção. Há máquinas no vale e eles estão a fazer. As pessoas vão estar cá em Cannes... Mas há outras pessoas lá da aldeia que estão a fazer piquete. Há uma tabela com horários e as pessoas estão a fazer piquete para as máquinas não avançarem para cima dos baldios.

    Porque a empresa quer avançar e estão numa luta de que os terrenos que são da empresa e os terrenos que são parte do baldio. O baldio ainda é nacional, mas é gerido pelas pessoas dali que têm os seus direitos. E enquanto não houver uma espécie de uma nacionalização e... toda a gente vai lutar contra isso, obviamente. A luta agora faz-se no terreno.

    Então existem piquetes, há uma máquina. Às vezes estão a jogar às cartas com a própria pessoa que trabalha, que trabalharia nessa máquina... que não está a trabalhar.

    Porque quer dizer isto também há um filme que é isso. É um filme que trabalha nos cinzentos.

    Não é porque os trabalhadores que estão com a Savannah [Resources, empresa britânica encarregada da prospecção do lítio] também são povo. Também são de outras aldeias ali perto. Nós nunca vemos o Golias, não é? E essa é uma das grandes coisas do capitalismo."

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  • Exploração de lítio em Portugal em filme em Cannes

    "Quando a terra foge" é uma curta metragem do português Frederico Lobo, em cartaz na Quinzena dos cineastas, mostra paralela do Festival de cinema de Cannes. O projecto de exploração do lítio no norte de Portugal é o pretexto para este filme, com uma forte fibra social.

    O realizador começa por se referir às suas expectativas quanto à sua presença neste certame.

    "Na verdade, acho que a expectativa acaba por ser uma coisa mais abrangente do que Cannes, porque é o primeiro momento em que o filme vai ser mostrado em público, não é ?  Que vai haver uma projecção pública e em que o filme se vai confrontar, felizmente, numa sala de cinema com o público."

    Relativamente a Cannes, precisamente, não é qualquer patamar, não é qualquer festival !

    Como é que você está a viver o facto de se inserir nesta mecânica de um dos maiores, porventura o mais prestigioso dos certames da sétima arte?

    "Na verdade, com alguma surpresa, expectativa: estou um bocado aberto ao que possa vir a acontecer.

    Claro que para quem filma este tipo de atenção momentânea por parte de um festival com esta dimensão, tem um valor que é a possibilidade que nos dá enquanto realizadores ou ajuda um bocadinho à possibilidade de continuarmos a filmar.

    Muito honestamente, para mim é o grande valor de estrear em Cannes. Obviamente que é o festival de referência que toda a gente sabe, não é?

    Mas eu acho que num meio que é muito difícil muitas vezes de conseguir as condições para filmar, isto acaba por acrescentar algum ponto à probabilidade de se fazer um próximo filme. Quanto a Cannes especificamente, vou com toda a curiosidade, não é?"

    E vai estar a privar, por exemplo, com Inês Lima, que também lá estará com "O jardim em movimento". Imagino que tenha tido o interesse por ver que mais filmes são ali projectados. Portanto, como é que está a lidar com isso? O que é que vai tentar ver? Em que é que vai apostar?

    "Eu acho que há algumas coisas que não vou conseguir ver e que gostava de ver, porque eu apenas vou conseguir ir nas datas da estreia do meu filme, que já é muito perto do final do festival.

    Então vou tentar basicamente ver aquilo que está programado para esses dias. Tenho alguma curiosidade, obviamente, com os filmes portugueses por... não é assim tão comum !"

    Por afinidade !?

    "Por afinidade ou por, de repente, um festival desta escala, ter uma presença portuguesa tão alta!

    Eu acho que é um sinal também de que, num meio tão pequeno como é o cinema em Portugal, conseguir produzir neste número de filmes que acabam por ser seleccionados, em Cannes em diferentes secções !

    E eu acho que acaba por trazer razão de alguma forma ou por dar um bocadinho de alento nesta luta permanente que existe também na procura dos financiamentos e nesta relação com o Instituto de Cinema Português, acaba por ter com o seu próprio cinema.

