Convidado

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By RFI Português
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  • "Pessoas com deficiência precisam de oportunidades, não de empurrões"

    Juliana Moko compete nos 100, 200 e 400 metros femininos e Sabino Tchipessi nos 400 metros masculinos nos Jogos Paralímpicos de Paris. "Os Jogos Paralímpicos deve servir de mobilização e de informação para apostar em melhores políticas públicas para a inclusão de pessoas com deficiência", defende o secretário-geral do Comité Paralímpico angolano, António da Luz.

    RFI: Angola está representada por dois atletas. Estão prontos a competir nos próximos dias?

    António da Luz: Na verdade, gostaria de ter aqui mais atletas, inclusive noutras modalidades. Nós tivemos a um passo de qualificar um atleta no halterofilismo, mas infelizmente não conseguimos. Tivemos uma atleta também que nos últimos meses se lesionou e acabou por não estar aqui. Trouxemos dois atletas que nos dão garantias de que são, neste momento, os melhores que temos.

    Os Jogos Paralímpicos disponibilizaram 150 autocarros e cerca de 1000 táxis. Como é que está a correr a organização para as delegações e para os atletas, que precisam de conforto na mobilidade?

    As delegações também têm carros próprios, que são atribuídos aos chefes de missão e em função do tamanho da delegação, podendo ter duas ou três viaturas. Nota-se uma grande mobilidade aqui na vila paralímpica e há pessoas a andar de bicicletas. Há instrumentos auxiliares para quem anda de cadeira de rodas, para que possam ter maior mobilidade em termos de movimento. Estamos a falar de carrinhos eléctricos, que estão a andar pela vila, que vão levando as pessoas de um lado para outro.

    Estes são os meus oitavos Jogos, acredito que à semelhança dos outros jogos em que estive, haverá sim uma grande afluência de transporte para que os atletas tenham o conforto necessário, possam chegar a tempo e horas aos recintos e possam ter tempo para a devida preparação antes do início da competição.

    Como é que corre a organização para que os atletas possam treinar todos os dias?

    As federações internacionais envolvem-se e são elas que acompanham, praticamente, toda a calendarização, quer de preparação, quer de horário de treinamento e quer, portanto, da própria comissão em si. Infelizmente, as reuniões estão a ser, dia sim, dia não, entre os chefes de missão. As reuniões decorrem logo de manhã cedo, onde as questões são colocadas e resolvidas. Há toda uma mobilidade, há todo um envolvimento  de toda a parte, que nos vai ajudar. Basta olhar para os voluntários, por exemplo, que andam por aí todos simpáticos e prontos para ajudar. Eles não são só franceses, há várias nacionalidades, o que significa dizer que, de facto, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos mobilizam o mundo e mobilizam cidadãos, mobilizam a paixão das pessoas. 

    Em que medida é que estes Jogos Paralímpicos podem trazer mudança? 

    Quem organiza quer fazer melhor, quer organizar melhor do que quem já organizou. Portanto, há um grande empenho, de facto, e a uma grande valorização das pessoas com deficiência. Nós, que acompanhamos o que está a ser feito, olhamos com alguma admiração, com algum respeito, aquilo que é a resiliência. Costumo dizer aos colegas em Angola que a melhor forma de ver os jogos é estar na Vila Paralímpica porque é aqui vê-se de tudo um pouco e conseguimos aprender que de facto, nós não somos nada se não estivermos todos unidos.

    A questão das políticas de apoio às pessoas com deficiência depende muito de país para país. Nos países mais desenvolvidos, mesmo assim, há pessoas que reclamam. Portanto, é um processo que precisa de alguma paciência, é preciso algum estudo, é preciso alguma paixão porque as pessoas com deficiência querem ser autónomas e não querem que sejam os outros a fazer por elas. Elas já deram mostra que podem, são capazes de fazer e precisam de oportunidade. Precisam de meios que lhes permitam movimentar-se e trabalhar.

    Estes jogos devem servir de mobilização, devem ser de formação e de informação aos políticos para perceberem que, de facto, as pessoas com deficiência precisam de oportunidades, não de empurrões, não de ajudas, mas de oportunidades para poderem, de igual para igual, mostrar aquilo que valem.

    São os jogos da equidade. Há equidade?

    Faz-se por haver e vamos lutar para que assim seja. Como sabe, principalmente em África, há muito tabu em relação àquilo que significa ser homem, ser mulher. Aquela coisa de protecção, de achar que a mulher com deficiência não pode ir para a escola, tem de ficar em casa para tomar conta do irmão mais novo.

    O desporto, felizmente, tem estado a muda e a chamar a atenção às pessoas de que, de facto, é preciso dar mais espaço, mais liberdade para que essa equidade possa de facto existir. Não tem sido fácil. Se calhar não temos 50-50. Seria bom que tivéssemos, mas se estivermos 30-70 já estamos no bom caminho. É preciso continuar a trabalhar, é preciso continuar a preparar porque nós temos países que hoje estão muito longe em relação a outros. Temos de ter paciência, temos que ir com calma. Os nossos políticos precisam de perceber que fazer política não é só armar betão, é preciso dar atenção ao ser humano. E o ser humano é todo aquele que está sob a sua tutela, que está no seu país e que, independentemente da sua condição física, deve ter sempre os mesmos direitos.

    É mais difícil obter financiamento para um atleta paralímpico do que para outros atletas?

    Já há uma mudança substancial, mas ainda há países como o meu, por exemplo, onde ainda há um patrocinador que é capaz de dar 4000 a um atleta paralímpico e dar 100.000 ao convencional. Ainda não há as estruturas que trabalham com o desporto paralímpico, principalmente em África. Não há assim grande apetência das pessoas em concorrerem para os cargos. Noto que nos Jogos Paralímpicos cruzamos as mesmas pessoas de há quatro anos e nos Jogos Olímpicos isso dificilmente acontece. Porque não basta só ter dinheiro, não basta só ter infra-estruturas, não basta só ter conhecimento, na ciência do desporto, é preciso ter amor, ter paciência, ter carinho e ter algum dom para trabalhar nesta causa. Estou há quase 30 anos neste cargo porque de facto ainda ninguém me quis substituir. Estamos a preparar alguns jovens para isso, porque chega uma altura de facto, em que temos de parar.

    Ainda há essa diferença, há sempre mais atenção para os olímpicos em termos de patrocínios, de que para os paralímpicos. Há países muito desenvolvidos onde esta diferença, quase que já não se nota.

    Como por exemplo?

    Os americanos. O Brasil deu um passo enorme. A China que em 2004 não tinha expressão. Organizou os Jogos em 200. São países que conseguem mobilizar. Tem muita gente, trazem muitos atletas porque têm de facto, pessoas que apoiam pessoas que acreditam e têm patrocinadores que ajudam, que apoiam também esta causa.

    12 min
  • Quarta participação de Guiné-Bissau nos Jogos Paralímpicos

    A Guiné-Bissau participa nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024 com dois atletas. "O caminho não tem sido tão fácil para um país com o nosso contexto. Vão participar dois atletas; Mama Saliu Bari, que foi procurar o mínimo na edição de Marrakech 2024, conseguiu a medalha de prata nos 200 metros, na categoria masculino T11. Na Brinbamde Domingas também esteve nessa competição, conseguiu fazer a sua marca pessoal ", descreve o chefe de missão da delegação paralímpica da Guiné-Bissau, Vladimir Sanó.

    RFI: Quais são os objectivos desta quarta participação da Guiné-Bissau nos Paralímpicos de Paris?

    Vladimir Sanó: Depois de Tóquio 2020, enfrentamos grandes dificuldades em termos de mudança global provocada pela Covid-19. O nosso atleta Mama Saliu Bari, que é de mais antigo atleta paralímpico da Guiné-Bissau, está mais motivado, está mais entusiasmado para Paris 2024. Ele conseguiu entrar na lista de recorde mundial porque está mais motivação. Apesar das dificuldades e dos desafios da viagem, espiritualmente e psicologicamente, está preparado para enfrentar os adversários mundiais.

    São 23 modalidades, 549 competições, 4400 atletas. São jogos para desafios muito importantes para dar visibilidade aos melhores dos melhores. O que é que se pode esperar das competições?

