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  • "Preocupações com as memórias do futuro" no centenário de Amílcar Cabral

    "Chegar aos 100 anos de Cabral e encontrar toda esta panóplia de iniciativas ao nível do mundo para celebrar esta data é algo que não só nos orgulha, mas encoraja a continuar esse debate e a questionar o passado, a desafiar o presente e acreditar que o futuro será muito melhor", descreveu o sociólogo, investigador guineense, Miguel de Barros, sobre o simpósio internacional Amílcar Cabral que decorre em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.

    RFI: Assinalam se esta terça-feira os 50 anos do reconhecimento da independência da Guiné-Bissau. A Guiné-Bissau declarou unilateralmente a sua independência a 24 de Setembro de 1973 e foi reconhecida por Portugal a 10 de Setembro de 1974, depois da Revolução portuguesa. Como é que este reconhecimento mudou a dinâmica da luta pela libertação e quais é que foram as implicações internacionais?

    Miguel de Barros: O reconhecimento não mudou a dinâmica da luta, no sentido em que o PAIGC já tinha proclamado a própria independência unilateral e com o reconhecimento de alguns países, inclusive das Nações Unidas. O reconhecimento veio trazer três questões fundamentais: A primeira questão tem que ver com o Acordo de Argel que permitiu, por um lado, não só o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, mas o princípio, a auto-determinação e o reconhecimento também da independência de Cabo Verde, criando as condições necessárias do ponto de vista político, para que essa decisão se tome baseado naquilo que foi a luta de libertação na Guiné-Bissau. Outro elemento importante é que esse processo abriu o caminho para o próprio reconhecimento da independência de São Tomé e Príncipe, que não teve uma luta de libertação nacional. O terceiro elemento que é mais simbólico, no meu ponto de vista de uma forma implícita, o regime fascista português decapitou-se a partir do processo da luta de libertação na Guiné-Bissau. O facto de o 25 de Abril ter acontecido depois da proclamação da independência na Guiné-Bissau abriu espaço às negociações para depois se dar o reconhecimento de independência de outros países, que vieram demonstrar por um lado, aquilo que era a máxima da acção política a curto prazo ao médio prazo do direito à auto-determinação dos povos.

    Hoje, na memória histórica política desses Estados, tanto na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, por exemplo, essa data não tem relevo nenhum, nem do ponto de vista político constitucional, nem do ponto de vista popular. Se olharmos, por exemplo, para as questões da independência, mesmo havendo disputas de memória entre correntes políticas partidárias, procuram trazer a sua versão daquilo que é a independência. Nós encontramos no campo popular, na sociedade civil, aquilo que é uma espécie de reposição da verdade histórica. Quanto mais conseguirmos avançar nessa perspectiva de uma maior apropriação de elementos históricos ao nível das novas gerações e de instituições não estatais, teremos, de facto, a conseguir, pelo menos fazer prevalecer não só a questão da memória histórica, mas também aquilo que são as memórias do futuro. E perceber como é que esses povos constroem a sua própria identidade baseada naquilo que é a sua representação histórica.

    Desde a sua independência, a Guiné-Bissau experimentou vários golpes de Estado, instabilidade política, uma democracia frágil, qual é que é o legado político dos últimos 50 anos?

    O legado político dos últimos 50 anos tem que ser completamente separado do ponto de vista histórico. O processo da luta de libertação que levou à independência permitiu efectivamente à construção de uma sociedade mais livre, uma sociedade pluralista e, ao mesmo tempo, onde é possível que os guineenses determinam a sua própria condição. Do ponto de vista da construção do Estado, nós não conseguimos construir o Estado naquilo que são as funções vitais, em termos de capacidade de prestação de serviços à população, em termos de capacidade da salvaguarda da segurança humana em termos de capacidade daquilo que é representação do Estado a partir daquilo que são as convenções, os protocolos e também como é que esse próprio Estado foi conceptualizado no sentido de permitir, numa primeira linha, a construção de uma ideia endógena de como é que esse Estado se imerge no pós-colonialismo.

    Por outro lado, também, como é que a sua estrutura económica favorece, de algum modo, a coordenação de políticas públicas que levam a capacidade de decisão com autonomia. A construção desse Estado, olhando tanto para a questão histórica da independência como para a questão, por exemplo, da construção do Estado, há uma terceira linha, que é como é que nós construímos a democracia, que é o grande elemento. Aí nós também não fomos felizes, porque, por um lado, nós partimos para o processo democrático, sem consolidação daquilo que seriam os pilares da própria democracia, uma sociedade com maior nível de educação e de instrução, uma sociedade com maior capacidade de construir o seu pilar de infra-estrutura económica e uma sociedade que tem a capacidade de primar pela liberdade para favorecer a possibilidade de construção pública da capacidade crítica e, ao mesmo tempo, de permitir aquilo que seria a construção de organizações cívicas e políticas que iriam inspirar, a partir desse pressuposto, a independência da autonomia de liberdade. Desse ponto de vista, nós não conseguimos construir uma sociedade com esses pilares, de todo esse processo da Guiné-Bissau e da sociedade guineense, aquilo que são elementos de maior resiliência.

    Alguns desses pilares chegam-nos através de Amílcar Cabral e é por isso que também estamos aqui em Cabo Verde. Esta segunda-feira arrancou o Simpósio Internacional "Amílcar Cabral, um património nacional e universal", que decorre aqui em Cabo Verde, mas também na Guiné-Bissau. Dois países que um dia estiveram para ser um só?

    Do ponto de vista da conceptualização de um único país, Cabral foi muito claro na perspectiva de que o pós independência ia dar lugar a um referendo para que os povos se posicionassem. Mas isso não aconteceu, o que também, no meu ponto de vista, colocou o próprio projecto político em causa. Por outro lado, havia condições históricas e políticas para que essa união se justificasse. Os cabo-verdianos estavam na administração pública portuguesa, tinham uma maior possibilidade de acesso ao sistema de ensino e, ao mesmo tempo, isso poderia favorecer uma luta política do ponto de vista diplomático, mas também a própria capacidade de contrabalançar aquilo que eram os efeitos da colonização, porque conheciam a máquina administrativa colonial, os guineenses não só tinham um território profícuo para a própria luta de libertação, mas tinha também a densidade humana para essa luta. Tinham as tais tecnologias sociais e culturais que permitiam resistir nesse contexto.

    Ao mesmo tempo, tinha, por um lado, nos dois povos a capital de resistência e bravura que favoreciam a uma luta colectiva. Porque, por exemplo, levar a derrota do colonialismo no território da Guiné-Bissau implicitamente ia levar a derrota do colonialismo português nos outros países e acabou por acontecer. Mas, por exemplo, levar a derrota do colonialismo em Cabo Verde não ia levar a derrota do colonialismo na Guiné-Bissau, porque Portugal incutiu uma matriz extremamente segregacionista e que criou uma ideia identitária a partir do território que hoje é Cabo Verde, que não se conectava com outras realidades e colocava como se fosse uma classe intermediária que também apoiava o serviço da própria colonização e instrumentalizou isso enquanto elemento também divisionista. Felizmente, Cabral conseguiu posicionar-se, tirou as mais valias desse processo e levou a uma luta conjunta que favoreceu as independências.

    Hoje, aquilo que têm sido os pontos de encontro entre a sociedade cabo-verdiana ou a população que os guineenses têm sido, sobretudo a nível de colectivos activistas de movimentos africanistas que não estão limitados só a partir de uma visão binacional. Mas olhem como é que as suas experiências, como é que os modelos culturais, como é que os modelos de solidariedade podem favorecer intercâmbios e diálogos é que projecta a questão do pan africanismo no Brasil como uma possibilidade de reconstrução identitária, mas também de reorganização de formas de participação de formas de criação de instituições que respondem à capacidade efectivamente da agenda pública nacional e que criam a tal autonomia que leva ao progresso que Cabral tanto advogava.

    Ainda há marcas dessa segregação criada pelos portugueses aqui em Cabo Verde, por exemplo?

    Sim, sim, há bastante. As questões identitárias não se esgotam a partir, por exemplo, de decretos. As questões identitárias não se esgotam a partir daquilo que são as memórias que as pessoas têm mais próximas ou não dos fenómenos sociais. As questões identitárias colocam-se sobretudo em formas de convivência. Como é que essas formas de convivência favorecem acesso a determinados níveis de privilégio e ou a determinados níveis de segregação? Em Cabo Verde posso dar dois exemplos interessantes. Quando uma cabo verdiana se casa, por exemplo, com um emigrante do Norte global, o termo que utilizado em crioulo é kompu raça , ou seja, construir a raça, arranjar a raça. Mas quando, por exemplo, há um casamento entre uma cabo verdiana e o imigrante, por exemplo oeste africano, o termo que utilizar straga raça estragar a raça, então esse é o elemento do colonialismo. Esse é o elemento da segregação, porque se criou essa ideia efectiva na construção dessa sociedade crioula.

