Convidado

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  • Guiné-Bissau: "Há uma vontade de renovar e democratizar o MADEM G-15"

    Um grupo de militantes dissidentes do MADEM G-15 realiza este sábado, 17 de Agosto, na Guiné-Bissau, o primeiro congresso extraordinário do partido. Em entrevista à RFI, o general Sandji Fati, antigo ministro guineense de Defesa, afirma que este congresso nasce da vontade de renovar o partido e minimiza as declarações do coordenador Braima Camará que se opôs à realização do congresso e marcou para o mesmo dia o conselho nacional do MADEM G-15.

    RFI: Quais são os motivos que vos levaram a organizar este congresso extraordinário?

    Sandji Fati, antigo ministro guineense de Defesa: o primeiro congresso extraordinário foi uma subscrição dos militantes do MADEM G-15, em conformidade com o artigo 18.º n° 1. É uma vontade manifestada pelos subscritores e -conforme os estatutos- bastam mil assinaturas para se poder convocar um congresso extraordinário. Neste caso, foram ultrapassadas todas as expectativas, porque havia uma maioria silenciosa, dentro do partido, que queria alguma renovação e democratização do MADEM G-15.

    Quando falo em “renovação e democratização do partido”, refere-se a alguém em concreto?

    Não me refiro a ninguém. Refiro-me ao partido no seu próprio funcionamento, ao modus operandi, que tem de estar em conformidade com os estatutos.

    O coordenador do partido defende que para haver um congresso extraordinário é preciso haver um conselho nacional. Braima Camará que agendou igualmente o conselho nacional para amanhã, 17 de Agosto. Não há aqui uma divergência entre as partes?

    Não, esse é o entender de Braima Camará. E até pode ser que tenha tido um parcer jurídico nesse sentido. Quando se fala de um congresso extraordinário já se ultrapassa a própria competência do coordenador e do conselho nacional, uma vez que o maior órgão do partido é o congresso. Por isso, os militantes têm esse poder de convocar um congresso extraordinário.

    Deste congresso extraordinário e do conselho nacional sairão, a priori, conclusões.  Que decisões irão prevalecer no partido?

    As decisões do congresso, órgão superior, prevalecem em relação a todos os outros órgãos. Assim, se fosse em latim, diríamos que é “erga omnes”, ou seja, todas as decisões tomadas neste congresso são soberanas e são para toda a gente cumprir. Ponto final.

    Na base da divergência entre os membros do MADEM G-15 está o apoio ou não a um segundo mandato presidencial de Umaro Sissoco Embaló. Esta questão será discutida no congresso?

    Não, este assunto não está na agenda, porque não estamos nas eleições presidenciais. As eleições presidenciais só ocorrerão em 2025.

    Que assuntos serão debatidos durante este congresso? A escolha de um novo coordenador, por exemplo?

    O congresso tem os seus delegados e tem uma agenda própria que poderá ser aprovada ou não. É em função dessa discussão que serão tomadas as decisões. Não vale a pena eu estar aqui a fazer suposições porque não gosto desse aspecto.

    O coordenador do partido já veio dizer que o senhor general não tem legitimidade para falar em nome do MADEM G-15, uma vez que foi suspenso do partido por um período de dois anos. Que reacção lhe merece este comentário?

    Porque é que só foi por dois anos? Podia ter sido mais… No fundo, não há nenhuma pena que não esteja suportada por uma lei. No nosso partido, infelizmente, o conselho de direito não conseguiu elaborar um regulamento para a aplicação das sanções. Mas, pese embora isso, quando me notificaram da decisão, eu ainda fiz um recurso que está pendente, até agora não tive nenhuma resposta.

    Eu sou apenas uma pessoa, não fui eu a representar as mais de 3500 assinaturas. Eu não subscrevi a petição porque, como jurista, sabia que pendia sobre mim [esta sanção]. Mas eles também não responderam porque sabem que quem poderá dirimir o assunto são os tribunais. Por isso não responderam. Primeiro tem de se esgotar todos os aspectos processuais, dentro do partido, e só depois é que se vai para a via judicial.

    Esta semana, foi assinada, em Lisboa, uma declaração política conjunta que reuniu vários partidos, nomeadamente o MADEM G-15. Na declaração os partidos reconhecem que “o ambiente político que se vive no país é extremamente grave e propício a rupturas com impacto em consequências imprevisíveis”. O senhor revê-se nestas afirmações?

    Não me revejo nessa declaração. Apenas me reaviva a memória, os subscritores da carta, daqueles que accionaram a tentativa do golpe de Estado que se transformou numa guerra civil. Infelizmente, é consequência dessa guerra que estamos a viver até hoje. Por acaso, vi muita gente da junta militar à volta daquela mesa, por isso não fiquei admirado.

    O coordenador do MADEM G-15 acusa o Presidente Umaro Sissoco Embaló de não estar a respeitar a Constituição do país…

    Esse é um problema dele. O coordenador pensa, às vezes, que é o tribunal. Nós temos um Tribunal Constitucional e um o Supremo Tribunal de Justiça (…) Não podemos estar a pensar fazer justiça pelas nossas próprias mãos. Ou seja, a nossa interpretação do que é a lei. As pessoas alegam que não há Estado de direito democrático, mas são as opiniões dessas pessoas. Valem o que valem.

    A Liga Guineense dos Direitos Humanos revelou, em comunicado, estar preocupado com o estado de saúde do activista Queba Sané, também conhecido por R. Kelly, militante do MADEM G-15 detido arbitrariamente. Vocês estão preocupados?

    Não, eu não tenho nenhuma preocupação. Nem sequer tinha essa informação. Certamente que fez alguma coisa...

    Teria sido detido com outros militantes no aeroporto internacional Osvaldo Vieira quando aguardava a chegada de Braima Camará a Bissau…Não sei. Honestamente, eu não estive no aeroporto. Nestes dias tenho acompanhado o processo dos trabalhos para a realização do Congresso, apesar de não subscritor da petição, tenho estado a conversar com alguns camaradas e, imbuído neste espírito do trabalho, não me dá tempo para saber o que se está a passar. Portanto, como está a dar-me essa informação em primeira mão-obrigado- vou procurar saber.

    O Ssenhor general, está otimista quanto ao bom desenrolar do congresso extraordinário do MADEM G-15?

    Eu penso que os militantes estão determinados e são todas as categorias- da base ao topo. Temos mais de seis vice-coordenadores do MADEM G-15 escolhidos pelo senhor Brahma Camará, e todos subscreveram a realização do congresso extraordinário

    O coordenador do partido Braima Camará vai estar presente no congresso?

    Ele é que sabe. Ninguém o pode obrigar a lá estar. Estamos num Estado de direito democrático.

    7 min
  • "É de louvar" a condenação política de Umaro Sissoco Embaló, considera Frente Popular

    Com as críticas a Umaro Sissico Embaló a virem do seu próprio campo político face à gestão da situação na Guiné-Bissau, a Frente Popular, movimento da sociedade civil, louva que políticos como Braíma Camará reconheçam que o Presidente está "a ultrapassar" os limites e pede uma intervenção da comunidade internacional, como disse Lelito Quadé, coordenador desta plataforma, em entrevista à RFI.

    Na Guiné-Bissau, a crispação política aumenta diariamente com a sociedade civil a pedir o regresso do país ao Estado de Direito, defendendo o direito às manifestações pacíficas e a que os jornalistas possam realizar o seu trabalho em liberdade e sem quaisquer restrições.

    Este é também o pedido da Frente Popular, organização da sociedade civil que se mobiliza pela salvaguarda da democracia na Guiné-Bissau desde o início deste ano.

    Para este movimento, as críticas do líder do MADEM-G15, Braíma Camará, recentemente chegado a Bissau, contra Umaro Sissoco Embaló mostram que este ganhou consciência da situação no país.

    "Só não vê quem não quer ver como o Sissoco está a levar a Guiné-Bissau e a Frente Popular está a acompanhar essas dinâmicas políticas. O Partido MADEM-G15 é um partido que sempre apoiou o Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló. Mas, uma vez que esse partido ganha a consciência, reconhece que Sissoco está a ultrapassar todos os limites e vem condenar, nós, todos nós, aplaudimos. Por isso estamos a acompanhar. É de louvar as iniciativas de condenação aos actos de Sissoco Embaló", disse Lelito Quadé, coordenador da Frente Popular.

    A Frente Popular pede agora que a comunidade internacional intervenha no país de forma a prevenir uma escalada de desrespeito dos direitos dos guineenses.

    "A população da Guiné-Bissau precisa da intervenção da comunidade internacional. A Guiné-Bissau faz parte desta comunidade e havendo estas questões, havendo esse problema no nível em que está e não se sabe, num futuro próximo, o que é que pode acontecer, seria bom que a comunidade internacional antecipasse os eventos antes de chegarmos ao ponto do descambar das coisas. Então é importante uma intervenção imediata, porque a tensão está muito alta na Guiné-Bissau e as coisas parecem que podem perder o controlo a qualquer momento", avisou o activista da sociedade civil.