    Nós vamos ao encontro do espírito paralímpico, isto é tentar superar barreiras e dificuldades. Estamos a ser confrontados com barreiras e dificuldades em termos económicos, em termos organizacionais, é certo, mas vamos ao encontro desses desafios e vamos superá-los. Podemos esperar que a nossa participação traga a visibilidade e seja reconhecida a superação, afirmação e talento dos nossos atletas. 

    Os dois atletas paralímpicos guineenses que vão participar nas competições de atletismo com dois guias?

    Sim, os guias estão disponíveis, estão bem adaptados com os nossos atletas e juntam-se à nossa delegação. Estão todos envolvidos para apoiar a delegação da Guiné-Bissau, para mantermos uma representatividade mais condigna em pé de igualdade com os outros países. É verdade que estamos a concorrer numa única modalidade. Temos potencialidades de atletas que praticam outras modalidades basquetebol, voleibol sentado, mas como temos poucos recursos, só conseguimos participar numa categoria de modalidades individuais. Isto não é segredo nenhum, o nosso país enfrenta grandes dificuldades económicas.

    Muita das vezes, o desporto paralímpico não é uma prioridade do governo ou para o Estado. É nesse sentido que enfrentamos múltiplos desafios, mas acreditamos e temos essa grande vontade de apoiar e ajudar e colocar o país dentro de ranking e dentro de convivências da família paralímpica nesta competição de Paris 2024.

    As limitações financeiras que a Guiné-Bissau enfrenta travam os sonhos dos seus atletas?

    Para ser sincero e honesto comigo e com o resto do mundo é verdade que para o meu país, a promoção de desporto para pessoas com deficiência não é uma prioridade. Nem é uma prioridade numa perspectiva de longo prazo, eu duvido que o governo terá um projecto para construir um estádio, uma infra-estrutura adequada ao domínio de deficiências dos nossos dois jovens atletas. As nossas infra-estruturas estão ultrapassadas, estão muito velhas, nem são adaptadas a pessoas sem deficiência. Para praticar desporto não é adequado que fará para desporto paralímpico.

    Numa perspectiva a longo prazo, duvido que venhamos a ter essas condições, mas é verdade que há, pontualmente, um apoio do governo, sobretudo aquando destas  participações. Embora não seja só a participação que o governo deva apoiar, mas sim  assegurar e garantir a participação nas provas de competições sub-regionais para que os  atletas possam rodar nas provas de competição nacionais porque isto cria outra vertente: a  auto-estima, cria superação dos atletas. Infelizmente, tendo em conta o factor financeiro e económico do meu país, isto não é uma prioridade neste momento.

    Além do evento desportivo são esperadas políticas de acessibilidade e de inclusão?

    Os jogos paralímpicos levantam um debate à volta da inclusão e da superação de pessoas com deficiência, lembrando que as pessoas com deficiência são capazes e são pessoas que merecem ser respeitadas. Esta participação demonstra, uma vez mais, o espírito da inclusão em todas as vertentes e vai ao encontro do Objectivo de Desenvolvimento Sustentável que num dos artigos sublinha que ninguém deve ser deixado para trás. É preciso trabalhar para uma inclusão de minorias. É verdade que, em termos político, ainda há muita coisa no meu país para fazer. Imagine que até à ratificação da Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência em 2014, não havia nenhuma legislação específica de protecção de direitos de pessoas com deficiência. As políticas e os programas de desenvolvimento não eram inclusivos.

    Não existe nenhuma lei que obriga à criação de rampas nas infra-estruturas públicas, por exemplo, constituindo um grande desafio e barreiras arquitectónicas e urbanísticas para o exercício de direitos de pessoas com deficiência, sobretudo no capítulo da acessibilidade e inclusão.

    11 min
  • Cerimónia da abertura dos Jogos Paralímpicos vai ser “inclusiva” e “espectacular”

    São esperados 65.000 espectadores esta noite na Praça da Concórdia, no centro de Paris, para assistir à cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos. O espectáculo foi imaginado pelo director artístico dos Jogos de Paris, Thomas Jolly, e dura três horas. Na emissão especial desta quarta-feira fique a saber o que esperar destes doze dias de competições, que contam com 4400 atletas, de 182 delegações e 549 provas desportiva.

    Esta quarta-feira, a chama paralímpica chega a Paris para a cerimónia da abertura que decorre na Praça da Concórdia que foi transformada num palco de teatro a grande escala. O objectivo da cerimónia é ser “inclusiva” e “espectacular”, segundo Damien Gabriac, um dos co-autores do espectáculo desta noite.

    23 min
  • Comité para a Protecção dos Jornalistas denuncia situação na Guiné-Bissau

    O Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ) anunciou que vai muito em breve informar as Nações Unidas sobre que tem acontecido em termos de liberdade de imprensa na Guiné-Bissau. Este anúncio surge numa altura em que se tem instalado alguma desconfiança entre o poder na Guiné-Bissau e os jornalistas.

    No começo do ano, o Presidente guineense acusou os profissionais da classe de "serem oposição". Certos jornalistas queixam-se de terem sido impedidos de cobrir determinados eventos, como por exemplo declarações de Braima Camará, coordenador da ala tradicional do MADEM-G15, que se dissociou recentemente de Umaro Sissoco Embaló.

    Em meados de Julho, um jornalista que questionava o Presidente da República sobre a eventualidade de se organizar ainda este ano eleições presidenciais foi insultado publicamente, o que levou o Sindicato dos Jornalistas Guineenses a apelar ao boicote dos eventos organizados pelo poder. 

    Agora, na semana passada, a própria presidente do sindicato da classe, Indira Correia Baldé, foi impedida de cobrir um evento do governo, por "ordens superiores" que a profissional afirma terem vindo do próprio Presidente da República.

    Perante este cenário, a jornalista sul-africana Ângela Quintal, coordenadora para África do Comité para a Protecção dos Jornalistas, com sede em Nova Iorque, refere que vai reportar esta situação ao Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas no próximo mês de Outubro, altura em que a sociedade civil tem oportunidade de informar aquele órgão sobre situações que considere anómalas.

    RFI: Vai relatar a situação nas Nações Unidas. Como vai fazer isso e quando? 

    Ângela Quintal: Em Outubro, as organizações da sociedade civil terão a oportunidade de enviar requerimentos escritos ao Conselho de Direitos Humanos. É o período chamado de "Revisão Periódica Universal" em que que vamos passar em revista o que se passou ao longo dos últimos cinco anos mais em particular, porque começamos realmente a acompanhar a situação na Guiné-Bissau desde 2022. Vamos focar-nos nesses anos, apenas para dar conta da nossa preocupação quando se trata de jornalistas e meios de comunicação na Guiné-Bissau e, em geral, do estado da liberdade de imprensa. 

    RFI: Quais poderiam ser as consequências para o governo da Guiné-Bissau?