    Uma outra ideia importante, por exemplo, aqui em Cabo Verde, quando as pessoas têm acesso ao dinheiro ou ao capital económico e têm alguma possibilidade de influência, de alguma decisão, de alguma escolha ou alguma capacidade aquisitiva. O termo que utilizar dja mbranku dja, ou seja, já estou branco. Quando ouvimos essas narrativas, quando há essas práticas, quando há essas representações, isso demonstra, de algum modo, que o processo colonial que levou à segregação e à construção da ideia do branco superior ou preto é algo que ainda tem que ser desconstruído e tem que ser desmistificado para criar formas mais inclusivas que favorecem depois a tal integração social. Essa integração favorecer todas as manifestações não só de norte global, mas também das pessoas do Sul global e das pessoas oeste africanas que constituem parte importante dessa sociedade cabo-verdiana.

    É preciso levar a cabo um trabalho sociológico ou que a mudança aconteça através da educação?

    É um trabalho político no qual entra a dimensão sociológica entre a dimensão educativa, entre a dimensão sociocultural, entre a dimensão económica, entre a dimensão geográfica e espacial e entre, sobretudo aquilo que são a capacidade de construir compromisso inter-geracional para permitir com que se dispa todo esse elemento de segregação e que pairam e trazem novas formas de racismo, de exclusão na sociedade cabo-verdiana.

    Não há comemorações oficiais em torno do centenário de Amílcar Cabral na Guiné-Bissau. Os eventos são organizados pela sociedade civil. Faz parte da organização que leva este simpósio e que o traz aqui a Cabo Verde?

    Nós estamos há dois anos a trabalhar sobre esse processo. Lançamos inicialmente à celebração do simpósio em 2022. Em 2023, começámos o processo de intervenção muito mais localizado ao nível de conferências, debates, estruturas, mas também no meio do processo discutimos com Cabo Verde sobre qual seria a possibilidade do evento ter uma coordenação. Essa coordenação levou-nos à ideia, perfeitamente partilhada e com unanimidade, que deveríamos ter uma iniciativa conjunta, entre as organizações académicas e organizações da sociedade civil, mas também onde entra a Fundação enquanto elemento que trabalha sobretudo na preservação do legado da memória de Amílcar Cabral. E funcionou. Funcionou, por um lado, porque havia muita gente que queria ter um nível de debate orientado com o método e que favorece a melhor compreensão dos vários ensinamentos teóricos e práticos de Amílcar Cabral, mas também porque há uma preocupação agora das memórias do futuro, de como é que as novas gerações que não conviveram com Cabral, que não tiveram luta de libertação, estão a conceptualizar Amílcar Cabral? E depois, como é que Cabral nos dá elementos que nos permitem interpelar a nossa condição no momento actual e que tecnologias que nos oferece para orientar também face ao futuro.

    Nessa perspectiva, mais de 50 comunicações foram apresentadas e iniciativas socio-culturais, movimentos, por exemplo, nas comunidades da diáspora africana a nível do mundo. Isso demonstra não só a vitalidade do pensamento do Cabral, mas mostra em que medida Cabral continua a inspirar processos de construção do Estado e a  construção do processo de participação. Como dizia Pedro Pires, se o Cabral estivesse vivo, acho que estaria feliz porque ele não está sitiado nem pelos militares, não está sob controlo nem dos partidos políticos, mas está efectivamente junto do povo. As questões que Cabral traz, por exemplo, sobre o lugar do povo na construção da sua história enquanto sujeito da sua historia e como é que o povo deve estar vigilante face os processos que levam a derrapagens políticas e como é que o povo deve ser entidade que deve estar na vigilância da acção pública.

    Chegar aos 100 anos de Cabral e encontrar toda essa panóplia de iniciativas ao nível do mundo em celebrar esses 100 anos é algo que nós devemos ficar não só orgulhosos e contentes, mas encoraja-nos a continuar esse debate e a questionar o passado, a desafiar o presente e acreditar que o futuro será muito melhor.

    É impossível responder a esta questão, mas se Cabral estivesse vivo, de que forma é que ele olharia para Cabo Verde e Guiné-Bissau?

    Fazer futurologia é difícil, mas mais complicado é estar no futuro e olhar para trás. Ele faria uma leitura diferente, porque ele, mais do que ninguém, compreendeu as dinâmicas socioculturais e históricas dos dois povos, dos dois países. Creio que Cabral estaria não só numa situação difícil em termos de encarar aquilo que são hoje as possibilidades de construção de uma governança autónoma com capacidade de prevalecer a soberania dos países. Cabo Verde é um país que tem muita dependência económica na condução das suas políticas públicas, no seu posicionamento internacional. Isso foi claramente comprovado, por exemplo, com a oposição de Cabo Verde em relação à guerra na Ucrânia, em relação, por exemplo, ao massacre de Israel na Palestina. Mas também estaria numa situação muito complicada com a Guiné-Bissau, para ver, por exemplo, a questão de como é que a falta de ética na política e na governança levou a Guiné-Bissau a autoritarismos ou à questão do narcotráfico. Muito mais difícil ainda será como, por exemplo, lutar pela independência, pela liberdade e hoje encontrar o país também dependente da ajuda externa e onde os jovens têm que enfrentar muitos desafios para conseguirem protestar. A posição de Cabral perante essas circunstâncias desses países não seria de lamento, seria, em primeiro lugar, de confronto e, ao mesmo tempo, da busca das alternativas que poderiam levar a novos caminhos. Hoje, por aquilo que são as manifestações vindas sobretudo de colectivos não partidarizados da sociedade civil, acredito que acabará. Estaria a encontrar se exactamente nesses movimentos, nesses colectivos, as bases para uma nova revolução.

    O Presidente do Pedro Pires, que participou neste primeiro dia do simpósio em torno do centenário Amílcar Cabral, dizia que "ninguém falhou porque ninguém sabia e que a falha foi a ignorância". Concorda?

    Por um lado, sim, eles foram jovens, foram muito, muito novos para o processo da luta e tiveram pouco contacto com aquilo que era a realidade social urbana desses países e também por aquilo que era a máquina necessária em termos de funcionamento. Mas, por outro lado, havia também ameaças, embora militarmente o regime colonial foi derrotado, mas o regime colonial, derrotado militarmente, não abdicou das influências políticas para condicionar também o destino desses países e ou para pôr em causa a própria revolução e voltar a tomar o poder. A partir do momento que essas questões existiram, não permitiu também uma maior abertura desses regimes para algo que podia favorecer uma entrada de tecnocratas de jovens e que não tivessem estado no processo de luta, de libertação. Agora, a partir do momento que se toma a decisão e se pensa que se está em condições de decidir em nome do povo, tem que se avaliar como é que essas medidas permitirão efectivamente cumprir aquilo que foi o compromisso e o engajamento das partes. Como é que a condução dos destinos do país levou aquilo que o camarada dizia à dignidade e ao progresso. Temos sempre que ter esses elementos como uma bússola no sentido de permitir uma maior justiça social, uma maior equidade entre comunidades, entre povos, entre territórios e que favorecem a emancipação que hoje nós estamos a discutir nesse simpósio.

    20 min
  • Andrew Parsons: "Estes são os Jogos Paralímpicos mais espectaculares da História"

    Após dez dias intensos de competições, os Jogos Paralímpicos de Paris chegam hoje ao fim encerrando um capítulo de ouro da capital francesa. A RFI entrevistou Andrew Parsons, presidente do Comité Paralímpico Internacional, e ele garantiu que estes foram os Jogos mais espectaculares de sempre e que o sucesso junto do público vai fortalecer o papel do desporto paralímpico em todo o Mundo. 

    RFI: Disse que estes tinham de ser os Jogos Paralímpicos mais espectaculares de sempre. São?

    Andrew Parsons: Sem dúvida, estes são os Jogos Paralímpicos mais espectaculares da História. Paris 2024 é a referência e a nova referência, o novo benchmark para qualquer futura edição dos Jogos Paralímpicos. Isso em termos da organização dos jogos, da promoção dos jogos, da experiência dos atletas. O que nós vimos aqui foi incrível do ponto de vista das instalações, o público, a atmosfera que foi criada para os atletas e o esporte. Os atletas tiveram performances melhores do que nunca. 

    Havia muitas dúvidas em relação à adesão do público para estes Jogos Paralímpicos. Nós vimos estádios cheios, vimos arenas cheias também nesses Jogos Paralímpicos?

    Vimos arenas cheias em todas as modalidades desportivas. Às vezes, pela manhã, em atletismo e natação, em número menor, mas em provas preliminares de modalidades colectivas, foi um sucesso absoluto. 2,5 milhões de bilhetes vendidos. É uma marca histórica, mas mais importante do que isso, do que os números, a qualidade e a interacção entre os espectadores e os atletas. E isso aconteceu aqui de uma forma incrível. 

    E que lições é que se pode tirar para Los Angeles em 2028? Do que correu bem e do que correu menos bem? Ou, se quiser, podemos dizer do que correu mal.

    Eu acho que o fundamental é adequar os jogos à ambição de cada país, enquanto cidade, enquanto movimento desportivo. E acho que isso Paris fez muito bem. Existe um legado enorme dos jogos do ponto de vista desportivo, mas também um legado enorme do ponto de vista social. A acessibilidade na cidade melhorou de uma forma incrível. Comparamos Paris de hoje com Paris há sete anos, quando eles foram eleitos sede para estes jogos e mudou. Mas vão continuar evoluindo. Os Jogos Paralímpicos são um acelerador, um catalisador. Não é um ponto final. O metro foi anunciado agora há pouco tempo. Há a intenção de tornar todo o sistema de metro de Paris acessível. Isso é um processo de 20 anos e o importante é que a sociedade francesa e parisiense continua esse processo de mudança. 

