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  • #128 – Tá em alta – ep. 3: Patentes

    Neste novo episódio do Oxigênio, damos continuidade à série Tá em Alta, que trata de temas relacionados à tecnologia, inovação e empreendedorismo. Neste terceiro episódio, a jornalista Thais Oliveira fala sobre invenção, inovação e patentes, apresentando vários exemplos e histórias bem representativas do universo das patentes. E para esclarecer algumas questões, ela conversou com a Paula Huber, que é farmacêutica especialista em patentes e que trabalha, atualmente, na indústria química. Um dos temas abordados pela Paula interessa à sociedade neste momento, já que diz respeito a um mecanismo da Lei de Patentes, que é a licença compulsória, que talvez seja usada para garantir acesso às vacinas contra a Covid-19. O episódio conta, ainda, com um guia de como depositar uma patente. O texto, produção e edição do episódio foram feitos pela Thais.

    Thais: Olá, pessoal (!) sejam bem-vindas e bem-vindos ao terceiro episódio do podcast Tá em Altasso

    Neste programa nós pretendemos tratar de assuntos relacionados à inovação tecnológica e empreendedorismo de uma forma simples e explicativa.

    Isso porque no nosso cotidiano esses assuntos estão muito em alta, sempre citados na internet, nas escolas, nas universidades. Mas nem sempre todo mundo sabe na prática o que inovação, startups ou tecnologia significam.

    Neste episódio, nós falaremos sobre patentes. Entenderemos o que elas são e quais são suas características.

    Além disso, também vamos saber qual é o processo de registrar uma patente a partir de uma invenção.

    As patentes também estão muito em alta neste ano porque elas têm tudo a ver com as novas vacinas que tem tudo a ver com a pandemia e nós vamos entender o porquê disso.

    Ah, lembrando que muitos termos que nós vamos citar já foram tratados nos podcasts anteriores como o significado de tecnologia, palavras como inovação produto e processo.

    Então se você ficar com alguma dúvida confira os últimos episódios.

    Antes de falarmos diretamente sobre as patentes existem três conceitos relacionados a ela que são importantes de serem diferenciados: descoberta, invenção e inovação.

    A descoberta ocorre quando alguém descobre algo que já existe na natureza, mas que não tem influência do ser humano. Por exemplo, quando os cientistas descobriram as funções das organelas das células, eles não resolveram um problema, pesquisaram e descobriram sua existência. Já a invenção ocorre quando alguém cria algo novo a partir da combinação entre elementos preexistentes.

    Um exemplo para ficar mais claro para a gente, é o da invenção da cirurgiã dentista Therezinha Beatriz Zorowich. Ela estava cansada de ter que usar uma bacia para lavar o arroz e depois outra bacia para escorrê-lo, então em 1959 ela teve a ideia de juntar essas duas ações em uma só, e assim foi inventado o escorredor de arroz.

    Entretanto, nesse caso é importante nós mencionarmos que nem toda invenção pode ser considerada uma inovação.

    Isso por que ela só se torna de fato uma inovação quando gera um valor para sociedade, ou seja, ela consegue proporcionar um desenvolvimento social e econômico

    Um exemplo de inovação é a caneta esferográfica. Até a sua criação as canetas demoravam pra secar e elas borravam constantemente.

    Em 1930, o húngaro Lazlo Biró desenvolveu uma caneta que evitava que a tinta borrasse e quando aplicada no papel, ela secava com muita rapidez.

    O líquido da tinta foi desenvolvido pelo seu irmão Gyõrgy Biró, que era químico. Depois da criação, os dois irmãos patentearam a invenção.

    Bom, como acabamos de conhecer as diferenças desses conceitos, agora vamos direto ao mundo das patentes.

    Patente é o registro que o governo concede a uma pessoa ou empresa que cria uma invenção.

    Ela tem validade de até 20 anos e impede terceiros de usufruírem comercialmente dela.

    Cada país tem o seu órgão responsável por fazer essa concessão. Aqui no Brasil, nós temos o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI. Nós vamos falar bastante dele hoje!

    Para se patentear algo, o INPI comenta que três requisitos devem ser atendidos.

    O primeiro requisito é o de novidade. É patenteável a invenção que seja comprovada como algo totalmente novo.

    E um detalhe muito importante: ela não pode ter sido divulgada em nenhum artigo científico ou congresso, e nem mesmo ter sido desenvolvida (já estar sendo produzida) por uma empresa.

    E essa novidade tem que valer para o mundo inteiro, não é só para o Brasil. Não pode existir uma patente igual ou similar que já esteja em vigência em outro país.

    O segundo requisito é o da atividade inventiva. A pessoa inventora tem de ser capaz de convencer com argumentos técnicos que alguém da mesma área que a dela não conseguiria com facilidade desenvolver a mesma invenção.

    Para cumprir este requisito é preciso apresentar as dificuldades e ter um problema técnico superado com essa invenção. Não pode ser simplesmente a combinação de dois elementos que resultam em uma conclusão já conhecida.

    Eu vou explicar esta parte de uma forma mais clara. Para entender, a gente pode imaginar aquelas canetas que têm uma lanterna na ponta. Não é possível patentear esta caneta porque ela é apenas a combinação de dois elementos que continuam funcionando da mesma forma. Não existe nenhuma dificuldade identificada para a criação desse objeto e nenhum problema técnico que está sendo superado.

    E o terceiro requisito é o da aplicação industrial, ou seja, a forma que se escala a invenção em uma indústria. Mas, como é possível identificar se ela tem esse perfil?

    Existem dois tipos de patente: a patente de invenção é para novas tecnologias sejam elas um produto ou processo. O outro tipo é o de modelo de utilidade que é para modelos mais simples e restrito a produtos como ferramentas e utensílios. Ele vale tanto para a criação de um novo, como para a melhoria funcional de um já existente.