    Ângela Quintal: Bem, eu acho que o que é importante não são necessariamente as consequências, mas eu acho que também é importante informar a comunidade internacional, que pode não estar necessariamente atento ao que está a acontecer na Guiné-Bissau. Para a imprensa, eu acho que é importante, nesse sentido, tornar isso público. Ao longo dos anos, o que fazemos é investigar as violações da liberdade de imprensa em países e, na Guiné-Bissau, temos feito isso. Então, o que eles terão é a nossa pesquisa, e obviamente vamos associar-nos com outras organizações e vamos colocar esse registo lá. Cabe realmente aos Estados-membros decidir se querem tomar isto em consideração, se vão fazer recomendações ao governo da Guiné-Bissau, e se o governo da Guiné-Bissau está disposto a aceitar algumas das recomendações e garantir que se mude de rumo. Vamos falar apenas de 2024: tem sido um ano mau para os jornalistas na Guiné-Bissau. Este foi também o caso no ano passado, mas acho que depois de vermos o Presidente da Guiné-Bissau, dissolver o parlamento e depois governar por decreto, vimos sinais muito, muito preocupantes dessa relação que o governo e o próprio Presidente têm com a imprensa. Notamos um aumento das violações dos direitos. O Presidente declarou, em Janeiro deste ano, que era necessário ter "brigadas" para monitorar o que os órgãos de comunicação dizem nas transmissões de rádio e assim por diante. Recentemente, todos nós sabemos, ele insultou um jornalista. E por que é que ele insultou o jornalista? Simplesmente porque o próprio jornalista estava a fazer uma pergunta de interesse público. E eu acho que esse é o ponto. Era uma questão de interesse público: 'Quando é que o Senhor Presidente vai realizar presidenciais ?' O mandato dele termina em Fevereiro. Obviamente, relativamente à legislatura que ele dissolveu, haverá eleições em Novembro e é uma pergunta perfeitamente normal. E como reagiu o Presidente? Ele reagiu insultando o jornalista. Eu acho que, em última análise, quando o chefe de Estado tem uma relação tão difícil com os jornalistas e mostra total desrespeito, apenas pela decência comum, isso envia o sinal errado para os outros. E é por isso que também vimos ataques contra jornalistas. Nós vimos a polícia este ano, quando os jornalistas foram impedidos de cobrir protestos. Mas também vimos apoiantes do Presidente. E isso tem sido uma grande preocupação para nós em termos de como é que eles estão a utilizar as redes sociais para assediar, em particular, mulheres jornalistas. Vimos os ataques contra mulheres jornalistas, incluindo ameaças de violação e assim por diante. É totalmente inaceitável. Eu acho que o ambiente é criado para isso acontecer porque o próprio Presidente está a enviar o sinal errado de que 'os jornalistas são os inimigos'. Os jornalistas fazem o trabalho que eles devem fazer, isto é garantir que a população da Guiné-Bissau seja informada. Eles devem estar em condições de relatar o que está a acontecer em termos de actualidade. E o dever da liberdade de imprensa e da livre expressão é de tal ordem que se não for discurso de ódio e se não for incitação à violência, não há nada de errado em ser crítico em relação ao governo. Qualquer governo que sinta que está a fazer o que é suposto fazer e que está do lado do povo, não sente necessidade de atacar a imprensa ou não se sente ameaçado quando os jornalistas são críticos relativamente a ele. A nossa expectativa é de que na Guiné-Bissau, vamos ver uma melhoria na relação entre o governo e a imprensa e em particular, o Presidente. Eu sei que houve uma reunião com jornalistas e a presidência disse-nos que esta foi uma boa reunião. Mas o facto é que há alguns jornalistas que estão a ser individualmente impedidos de cobrir eventos do governo porque o Presidente acredita que têm sido críticos em relação a ele e ao seu governo.

    RFI: Como se sente relativamente ao período que está a chegar agora na Guiné-Bissau, em que o Presidente diz que vai organizar novas eleições em Novembro? 

    Ângela Quintal: Estamos preocupados porque constatamos uma atitude em relação à imprensa que realmente abre caminho para que outros ataquem jornalistas. E sempre que há alguma eleição e é em todo o mundo, não só no continente africano, mesmo aqui (nos Estados Unidos), você vê um aumento de ataques contra jornalistas, porque os jornalistas são frequentemente aqueles que estão a cobrir protestos ou a cobrir comícios. Portanto, é um período de tensão, como vimos com outras eleições em todo o continente este ano. Portanto, há preocupação e é por isso que apelamos para que o Presidente, o partido no poder e outros responsáveis políticos  possam garantir que, no final do dia, os jornalistas possam fazer o seu trabalho, informar livremente e sem medo de represálias. Porque, em última análise, trata-se de garantir que os cidadãos da Guiné-Bissau tenham a informação necessária para fazerem uma escolha informada quando forem às urnas. 

    RFI: Ninguém reagiu até agora a toda esta situação com os jornalistas na Guiné-Bissau. Não ouvimos falar, por exemplo, de nenhum país de África ou de Portugal que está ciente da situação na Guiné-Bissau. Como explica isso? 

    Ângela Quintal: Explico isso muito facilmente porque há países que, no final do dia, vão focar-se em questões de política externa ou de geopolítica da região, que eles podem sentir que é do seu interesse. E francamente, vejo isso não só com a Guiné-Bissau, mas em muitos países do continente africano. Vamos olhar para o que está a acontecer no Afeganistão e vamos ver, por exemplo, o que acontece no Sudão. Se pensar na grande crise humanitária que existe no Sudão, como as pessoas fugiram, como as pessoas estão a viver lá, não vê a mesma indignação contra o que está a acontecer no Sudão em oposição ao que está a acontecer no Afeganistão ou mais recentemente, em Gaza. Não estou a dizer que o que está a acontecer em Gaza, que é terrível, é algo para ser ignorado. Mas muitas vezes penso 'bem, não seria óptimo se o tipo de atenção e oposição às violações dos Direitos Humanos que estão a ocorrer em Gaza, pudesse ser visto em outros lugares do continente?' Falo sobre os Camarões: desde o final de 2016, temos visto violência nas regiões de língua inglesa dos Camarões, onde os jornalistas foram presos, onde os jornalistas foram atacados, onde as próprias pessoas que vivem nessas regiões são sujeitas a violações dos Direitos Humanos diariamente. No entanto, a comunidade internacional não tem visto isso como uma prioridade. E isso é lamentável. E é por isso que organizações como o Comité para a Protecção dos Jornalistas e outros, não estamos sozinhos, estão a tentar usar todos os meios e todos os fóruns internacionais possíveis para pelo menos sublinhar que existem motivos graves de preocupação em países específicos, porque no final do dia, você não pode ser membro das Nações Unidas, subscrever o pacto, ou ser um membro da União Africana e subscrever a carta da União Africana, em que estão consagrados os Direitos Humanos, incluindo a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o direito do público de saber e não cumprir. Como Estados-membros, seria de esperar que eles realmente garantissem que não assinem algo sem significado, que realmente cumprissem o que assinaram, e eu acho que esse é o problema. 

    Podem ouvir aqui a entrevista na íntegra e na versão original:

    12 min
  • Novo capítulo no conflito entre Israel e o Hezbollah

    O exército israelita e o Hezbollah trocaram ataques este domingo, aumentando os receios de uma guerra regional que já conta com o conflito entre Telavive e o Hamas. Foram os ataques mais intensos entre Israel e a milícia xiita libanesa, desde o início da guerra em Gaza.

    As Forças de Defesa de Israel lançaram neste domingo uma ofensiva no Líbano, a que chamaram "ataque preventivo", depois de terem detectado preparativos do Hezbollah para lançar “ataques em grande escala” contra o território israelita. Neste ataque, 100 caças atingiram 40 alvos de infra-estruturas da milícia xiita. Na resposta, o Hezbollah afirmou ter iniciado a "primeira fase" de um grande ataque, disparando 320 foguetes e drones. Apesar de terem sido os ataques mais intensos desde o início da guerra em Gaza entre Israel e o Hezbollah, João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico, não considera que vão dar origem a uma nova guerra na região. 

    RFI: Nas reacções a este ataque, Benjamin Netanyahu disse que a resposta do país foi mais um passo para mudar a situação no Norte, e que este não é o fim da história. Por seu lado, o Hezbollah disse a operação deste fim-de-semana foi concluída e realizada com sucesso. Para já, ninguém quer uma guerra. O que é que está aqui em causa?

    João Henriques: A guerra não é desejável. Mas nós estamos a assistir a um jogo de retaliações, de provocação que está implícita. Eu acredito que isto não passe de retórica, mais nada. Para um eventual apaziguamento, até para que a comunidade internacional que está a ser liderada pelos Estados Unidos vejam que da parte dos envolvidos há alguma moderação, alguma vontade para resolverem o conflito pela via diplomática.

    O que aconteceu este fim-de-semana põe em causa as negociações em curso para a tentativa de encontrar um acordo de cessar-fogo?

    Sim, porque ao mesmo tempo que querem dizer que têm vontade de negociar e de restabelecer a paz na região vão atacando, com ou sem razão. Este ataque por parte de Israel é uma mensagem que o país está a transmitir não só ao Hezbollah mas ao eixo de resistência e à comunidade internacional em geral, de que o seu propósito de eliminar estes adversários mantém-se. E depois assistimos aos Estados Unidos, que ao mesmo tempo que dizem que querem ver a situação resolvida estão a enviar armamento para Israel. E o que é que nós vemos em relação às acções do Hezbollah, por um lado, e também do Hamas, e de Israel, por outro: que as posições, sobretudo as do Hamas e de Israel estão a sofrer algum enfraquecimento. No caso de Israel, esse enfraquecimento é não só de natureza bélica, de natureza militar, mas também de natureza política.

    E acredita que com esta pressão interna e externa para um cessar-fogo em Gaza Benjamin Netanyahu vai ceder?