    9 min
  • Ofensiva ucraniana é “um grande embaraço para a Rússia”

    A ofensiva da Ucrânia em território russo é a maior incursão de um exército estrangeiro em solo russo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. É também “uma ocupação que tem um sabor a humilhação, um grande embaraço para a Rússia, sobretudo para Vladimir Putin”, considera o analista Calton Cadeado. O especialista em Estudos de Conflitos diz que o ataque surpresa ucraniano criou “mal-estar dentro da Rússia” e permitiu ganhar “elementos de troca” para a futura mesa de negociações. Resta saber se Kiev “tem força para aguentar” e qual será a dimensão do contra-ataque russo.

    Esta quarta-feira, o Presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, disse que prossegue a ofensiva em território russo. Kiev afirma ter conquistado 74 localidades na região fronteiriça de Kursk, onde entrou a 6 de Agosto, e também continua ataques aéreos contra Belgorod. De acordo com a agência France Presse, esta é a maior incursão de um exército estrangeiro em solo russo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Para analisar a situação, o nosso convidado é Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais e Estudos de Conflitos na Universidade Joaquim Chissano em Moçambique.

    RFI: Confirma que esta é a maior incursão de um exército estrangeiro em solo russo desde o fim da Segunda Guerra Mundial? Qual é o objectivo desta operação?

    Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais e Estudos de Conflitos na Universidade Joaquim Chissano em Maputo: "De facto, até agora, pelos registos da História, esta é a maior e - se calhar, eu até arriscaria a dizer - a única ocupação do território russo depois da Segunda Guerra Mundial. E é uma ocupação que tem um sabor a humilhação, um grande embaraço para a Rússia, sobretudo para Vladimir Putin como Presidente da Rússia."

    Uma derrota pessoal para Vladimir Putin?

    "Sem dúvida. Esta é uma derrota pessoal para Putin e também para o movimento nacionalista que ele tinha conseguido mobilizar em torno desta guerra ao ter conseguido apoio nos princípios desta guerra. Nós sabíamos das sondagens que mostravam que grande parte da população russa apoiava esta operação militar especial, mas hoje Vladimir Putin já não tem cara para aparecer diante do público e mostrar a Grande Rússia, a grande superpotência que Vladimir Putin sempre projectou."

    Vladimir Putin não pode tirar proveito desta operação ucraniana?

    "Neste momento, ele pode muito bem mobilizar os corações e as mentes dos russos para dizer que ‘temos que defender o nosso território’. Mas esta seria uma reviravolta na sua narrativa, que mostrava uma Rússia muito grande, uma Rússia super poderosa e uma Rússia que estava a lutar por um objectivo específico, incluindo a defesa do seu território.

    Mas, neste caso, a Ucrânia consegue ocupar o seu território, pelo menos até agora - depois vamos abordar o objectivo dessa operação. Isto não consegue ganhar os corações das pessoas porque as pessoas já estão a perguntar - pelo menos das notícias que nos chegam da Rússia - que mostram que uma parte da população pensa que Vladimir Putin mentiu sobre esta guerra e estão a pagar as consequências desta mentira neste momento."

    Qual é o objectivo desta incursão ucraniana?

    "Quando nós abordamos os objectivos, temos que ver objectivos na dimensão estratégica e na dimensão operacional. Até podemos ir à dimensão táctica, mas eu gostaria de me concentrar numa dimensão grande, estratégica, que é desviar a atenção e reduzir o moral da ofensiva militar russa que está a ocorrer na Zona Sul, na zona de Donetsk, e passar a concentrar a maior preocupação das forças russas em defender o seu território e impedir o avanço dos ucranianos até dentro do espaço russo."

    Mas são dois flancos distintos, eu suponho que a Rússia tenha operacionais para defender ambos os flancos…

    "Mas isso é o que está a ser mostrado do ponto de vista de fraqueza da Rússia porque se a Rússia tem essa capacidade, nunca os ucranianos teriam conseguido ocupar, ainda que fosse um dia só, o território que está a ocupar hoje. Se a Rússia tivesse essa capacidade, pelas imagens estão a circular, pelas notícias que estão a circular…

    E o curioso disto - com toda a crítica que a gente possa fazer a Vladimir Putin na sua ditadura - nós estamos a obter informações de dentro da Rússia, inclusive de fontes governamentais, como seja o próprio Vladimir Putin que não escondeu este tipo de desastre, o que para mim até é um paradoxo, sabendo da Rússia como tem estado a conduzir a guerra, incluindo a guerra no silêncio da informação.

    Desta vez estamos a ver todas as informações, quer dos governadores, quer do próprio Vladimir Putin. É verdade que, pelas imagens que circulam, nota-se o embaraço de Vladimir Putin ao receber este tipo de informações e nota-se o semblante - para quem analisa isto, chama-se linguagem corporal, que é um elemento fundamental de análise. Nota-se o embaraço que Putin se meteu nesta situação e que os ucranianos o forçaram a estar."

    Esta ofensiva ucraniana poderá ter um impacto no decurso da guerra iniciada há dois anos e meio pela Rússia? É uma operação com significado táctico de curto prazo ou pode ter um impacto a longo prazo e mudar o decurso da guerra?

    "Isso é uma incógnita neste momento, mas já trouxe algum impacto. Os russos estão a continuar a guerra no Sul, que é para mostrar uma pujança, mas ao mesmo tempo estão a mobilizar forças em direcção à zona ocupada neste momento pelos ucranianos, o que pode diminuir o entusiasmo ofensivo da guerra naquela zona porque é a honra da Rússia que está em causa. É a honra de Vladimir Putin que está em causa neste momento e que é preciso proteger.

    Mas também do ponto de vista de objectivos, a Ucrânia já conseguiu o seu objectivo que é criar este mal-estar, este desajuste no sentido de coesão dentro da Rússia.  E um objectivo estratégico acima de todos que se podem considerar neste momento é que provavelmente a Ucrânia esteja a ver nesta ofensiva uma forma de ocupar algum espaço, ainda pequeno que seja, como um elemento de troca amanhã à mesa de negociação. Em termos de negociação, isto, em resolução de conflitos, diríamos que a Ucrânia está à procura de aumentar o seu poder negocial, que estava fraco até este momento.

    Mas mais do que isso, a Ucrânia também está à procura, na minha forma de ver, de ter um elemento autónomo, de força, de pressão porque sente que, provavelmente, as eleições na América possam mudar o seu poder negocial se Donald Trump entrar para o poder na América. Então eles querem criar uma certa autonomia de poder negocial para este decurso da guerra, o que parece que estão a conseguir porque o mundo, pelo menos ocidental, está a apoiar neste momento."

    Kiev também quererá mostrar ao mundo que afinal tem capacidade para agir, não apenas para defender, mas também para atacar? Uma vez que a Ucrânia conta com a ajuda militar ocidental, até que ponto não haverá o risco de assistirmos a uma escalada da guerra por parte da Rússia?

    "Isso leva-me a uma discussão que é teórica, mas muito prática no mundo da guerra. A Ucrânia fez um ataque surpresa. Alguns duvidam desta surpresa, mas eu quero acreditar que foi, de facto, um ataque surpresa. Porque é que há dúvidas? É que há uma alegação segundo a qual os russos sabiam disto e deixaram que isto acontecesse, mas eu tenho as minhas dúvidas em relação a esta narrativa e foi, para mim, uma surpresa e uma surpresa estratégica. Os ucranianos estão a lutar no solo russo, inclusive com o apoio de georgianos, que já sabemos da sua inimizade com a Rússia. Este é um elemento: o ataque surpresa.

    Agora, quanto de força a Ucrânia tem para aguentar ou manter essas conquistas é uma incógnita até agora. Na guerra, quando temos o primeiro ataque surpresa, temos que estudar e pensar no segundo ataque porque o segundo ataque pode ser tão poderoso a ponto de eliminar os ganhos do ataque surpresa.

    Tem muitos estudos feitos sobre a guerra de Yom Kippur, em Israel, que mostram claramente o valor do primeiro ataque surpresa e o valor do segundo ataque de reacção. Os russos estão a dizer que vão fazer um ataque forte, mas até agora esse ataque forte não apareceu, até porque os ucranianos se prepararam bem na surpresa, incluindo na surpresa aos seus aliados, os americanos, o Ocidente, porque está visto que eles não sabiam desta manobra que os ucranianos estavam a fazer - até prova em contrário. Então, a surpresa deu esta vantagem, mas não sabemos até agora o quanto os ucranianos vão aguentar no caso de um segundo ataque russo de resposta ser tão poderoso quanto eles estão a dizer que será."

    E aí entraria a questão que há pouco colocou que é: os russos saberiam de antemão que este ataque ucraniano iria acontecer?

    "Exacto. Agora estamos a trabalhar com muita informação. Aliás, os estudiosos disto dizem que na guerra a primeira vítima é a verdade. Nós temos várias informações e é preciso juntar todas elas para podermos ver o ponto real e algumas vezes nem chegamos até lá.

    Mas o que é um facto é que há humilhação de Vladimir Putin, há humilhação da Rússia, há uma seriedade que os russos estão a tomar em relação a este assunto. É só lembrar que no ano passado Vladimir Putin sofreu com o motim do [Yevgeny] Prigozhin, conseguiu controlar, mas a reacção que ele teve no caso de Prigozhin e a reacção que está a ter agora, nota-se uma clara diferença. É só ver, por exemplo, quando foi demitido Prigozhin, ele ficou uns dias no silêncio, mas neste caso, imediatamente a seguir à publicação das informações, ele apareceu ao público e tomou a dianteira no controlo disto e com um certo semblante de nervosismo, de embaraço e humilhação, como estamos a dizer. Vamos ver até onde isto o vai levar, mas é um grande embaraço para Putin na sua audiência doméstica e na audiência internacional. Já não veremos o mesmo Putin tão forte quanto projectou antes."