    O que se tem falado é que esse processo de mudança não diz respeito aos atletas que estão aqui a concorrer ou às pessoas que atualmente tem deficiências. Podem dizer respeito a todos nós porque não sabemos o que nos vai acontecer amanhã. E se tudo correr bem, um dia, um dia seremos mais velhos e precisaremos de mais ajuda, não é? 

    O fundamento principal de acessibilidade é que é para todos. Então, se nalgum momento das nossas vidas nós vamos ter necessidades de mobilidade maiores do que nós temos agora, se a gente adquire uma deficiência, se ficarmos mais velhos, uma mulher que pode engravidar e, obviamente, temporariamente, vai ter uma necessidade maior de mobilidade. Crianças, bebés com carrinhos. O princípio da acessibilidade é exactamente esse desenho universal e é para todos, não é só para pessoas com deficiência. Segregar também é muito complicado. Quando você coloca as pessoas com deficiência segregadas, do género elas só vão andar por aqui e as pessoas sem deficiência por ali, não está fazendo um favor para a sociedade. 

    Fala se muito então de igualdade nestes Jogos Paralímpicos. Mas como é que é possível ter igualdade se muitas vezes o que vemos é um grande financiamento para os Jogos Olímpicos e um financiamento mais pequeno para os Jogos Paralímpicos, especialmente para os atletas a nível de bolsas, a nível de oportunidades de treino. Estes jogos dão mais argumentos ao vosso comité para nos próximos quatro anos fazerem evoluir essa situação? 

    Sem dúvida que sim e eu penso que está evoluindo no mundo. Existem muitos países hoje que investem mais no desporto paralímpico e onde, por exemplo, o prémio por medalhas é igual, seja ele vindo de governos ou de entidades desportivas. Claro que o nosso movimento é mais jovem e mais novo do que o movimento olímpico, que tem mais de 120 anos de história. Então, nós ainda em muitos países, estamos nesse processo de crescimento, como na sociedade. Se a gente pensar onde a gente está na sociedade em termos de reconhecimento, em termos de retirar as barreiras para as pessoas com deficiência, nós ainda estamos evoluindo, estamos longe de onde a gente quer estar. Então, acho que o movimento paralímpico vem talvez puxando essa mudança na sociedade, mas ainda não estamos onde queremos. 

    E a nível de treino, a nível de ir buscar as pessoas, o trabalho do comité também é esse especialmente quando falamos de países com menos recursos. Neste momento vocês estão a pensar com todas as pessoas que encontraram aqui novos programas exactamente para tentar ir buscar ou alargar pequenas delegações que tinham vindo, por exemplo, um ou dois atletas e que em Los Angeles, por exemplo, possam vir quatro ou cinco?

    Essa é a ideia. É por isso que nós estamos trabalhando com outros organismos fora do desporto. Nós lançámos aqui uma parceria que pensamos que será muito forte com a UNESCO e com os governos de vários países, porque, obviamente, a ideia é que países em desenvolvimento possam ter mais oportunidades para o desporto, para as pessoas com deficiência e até países que ainda não têm o desporto paralímpico implementado ou organizado.

    E mais mulheres?

    Mais mulheres é fundamental. Esse é o objetivo nosso chegar aos 50% a 50% nos Jogos de 2032 em Brisbane. E nestes jogos nós chegámos a 45% das atletas mulheres. Não estamos satisfeitos com isso. Temos que chegar aos 50/50. Existem razões sociais, principalmente no que diz respeito às pessoas que adquirem deficiências do impacto maior no público masculino, mais envolvido em episódios de violência e acidentes. Então, existe aí uma participação talvez maior de homens no que diz respeito a pessoas com deficiência. Mas é um movimento nosso, movimento por igualdade de oportunidades.

    Muita gente descobriu nestes Jogos Olímpicos o CeciFoot, outros desportos e vibram tanto como se como se vibra no futebol só como é que se faz com que estas modalidades sejam conhecidas e e que possam ser vistas quando muitas vezes os episódios acontecem de quatro em quatro anos? Há uma discussão sobre, por exemplo, direitos de reprodução nas televisões. Há ideias para isto? 

    Na verdade, existe um calendário paralímpico permanente. todos os fins de semana há eventos paralímpicos acontecendo. Claro, nós temos os mesmos desafios que o desporto olímpico, o que acontece entre os jogos? E aí precisamos de investimento, dos meios de comunicação com uma presença maior nos eventos, que não são apenas os Jogos Paralímpicos. O interesse cresce, há uma demanda e é esse talvez seja o próximo passo. Precisávamos que os Jogos Paralímpicos fossem grandes, fossem relevantes. Eu penso que desde Pequim a gente tem conseguido isso. Agora, consolidar com esses jogos foram os mais espectaculares da história. E agora também trabalhar o que acontece entre os jogos.

    E novas modalidades?

    Nós abrimos um processo para essas novas modalidades se apresentarem. É claro que precisamos que sejam desportos globais, que se desenvolvam em três continentes, pelo menos. Também é preciso pensar o que essas modalidades representam dentro do contexto dos jogos, Qual população a que se destinam em termos de atletas, em termos de público, Uma nova modalidade em 2028 é a para-escalada. Para Brisbane o processo vai ser aberto em cerca de dois anos e a gente está de olho em novas modalidades. Sim. 

    O desporto, muito para além da questão da saúde física para uma pessoa com deficiência, é claro, e também para as pessoas sem deficiência. É claro que há também a questão da saúde mental, mas é sobretudo o laço social para as pessoas com deficiência. Tirar as pessoas de casa e fazer com que as pessoas se sintam inseridas numa sociedade, não? 

    O desporto é positivo para todo mundo e as pessoas com deficiência não são diferentes. A maioria das pessoas que praticam desporto no mundo jamais chegarão a uma Olimpíada. Mas os atletas são as referências. Essas são as pessoas que nos inspiram a praticar desporto. A pessoa com deficiência vai praticar desporto por saúde, por lazer, por integração, por sair de casa muitas vezes. E o treino ou actividade desportiva é o grande momento da semana daquela pessoa, seja ela qual seja ela sem deficiência. Então, queremos que isso seja oferecido também às pessoas com deficiência na escola, nos clubes sociais.

    Se tiver de convencer um amigo que tenha algum tipo de deficiência a praticar desporto, o que é que lhe diz para motivar?

    Primeiro, mostrar que o desporto é uma experiência positiva. Então que ele vai ser primeiro, que vai se divertir, que vai ter um momento importante, que vai ser para sua saúde. Quando as pessoas que praticam o desportosimplesmente para para compensar outros hábitos que elas têm, sejam para manter um físico melhor, a saúde melhora. E esses benefícios todos vêm. Então existem uma série de diferentes formas de envolver. Agora, acho que importante também é o desporto na escola, a pessoa com deficiência, principalmente com a educação inclusiva. É importante que a educação seja inclusiva também na educação física. Muitas vezes a educação física é subestimada, mas ela é muito, muito importante de atrair aquela criança, aquele jovem, para o desportoe não para se tornar um campeão paralímpico ou olímpico. Mas para você tem valores importantes de liderança, resiliência, trabalho em equipa, disciplina e saúde. 

    São os jogos mais espectaculares de sempre. Quais é que são os momentos mais espcetaculares para si? O que é que viveu aqui que fica na sua memória nesses Jogos Paralímpicos? 

    Para mim, alguns momentos foram muito importantes a cerimónia de abertura, sem dúvida nenhuma, foi um momento incrível, porque foi a primeira vez fora de um estádio tradicional no coração da cidade. Então nós sentimos o momento paralímpico sendo abraçado pela cidade de Paris, pelo povo francês, com a mensagem correcta. Outro momento especial foi quando a primeira medalha conquistada por uma atleta refugiada no taekwondo com a Zakia Khudadadi. Eu lembro da trajectória dela desde que ela chegou a Tóquio depois de ser evacuada do Afeganistão, numa operação espectacular que culminou com a participação dela em Tóquio e aqui. Depois de a ver treinando por três anos com condições, o que ela foi capaz? Então é mais um sinal, mais uma prova de que se você retirar as barreiras, as pessoas com deficiência podem fazer qualquer coisa, mesmo os refugiados numa situação tão difícil. 

    O que é que nos pode dizer sobre a cerimónia de fim destes Jogos Paraolímpicos hoje à noite? Há alguma coisa que possa revelar? 

    Vai ser uma grande festa. Eu acho que já foram anunciados aí uns 20 DJs franceses. A ideia é que os atletas e as delegações possam celebrar. A cerimónia de abertura, normalmente, define o tom da Paraolimpíada e a cerimónia de encerramento, na minha visão, é uma grande celebração. Então vão haver os elementos de protocolo, vão haver os momentos de reconhecer as delegações mas também vai ser uma grande festa. 

    14 min
  • França: "A extrema-direita está em posição de dizer quem pode ou não estar no governo"

    Michel Barnier, o novo Primeiro-Ministro nomeado nesta quinta-feira pelo Presidente francês encetou as suas consultas políticas com vista à formação de um governo, contra o qual desde já a esquerda disse que iria apresentar uma moção de censura, enquanto a extrema-direita condiciona o seu apoio ao programa político que irá ser apresentado.