    Vai continuar a ceder, apesar de dizer sobretudo aos Estados Unidos e aos seus aliados mais próximos, porque é também uma mensagem para fora, de que tem vontade de estabelecer a paz. Todavia, o programa político do actual Governo não é consentâneo com essa dialéctica, com essa retórica. Seja como for, a comunidade internacional está a pressionar. E o que é que vai acontecer? O governo de Netanyahu vai mesmo cair? Eu não vou dizer que seja já. Em fundo temos as eleições nos Estados Unidos.

    Muito importantes para este processo.

    Naturalmente que têm uma implicação determinante, independentemente de ser o candidato republicano ou o candidato democrata a ganhar. Diria que há um antes e um depois de 5 de Novembro. Kamala Harrison já fez saber que a situação com ela na Casa Branca não vai continuar como tem estado até aqui. E também já conhecemos aquilo que têm sido as afirmações de Donald Trump no caso de ser ele o vencedor das eleições. São determinantes para a evolução da situação.

    A ONU apelou aos dois lados para evitarem uma escalada de violência. São apelos repetidos que até agora não têm funcionado. Quem é que pode mudar alguma coisa?

    Eu diria que são alguns dos países mais próximos de Israel, a começar pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos poderiam também eles ser determinantes no terminar deste conflito. A comunidade internacional poderia impor, como tem feito noutros casos, sanções de natureza económica e Israel não teria alternativa senão inverter a marcha dos acontecimentos. Agora, as Nações Unidas não vão conseguir fazer nada. Eu estou a falar do bloco, estou a falar da organização porque, como referiu e bem, são repetidos os apelos às negociações, à contenção, a tudo isso e não tem tido qualquer efeito prático. E vai continuar a não ter qualquer efeito prático, porque as Nações Unidas têm poder de aconselhamento, mas não têm poder de materialização das suas decisões. Seria, então, a começar pelos Estados Unidos e também pela União Europeia e pelo Reino Unido, uma vontade política de enfrentar a posição de Israel. Acontecerá se aparecerem novos atores entre os dirigentes de Telavive, porque começa a haver fracturas dentro do Governo de Netanyahu e uma delas é mesmo veiculada pelo ministro da Defesa e Yoav Galant.

    Mas se imaginarmos um cenário de guerra... o Hezbollah e o Irão são mais perigosos para Israel do que o Hamas.

    Poderá ser uma uma tendência optimista, mas eu não acredito que entremos numa confrontação directa porque isso vai alastrar a actores mais poderosos. Estou a falar do bloco chinês com os seus aliados, desde logo a Rússia, e, naturalmente, o Irão e os grupos que lhe estão associados. Num cenário de confrontação directa, passo a ser pessimista e a dizer que isto alastraria para um conflito mundial. Há muita gente que diz que a Terceira Guerra Mundial já está numa fase de aquecimento, mas eu não acredito que a situação venha a descambar nesse sentido. Continuará a haver escaramuças e se subirem de tom continuarão a ser num tom controlado. Haverá alguma parcimónia por parte dos grupos e dos Estados que se opõem a Israel.

    9 min
  • Portugal: Habitantes de Sintra protestam contra “turismo de massas"

    Os moradores e os comerciantes de Sintra, um dos principais destinos turísticos de Portugal, pedem medidas sustentáveis contra o excesso de visitantes. A associação QSintra, criada para combater as ameaças à vila que é património da Humanidade, destaca o caos do trânsito e a falta de soluções.

    Depois de várias queixas sem resposta por parte da Câmara Municipal, a associação QSintra começou um protesto com cartazes colocados em edifícios, principalmente nos principais pontos de passagem da vila. Carlos Salgado, um dos membros da associação, falou com a RFI sobre os protestos e sublinhou que o objectivo não é afastar os turistas.

    "É  uma reacção a tudo aquilo que se passava em Sintra. Para quem ama este lugar único fazia confusão. E tudo se veio a agravar. O ano passado pensámos em tomar uma acção, mas entretanto o presidente da Câmara anunciou que ia tomar medidas e nós resolvemos não fazer nada. Como essas medidas não foram tomadas este ano, resolvemos passar à acção. O problema aqui em Sintra é sobretudo uma falta de gestão do território. Não há  medidas concretas. Isto é um verdadeiro inferno de viaturas, de tuk tuks, de carros para turistas. Tudo entra. É uma enorme confusão. Está verdadeiramente a saque com alguns sintomas de violência por parte de muitos dos operadores turísticos, que é uma coisa estranhíssima. As pessoas, hoje em dia, têm uma vida completamente desgastante. Muitos não podem sair de casa porque têm carros parados à porta, não podem ir às compras. Além de que, toda esta evolução do turismo acabou por atirar a maior parte das pessoas para fora de Sintra. O centro histórico já é um local sem residentes e, portanto, sem memórias e sem histórias. Não existe uma farmácia, não existe uma padaria, não existe uma mercearia.

    Quando fala de violência de operadores turísticos, refere-se a que tipo de situações?

    "Por exemplo, aqui em São Pedro existe uma praça que é Praça D. Fernando. A câmara reservou uma parte para estacionamento, e alguns condutores dos tuk tuks destruíram todos os pinos que foram lá postos para delimitar o estacionamento. Depois, funcionários da Junta de Freguesia que foram lá repor as coisas foram corridos e insultados. Portanto, só vai para lá quem parar o carro e apanhar um tuk tuk para ir para o Palácio da Pena. É uma questão completamente louca, não é?"

    Depois de pedirem medidas à Câmara para resolver a situação, decidiram avançar com um protesto com cartazes que está a acontecer neste momento.

    "Exatamente. Isto é um processo que já se arrasta há muito tempo e, no fundo, grande parte dos residentes e nós, enquanto associação, manifestámo-nos nas assembleias municipais, escrevemos para a Câmara. Muitos residentes, mandaram e-mails e cartas. Às tantas, parecia que estavam a gozar connosco, como se estivesse tudo bem e nós não tivéssemos razão nenhuma. E perante essa ausência de resposta e perante essa falta de respeito da autarquia para com os residentes, decidimos avançar com esta campanha".

    Há quem diga que este é o preço a pagar por terem muitos visitantes. Mas a associação acredita que é possível um equilíbrio entre o turismo e a vida das pessoas que habitam em Sintra. 

    "Não é só das pessoas. É que hoje em dia os próprios comerciantes não estão a tirar benefício nenhum deste tipo de turismo. Para já é um turismo completamente descaracterizado e a maior parte das pessoas que vêm a Sintra estão cá uma ou duas horas. São tantas as pessoas que é uma verdadeira invasão. Portanto, o próprio usufruir da visita é muito relativo, porque são os próprios turistas que se sentem perdidos. Por exemplo, muitos de nós que temos alojamento local ouvimos os nossos turistas a dizer que não voltam mais a Sintra porque é uma confusão. A visita ao Palácio da Pena  tornou-se numa visita traumatizante. Para ver qualquer coisa, tem que espreitar por cima de não sei quantas cabeças".

    E como é que a autarquia reage às vossas queixas?

    "Começou por reagir de uma forma completamente disparatada, dizendo que este era um movimento dos donos das quintas que tinham perdido os seus privilégios e que, portanto, não queriam que os visitantes viessem a Sintra. E vai reagindo dizendo que tem feito coisas mas não tem resolvido coisa nenhuma. Por exemplo, agora falam na construção de um parque de estacionamento exterior, que é uma das uma das coisas que nós falamos há muito tempo. Só que a questão de fazer um parque de estacionamento per si não resolve coisa nenhuma".

    Quais são as medidas que poderiam funcionar?

    "Isso requer algum estudo e algum olhar. Obviamente que é necessário, por exemplo, uma limitação do trânsito, uma gestão do espaço de uma forma completamente diferente, de maneira a que seja permitido conviver num lugar único, porque Sintra é um lugar único, aos residentes, aos visitantes, aos comerciantes ... Mas não há uma medida milagrosa. Tudo isto requer uma gestão integrada de várias disciplinas que permitam desenvolver uma perspectiva sustentável e de qualidade de vida aqui dentro. Já aconteceu pessoas que precisam de uma ambulância e a ambulância não chega a tempo". 

    E como é que as pessoas estão a reagir ao vosso protesto? Falamos de cartazes com frases como "Sintra não é a Disneylândia nem um parque de diversões".