    E é óbvio que tenho muita curiosidade para ver os filmes portugueses e não vou ter a grande oportunidade de os ver todos, mas seguramente que depois terei mais possibilidade, espero que os filmes possam também circular depois do festival."

    No seu filme aborda-se a questão da exploração do lítio em Trás-os-Montes, que indirectamente já levou à queda do governo socialista português de António Costa, que é uma situação que também é retratada em "A Savana e a Montanha", um outro filme que está em projecção em Cannes.

    O que é que pretendeu com este filme que parece estar algo entre o documentário e a ficção, com uma certa dicotomia entre a maquinaria, por um lado, e o mundo rural, por outro, duas lógicas que estariam aí em oposição?

    "Sim, eu acho que, antes de mais, o filme acaba por ser realmente esse híbrido, se assim podemos chamar.

    Mas eu acho que é um filme que acaba por ter um pendor, apesar da matriz que se pode assumir como documental, tem um pendor de ficção bastante grande.

    Para mim, esta questão da mineração acaba por ser uma questão que não é uma questão isolada, que é uma coisa que ao longo dos séculos, principalmente, eu diria desde a Revolução Industrial, aumentou exponencialmente.

    Mas esta questão do progresso e da forma como se relaciona com os territórios e com as suas populações.

    É uma coisa que, por exemplo, na própria zona de Trás-os-Montes já teve um impacto muito grande, tanto com as minas de volfrâmio que existiam e que encerraram no seguir à II Guerra Mundial, se não me engano a década de 60.

    Este mega projecto de mineração que vai ocupar ou que pretende ocupar uma escala de território imensa relacionado com a escala, o território, a zona do Barroso é uma coisa que também já tem antecedentes.

    Com tanto questões extractivistas como esta do volfrâmio, de que estava a falar, como por exemplo, com a construção de barragens, construção de barragens que acabaram por submergir aldeias inteiras.

    Nesta questão da produção de energia e de manter um bocado a roda sempre a circular."

    Ou seja, é um bocado inevitável esta oposição entre o desejável desenvolvimento económico de regiões até bastante atrasadas em termos de acolhimento e depois o respeito do meio ambiente e o respeito também das pessoas localmente.

    "Sim, eu acho que isso pode ser visto de alguma forma, de uma forma falaciosa. Se olharmos para o funcionamento daquilo que pode ser chamado a economia de mercado e que neste momento assume um pendor totalitário sobre as nossas vidas.

    Muitas vezes estas promessas de desenvolvimento económico não estão directamente ligadas a melhor condições de vida.

    Ou seja, eu não acho, por exemplo, que Trás os Montes seja uma região atrasada. Não considero isso.

    Por exemplo, no meu filme acabo por me remeter a coisas que considero mais ancestrais. Mas há todo um processo de ficção que cruza histórias e memórias com espaços a uma montagem ficcional que faço a partir dali.

    Mas eu de forma alguma sinto que seja uma região que esteja atrasada. Acho que é uma região que dá a possibilidade à criação de outros mundos que talvez possam não obedecer na sua totalidade ou ainda tenham alguma forma de lidar de forma com um bocadinho de mais margem... basicamente o capitalismo global. Mas não considero que sejam regiões atrasadas, mas..."

    Marcadas pelo êxodo rural, por uma grande hemorragia de recursos humanos para o litoral e para o estrangeiro.

    "Claro, claro, Eu acho que isso também obedece realmente... bom, para já, uma história recente, não é?

    Não se pode esquecer uma ditadura que durou quase 50 anos e que depois foi substituída por uma febre talvez demasiado forte sobre esta ideia de progresso.

    Há outras formas que possam permitir às pessoas ficarem nos seus sítios e acho que é isso que se deve pensar.

    Pessoalmente, e acho que isto acaba por extrapolar o próprio filme, mas para mim é uma questão que está lá do início ao fim.