    Oriundo do partido dos Republicanos, quarta força mais votada nas últimas legislativas, Michel Barnier é considerado como um homem com uma forte capacidade de negociação. Exerceu cargos ministeriais no passado, tendo sido nomeadamente Ministro do Ambiente, foi Comissário Europeu e também um dos mediadores europeus do Brexit.

    Todavia, ele chega num contexto de crise política profunda, na sequência das legislativas de Julho em que a Nova Frente Popular, à esquerda, chegou à frente mas sem conseguir a maioria absoluta, sendo que o bloco centrista chegou em segundo lugar e a extrema-direita não conseguiu concretizar o anseio de chegar ao poder, mas duplicou o número de deputados no parlamento.

    É perante uma sociedade francesa e uma Assembleia Nacional extremamente fragmentadas que Michel Barnier vai ter de apresentar um governo e um projecto que ele anunciou desde já ser de "ruptura", com a ameaça constante de uma queda iminente.

    Foi sobre este momento peculiar da vida política francesa que conversamos com o historiador Victor Pereira que começa por evocar a posição de fragilidade do novo chefe do governo e do campo político que ele representa.

    RFI: O que é esta nomeação traduz, tendo em conta que os Republicanos, o partido de Michel Barnier, chegaram em quarto lugar nas legislativas?

    Victor Pereira: Macron foi buscar, de facto, uma pessoa com estatura ministerial e com experiência, mas que vem de um partido que desde 2017 tem muito pouco peso político a nível nacional. Obviamente, que o que parece é que Macron quis buscar uma pessoa que continuasse a política que ele fez, nomeadamente a reforma das pensões, a reforma do fundo de desemprego, as medidas que ele quer manter, mas que pudesse dar algumas garantias à extrema-direita. Em 2021, quando foi às primárias dos republicanos, Michel Barnier disse que ia acabar com a imigração, que ia aumentar o número de expulsões, que ia acabar com a assistência médica aos estrangeiros, um discurso que é o discurso da extrema-direita francesa. Então, talvez o Macron pensou que ele ia estar em posição bastante fraca perante ele, que ia manter a política que o Macron quer continuar a ter.

    RFI: Para a esquerda, o que isto significa, sobretudo, é que Macron, apesar de ter sido o grande derrotado nas legislativas, não quer deixar o poder.

    Victor Pereira: Isso mesmo, foi derrotado, mas ele disse que "ninguém ganhou". Isso quer dizer que ele não aceita publicamente ter perdido e, sobretudo, ele quer manter a política que ele tem. Agora vamos ver como é que vai ser formado o governo e também quanto tempo vai ser necessário para ter um governo inteiro. E vamos ver quem vai estar nesse governo e quem não vai estar no governo. Mas, ao que parece, a grande preocupação de Macron é, de facto, manter-se numa posição dominante. O que as eleições mostraram é que muitos franceses não querem que seja assim e quiseram mostrar um sinal forte de mudança, mas que talvez ele (Emmanuel Macron) não queira compreender.

    RFI: Ao apostar na estratégia de "Castets ou nada", a esquerda não fechou algumas portas a si-própria?

    Victor Pereira: É difícil porque o que se passou depois das novas eleições, é uma coisa que Macron não estava à espera e que derrotou a sua estratégia. Ele pensou que com os conflitos que existem na esquerda, nomeadamente entre a França Insubmissa de Mélenchon e o PS, mas também o Partido Comunista, que a esquerda estava muito dividida há vários anos e que essa divisão ia permitir-lhe, mais uma vez, ganhar as eleições. O que Macron não pensou de todo é que, em apenas quatro dias, a esquerda conseguiu unir-se a ter um programa comum e ter candidatos comuns. E isso foi uma das causas da derrota de Macron. É uma coisa que não antecipou de todo e que, de facto, a Frente Republicana fez em parte a favor da esquerda. Desde então, o que tentou muito Emmanuel Macron, nomeadamente quando ele dizia que não queria nomear Castets (candidata ao posto de Primeira-Ministra pela esquerda da Nova Frente Popular) e que ele pensava, nomeadamente em Cazeneuve (membro do PS), era tentar mais uma vez dividir a esquerda, nomeadamente parte do PS, que aceitaria participar no Governo com o partido de Macron e a direita. Só que Olivier Faure, secretário-geral do Partido Socialista, não seguiu este caminho, apesar de alguma divisão dentro do PS e ficou fiel à coligação da Nova Frente Popular, talvez sabendo que se ele saísse e acabasse com a Nova Frente Popular, talvez seria o fim, mais uma vez do PS e abriria uma avenida, pelo menos nas próximas eleições presidenciais, ao Jean-Luc Mélenchon (líder da França Insubmissa). Então Emmanuel Macron, mais uma vez, não conseguiu. E agora é ver se a Nova Frente Popular vai continuar a ser unida nomeadamente em caso de voto numa Moção de censura às medidas que vai apresentar Barnier e muito rapidamente o próximo orçamento.

    RFI: A extrema-direita de Marine Le Pen acaba por aparecer, nestes últimos dias, como o "fiel da balança". Que impacto é que isto pode ter para o futuro?

    Victor Pereira: Parece que Macron recebeu várias vezes Marine Le Pen para tentar saber o que é que ela achava de alguns candidatos (a Primeiro-Ministro) e isso chocou parte da opinião pública, porque nas últimas eleições houve uma frente republicana contra a extrema-direita. O próprio Macron, desde 2017, diz que ele é um candidato que vai lutar contra a extrema-direita e fazer com que a extrema-direita não possa subir mais eleitoralmente e chegar ao poder. E agora parece quase que a extrema-direita está em posição de dizer quem pode ou não estar no governo. E isso vem depois da lei de Imigração, que foi votada em finais de 2023, em que se viu que o governo de Elisabeth Borne propunha medidas que a extrema-direita considerou como suas e achou que essa lei sobre a imigração era uma vitória eleitoral da extrema-direita. Então, mais uma vez, Emmanuel Macron, que sempre disse que ia lutar contra a extrema-direita, dá a impressão de isto ser uma transição para a extrema-direita e, em vez de combatê-la, dá-lhe uma força que se viu nas últimas eleições. Nunca a extrema-direita teve um tão bom resultado eleitoral em França.

    RFI: Que hipótese Barnier tem de conseguir, para já, formar um governo de união? A União Nacional (extrema-direita) já disse que não vai participar. E do lado da esquerda, também dizem que vão apresentar uma moção de censura. Quem é que vai entrar nesse governo?

    Victor Pereira: Bom, é muito provável que vão entrar pessoas do campo de Macron e talvez algumas pessoas do partido dele e ainda tem de ser pessoas um bocadinho independentes. Sobre a esquerda, não me parece que alguém aceite. Então vai ser um governo 'Ensemble-LR' e não é impossível que os Republicanos aceitem apoiar o governo sem ter ministros dentro. Mas muito provavelmente o que vai acontecer é que os franceses não vão compreender que, depois da derrota do Macron nas Europeias, na derrota de Macron nas eleições legislativas, vamos ter de novo, provavelmente, um governo com principalmente pessoas que vêm do campo do Macron.

    RFI: Que hipóteses Barnier tem de conseguir ficar?

    Victor Pereira: Isso vai depender muito da extrema-direita, de facto, porque vamos ver se ele vai dar garantias também à extrema-direita. E como é que são as garantias para a extrema-direita? Ter um discurso ofensivo sobre a imigração, sobre a segurança, um discurso que o próprio Barnier já teve nas primárias da direita em 2021. E isso vai ser uma das chaves: até que momento a extrema-direita vai deixá-lo governar. É muito provável que ele vai tentar negociar o orçamento e outras medidas, e que a esquerda também vote uma moção de censura. É um governo que está muito a prazo.

    RFI: O primeiro desafio vai ser fazer votar um orçamento. Tradicionalmente, o orçamento começa a ser analisado no Parlamento em Outubro. Já falta pouco tempo. Como é que se vai dar essa equação?

    Victor Pereira: É preciso formar um governo. Isso não vai ser assim tão fácil porque, por exemplo, na última vez, o governo só ficou completo depois de um mês e não era necessário negociações tão amplas como agora com os Republicanos. E, de facto, vai ser preciso encontrar o ministro das Finanças. Muito provavelmente não vai ser o Lemaire (Ministro das Finanças do anterior governo) apesar de ser da direita. Ele disse várias vezes que queria sair e já tem um emprego na Suíça. É preciso encontrar um Ministro das Finanças e um secretário de Estado ou ministro do Orçamento, que consiga muito rapidamente estabelecer um orçamento, quando as contas públicas francesas estão muito mal (mais de 5% de défice). Isso vai ser um elemento ainda mais complicado para o novo governo Barnier, que vai ser apresentar um orçamento que, depois, possa ser aceite pelo Parlamento, mas também pela Comissão Europeia.

    RFI: Que outros dossiers esperam Barnier? Mencionou, designadamente a questão da reforma do sistema de aposentações, que é aquele dossier que foi alvo de muita polémica, muita controvérsia, com toda a sociedade praticamente a mobilizar-se contra esta lei. Há também a questão do subsídio de desemprego, que é preciso também resolver rapidamente, uma vez que um novo dispositivo poderia entrar em vigor dentro de algumas semanas. Há muito trabalho pela frente.