    "As pessoas que vivem em Sintra estão a reagir muito bem. Por exemplo, hoje fui tomar um café e a conversa era essa. E era entre pessoas que, se calhar, há pouco tempo não se permitiam falar daquela maneira e que agora falam abertamente contra esta loucura. Isto de facto é um desgaste. Outro dia, aqui ao pé da minha casa, uma pessoa não conseguia sair porque um carro estava completamente encostado à porta dele.

     

    Olhando para o exemplo das grandes cidades da Europa, acredita que há possibilidade de as coisas voltarem ao normal, de ser mais fácil para os habitantes de Sintra viverem na sua vila?

    "Se houver vontade política de, por um lado, ouvir as populações e de, em conjunto tentarem resolver os problemas, eu acredito que sim. É evidente que não vai voltar ao que era aqui há 40 anos. Era uma vila com uma vida perfeitamente normal. Viviam cerca de duas mil pessoas no centro histórico. Já é difícil voltar, mas eu acredito que sim. E sobretudo, se houver vontade das entidades políticas em começarem por ouvir os residentes".

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  • Incêndios na Madeira destroem áreas protegidas e "vegetação única"

    Desde 14 de Agosto lavra um incêndio na Madeira onde já arderam cerca de cinco mil hectares da ilha. Não há registo de mortos nem feridos, as infra-estruturas e habitações não sofreram danos. Mas, de acordo com a associação ambiental Quercus, vários tipos de vegetação rara já foram destruídos nesta ilha conhecida como a "Pérola do Atlântico", terreno para uma fauna e flora diversificada e áreas classificadas como património mundial da Unesco. 

    Na manhã de quinta-feira 22 de Agosto, no oitavo dia de luta contra as chamas, o incêndio na Madeira está com duas áreas de fogo activas, sendo a que evoluiu para a cordilheira central, principalmente na Achada do Teixeira, Pico Ruivo, a que mais preocupa, de acordo com as autoridades locais. 

    No terreno, para lutar contra as chamas, a Protecção Civil conta apenas com um helicóptero. O Governo regional da Madeira activou esta quarta-feira Mecanismo Europeu de Protecção Civil para que pudessem ser enviados "dois aviões Canadair".

    Em entrevista à RFI, Elsa Araújo, presidente da associação ambiental Quercus na Madeira, denuncia a falta de meios e questiona a demora na activação do plano europeu para a disponibilização de meios aéreos no combate às chamas.

    No espaço de uma semana arderam cerca de 5 000 hectares numa ilha com várias zonas classificadas como Património Mundial da UNESCO.

    "Nós na Quercus não conseguimos compreender como é que só após uma semana o governo regional activou o plano para a vinda dos meios aéreos. Isso não tem explicação. Todos os madeirenses sabem que na zona onde os fogos estão a lavrar, os aviões são a única forma de os combater. Qualquer pessoa com consciência e responsável teria pedido há imenso tempo os meios aéreos para combater os fogos. Isto mostra que da parte do governo não existe qualquer interesse pela conservação do património natural", alega a presidente da associação ambiental.

    A orografia da ilha da Madeira, com montes abruptos e de difícil acesso e a confluência dos ventos, dificulta o combate às chamas. O acesso por via terrestre é por vezes "impossível", concede a presidente da Quercus, questionando todavia a demora na activação do Mecanismo Europeu que permitiria incluir no combate às chamas mais meios aéreos. 

    "Ao longo destes dias tivemos apenas um meio aéreo [um helióptero] a combater o fogo. é muito pouco, tendo em conta a área atingida pelas chamas. Este descontrolo do fogo para a zona do Pico Ruivo deve-se precisamente ao facto de não termos tido mais meios aéreos numa fase inicial. O fogo foi ardendo e avançando por aquelas cordilheiras, até ao ponto de ficar descontrolado. Agora muito património natural já foi destruído e as chamas já estão a ameaçar a floresta Laurissilva", alerta Elsa Araújo.

    A associação tem vindo a alertar que já foi eliminado pelas chamas um conjunto de plantas em habitats protegidos e classificados Natura 2000, rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis na União Europeia.

    Receia-se ainda que "outras plantas, que são únicas, que só existem naquelas zonas, possam eventualmente já ter extinguido". 

    "Estamos muito preocupados em relação à conservação da floresta Laurissilva. Já há uns anos atrás, quando os fogos atingiram a zona do Parque Ecológico, na zona do Pico do Areeiro, uma espécie única, a cerveira, ardeu com o fogo e extinguiu no seu habitat natural", recorda a ambientalista Elsa Araújo.

    O património natural da ilha da Madeira atrai todos os anos milhões de turistas, atraídos pela fauna e a flora únicas da ilha. Mas sem regulação do turismo, não pode haver uma preservação justa do ambiente, de acordo com a Quercus que, pela voz de Elsa Araújo, alerta para os perigos do "turismo de massas".     

    "O número de turistas que visita a Madeira é excessivo, é turismo de massas. E temos uma agravante, que é o facto de não haver controlo no acesso às áreas protegidas. Os nossos vizinhos açorianos controlam o acesso às áreas protegidas, isto é regrado na Região Autónoma dos Açores. Há muitos anos que pedimos aos turistas para terem cuidado e respeito quando visitam as áreas protegidas, nomeadamente se existe indicação de que determinado percurso é proíbido.O que nós pedimos aos turistas é que respeitem a sinalização", conclui a presidente da Quercus.

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  • Guiné-Bissau: remodelação governamental "vai trazer mais dissidentes"

    Esta terça-feira, o Presidente Umaro Sissoco Embaló assinou e publicou uma série de decretos, procendendo a nomeações que remodelaram por completo o Governo. Em entrevista à RFI, o jurista guineense Fodé Mané alega que o país assiste a uma "acumulação de ilegalidades", a última sendo a nomeação para cargos governativos de personalidades próximas e fieis ao chefe de Estado.

    Esta lista de nomeações acontece em plena crise interna no partido do Madem G-15, uma semana depois das duas reuniões das alas divergentes, em que ficou claro quem se posiciona de forma fiel ao Presidente Sissoco ou ao até então coordenador do partido, Braima Camará.

    Esta remodelação do governo vai, ainda segundo Fodé Mané, ter "efeitos perversos" e resultar em maior dissidência nos partidos políticos. 

    Esta terça-feira foram nomeadas figuras políticas fieis ao Presidente para cargos no governo, através de decretos presidenciais. São legais estas nomeações?

    Havia algumas vagas por preencher no governo há dois meses. Primeiro, desde que alguns ministros afectos ao partido de Nuno Nabiam,  APU-PDGB, aceitaram acatar as orientações do partido para se retirar do governo. Então houve três ministros e um secretário de Estado que tinham pedido demissão. E o Presidente nesta sua atitude de confrontação aceitou e não foram nomeadas pessoas para os substituir. Depois houve o PRS, o Ministro da Saúde que também pediu demissão e mais tarde, quando Fidelis Forbs, do Madem G-15, e um dos vice-coordenadores, mostrou a relação com o Braima Camará, foi exonerado. Então havia vagas para preencher. 

    Houve também substituição de ministros, como é o caso de Nicolau dos Santos, exonerado do governo e substituído por Dionísio Cabi, antigo presidente do Tribunal de Contas. 

    Porque ele (Nicolau Santos) não tinha declarado claramente estar ao lado da facção do PRS que apoia Sissoco. Então certamente ia ser retirado. Não há novidades.

    Dá impressão de que o Presidente está a promover as alas do Madem G15 e do PRS que lhe são fieis.

    Sim, só que, pelo contrário, vai ter efeitos perversos. Porquê? Primeiro, porque algumas pessoas que estavam na ala dos inconformados, tanto do PRS como do Madem, e que estavam à espera de serem chamados para preencher aqueles lugares, não foram. Porque não há lugar para agradar e acomodar todos os interesses. Então essas pessoas vão ficar de lado e o que acontece? Vão-se juntar mais uma vez no exército dos opositores ao regime. 

    Há uma carta que esteve a circular ontem de um dos primeiros a pedir demissão, Fernando Victor Mandinga. Victor Mandinga fez uma carta em explica que, quando se está no governo, é necessário dizer "sim senhor Presidente" a tudo. E que mesmo nos Conselhos de ministros, não há debate. Não há nada. Se não disseres "sim, senhor Presidente", corres o risco de sair.