    Mas eu acho que muitas vezes esta imposição económica ou esta imposição numa perspectiva de progresso económico, acaba por ter um impacto que às vezes acaba por ser não tão recompensante para as pessoas que habitam ali e que já têm as suas vidas de alguma forma montadas.

    Obviamente, passa sempre por uma luta. É uma região que toda a sua geografia tem tanto de bonito como de invernos inóspitos, muito mais no passado e agora,obviamente, as condições de vida são outras, mas são populações que obviamente lidavam com quase uma questão metereológica, quase e de agressividade de território de meio que acaba por esculpir carácteres também, não é?

    Mas que obviamente acaba por também encontrar formas de resiliência e de resistência a essas questões.

    Por isso eu acho que esta questão desta extracção está planificada para ali. Ou seja, se o plano destes grandes grupos económicos vai realmente para a frente, eu, pessoalmente, não acredito que isso vá trazer as mais valias que compense nem a perda de qualidade de vida no território.

    E acho que às vezes estas coisas vêm tão atadas que o difícil é encontrar caminhos no meio. E acho que este filme é um bocado uma tentativa de encontrar um caminho aí no meio."

    Mas para se chegar a "Quando a terra foge", você tem já por detrás cerca de duas décadas de cinema.

    Então, passando muito rapidamente por alguns dos momentos que você já protagonizou entre "Bab Septa" em 2008. Já tinha havido antes o "Entre Tempos". Houve também a "Revolução Industrial", portanto colaborações com Pedro Pinho, com Pedro Hespanha, por exemplo.

    E "Entre tempos" era a decadência da Feira Popular de Lisboa. Aquele recinto um pouco ao deus dará. A "Revolução Industrial", a descida do vale do Rio Ave, que foi o coração fabril daquela área e, portanto, "Bab Septa" o drama dos imigrantes às portas de Ceuta, entre Tânger e Ceuta.

    Há assim, um fio condutor em relação aos temas os quais tenha apetite para ir fazendo o cinema que conhecemos da sua parte ?

    "De uma forma geral eu acho que sim, pelo menos. Se calhar sou a única pessoa que sente isso.

    Mas para mim, a linha entre estes filmes que possam ter formatos de produção, estéticas diferentes, formas de abordagem diferentes. Para mim há uma linha contínua que os atravessa a todos."

    É a fibra social ?

    "Eu acho que há uma relação social. Ao mesmo tempo acho que é muito uma questão como o ser humano vive o seu meio. E, obviamente, para mim, há uma questão que talvez possa ser considerada social, e um bocado mais genérica, que tem a ver com o que é que faz as pessoas mexerem-se, moverem-se com toda a legitimidade do mundo.

    Mas eu acho que há um funcionamento do mundo. Então, nos dias que correm, confesso que acho que essa turbulência ainda está mais acentuada!

    Ou seja, tanto a tragédia da imigração e as mortes no Mediterrâneo e no Atlântico não param, como o genocídio de Gaza. Acho que é uma questão super forte ! E acho que, de alguma forma, tento abordar coisas em que sinto que há realmente um desequilíbrio gigante entre as forças de alguma forma.

    E que tanto obrigam as pessoas a partir como as que ficam, mais tarde ou mais cedo podem-se sentir também atacadas, não sei.

    E acho que toda esta questão de relação com o espaço e dos filmes muitas vezes partirem do próprio espaço. Acho que isso acaba por ser um de alguma forma, uma marca, ou seja, não um espaço absolutamente real, mas sim um espaço geográfico específico, que pode ser tanto o móvel, como foi no caso do "Bab Septa" e na "Revolução Industrial".

    Como pode ser mais sedentário e fixo, como é o caso de Entre Tempos e de "Quando a terra foge" por mais? Para mim são criações imaginárias, mas "Quando a Terra foge", acaba por ser uma criação imaginária.

    Não é um mundo, ao contrário do "Revolução Industrial", em que é especificamente sobre um território que é o Vale do Ave.