    E é importante comentar que nem tudo que se inventa pode ser patenteado. Uma ideia abstrata que se tem ou uma obra de arte, por exemplo.

    Assim como descobertas científicas ou métodos que não possam ser industrializados.

    Neste caso é possível proteger as criações pelo direito autoral, mas aí é outra história e não pode ser protegida pela patente.  

    Geralmente essas invenções que podem ser patenteadas são frutos de pesquisas feitas em laboratórios, universidades ou institutos de pesquisa.

    Mas, também existem exemplos de inventores fora desse ecossistema que identificaram uma dificuldade no seu meio e resolveram desenvolver uma solução com direito a registro de patente.

    Este é o caso da Anna Luisa Santos que inventou o Aqualuz, uma tecnologia que desinfeta a água usando radiação solar.

    Ele se trata de um filtro que é capaz de purificar a água da chuva proveniente de cisternas localizadas em áreas rurais.

    A ideia surgiu quando a Ana ainda estava no ensino médio. Ela submeteu pedido da patente em 2018 e hoje ela segue com o desenvolvimento do produto na sua própria startup.

    Para aprofundar nosso assunto, eu convidei a Paula Huber, que é farmacêutica especialista em patentes e que trabalha, atualmente, na indústria química.

    Paula, nós vimos que existem diversos requisitos a serem atendidos. Talvez para alguém que está num ambiente de pesquisa esse processo de registro de patente seja muito mais claro e mais natural.

    Mas, e pra quem deseja criar ou registrar uma invenção de forma independente. Qual seria sua indicação? Haveria uma forma de essa pessoa também buscar apoio pra isso?

    Paula: A minha indicação, e provavelmente a indicação que qualquer especialista de patentes daria para um inventor, seja ele independente ou não, é garantir a possibilidade de proteção da sua invenção por meio de um depósito de pedidos de patente antes de qualquer divulgação. É possível sim um inventor independente desenvolver uma invenção. Mas garantir que ela tenha sucesso depende também da possibilidade de exclusividade garantida por uma patente. Existem inúmeras invenções que foram desenvolvidos por inventores independentes, até mesmo donas de casa, como por exemplo a invenção do protótipo de uma fralda descartável, mas, dependendo da área de atuação do inventor independente ele pode precisar de ajuda para desenvolver sua invenção. Isso pode ser conseguido por meio de rodadas de apresentação do seu produto para investidores, por exemplo. O que já é considerado uma divulgação.

    Thais: Agora, que já somos craques em saber o que são as patentes e seu objetivo, vamos fazer aqui um passo a passo de como funciona o depósito de uma patente.

    Antes de tudo é importante a pessoa inventora fazer uma busca no site do INPI e até em sites de registros de patente internacionais para saber se a invenção é realmente algo novo e se ninguém tem alguma patente parecida.

    Isso é importante porque se já existir uma patente muito próxima, a pessoa pode fazer o processo inteiro de pedido e aí quando tiver lá no final, o INPI simplesmente recusa o registro da patente.

    Depois de feita esta checagem, é hora de identificar qual dos dois tipos é a patente: invenção ou modelo de utilidade.

    Depois disso é o momento em que se inicia o pedido da patente pelo site do INPI, com a inclusão de documentos que descrevam a invenção, e depois é necessária também a realização do pagamento de taxas. Lá no site você consegue ver a informação das taxas, e quais documentos você tem que inserir, tudo certinho.

    Todo o processo pode ser acompanhado. Ele fica em sigilo por até 18 meses. E se a patente for de fato concedida, ou seja, se estiver tudo certo pelo INPI, todos os requisitos atendidos, se não tiver outra patente similar e tudo mais, ela tem validade de 20 anos para as de invenção e 15 para as de modelo de utilidade. 

    A notícia ruim desse processo é que ainda demora um pouco para sair o registro. Mas a notícia boa é que o INPI está com um planejamento para acelerar as análises dos pedidos.

    Se você for uma inventora ou um inventor em potencial, eu acredito que já pegou várias dicas sobre como depositar ou uma patente.

    Mas agora, eu gostaria de fazer outra pergunta para a Paula. Qual você acha que é a relação de todo esse processo que começa com uma simples ideia, se torna uma invenção e depois impacta toda uma sociedade?

    Paula: As invenções, elas não precisam ser complexas para impactar uma sociedade. Basta simplesmente que resolvam um problema que seja de interesse de grande parte de uma sociedade. E neste sentido, a gente pode citar por exemplo a invenção da roda. A partir dela, diferentes tipos de problemas foram resolvidos e que tem utilização e impacto até os nossos dias. Eu diria que para impactar uma sociedade, uma invenção deve resolver um grande problema que ela enfrenta. Mas não é preciso impactar grandes sociedades ou mesmo resolver grandes problemas para se ter uma invenção de sucesso. Se olharmos ao nosso redor, fazemos uso de muitas invenções no nosso dia a dia. Ou seja, a partir de uma invenção é possível impactar um menor número de pessoas, e mesmo assim ser extremamente importante. Se você tem uma ideia para resolver algum problema, não menospreze essa invenção. As invenções facilitam nossa vida, o nosso dia a dia. E as mudanças no nosso cotidiano, fazem com que as invenções e novas invenções sejam necessárias a todo momento. E elas não precisam ser complexas para serem valiosas e terem impacto na vida de muitas pessoas. Invenções simples podem sim ter grandes impactos.

    Bom, tem um detalhe muito importante que faltou eu mencionar. Todo esse processo que alguém realiza para patentear uma invenção tem validade somente para o Brasil.

    Por isso, para cada país que se tenha o interesse de se proteger uma patente é preciso depositar um pedido de patente.

    E o que isso significa? Significa que se uma empresa da Índia conhecer um produto que foi desenvolvido e patenteado aqui no Brasil, ela pode explorá-lo e desenvolvê-lo lá. Isso se o inventor daqui não tiver patenteado sua invenção também na Índia.