    Victor Pereira: Sim, sim, obviamente há muito trabalho pela frente. Acho que no que toca às apresentações, Barnier não vai tocar na reforma que passou com muita contestação da oposição, da rua e dos sindicatos. Estava na calha uma reforma do subsídio de desemprego para reduzir ainda os direitos dos desempregados. Uma reforma que o Attal (anterior Primeiro-Ministro) enterrou depois das eleições europeias. Vamos ver o que é que vai fazer, se vai ser uma das prioridades ou se vai deixá-la para não provocar logo uma guerra com a esquerda. E, obviamente, depois a vida quotidiana vai retomar os seus direitos. Desde já, um dos temas foi muito falado durante as eleições, foi o peso que a extrema-direita tem nos medias. Vamos ver como é que o Barnier vai lidar com isto. Será que ele vai seguir a agenda imposta pelos canais de extrema-direita, os Fox News franceses, ou vai tentar reduzir o peso desses medias? Isso é um tema também que pode aparecer em breve.

    RFI: A esquerda, desde já, renovou o convite para uma grande mobilização neste sábado contra esta situação. Como é que se apresentam os próximos tempos?

    Victor Pereira: Obviamente, a esquerda vai tentar dizer que a vontade popular não é respeitada com essa escolha e vai tentar mobilizar na rua. Não parece que haja um grande movimento. Posso estar enganado. Além, talvez, de um protesto, pode haver um grande cansaço, porque as pessoas mobilizaram-se. Nunca houve tão pouca abstenção e vemos que Macron decidiu não tomar realmente em conta esse resultado. Obviamente, talvez não logo, mas vai ser mais difícil para o governo Barnier, se ele conseguir manter-se, fazer passar leis impopulares, porque muito provavelmente os sindicatos e parte dos partidos de esquerda vão tentar não deixar passar algumas medidas impopulares. 

    13 min
  • Sandra Monteiro: « É uma honra e um orgulho participar nos Jogos Paralímpicos»

    O boccia é uma prova especificamente paralímpica. Esta modalidade, que tem influências no jogo da Petanca, tornou-se uma modalidade Paralímpica em 1984 em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

    O boccia está dividido em quatro categorias, BC 1, BC 2, BC 3 e BC 4.

    É uma modalidade para atletas com paralisia cerebral e/ou outras disfunções neurológicas. É um desporto praticado num espaço interior, em que são arremessadas bolas de couro, seis azuis e seis vermelhas, com o objectivo de as colocar o mais perto possível de uma bola branca, numa partida dividida em quatro parciais nos individuais e em seis na prova por equipas.

    O boccia é uma modalidade em que dois países lusófonos já arrecadaram várias medalhas: Brasil e Portugal. A comitiva brasileira, desde 1960 e a primeira edição oficial dos Jogos Paralímpicos em Roma, na Itália, já conquistou 11 medalhas, enquanto os portugueses já levaram para casa 27 medalhas, inclusive nove de ouro.

    Para Portugal, o boccia é de longe a segunda modalidade com o maior número de medalhas e de ouros paralímpicos, apenas atrás do atletismo.

    Nestes Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024, Portugal regressou às medalhas de ouro com um título conquistado por Cristina Gonçalves na categoria de BC2.

     

     

    Nesta modalidade, dois árbitros portugueses também estão presentes, David Henriques e Sandra Monteiro.

    A RFI falou com Sandra Monteiro, árbitra internacional de boccia.

    Voluntária desde 1994 em competições de Boccia, ano em que fez o curso de Árbitra Nacional da modalidade. Sandra Monteiro já esteve presente em quatro edições dos Jogos Paralímpicos: Pequim em 2008, Londres em 2012, Rio de Janeiro em 2016 e Paris em 2024.

    Sandra Monteiro colabora na formação de Árbitros de Boccia em Portugal e é Presidente do Conselho de Arbitragem.

    Em entrevista à RFI, Sandra Monteiro, professora de profissão, revelou-nos como surgiu a paixão pelo boccia e a arbitragem, mas antes disso abordou a experiência em Paris, a quarta participação nos Jogos Paralímpicos.

    As provas de boccia acabam nesta quinta-feira nos Jogos Paralímpicos com as provas por equipas, onde Portugal foi eliminado na fase de grupos, e o Brasil nos quartos-de-final.

     

    11 min
  • Marilson Fernandes Semedo: «Feliz por bater o recorde nacional de Cabo Verde»

    A comitiva cabo-verdiana nos Jogos Paralímpicos que decorrem em Paris, a capital francesa, conta com dois atletas: Marilson Fernandes Semedo no lançamento do dardo F57 e Heidilene Patricia Oliveira Lopes nos 100 e 200 metros T12.

    A final da prova de lançamento do dardo F57, categoria para pessoas com transtorno do movimento de baixo grau em uma das pernas, de grau moderado em ambos os pés ou com ausência de membros, decorreu no passado sábado 31 de Agosto no Stade de France, o estádio principal dos Jogos Paralímpicos.

    Onze atletas lutaram pelas medalhas, entre eles o cabo-verdiano Marilson Fernandes Semedo que foi o terceiro a lançar o dardo.

    Nesta modalidade do atletismo, cada atleta lança sucessivamente os seis lançamentos que tem. O terceiro a entrar em acção na prova foi o cabo-verdiano Marilson Fernandes Semedo.

    No primeiro lançamento, o atleta de Cabo Verde alcançou a marca de 39, 97 metros, novo recorde pessoal e novo recorde nacional.

    Marilson Fernandes Semedo não conseguiu melhorar nos cinco lançamentos seguintes, terminando no 9° lugar na prova.

    Cabo Verde tem um novo recorde nacional na prova de lançamento do dardo F57 com 39,97 metros, marca alcançada pelo atleta Marilson Fernandes Semedo.

    Recorde-se que em 2021, em Tóquio, no Japão, o atleta cabo-verdiano tinha alcançado o 10° lugar.

    Em declarações exclusivas à RFI, Marilson Fernandes Semedo estava satisfeito com a prova que realizou, bem como pelo novo recorde nacional. No entanto o atleta cabo-verdiano, amputado da perna direita, afirmou que poderia alcançar melhores resultados se tivesse melhores condições para a prática desta modalidade, sobretudo a nível financeiro.

    Marilson Fernandes Semedo, atleta cabo-verdiano, que terminou no 9° lugar na prova.

    De referir que o vencedor do concurso do lançamento do dardo foi Yorkinbek Odilov do Uzbequistão com 50,32 metros. A medalha de prata foi conquistada pelo turco Muhammet Khalvandi e a medalha de bronze pelo brasileiro Cícero Valdiran Lins Nobre.

    Quanto a atleta cabo-verdiana Heidilene Patricia Oliveira Lopes vai entrar em acção nesta quarta-feira nos 100 metros, e na sexta-feira nos 200 metros, sempre na categoria T12 para pessoas com deficiência visual.

    Os Jogos Paralímpicos decorrem em Paris, a capital francesa, até 08 de Setembro.

    10 min
  • Atleta são-tomense Alex dos Anjos quer bater recorde pessoal

    O atleta são-tomense Alex dos Anjos participa pela terceira vez nos Jogos Paralímpicos e vai correr a prova dos 400 metros no Stade de France, em Paris. O objectivo do atleta são-tomense é superar a marca dos 50.49 nos 400 metros T47, categoria para atletas com amputação nos membros superiores.

    RFI: Como é que se preparou para estar aqui nos Jogos Paralímpicos de Paris?

    Alex dos Anjos: A preparação foi enorme porque tive algumas dificuldades, uma vez que eu trabalho, estudei e depois vou para o treino e conciliar tudo é um bocado difícil, mas é assim.

    Como é que é o seu dia-a-dia?

    O meu dia-a-dia é normal; saio de manhã para trabalhar na direcção-geral de Desportos. Terminei a minha licenciatura em Desporto e também sou atleta e treino todos os dias.

    Quando é que tem tempo para treinar?

    Todos os dias de manhã vou para o trabalho. No período da tarde treino.

    Como é que se preparou para os Jogos Paralímpicos de Paris?

    Com treino diário, mas foi específico porque já estava inscrito para vir aos Jogos Paralímpicos e decidi mudar a trajectória do treino, de modo você chegar aqui e fazer uma boa prestação.

    Costumo treinar na pista normal, com a dimensão da pista internacional, uso a bancada para fazer exercício de força e alguns elásticos também, já que não temos o nosso próprio ginásio. Uso aquelas aquelas ferramentas para fazer o treino de força.

    Na vila paralímpica tem acesso a ginásios e a outro tipo de máquinas de desporto, sente uma diferença?

    Há diferença, sim, mas o que eu sei é que podemos fazer  tudo quando queremos. Não vale desistir porque não temos ginásio, temos outros mecanismos para lá chegar, trabalhando.

    Já pensa em Los Angeles, em 2028?

    Vai depender porque só o tempo dirá. Eu não posso dizer nada porque vai depender se a vida melhorar, se melhorar eu continuo. Se não melhorar, tenho que abandonar.

    Quando diz melhorar é em termos de apoio e financiamento?

    Precisamos de apoio para ter uma melhor a vida. Se tiver condições continuo a treinar. Tenho de trabalhar, estudar. Se tiver uma bolsa paralímpica, um apoio do Estado, para ajudar nas despesas consigo continuar a treinar sem pensar noutras coisas.