    Aqui também há uma presença desse território que é assumido, mas ao mesmo tempo há um cruzamento de tempos que dá uma liberdade formal e acho que leva o filme para outros lados.

    Há um espaço e um tempo suspenso e eu acho que esta questão da relação com o espaço e com a forma como o espaço é ocupado é uma coisa que...e como lidamos com ele e como às vezes queremos ficar e temos que partir.

    E como às vezes queremos partir e nos obrigam a ultrapassar barreiras completamente absurdas.

    Pelos vistos já são 20 anos e com poucos filmes, não é? Trabalho como director de fotografia, trabalhei em mais filmes e trabalhei de outras formas."

    E é co-fundador de uma cooperativa de cinema que é a Rua Escura, no Porto.

    "Exactamente. Mas, por exemplo, é engraçado. Porque esta questão do eu quando fiz o "Entre Tempos" foi num contexto muito específico. Foi os Ateliers Varans e era uma situação que parecia urgente, que era uma coisa que estava a acontecer no momento e que ia ter um tempo e uma urgência muito forte.

    O que acontece é que aquele território foi deixado ao deus dará durante 20 anos. E,  honestamente, por uma questão de especulação imobiliária, neste preciso momento, eu passei lá, curiosamente, há cerca de um mês.

    Estão a ser construídos mais um quarteirão novo em Lisboa para uma classe social específica, claro.

    Já acho que tem a ver com a própria transformação das cidades e o modelo de transformação das cidades.

    Mas muitas vezes são coisas que se alargam muito no tempo por razões que ultrapassam o nosso próprio tempo. E a nossa própria perceção do mundo. Tem a ver com o funcionamento geral.

    Acho que estamos a fazer cinema e as ferramentas são as do cinema. O desejo é o do cinema. E por mais que o cinema talvez não tenha capacidade de transformação das coisas, pelo menos acho que pode acrescentar perspetivas sobre elas.

    E acho que é um bocado esse jogo meio misterioso que o cinema carrega, que também me faz mexer na vontade de fazer filmes."

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  • Crise na Nova Caledónia "é uma revolta anti-colonial"

    A França decretou esta quarta-feira, 15 de Maio, estado de emergência na Nova Caledónia até dia 12 de Junho. Depois de cinco dias de tumultos, que tiraram a vida a cinco pessoas, a França está a enviar reforços de segurança para o território francês no Pacífico, que vive uma crise de segurança e identidade política motivada pela reforma eleitoral. O historiador emérito da Universidade de Sciences Po, Michel Cahen, defende que a única forma de resolver a crise é a descolonização.

    RFI: Como é que interpreta este surto de violência na Nova Caledónia?

    Michel Cahen: Como historiador vou tentar raciocinar na longa duração, mas uma coisa é muito clara: o que acontece hoje na Nova Caledónia francesa é devido a uma situação colonial. Não se pode raciocinar com universalismo abstracto, dizendo isto é uma parte da França e vamos raciocinar como se fosse Bordéus ou Paris. É uma situação colonial. O que acontece hoje é uma tragédia com perdas humanas, com muita destruição. É uma situação pré-insurrecional porque essa situação é o produto de uma política do actual governo francês. Já há cinco ou seis anos que a situação está a piorar e todas as pessoas que conhecem bem o terreno dizem 'cuidado, cuidado, isto vai explodir'. Não se pode comparar a Nova Caledónia com as Antilhas Francesas, a Martinica, Guadalupe ou a ilha de Reunião no Índico.

    Porquê?

