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O primeiro-ministro francês recebeu esta segunda-feira, 23 de Setembro, os 39 novos ministros e secretários de Estado que compõem o novo executivo. Durante o “pequeno-almoço governamental”, Michel Barnier pediu aos membros do executivo que sejam “irrepreensíveis e que respeitem todos os partidos políticos”. Rafael Lucas, professor universitário em Bordéus, considera que o objectivo do primeiro-ministro francês é "manter-se no poder até às próximas eleições".
O primeiro-ministro francês recebeu esta manhã no palácio de Matignon os 39 novos ministros e secretários de Estado que compõem o novo executivo. Durante o “pequeno-almoço governamental”, Michel Barnier pediu aos membros do executivo que sejam “irrepreensíveis e que respeitem todos os partidos políticos”. O novo chefe do executivo francês convidou os ministros e secretários de Estado a “agir mais do que comunicar” e a “agir antes de comunicar”, prometendo um Governo “republicano, progressista e europeu”.
Em entrevista à RFI, Rafael Lucas, analista político e professor universitário em Bordéus considera que o objectivo do primeiro-ministro Michel Barnier é concentra-se nas necessidades do eleitorado francês.
RFI: O primeiro-ministro Michel Barnier pediu aos membros do executivo para serem irrepreensíveis e a trabalharem mais e a comunicarem mais. Que mensagem quis enviar Michel Barnier aos membros do executivo e à população francesa?
Rafael Lucas, analista político e professor universitário em Bordéus: a mensagem foi de privilegiar o enfoque técnico e evitar, por enquanto, as declarações que seriam de tipo ideológico ou partidário, optando por se concentrar no aspecto técnico. Desde o início, a mensagem de Michel Barnier foi a de privilegiar as preocupações quotidianas do eleitorado francês.
O Presidente Emmanuel Macron disse que queria um Governo de união nacional. Considera que este objectivo foi atingido?
Não, esse objectivo não foi atingido. Os partidos de esquerda que formam a Nova Frente Popular, sentem-se defraudados por não terem o número de ministros que corresponde aos resultados que obtiveram nas urnas. Quanto ao Partido Republicano , podemos afirmar que vários ministros foram favorecidos na composição deste executivo.
O Governo não reflecte o resultado das urnas?
O Presidente tinha duas opções. A primeira passaria por respeitar os resultados das urnas, nomeando os ministros da esquerda A segunda passaria por ter em conta a possibilidade do bloqueio que representa o partido de extrema-direita- União Nacional. O partido de Marine le Pen pode, a qualquer momento, bloquear o executivo na Assembleia Nacional. [Emmanuel Macron] optou por privilegiar a segunda opção.
O novo ministro francês do Interior, Bruno Retailleau, disse que a prioridade é restabelecer a ordem no país. Pode-se esperar um reforço das políticas de imigração?
O Governo de Michel Barnier vai ter de dar garantias na política da imigração e mostrar que dá provas de firmeza e de autoridade, tentado racionalizar mais a política de imigração para evitar ser derrubado pela União Nacional.
Michel Barnier prometeu que não vai aumentar os impostos da classe média, daqueles que trabalham em França. Onde irá então buscar dinheiro para nivelar as contas do país?
Ele não pode mexer nos impostos. Nem a classe média, nem as classes populares aceitariam [uma nova subida de impostos]. Desta forma, Michel Barnier vai tentar [buscar esse dinheiro] às empresas multinacionais, como a petrolífera Total, ou nas grandes empresas comerciais, o caso das redes de supermercado- como o Casino. Esta ideia pode ter algumas vantagens, porque ninguém vai reclamar se aumentarem os impostos dos mais ricos.
O grande desafio deste executivo é manter-se no poder?
Acho que é um Governo que não está programada para durar mas, no melhor dos casos, vai até às próximas eleições. É preciso lembrar que os franceses não têm a cultura dos Governos de coligação- como é o caso da Alemanha.
Qual será o papel dos partidos de oposição?
O papel da oposição, principalmente da esquerda, deveria ser uma aposta numa maior organização -acabar com a fragmentação- e preparar-se para as próximas eleições. Penso que devem organizar-se e acabar com o aspecto polémico. Mas isso é o que eu penso que os partidos de esquerda deveriam fazer. Todavia, não tenho a certeza de que é isso que vai acontecer. É preciso lembrar que estes partidos têm uma cultura da polémica e da provocação….
Este executivo está “seguro por pinças” na Assembleia Nacional pelo partido de extrema-direita – a União Nacional. Marine Le Pen que se referiu a este executivo como um Governo de transição. Michel Barnier vai ser obrigado a ceder às exigências de Marine Le Pen?
Ele não pode ceder a todas muitas exigências da Marine Le Pen, isso seria uma situação de chantagem. A própria União Nacional não tem a certeza de que -num cenário de queda do Governo- seria reeleita nas mesmas proporções. Para eles, a queda do Governo também representa um risco. A incógnita é enorme.
A Presidente do partido União Nacional vai começar a ser ouvida no caso dos empregos fictícios. Este julgamento poderá, de certa forma, afectar a imagem de Marine Le Pen?
Não acho que vá afectar a imagem de Marine le Pen. No passado, já houve imensos dirigentes políticos- Donald Trump e Nicolas Sarkozy, com casos em tribunal e isso não teve qualquer efeito. Acredito que possa ter algum efeito, mas não ao ponto de enfraquecer o movimento político.
A Assembleia Geral das Nações Unidas pediu nesta quinta-feira, 19 de Setembro, o fim da ocupação israelita dos territórios palestinianos ocupados dentro de "12 meses". O texto da resolução, aprovado com 124 votos a favor, 14 votos contra e 43 abstenções, apela ainda aos Estados-membros para que proíbam as importações provenientes dos colonatos e o fornecimento de armas a Israel se houver motivos "razoáveis" para acreditar que estas armas possam ser utilizadas nos territórios palestinianos.
O texto da resolução, aprovado com 124 votos a favor, 14 votos contra e 43 abstenções, segue o parecer do Tribunal Internacional de Justiça, em Julho, que a pedido da Assembleia Geral da ONU analisou a ocupação dos territórios palestinianos desde 1967 e chegou à conclusão que "a continuação da presença" israelita nos mesmos "é ilegal" e que Israel tem "obrigação de pôr fim [à ocupação] o mais rápido possível".
A resolução da ONU apela ainda aos Estados-membros para que proíbam as importações provenientes dos colonatos e o fornecimento de armas a Israel se houver motivos "razoáveis" para acreditar que estas armas possam ser utilizadas nos territórios palestinianos.
Maria João Tomás, especialista de assuntos do Médio Oriente e investigadora da Universidade Autónoma de Lisboa, considera que a iniciativa é importante, mas devido ao carácter não vinculativo não terá grande impacto na resolução deste conflito.
RFI: Que importância tem esta resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas para o conflito no Médio Oriente?
Trata-se de uma resolução de condenação e é muito importante condenar aquilo que se está a passar e aquilo que este Governo israelita de extrema-direita está a fazer na Palestina. É claro que estão a responder ao ataque terrorista de 7 Outubro do Hamas, mas isso já ultrapassou todos os limites.
Estas resoluções são importantes, mas depois, na prática, não vão ter consequências, umas vez que não são vinculativas.
Envia-se um sinal forte à comunidade internacional?
É importante que a comunidade internacional denuncie aquilo que se está a passar e que condene. Mas daí até ter alguma consequência prática vai uma distância muito grande.
O texto também exige a retirada das forças israelitas dos territórios palestinianos, a cessação de novos colonatos, a restituição de terras e propriedades confiscadas e a possibilidade de regresso dos palestinianos deslocados. Apesar de esta resolução não ser vinculativa, considera que os países enviam uma mensagem da urgência para que as partes encontrem uma solução para este conflito?
Sim. Todavia, nesses casos as acções são muito importantes. Por exemplo, em 2005, Ariel Sharon obrigou a retirada dos colonatos israelitas na Faixa de Gaza. Só com este tipo de acções se conseguirão avanços, mas têm que ser os próprios líderes a fazê-lo. Porém, não há vontade e, além disso, há outras intenções.
Aquilo que está a acontecer neste momento na Cisjordânia -que para Israel é Judeia e Samaria, é exactamente com o propósito de fazer a mesma coisa que aconteceu em Gaza. A desculpa das autoridades israelitas é de ir atrás dos grupos terroristas-al -Aqsa, Jihad Islâmica e o Hamas - que estão no enclave. Mas a única maneira de se livrarem dos grupos terroristas é anular a existência deles. Só se anula a razão deles existirem com a construção de dois Estados. Aqui há outra agenda.
E qual é a agenda?
Há intenções muito explícitas, por parte dos dois ministros das Finanças e da Segurança Interna, Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, que é expandir Israel da Jordânia até ao mar e parece que o caminho está a ser feito.
A resolução teve os votos contra dos Estados Unidos. Não há aqui um contra-senso dos EUA que dizem estar a trabalhar para a paz no Médio Oriente?
Os Estados Unidos têm sempre a mesma resposta. Ou seja, isto não pode ser feito através de uma resolução. Tem que ser feito um acordo entre as partes. Ora, se estivermos à espera do acordo entre as partes... vamos ter de esperar sentados.