    Portanto, os que andavam a questionar, a tentar opinar, foram afastados. O Fernando Mandinga revelou precisamente qual era o ambiente naquela altura e como é hoje. Por isso quem tem um mínimo de sensibilidade sobre questões de  legalidade e democracia não pode acompanhar este regime político.

    Portanto, estas remodelações podem, no limite, ser justificadas do ponto de vista jurídico, mas considera que estamos perante mais um golpe de força do presidente, que procura rodear-se dos seus mais fieis?

    É exactamente o que se está a passar. Mas não tem nenhum valor jurídico, não tem nenhum enquadramento, é apenas uma demonstração de força para afastar quem está no outro lado e quem ainda não definiu a sua posição. 

    Mesmo aqueles que foram militantes do PAIGC e que fizeram parte deste governo, à revelia das orientações do seu partido, foram obrigados a tomar uma posição clara. Eles deram conferência de imprensa, atacaram a direcção do partido e agora está-se a ventilar de que também estão a pensar criar um movimento de inconformados dentro do PAIGC, que já existe em todos os partidos com assento parlamentar, excepto o PTG (Partido dos Trabalhadores guineenses) de Botche Candé, mas existe no PRS, existe no APU, existe no Madem G15. 

    Poderá o chefe de Estado, Umaro Sissoco Embaló, ser designado presidente honorário do Madem-G15, na sequência da proposta feita pela ala do partido do Madem G-15 que lhe é fiel? 

    Esta proposta não tem nenhum valor jurídico e muito menos em termos políticos. Simplesmente cabe na deriva de ilegalidade que se está a verificar. O que tem acontecido são sinais claros de que a legalidade dos procedimentos não são respeitados. A própria convocação daquele congresso extraordinário [convocado pela ala fiel a Sissoco, no mesmo dia em que a ala de Braima Camará organizou um conselho nacional, a 17 de Agosto] desobedece a todos os procedimentos estatutários. Sabe-se também de vários actos de ilegalidade interna ao partido. 

    Porque é claro que a luta que existe não é para o cumprimento dos estatutos, é para manter fiel à actual situação ou contestar. Então, eleger o Sissoco como presidente honorário é uma forma de afrontar aquilo que é feito pela outra ala, que tinha escolhido o ex-presidente José Mário Vaz como seu presidente honorário.

    Qual pensa que pode ser  a decisão do Supremo Tribunal sobre a nomeação de Satú Camará para coordenadora do partido do Madem-G15, aprovada pela ala fiel a Sissoco durante o congresso extraordinário? 

    O Supremo Tribunal tem estado a proceder nesta onda de violação da legalidade. O Supremo Tribunal extravagou as suas competências. Não se limitou apenas a anotar decisões, mas a declarar como legítima determinada ala de determinado partido. Quando o Madem apresentou uma acção de providência cautelar para impedir a realização do tal congresso extraordinário, o que fez o Supremo? Fez uma nota a impedir o juíz de receber o processo.

    É uma ilegalidade. Por isso é que dizemos que, hoje, há apenas uma pessoa a funcionar com todas as instituições. É Umaro Sissoco que decide em nome do Tribunal, em nome da Assembleia, em nome do governo, em nome de tudo. Os outros são apenas ajudantes.

    Tudo o que a sociedade civil tem vindo a pedir, incluindo a realização de eleições presidenciais, vai ser agora mais difícil de exigir?

    Vai ser mais difícil, porque cada vez há acumulação de ilegalidades, há limitações que a Constituição impõe ao Presidente da República, e nós sabemos que a tendência é de continuar a violar essas limitações. Mas isso vai agitar cada vez mais tanto a sociedade civil como algum sector político.

    O que aconteceu com a coordenação de Madem é que ficaram fartos de defender ilegalidades. Há quem bateu com a mão na mesa. Dentro dos próprios partidos políticos acaba por haver cada vez mais dissidência. Só para repararmos: Nuno Nabiam, Fernando Dias, Braima Camará foram fortes apoiantes de Umaro Sissoco. Foram as pessoas que o levaram ao poder. Mas hoje todos têm uma posição diferente. 

    E com esta remodelação governamental vamos ter outra vez alguns dissidentes, porque o que alimenta os guineenses é a nomeação para lugares públicos, a nomeação é como uma premiação. Ontem, não só houve nomeação de membros do governo, como houve exoneração de directores. O director do Fundo Rodoviário, a governadora da região de Biombo... Exonerados. Nomeou-se o filho de Satú Camará, ela própria nomeada coordenadora do Madem, como director. São formas de compensação e isso está a acontecer noutras instituições, desde o Governo Regional até às direcções-gerais, com o expurgar dos indesejados. Mas também cada vez mais pessoas, próximas de Sissoco, estão a mostrar que já estão cansadas. Vê-se no caso de Óscar Barbosa.

    Como explica a saída voluntária de Óscar Barbosa do governo, ele que foi conselheiro e porta-voz de Umaro Sissoco Embaló? 

    Entre todas as demissões, esta foi a que mais surpreendeu. Óscar Barbosa não é uma pessoa de princípios. Esta situação em que Sissoco está a ser isolado pelos próprios companheiros de partido e que Óscar Barbosa diz estar do lado de Braima Camará é uma supresa. Isto dá para duvidar sobre se não se trata de uma armadilha... Também podemos acreditar na sua boa fé. Mas toda a gente em Bissau comenta a situação de Óscar. São sinais para vermos que o único pilar que sustenta Umaro Sissoco é a força. Não é nenhuma legalidade.

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  • Convenção Democrata: "Kamala está a integrar-se na tradição dos candidatos presidenciais do partido"

    Desde ontem e até quinta-feira, decorre em Chicago a Convenção Democrata durante a qual Kamala Harris vai ser oficialmente entronizada candidata à Casa Branca, poucas semanas depois de Joe Biden ter desistido de brigar um segundo mandato face ao antigo Presidente Republicano, Donald Trump.

    Nesta segunda-feira, dia em que discursaram o Presidente cessante, Kamala Harris e outras figuras democratas como Alexandria Ocasio-Cortez ou ainda Hillary Clinton, ostentou-se uma frente unida em torno de aquela que ambiciona ser a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos e esboçou-se um balanço destes últimos quatro anos com Joe Biden.

    As melhorias no desempenho económico do país e as medidas a favor das franjas mais desfavorecidas foram alguns dos aspectos evocados. A política americana no Médio Oriente também irrompeu na Convenção, com militantes pró-palestinianos a manifestarem em Chicago para reclamar o fim do apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel.

    Estes foram alguns dos aspectos que abordamos com o analista político, Germano Almeida, que ao analisar o teor dos discursos pronunciados ontem, começa por evocar o legado de Joe Biden.

    RFI: Qual é o balanço que se pode fazer do mandato de Joe Biden como Presidente?

    Germano Almeida: Eu acho que aqui há algum balanço contraditório. Tem aspectos muito positivos e, depois, algumas coisas negativas. Eu acho que em alguns aspectos, Joe Biden faz uma presidência bastante sólida, bastante positiva, no sentido em que, depois dos 'anos Trump', consegue recuperar alguma eficiência e alguma estabilidade na administração americana, depois da qual consegue relançar a economia americana, que é a economia no G7 que mais cresce. Ao fim de dois anos seguidos, consegue reduzir a inflação, que de facto chegou ao nível histórico de 9,1%, mas não foi culpa de Joe Biden. Foi culpa da pandemia, do regresso da actividade com alguma disrupção ainda dos sectores da distribuição e depois do início da guerra da Ucrânia, naturalmente com as sanções à Rússia que isso implicou. Mas em dois anos, com uma política arriscada, mas com a subida dos juros, consegue baixar a inflação para 2,9%. Há um sentimento contraditório e isso porque, mesmo sendo assim, a verdade é que muitos americanos sentem que ainda estão a pagar demais e, portanto, a economia tem esse lado contraditório. No geral, bons índices económicos dos Estados Unidos, mas os americanos não sentem isso. E isso vai ser uma coisa que vai marcar esta eleição, que Kamala está a ganhar nos temas como a defesa do aborto, a mobilização do seu eleitorado, mas corre o risco, mais próximo da eleição, de ter problemas com a questão da economia e também a questão de imigração. Ou seja, nos últimos anos, tem havido um recorde de entrada de imigrantes ilegais, muito também por causa de uma lei de imigração que está obsoleta e que não consegue dar resposta à situação na fronteira sul do Texas com o México. Mas é responsabilidade também da maioria republicana no Congresso, que nunca se manifestou aberta a fazer um acordo sério para resolver a questão.