    Porque nessas ilhas não havia indígenas. Estou a utilizar essa palavra indígena no sentido antropológico, naturalmente. Não havia indígenas, foram muito rapidamente exterminados e os habitantes eram uma minoria de donos brancos. Hoje em dia, a maioria da população é descendente de escravos, enquanto na Nova Caledónia é um bocadinho comparável com a África continental. Isto é, há um povo indígena, há um povo que nunca aceitou a dominação francesa, desde a conquista da Nova Caledónia, nos meados do século XIX. Os vários povos que hoje se chamam de kanaks sempre resistiram. Houve revoltas, houve repressão feroz, houve uma diminuição da população. Não se pode dizer simplesmente que a ordem deve voltar. O governo francês actualmente está a reagir simplesmente em termos policial e militar. A ordem tem que ser restabelecida. Eu quase estou a ouvir o Salazar, o Caetano, dizendo 'nós podemos conversar com Moçambique, Angola, mas em primeiro lugar, a ordem deve voltar'. Não há outra maneira de resolver uma situação colonial que não seja a descolonização. Essa descolonização tinha sido prevista pelos acordos feitos pelo Michel Rocard e isso foi completamente abandonado hoje. Isso explica todo o desespero de uma geração de jovens. Também não devemos esquecer a situação social e económica que é muito má. É uma revolta anti-colonial.

    O governo francês parece ter dificuldade em travar esta crise. O executivo reforça a segurança, envia a militares para a Nova Caledónia, mostra força, portanto, Mas tem responsabilidade nesta crise?

    Não só tem responsabilidade, mas tem uma responsabilidade esmagadora porque as grandes organizações kanaks que são independentistas não são nada radicais, pelo contrário são muito moderadas. Têm um objectivo muito forte que é a independência do país, mas têm sempre dito, ao longe de 20 anos, que defendem o diálogo. Vou dar um exemplo, quando houve a pandemia da Covid-19, houve muitos mortos nos kanaks da Nova Caledónia. Com a Covid-19 e nos costumes, há um período de luto e durante este período de luto as pessoas recolhem-se e não participam em actividades políticas. Nesse momento, o governo teimou em organizar o terceiro referendo. Mais tarde, o governo considerou que essas crenças dos habitantes do país não eram qualquer coisa de relevante e então organizaram o referendo. Os independentistas boicotaram e, obviamente, o resultado foi de maneira esmagadora, "não à independência", mas este não é um referendo aceitável. Nós estamos a pagar o fruto de anos e anos de desprezo para os Kanak.

    Como é que se explica que desde 2018 a Nova Caledónia tenha tido três referendos pela independência, sendo que nos três o não saiu vitorioso e o último, como disse, em 2021 foi boicotado pelos independentistas. Estes referendos não foram fidedignos, foram manipulados?

    Tecnicamente não foram manipulados, pelo menos não tenho fontes para dizer isso, mas temos que raciocinar de maneira histórica. O povo Kanak é um povo que foi menorizado desde há décadas. Com a imigração crescente de gente vindo da França. O povo daquela terra foi mais e mais minoritário

    O povo Kanak que representa cerca de 40% da população na Nova Caledónia...

    Hoje sim, mas antigamente era muito mais e com a taxa demográfica, se esperarmos mais alguns anos, provavelmente o povo kanak vai voltar a ser maioritário. A não ser que a França organize mais e mais imigração para a Nova Caledónia. É muito estranho porque em França há muita gente que diz que a ordem deve ser restabelecida. São pessoas que estão a criticar muito a imigração em França, dizendo que a extrema-direita diz que 'o povo francês vai ser submerso por uma vaga de imigrantes'. Mas é exactamente a mesma coisa que aconteceu na Nova Caledónia. A França favoreceu mais e mais a vinda de franceses com salários locais para os franceses quase multiplicado por dois em comparação com a metrópole e o povo Kanak ficou minoritário na sua própria terra. Não se pode raciocinar somente dizendo um ser vivo, um voto. É preciso considerar que há uma situação colonial e essa situação colonial para ser resolvida dever ser descolonizada. O que não quer dizer que todos os franceses que estão lá devem sair. Há muitos franceses que nasceram nessa terra, esses obviamente podem ficar e até há muitos kanaks que estão a favor de trabalhar com caledonianos de origem francesa. Mas em primeiro lugar, deve-se aceitar que é uma situação colonial, que um povo foi historicamente menorizado na sua própria terra e que este povo não pode aceitar um referendo onde uma maioria de pessoas, historicamente imigrantes, os colonizadores franceses, vai votar para o futuro desta terra.