    Agora, para os inventores que desejem analisar com tempo os territórios onde querem depositar suas patentes existe o PCT, um tratado internacional.

    Este tratado tem o objetivo de proteger as patentes enquanto essa análise é realizada.

    E falando sobre meio internacional nesta pandemia teve um amplo discurso sobre as patentes das vacinas e a possível quebra delas. Pra começar, eu queria, Paula, que você comentasse um pouco sobre essa questão da quebra da patente.

    E em segundo plano, quando se trata de um problema de saúde pública mundial, você acha que a propriedade intelectual, ela é e tem que ser tratada de forma diferente?

    Paula: Quando falamos de saúde pública, falamos na garantia de acesso a medicamentos e tratamentos para que todos tenham acesso. E para garantir o direito à saúde, a lei da propriedade industrial brasileira apresenta um mecanismo que é conhecido como licença compulsória ou popularmente conhecido como a quebra de patente. Esse mecanismo, consiste na suspensão temporária do direito de exclusividade de uma patente, fazendo com que a invenção ou o objeto que é protegido por aquela patente possa ser produzida e comercializada por terceiros que não o titular da patente sem a necessidade de aprovação do titular da patente. A invenção então pode ser produzida por terceiros, mas esses terceiros pagarão royalties ao titular da patente pela exploração da sua invenção. E é por isso que o termo “quebra de patente” não é um termo corretamente utilizado. O termo correto é a licença compulsória. Porque se trata de uma licença que é ofertada para aquela patente né para que seja desenvolvida aquela invenção só que esta licença, ela é realizada de maneira compulsória sem que haja comum acordo com o titular. E essa licença, ela é utilizada somente em condições específicas, justamente como um mecanismo de defesa contra o abuso do titular da patente ou em caso de interesse público como uma emergência nacional como a que estamos vivendo hoje pela pandemia, pela covid-19. Mas, recorre-se a esta licença compulsória em último caso. Somente quando não é possível um comum acordo entre o detentor da patente e terceiros.

    Neste programa, nós vimos que de forma individual para o inventor, cientista ou uma empresa as patentes são essenciais para que terceiros não tenham o direito sobre elas. E também para que os inventores se sintam seguros para continuarem pesquisando e desenvolvendo invenções, tecnologias.

    Para a sociedade em geral elas são essenciais porque compartilham ideias que podem melhorar o simples dia a dia das pessoas como o escorredor de arroz ou de uma forma mais impactante como o filtro à base de radiação solar.

    Sem mencionar o papel importante que elas representam para proporcionar o acesso de medicamentos e vacinas em momentos de pandemia, que é o momento em que nós vivemos agora.

    Esse podcast foi escrito, produzido, e editado por mim Thais Oliveira. E ele faz parte do Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp.

    Ele tem orientação da professora Simone Pallone.

    Eu espero que vocês tenham gostado de conhecer mais sobre esse universo das patentes e porquê elas estão tão em alta.

    Um abraço e até a próxima.

    17 min
  • #127 – Escuta Clima ep.5 – A produção de alimentos nos dois lados da porteira

    A agropecuária é uma atividade de extrema importância para a sobrevivência humana e para a economia do Brasil. No entanto, com o agravamento das mudanças climáticas, a segurança alimentar de grande parte da população mundial pode estar em risco. Por isso, entenda como funciona a produção de alimentos na porteira para dentro (nas fazendas) e seus impactos na porteira para fora (com os consumidores) e descubra como a ciência continua buscando alternativas sustentáveis para garantir um futuro com mesas fartas para todos. 

    A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pela bolsa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

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    Camila Ramos: Café, milho, arroz, feijão, soja, girassol, mandioca e frutas de clima temperado, como pêssego e uva, são alimentos que estão em risco por causa do aquecimento global.

    Risco é uma palavra importante quando falamos sobre a agricultura, isso porque é dependente dos recursos naturais, ou seja, qualquer alteração no clima pode afetar as condições do solo, da temperatura, da disponibilidade de água, prejudicando a safra da estação.

    Portanto, quando pensamos em um futuro com, pelo menos, 1,5ºC a mais na temperatura global, pensamos também em mais pessoas em situação de vulnerabilidade. Além disso, se não for bem planejada, com consciência ambiental, a atividade pode causar mais danos ao clima.

    No episódio de hoje, vamos conversar com pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas para entender como a produção de alimentos pode se tornar mais sustentável nos próximos anos e, ao mesmo tempo, garantir uma maior segurança alimentar.

    E entre as medidas sustentáveis estão a agrofloresta e a recuperação de áreas de pastagens degradadas, que são áreas de pesquisas dos nossos entrevistados: o Jurandir Zullo Junior, que é pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, o CEPAGRI, da Unicamp; a Priscila Coltri, que é agrônoma, pesquisadora e diretora do CEPAGRI; e o João Paulo, que é engenheiro agrônomo e doutorando da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp.

    Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do INCT Mudanças Climáticas, que é vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor. O Escuta Clima é também uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas.

    [Vinheta do podcast Escuta Clima]

    Camila Ramos: Segurança Alimentar é definida como uma situação em que todas as pessoas, a todo momento, têm acesso físico, social e econômico a alimentos nutritivos, seguros e suficientes para as suas necessidades diárias e preferência alimentar para uma vida ativa e saudável. Essa é uma definição da FAO (Food and Agriculture Organization), que é um braço das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura.

    Ainda segundo a ONU, devemos chegar ao número de 9,7 bilhões de pessoas no planeta até 2050 e cerca de 11 bilhões até o final do século. Essa foi a conclusão do relatório intitulado Perspectivas Mundiais da População de 2019.