    11 min
  • "João Lourenço quer conseguir aquilo que outros não conseguiram" na RDC

    O Presidente angolano esteve esta segunda-feira, 12 de Agosto, em Kinshasa, no quadro da mediação de paz e segurança na República Democrática do Congo. O investigador angolano do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, Eugénio Costa Almeida, acredita que o cessar-fogo está a ser respeitado pelo M 23 e que o Presidente João Lourenço se quer apresentar como "um paladino que conseguiu aquilo que outros não conseguiram".

    Na capital congolesa, o Presidente João Lourenço manteve um encontro com o Presidente Félix Tshisekedi. Na véspera, domingo, João Lourenço tinha estado no Ruanda, a assistir à investidura de Paul Kagame para um novo mandato de cinco anos e esteve reunido com o Presidente do Ruanda.

    RFI: Como é que explicam estes encontros entre João Lourenço, Félix Tshisekedi e Paul Kagame. Esta é uma forma de Angola garantir que o cessar-fogo seja respeitado?

    Eugénio Costa Almeida: Isto é quase como uma prenda de tomada de posse de Kagame, que João Lourenço teve a fazer, embora os interesses africanos nem sempre se sobreponham aos interesses particulares. João Lourenço está incumbido pela União Africana como mediador do conflito nos Grandes Lagos. E é isso que ele tem estado a fazer, procurar que a situação se dilua em termos de conflitualidade, se certa foram é o seguimento do acordo que entrou em vigor em 4 de Agosto e que parece estar a ser cumprido pelas partes. Parece; inclusivamente; estar a ser cumprido pelo M23 e portanto essa situação faz-nos crer que, provavelmente, talvez as coisas se encaminham. Embora, pessoalmente, tenha muitas e legítimas dúvidas.

    Essas dúvidas têm sido levantadas desde 4 de Agosto, o dia em que no Congo Democrático vive desde o dia 4 de Agosto um ambiente de cessação de hostilidades, na tensa região do Leste. O acordo foi assinado, em Luanda, entre as delegações ministeriais do Ruanda e da RDC, sob a mediação angolana. Nas negociações não fez parte o grupo rebelde M23, isso pode comprometer o cessar-fogo?

    Em princípio, e tendo em conta o M23, disse logo que não iria aceitar o acordo porque não foi tido nem achado e pela intensidade de combates que eles fizeram 24 horas antes do acordo entrar em vigor, tendo ocupado inclusivamente cinco localidades, fazia-se temer que era mais um acordo de papel. Todavia, como alguns analistas fizeram referência e de certa forma elementos da ONU, se o M23 cumprir o acordo era a prova inequívoca que estava está a ser patrocinado pelo Ruanda. Portanto, as conspirações e especulações deixo para terceiros, mas costuma-se dizer que não há fumo sem fogo e que as situações parecem indicar nesse sentido, ao que parece. Apesar de tudo, se no ponto de vista militar o conflito parece que entrou na calmaria e o acordo está a ser aceite, internamente na RDC as situações políticas não são as mais saudáveis. Como se sabe, o próprio Tshisekedi acusou, ainda no final da semana passada, Kabila de estar coordenado com Kagame.

    Esta segunda-feira, a ministra dos Negócios Estrangeiros congolesa disse que Felix Tshisekedi "reiterou a total disponibilidade do governo congolês em participar nas próximas etapas do processo de Luanda, sob os auspícios do mediador João Lourenço". O mesmo tem de acontecer do lado do Ruanda?

    O próprio Tete António, o ministro das Relações Exteriores de Angola, esteve em conversações com a RDC e com a sua homóloga, Thérèse Kayikwamba, e tudo indica que estão disponíveis. Portanto, o próximo passo que vai ser definido entre as partes ministeriais. Provavelmente, se ele ontem estive a falar com a ministra da RDC, é possível que hoje fale com o seu homólogo de Kigali. Não temos esse conhecimento. É tudo natural e é previsível que isso aconteça, até para definirem calendários.

    A RDC acusa o Ruanda de apoiar o movimento rebelde M23, para se apoderar dos recursos minerais do Leste do país, enquanto o grupo armado alega estar a defender uma parte ameaçada da população tutsi que vive na província do Kivu do Norte. O que está na origem desta conflito ?

    O M23 é um movimento rebelde constituído por antigos militares das Forças Armadas da RDC, que se rebeliaram por não estarem a ser cumpridos acordos de 2009. Pararam e depois reacenderam-se em 2021, precisamente na altura em que também recrudesceram os conflitos com o Ruanda. Agora, o M23 defende interesses próprios; são as áreas onde há minério e, recentemente, um relatório da ONU deu a entender que estão a ser canalizados através do Ruanda, oficialmente ou não isso é outra questão. E como há no exterior, em particular o Ocidente, que é o mais interessado nesses produtos, fecham-se os olhos, como a muitas empresas que fecham os olhos relativamente às sanções com a Rússia.

    Há um facto que deve ser importante e que historicamente as pessoas talvez se esqueçam é que o M23 está numa área onde desde sempre, ainda tempo Leopoldo, ocorreram conflitos entre forças militarizadas de Leopoldo e depois do reino da Bélgica e os povos locais. Esses conflitos nunca foram reconhecidos. Até que ponto o M23 não se está a aproveitar desse facto etno-histórico, isso não me surpreenderia nada.

    Em que medida, o Uganda também participa neste conflito?

    Neste momento do Uganda é mais uma questão de sobrevivência face a Paul Kagame. Muita gente olha para Paul Kagame como um grande líder e eu diria que ele é um ditador iluminado e tem uma forças armadas muito bem estruturadas e que estão distribuídas por várias partes da África, como forças de intervenção, com forças de interposição, como forças de apoio à paz ou mesmo, como já disse no caso Moçambique, que reforçou recentemente a presença das forças em Moçambique, em particular Cabo Delgado, mas também Niassa, embora com menos intensidade, pelo facto de - não se pode esquecer - que o Estado Islâmico da África Ocidental está a recrudescer as suas actividades na área. Ainda no sábado fizeram um ataque no nordeste da RDC, o Uganda já teve alguns problemas com isso. Todas essas situações fazem com que Uganda tenha que tenha algum medo de uma eventual subserviência de uma força armada forte, como é o caso de Ruanda. 

    Tendo em conta que o RDC é um mosaico extraordinariamente partido de conflitos, conflitualidades internas é conveniente estar melhor que o meu vizinho, que está mais bem estruturado do que o outro, que apesar de ser um grande jacaré, continua adormecido e não há perspectivas de haver um acordar que me possa temer.

    Daí que o Uganda esteja nessa situação de já esteve em plena conflitualidade. Basta ver que houve um protocolo no ano de 2019 em que juntaram-se as três partes: RDC, Uganda e Ruanda. A situação estabilizou, agora o Uganda está, não diremos em conflito aberto, mas numa situação de limbo em que está mais próximo do Ruanda do que propriamente da RDC e em caso de conflito, é capaz de apoiar a RDC. O que nós não esperamos que não venha a acontecer e que efectivamente os acordos de paz que João Lourenço está a tentar patrocinar sejam os definitivos, o que honestamente, tenho dúvidas.

    João Lourenço quer deixar uma herança neste segundo mandato?

    Se internamente, dentro do país, a imagem do Presidente João Lourenço não parece estar a ser muito boa, ou pelo menos alguma conflitualidade social, interna. Externamente, ele quer se apresentar como um paladino que conseguiu aquilo que outros não conseguiram há muitos anos e também preciso dizer uma coisa: se o meu vizinho estiver bem, eu também estou bem e RDC é um vizinho muito grande que ocupam um muro em vários milhares de quilómetros e a nós convém-nos que o nosso vizinho esteja calmo, que seja mais estável para impedir que a conflitualidade desça até ao nosso território, neste caso até o nosso quintal e aos quintais dos outros.

    Um dos factores que também penso que pode ajudar a estabilizar e levar à paz, será este ataque, que não foi tão pequeno como, este recente ataque do Estado Islâmico na África Ocidental, porque isso vai fazer com que as partes acabem por se ter reunido para combater uma possível invasão ou uma descida dos islamitas radicais para o sul, ainda que, sabemos, já estejam há muito a operar em territórios muito baixo, nomeadamente, como em Cabo Delgado, a linha férrea de africanos são óptimas passagens de radicalismos e de armas.

    10 min
  • Milhares de atletas fizeram-nos sonhar durante os Jogos Olímpicos de Paris

    Esta segunda-feira, 12 de Agosto, fazemos o resumo das duas semanas dos Jogos Olímpicos de Paris, revivendo os momentos mais marcantes deste evento desportivo planetário. Foram 16 dias inesquecíveis, 329 provas olímpicas, 45 modalidades, 206 países e 10.500 atletas. 

    Nesta emissão especial voltamos a ouvir alguns dos campeões que nos fizeram vibrar: o pugilista cabo-verdianos, David de Pina, a ginasta brasileira, Rebeca Andrade, o ciclista português, Iuri Leitão, o judoca francês, Teddy Riner, a ginasta norte-americana, Simone Biles, o lutador cubano Mijaín López ou ainda nadador francês, Léon Marchand.