    Que soluções para sair desta crise? A França está pronta a dar razão aos independentistas da Nova Caledónia?

    Não sei se é dar razão aos independentistas da Nova Caledónia, mas se o governo francês quer que a paz volte, a primeira coisa, é retirar a lei, não promulgar a lei sobre a revisão do corpo eleitoral. Esta lei cria uma situação de desespero para os kanaks que com a situação demográfica actual, vão continuar a ser minoritários, embora estejam na sua terra, enquanto os outros são historicamente os colonizadores. Se o governo quiser, em vez de enviar centenas e centenas e centenas de militares na Nova Caledónia, é muito simples: retiram e não promulgam o projecto de lei sobre a revisão do corpo eleitoral e a paz volta de imediato. Poderão reorganizar negociações porque não estamos em 1842. Agora deve haver uma colaboração entre os kanaks, que são o povo histórico da terra e os franceses que querem fazer esta terra a sua terra para a vida toda e não só para uma uma posição de funcionário público muito bem pago para alguns anos. Há muitos franceses que vivem lá que estão prontos para negociar. Não se deve empurrar os kanaks e, nomeadamente, uma juventude Kanak muito pobre que está a ver a riqueza dos outros e que sente que tudo isso foi roubado ao povo Kanak. Para que a paz volte, deve-se retirar esta lei. A lei não deve ser promulgada e integrada na Constituição Francesa.

    A única coisa que propôs o nosso Presidente, Macron, foi atrasar a integração da lei na Constituição. Espero que não haja uma ala radical dos independentistas que decida entrar na luta armada mesmo, como houve em Angola, como houve em Moçambique, como houve na Guiné. A França vai entrar numa nova guerra colonial? Já tivemos a Indochina, já tivemos a Argélia. Espero que não vai acontecer assim, porque a situação é muito grave.

    10 min
  • HRW denuncia a utilização de 'crianças-soldados' no ataque contra Macomia em Cabo Delgado

    Em comunicado emitido nesta quarta-feira, a Human Right Watch afirmou que o grupo armado que atacou na sexta e sábado passados a vila de Macomia em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, usou crianças soldado para invadir e pilhar a localidade. A ONG de defesa dos Direitos Humanos que se baseia em testemunhos locais, estima que pelo menos 20 crianças participaram na ofensiva, não sendo contudo claro se também estiveram envolvidas nos próprios combates contra as forças governamentais no terreno.

    Ao recordar que "usar crianças com menos de 15 anos em conflitos, por si, é um crime de guerra", Zenaida Machado, investigadora sénior da Human Rights Watch e autora da pesquisa, sublinha que "o Estado moçambicano tem a responsabilidade de proteger estas crianças".

    Questionada sobre o facto de este novo ataque ter acontecido numa altura em que começam a sair gradualmente do terreno as forças da SADC que estão envolvidas desde Julho de 2021 no combate ao terrorismo juntamente com as forças governamentais, a investigadora relembra que é o Estado moçambicano que "tem competência e autonomia para decidir a quem deve solicitar ajuda para garantir que os moçambicanos e todos os outros residentes no território possam usufruir do direito à segurança".

    Neste sentido, a investigadora e activista dos Direitos Humanos apela para que o governo tome as suas decisões nesta matéria "tendo em conta as condições no terreno, depois de também fazer consultas com as comunidades e acima de tudo, quando tiver controlo total da situação".

    RFI: A Human Rights Watch contactou diversos moradores de Macomia durante o ataque. Que cenário lhe descreveram?