Após a votação, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, Oren Marmorstein, refere que Israel considera "tendenciosa" e cheia de "cinismo" a resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU. Esta postura de Israel era expectável?
Claro. É sempre a mesma resposta e ainda vão dizer que estão todos do lado dos terroristas. Pelo menos é a postura que se espera deste Governo de extrema-direita.
Portugal, país signatário desta resolução, manifestou-se preocupado com a crescente tensão na Cisjordânia, em que a violação dos colonos continua a subir de forma impune…
Foi muito importante a posição do Governo português. Foi realmente uma agradável surpresa.
Nos próximos dias, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, vai discursar diante da Assembleia Geral das Nações Unidas. Considera que ele tem o direito de falar, ou devia haver uma sanção contra Israel?
Não, já se fez isso com tantos outros. É importante que Netanyahu fale para se perceber o que vai dizer. Depois a reacção dos outros países é que já será outra coisa. Muitos dirigentes poderão deixar a sala em sinal de protesto [como fizeram no passado].
O chefe do Hezbollah libanês, Hassan Nasrallah, afirmou nesta quinta-feira, 19 de Setembro, que a formação tinha recebido “um golpe duro e sem precedentes” e acusou Israel de “ter ultrapassado todas as linhas vermelhas ao fazer explodir os aparelhos"- pagers e os walkie talkies. O que pretende Israel com este ataque?
Primeiro foi uma coisa inédita, nunca ninguém tinha feito um ataque destes. Segundo, este ataque mostra a capacidade que a Mossad tem. Já quando foi da morte de [Ismaël] Haniyeh [morto a 31 de Julho, em Teerão, num ataque aéreo atribuído às forças israelitas] nós percebemos a capacidade que eles tinham. Aqui também temos a questão de que facilmente vão conseguir identificar os membros do Hezbollah, porque os membros do Hezbollah que chegam aos hospitais têm ferimentos em sítios muito específicos.
Hassan Nasrallah promete um terrível castigo a Israel. O que é que se pode esperar nas próximas horas?
Estamos todos à espera do ataque do Irão. Já estamos à espera também do ataque do Hezbollah. Não interessa ao Hezbollah escalar a guerra. Vamos esperar para ver. Não há prognósticos.
Mas estes ataques vêm, de alguma forma, expor uma fragilidade do Hezbollah?
Sim, expõem uma fragilidade imensa. Eles estão muito assustados com aquilo que se passou (...) Israel está à beira de invadir o Líbano para garantir que o norte de Israel tenha segurança e, portanto, enfraquece e debilita bastante as capacidades do Hezbollah numa altura importante. Foi uma jogada de mestre, diga-se de passagem.
Este episódio complica um acordo de paz entre as partes?
Sim. O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, foi agora ao Cairo e volta de lá com as mãos abanar. Enquanto a questão do corredor de Filadélfia [fronteira entre Gaza e o Egipto] não se resolver, não haverá acordo.
Após dois dias consecutivos de ataques a aparelhos electrónicos por parte de Israel ao Hezbollah, organização terrorista que actua no Sul do Líbano, a guerra no Médio Oriente parece estar a expandir-se abertamente a outros movimentos que apoiam o Hamas, podendo chegar rapidamente ao Irão.
Pagers, walkie-talkies e outros aparalhos electrónicos foram esta semana alvo de ataques não reivindicados por parte de Israel no Líbano, visando especialmente o Hezbollah, uma das maiores fontes de apoio ao Hamas, na Faixa de Gaza. Para Ivo Sobral, coordenador de mestrado de Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi, está é uma declaração de guerra de Israel a este movimento terrorista.
"É um ataque em larga escala, com uma grande complexidade que não sabemos há quanto tempo estaria a ser preparado, mas seguramente terá demorado bastantes meses ou até anos para Israel preparar este ataque. Neste momento ainda não sabemos os números exactos de vítimas no Líbano. O Hezbollah está a ser fortemente atacado por Israel com um ataque completamente surpresa e que causa um mal estar óbvio no Líbano. Não é só uma questão do Hezbollah ser atacado, é um pouco a sociedade libanesa que é de novo o alvo deste ataque. Israel aqui também arriscou. Obviamente, a maioria destes sistemas estão nas mãos de membros do Hezbollah, uma organização terrorista. Mas um ataque com esta escala poderá ter outro tipo de consequências para civis inocentes que estejam no Líbano. É uma guerra. Israel declara guerra ao Hezbollah neste momento", disse o académico em entrevista à RFI.
No entanto, o Hezbollah é muito diferente do Hamas. Desde logo pelo tamanho das suas forças, pelo menos 100 mil homens treinados e com formação militar, mas também com acesso há várias décadas a material bélico de ponta fornecido pelo Irão, como explicou Ivo Sobral, coordenador de mestrado de Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi, em entrevista à RFI.
"O Hezbollah é um exército bem treinado, com as suas fontes próprias de armamento, com uma ligação muito forte com o Irão, assim como a presença internacional muito vasta. É uma organização que tem muitas unidades convencionais e não convencionais. Tem um sistema de informação complexo, tem uma série de outras capacidades logísticas que o Hamas nunca poderá sequer sonhar. Como é óbvio, o Hezbollah mostrou em todas as guerras do passado que conseguiu sempre infligir perdas bastante grandes a Israel. O Hezbollah teve sempre esta capacidade de se adaptar às ameaças de Israel e às várias medidas e contra medidas militares internas que Israel foi fazendo e sempre conseguiu contornar estas defesas. E o Hezbollah é respeitado pelos próprios israelitas como um inimigo particularmente difícil e bastante enraizado no sul do Líbano. São décadas de preparação e a escala física do Hezbollah é muito maior que o Hamas. O Hezbollah poderá ter talvez 500.000 membros e falamos provalemente um exército de 100.000 pessoa, embora não se saiba ao certo o número", estimou Ivo Sobral.
Mexer com o Hezbollah é também tocar no Irão, esperando-se agora uma tomada de posição firme por parte de Teerão, que pode acontecer em forma de ataque a Israel. Dependente desta resposta está a fidelidade do Hezbollah ao Irão e o próprio posicionamento do Irão no tabuleiro geopolítico do Médio Oriente.
"O Hezbollah é, digamos, a coisa mais importante que existe no arsenal iraniano. Não existe nenhum míssil, nenhuma força tão importante como Hezbollah. Isto faz parte do sistema de leadership interno do próprio Irão e, digamos, não há aqui mais nenhum tampão entre os dois. Portanto o Irão está a acabar com os proxys. Israel está a atacar cada um dos proxys que existem do Irão e o Hezbollah é o mais importante. Quando não existe nenhum barulho, nenhum sintoma que o Irão vai fazer alguma coisa, significa que o Irão está realmente a planificar alguma coisa neste momento e muito provavelmente iremos ter uma resposta do Irão desta vez. Parece-me quase inevitável que isso não aconteça. Seria basicamente o fim desta aliança entre o Irão e o Hezbollah", concluiu.
Está a decorrer em França o julgamento de Dominique Pélicot, um septuagenário que durante dez anos sedou a mulher e contratou quase uma centena de homens para a violar, num caso que tem abalado o país.
É um processo fora do comum que está em curso, em Avignon, no sul de França, desde 2 de Setembro. O principal acusado, Dominique Pélicot, reformado, pai e avô, drogou a mulher, Gisèle, durante dez anos para que outros homens a violassem enquanto se encontrava inconsciente.
Os investigadores contaram cerca de 200 casos de violação, a maior parte dos quais cometidos por Dominique Pelicot e por uma lista de 72 suspeitos. No computador do principal acusado, a polícia encontrou uma pasta intitulada "abusos", contendo mais de 20 mil imagens e vídeos documentando as violações.
No tribunal, mais de 50 homens comparecem no banco dos acusados, entre bombeiros, um perito em informática, um enfermeiro, um jornalista, todos recrutados na internet por Dominique Pélicot.
Esta terça-feira 17 de Setembro, o principal acusado, depois de ter estado ausente devido a questões de saúde, exprimiu-se pela primeira vez, reconheceu os factos e afirmou: "Sou um violador, como os que estão nesta sala".
Gisèle Pélicot, de 71 anos, recusou que o seu processo se desenrolasse à porta fechada, para que o seu caso sirva de exemplo e dê força a outras vítimas de violências sexuais. Uma onda de solidariedade com Gisèle organizou-se, nomeadamente através de uma manifestação que levou dezenas de milhares de pessoas à rua a 14 de Setembro, e à qual a septuagenária agradeceu com uma mensagem forte, afirmando: "Graças a vocês, tenho a força de levar este combate até ao fim".
Em entrevista à RFI, a activista e professora de filosofia Luísa Semedo, que participou na marcha em solidariedade com Gisèle Pélicot considerou que, "muitas vezes, estes casos mediáticos são apenas a ponta do iceberg".
Por submissão química entende-se o facto de drogar alguém sem o seu conhecimento ou sob ameaça para fins ilícitos ou criminosos.
Alguns casos de submissão química já tinham sido noticiados nos últimos dois anos, na maioria dos casos em contexto nocturno, em bares ou discotecas, através do GHB, uma droga despejada nas bebidas.