    Nesse cenário, será que conseguimos garantir uma segurança alimentar para toda essa população? O Jurandir responde essa questão:

    Jurandir Zullo Junior: Olha, garantia é difícil, porque o desafio da segurança alimentar não é só a produção, é a distribuição e o acesso ao alimento. Na verdade, a alimentação não é só produzir o alimento, é, de alguma forma, dar acesso ao alimento. Então, tem a parte econômica, tem a parte cultural, porque as pessoas… Cada região, cada país tem uma cultura alimentar diferente. Então, assim, dá para dividir, como nós fazemos na área agrícola, “da porteira para dentro” e “da porteira para fora”. 

    Camila Ramos: A porteira para dentro seria a produção de alimentos em si, ou seja, os campos de plantações e a criação de animais. Já a porteira para fora seria todo o caminho seguido pelos produtos da fazenda até a nossa mesa, desde o transporte, as condições das estradas, até a indústria e o mercado.

    Então, para garantir uma segurança alimentar é preciso levar em consideração não apenas os recursos naturais, mas, também, os aspectos econômicos e a desigualdade social, que limitam o acesso das pessoas aos alimentos dependendo, por exemplo, de onde eles são vendidos e dos preços na hora da compra. Outra questão importante a se considerar é o desperdício, que o João comenta:

    João Paulo: Além de questões econômicas mais gerais como emprego e renda, medidas que favoreçam o acesso ao alimento devem tratar da redução das perdas que ocorrem entre a lavoura e a mesa das pessoas. De acordo com a FAO, cerca de um terço do que é produzido no mundo, acaba se perdendo nesse trajeto, o que, na prática, significa comida deixando de chegar ao prato das pessoas. Os sistemas e as etapas envolvidas a cada refeição que fazemos é complexo e obstáculos importantes ainda precisam ser superados.

    Camila Ramos: Bom, como estamos falando sobre as mudanças climáticas, vamos entender o processo que acontece da porteira para dentro e como a produção de alimentos pode afetar e ser afetada pelo aquecimento global. 

    A agropecuária é conhecida como um dos grandes fatores que intensificam as mudanças climáticas, uma vez que essa é a principal forma de transformação do solo no Brasil atualmente. 

    Quando não há um planejamento responsável de conservação ambiental ou, até mesmo, é feita de forma ilegal, a agropecuária pode envolver a abertura de grandes áreas da vegetação nativa, degradando a região para o plantio (geralmente as monoculturas) ou para criação de gado (na maioria das vezes de forma extensiva). Por isso, é preciso pensar em alternativas, novas técnicas e boas práticas. O João, que estuda especificamente áreas de pastagens para pecuária, comenta sobre as práticas sustentáveis da produção de carne:

    João Paulo: No entanto, se olharmos para as práticas conservacionistas da produção de pastagem, vemos que, recuperando áreas de pasto degradado é possível mitigar quase quatro toneladas de carbono por hectare em apenas um ano. A maior parte dessas áreas estão sendo subutilizadas, ou seja, com menos gado do que poderia, o que reduz o retorno monetário pelo produtor e deixa o empreendimento menos sustentável. Considerando que o Brasil tem 167 milhões de hectares de pastagens, fica evidente o potencial ambiental envolvido.

    Camila Ramos: Atualmente no Brasil, existem grandes áreas de pastagens que estão degradadas e que, se uma parcela for recuperada, já pode ajudar na mitigação dos impactos ambientais, ao mesmo tempo, o aumento de produtividade desses campos pode evitar que mais áreas de pastagens sejam abertas. A proposta do João é aprimorar esses dados, passando do quantitativo para o qualitativo, como ele explica:

    João Paulo: Nos nossos estudos, estamos avaliando o potencial produtivo de áreas de pastagens distribuídas por todo o território nacional e definindo a distribuição espacial de áreas que mostram que pastagens bem manejadas podem apresentar eficiência comparável a vegetação nativa na mitigação de carbono da atmosfera.

    Camila Ramos: Da mesma forma que na pecuária, a agricultura, se não for feita com bases sustentáveis e responsáveis, pode se tornar um problema. Que é o que estamos vendo atualmente na expansão da fronteira agrícola no Cerrado, na Amazônia e em outros biomas brasileiros, ameaçando tanto a biodiversidade local quanto as comunidades tradicionais. Aliás, esse é o tema do próximo episódio. Por isso, não deixe de acompanhar a série de podcast nessa mesma plataforma que nos ouve agora!

    A Priscila comenta sua visão sobre esse assunto:

    Priscila Coltri: Eu particularmente, enquanto agrônoma, eu não gosto muito dessa visão de que a agricultura é a vilã. Eu acho que a agricultura, se ela for bem manejada, se ela for manejada de forma sustentável, sem desperdício, ela consegue ser a área que produz alimento, a área que pode sequestrar uma série de gases de efeito estufa e a área que, no Brasil, é um dos grandes pontos econômicos.

    Camila Ramos: Como a Priscila falou, a produção de alimentos continua sendo uma atividade essencial para humanidade e é a principal fonte econômica do país. Por isso, é preciso pensar em alternativas. A primeira opção sustentável é a valorização das culturas locais, que a Priscila novamente explica:

    Priscila Coltri: Quando a gente vê que o risco das culturas que atualmente estão sendo plantadas aumentam, a gente tem que olhar por um outro lado também, que talvez nos abra outras oportunidades de cultivar algumas culturas que são nativas daquele local. Talvez seja hora de repensar um pouco quais são as culturas que estão sendo plantadas em algumas regiões e dar a chance para as culturas locais, para que essas culturas locais possam, também, se destacar criando um novo negócio. E aí, as áreas agrícolas nesse sentido tem esses dois lados. Ao mesmo tempo que elas podem ser grandes emissoras de gases de efeito estufa, se bem manejada, se manejadas de forma sustentável, elas podem ser grandes sequestradoras de gases de efeito estufa, estocando CO² em sua biomassa, no solo e deixando essa relação de produção neutra. A gente também tem a chance de olhar para novas culturas e novos negócios. Então a cultura da palma e N outras culturas que podem aparecer ali, como uma nova chance de negócio para esse povo local que pode se tornar muito mais vulnerável em cenários futuros de mudanças climáticas. 