    Zenaida Machado: É um cenário com muitas nuances. Primeiro, porque as pessoas descrevem que o grupo quando entrou na vila, conversava com a população e explicou-lhes que não tinha intenção de atacar as pessoas. A intenção deles era irem buscar comida. Temos o caso de residentes que decidiram, mesmo assim, fugir porque já tinham experimentado as mesmas situações em ocasiões anteriores e, por questão de segurança, preferiram retirar-se da zona e irem esconder-se nas matas. Mas também conversamos com pessoas, por exemplo, que decidiram ficar e assistir ao decorrer dos eventos. Uma coisa é certa: independentemente do que os insurgentes tenham dito às pessoas, a sua chegada a Macomia tornou-se, em algum ponto, uma acção violenta e com sérios riscos para a vida humana, porque eles atacaram posições das forças de defesa e segurança. Estavam numa acção de pilhagem em que estavam a retirar produtos e mantimentos que pertencem aos residentes. Isto por si já é um crime, um abuso de Direitos Humanos. Estavam também a levar mantimentos que estão guardados em armazéns de agências humanitárias. Portanto, estes produtos estão ali para ajudar as pessoas deslocadas e pessoas necessitadas. Para quem não sabe, estas são zonas de difícil acesso por causa do conflito e o que está nos armazéns deve durar algum tempo para permitir ajudar a quem precisa. Se os insurgentes vão para lá para retirar estes mantimentos, torna o processo de trabalho das agências humanitárias um pouco difícil. Então, é uma mistura de sentimentos. Há os que se sentiram mais confiantes e ficaram a assistir ao que se estava a passar, mas a maior parte da população e residentes daquela zona decidiu fugir e esconder-se na mata durante 24 horas até sábado, quando regressaram às suas casas, porque os insurgentes já se tinham retirado da aldeia. O que nós sabemos, nesta fase, é que há pessoas mortas. Há pelo menos 10 pessoas mortas. Na sua maioria são soldados, mas também há civis entre os mortos, o que demonstra que as 24 horas em que os insurgentes estiveram em Macomia, apesar de terem dito que não iam atacar os residentes, foram efectivamente 24 horas de violência. 

    RFI: Tem-se noção de quantas crianças poderão ter participado nas acções de pilhagem ou eventualmente até nas acções armadas durante o ataque a Macomia?

    Zenaida Machado: A informação que nós temos, nesta fase, é que o grupo que foi invadir Macomia dividiu-se em três: um que estava a combater as posições das forças de defesa e segurança, outro que bloqueou os principais acessos e, depois, tivemos relatos de que surpreenderam violentamente as forças que foram enviadas para ajuda de reforço. Entretanto, houve outro grupo que esteve dentro da cidade a fazer as pilhagens. Nós não temos, nessa fase, como verificar se o grupo que esteve a confrontar-se com as Forças de Defesa e Segurança ou esteve, por exemplo, a tentar distrair as forças de apoio que se aproximavam de Macomia, se continha crianças. Podemos confirmar que o grupo que esteve em acções de pilhagem dentro do posto administrativo continha pelo menos 20 crianças, que foram os números que as pessoas puderam dizer. Mas nós acreditamos que sejam muito mais. Pelo menos uma das crianças foi reconhecida e é uma criança que tem 13 anos. A legislação internacional diz que usar crianças com menos de 15 anos em conflitos, por si, é um crime de guerra. Mas também é preciso dizer que, para efeitos de Direitos Humanos, não faz muita diferença se essas crianças tiveram ou não engajadas em troca de tiros com as forças de defesa e segurança. O facto de elas estarem armadas em acções de conflito armado, quer sejam pilhagens, organização ou mobilização em si, transformam elas em crianças-soldados. O que é um crime grave contra os Direitos Humanos. É efectivamente aquilo que se considera um crime de guerra. 

    RFI: Tem havido múltiplos apelos das autoridades moçambicanas a prevenir precisamente a população local, os jovens, os menores, para não entrarem nesses grupos. A seu ver, o que é que faz com que esses jovens acabem por ser forçados ou aliciados? 