    RFI: Kamala Harris é esperada sobre a questão da imigração e sobre a questão da economia. Ela já falou, por exemplo, dos impostos que ela pretende estabelecer, nomeadamente aos mais ricos. Há também a questão do aborto e a questão da política exterior, nomeadamente o Médio Oriente.

    Germano Almeida: Sim, o caso do Médio Oriente, Joe Biden abordou isso. Enquanto eles falavam, havia protestos à porta da Convenção de manifestantes mais à esquerda, que dizem coisas que eu acho que são injustas, do estilo 'Harris, Joe Biden e Trump é tudo igual'. Não é tudo igual. Pode ser culpada de algumas coisas relativamente ao tema, mas a verdade é que a administração Biden está a liderar os esforços para que haja algum tipo de acordo de cessar-fogo em Gaza e mais globalmente uma solução política para aquela questão. É evidente que, olhando para o tempo que passou, podemos dizer que até agora estão a falhar porque continuam a morrer inocentes em Gaza. É verdade. Mas também me parece que essa ala esquerda tem que pensar muito bem se é assim muito inteligente estar a dizer que são iguais Kamala ou Trump e assim permitir um regresso de Trump que vai dar muito mais espaço para Netanyahu continuar a sua guerra em Gaza. Mas isso é outra questão. Vamos ver. Eu acho que Alexandria Ocasio-Cortez, da ala esquerda do Partido Democrata, foi muito clara ao elogiar Kamala, dizendo que ela fará tudo para haver uma libertação dos reféns e um cessar-fogo em Gaza. Relativamente à questão fiscal, uma questão muito importante também na discussão política da campanha, Kamala está a mostrar-se uma candidata de continuidade em relação a Biden e a Obama, no sentido de defender uma taxação dos mais ricos de modo a permitir um corte fiscal dos americanos com menos rendimentos. Espera-se nas próximas semanas que haja mais detalhes e que haja, já agora, debates entre Trump e Kamala relativamente a este tema, que é um tema muito importante.

    RFI: Mencionou a presença de Ocasio-Cortez nessa convenção e o elogio a Kamala Harris. Um pouco mais à direita do espectro dos democratas estava também Hillary Clinton, que em 2016 não beneficiou de toda a união que há neste momento em torno de Kamala Harris, quando se apresentou para as presidenciais. De facto, isto é um sinal forte, ver todo o espectro dos democratas com Kamala Harris?

    Germano Almeida: Sim, é muito importante esse ponto que refere. De facto, Hillary Clinton, à justa não consegue a eleição um pouco por isso. Se nos lembramos, a eleição geral com Hillary Clinton e Trump, decorre depois de umas primárias democratas em que houve muita fractura entre o lado mais centrista dela e o lado mais a esquerda de Bernie Sanders. E apesar de Sanders apelar ao voto em Hillary, houve muita gente que votou nele, sendo que foram 45% dos democratas, que ainda depois não terá votado em Hillary. Isso custou-lhe a eleição e eu acho sinceramente que Kamala não corre esse risco. Acho que ela consegue juntar mais as duas alas esquerda e centrista. Há quem a ache demasiado a esquerda. Eu acho que não. Acho que ela está a integrar-se na tradição dos candidatos presidenciais democratas dos últimos anos, centro-esquerda, com propostas progressistas, com algumas nuances, mas, sobretudo, consegue mobilizar mais a ala esquerda também porque tem um candidato a vice-presidente, Tim Waltz. Mas enfim, o que eu tenho dito, é que que tanto Kamala como Waltz pensam que as mulheres não devem ser criminalizadas se praticarem o aborto e defendem refeições escolares gratuitas para as crianças desfavorecidas. Isso não é ser radical de esquerda. Isso é ser civilizado numa sociedade civilizada.

    RFI: O campo democrata, em poucas semanas, remodelou completamente a sua estratégia. Como é que podemos analisar a forma como o Trump está a lidar com a situação?

    Germano Almeida: Não está a conseguir lidar bem. É preciso, para ser justo, dizer que há um mês Trump tinha a eleição ganha. A sua mensagem de que 'Biden não estava em condições' estava a passar. Mas depois, entretanto, com a desistência de Biden, tudo muda e ele ainda não conseguiu refazer isso. Está agora a tentar refazer, focando a mensagem mais na parte económica. Isso claramente é uma estratégia dos seus estrategas de campanha, mas está no sangue de Trump de depois divergir para coisas absolutamente disparatadas, como dizer que ele é mais bonito do que Kamala, que ela tem o riso que é irritante. Enfim, esse tipo de conversa anima os comícios dele. Há quem goste muito, mas sinceramente não acho que seja assim que ele vai ganhar a eleição. Isso é um problema dele. A questão é que realmente tem essa dualidade, entre um caminho que até existe porque as sondagens dizem que há mais americanos a confiar em Trump na parte económica do que em Kamala. Isso é uma oportunidade para o Trump, mas até agora ele não está a saber agarrá-la, embora ele estivesse claramente a liderar a eleição e portanto ainda falta algum tempo. Neste momento, parece-me que Kamala, se as eleições fossem hoje, ganhava. Mas a eleições vão ser daqui a 77 dias. Tudo pode acontecer.

    RFI: Em paralelo com a Convenção democrata, o campo republicano está a lançar um procedimento para a destituição de Joe Biden. Isto a poucos meses do fim do seu mandato. Qual é o objectivo desta iniciativa, a seu ver?

    Germano Almeida: É um objectivo político, mas é um disparate pegado. Se a maioria republicana no Congresso quer aproveitar o tempo que falta desta legislatura e deste mandato com isso, acho que faz mal e acho que perde -lá está- o tal centro e os tais moderados. Está a fazer um favor a Kamala que está a agarrar os moderados. 

    RFI: Com toda esta unanimidade que há em torno de Kamala Harris, a seu ver, quais poderiam ser os seus pontos fracos? 

    Germano Almeida: Tem alguns. Para já, ela está a conseguir contornar aquilo que diziam que eram os pontos fracos dela. Ela está a conseguir passar bem a mensagem e acho que se deve continuar a ir por aí. Os pontos fracos: até agora, ela ainda não se dispôs ao contraditório e tem que a fazer naturalmente. Tem que ter entrevistas, tem que ter conferências de imprensa. Não pode ser só situações completamente controladas por ela, como esta convenção. Assim é fácil brilhar, não é? Por outro lado, tem algumas coisas do seu passado que podem ser pontos fracos, nomeadamente o verão de 2020, depois da morte de George Floyd e os tumultos nas cidades americanas, sobretudo no Estado do Minnesota, precisamente já com Tim Waltz como governador, actual candidato a vice-presidente. Waltz foi acusado de não saber lidar bem com a situação e de criticar a polícia, de estar do lado dos manifestantes que estavam a praticar distúrbios. E Kamala, um bocado no calor daquilo, disse também coisas como 'se calhar temos de pensar em defund (deixar de financiar) a polícia' e portanto, naturalmente que isso vai ser usado pela campanha de Trump dizendo que Kamala e Waltz são um 'ticket' que põe em causa a segurança. Será muito por aí. Mas há um pequeno problema se quiser ir por aí, basta recordar várias vezes uma data: 6 de Janeiro de 2021 (data do ataque contra o Capitólio). Portanto, eu acho que o que o eleitorado moderado está a perceber isso, um grande risco para a democracia americana é, naturalmente, um regresso de Trump, perante uma coisa que não é um 'se'. Já aconteceu. Já houve um ataque às instituições democráticas de quem continua a dizer que 'não' a uma eleição que objectivamente perdeu há quatro anos.

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  • Guiné-Bissau: Sissoco Embaló “quer a bicefalia dos partidos com assento parlamentar”

    A ala do MADEM G-15, fiel a Braima Camará, realizou este fim-de semana um conselho nacional para debater a situação política do segundo maior partido da Guiné-Bissau, ao mesmo tempo em que a ala leal a Umaro Sissoco Embaló organizou um congresso extraordinário que terminou com a nomeação de Satu Camará, para o cargo de coordenadora do movimento. Abdu Mané, coordenador do Conselho de Direitos do MADEM G-15, acusa o chefe de Estado Umaro Sissoco Embaló de querer a bicefalia dos partidos e garante que a lei vai mostrar que este congresso é ilegal.