    Camila Ramos: Um exemplo disso é o café, que é um produto extremamente importante na história do Brasil até os dias atuais. Ele era produzido em grande escala algumas décadas atrás, dentro de enormes fazendas em diversas regiões do país. No entanto, esse grão tem uma faixa climática muito estreita. Para o fruto se desenvolver, é preciso uma média anual de 23ºC e, se a temperatura ultrapassar os 35ºC, as flores podem acabar abortadas e, consequentemente, a planta não terá frutos.

    Então, em vista do aquecimento global, o risco de produção aumenta, o que pode afetar a economia. A Priscila fala sobre esse exemplo específico, que é parte da sua pesquisa em parceria com o Jurandir:

    Priscila Coltri: A produção, ao longo dos anos, pode ser que ela caia, mas o que a gente tem visto nos últimos anos é uma mudança de área de plantio. Então, alguns estudos a gente já realizou e a gente viu que ao invés de grandes propriedades como era plantado antigamente, essa cultura está se reduzindo em pequenas propriedades e em algumas localidades que climaticamente são mais adequadas para elas. Como em São Paulo, a gente reparou que o plantio tem se concentrado em locais menores e em locais que antigamente eram de origem, que são locais que têm uma altitude maior, então são pouco mais frio que os outros e que para São Paulo é um frio que é adequado para a cultura. 

    Camila Ramos: Além disso, a produção de café também começou a prezar mais pela qualidade e a especialidade do grão e da torra do que pela quantidade da safra, como antigamente. Isso porque, atualmente, o mercado pede um café mais gourmet.

    Bom, outro problema do café (e que pode ser um desafio de outras espécies de plantas) é a questão das doenças, que ocorrem em uma faixa climática específica. Com o aumento da temperatura, a ocorrência de pragas pode ser antecipada e danificar a safra. Como o Jurandir comenta:

    Jurandir Zullo Junior: Às vezes, você pode ter doenças novas, porque elas não aconteciam ali porque você não tinha a faixa favorável, e pragas, também. E doenças talvez que eram endêmicas ali e, de repente, desaparecem. Podem desaparecer porque fica desfavorável para ela né, mas surgem outras, né. Por isso que é um desafio isso. Também é um desafio de adaptar as plantas, porque o melhoramento genético no Brasil é muito focado em pragas e doenças, mais de 90% dos melhoramentos, segundo a Embrapa.

    Camila Ramos: Outra alternativa para tornar a produção de alimentos mais sustentável é a agrofloresta, que, inclusive, já está sendo utilizada em algumas culturas do café.

    A agrofloresta é uma técnica na qual são unidos os produtos agrícolas com produtos florestais. Ou seja, ao contrário da monocultura, aqui é possível cultivar diversos alimentos em uma mesma área de forma que as plantas ajudem umas às outras. Por exemplo, uma árvore pode fazer sombra para um arbusto que não aguente altas temperaturas, como o café. No entanto, é preciso muito estudo para saber quais produtos podem ser plantados juntos para que não haja competição por nutrientes e recursos naturais. 

    De modo geral, a agrofloresta pode trazer mais benefícios que malefícios, desde que bem planejada. Ouça a explicação da Priscila:

    Priscila Coltri: A agrofloresta, ela também tem um outro lado que é muito bom economicamente é que você passa… que você pode ter também a produção de outros produtos juntos naquela área. Então, a gente já viu às vezes a produção de manga associada ao café arábica e, enfim, a gente pode ter outros produtos que, às vezes, numa época de queda no preço do grão, pode fazer com que o produtor tenha uma renda ali a mais do que só aquele grão que talvez esteja numa época de baixa. 

    Camila Ramos: Além disso, a técnica incentiva a plantação de árvores, o que é ótimo para o meio ambiente. E é possível, também, associar as plantações com a criação de animais.

    Bom, sabemos que essas técnicas são boas alternativas.  Mas elas não são amplamente disseminadas e colocadas em práticas pelos produtores, já que ainda temos a predominância de monoculturas e criações extensivas. Por isso, vamos entender quais são os obstáculos e como superá-los.

    Entendemos nesse episódio que a agropecuária é uma atividade de risco e é dependente dos recursos naturais, como clima, temperatura e disponibilidade de água. Também vimos várias opções sustentáveis para o futuro da produção de alimentos. Então, quais os obstáculos pros agricultores colocarem essas alternativas em prática? O João responde essa questão:

    João Paulo: Os obstáculos enfrentados pelos agricultores para a adoção dessas práticas são vários. Começando pelos entraves culturais, vemos que o tradicionalismo é uma característica marcante, principalmente entre os produtores de menor poder econômico, educacional e social. Isso, porém, não significa que eles sejam fechados para melhorias, mas é preciso mostrar como fazer e os resultados obtidos para incentivá-los a incorporar novas práticas na sua produção.

    Camila Ramos: O que o João disse é muito interessante, afinal, as técnicas desenvolvidas dentro da academia, pesquisadas e aprimoradas estão muito distantes do agricultor no interior do país com sua fazenda familiar, cujo sucesso da produção é essencial para garantir sua renda. Nesse aspecto a Priscila pontua:

    Priscila Coltri: É muito complicado você entrar com uma técnica nova e que se não for bem feita, pode não dar certo em áreas nas quais os produtores não acreditam nem na técnica, nem nas mudanças do clima. Então tem que ser todo um trabalho, acho que do setor mesmo e com a iniciativa pública e com os institutos e com a Ciência em geral, para conscientizar.