    Vai correr os 400 metros T47, categoria para atletas com amputação nos membros superiores. Qual é a sua história?

    Felizmente nasci assim. Como eu também nasci no bairro onde praticavam desporto e havia uma escola de futebol, chamaram-me. Era muito traquina mesmo com este braço. Comecei a fazer competição para pessoas com deficiência. Participei nos jogos da CPLP em 2005.  Convidaram-me a fazer atletismo porque viram que tinha potencial para o atletismo e aqui estou. Continuo o atletismo e sou feliz a fazer atletismo. É uma forma de desenvolver a minha capacidade física, intelectual, praticando desporto vamos conhecendo o mundo fora.

    Qual é que é a energia que sente na Vila Paralímpica?

    Tenho-me encontrado com alguns colegas que eu já conhecia de anteriores competições. A energia é boa porque vamos vendo outros atletas de outros países. 

    Está orgulhoso do trabalho que fez até agora?

    Estou orgulhos, sim, porque se não estiver orgulhoso de mim, quem estará? Valeu a pena os sacrifícios que fiz para estar aqui.

    Há dias em que tem vontade de desistir?

    Por vezes  saio do trabalho cansado e pergunto-me por que motivo vou para treino, fazer o quê? Mas mudo de ideias, persisto e vou ao treino.

    Está aqui em Paris...

    Estou aqui. Às vezes a vida tem dessas. E este é um momento feliz.

    O que é que espera levar daqui de Paris?

    Espero levares conhecimento. Boa partilha com os outros e conhecer novos atletas internacionais de outros países. Além de boas recordações dos Jogos Paralímpicos.

    9 min
  • Moçambique quer "conquistar uma medalha paralímpica"

    A delegação paralímpica moçambicana chegou a França há mais de um mês para fazer um estágio intensivo em Nueil-les-Aubiers. "A nossa expectativa é chegar à medalha. Estar numa final, ter um recorde africano e ter uma medalha paralímpica", descreve o chefe do Comité Paralímpico moçambicano, Luís Mouliaã.

    RFI: A delegação de Moçambique conta com uma atleta, Edmilsa Governo, que já ganhou um prémio paralímpico?

    Luís Mouliaã: De facto, a nossa atleta Edmilsa Governo já teve uma medalha paralímpica no Rio de Janeiro, ganhou o bronze nos 400 metros. Estamos muito esperançosos que se volte a repetir agora em Paris.

    Prepararam os Jogos Paralímpicos com um estágio intensivo em Nueil-les-Aubier. Como é que se organizou este estágio?

    Correu bem, tivemos este estágio com Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Começamos a falar deste estágio no princípio do ano e finalmente conseguimos vir para cá. Convidaram-nos e tivemos a sorte de poder fazer este estágio aqui em França, que foi muito produtivo.

    O que é que muda a fazer este estágio a três semanas dos Jogos Paralímpicos? Nesta altura em Moçambique está mais frio do que em França. Imagino que seja também uma fase transitória de preparação?

    De facto, nós estamos no Inverno em Moçambique, embora seja um Inverno muito suave, mas sobretudo os dias são muito curtos. O sol vai embora a partir das 17h30. Aqui em Paris temos sol até quase às 22 horas e isso muda também a percepção da competição porque uma das provas, a série dos 400 metros, a Edmilsa vai correr às 21 horas. O facto de estarmos cá antes, de nos podermos adaptar a este novo horário, embora estejamos no mesmo fuso horário, muda a percepção do dia e a temperatura.

    Faz muita diferença correr às 9 horas ou às 21 horas?

    Faz diferença sim, claro, sobretudo durante a preparação. A atleta tem que estar pronta para correr de manhã ou à noite. A série dos 400 metros vai decorrer às 21 horas, mas a final será de manhã, às 10 horas. A atleta tem que estar apta para correr de manhã e de tarde. Para além disso, outros dos benefícios em estar cá antes foi a concentração da atleta. Não é a mesma coisa estar em casa e sair para treinar no estádio, estar com os amigos, a família, do que estar apenas concentrada no treino. Tivemos acesso à piscina, ao ginásio, à pista. A atleta está bem concentrada e consciente do que vem cá fazer.

    A atleta moçambicana, Edmilson Governo, corre na serie dos 400 metros, na categoria T12?

    Na verdade, ela correu no Rio de Janeiro, na classe T12. T12 significa baixa visão e ela agora está correndo no T13.

    Temos três classes desportivas para a deficiência visual, para aqueles que correm em pista T11, são cegos totais ou quase totais. T12 tem um pouco de visão e os seus parâmetros de campo visual e acuidade visual e T13 que é o limite para ser elegível para ser atleta paralímpico.

    Nas classes 12 e 13, a classificação dos atletas pode mudar. Esta é uma questão bastante subjectiva da pessoa que classifica poder classificar como T12 ou T13. Existem parâmetros objectivos, mas também existe uma parte subjectiva nessa classificação.

    E qual é o processo para essa classificação?

    Existem competições internacionais pela World Athletics, que assume o processo de classificação, algumas têm todas as classificações física, visual, intelectual ou apenas física, intelectual. É preciso ir a uma competição internacional com especialistas na classificação para ter uma classe oficial que serve para competir em provas internacionais.

    O que é que espera destes Jogos Paralímpicos de Paris? Voltar a conquistar uma medalha, desta vez de prata ou de ouro?

    Essa nossa expectativa. De facto, seria o desejado. Não só a medalha de bronze, mas também ter uma final, ter um recorde africano e ter uma medalha paralímpica.

    Por que motivo é que os PALOP competem sobretudo na modalidade de atletismo. É uma coincidência?

    Nos países de África e, especificamente falando de Moçambique, o atletismo é uma das modalidades mais fáceis de praticar ou de investir porque não exige que a delegação seja grande. Não é a mesma coisa ter uma equipe de voleibol que precisa de 12, 15, 16 pessoas para viajar para a competição, do que ter um atleta e um treinador para ir a uma competição. O investimento é muito menor.

    Nos países como Moçambique, em que temos pouco apoio de parceiros nacionais, do governo especificamente e de parceiros privados, há que se focar muito bem na competição e na quantidade de pessoas que podem ir a essas competições. O atletismo é uma aposta, por ser uma modalidade individual.

    Estão presentes 4400 atletas, os melhores dos melhores atletas paralímpicos. Como é que descreve o dia-a-dia na vila paralímpica?

    Temos ouvido muitos comentários não muito bons por parte dos Olímpicos, com muitas publicações nas redes acerca das refeições ou da hospedagem. Acredito que dependa da expectativa que cada um. Pela nossa parte, a comida está muito bem. Não temos nenhuma queixa, é variada, e temos muito espaço nos quartos.

    Está tudo a correr bem, pelo menos onde a nossa delegação está instalada. O ambiente é muito bom, tem muitos espaços para diversão, treino, ginásio, para tudo o que o atleta precisa. O ambiente é muito agradável e não temos nenhuma queixa a fazer em relação à vila paralímpica.

    As acessibilidades são um dos pontos importantes na questão material, das infra-estruturas e dos transportes, mas também temos a questão imaterial que é dar a conhecer a realidade paralímpica e destruir os tabus que se criam em torno da diferença.

    Quanto à acessibilidade tem havido muito esforço em criar instalações acessíveis em todo o lado. Temos tantas pessoas em cadeiras de rodas e elas podem mexer-se à vontade e vão com facilidade a qualquer ponto da vila. Os transportes são acessíveis em todas as residências. Os refeitórios ou ginásios têm máquinas que são acessíveis, há  muitos voluntários para ajudar em qualquer momento e em qualquer situação.

    O ambiente é de festa?

    É um ambiente muito agradável, São todos muito simpáticos. O ambiente no refeitório, no ginásio, nos corredores com todos os países está a ser vivido com festa e acredito que que o ambiente perfeito.

    9 min
  • Jogos Paralímpicos: "Cabo Verde é um país cada vez mais inclusivo"

    "As deficiências físicas de muitos atletas são consequências de guerras, doenças ou acidentes e operações", afirma o presidente do comité paralímpico de Cabo Verde e membro do comité paralímpico internacional, José Rodrigo Bejarano.

    RFI: Cabo Verde tem dois atletas a participar nestes Jogos Paralímpicos. Pode descrever-nos a delegação de Cabo Verde?

    José Rodrigo Bejarano: Não vamos só participar. Antes utilizávamos esse termo e agora falamos em competição. Os nossos dois atletas têm resultados bastante interessantes. Começamos com o atleta feminina Heidilene Oliveira; ela é uma atleta com limitações visuais da categoria T12. Ela vai correr com o seu guia e vai fazer a competição de 100 e 200 metros. Depois temos o atleta Marilson Semedo; amputado de perna e vai fazer lançamento de dardo na categoria 57.

    São atletas que não estão aqui para participar, mas para competir. O que é que mudou para passarmos do verbo participar ao Competir?

    Eu acho que é o evento, isto não é uma passarela. O evento demonstra atletas de altíssimo nível. São pessoas que treinam igual, mais e têm muito mais desafios que os atletas convencionais, os olímpicos. Além dos já conhecidos obstáculos, desafios diários, têm as suas limitações físicas e sensoriais e isso acrescenta mais ao valor da competição. A terminologia não estava errada porque são participantes de um evento, mas eles estão aqui a competir e isso que nós queremos ver.