De acordo com a Agência Nacional dos Produtos Medicinais (ANSM, na sigla em francês) a administração de medicamentos ou de drogas com o objectivo de cometer uma agressão aumentou nos últimos vinte anos.
Regularmente sedada durante anos, Gisèle sofre de perdas de memória e de amnésias que levaram os seus filhos a temer o início da doença de Alzheimer, sem que nenhum dos médicos, neurólogos ou ginecologistas consultados por Gisèle nos últimos anos tenha conseguido fazer o diagnóstico certo.
Segundo Luísa Semedo, a sentença atribuída aos acusados poderá nunca estar à altura do sofrimento causado a Gisèle Pélicot e às consequências dramáticas que pesam na sua vida. Para além das violações repetidas, foi contaminada com doenças sexualmente transmissíveis, sofre perdas de memória devido à droga que lhe foi injectada durante tantos anos e terá de manter acompanhamento psicológico para o resto da vida.
Como dar, então, ao crime de violação, a resposta firme que merece? "Não haverá e de todas as maneiras penso que para Gisèle o objectivo não é que haja uma pena à altura, porque não há, mas sim que não volte a acontecer. Isto é o que todas as mulheres querem. Que não volte a acontecer. E que se ponham em cima da mesa todas as medidas necessárias para que não volte a acontecer. O número de violações é enorme, o número de casos arquivados é enorme, o número de mulheres que ainda não consegue fazer denúncias também é enorme, o número de homens que não vão para a prisão depois de violar também é ínfimo... Ainda há muito por mudar", levanta Luísa Semedo.
Dos 50 homens sentados no banco dos acusados, 35 negam os factos e declaram-se inocentes, considerando ter sido "enganados" e "manipulados" por Dominique Pélicot, quem lhes terá dito, segundo eles, que a mulher sabia e concordava com o que acontecia.
Muitos deles dizem que pensavam que se tratava de um "jogo sexual organizado por um casal libertino". Uma argumentação que poderá ser uma estratégia de defesa, segundo Luísa Semedo.
"Podiam pelo menos ter tido a dúvida. Quando estes homens chegaram a casa do casal e viram que a mulher não se mexia, não estava de todo consciente, podiam pelo menos ter a dúvida, e não partir do princípio que ela tinha dado o seu consentimento. Neste caso, o consentimento foi dado pelo marido e como ela é propriedade do marido, a partir de aí eles podiam fazer o que quisessem?", questiona a activista.
Durante o processo, Gisèle lamentou que nenhum dos homens envolvidos no caso tenha denunciado os factos, mesmo de forma anónima. "Porque é que não entraram numa esquadra? Até mesmo uma chamada anónima poderia ter salvado a minha vida", disse a septuagenária durante o processo, olhando-os de frente.
Dominique Pélicot e a maioria dos outros 50 acusados arriscam-se a cumprir penas até 20 anos de prisão.
Em Portugal, milhares de bombeiros foram mobilizados esta terça-feira, 17 de Setembro, para combater os incêndios florestais que já provocaram 7 mortos, mais de 50 feridos e que devastaram, em três dias, uma área superior à que ardeu durante o resto do verão. As autoridades portuguesas activaram o Mecanismo Europeu de Protecção Civil para obter oito aviões bombardeiros. Dois Canadairs chegaram de Espanha e são esperados aviões disponibilizados pela França, Itália e Grécia.
Francisco Ferreira, presidente da ONG ambientalista portuguesa Zero, reconhece a falta de meios para combater os incêndios e defende a urgência de se repensar a gestão da floresta portuguesa.
RFI: Qual é o ponto de situação dos incêndios em Portugal?
Francisco Ferreira, dirigente da ONG portuguesa Zero: Temos um país que da zona centro do litoral, passando pelo interior e também no Norte regista um conjunto de ocorrências significativas muito grande. No momento, de um total de 151 ocorrências, há 20 que são consideradas ocorrências significativas. Todas elas são de incêndios rurais e, nestas ocorrências, há cinco que são de povoamentos florestais, as restantes são zonas de mato. Mas estamos a falar desde zonas que vão principalmente de Albergaria a Velha até ao Fundão. Portanto, aqui mostra bem as várias zonas a serem fustigadas por incêndios no Norte do país, com algumas ocorrências na zona do Alto Tâmega, em Trás-os-Montes.
Mas, neste momento, há localidades ameaçadas?
Na última noite e mesmo no dia de ontem, várias localidades tiveram casas que arderam e, principalmente, a noite foi muito mais violenta, pela simples razão de que estamos com o tempo muito seco, com muito pouca humidade relativa. Esta humidade pouco aumentou, durante a noite, e houve um vento muito forte em várias zonas. Depois não há capacidade para a actuação dos meios aéreos e isso, obviamente, faz toda a diferença no combate às chamas.
Fala-se muito na regra dos 30. Ou seja, temperaturas acima dos 30 graus, o vento superior a 30 quilómetros hora e a humidade inferior a 30. Esta situação já tinha sido anunciada pela Protecção Civil, no fim de semana. Porque é que mais uma vez não se reage a tempo?
São meras suspeitas, mas há claramente um padrão que nos indica que para além de eventuais acidentes- para além de negligência- haja efectivamente aqui um conjunto de actuação por parte de um “incendiarismo” que nós achamos que é crucial no facto de termos vários fogos a serem ateados em horas e em locais que pura e simplesmente nos parecem muito suspeitos para não ser fogo posto.
Está a referir-se a mão humana?
A mão humana é por negligência, outras vezes a mão humana é propositada e todos os alertas tiveram aqui um feedback, proporcionaram a quem, por motivos até por vezes psiquiátricos, acaba por encontrar as condições ideais para avançar com incêndios ou com fogo posto em vários locais. Não há outra explicação.
Até ao final de Agosto, tivemos realmente um período onde em Portugal tinham ardido apenas 10 ou 11 mil hectares. Para se ter uma ideia, em 2017 tivemos 440 mil hectares ardidos. Porém, nos últimos dois dias já vamos em mais de 20 mil hectares e as expectativas é que muitos destes incêndios têm um potencial para acrescentar, nos próximos dias, mais 30 mil hectares de zonas ardidas. Mas a questão é que muitos destes fogos estão realmente junto a povoações e, portanto, com prejuízos humanos já muito avultados e com perdas de vidas humanas.
Até ao momento, sete pessoas perderam a vida e mais de 50 ficaram feridas. Quais são as grandes preocupações neste momento?
As principais preocupações são realmente ver até que ponto é que se consegue limitar e gerir todas as ocorrências significativas que existem até o estado do tempo mudar, algo que só deverá acontecer na quinta feira.
O país está em alerta máximo?
É uma situação muito difícil, principalmente durante a noite, quando os meios aéreos não conseguem intervir. Portanto, claro que há aqui questões estruturais com as quais nós temos que lidar. Mesmo depois de 2017, nós ainda não conseguimos dar uma resposta àquilo que é o nosso ordenamento e gestão florestal. É preciso acelerar. Mas não é em poucos anos que se muda a forma como nós temos a gestão da propriedade e a presença da floresta em Portugal. Mas efectivamente, temos que ir muito mais depressa e continuamos com o mesmo tipo de problemas que temos desde há muito tempo.
As alterações climáticas obrigam a um arranque que comece mais cedo e que dure mais tempo para as épocas de incêndios florestais?
O que é facto é que nós temos que ter aqui várias vertentes: uma acção estrutural e outra acção- agora prioritária, de mobilização dos meios e de actuação por parte da proteção civil. E, nesse contexto, nós estamos a dar a resposta possível e a solicitar os meios à União Europeia, que rapidamente chegaram ou estão a chegar. Todavia, os meios são sempre insuficientes, como é evidente, e se não mudarmos estruturalmente a forma como gerimos a nossa floresta e o tipo de floresta que temos, não iremos longe.
Temos aqui realmente uma perda brutal do ponto de vista daquilo que são as matérias primas associadas à floresta, mas também no que refere às emissões de carbono, aquilo que é uma mais valia em termos de biodiversidade de muitas áreas florestais e, portanto, dos prejuízos humanos, materiais, mas também ambientais. É realmente sempre uma contabilidade dramática.
Quando se fala de incêndios, aponta-se muitas vezes o dedo aos eucaliptos. Os eucaliptos são, de facto, os principais responsáveis por esta situação?
As monoculturas são sem dúvida responsáveis. Quando eu tenho extensos povoamentos de eucalipto ou de pinheiro, por exemplo. O facto de eu não ter uma floresta diversificada e acima de tudo, ter uma floresta que não está a ser gerida, porque as pessoas saíram- e o centro de Portugal é muito baseado no minifúndio.
Uma floresta que não está a ser vigiada?
Nem vigiada nem que está a ser cuidada.
Numa altura em que o presidente do Parlamento dissolvido da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira, regressou ao país, lamentando a falta de segurança, e depois de o chefe de Estado ter admitido uma recandidatura, tentamos perceber como está o país. O investigador Rui Jorge Semedo não acredita na realização das legislativas em Novembro e diz que a Guiné-Bissau continua à espera da data das presidenciais. O analista avisa que se “continua a viver num clima de insegurança, tensão e caça aos partidos”.