    Camila Ramos: O Jurandir concorda com esses pensamentos e complementa:

    Jurandir Zullo Junior: O agricultor é um grande tomador de decisões, então ele precisa estar sempre tomando decisões, se ele vai comprar um ou dois sacos de adubo, o que ele vai plantar, quando ele vai colher, onde ele vai vender. Ele está sempre tomando decisões. Acho que a nossa função, no lado científico, é ajudar a fornecer essas informações.

    Camila Ramos: Outro fator que estimula a adoção de novas práticas pelos agricultores de diversas escalas de produção é a pressão externa. Desde o consumidor que começa a exigir selos que atestem a qualidade e segurança do produto quanto ao uso de agrotóxicos, ou ainda selos que garantam uma produção sustentável e orgânica, até pressão internacional de países como a França, que estão decidindo diminuir sua dependência de alimentos produzidos no Brasil em áreas de desmatamento e degradação ambiental. O que é um problema, pois apesar de haver realmente desmatamento e degradação associados à produção de alimentos, não podemos generalizar a atividade agropecuária no Brasil. Os desmatamentos e queimadas em florestas nativas são atividades ilegais, como o João explica:

    João Paulo: Antes de generalizar, é preciso entender melhor a dinâmica por trás da pecuária que sucede o desmatamento criminoso, que se divide em duas fases. Primeiro, ocorre a extração da madeira e do minério de maior interesse econômico. Em seguida, a vegetação menos valiosa é derrubada e queimada para limpeza da área, que posteriormente será submetida à manobra de falsificação de documentos para se obter a posse da terra, atividade comumente conhecida como grilagem. O pouco gado que vem após a remoção da vegetação nativa serve apenas para reforçar a demarcação da terra invadida. E após conseguir a posse dessa terra, ela então é colocada à venda, praticando o mesmo valor de terras legais ou se torna um empreendimento rural. O que vemos aí não é um sistema sustentável de obtenção de lucro da comercialização da produção agrícola, que respeita regras ambientais de mercado, mas, sim, uma extração de recursos naturais de valor econômico de forma predatória combinado com a especulação imobiliária.

    Camila Ramos: Mas vamos entender melhor sobre os impactos dessas atividades ilegais contra os ecossistemas brasileiros no próximo episódio. Por isso, não deixe de acompanhar a série de podcast nessa mesma plataforma que nos ouve agora.

    Eu sou Camila Ramos. E este é o Escuta Clima. Um podcast sobre pesquisas relacionadas ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas. Este podcast é apoiado pelo Programa Mídia Ciência da FAPESP. Este projeto de jornalismo científico, está sendo desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Unicamp. E é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. Tem a supervisão científica da pesquisadora Simone Pallone de Figueiredo e jornalística da pesquisadora Susana Dias.

    A trilha sonora foi desenvolvida pelo Lucas Carrasco, que tem apoio do PIBIC, do CNPq. A edição do podcast é feita pelo Octávio Augusto Fonseca, da Rádio Unicamp, com apoio do Gustavo Campos, que tem suporte da bolsa SAE. A divulgação nas redes sociais é feita pela Helena Ansani Nogueira. A locução da vinheta é de Bruno Moraes.

    20 min
  • #126 – Série Casa de Orates – Ep. 5 – Depois de um fim

    O tema deste quinto episódio do Casa de Orates é a saúde mental de pessoas afetadas por tragédias. Como seguir a vida após uma grande catástrofe? Que tipo de suporte essas pessoas precisam? Para explicar um pouco sobre toda a estrutura de apoio psicológico presente nesses cenários, trouxemos alguns eventos que marcaram a história do Brasil na última década: o incêndio na boate Kiss, o rompimento da barragem em Brumadinho e a queda do avião da Chapecoense. Além da perda de pessoas queridas, os afetados ainda têm que lidar com a impunidade, já que todas essas tragédias foram consideradas crimes e os processos seguem em aberto. 

    Conversamos com Melissa Couto, psicóloga especialista em emergências e desastres, que atuou nessas tragédias, e com Maria Carolina da Silveira Moesch, psicóloga e coordenadora do curso de psicologia da Unochapecó, que integrou  o comitê gestor da resposta ao acidente aéreo da Chapecoense. Também participam  deste episódio Letiere Flores, psicóloga que fez um estudo sobre os psicodiagnósticos dos sobreviventes da boate Kiss e André Polga, produtor editorial que criou a página Kiss: que não se repita. Contamos ainda com o depoimento de Natalia Oliveira, irmã de Lecilda Oliveira, uma das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho. 

    Conheça mais sobre as associações, grupos de apoio e iniciativas citadas neste episódio:

    • Associação dos familiares de vítimas e atingidos pelo rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum):  https://avabrum.org.br/; Redes sociais: @Avabrumoficial (Facebook).
    • Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo da Chapecoense (AFAV-C): Redes sociais: @AFAV.c2017 (Facebook)
    • Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM):  Redes sociais: @AVTSMSantaMaria (Facebook), @avtsm27 (Instagram). 
    • Kiss: que não se repita: Redes sociais: @Kissquenaoserepita (Facebook e Instagram).
    • Programa Santa Maria Acolhe (antigo Acolhe Saúde): mais informações diretamente com a Prefeitura de Santa Maria, no telefone: (55) 3921-7000
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      Roteiro

      RAFAEL REVADAM: Oi. Antes de começar eu preciso dar um recado: nesse episódio, a gente vai tratar de temas sensíveis como grandes tragédias, luto e perda de pessoas queridas. Então, se você não se sente confortável com esses assuntos, talvez esse episódio não seja para você. 