    Enumerou as categorias nos quais os atletas cabo-verdianos vão competir. Como é que se prepararam para estar aqui?

    A maioria dos atletas já tem um percurso. O Marilson, por exemplo, participou em Tóquio e é a segunda vez que vai participar. São atletas que já estão a preparar-se para a competição há muito tempo.

    A Heidilene também é uma atleta que está constantemente a treinar. Eles combinam as suas actividades normais escolares, na universidade e as coisas quotidianas com os treinos. Evidentemente que gostaríamos de ter melhores condições, recursos humanos que trabalharem com eles mais de perto. Só para te dar uma ideia, a treinadora de Marilson é cubana e ela treina-o a partir de Cuba para Cabo Verde.

    É o Presidente do Comité Paralímpico de Cabo Verde. O que é que espera destes dois atletas?

    Estou contente porque vamos ver a bandeira de Cabo Verde e mostramos, uma vez mais que somos um país inclusivo, resiliente. Temos outros desafios, outras situações, mas esta especificamente, desde o ano 1998, estamos presentes desde que fundamos o Comité. Sempre tivemos apoio de acordo com as possibilidades do nosso país. Lembro  que Cabo Verde é um país muito jovem, tinha os seus próprios desafios, tem seus próprios objectivos. Ver o desporto como uma ferramenta de inclusão é importante.

    Em Cabo Verde, já há uma inclusão no desporto massiva ou ainda há trabalho por fazer?

    Não sei se massiva, por exemplo, nas nove ilhas habitadas, todas têm uma instituição, um pequeno comité, uma associação regional de desporto. Isso já quer dizer alguma coisa, inclusive a mais pequena que é a ilha do Maio- onde há menos população. Há jogos escolares, incluíram algumas modalidades para os jovens com algumas limitações físicas, sensoriais, com deficiência. Isso já é algo muito. A lei de base do sistema desportivo cabo-verdiano inclui os atletas paralímpicos. Só para dar uma ideia, os prémios que ganham um ganhador de medalha olímpica têm o mesmo valor de medalha paralímpica, inclusive os nossos dois Comités Olímpicos e Paralímpicos têm uma visão de juntar os dois comités, como fazem os Estados Unidos, os Países Baixos, a África do Sul Queremos ser talvez o primeiro país pequeno em conseguir este. Hoje estamos pelo bom caminho.

    Por que motivo a maior parte dos países não o faz?

    Acredito que são vários factores. Eu trabalhei durante 12 anos como secretário-geral do Movimento paralímpico africano. Infelizmente, muitos comités estão de costas viradas, querem protagonismo. Outro motivo é que, talvez, não tenham capacidade e a visão ainda das coisas positivas que podem sair ao juntar as mesmas formações, as mesmas oportunidades, a mesma valorização.

    Foi secretário do Movimento Paralímpico africano. Como é que se posicionam os países africanos hoje nos Jogos Paralímpicos?

    O continente africano é a região do Comité Paralímpico Internacional maior. Em África temos 54 países, entre os quais  48 comités paralímpicos registados, ainda faltam uns quatro ou cinco. Temos diferentes níveis; se falarmos de África do Sul, Egipto, Marrocos, Argélia, Nigéria, estamos a falar de comités vencedores de medalhas, de recordes mundiais. Depois há os países médios como Angola, Ruanda, Quénia. Depois os mais pequenos, do nosso tamanho, com a nossa dimensão e capacidade financeira. Evidentemente que Cabo Verde nunca vai ter uma delegação como a que tem a Nigéria, um país com 200 milhões de pessoas, nós só temos meio milhão de habitantes. Mas esta região africana é a que deveria servir, talvez para mim, de exemplo para o mundo inteiro.

    A maioria dos atletas que participam no movimento paralímpico são produto de guerras tipo Ruanda, Angola, onde há muitos amputados ou algumas doenças que já foram erradicadas há 40 anos, como o pólio. Ainda há alguns casos em África e outras vítimas de acidentes e operações, fenómenos que já foram ultrapassados ou não existem noutros países, são os que fazem com que o continente tenha o desafio de se organizar para dar oportunidade a esta população. Há muitos países que não dão importância suficiente, não somente o desporto convencional, mas muito mais a desporto paralímpico.

    Há pouco falava das categorias dos atletas cabo-verdianos F57 e T12. Que categorias são estas?

    É muito interessante. Quando cheguei a primeira vez a umas competições, tive que aprender, eles começaram a perguntar-me que atletas tinha. Eles diziam; ‘tenho uma T12 50’ e eu não entendia do que se tratava. As letras são para definir o desporto e o número, por exemplo, 5, quer  dizer que é amputado da perna. Se ele é amputado de perna abaixo de joelho, é um número, na altura do joelho é outro número.. 55, 56, 57. Se for de braço, seriam 40.

    A Heidilene tem uma deficiência visual. A deficiência visual corresponde aos números 11, 12 e 13. Como é ela corredora  é T de Track. 11 é totalmente cego, 12 vê umas luzes e 13 já tem uma mínima visão para poder competir com mais técnica. Esta terminologia é interessante porque agora é globalizada. Todos utilizam uma classificação para todo mundo geral.

    A atleta cabo-verdiana vai ser acompanhada por uma guia. A guia tem que treinar também. Como é que tudo acontece ?

    Eu costumo dizer que tenho três atletas, mas só dois vão competir. Os guias são muito importantes porque têm de acompanhar, tem que se preparar de igual forma que o atleta. Antes de chegar à meta, os guias não podem passar à frente na linha final e devem recuar um pouco. Para isso tem que prestar muita atenção porque se o guia passar primeiro na meta, a corrida é anulada.

    Têm de estar com muita atenção  para não tropeçar, ir ao mesmo ritmo, saber quando um atleta vai muito mais rápido. Às vezes ele está excitado e tem que acompanhar. São como uma sombra é nisso consiste ser um guia. Este é um trabalho muito louvável, muito profissional.

    Há três semanas, os Jogos Olímpicos foram vividos com euforia. Cabo Verde conquistou a primeira medalha olímpica. Espera que estes Jogos Paralímpicos também proporcionem esta sensação de euforia e de festa?

    Gostaríamos muito, seria um sonho. Não fizemos primeiro, vencemos a primeira medalha de uma competição da categoria dos Paralímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, independentemente de ser olímpicos ou não. Foi uma alegria nacional, colocámos o nome de Cabo Verde no mapa dos medalhistas paralímpicos.

    Ficámos muito felizes com David, que ganhou a sua medalha também de bronze para Cabo Verde. Como dizem os brasileiros, tomara que se repita. Sabemos que é um desafio muito grande. O nível dos atletas é muito alto para cada classificação desportiva. Se a medalha vier, vai ser  uma alegria extra, mas também nós sabemos que os cabo-verdianos ficam muito felizes de ver nossa bandeira desfilar nos Campos Elísios, em Paris, onde temos em França uma comunidade muito grande.

    14 min
  • Jogos Paralímpicos: "Desporto adaptado deve ser acessível a todos"

    O objectivo da delegação são-tomense nos Jogos Paralímpicos de Paris é que o atleta Alex Anjos tente superar a marca dos 50.49 nos 400 metros T47, categoria para atletas com amputação nos membros superiores. "Os Jogos Paralímpicos são uma mostra mundial para que o desporto adaptado seja cada vez mais acessível a todos",  defende o chefe da delegação paralímpica de São Tomé e Príncipe, Filipe Neto.

    São Tomé e Príncipe participou pela primeira vez nos Jogos Paralímpicos em 2016 no Rio de Janeiro, com o atleta Alex dos Anjos, que volta a competir nos Jogos de Paris na prova de 400 metros T47?

    Filipe Neto: É um bocado constrangedor ser uma representação tão pequena, mas é o que temos. Inicialmente tínhamos uma delegação que podia ter até oito pessoas, mas infelizmente a Marina, uma da nossa lançadora que estava também no nosso desejo de vir. Não pôde vir porque não teve classificação internacional e a sua vinda para Paris em 2024 não foi aprovada. Por isso trouxemos um só atleta, naturalmente que a quota da delegação caiu. Por isso é que viemos apenas quatro: um atleta, um treinador, um massagista e eu como chefe de missão.

    Quais é são os objectivos desta participação nos Jogos paralímpicos de Paris?

    Em primeiro lugar, o nosso objectivo é representar São Tomé e Príncipe com a maior dignidade possível. Nós já tivemos nos Jogos de Tóquio e aqui queremos que o resultado seja melhor, nem que seja bater o recorde nacional, que é de 50.49. Contamos que ele esteja à altura de fazer esse melhor tempo e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que a representação seja melhor do que nos jogos passados.

    O atleta Alex dos Anjos pode dar um exemplo a outros atletas ao estar aqui a representar São Tomé e Príncipe nos Jogos Paralímpicos de Paris?

    Sim, sim, é mesmo isso que nós queremos que os jovens entendam em São Tomé e Príncipe que uma pessoa com deficiência também pode mostrar o seu valor, o valor que tem no desporto, praticando com afinco, mostrando que realmente também pertence a uma sociedade que pode fazer algo por essa sociedade, sobretudo no desporto, onde se vê muitas pessoas que com deficiência. São pessoas corajosas, pessoas determinadas, pessoas que mostram que realmente têm capacidade para fazer algo de grande valor. Esperamos que a participação do Alex sirva de incentivo a jovens são-tomenses, para que eles também possam começar a praticar desporto, sobretudo os jovens com deficiências.