Como está a Guiné-Bissau dois meses antes da data prevista das eleições legislativas antecipadas e ainda sem dia marcado para as presidenciais? Este domingo, Umaro Sissoco Embaló afirmou que está disponível para continuar a ser “Presidente da Guiné-Bissau”, dias depois de ter dito que não se iria candidatar a um segundo mandato. Também este domingo, regressou ao país, após sete meses no estrangeiro, o presidente do Parlamento dissolvido, Domingos Simões Pereira, que lamentou a falta de segurança no país. E é pelo regresso do líder da coligação PAI – Terra Ranka que começámos a entrevista ao investigador Rui Jorge Semedo que admitiu que “a Guiné-Bissau continua a viver num clima de insegurança, tensão e de caça aos partidos”.
RFI: Este domingo, regressou ao país, após sete meses no estrangeiro, o presidente do Parlamento dissolvido da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira. Ele lamentou a falta de segurança no país, que disse afectar todos os cidadãos. Como vê o regresso de Domingos Simões Pereira nesta altura e como vê estas primeiras declarações?
Rui Jorge Semedo, Investigador: “Supostamente ele tinha abandonado o país durante todo esse período exactamente por causa daquilo que ele enfatizou ao chegar, supostamente por causa da perseguição e insegurança. Seis meses depois, a realidade não mudou: a Guiné-Bissau continua a viver num clima de insegurança, de tensão, de caça aos partidos. Portanto, é nesse ambiente que ele voltou ao país e em que muitos outros líderes estão a viver. O líder do Madem-G15, o líder do PRS e o próprio líder do APU-PDGB que chegou a ser primeiro-ministro neste mesmo regime.”
Domingos Simões Pereira notou que é chegada a altura de as forças vivas se levantarem para tranquilizar o ambiente no país. O que significa este apelo?
“Deve começar exactamente pelo assumir do compromisso por parte dos partidos políticos. Ele [Domingos Simões Pereira] lidera o maior partido político na Guiné-Bissau, que nunca chegou a fazer nada nesse sentido de se levantar para poder influenciar o retorno à normalidade constitucional e, consequentemente, à democracia.
Portanto, essa responsabilidade de mobilizar as forças vivas deve começar pela estratégia dos partidos que devem assumir as suas responsabilidades. Aliás, a Guiné-Bissau chegou onde chegou pelas responsabilidades dos partidos, do próprio PAIGC que esteve no poder por um longo período na Guiné-Bissau e contribuiu para chegarmos ao actual estado de coisas que o país hoje vive. É verdade que a partir de 2000 para cá não foi exactamente o PAIGC, foi o PRS, depois o Madem que surgiu recentemente, e o APU-PDGB contribuíram para afundar o país.
Esta responsabilidade cabe aos partidos, mas especialmente ao Domingos Simões Pereira e aos outros líderes partidários que devem influenciar as forças vivas para pressionarem o actual poder político que cumpra com os preceitos constitucionais. O mínimo que deve fazer é cumprir com os preceitos constitucionais, o que não está a acontecer há praticamente cinco anos. Há praticamente cinco anos o país colocou a Constituição de lado e estamos a ser dirigidos em função da vontade particular ou do Presidente da República ou de um grupo de pessoas que estão a ditar regras. É inconcebível pensar que, depois de praticamente nove meses da dissolução do Parlamento, o país não conseguiu realizar as eleições.”
A Guiné-Bissau tem eleições legislativas antecipadas marcadas para Novembro. O que esperar destas eleições? E para quando as presidenciais, uma vez que o mandato do Presidente vai terminar em Fevereiro e ainda não há data?
“No Senegal, aqui ao lado, o Presidente dissolveu o Parlamento e no mesmo dia marcou a data para as eleições. Na Guiné-Bissau, dissolvemos o Parlamento em Dezembro passado e não marcámos. Eu não acredito que em Novembro teremos, na realidade, essas eleições.”
Acha que estas eleições legislativas não se vão cumprir em Novembro?
“Exactamente. A dinâmica política não está a apontar para isso porque temos uma Comissão Nacional das Eleições caduca, que não transmite a credibilidade, a responsabilidade e até o profissionalismo. Temos o Supremo Tribunal de Justiça que tem como competência inscrever e admitir as candidaturas, mas o tribunal está decapitado. Só há uma pessoa que é vice, não é presidente, é vice-presidente e está a ditar as regras, demitir os juízes e fazer o que quer. Portanto, não há condições para a realização das eleições em Novembro. Isso do ponto de vista institucional.
Agora, do ponto de vista da dinâmica ou das dinâmicas, percebe-se que não existe vontade alguma porque o actual poder político, neste momento, quer ainda controlar o ambiente político, sobretudo partidário. Se chegar à conclusão que tudo está sob controlo, obviamente que vamos avançar, mas se chegar à conclusão que ainda falta um trabalho de captura dos partidos, essas eleições não vão acontecer em Novembro.”
Este domingo, o Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, disse que está disponível para continuar a ser “Presidente da Guiné-Bissau”. Isto é um volte-face ao anúncio que fez na semana passada porque tinha dito que não se iria candidatar a um segundo mandato após acatar os conselhos da sua mulher. Como olhar para esta mudança de posição?
“Esse anúncio, na altura, era apenas para desviar aquilo que era a agenda do jornalistas do momento, que era debater o caso do avião estacionado no Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira. Então, todos os dirigentes atentos sabiam que aquele anúncio não era nada sério, não era realmente a intenção. Vendo tudo aquilo que o Presidente tem demonstrado ao longo deste processo, ninguém acreditaria que ele estava realmente a fazer uma comunicação com conteúdo real. Por isso, se disser que se vai recandidatar ou vai abandonar o poder, neste momento não achamos importante. O que achamos é permitir que as instituições funcionem. Depois, o povo guineense decide a quem confiar o Parlamento ou a Presidência da República nos próximos tempos.”
Mas o Presidente da Guiné-Bissau afirmou que não será "substituído nem por Nuno Nabiam, nem por Braima Camará, nem por Domingos Simões Pereira". Ele tem os poderes para decidir quem o vai substituir?
“Num país normal, em condições normais, ninguém ousaria dizer isso porque o soberano é o povo. É exactamente nessa perspectiva que, já nesse dia, nós conseguimos perceber que a intenção dele é continuar no poder. Continuar no poder porque é inconcebível indicar quem o vai substituir, já que o país não pertence a ninguém, nem ao Presidente da República, nem ao chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, nem ao Domingos Simões Pereira, nem a ninguém. Cabe ao povo decidir, quando for chamado às urnas, para ver nesse momento quem lhe inspira maior confiança do ponto de vista daquilo que será a sua competência: ser Presidente, ser deputado…
Nós, nos últimos tempos, temos sido habituados a essa retórica. Antes foi o Presidente Jomav [José Mário Vaz] a dizer isso e agora é o Presidente Sissoco a utilizar a mesma retórica, o que demonstra a posição autoritária desses dois presidentes em dizer ou apontar que não serão determinadas pessoas a serem eleitas Presidente da República. É a população e os eleitores a tomarem essa decisão, não o Presidente ou quem quer que seja.”
A CEDEAO avisou que a Guiné-Bissau é o único país da organização “onde os estupefacientes não só provocam uma crise sanitária, como comprometem potencialmente a viabilidade do Estado” e diz que “o tráfico de droga é identificado como uma das principais ameaças à segurança da Guiné-Bissau, já que está associado a grupos criminosos organizados, à corrupção e à instabilidade política”. O facto de um avião ter aterrado no aeroporto de Bissau com 2,6 toneladas de cocaína, que imagem dá do país?
“A própria CEDEAO tem contribuído - e muito - para o actual estado de coisas aqui na Guiné-Bissau. É verdade que nos outros países também houve apreensões desse género, agora, o que difere a Guiné-Bissau com esses países é que nesses outros países não é perceptível o envolvimento supostamente das autoridades e aqui na Guiné-Bissau é visível, tanto que já foram presas algumas personalidades públicas da Guiné-Bissau no exterior, incluindo militares e políticos, deputados que foram presos no exterior. Então é essa a mensagem que infelizmente, a Guiné-Bissau tem passado.
Eu acho que, em parte, o que disse a CEDEAO não deixa de ser verdade, mas a CEDEAO não se pode colocar de lado porque contribuiu para essa instabilidade cíclica que a Guiné-Bissau está a viver por não ter respeitado e se demonstra desconhecedora também das leis da Guiné. Isso percebe-se logo na última conferência de Chefe de Estado, realizada em Abuja, onde tiraram um comunicado que não reflete porque, em vez de pronunciar muito claramente, chamando a responsabilidade do Presidente para marcar ainda este ano as eleições presidenciais, no comunicado, está lá que a Guiné-Bissau deve ir para eleições legislativas, quando não é o que a Constituição prevê.
Em relação a essas irresponsabilidades da CEDEAO, inclusive enviar uma força de estabilização sem um debate no Parlamento, sem mencionar outros casos de atrocidades do ponto de vista institucional que a CEDEAO tem cometido com a Guiné-Bissau, por isso, não tem autoridade moral e muito menos política para estar a emitir posicionamentos desse género porque também não tem contribuído para melhorar.