    Paris recebeu estes Jogos Olímpicos e pela primeira vez as provas decorreram no centro da cidade, mas também em espaços emblemáticos como o Grand Palais, o Palácio de Versailles, a Praça da Concórdia ou ainda junto da Torre Eiffel. A organização dos jogos olímpicos contabilizou mais de 15 milhões de espectadores a assistir às provas nestes recintos.

    Nos Jogos Olímpicos de Paris, houve alegria, comunhão e muita entreajuda. Os  45.000 voluntários dos Jogos muito contribuíram; sempre simpáticos, alegres e prontos a ajudar. Os adeptos foram incansáveis, animados e a torcer por todos os atletas, mesmo aqueles que não eram da mesma nacionalidade.

    Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, as últimas medalhas foram entregues a mulheres, as maratonistas. Paris quis apostar na paridade e conseguiu, formalmente, aplicar uma paridade perfeita entre homens e mulheres, algo que todos esperam ser mantido por Los Angeles nos Jogos Olímpicos de 2028.

    Com mais de 70.000 pessoas no Stade de France, Paris encerrou este domingo, 11 de Agosto, os Jogos Olímpicos de 2024.

    25 min
  • "Era impossível imaginar estes Jogos Olímpicos de Paris"

    Isabel Sequeiros e Bruno Pereira foram escolhidos para fazer parte dos 45.000 voluntários dos Jogos Olímpicos de Paris, que terminam este domingo, 11 de Agosto. "Vim para estes jogos a pensar que ia viver um sonho. Não sabia o que ia acontecer e isto superou tudo. Estamos a ver o processo de dentro, estamos na Aldeia Olímpica, onde convivemos com os atletas, com as delegações, todos os dias. Somos uns sortudos", partilharam os voluntários portugueses.

    RFI: O que é que os Jogos Olímpicos representam para vocês?

    Isabel: Gosto muito de desporto no geral, Atletismo, no particular, representa o máximo do desporto. Aquela coisa que acontece de quatro em quatro anos e que é muito, muito especial.

    Já era o caso antes destes Jogos Olímpicos de Paris?

    Sim, já o era antes. A minha primeira memória grande dos Jogos Olímpicos foi quando, em 1984, Carlos Lopes ganhou a medalha de ouro em Los Angeles. É um momento que eu não não esqueço nunca. Todos os anos por essa altura, falta pouquinho, recordo e isso é importante. São muito, muito especiais desde essa altura.

    O que é que representam estes Jogos Olímpicos?

    Bruno: Para mim era o número um no top dos sonhos. O que é que eu tenho que fazer nesta vida? O primeiro era assistir ou fazer qualquer coisa nos Jogos Olímpicos. É a concretização do sonho, do sonho do miúdo.

    Qual é que é a sua missão durante estes Jogos Olímpicos?

    Bruno: Sou assistente da delegação colombiana e no fundo, apresentamo-nos e estamos disponíveis para o que eles precisarem naquele dia. As tarefas são diferentes, dependemos um bocadinho daqueles que eles precisam no momento.

    Como é que é um dia de um voluntário, são todos diferentes?

    São todos diferentes. Nós temos um horário que é pré-definido, o meu é das 14h30 às 22h30. Entramos na plataforma, fazemos o check-in, apresentamo-nos à nossa delegação consoante aquilo que eles precisem. Podemos acompanhar um atleta a determinado sítio, ir buscar bagagens, preparar um quarto são tarefas muito distintas mesmo.

    Isabel qual é a sua missão nestes Jogos Olímpicos?

    Isabel: Eu tive o bombom maravilhoso de ficar com a delegação de Portugal. Aliás, sou a única portuguesa, não sei porquê que o conseguiu. O nosso objectivo é que o atleta esteja mais confortável possível. Estamos sempre a fazer coisas em prol disso, verificar se está tudo bem nos quartos, se aquilo que eles precisam em termos de nutrição, por exemplo, está em ordem e organizado. Há dias que fazemos muitas coisas porque é preciso. No início foi preciso colocar o nosso edifício bonito para receber os nossos atletas. 

    Bruno: Como disse a Isabel, temos muito tempo livre e acabamos por também nos permitir de conhecer outras delegações, outros voluntários e acaba por ser quase uma família que se criou porque conhecemos imensa gente e acabamos por criar laços com essas pessoas.

    Qual é o espaço que ocupa o desporto nas vossas vidas?

    Isabel: Eu sou juiz de atletismo já há muitos, mas sempre gostei de desporto. Não tenho nenhuma ligação a não ser essa de ser juiz e de ser também membro da direcção da associação de Atletismo de Viana do Castelo. O Bruno é diferente.

    Bruno: O desporto para mim é o meu modo de vida. Sou formado em Educação Física e sou personal trainer, por isso o desporto já faz parte de mim desde a minha área de formação, mesmo antes em que também fui atleta. Por isso acho que desde que me conheço o desporto está na minha vida.

    E quanto aos valores que veicula?

    Isabel: Na minha carta de motivação apresentação que escrevi quando me candidatei, mencionei precisamente os valores olímpicos. São todos bons e acho que me representam todos eles.

    Bruno: O olimpismo em si representa tudo aquilo que deveria ser projectado numa sociedade perfeita. Nota-se nesta microestrutura que é a Aldeia Olímpica. O sonho é mesmo que isso seja projectado cá para fora e tem-se verificado aqui em Paris. E eu vivo cá há 12 anos e posso dizer que nunca vi a cidade com este ambiente tão eufórico. Está a ser mesmo fantástico.

    O desporto cria ligações e nestes Jogos Olímpicos e em Paris tem sido o caso e isso sente-se nas ruas, dentro dos complexos, na Vila Olímpica?

    Bruno: Sim, sim. Sente-se em todo o lado. É incrível. Como disse, estou aqui há 12 anos e nunca imaginei nos meus maiores sonhos que a coisa fosse realmente assim. Aliás, muitos parisienses saíram porque acharam ia ser um desastre nos transportes e que ia correr mal. Estamos às portas da cerimónia de encerramento e não tenho nada a dizer. Nada de negativo, sinceramente. Eu acordo com sorriso de orelha a orelha. Vou deitar me com sorriso de orelha a orelha.

    Isabel: Sim, eu também. Eu não vivo cá não e só venho de férias. A minha relação com Paris é sempre boa. Agora, em termos desta alegria que o Bruno falou, eu também a sinto. Também acordo a sorrir e adormeço a sorrir. Estou muito, muito feliz porque tenho amigos novos.

    Bruno: Mais uma das coisas que os jogos nos trouxeram foi conhecer pessoas como a Isabel de Portugal ou do Brasil ou de outro país qualquer, porque acho que mais ou menos 20% dos voluntários vêm do estrangeiro e acabamos por não só praticar línguas estrangeiras porque dá jeito,  mas também conhecer pessoas de toda a parte do mundo.

    Isabel há pouco dizia nos que teve que escrever uma carta, que processo foi esse?

    Nós fizemos uma candidatura já há muito, muito tempo, há anos e meio com muitas questões às quais nós tivemos de responder. Depois, na parte final, havia uma parte que nem sequer era obrigatória. Nós poderíamos escrever porque é que nós achávamos que devíamos ser seleccionados e aí sim, eu acho que caprichei um bocadinho e expliquei como é que eu era e todos os meus valores, os meus, meus sentimentos, a minha vontade. Porque é que eu queria tanto estar aqui e fui seleccionada. Acho que fui convincente. 

    Era possível imaginar o que está a acontecer hoje?

    Bruno: Não, lá está. Eu vim para estes jogos pensando vou viver um sonho. Mas não sabia o que ia dar de dentro. Sempre assisti aos Jogos Olímpicos, desde miúdo tinha uma experiência de fora, mas não sabemos muito bem o que é que vamos esperar. Isto supera. Mas de longe porque nós também estamos a ver o processo. Estamos na Aldeia Olímpica, então convivemos com os atletas, com as delegações, todos os dias. Por isso, se calhar somos uns sortudos por estar lá.

    Como é viver os Jogos Olímpicos a partir dos bastidores?

    Somos privilegiados por causa disso. Todos os dias vemos aquilo que os atletas sentem, vemos com que sensações é que vão para as provas. Acompanhamos o staff, a própria delegação, as expetativas, às vezes frustrações, outras vezes muita alegria.

    Qual foi momento mais marcante até agora?

    Bruno: Para mim foi a cerimónia de abertura. Tivemos a sorte de fazer parte do evento. Tivemos nos barcos para acompanhar os atletas durante todo o percurso. Foi a atmosfera única, embora durante o trajecto não conseguimos acompanhar tudo o que estava a acontecer a nível de acontecimento televisivo. Mas só viver aquela atmosfera... não sei quantas vezes me belisquei para perceber que se estava mesmo ali, dentro do barco.

    Bruno, quer partilhar connosco uma história, um encontro com um atleta?

    Bruno: Sim, eu tenho uma heroína, a Simone Biles, que tem capacidades incríveis, que vão para além do que o ser humano consegue fazer. Tenho acompanhado a carreira dela desde dos primeiros jogos, quando esteve no Rio de Janeiro e sou completamente fã. Não tive a oportunidade de a cruzar na Aldeia Olímpica. Mas andei à volta do edifício várias vezes e fui espreitando, ia vendo o que é que ela punha nas redes sociais. Parecia quase um paparazzi.