    Esteve em Paris com a delegação olímpica há três semanas, aqui na Vila Olímpica, na altura, agora transformada em Vila Paralímpica. Que mudanças estruturais é que observou até ao momento?

    Primeiro, na Vila Olímpica de há três semanas, tudo era totalmente diferente em termos da habitação porque agora a adaptação é feita para pessoas com deficiência e tem que ser totalmente adaptada. O cuidado tem que ser maior, tem que haver muito mais envolvimento das pessoas: o apoio para que as pessoas com deficiência também se sintam seguros para andar e e caminhar aqui na vila. 

    Há três semanas e nos Jogos Olímpicos estavam aqui mais de 10.000 atletas. Para os Jogos Paralímpicos há 4400 atletas a competir. O que é que explica esta diferença tão grande?

    Em São Tomé e Príncipe lutamos para que as pessoas com deficiência pratiquem desporto. Por isso é que existe essa diferença tão grande. Na medida em que as pessoas vão compreendendo que, independentemente de ter uma limitação física, não implica que sejam excluídas e praticar desporto. Acho que no futuro vai haver mais atletas porque a participação está a crescer e vai crescer muito mais. Os atletas estão a ver que podem praticar desporto, podem representar o país e conhecer pessoas, pisar outros palcos. 

    Que mudanças são necessárias até lá?

    Uma das grandes mudanças é no próprio Comité Paralímpico Internacional para que deixe de limitar as cotas de pessoas com deficiência e que permita deixar ao critério do país e da capacidade financeira do país levar a quantidade de pessoas que queira. Talvez, nessa altura, o número de atletas seja maior. 

    O número de de bolsas paralímpicas não é igual às bolsas olímpicas?

    Não por acaso não é e esse é outro factor. Em São Tomé, embora sejamos um país pequeno, tivemos bolsa olímpica para oito pessoas e para o Comité Paralímpico não houve nenhum. Apesar de eles ajudarem, eles ajudam ao enviar alguma subvenção pequena para ajudar. 

    É um ponto a repensar?

    Sim é um ponto a repensar se realmente eles quiserem porque ajudaria muito. Em São Tomé e Príncipe, por exemplo, os nossos atletas são trabalhadores, mas se tiverem bolsa não deixariam o trabalho, mas pensariam menos no trabalho porque já teriam um meio de subsistência.

    10 min
  • "Pessoas com deficiência precisam de oportunidades, não de empurrões"

    Juliana Moko compete nos 100, 200 e 400 metros femininos e Sabino Tchipessi nos 400 metros masculinos nos Jogos Paralímpicos de Paris. "Os Jogos Paralímpicos deve servir de mobilização e de informação para apostar em melhores políticas públicas para a inclusão de pessoas com deficiência", defende o secretário-geral do Comité Paralímpico angolano, António da Luz.

    RFI: Angola está representada por dois atletas. Estão prontos a competir nos próximos dias?

    António da Luz: Na verdade, gostaria de ter aqui mais atletas, inclusive noutras modalidades. Nós tivemos a um passo de qualificar um atleta no halterofilismo, mas infelizmente não conseguimos. Tivemos uma atleta também que nos últimos meses se lesionou e acabou por não estar aqui. Trouxemos dois atletas que nos dão garantias de que são, neste momento, os melhores que temos.

    Os Jogos Paralímpicos disponibilizaram 150 autocarros e cerca de 1000 táxis. Como é que está a correr a organização para as delegações e para os atletas, que precisam de conforto na mobilidade?

    As delegações também têm carros próprios, que são atribuídos aos chefes de missão e em função do tamanho da delegação, podendo ter duas ou três viaturas. Nota-se uma grande mobilidade aqui na vila paralímpica e há pessoas a andar de bicicletas. Há instrumentos auxiliares para quem anda de cadeira de rodas, para que possam ter maior mobilidade em termos de movimento. Estamos a falar de carrinhos eléctricos, que estão a andar pela vila, que vão levando as pessoas de um lado para outro.

    Estes são os meus oitavos Jogos, acredito que à semelhança dos outros jogos em que estive, haverá sim uma grande afluência de transporte para que os atletas tenham o conforto necessário, possam chegar a tempo e horas aos recintos e possam ter tempo para a devida preparação antes do início da competição.

    Como é que corre a organização para que os atletas possam treinar todos os dias?

    As federações internacionais envolvem-se e são elas que acompanham, praticamente, toda a calendarização, quer de preparação, quer de horário de treinamento e quer, portanto, da própria comissão em si. Infelizmente, as reuniões estão a ser, dia sim, dia não, entre os chefes de missão. As reuniões decorrem logo de manhã cedo, onde as questões são colocadas e resolvidas. Há toda uma mobilidade, há todo um envolvimento  de toda a parte, que nos vai ajudar. Basta olhar para os voluntários, por exemplo, que andam por aí todos simpáticos e prontos para ajudar. Eles não são só franceses, há várias nacionalidades, o que significa dizer que, de facto, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos mobilizam o mundo e mobilizam cidadãos, mobilizam a paixão das pessoas. 

    Em que medida é que estes Jogos Paralímpicos podem trazer mudança? 

    Quem organiza quer fazer melhor, quer organizar melhor do que quem já organizou. Portanto, há um grande empenho, de facto, e a uma grande valorização das pessoas com deficiência. Nós, que acompanhamos o que está a ser feito, olhamos com alguma admiração, com algum respeito, aquilo que é a resiliência. Costumo dizer aos colegas em Angola que a melhor forma de ver os jogos é estar na Vila Paralímpica porque é aqui vê-se de tudo um pouco e conseguimos aprender que de facto, nós não somos nada se não estivermos todos unidos.

    A questão das políticas de apoio às pessoas com deficiência depende muito de país para país. Nos países mais desenvolvidos, mesmo assim, há pessoas que reclamam. Portanto, é um processo que precisa de alguma paciência, é preciso algum estudo, é preciso alguma paixão porque as pessoas com deficiência querem ser autónomas e não querem que sejam os outros a fazer por elas. Elas já deram mostra que podem, são capazes de fazer e precisam de oportunidade. Precisam de meios que lhes permitam movimentar-se e trabalhar.

    Estes jogos devem servir de mobilização, devem ser de formação e de informação aos políticos para perceberem que, de facto, as pessoas com deficiência precisam de oportunidades, não de empurrões, não de ajudas, mas de oportunidades para poderem, de igual para igual, mostrar aquilo que valem.

    São os jogos da equidade. Há equidade?

    Faz-se por haver e vamos lutar para que assim seja. Como sabe, principalmente em África, há muito tabu em relação àquilo que significa ser homem, ser mulher. Aquela coisa de protecção, de achar que a mulher com deficiência não pode ir para a escola, tem de ficar em casa para tomar conta do irmão mais novo.

    O desporto, felizmente, tem estado a muda e a chamar a atenção às pessoas de que, de facto, é preciso dar mais espaço, mais liberdade para que essa equidade possa de facto existir. Não tem sido fácil. Se calhar não temos 50-50. Seria bom que tivéssemos, mas se estivermos 30-70 já estamos no bom caminho. É preciso continuar a trabalhar, é preciso continuar a preparar porque nós temos países que hoje estão muito longe em relação a outros. Temos de ter paciência, temos que ir com calma. Os nossos políticos precisam de perceber que fazer política não é só armar betão, é preciso dar atenção ao ser humano. E o ser humano é todo aquele que está sob a sua tutela, que está no seu país e que, independentemente da sua condição física, deve ter sempre os mesmos direitos.

    É mais difícil obter financiamento para um atleta paralímpico do que para outros atletas?

    Já há uma mudança substancial, mas ainda há países como o meu, por exemplo, onde ainda há um patrocinador que é capaz de dar 4000 a um atleta paralímpico e dar 100.000 ao convencional. Ainda não há as estruturas que trabalham com o desporto paralímpico, principalmente em África. Não há assim grande apetência das pessoas em concorrerem para os cargos. Noto que nos Jogos Paralímpicos cruzamos as mesmas pessoas de há quatro anos e nos Jogos Olímpicos isso dificilmente acontece. Porque não basta só ter dinheiro, não basta só ter infra-estruturas, não basta só ter conhecimento, na ciência do desporto, é preciso ter amor, ter paciência, ter carinho e ter algum dom para trabalhar nesta causa. Estou há quase 30 anos neste cargo porque de facto ainda ninguém me quis substituir. Estamos a preparar alguns jovens para isso, porque chega uma altura de facto, em que temos de parar.

    Ainda há essa diferença, há sempre mais atenção para os olímpicos em termos de patrocínios, de que para os paralímpicos. Há países muito desenvolvidos onde esta diferença, quase que já não se nota.

    Como por exemplo?

    Os americanos. O Brasil deu um passo enorme. A China que em 2004 não tinha expressão. Organizou os Jogos em 200. São países que conseguem mobilizar. Tem muita gente, trazem muitos atletas porque têm de facto, pessoas que apoiam pessoas que acreditam e têm patrocinadores que ajudam, que apoiam também esta causa.

    12 min

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