Se a Guiné-Bissau se transformar ou se for capturada pelo crime organizado, sobretudo de tráfico de drogas, isso também influenciará negativamente a própria sub-região e a CEDEAO não tem visto, não tem compreendido todo esse aspecto. É por isso que hoje temos situações, por exemplo, no Mali, no Burkina Faso, no Níger e na Guiné-Conacri. Isso mostra que a CEDEAO não está em condições de jogar um papel estratégico de influenciar o funcionamento da democracia nos seus Estados-membros.”
O que significa o silêncio das autoridades sobre o rumo que foi dado ou teria sido dado à droga?
“O que eu acabei de dizer: a diferença entre a Guiné e os outros Estados é que supostamente na Guiné tem o envolvimento das autoridades políticas e militares. Então, temos que trabalhar sobre esse aspecto, mas como é que vamos conseguir? Quando conseguirmos estabilizar o país.
Portanto, é verdade que esta situação não é de hoje, já se arrasta de um tempo para cá, mas é necessário que aqui, internamente, façamos alguma coisa. Mas, também, a Guiné-Bissau não é uma ilha isolada do mundo, particularmente da comunidade à qual pertence que é a CEDEAO.
A CEDEAO tem de ter um funcionamento claro e decisivo em relação à situação da Guiné-Bissau, quer política e quer em relação ao combate à droga porque o combate a droga não é uma luta que se faça de forma isolada. Por isso, a apreensão desse avião aconteceu em sinergia com os departamentos internacionais de luta contra a droga da Europa e dos Estados Unidos. Portanto, eu acho que é dessa forma que o país poderá reunir condições para lutar e combater os narcotraficantes. Temos que lutar para demonstrar ao mundo que a Guiné não é um narco-Estado, mas sim está a ser vítima por causa da fragilidade do Estado.”
Cabo Verde assinalou, no dia 12 de Setembro, o centenário do nascimento de Amílcar Cabral. Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral, afirma não ter havido justiça quanto à morte do marido e defende ser necessário que as antigas potências assumam a responsabilidade pelos erros do passado.
RFI: Como é que era um ambiente em casa durante os momentos mais tensos da luta? Vocês falavam sobre os acontecimentos diários ou tentavam separar o lado político da vida familiar?
Ana Maria Cabral: Falávamos sobre tudo, com os nossos filhos tinha que ser uma linguagem mais adaptada para que eles entendessem. Eles tiveram uma grande experiência; por exemplo, a 22 Novembro de 1970, se a memória não me falha, os colonialistas resolveram atacar Conacri. Bombardearam a nossa casa e não morremos, eu e os meus filhos, por um acaso porque a casa foi mesmo atingida. Tínhamos uns vizinhos, uma família da ex-Jugoslávia, que um dos filhos apanhou com uma bomba que conseguiu separar-lhe a cabeça. Vinha a correr, a sair do quarto -assustou-se com o barulho - quis sair do quarto e ir para o quarto dos pais e a bomba apanhou-o porque a casa deles era igual à nossa.
Na altura, Sékou Touré era presidente da Guiné-Conacri e cedeu-nos um bairro que existia em Conacri que tinha sido feito pelos franceses, que se chamava bairro de La Minière porque o país tem muitos minerais, além da bauxita, tem ferro, tem cobre. Os franceses tinham construído aquele bairro que chamavam Minière. Quando os franceses saíram e se foram embora com a independência da Guiné-Conacri, o Sékou Touré deu ao PAIGC esse bairro.
Não foi nada fácil. Eu tinha o pressentimento que ele poderia desaparecer de um dia para o outro. Os colonialistas estavam tão desesperados que queriam à força apanhar o Cabral. Ele sofreu várias tentativas até que conseguiram a 20 de Janeiro de 1973. Eu tinha consciência disso e tive quase dois anos a tentar convencê-lo e ele não queria aceitar. Estava preocupada e tinha um pressentimento que não seria nada fácil.
Vivia preocupada com a questão da vossa segurança, da segurança, da família?
Vivia muito preocupada, embora estivesse completamente comprometida com o PAIGC, com a escola piloto, com a elaboração de livros. Vivia muito preocupada com a situação.
Como é que vê hoje o legado de Amílcar Cabral em Cabo Verde, aqui, na Guiné-Bissau, em África, 51 anos depois da morte de Amílcar Cabral?
Eu acho que em certos países há muito mais preocupação em seguir o legado de Cabral. Em certas universidades, a obra de Cabral foi traduzida para inglês, para o francês. O falecido Mário Andrade, intelectual angolano que era muito próximo do Cabral, começou a traduzir em francês, agora já está publicado em França e na África do Sul, em inglês, na América, na Europa, em vários países. A obra dele tem sido estudada, traduzida e discutida.
Nós temos um bocado de culpa porque fizemos muito pouco, depois das independências dos nossos país, para manter vivo o pensamento de Cabral, para o divulgar.
Em que sentido é que tem culpa?
No sentido de fazer maior divulgação da obra da Amílcar Cabral. Claro que se criou a Fundação Amílcar Cabral, em Santa Catarina e na Assomada há um liceu Amílcar Cabral. Fazem-se exposições com as obras de Cabral, quanto a mim é pouco.
Se Amílcar Cabral estivesse vivo hoje, o que é que ele diria aos jovens?
Eu penso que eu diria aos jovens que têm que estudar e aprender porque esta terra já não é uma colónia. É uma terra independente e há muito por se fazer.
Alguma história que queira partilhar connosco, que não seja conhecida nas narrativas históricas de Amílcar Cabral da vossa história.
Apesar de todas essas preocupações, ele dava muita atenção aos nossos filhos. Havia uma refeição que ele fazia questão de comermos todos juntos, em geral era o pequeno-almoço porque depois os meninos iam para a escola e eu para o meu trabalho. Por vezes, mandava-me chamar lá da escola, arranjavam um motorista ou ia mesmo buscar-me.
Ele levantava-se muito cedo e tomava um café, um sumo de laranja ou de toranja, havia muita toranja em Conacri, e um cafezinho preto, mas só comia por volta das dez horas. Era nessa altura que vinha buscar-me às aulas e eu ficava furiosa porque tinha de interromper a aula. Tinha de arranjar uma desculpa qualquer aos meninos e ir, porque sua excelência não queria comer sozinho ou queria companhia.
Queria partilhar inquietações?
Exactamente.
De conhecer o seu parecer relativamente a decisões importantes que teria que tomar...
Provavelmente era isso que queria. Gostava e tinha de perceber o meu trabalho, tinha de conhecer tudo sobre o meu trabalho: o que eu fazia lá na escola, tudo o que eu não fazia.
As grandes reuniões do partido eram lá nessa escola piloto. Ficava mais ou menos a cerca de três quilómetros de entre o secretariado do PAIGC, onde vivíamos e onde ficava a Escola Piloto.
Depois também aparecia assim de repente, na escola, logo de manhã cedo, às 10 horas porque a primeira aula que eles tinham era ginástica e ele incentivava os professores a dar atenção à ginástica, não só ao intelecto, mas também ao físico.
Se tivesse oportunidade de rever Amílcar Cabral e contar-lhe no que se transformou o mundo, o que é que lhe contaria?
Teria de aceitar e dizer-lhe que o mundo evoluiu. Temos um outro mundo, temos o mundo já quase sem colónias - que eu saiba que eu me recorde, assim de repente, não há grandes colónias, os países estão independentes.
Claro que há muita coisa ainda por fazer. Há guerras: a guerra ridícula, para mim, da Ucrânia, a guerra da Palestina com Israel, que é outra coisa mais ridícula. Não percebo por que motivo é que não se entendem porque podiam fazer se dois Estados o Estado de Israel, o Estado da Palestina. Porque é que ainda há tanta divisão? Por exemplo, o problema do Vietname ficou resolvido, o problema das colónias portuguesas ficou resolvido. Há pequenos conflitos, mas está muito melhor do que era antigamente.
Valeu a pena lutar?
Valeu a pena, embora com muito sacrifício. Muitos de nós estão com uma saúde completamente estragada e agora é que se estão a revelar os problemas de saúde.
Na casa dos estudantes do Império e das reuniões entre Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mário de Andrade, todos poetas. Consegue explicar essa ligação entre a política e a poesia?
O que é a poesia senão relatos da vida, da vida diária?
Sente que houve justiça em relação ao que aconteceu a Amílcar Cabral? Pede se uma investigação séria, transparente para conhecer as circunstâncias, para perceber realmente o verdadeiro papel dos aliados e inimigos internos e externos de Cabral. Sente hoje que houve justiça?
Não houve justiça nenhuma, mas há tempo alguém falava - creio que foi o Presidente Marcelo - que era preciso fazer uma reparação. Vários políticos foram contra isso. Ele tem uma certa razão. As antigas potências deveriam fazer uma espécie de reparação. Essa história de uma boa cooperação bilateral faz parte, mas é pouco ainda. Acho que é pouco.
E como é que se repara?