    Isabel: Sem querer contribuir para a tua tristeza, Bruno, mas eu cruzei me com ela e, apesar de já ser a noite, e eu não consegui dizer outra coisa que não fosse 'Bonjour'.

    Vão continuar a ser voluntários durante os Jogos Paralímpicos? 

    Eles querem que a energia destes Jogos Olímpicos seja a mesma e estão a fazer tudo para que isso aconteça. A nível de organização, estão a tentar pôr o patamar ao nível dos Jogos Olímpicos. O que tem acontecido é que desde o momento em que os Jogos têm sido difundidos, houve um aumento de venda de bilhetes de quatro ou cinco vezes superior. Por isso espera-se que estejam mais ou menos ao mesmo nível. Agora a dificuldade será o regresso escolar. As pessoas estão a trabalhar, vai ser um bocadinho mais difícil ao nível de público, penso eu. Mas a ideia é que seja que esteja lá em cima também.

    A Isabel vai a Portugal, mas volta para os Paralímpicos?

    Exactamente. Eu vou na próxima semana porque na minha cidade acontecem as Festas da Agonia e é algo para mim que está só um patamar um bocadinho abaixo dos Jogos Olímpicos. É uma celebração na qual gosto sempre de participar e depois venho já para uma tarefa diferente. Nos Paralímpicos vou estar na La Défense Arena nas provas de natação.

    Qual é o momento que levam daqui dos Jogos Olímpicos de Paris?

    Isabel: Difícil dizer que não foi a cerimónia de abertura por tudo aquilo que envolveu, mas depois também levo toda aquela alegria que se vive na delegação. Volto a frisar eu tive muita sorte. Eu estou com a delegação de Portugal. Há pessoas muito maravilhosas que nos tratam muito bem, que respeitam o facto, no meu caso, de ser também a primeira vez de estar aqui. Ajudam quando é preciso explicar isto ou aquilo. Levo também aquela relação boa que se estabeleceu dentro da delegação, por outro lado, sem falar do facto de ter agora amigos novos, que eu sei que vão ser amigos por muito tempo, não é, Bruno?

    Bruno: Era isso que eu ia falar. O que eu levo se me perguntarem qual é a memória que eu acho que vou guardar, vão ser as pessoas. Esta troca de experiências e de conhecimentos que fizemos, tanto entre voluntários como com as delegações, como com as próprias pessoas que trabalham na Aldeia Olímpica. Acho que é mesmo aquilo que eu levo com a maior recordação. A cerimónia de abertura porque foi excepcional e foi um momento que vivemos só uma vez na vida.

    15 min
  • Matthew Lawrence e Denise Donelli estrearam-se nos Jogos Olímpicos de Paris

    Os nadadores moçambicanos Matthew Lawrence e Denise Donelli integram a missão olímpica de Moçambique e estrearam-se nos Jogos Olímpicos de Paris.

    O atleta moçambicano Matthew Lawrence está a viver em Portugal desde 2022, no âmbito de uma bolsa atribuída pelo Comité Olímpico Internacional, o nadador olímpico participou na prova dos 100 metros bruços e não conseguiu seguir em frente, neste que foi o momento mais importante da carreira de Matthew Lawrence até ao momento.

    RFI: Como é que correu a sua prova?

    Matthew Lawrence: A sensação foi incrível. Esta é a primeira vez que estou nos jogos e é o palco maior do mundo, já participei em dois mundiais e nem se compara porque há tantas pessoas a gritar e a apoiar. A prova o ensino correu assim tão bem e estava à espera de nadar mais rápido, mas acontece e não posso estar muito zangado.

    Sentiu que deu o melhor de si, os seus adversários foram mais rápidos?

    Sim, eu acho que eu dei tudo que tinha. Cheguei no fim completamente cansado e não tinha mais para dar. Também estava muito nervoso antes da prova, o que é normal e acho que isso também influenciou o meu tempo.

    Falando dos tempos, 1'04'95 é muito rápido?

    É rápido, mas no nível mundial ainda não está onde eu quero estar. Ainda só tenho 20 anos e só saí de Moçambique há dois anos. E em Moçambique, como sabemos, não há as melhores condições. Claro que tentámos tudo, mas nos últimos dois anos consegui melhorar de três segundos, que já é muito. Por isso acho que nos próximos quatro anos tem possibilidade de chegar ao nível mundial.

    Como é que são as águas da piscina olímpica de Paris, são mais lentas porque estavam previstos muitos recordes?

    Não sei porque normalmente a piscina é um pouco mais funda. Esta piscina só tem 2 metros e 15 e o normal são três metros. Não sei se isso influencia, eu senti-me bem na piscina, mas os tempos que foram vistos até agora não foram assim tão especiais. Nos 100 bruços, na final estava à espera que fosse muito mais rápido e não foi.

    Tem 20 anos, foi um dos porta-bandeiras de Moçambique na cerimónia de abertura destes Jogos Olímpicos de Paris. O que é que se sente quando está num barco a representar o seu país, Moçambique? 

    Não estava nada à espera quando eles decidiram que ia ser eu. Fiquei sem palavras e a sensação também não consigo descrever. Foi mesmo incrível.

    Apesar da chuva, foi uma cerimónia vivida intensamente?

    Exactamente. A chuva no início não foi assim tão mau, mas para o fim já estava a ficar mais frio e eu não fiquei até o fim. Bastou o barco atracar e eu saí logo e voltei para a vila porque ia competir no dia seguinte. Aqui na vila olímpica estou com os meus amigos, basicamente a minha família, porque estamos todos juntos. Eles disseram-me que foi incrível, além da chuva, porque eles apanharam muito frio e não tinha onde se abrigar da chuva.

    A delegação de Moçambique é composta por sete atletas. Essa entre ajuda, esse apoio é permanente entre vocês durante estes Jogos Olímpicos?

    Sim, eu acho que sim. Estamos aqui uns para os outros. Quando alguém luta ou nada, estamos a apoiar, estamos a ver o que podemos ver. Há provas a que não podemos ir, mas estamos aqui na vila a ver na  televisão e mandamos mensagens. Há uma atleta que está fora, mas também comunicamos com ela todos os dias para ver como é que está a correr.

    A Deizy está em Marselha nas provas de vela...

    Exactamente e estamos sempre em contacto e se podemos ajudar com a ansiedade.

    Como é que controla esta ansiedade de representar o seu país, de ser um dos melhores atletas do seu país e de estar aqui no certame, onde só estão os melhores dos melhores?

    Isso é boa pergunta. Acho que ainda não cheguei a esse ponto para perceber como posso usar a ansiedade para nadar mais rápido. Não sei como explicar que eu faço isso e sinto que consigo.

    Há quem fale de adrenalina dos atletas, isso impulsiona uma energia?

    Sim, é verdade. A adrenalina faz muitas coisas. Tu podes achar que não és capaz, mas com adrenalina consegues fazer. Por exemplo, nos 100 bruços ninguém estava a espera que Nicolo Martinenghi, da Itália, ganhasse, mas com a adrenalina conseguiu.

    E agora preparar-se para os jogos de 2028?

    Não sei. Agora vou de férias, Vou descansar e depois das férias vou pensar nisso. É muito provável que sim. Ainda vou estar em Portugal alguns anos para acabar o meu curso.

    Falando um pouco no seu percurso, está a viver há cerca de dois anos em Portugal. O que é que isso mudou? 

    Eu fui para Portugal estudar na faculdade e também para melhorar o treino. Consegui a bolsa de World Aquatic, era suposto ir para os Estados Unidos, mas se eu fosse não ia estudar. Também tinha uma atleta que era suposto sair do país para treinar, ir para a Ucrânia, mas depois começou a guerra e não teve como sair do país. Então eu ofereci a bolsa.. não foi bem oferecer, mas eu pus o nome dele para bolsa. Este ano foi oferecido novo, mas calhou aqui em França, não ia conseguir ter porque não quero prejudicar os meus estudos. Por isso vou ficar em Portugal e decidir onde vou treinar.

    O que é que está a estudar?

    Estou a estudar gestão na Universidade Nova.

    É difícil ser um atleta olímpico que está a tirar um curso superior?

    Sim, não posso mentir, está a ser muito difícil. Estou como part time student, tem alguns apoios, mas sinto que não é um apoio suficiente. Ainda há coisas que faltam. Por exemplo, nos Estados Unidos, é possível ser atleta e estudar. Acho que em Portugal estão a tentar mudar, mas ainda não têm esse pensamento norte-americano.

    Imagino que nos últimos meses e anos se tenha preparado todos os dias a pensar nos Jogos Olímpicos e nestas provas. Existe agora um vazio?

    Eu acho que ainda não cheguei a esse ponto. Acho que quando eu sair de Paris me vou sentir um pouco assim. Não vai ser assim tão pesado porque eu sei que ainda tenho coisas pela frente e eu ainda sou jovem. A minha colega Denise, que já tem mais idade, vai parar depois dos jogos, pelo menos é que ela diz. Não sei se ela vai conseguir parar totalmente, mas ela quer. Acho que quando eu chego a esse ponto, também vou sentir isso. Mas como eu sei que ainda tenho a fazer pela frente, acho que ainda não vou sentir esse peso.

    O desporto é um vício?

    Exactamente. Exactamente. É um vício e  acho que não consigo viver sem desporto. Se eu decidir parar de competir, vou nadar na mesma. Não há como me tirar da piscina.