      NATALIA OLIVEIRA: Eu sou a Natália, irmã da Lecilda, uma das vítimas né, fatais do crime da Vale aqui em Brumadinho. E… no dia do acontecido, eu mandei mensagem pra ela porque era uma sexta-feira. Eu tava assistindo uma série e, de repente, chegou a mensagem no WhatsApp. É… a barragem rompeu. E aí eu encaminhei essa mensagem pra Lecilda. Aí, a segunda mensagem chegou. É a barragem da Vale. Aí eu mandei a mensagem pra ela. Aí, a terceira mensagem que chegou falando assim: É em Córrego Feijão. Aí, quando eu li a palavra Córrego Feijão, eu já liguei pra Lecilda e nesse momento eu percebi que as duas mensagens que eu tinha mandado pelo WhatsApp ela não tinha recebido. Só tava um pauzinho. Aí eu mandei um áudio pra ela no WhatsApp, Lé me liga, pelo amor de Deus! E saí igual uma louca aqui de casa e comecei essa procura pela minha irmã e essa procura tá até hoje. A gente nunca tinha imaginado que poderia acontecer uma tragédia. A gente vê a tragédia na televisão, a gente nunca pensou em estar dentro de uma tragédia, de fazer parte de uma.

      ANA AUGUSTA XAVIER: Tragédia, substantivo feminino: Acontecimento triste, funesto, catastrófico, que infunde terror ou piedade. 

      RAFAEL REVADAM: A história de todos nós carrega pequenas tragédias pessoais que nos marcam pela vida toda. Um acidente de carro, uma doença grave, um mal súbito. Acontecimentos inesperados que nos fazem perder o rumo e tiram o nosso chão. 

      ANA AUGUSTA: Mas também existem tragédias de grandes proporções, que além de afetar individualmente a vida de cada um, causam impacto em uma comunidade inteira. Um bairro, uma cidade, um país, o mundo.

      RAFAEL REVADAM: A Natalia, que deu o depoimento que ouvimos no começo do episódio, viveu de perto uma dessas catástrofes. A irmã dela, Lecilda, foi uma das vítimas no rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, no dia 25 de janeiro de 2019. 259 pessoas morreram. Lecilda e mais 10 pessoas não foram encontradas.

      ANA AUGUSTA: E este é apenas um dos eventos trágicos coletivos que marcou a história do Brasil nos últimos dez anos. Nessa lista também estão os deslizamentos causados pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, em 2011; o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, em 2013, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, no ano de 2015 e a queda do avião da Chapecoense, em 2016. 

      RAFAEL REVADAM: Todas essas tragédias têm pontos em comum. Elas são visuais, com imagens marcantes, tiveram alcance nacional. E o mais agravante, todas poderiam ter sido evitadas.

      ANA AUGUSTA: E se no primeiro momento, a preocupação é com as vítimas, o segundo passo é olhar pra quem ficou. Os sobreviventes, os familiares, os amigos. Como seguir após uma grande catástrofe? Como fica a saúde mental de quem tem que continuar a viver? Que tipo de suporte essas pessoas precisam? Eu sou Ana Augusta Xavier.

      RAFAEL REVADAM: E eu sou Rafael Revadam, e nesse episódio, vamos falar sobre o apoio psicológico que recebem – ou deveriam receber – todos aqueles que de uma forma ou outra sofrem os impactos de uma grande tragédia.

      MELISSA COUTO: A gente num desastre diz que a gente tem três fases dele né, a primeira é o caos, a segunda é a reorganização e a terceira é a coordenação. Todo início da resposta ao desastre, a situação é de caos né, uma desordem, ahn. uma falta de coordenação, todo mundo respondendo ao que tem ali sem muita ordenação, achando que tem que resolver o que tá posto, até a gente conseguir se estruturar.

      ANA AUGUSTA: Essa é a Melissa Couto, psicóloga especialista em emergências e desastres. Ela coordenou o apoio aos afetados do incêndio da boate Kiss, e também trabalhou no suporte após a queda do avião da Chapecoense e do rompimento da barragem em Brumadinho.

      MELISSA COUTO: Na hora do impacto, a reação comum a todos é essa de caos que eu te disse, tanto pra quem atende quanto pra quem é viti vitimado, afetado. Hoje em dia a gente não usa mais vítimas, a gente usa afetados. a bibliografia vai mudando com o tempo, a gente vai construindo novas perspectivas né, de entendimento naquilo que a gente vai trabalhando. Então assim, a a as reações são muito parecidas com as reações características de luto né, então assim, choque, torpor, negação, ahn, desorganização, ahn, sofrimento agudo, angústia plena, ahn… as reações elas são as mais diversas possíveis porque também vai depender do perfil psicológico que cada um tem e como ele se defende nessas respostas de estresse agudo.

      RAFAEL REVADAM: Segundo a Melissa, é muito importante que todos os afetados por tragédias recebam apoio rápido e qualificado, pra aumentar a capacidade de resiliência dessas pessoas, e ajudá-las a enfrentar o luto de maneira mais adequada.

      ANA AUGUSTA: E esse apoio realizado logo após o evento, no momento em que as pessoas estão extremamente vulneráveis e sensibilizadas, é chamado de apoio psicossocial. Nessa prática, o profissional se coloca à disposição dos afetados, pra escutar e acolher.

      MELISSA COUTO: O apoio psicossocial ele é um apoio diferente, porque as pessoas acham que o psicólogo vai lá atender as famílias e isso não é verdade, tanto que o apoio psicossocial nos Estados Unidos é feito por diferentes profissionais, e não só por psicólogos, os psicólogos trabalham muito mais na gestão disso né, e qualquer profissional que seja capacitado e que tenha esse perfil humanitário, de compaixão, e que tenha a capacitação adequada pode estar lá nesses cenários. Por quê? Porque a primeira questão que a gente realiza chama primeiros socorros psicológicos né, que é nas primeiras 72 horas após o desastre. Esses primeiros socorros psicológicos eles são divididos em 3 módulos, e esses 3 módulos são divididos em acolhimento, apoio e aí reestruturação né. O que acontece, todo, o que a gente vai fazer vai ser acolher a dor das pessoas. Acolhendo a dor das pessoas, fortalecendo esse vínculo, a gente vai apoiar, promovendo um espaço de amparo e de escuta, e aí finalizando, pra gente reestruturar, a gente vai oferecer os serviços que estarão disponíveis.