Essa, é a questão. Como é que se repara? Se nos sentarmos e pensarmos, analisarmos bem, havemos de encontrar uma maneira.
Cabo Verde comemora o centenário do nascimento de Amílcar Cabral, figura que liderou a luta pela libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. "Quando conheci Cabral o que me atraiu logo foi o lado político. Nós seguíamos as lutas de todos os povos do mundo. Acompanhámos a libertação de Cuba e precisávamos de gente assim para começar a luta, para mudar o nosso país", conta-nos Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral.
RFI: De que forma é que olha para estas celebrações em torno do centenário do nascimento de Amilcar Cabral?
Ana Maria Cabral: Foi uma boa iniciativa, mas foi pena não ter oportunidade de mobilizar mais gente, sobretudo jovens. A sala estava muito vazia. Fiquei impressionada, tendo em conta que se realizou no auditório de uma universidade. Claro que as aulas ainda não começaram, mas devíamos ter mobilizado mais alunos, porque foi pena. As intervenções foram muito interessantes. Foi pena realmente a assistência ter sido muito reduzida.
Recorda-se do primeiro encontro com Amílcar Cabral?
O primeiro encontro foi há muitos anos. Acho que o primeiro encontro terá sido em Lisboa. Havia gente ligada à Casa dos Estudantes do Império, onde eu era muito activa. A Casa dos Estudantes do Império ficava na Rua Actor Vale, 37, onde vivia uma família de São Tomé e Príncipe, se a memória não me falha. Acho que foi nessa casa que eles criaram o Centro de Estudos Africanos, ele, o Agostinho Neto, o Mário de Andrade, já todos falecidos. Mais tarde entrou também o Eduardo Mondlane, de Moçambique, que também já morreu.
Organizavam-se bailes, encontros no Natal, porque a maioria não tinha familiares em Portugal e era uma maneira de estarmos juntos. Na Casa dos Estudantes do Império, além das festas, organizavam-se outros actos culturais. Eu conheci o Amílcar numa dessas casas. Um dia disseram que ele era casado com uma portuguesa e eu disse 'ele não quer saber nada da nossa terra'. Foi uma amiga são-tomense que nos apresentou, ela continua a viver em Portugal, chama-se Esperança e também é viúva como eu. Foi ela quem me apresentou o Amílcar Cabral.
O que é que a atraiu: o homem ou o político?
Quando conheci Cabral o que me atraiu logo foi o lado político, embora fosse um homem extremamente atraente. Nós seguíamos as lutas de todos os povos do mundo. Até acompanhámos a libertação de Cuba e sempre precisamos de gente assim para começar a luta, para mudar o nosso país, libertar os nossos países. Foi interessante.
Quais é que foram os maiores desafios de ser esposa de um líder revolucionário?
Os desafios foram tantos, tantos, que eu podia ficar um dia inteiro a contá-los. Resumindo: o maior desafio foi acompanhar uma personalidade como ele, com um carácter forte. Além de ter um carácter muito forte, ele era condescendente, aceitava as opiniões de todos, mesmo se ele reparasse que não tínhamos razão. Ele aceitava porque ele aceitava a opinião de toda a gente. Ele dizia que 'todos nós somos úteis para essa nossa luta de libertação' e por isso aceitava a opinião de toda a gente. Lembro-me das reuniões que ele fazia com os mais velhos, com aqueles chefes. A Guiné é um país pequenininho, mas cheio de grupos étnicos, variadíssimos grupos étnicos. Há grupos que são sociedades estratificadas, e ele reunia-se com esses chefes. Uma vez, lembro-me, a propósito das mulheres, ele tinha lançado a ordem de que tínhamos de proteger as nossas mulheres nas áreas já libertadas do colonialismo. Ele insistia que era preciso chamar as mulheres.
Integrá-las na luta?
Não só integrá-las, havia muitas mulheres. As mulheres foram as primeiras a participar na luta porque elas eram exploradas em casa pelos maridos. Permitia que toda a gente participasse, inclusivamente aqueles que não estivessem de acordo podiam defender os seus ideais, as suas opiniões. Ele aceitou que toda a gente expusesse o seu ponto de vista, mesmo que fossem contrários à opinião dele. Por exemplo, nas áreas libertadas ele e os companheiros dele, se eram cinco membros, três tinham que ser mulheres. Se eram comités pequenos ou de três membros, um tinha de ser uma mulher. Houve muitos protestos da parte dos homens que diziam 'não há mulher para ficar em casa para cozinhar para nós', não sei o quê. Foi muito difícil.
Mais tarde, ele e os companheiros dele resolveram criar as milícias, que eram gente que ajudava os combatentes que estavam a participar directamente no combate. Foi também um problema, os homens mais velhos não queriam que a mulher participasse, mas lá se conseguiu. Houve algumas mulheres que se tornaram célebres, como a Carmen Pereira, já falecida, e a Titina Silá, que morreu estupidamente. Ela estava numas áreas libertadas no Norte e como era muito jovem tratava o Cabral como pai. Quando soube da sua morte quis ir a Conacri assistir aos funerais e os portugueses colonialistas acharam que deviam passar por aquele rio, que era um rio cheio de crocodilos. Ela caiu e como não sabia nadar, os companheiros não conseguiram salvá-la e ela terá sido levada e comida pelos crocodilos. Teve uma morte estúpida. A Titina Silá é considerada uma heroína. Todos os anos, depois de 20 de Janeiro, a data em que mataram o Cabral, as pessoas levam as crianças com flores e vão deitar flores a esse rio.
O facto de ter vivido ao lado de Amílcar Cabral, de o ter apoiado, como é que vê para o seu contributo na luta de libertação?
Eu, como era militante, eu tinha de contribuir, como toda a gente.
Mas mais ainda enquanto esposa..
Como militante fui professora na Escola Piloto. Depois foram-se criando áreas libertadas e uma das coisas que se fez foi criar pequenas escolas onde a palavra de ordem era 'quem souber ler e escrever tem de ensinar aos outros'. Os combatentes que sabiam escrever e ler, ensinavam. No início, abriram-se pequenas escolas com os meninos sentados no chão e assim começou a alfabetização nas áreas libertadas. Trabalhei na escola piloto como professora com os alunos, tivemos de fazer livros, tivemos de arranjar todo o material para fazer livros. Mais tarde, com o desenvolvimento e com trabalho de Cabral e dos outros, recebemos muito material escolar da parte dos países nórdicos, sobretudo da Suécia, Alemanha, antiga RDC, de Cuba... e às vezes tinha de interromper o meu trabalho porque o Cabral estava cansado de viajar sozinho e pedia que eu o acompanhasse. Fui a muitas conferências, acompanhando o Cabral.
Em entrevista à RFI, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, evoca o centenário do nascimento de Amílcar Cabral como um momento que revela "a heroicidade do povo cabo-verdiano, apesar de todas as adversidades, Cabo Verde é hoje um país independente, graças à liderança de Amílcar Cabral".
RFI: Cabo Verde assinala o centenário do nascimento de Amílcar Cabral. Foi depositada uma coroa de flores, feito descerramento de uma placa alusiva ao centenário. Esta é a homenagem justa ao pai da nacionalidade cabo-verdiana?
José Maria Neves: Para além dessas actividades, foram realizadas muitas outras, como o Simpósio 'Amílcar Cabral, um património nacional e universal'. Há debates em várias universidades, manifestações culturais. Penso que a sociedade civil está a comemorar com algum entusiasmo o centenário do nascimento de Amílcar Cabral, que é hoje uma figura consensual em Cabo Verde e que se destaca como um dos principais heróis nacionais.
O que é que esta data lhe evoca?
Evoca heroicidade do povo cabo-verdiano, apesar de todas as adversidades, Cabo Verde é hoje um país independente, graças à liderança de Amílcar Cabral e está a construir o seu desenvolvimento. Cabral colocou sempre no centro da sua luta a dignidade da pessoa humana e hoje os cabo-verdianos vivem mais dignos com liberdade, em democracia. Estamos a construir os alicerces de um desenvolvimento durável. Considero que Cabral deu um enorme contributo para que hoje pudéssemos ter este Cabo Verde mais digno e com uma grande abertura de espírito para construir um futuro melhor para todos.
Uma das maiores inquietações e preocupações de Cabral era a educação, eram as crianças. Essa continua a ser uma prioridade, uma vez que a maioria da população é muito jovem em Cabo Verde?
Claro, os investimentos nas pessoas, particularmente educação, saúde e segurança social, eram preocupações fundamentais de Cabral. Após a independência investimos na educação, na democratização do acesso à escola e hoje temos escolas por todo o país liceus, universidades e temos uma população formada e educada. Eliminámos o analfabetismo e houve uma expansão do sistema nacional de saúde, do sistema de segurança social. Estamos com indicadores muito elevados nesses domínios. Fizemos o que tínhamos que fazer nesses 50 anos da nossa independência. Agora é dar o salto e fazer melhor, sofisticar mais e continuar a investir na educação, na saúde, na segurança social e, finalmente, na melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Este centenário não tem o mesmo eco nos dois países de Cabral. Consegue entender porquê?