    A atleta olímpica, Denise Donelli, nadou os 100 metros costas na arena de Paris, em La Defense, conseguiu melhorar a marca pessoal. A nadadora moçambicana conta-nos como se preparou nos últimos sete anos para participar nos Jogos Olímpicos.

    RFI: Como correu a prova dos 100 metros costas?

    Denise Donelli: Fiz aquilo que eu queria fazer e foi muito bom. Consegui baixar o meu tempo, há quatro anos que não conseguia. Fiz 1:08.73 minutos, melhorei a minha marca na prova e esse era o meu objectivo.

    Como é que se prepara para ser mais rápida dentro de água?

    Este ano trabalhei mais na força, troquei de treinador e foi muito treino na força e na quantidade. Trabalhamos muito no ginásio e na água. 

    O Matthew, que também representa a delegação moçambicana nos Jogos Olímpicos de Paris, falou-nos do facto de a piscina ser menos profunda desta vez. Sentiu uma diferença?

    Como eu nado costas, não senti a diferença. Acho que ele sentiu porque nada bruços, especialmente no salto porque vais mais para baixo. Para mim não mudou nada.

    O que é que se sente quando se entra numa arena olímpica? Imagino que seja emocionante.

    Muito, muito emocionante. O público estava bem presente mais do que nos mundiais. Antes de fazer a prova, a adrenalina estava muito alta.

    Esta é a sua estreia em Jogos Olímpicos, correu bem?

    Sim, foi a minha primeira vez. Eu queria fazer os Jogos Olímpicos do 2021, mas não consegui. Não me aceitaram para fazer os Jogos e queria parar, mas o meu sonho era estar nos jogos, então continuei a nadar até agora.

    Depois de Paris pensa em 2028?

    Acho que não, porque já tenho 28 anos, pode ser que faça uma outra época. Eu queria parar, mas como ocorreu bem esta prova, não sei se eu vou parar, mas não vou nadar até 2028.

    Como é que se sabe e quando é que se sente que é tempo de parar?

    Não sei porque eu também agora não sei para mim se continuarei a nadar. O problema é também trabalhar e nadar porque a vida começa a ser complicada. Tenho que fazer uma escolha.

    Até o momento, qual foi o momento mais intenso que viveu aqui em Paris?

    Quando saí da minha prova, estavam aqui os meus pais e minhas amigas. Estavam fora da água a gritar e a chorar. Foi muito emocionante.

    Foram quatro anos de preparação para estar aqui?

    Foram mais porque antes preparei-me para os Jogos de 2021. Foram sete anos para vir aqui e foi incrível.

    É difícil a vida de uma atleta olímpica?

    Sim, principalmente, se temos de trabalhar também. Os meus dias são grandes; acordo às oito, trabalho, nado, depois volto a trabalhar, eu volto para casa às 23 horas. É muito trabalho.

    Estamos aqui na Vila Olímpica, em Paris. Há uma energia positiva entre atletas?

    Sim muito e estou a conhecer muita gente de todos os cantos do mundo. Todos estão felizes e concentrados nos próprios treinos, mas há uma energia muito positiva.

    Em natação existem problemas de financiamento. É difícil financiar atletas de natação, continua a ser o caso hoje?

    Se é, acho que é um caso que é mais ou menos em todo o mundo. Enquanto moçambicana e italiana também porque é um desporto que não é muito seguido, então ainda não há muito dinheiro investido nesta modalidade.

    13 min
  • Jogos Olímpicos abrem "novos caminhos para os atletas"

    A pugilista moçambicana, Alcinda Panguana, perdeu no combate frente a chinesa Yang Liu, campeã mundial na categoria dos 66 kg, e não conseguiu o apuramento para os oitavos-de-final do torneio de boxe feminino nos Jogos Olímpicos de Paris. "Não foi tão gratificante quanto eu queria, mas dei o melhor de mim", afirmou a atleta olímpica moçambicana.

    RFI: Está satisfeita do seu desempenho nos Jogos Olímpicos de Paris?

    Alcinda Panguana: As provas aqui nos Jogos Olímpicos de Paris correram bem, mas não positivamente porque não consegui nem chegar aos quartos-de-final. Então para mim não foi tão gratificante quanto eu queria, mas deu para estar e acho que dei o melhor de mim.

    Teve uma vitória por 5-0 contra a eslovaca Diane, Depois foi afastada pela chinesa Yang Liu. Como é que viveu esse combate?

    Primeiro quando fui ao combate nem sabia que a Yang Liu já estava à espera. Eu não vi no sorteio o nome dela e achava que ia competir com as outras, que seria a China Taipé. Eu também ouvi dizer que ela já não estava a competir, mas então quando vi ali foi uma surpresa, já sabia daquele momento que eu não ia conseguir passar para a próxima fase. Acho que o país aqui nos Jogos Olímpicos fala mais alto que a própria competição. Moçambique contra a China não havia chance de passar. Ainda assim, fui tranquila e tentei aceitar o que ia lá encontrar e joguei tranquilamente.

    O que é que se sente antes de uma competição como esta em que já se sabe que vai ser uma prova difícil?

    Eu acho que tenho um Deus grande porque sempre me tranquiliza perante este tipo de situação. Acordei muito calma, não fiquei tão nervosa porque acho que se tivesse ficado muito nervosa, nem um golpe eu não teria conseguido tirar e nem ia terminar os três assaltos. Acordei muito calma e disposta a aceitar qualquer decisão que tivesse lá no ringue.

    Esta é sua segunda participação em Jogos Olímpicos. Existem muitas diferenças entre Tóquio e Paris, nomeadamente, volta a haver presença do público?

    Existem muitas diferenças. Em Tóquio eram mais acolhedores, eram mais verdadeiros, mais abertos do que estamos a notar aqui porque não são abertos, não são verdadeiros. Cada país tem as suas leis, tem suas regras, tem o seu modo de preparar um campeonato. Não podemos condenar a cultura de cada um. Temos de apoiar e agradecer. Quando falo da abertura, falo das pessoas em si. Em Tóquio, todos os trabalhadores demonstravam a abertura com o rosto. Tu vês que se está disposto a ajudar. Agora, não sei se é por causa da língua, mas de Tóquio também não falam português, aqui também não falam muito em inglês. Mas tu vês pela abertura, pela recepção que em Tóquio eles estavam dispostos a ajudar em qualquer coisa. Eles estavam dispostos a acolher todo mundo, aqui algumas pessoas parecem obrigadas.

    Que emoções sentiu durante as competições?

    Eu tive aqui muitas emoções, diferentes das de Tóquio talvez porque estávamos naquela situação de pandemia Nós não circulávamos muito, aqui estou a circular muito, estou a ter intercâmbio com vários atletas. Então isso é uma emoção e tanto. Acho que é por isso que eu me qualifiquei, para vir ter esse intercâmbio com vários atletas.

    O que é que se ganha nessa troca com outros atletas?

    Eu estou a descobrir que o atleta, não por ser bom ou atleta do mundo, ele deixar de ser humilde. Ele é atleta do mundo, mas ainda continua a ser humilde. Eu acho que é isso que faz dele um atleta olímpico, um verdadeiro atleta com humildade e respeito que carrega dentro de si.

    É difícil ser atleta olímpica?

    É difícil, sim, porque para a nossa preparação exige muito esforço. Tu tens de abdicar de muitas coisas, de várias pessoas, famílias, amigos, convivências. Tens de abdicar disso e dedicar-te aos treinos. Se tu trabalha tens que trabalhar e treinar, focar nessas duas coisas. Se tu estudas tens que estudar e treinar, focar nessas duas coisas. Ser atleta olímpico exige muita disciplina, porque um atleta olímpico não se pode expor. Um atleta olímpico tem que saber estar e não se pode envolver em brigas na rua, por exemplo. Um atleta olímpico tem que ter respeito, humildade e, acima de tudo, trabalho e persistência.

    Já pensa nos próximos Jogos Olímpicos?

    O futuro pertence a Deus porque estamos a ouvir por aí que a modalidade de boxe não fará mais parte dos Jogos Olímpicos nos próximos anos. Vamos participar nos outros torneios porque o boxe vai parar, não. O boxe vai continuar, mas noutros torneios. Só para os Jogos Olímpicos é que parece que vai ser banido.

    Como é que reage a esta decisão?

    Ainda não pensei muito a fundo no assunto, não procurei saber os reais motivos. Só ouvimos zunzuns por aí. Ainda vamos ficar à espera enquanto treinamos e fazemos outras competições.

    Estar aqui, ser atleta olímpica é também um salto para abrir novos caminhos na sua carreira?

    É sempre um salto que abre novos caminhos numa carreira, principalmente para atletas que querem fazer boxe profissional. A partir deste momento é que alguns patrocinadores conseguem ver o talento de cada um e decidem apostar nos verdadeiros atletas profissionais.

    Por que motivo ainda há poucas mulheres pugilistas em Moçambique ?

    Porque no nosso país é difícil as mulheres engrenarem-se no boxe porque é visto como uma modalidade muito difícil e agressiva. É considerada como sendo uma modalidade só para homens. Então, às vezes é muito difícil conquistar algumas mulheres. porque elas têm receio, mas acabam aderir por ver que há outras mulheres que não têm machucadas na cara.

    O que é que ganha aqui em Paris, nos Jogos Olímpicos?