    Zenaida Machado: Eu gostaria de distinguir aqui a diferença entre a criança e o jovem. O jovem tem a sua própria opção de escolha, se quer ou não juntar-se ao grupo. Claro, se não tiver sido forçado a fazê-lo. Jovens que se juntam voluntariamente a este grupo, se não estiverem na idade de menoridade, devem, como qualquer outro adulto, enfrentar a justiça pelos crimes que vão cometer enquanto fizerem parte do grupo. No nosso trabalho, damos especial atenção às crianças, porque uma criança dificilmente tem capacidade de escolha ou de decisão ou de interpretação do que é o certo ou do que é errado. Então, o Estado não deve se limitar apenas a fazer apelos às crianças para não se juntarem ao grupo. O Estado moçambicano tem a responsabilidade de proteger estas crianças. Recentemente, o ISIS divulgou nos seus canais de publicidade um vídeo em que apareciam os insurgentes a ter reuniões com crianças. Isto é alarmante e preocupante. Mostra que, de alguma forma, o Estado moçambicano perdeu o controlo do paradeiro de muitas crianças e não está a saber ou não está a conseguir cumprir o seu papel de protector destas crianças. O lugar de uma criança é em casa, na escola, a brincar nas ruas. Não é no campo de batalha, nem num treino de como usar uma arma para matar o seu vizinho ou o seu familiar. O Estado deve, com os seus parceiros, melhorar os seus esforços para garantir que estas crianças não se juntem a estes grupos. Deve garantir formas de que os lugares onde estão essas crianças são devidamente protegidos e que existam políticas para manter as crianças afastadas de um ambiente de guerra. Mas também é uma mensagem clara que devemos deixar para o grupo Al-Shabab de Moçambique e que eles devem parar de recrutar crianças e devem parar de usar crianças em ambiente de guerra. Os crimes de guerra são aplicáveis aos Estados e aos actores não-estatais. Estes crimes que está a cometer hoje estão a ser documentados e efectivamente, em algum momento, a gente espera poder levar a liderança deste grupo também às barras da justiça pelos crimes que está a cometer. Também apelamos ao bom senso deles, se é que ainda tem algum, de se recordarem que uma criança é o futuro de um país. Crianças que aprenderam a matar dificilmente terão um futuro saudável e é preciso permitir que as crianças de Moçambique sejam crianças, não pequenos soldados. 

    RFI: Isto acontece numa altura em que precisamente estão a sair gradualmente as forças que se juntaram ao dispositivo da SADC em Cabo Delgado. Está prevista uma retirada progressiva dessas forças nestas próximas semanas. Como é que vê esta situação à luz dos abusos e das violações dos Direitos Humanos que acaba de descrever?

    Zenaida Machado: A função de proteger ou de providenciar o direito à segurança dos residentes no território moçambicano é do Estado moçambicano. O Estado moçambicano tem competência e autonomia para decidir a quem deve solicitar ajuda para garantir que os moçambicanos e todos os outros residentes no território possam usufruir do direito à segurança, neste caso, de Cabo Delgado. O Estado moçambicano solicitou ajuda às forças regionais e ao Ruanda. Nós, como Human Rights Watch, em algum momento, também solicitamos várias vezes as forças regionais, em particular, a terem uma missão que se foca principalmente na defesa dos Direitos Humanos e a garantir que as condições humanitárias no terreno sejam melhoradas. Mantemos esse apelo a todas as forças que estejam a trabalhar em conjunto com as forças governamentais, que a prioridade no terreno deve ser permitir que as populações vivam em segurança, mas também que recebam ajuda humanitária adequada sempre que assim necessitarem. Prefiro não comentar, nesta fase, as decisões do Estado moçambicano sobre quando ou como essa chegada ou partida dos parceiros internacionais deve ser feita. O que nós também podemos apelar, nesta fase, ao governo moçambicano é que tome as suas decisões de convidar ou despedir as forças parceiras de forma informada, tendo em conta as condições no terreno, depois de também fazerem consultas com as comunidades e, acima de tudo, quando tiverem controlo total da situação e possam, como Estado individualmente, sem ajuda, garantir que os cidadãos possam usufruir desse direito. Caso contrário, se não fizerem isso, estarão a incorrer num grande erro de voltarem ao estado em que não podiam garantir às populações um nível de segurança adequado. 

    11 min

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