Bom, há alguns ruídos, alguns problemas. Aqui em Cabo Verde, Cabral é herói nacional, segundo um diploma de Estado. Cabral tem sido homenageado por todos os chefes de Estado cabo-verdianos da democracia. Ainda em 2000, no quadro das comemorações dos 25 anos da Independência, foi inaugurado o mausoléu e fez-se o descerramento da placa por António Mascarenhas Monteiro, homenageando Cabral enquanto fundador da nacionalidade cabo-verdiana. É importante reconhecermos esses pontos, esses factos e respeitarmos os símbolos nacionais, respeitarmos a história do país.
Um país tem de ter alicerces espirituais muito fortes para poder construir o futuro. E aqui as datas nacionais o 20 de Janeiro, o 5 de Julho, o 13 de Janeiro, a bandeira, o hino, os heróis nacionais são seivas importantes para irrigar a espiritualidade, a identidade cabo-verdiana e podermos, assim, de mãos dadas, construir o futuro. Portanto, em Cabo Verde respeitamos, queremos ser um país livre, com grande abertura de espírito, um país democrático e é isso que está em causa.
Há outros conflitos, outros problemas na Guiné-Bissau, mas há também esforços de algumas comunidades no sentido de comemorarem condignamente o 12 de Setembro e espero que possamos ultrapassar os conflitos, os problemas existentes, porque Cabral lutou sobretudo para forjar uma nação guineense forte, onde as pessoas pudessem viver com liberdade e com dignidade.
Como é que vê a Guiné-Bissau hoje, como histórico do PAICV, como vê a relação com o PAIGC?
Acho que a nível do Estado, que é o que eu posso falar, temos feito um esforço para haver boas relações com a Guiné-Bissau. Fiz já uma visita de Estado à Guiné-Bissau, fiz uma outra visita para participar na cimeira da CEDEAO. O Presidente já fez uma visita de Estado a Cabo Verde. Já esteve nas comemorações dos 50 anos da libertação dos presos políticos e, portanto, é muito importante que essas relações entre os Estados se concretizem com abertura e de uma forma construtiva. Há conflitos na Guiné-Bissau, mas caberá às elites políticas, às principais lideranças, encontrarem, autonomamente, formas para resolverem os seus próprios problemas.
Em 2020, um conjunto de historiadores na BBC considerou que Amilcar Cabral é a segunda figura mais importante do século XX. Cabral é um herói nacional, mas é também um herói aclamado no mundo?
Sim, Cabral é muito debatido, mesmo em Portugal porque Cabral, nos seus textos, tem um grande carinho, uma grande amizade pelo povo português e dizia até que após a independência, deveríamos estabelecer relações especiais com Portugal.
É o caso?
E é o caso, Cabo Verde tem relações muito especiais com Portugal e é importante termos em conta que Cabral também promovia muito a língua portuguesa e disse que talvez fosse a principal herança que nós teríamos de Portugal. A sua primeira mulher era portuguesa e sentia-se, pela sua formação, pelo seu discurso, que Cabral tinha uma grande admiração pelo povo português, pela cultura portuguesa, pela língua portuguesa. Isso influenciou muito, desde a independência, as relações entre Cabo Verde e Portugal.
Há quem defenda que a melhor forma de homenagear Cabral é dizer a verdade sobre a sua morte sobre o assassínio. O que é que tem a dizer em relação a isto?
Eu acho que os actores materiais do crime já foram identificados. A questão tem a ver com autoria moral. Mas é claramente pelos acontecimentos, pela história, pelos antecedentes, que Cabral terá sido assassinado a mando da PIDE/DGS. E isso é cada vez mais evidente para quem conhece os antecedentes e toda a história da morte de Cabral. Ainda que pairem dúvidas sobre esta matéria, havia muitas contradições, muitos conflitos. Mas é evidente, cada vez mais, que os autores morais desse crime têm a ver com agentes do colonialismo.
O Presidente Pedro Pires dizia-nos que Amilcar Cabral doou a vida pelo povo cabo-verdiano e guineense. Concorda?
Sim. Amílcar Cabral morreu pela independência da Guiné e de Cabo Verde. Há dias, Pedro Pires terá dito que tem uma dívida trágica com Cabral porque permitiram que ele fosse assassinado, que foi uma falha. As lutas com essa dimensão acabam por conter falhas desta natureza. Mas Cabral é efectivamente o homem que doou a sua juventude e doou a sua própria vida à causa da libertação da África e particularmente dos povos da Guiné e Cabo Verde.
O Senhor Presidente recorda-se, devia ser muito novo na altura, do dia 20 de Janeiro de 1973?
Eu recordo-me, mas por um fenómeno fortuito. Havia uma pequena gráfica em Santa Catarina. Havia um grupo de jovens que trabalhavam nessa gráfica no dia da morte de Amílcar Cabral. Foram distribuídos panfletos, panfletos na Assomada que denunciavam a morte de Amílcar Cabral. Os jovens que trabalhavam nessa gráfica foram todos presos pela PIDE e interrogados para saber se eles é que tinham impresso esses panfletos, que eram coloridos, e foram imediatamente recolhidos. Não entendi bem porque é que tinham sido recolhidos. Eu estava no ciclo preparatório. A ideia era que tinha sido morto um grande terrorista que quis derrubar Salazar. Para os mais velhos, na altura era uma grande ousadia um homem africano querer derrubar Salazar. Foi a partir desse elemento fortuito que eu tomei conhecimento, mas não tinha a dimensão da luta das principais questões que se referiam à libertação da África e da Guiné e Cabo Verde.
A traição e o assassínio de Amilcar Cabral foram um golpe devastador para o movimento. Como é que o PAIGC reagiu a essa perda e o que é que mudou depois?
Eu acho que, passado o trauma inicial, o PAIGC conseguiu reorganizar-se e conseguiu ter forças e energia um pouco para "vingar" a morte de Cabral. Foi o que aconteceu. Proclamaram a independência, houve recrudescimento da luta armada nas várias frentes e conseguiram efetivamente grandes ganhos no plano internacional e o PAIGC sobreviveu à morte de Cabral.
Comemora-se esta quinta-feira, 12 de Setembro, o centenário do nascimento de Amílcar Cabral. Pedro Pires, antigo Presidente de Cabo Verde e um dos líderes da luta de libertação da Guiné e de Cabo Verde recorda a sua relação com Amílcar Cabral.
RFI: No Simpósio Internacional Amílcar Cabral, disse que "Cabral é uma personalidade excepcional, que não nasce todos os dias" porquê?
Pedro Pires: Na verdade é ou foi uma pessoa excepcional. Quando avaliamos o seu percurso pessoal, o seu percurso político, chegamos a essa conclusão porque Amílcar Cabral, quando decidiu dedicar-se 100% às lutas de libertação de Cabo Verde, da Guiné e das outras colónias portuguesas em África já era um técnico muito conhecido e tinha a vida organizada do ponto de vista material. Estava muito bem e é a pergunta que se coloca. Porquê? O que é que o motivou? Aí é que chegámos à conclusão da sua excepcionalidade, porque geralmente uma pessoa nessas condições teria dúvidas, teria reservas. Mas ele não teve dúvidas. Estava convencido daquilo que fazia ou estava convencido do valor das suas opções. É dessa forma que eu avalio a personalidade de Amílcar Cabral.
Ao mesmo tempo, o seu percurso político foi excepcional. Afirma-se naturalmente como um grande líder, um grande dirigente e afirma-se como um teórico, um pensador, alguém que foi capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo: dirigir uma luta de libertação que obriga a um esforço grande e a ocupação do tempo disponível. Mas, ao mesmo tempo, há a reflexão, criatividade, a inovação, a busca de razões e a busca de explicações. Cabral, quando morreu tinha uma visão completamente diferente - espero que não esteja a exagerar - da luta que conduzia, das possibilidades e das capacidades dos povos que dirigia. Amílcar Cabral é o símbolo de tudo isso. O que marca ainda mais é a sua morte trágica. Apesar de tudo isso, não fugiu a uma morte trágica e isso também faz dele uma personalidade excepcional.
Lembra-se do primeiro dia em que conheceu Amílcar Cabral?
Quando conheci Amílcar Cabral já tinha tomado uma decisão, uma opção de integrar o partido que Amílcar Cabral dirigia. Depois desse encontro inicial, tivemos a oportunidade de conviver durante cerca de 12 anos. Isso deu-me a oportunidade conviver com ele, discutir com ele, debater com ele, de apreciar as suas qualidades de líder, apreciar as suas qualidades humanas. Tive essa oportunidade e as minhas conclusões derivam dessa convivência, mas também da avaliação que eu tenho estado a fazer do percurso dele.
Amílcar Cabral é para mim uma interrogação por que é que isso aconteceu: Por que motivo optou por isso? Por que motivo agiu assim? É sempre uma interrogação para mim. Para mim, há dois ou três conceitos. Nesse aspecto, a doação, a dádiva, o reconhecimento. Ando a reflectir à volta disso. Tenho gratidão por aquilo que fez, gratidão por aquilo que doou e reconhecimento por aquilo que fez.
Ele doou a sua vida?
O mais trágico é ter doado a vida. Isso é o final trágico de tudo isso. Esse final trágico, eu acho que talvez seja a razão da nossa ligação. A razão da minha dívida para com ele.