    Ganho ter conhecido o país, ter convivido com vários atletas e ter adquirido muita experiência.

    8 min
  • "Uma surpresa da medalha seria uma alegria para São Tomé e Príncipe"

    São Tomé e Príncipe participa pela primeira vez nos Jogos Olímpicos, com três atletas em três modalidades. Para o chefe de missão da delegação de São Tomé e Príncipe nos Jogos Olímpicos de Paris, Filipe Neto, se "houver uma surpresa da medalha será uma alegria para São Tomé e Príncipe".

    RFI: Como correram as provas olímpicas dos atletas são-tomenses até ao momento?

    Filipe Neto: Nós trouxemos três atletas, uma em atletismo, um atleta em canoagem e um atleta no judo. Todos eles, pela primeira vez, nunca estiveram numa Olimpíada. Já competimos em judo e o nosso atleta de judo não conseguiu passar porque ele encontrou um adversário bastante forte em relação a ele. Em termos de ranking, o outro estava em 25.ª posição e ele na 324.ª - é uma diferença muito grande em relação à experiência técnica e ele não não conseguia ganhar. Depois, no dia 2 de Agosto tivemos a participação da Gorete Semedo nas provas de 100 metros, que para foi bastante gratificante porque ela passou a fase preliminar e ganhou. Talvez tenha feito muito esforço, o que não devia ser, mas isso é uma questão de mesmo da experiência.

    E competiu logo a seguir, numa segunda prova, com um espaço de tempo muito reduzido.

    Muito reduzido. Nós até pensávamos que ela iria ter pelo menos ou duas horas de descanso, mas só teve 30 minutos de descanso e não estava preparada para isso. A segunda prova, que era eliminatória, teve adversárias mais fortes e também um pouco de azar porque foi única a correr contra o vento. A Gorete tinha vento não a favor e as outras tiveram menos a favor. Mas ela teve uma boa prestação, deu tudo que tinha e nós agradecemos muito a ela, o treinador, o João Abrantes. A nível do Comité Olímpico, nós vamos continuar o projecto. Nós temos o próximo jogo de Los Angeles. Se ela estiver disposta para que nos próximos jogos ela tem a melhor prestação.

    Falámos com a Gorete depois da prova. Ela já disse naquele dia, portanto, na sexta-feira, no dia 2 de Agosto, que já estava a pensar em Los Angeles.

    Sim, nós também pensámos porque nós entendemos que ter bons resultados a nível do das Olimpíadas e dos Campeonatos do Mundo não são coisa que se faz num ou dois anos porque são projectos de quatro ou oito anos, até mesmo 12 anos, dependendo da idade do atleta. O que ela fez nos mostra que podemos confiar nela e basta ela aplicar-se um pouco mais e ela vai, vai melhorando e pensamos que com ela vamos continuar o projecto e também com os outros. Temos a canoagem que também é uma modalidade bastante plural a nível de São Tomé e Príncipe. Temos um projecto também a canoagem bastante boa e pensamos que com o mesmo, com a canoagem, o judo e as outras modalidades que são individuais para nós, pode entrar no projecto dos próximos jogos.

    São Tomé e Príncipe compete na sexta-feira, dia 8 de Agosto, na prova de canoagem. O que é que se espera?

    Como disse a Hermínia é uma atleta a este nível, também experiente, mas ela vai fazer o que estiver ao seu alcance. Vai dar tudo por tudo. Já está a adaptar ao rio e ao clima e vai tentar fazer o melhor que pode para que haja uma boa prestação. O importante é que nós conhecemos o nosso nível e sabemos que estar nos Jogos Olímpicos, dizer que viemos aqui para ganhar medalhas e às vezes é um sonho de loucos. Mas o desporto às vezes traz surpresas e a gente pode ver que durante essas Olimpíadas vimos campeãs do mundo a caírem logo na primeira, campeão olímpico a caírem e outros que não tinham experiência a ganhar. Portanto, há surpresas no desporto e se houver surpresa desses para nós, olha uma alegria bastante grande para São Tomé e Príncipe.

    Como é que se formam atletas olímpicos? Como é que se preparam atletas para estarem pela primeira vez, como é o caso de São Tomé e Príncipe, a participar aqui nos Jogos Olímpicos de Paris?

    Primeiramente nós conversamos com as federações, entregamos as federações os programas olímpicos e elas concorrem. Quando concorrem, nós enviamos os resultados para as federações internacionais e as federações internacionais analisam os resultados e atribuem uma bolsa olímpica. É a partir desta bolsa olímpica, nós enviamos os nossos atletas para diversos países para que eles possam ser preparados para esta estas competições.

    Sem essas bolsas olímpicas seria difícil para São Tomé ter atletas aqui presentes em Paris?

    Muito, mas muito difícil mesmo. Muito difícil, porque nós entendemos que preparar atletas para alta competição é algo que requer muito investimento. A preparação e o cuidado das federações, o investimento do comité e também o investimento do próprio Estado são-tomense. Todos nós devemos estar envolvidos numa só causa, porque a representação é única e de São Tomé e Príncipe. Nós viemos para aqui representar São Tomé e Príncipe e por isso é sempre que se o Estado, o Comité e as Federações e também alguns empresários estejam de mãos dadas para que essa representação seja a melhor possível.

    Como professor de Educação Física é possível reconhecer nas crianças, nos jovens, um futuro campeão olímpico, um futuro atleta promissor?

    Sim, é fácil conhecer. Nós, enquanto professor de Educação Física atentos, rapidamente detectamos o talento do do aluno. Mas só que realmente direccionamos esses alunos quando a federação também está bem organizada porque se a federação não estiver organizada, o aluno vai para ir dois ou três dias, volta a sair e perde-se. Por isso é que nós devemos fazer um trabalho também logo na escola, a nível de educação física, através do desporto escolar, nós detectamos os alunos, enviamos as federações e as federações trabalham com os alunos para que realmente o governo, o Comité Olímpico possa apostar nesses atletas. Uma das coisas que nós não não fazemos, em que nós pecamos é essa tenra idade que nós não trabalhamos muitas vezes com o aluno, porque é ali onde eles aprendem a técnica e a técnica tem muita influência no resultado desportivo.

    Essa falta de investimento acontece por falta de meios?

    Eu diria que o pouco que existe deveria ser aplicado. São Tomé e Príncipe é um país pequeno não tem grandes recursos financeiros, mas do pouco que existe, se nós o direccionarmos também para a parte social, sobretudo para o desporto, que de forma indirecta, tem muito a ver com o crescimento mental da população. Olha, nós conseguiríamos ter um melhor desporto e melhor resultado a nível nacional e internacional porque nós preferiríamos atletas e também preferiríamos homens para o futuro e a nossa sociedade seria um pouco melhor. Por isso é que o desporto, de uma forma ou de outra, é como se fosse um catalisador bastante bom para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

    Essa energia desportiva sente-se ao longo desta semana que passou dos Jogos Olímpicos aqui na Aldeia Olímpica, na própria cidade de Paris, durante as provas, nos complexos desportivos. Existe uma energia de união, de igualdade?

    Sim, existe porque o desporto é mesmo para isso. Se nós encontramos a essência mesmo do desporto, eu até diria um pouco com orgulho - é a única parte social que une as pessoas, independentemente de haver embates de defesas contraditórias. Cada um defende o seu país no momento da actividade desportiva, Mas estão todos unidos. Ele envolve toda a gente. Depois de terminadas as competições, somos amigos, independentemente daquilo que tenha acontecido. Nós conhecemos pessoas de diferentes países e há outra coisa que nós sentimos aqui em Paris, é que o povo parisiense está todo em volta da sua selecção e isso é muito bonito. É muito bonito quando, quando toda a gente vibra pela sua cor, a sua bandeira, a sua selecção e mostrar também a sua terra aos outros que vêem a sua cidade, fazer com que as pessoas se sintam bem.

    Imagino que em São Tomé e Príncipe, durante as competições e as provas dos atletas são-tomenses também houve esta união e imagino que tenham recebido inúmeras mensagens depois das prestações dos atletas são-tomenses?

    Sim, sim, nós recebemos sobretudo na primeira actuação de Judo, enviamos os resultados para São Tomé e recebemos essa mensagem de apoio a dizer para que continue tudo bem para nós. Vamos continuar, vamos apoiar. Quando da Gorete correu, melhorou um pouco e sentimos também que eles lá em São Tomé também estão a pensar em nós e querem que nós tenhamos um bom resultado. É isso que estamos aqui a fazer e queremos dar alegrias.

    Falava há pouco da questão das fugas de atletas. De que forma é que olha para estas fugas às vezes de atletas de são-tomenses para Portugal, como é o caso, por exemplo, de Agate de Sousa?

    Bem, essa é uma situação em que, honestamente, sinto-me muito revoltado, não porque ela tenha ido, mas pela forma como é que ela foi e a forma como a entidade portuguesa desportiva lidou com isto. Para mim foi um acto de, eu até diria, traição. Honestamente, sinto-me muito magoado, inclusive com pessoas que estiveram envolvidos neste processo. Eu atrevo a dizer do presidente da Federação de Atletismo, que foi meu professor e para mim foi uma mágoa bastante grande, ela estava no nosso projecto de representação São Tomé e Príncipe nestes Jogos Olímpicos. Ela estava com uma bolsa olímpica. Às vezes este tipo de coisas mina a boa relação que a gente tem com determinadas pessoas.