    A RFI: A ala do MADEM G-15 fiel a Umaro Sissoco Embaló organizou, este fim-de-semana, um congresso extraordinário que terminou com a nomeação da veterana de luta pela independência, Satu Camará, para o cargo de coordenadora do movimento. Qual é a vossa posição sobre as conclusões deste congresso?

    Abdu Mané, coordenador do Conselho de direitos do MADEM G-15: O congresso é manifestamente ilegal porque viola os estatutos do MADEM G-15.

    O MADEM G-15, o segundo maior partido da Guiné-Bissau, tem agora dois coordenadores- Braima Camará e Satu Camará. A veterana da luta pela independência que apelou à união de todos os órgãos do partido para que seja ultrapassada a actual crise interna. Este apelo poderá resolver a divisão interna no MADEM G-15?

    Não, não pode. Isto é um golpe, mas que ainda não está consumado. Nós vivemos num Estado de direito democrático e vamos accionar todos os meios legais, apresentar um processo judicial, no Tribunal Regional de Bissau e também no Supremo Tribunal de Justiça. Assistimos à usurpação de competências. Quem pode convocar [um congresso] é o conselho nacional.  Todavia, o conselho nacional só convoca na base de uma proposta apresentada pelo coordenador do MADEM G-15. Ela [Satu Camará] não é coisa nenhuma. É apenas a vice-coordenadora e não tem competências para o fazer.

    Está a dizer que todas as decisões que foram aprovadas neste congresso, nomeação de oito vice-coordenadores e o levantamento de sanções a militantes, nomeadamente ao general Sandji Fati, não são válidas?

    São nulas, não têm nenhum efeito. Por detrás dessa gente está o Presidente Umaro Sissoco Embaló que está a fazer a bicefalia nos partidos políticos, violando o artigo 9º da Lei 14 97. Estamos perante um atentado contra o Estado de Direito. [Violação] do artigo 24 com o abuso de funções da parte do Presidente da República.

    Qual é o objectivo de dividir um partido que o [Umaro Sissoco Embaló] representou quando foi eleito para o cargo de chefe de Estado?

    É o velho slogan agora “dividir para melhor reinar”. Ele quer fazer um segundo mandato, dividindo todos os partidos políticos, sobretudo os partidos com assento parlamentar. Já tentou isso no PRS, na APU PDGB NGB e agora é no MADEM G-15.

    O coordenador do movimento, Braima Camará, lembrou que havia um acordo político para que Umaro Sissoco Embaló fizesse apenas um mandato. Que com que base é que foi feito este acordo político?

    Eles têm uma testemunha, o coordenador Braima Camará falou claramente sobre isso. Trata-se do ex-presidente do Senegal, Macky Sall, que já não está em exercício de funções, mas testemunhou o acto. Nós temos que honrar a palavra. A palavra dada é palavra cumprida. Dos dois, alguém rasgou o acordo.

    Considera que as eleições presidenciais na Guiné-Bissau são o pomo da discórdia?

    Ele [Sissoco Embaló] marcou eleições legislativas, mas até agora tem estado a fazer campanha para as eleições presidenciais. É um contrassenso. (…) Todos os dias faz uma intensa campanha presidencial.

    Este fim-de-semana, a ala leal a Braima Camará, da qual o senhor faz parte, organizou um conselho nacional onde decidiu retirar a confiança política ao chefe de Estado. O que vos levou a tomar essa decisão?

    Por várias razões. Estamos a falar da violação sistemática da Constituição, abuso do exercício de funções, detenções arbitrárias, violação de direitos humanos. Isto é inadmissível, inaceitável. Ele é chefe de Estado e, ao mesmo tempo, exerce a função de chefe do Governo. Faz chantagem política com os nossos militantes que estão a ser corridos na administração pública. Estamos a assistir uma partidarização da administração pública.

    O chefe de Estado liga directamente aos governadores regionais para participarem num suposto congresso marcado pela Satu Camará, fazendo chantagem política de cessação de funções destes governadores regionais.

    Foram estas as razões que vos levaram a assinar a Declaração Política pela Salvação da Democracia em Lisboa, no passado dia 12 de Agosto, juntamente com outros partidos?

    Exatamente. Querendo fazer um segundo mandato, vamos ter de avaliar o desempenhou do primeiro mandato e, em função desses resultados, [tomaremos uma decisão]. No entanto, quando a pessoa insiste, viola sistematicamente a Constituição, com prisões arbitrárias, criando uma força anti golpe, pondo em causa o maior legado que Amílcar Cabral nos deixou… Como é que podemos acompanhar este Presidente? Nós não podemos.

    Nas conclusões do conselho nacional vocês decidem marca um congresso e também recomendam processos disciplinares….

    Sobre esta matéria não posso falar ainda. Vai ser aberto um processo no qual as pessoas terão a oportunidade de se defenderem. O Conselho Nacional delegou poderes à Comissão Política Nacional e vamos fazer uma reunião da Comissão Política Nacional para marcar a data da realização do primeiro Congresso Extraordinário.

    O coordenador Braima Camará esclareceu ainda os membros do conselho nacional, presentes na reunião, que não assinou nenhum acordo político com a coligação PAI-TERRA RANKA, mas sim com a APU-PDGB e PRS. Existe a necessidade de se afirmar um distanciamento do PAI-TERRA RANKA?

    Isto é subjectivo. A verdade é que ele não assinou o acordo com o PAI-TERRA RANKA, mas isso não é um bicho de sete cabeças. Na verdade, o único acordo que ele assinou foi  com a coligação KUMBA LANTA, a APU-PDGB e PRS.

    Então não descartam um acordo com o PAI-TERRA RANKA?

    Não é questão de descartar. Depende das circunstâncias políticas. Na verdade, neste momento nós temos um acordo firmado para a salvação da democracia com o PRS e APU-PDGB.  Agora em função de outras circunstâncias possíveis, pode-se ver.  No entanto, é prematuro falarmos de um acordo com o PAI-TERRA RANKA.

    Apelam à comunidade nacional internacional para estar atenta “às violações da Constituição da República, sequestro das instituições judiciais e outras violações cometidas pelo chefe de Estado da Guiné-Bissau”. O que é que vocês esperam da comunidade internacional?

    Estamos perante uma degradação dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Um dos nossos militantes, R Kelly, que esteve no aeroporto e não fez flagrante delito, foi levado para o Ministério do Interior, ficando lá 72 horas. Como é que nós podemos aceitar isso, ficarmos calados, impávidos e serenos? Em nome de quê?

    Mas porque é que só agora decidem falar? Quando outras situações semelhantes já aconteceram no país?

    Nós falamos das outras situações e até emitimos comunicados sobre isso. Mas tudo isso está a acontecer à ordem do general Umaro Sissoco Emabalá. Ele é o único responsável.

    O Presidente guineense, Umaro Sissoco Emabalú, exonerou o secretário de Estado guineense das Comunidades, Cipriano Mendes Pereira, sem evocar até ao momento os motivos. O secretário de Estado que esteve ao lado do líder do G15, Braima Camará. Pensa que esta ligação ao coordenador do Madame G15 poderá ter estado na origem desta demissão?

    Desculpe, minha senhora, mas isto não é perseguição política? Por que é que não exonera o Marciano Silva Barbeiro? Ele que esteve e está ao lado do Satu Camará. Porque é que não exonera Soares Sambu? Porque é que não exonera estes dois? Se todos eram do MADEM G-15. Estamos diante de dois pesos e duas medidas. O chefe de Estado exonerou o secretário de Estado por ter estado na nossa reunião do conselho nacional e os outros estiveram num congresso, violando todos os estatutos do MADEM G-15 continuam no Governo.

    E o que é que vocês contam fazer?

    Fazer uma acção judicial e trabalhar com as nossas bases, passando as mensagens de que mais uma vez se está a violar a Constituição e as demais leis do país.

    Mas como explicam que membros do seu partido continuem a apoiar o Presidente da República da Guiné-Bissau?

    Eu não tenho nada que explicar isso!

    8 min

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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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