Que momentos mais marcantes viveu ao lado de Amílcar Cabral na luta pela independência?
Vivi vários momentos e, mais do que isso, tenho todas as correspondências trocadas com ele quando me encontrava no sul da Guiné. No simpósio estava a ver a plataforma apresentada para o Alfredo Caldeira e veio-me à memória o seguinte: afinal, quando ele foi interceptado no aeroporto de Orly, eu estava lá à espera dele, afinal a polícia francesa roubou-lhe os documentos que tinha, certamente algumas notas que tinha. Ele vinha da Suíça e polícia francesa roubou, retirou, mas o pior não era o ter roubado para uso próprio. O pior é ter enviado à PIDE essa documentação. Foi um momento extremamente complicado para mim, agora tenho os dados da polícia DGS, a polícia francesa tem os dados e posso avaliar os riscos que tínhamos corrido. Se ele foi interceptado depois Mantido, não diria detido porque seria exagerado utilizar a palavra detenção, eles identificaram que eu era companheiro dele. Quais os riscos que pairavam sobre mim? Ele podia ser mandado para Portugal. Eu podia ser preso.
Tinham consciência dos riscos que corriam na altura?
Não. Francamente, eu acho que fui nessa matéria - porque eu estive cerca de dez meses em França a fazer um trabalho clandestino. Talvez eu acreditasse que a polícia francesa não não se interessasse por aquilo que eu andava a fazer. Afinal, interessava-se, interceptou as minhas correspondências, interceptou o meu líder e tudo isso foi um momento de grande tensão e de grande risco.
Estávamos em 1968, mas eu tinha estado em França durante todo o ano de 65. Não diria que presenciei nem testemunhei, mas tive conhecimento directo do rapto do Ben Barka, que era o líder da oposição, líder esquerda da oposição marroquina, era o presidente da comissão organizadora da Conferência Tricontinental, foi raptado em França, numa outra avenida do Quartier Latin, é raptado em pleno Paris e desaparece para sempre. Quando aconteceu esse acidente ou incidente com Amílcar Cabral, eu lembrei me imediatamente do destino do Ben Barka. Esse foi o momento de grande tensão, mas ao mesmo tempo teríamos de ter alguma coragem para tomar as iniciativas que pudessem oferecer-lhe a garantia de que não seria preso e enviado a Portugal.
Há pouco falou da troca de correspondências quando se encontrava no sul da Guiné com Amílcar Cabral. Do que é que falavam na altura?
Já falava da luta armada na Guiné e dos objectivos que tínhamos em vista, era uma correspondência operativa sobre aquilo que nós deveríamos fazer, sobre aquilo que eu devia fazer, sobre algumas operações que ele achava que nós devíamos elaborar. Uma dessas cartas fala precisamente da operação que veio constituir o fim da guerra, que era o ataque ou assalto ao quartel de Guileje, no sul da Guiné. Houve três correspondências em que insistia nessa questão que era preciso resolver o problema de Guileje, que nós conseguimos resolver quatro meses após a sua morte.
Que problema era esse?
O problema é o facto de haver um quartel que devíamos eliminar. Esse era o desafio. Se não é problema, era o desafio. A operação decorre de Março a Maio 1973 e organizámos a operação fins de Fevereiro, início de Março até 22 de Maio de 1973. Foi o golpe final e o abandono do quartel pelas tropas portuguesas.
De que forma Cabral conciliava a luta armada, a diplomacia e a formação política do povo?
O Cabral era um líder excepcional porque, para além de tudo isso, ele formava-se, melhorava as suas capacidades, melhorava os seus conhecimentos. Essa excepcionalidade de conseguir fazer tudo isso ao mesmo tempo. Nesse aspecto, lembro-me de também eu estava em Paris, naquela missão de 1965. Ele pediu me um livro de um antropólogo polaco, mas trabalhou na Inglaterra de nome Malinowski. Andei o Quartier Latin inteiro para encontrar esse livro, até que o encontre. Ele disse Bom, tens de me arranjar e mandar esse livro. Encontrei o livro de Malinowski sobre uma das etnias da Nova Guiné. Isso é para dar ideia que, para além de tudo, ainda se cultivava, investigava. Aí está a sua excepcionalidade. A capacidade era muito maior do que a nossa para fazer tanta coisa ao mesmo tempo.
Ele ficou conhecido pela capacidade de unir diferentes grupos étnicos e culturais. Como é que ele conseguiu formar uma frente unida no contexto de uma luta diversificada?
Está claro que há perguntas para as quais não tenho resposta. A minha resposta vem da observação e da convivência pela entrega plena, completa. O espírito de entrega, a coerência, o seu sentido de compromisso, mas a sua fidelidade à causa. Só isso é que poderia inspirá-lo a fazer tudo isso ao mesmo tempo. Mas, ao mesmo tempo, posso introduzir um outro conceito ou uma outra avaliação é a ligação. Podemos chamar isso até o amor que ele tinha para os guineenses, para os cabo-verdianos, é esse amor, a identificação, o espírito de pertença, o sonho de ver esses povos livres.
Em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, decorre desde segunda-feira o Simpósio Internacional Amílcar Cabral. Numa altura em que já passaram mais de 50 anos da morte de Cabral, que legado é que ele deixa em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em África e no mundo?
O legado é interessante porque ia comentar como é que está a decorrer o simpósio. O interessante aqui é que o número de intervenientes, o número de conferencistas de Cabo Verde da Guiné em número elevado, significa que os jovens, a mensagem passou. A mensagem chegou. Caso não tivesse chegado, não haveria essa parte, a ideia, a presença ou pensamento de Amílcar Cabral está difundido. Veja tudo isso junto, diz-nos que, na verdade, Amílcar Cabral e seu pensamento está presente entre nós nas várias instituições de ensino. Para mim, esse é o lado mais importante.
O que é que significa para si Amílcar Cabral enquanto amigo e enquanto líder da libertação?
As nossas relações eram relações de amizade e de camaradagem. Diria que é algo que ultrapassa muita coisa porque nós corríamos o risco juntos, investíamos o que nós tínhamos nesse projecto e essa ligação e nós estávamos a correr o risco, mas sonhávamos o mesmo sonho.
Valeu a pena?
Acho que sim. Acho que valeu a pena pessoalmente. Toda a minha vida gira à volta desse projecto que é o projecto da libertação dos nossos países e ao mesmo tempo, o projecto da sua afirmação, mas também que é o projecto da mensagem de Amílcar Cabral: a mensagem da libertação. A mensagem que nós devemos pensar pelas nossas cabeças, mas nós devemos assumir o nosso destino.
O Miguel de Barros abordou essa questão da soberania, das nossas opções, da soberania, das nossas decisões. Nós devemos assumir como responsáveis pelo nosso futuro. Por vezes é extremamente complicado ou difícil porque há todo um movimento internacional no sentido de nos tirar, déposséder em francês, da nossa soberania de decisão, através dos métodos médicos e dos agentes mais diversos, de modo estamos sem saber, sem descobrir e estamos em competição permanente quanto ao futuro do mundo.
No início da entrevista falava das questões que se coloca, das respostas que ficaram por responder. Imagino que falava de quem disparou em 1973 contra Cabral. Acredita que tenha sido alguém dentro do partido do PAIGC?
A questão da traição nos movimentos de libertação, nas guerras, são fenómenos provocados pelos traidores. Ele são aqueles que são utilizados pelos nossos inimigos para trair a nossa causa e, eventualmente, assassinar os líderes. Foi o que aconteceu e Amílcar Cabral abordou a questão da traição de diversos ângulos: a primeira vez que ele aborda a questão foi em 1961 no Cairo, numa comunicação em que dizia que a crise africana é uma crise do conhecimento. Ele diz os imperialistas não dispensam os seus agentes, os traidores. Em 1961 já tinha abordado essa questão. Ele aborda essa questão da traição na homenagem a Kwame Nkrumah, em que aborda a questão do cancro, da traição. Isso dá-nos a ideia da dimensão do homem africano.
Ele aborda essa questão já num contexto interno, quando do assalto a Conacri, perguntamos por que é que os guineenses, depois de terem a independência, depois de ter ganho a dignidade da independência, da soberania, decidem trair a pessoa que encarna tudo isso Sékou Touré. Por que é que decidiram trair? O que é que faltava? Colocava-se a questão mas as instituições que nós criámos dão plena confiança às pessoas que dirigimos. A questão da confiança, a questão da desconfiança, o medo do futuro, mas isso vem de longos anos de dominação colonial que nos fez perder essa capacidade.
A traição é corrente no seio dos movimentos de libertação. O traidor, ou seja, aquele que ia assassinar Amílcar Cabral, teria que estar no nosso meio. Ele disse isso, alertou para isso várias vezes, não é nada de incomum que houvesse traição no nosso meio. O trabalho do nosso inimigo era precisamente criar traidores, alimentar traidores, fazer com que esses traidores traíssem a luta e isso é derivado da fraqueza enorme em matéria de consciência nacional, uma fraqueza enorme em matéria de dignidade e uma fraqueza enorme em matéria de confiança em si. São fraquezas que nos conduzem à traição.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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