    Portanto, há toda uma organização que está por detrás, entre países, uma organização geopolítica para tentar conquistar mais medalhas?

    Sim, isso é verdade. Não quero dizer que isto seja só a nível do desporto porque é mesmo a todos os níveis. A gente sente que, se nós que somos africanos, se não nos sentirmos verdadeiramente africanos, é que devemos representar o nosso continente, o nosso país, dar orgulho ao nosso país. A Europa não quer o desenvolvimento de África. Eu digo isso com toda a certeza, apesar de um ou outro levar alguns apoios, mas no fundo eles não querem desenvolvimento porque se quisessem o desenvolvimento, porque o próprio presidente da Federação, em momento em que estive em Portugal na formação de atletismo, ele disse-me 'olha, se eu tivesse a hipótese, eu iria buscar muitos, muitos atletas a São Tomé', e eu disse: 'claro, lá existem bastante, mas se vocês quisessem ir buscar vocês punham lá algumas condições para nós. Trabalharíamos atleta, vocês ficariam com uma parte, nós ficaríamos como contraparte'. Mas eles não dão nada, não fazem nada. Não falamos com o Comité Olímpico Internacional, falamos com solidariedade olímpica, mas notamos que mesma federação internacional são lobbys, são coisas que existem. Quando puder desaparecer com o outro para ser mais fraco, eles conseguem fazer isso.

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  • Bangladesh: "Muhammad Yunus é a pessoa certa para acalmar uma sociedade muito polarizada"

    O vencedor do Prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, foi designado para o cargo de chefe do Governo interino no Bangladesh. O economista, conhecido por ter reduzido a pobreza no país, disse estar pronto para assumir as responsabilidades. Luís Tomé, professor catedrático e investigador sénior do Instituto português de Relações Internacionais, considera que a escolha de Muhammad Yunus era a mais expectável, sublinhado que o nome do prémio Nobel da Paz era uma das exigências dos manifestantes.

    RFI: Muhammad Yunus foi designado para gerir o Governo interino no Bangladesh, ele que tentou formar o próprio partido em 2007. Esta nomeação era expectável?

    Luís Tomé, professor catedrático e investigador sénior do Instituto português de Relações Internacionais: Sim, era expectável. Por um lado, porque ele próprio já se tinha disponibilizado para poder governar o país, sobretudo como alternativa àqueles que são os partidos históricos dominantes da política do Bangladesh- para além das ditaduras militares e das Forças Armadas- ou seja, o da primeira-ministra que se demitiu e o Partido Nacional do Bangladesh. E, por outro lado, esta era uma das exigências dos manifestantes que tinham feito constar no caderno de reivindicações um Governo interino, precisamente liderado pelo economista e Prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus.

    Que lugar vão ter os estudantes na composição deste Governo interino?

    Eu vejo como difícil que os estudantes tenham lugar neste Governo. Certamente que haverá negociações e, portanto, pode haver um ou outro elemento das universidades, em particular, a fazer parte do Governo. Mas a situação é crítica e de grande instabilidade, porque com relativa facilidade o Bangladesh pode voltar a cair perante uma ditadura militar. Pode haver um golpe, por esta via mais civil, se não forem marcadas eleições. No passado já houve várias ocasiões de golpes e ditaduras militares e o Bangladesh sabe disso.

    Esta foi, de resto, a postura do secretário-geral da ONU, António Guterres, que veio defender a realização de eleições democráticas. Trata-se de uma prioridade para o país?

    O Governo de Muhammad Yunus é um Governo interino. Ele vai ter estabilizar o país, pôr a economia a funcionar e, sobretudo, gerar emprego- 40% dos jovens não estuda, nem trabalha. Ele vai ter de criar condições para marcar, no prazo razoável de um ano e meio a dois anos no máximo, eleições.

    Recorde-se que a primeira-ministra Sheikh Hasina, que acaba de renunciar, tinha sido eleita mais uma vez, embora com eleições muito, muito contestadas em Janeiro. Agora com o Governo interino, que resulta de uma negociação entre Forças Armadas e manifestantes, tem que haver um poder legitimado e eu estou em crer que isso acontecerá.

    Em 2006, Muhammad Yunus recebeu o Prémio Nobel da Paz pelos esforços económicos graças ao micro-crédito, este homem que é também conhecido como o banqueiro dos pobres. Considera que será capaz de responder aos desafios do Bangladesh?

    Ele tem as condições para o fazer porque está muito bem preparado. Ele é economista e, aliás, alguns até dizem que para além do Nobel da Paz também deveria ter recebido o Prémio Nobel da Economia. Ele vive num país tradicionalmente muito pobre, embora tenha havido um crescimento económico depois de 2009. Com esse conhecimento da realidade do Bangladesh, esse reconhecimento internacional e o background económico, acho que é a pessoa indicada para acalmar uma sociedade muito polarizada, dividida, contando com o apoio da comunidade internacional.

    Obviamente que o apoio externo- para um país que está nas circunstâncias em que Bangladesh está- é crucial e, portanto, eu acho que ele tem condições internas e externas para conseguir estabilizar o país, colocando-o de novo na rota do crescimento económico. Se as coisas ocorrerem como se espera, ele tem, naturalmente, as condições para ser eleito em eleições livres, apesar da suas idade.

    Muhammad Yunus tem 84 anos….

    Sim, já tem 84 anos, o que não lhe vai permitir muito tempo à frente dos destinos do país. Mas, creio que é a pessoa certa para colocar o Bangladesh nos carris do desenvolvimento e da estabilidade política. E se ele conseguir fazer isso, para além de tudo o que já fez no combate à pobreza e o que fez para outros países, deixará um legado importantíssimo para o futuro político do Bangladesh.

    A violência no Bangladesh começou com manifestações pacíficas dos estudantes contra as quotas na função pública, conferindo até 30% dos postos de trabalho a combatentes da guerra de independência. O Governo acabou por anular 95% das quotas, mas ainda assim, a violência culminou na morte de 400 pessoas. Temos estado aqui a falar da transição política. Considera que são também importantes mudanças estruturais nesta sociedade?

    Sim, são importantes. Do ponto de vista económico, é verdade que a primeira-ministra que saiu -fugiu- conseguiu aquilo que alguns até consideram uma espécie de milagre económico, sobretudo com desenvolvimento da indústria têxtil que emprega uma parte substancial da população do Bangladesh. E, aliás, houve uma série de anos em que a média de crescimento económico anual era de 6%.

    Mas o problema é que esse crescimento económico foi acompanhado por progressos de autoritarismo, sob o domínio da própria Liga Awami e da primeira-ministra e, portanto, alguns opositores foram presos. Por exemplo, a antiga primeira-ministra, a líder do Partido Nacional de Bangladesh e o Prémio Nobel da Paz chegou a ser detido, seis meses no início de 2014, porque também contestava a evolução do país.

    A líder da oposição que foi, entretanto, posta em liberdade…

    A primeira- ministra Sheikh Hasinaque, conhecida como Dama de Ferro, renunciou e fugiu para a Índia -alguma imprensa avança que o destino final será o Reino Unido- houve também demissões na polícia. O país terá condições para julgar os responsáveis por esta onda de violência?

    Eu creio que sim. Mas há aqui um papel importantíssimo das Forças Armadas. Aliás, não é caso único, já aconteceu em vários países da região como, por exemplo, no Paquistão. Lembremos que o Bangladesh é o antigo Paquistão Oriental, do qual se tornou independente em 1971, com o apoio da Índia. Eu não estou certo que a senhora demissionária vá para o Reino Unido. É muito provável que fique na Índia. Recordo também que esta é a terceira vez que ela se exila na Índia. Em 1975, quando o pai- o fundador e primeiro Presidente do Bangladesh, foi assassinado, ela exilou-se, regressando depois ao país. Em 1982, após o golpe militar no Bangladesh, ela volta a exilar-se. Esta é a terceira saída. Nós sabemos como alguns processos estão pacificados por uma espécie de acordo de não vingança e, portanto, não punição dos responsáveis de certo tipo de regime e de violência, neste caso em concreto.

    Mas podem optar pela amnistia dos responsáveis pela violência?

    Eu não sei qual é a negociação política que está em curso e o que vai decorrer nos próximos dias. Há sempre uma espécie de "pau de dois bicos". Por um lado, por uma questão de justiça, os responsáveis, designadamente da polícia, ou os activistas da Liga Chhatra do Bangladesh- que era uma filial estudantil do partido da primeira-ministra Sheikh Hasinaque que também instigou a violência contra outros manifestantes- poderão ser julgados.Todavia, isso pode continuar a fractura na sociedade.

    Ou então haverá uma espécie de acordo em que- tal como aconteceu em Portugal, depois do 25 de Abril- não se busca tanto a justiça e até alguma vingança para evitar polarização, conseguindo-se estabilizar o país. Mas isso é uma questão interna e os próprios vão ter que decidir com o apoio dos militares. Cada caso é um caso. Os próprios actores da sociedade conhecem melhor as circunstâncias e decidirão se prendem os responsáveis por estas estimadas 400 mortes, neste último mês e meio, ou se preferem procurar a pacificação, através de uma espécie de amnistia para quem esteve ligado ao regime da senhora Sheikh Hasinaque e, designadamente, à violência das últimas semanas.

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