      ANA AUGUSTA: Melissa reforça que o apoio psicossocial não é uma intervenção psicoterápica, ou seja, nesse momento a intenção não é analisar sintomas ou fazer diagnósticos, e sim acolher. Além disso, os profissionais que realizam esse apoio também são responsáveis por resolver questões práticas, como impasses financeiros ou organizar o velório das vítimas, por exemplo. 

      RAFAEL REVADAM: Estes profissionais são coordenados por um comitê de crise, que geralmente conta com a participação de entidades como a Defesa Civil, a Cruz Vermelha, além de voluntários da região ou de fora. Nem sempre, um comitê de crise envolve todos esses atores, isso depende do local onde o desastre acontece. Essa equipe atua durante 90 dias após o evento, e também é responsável pela organização das ações que serão feitas posteriormente. 

      MELISSA COUTO: Depois desses 90 dias a gente precisa ter os órgãos governamentais responsabilizados por essa crise, por isso existe o trabalho do comitê de crise, por isso que existe gabinete de crise numa situação de desastre ou de calamidade né, porque esse corpo de profissionais especialistas precisam ordenar pra que isso aconteça posteriormente, porque aí, depois desses 3 meses, daí o psicólogo especialista vai ter que fazer o trabalho, com quem tá agudamente enlutado, com quem tá aumentando os seus sintomas, porque daí eles deixam de ser reações esperadas e passam a ser sintomas. Quando que a gente consegue avaliar isso? É como todo o tipo de adoecimento mental né, dependendo da frequência que aquelas reações estão vindo, a permanência delas né, e a incidência delas. Então se isso for aumentando gradativamente, essa pessoa está adoecendo, então ela vai precisar de uma ajuda especializada e não de um apoio psicossocial, que é o de intervenção em crise.

      ANA AUGUSTA: Uma coisa que ouvimos muito nas conversas com os especialistas foi “A gente precisa dar ao desastre a resposta que o desastre precisa, e não a resposta que a gente tá disponível pra dar.” E como cada desastre tem características únicas, o apoio oferecido nem sempre é o mesmo.

      RAFAEL REVADAM: Maria Carolina da Silveira Moesch é psicóloga e coordena o curso de psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó, a Unochapecó. Ela atuou no comitê que gerenciou a resposta ao acidente aéreo da Chapecoense. 

      MARIA CAROLINA: Então qual que era a nossa intenção, era saber se estavam se alimentando né, se precisavam de alguma coisa, levar informação adequada, né, e se, e levantar informação, porque esse era um pedido do clube, de que se essas pessoas estavam com alguém, se tinha alguém com eles né, se de alguma forma existia uma rede de apoio, então assim, o primeiro dia foi isso né, a gente saber como, aonde estavam e como estavam todos esses familiares, né. E aí a gente, a partir disso, segundo como as informações elas iam, a cada momento mudando muito rapidamente, mudava também a função desse grupo. Depois a gente começou a organizar a quantidade de voluntários que chegavam né, e aí ia cadastrar isso pra poder ter tanto ahn visitas domiciliares se necessário né, se houvesse pedido, como atendimento ali no clube,  porque as pessoas vinham pro clube.

      RAFAEL REVADAM: A Carolina contou pra gente como funcionou o apoio psicossocial aos familiares das vítimas.

      MARIA CAROLINA: No segundo dia né, a demanda era ahn precisamos preparar essas famílias pra indicar alguém para a questão do reconhecimento dos corpos. Logo em seguida, assim, questão de 3, 4 horas depois que a gente tinha iniciado, essa atividade, aí veio a informação de que a equipe médica que primeiro chegou lá, que que era daqui do clube, conseguiu fazer a identificação, porque os corpos estavam com os documentos, ou no bolso, ou perto né,, então no primeiro momento a necessidade de preparar né, aquela família, era muito ainda no sentido de informação e de acolhimento, sem nenhuma intervenção específica da psicologia. E aí né, conforme os dias iam se seguindo, depois dessa questão do reconhecimento dos corpos era a organização prática né, tinha cachorro que precisava ah… de um espaço pra ficar, de uma pet, alguma coisa, pra família poder se organizar. As mulheres, muitas não tinham conta conjunta, e aí logo né, quando dá a questão do óbito, na hora é bloqueada as contas, então essas mulheres estavam sem dinheiro né, sem dinheiro pra muita coisa assim, porque tava habituada a usar o cartão só né, e como não tinha conta conjunta, quando bloqueou a conta elas não tinham mais recurso financeiro.

      ANA AUGUSTA: O time da Chapecoense saiu de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e estava a caminho de Medellín, na Colômbia, onde jogaria uma das partidas da final da Copa Sul-Americana de 2016 contra o Atlético Nacional de Medellín. 

      RAFAEL REVADAM: Além dos jogadores, o avião também levava membros da comissão técnica e jornalistas. A aeronave caiu enquanto o piloto tentava um pouso de emergência após uma pane por falta de combustível. 71 pessoas morreram e 6 sobreviveram.

      ANA AUGUSTA: Já o incêndio da Kiss, em Santa Maria, foi causado por um sinalizador aceso dentro da boate, durante o show da banda Gurizada Fandangueira. Naquele dia acontecia a festa “Agromerados”, organizada por alunos dos cursos de Pedagogia, Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Santa Maria. Como é de se esperar em uma festa universitária, a maioria do público era de jovens. 

      RAFAEL REVADAM: As faíscas do sinalizador atingiram o teto e incendiaram a espuma de isolamento acústico, liberando uma fumaça tóxica, que em poucos minutos tomou conta da boate. O lugar estava lotado, não possuía ventilação, saídas de emergência suficientes e nem brigada de incêndio. Além disso, os seguranças impediram muitas pessoas de saírem, pois pensaram que elas queriam ir embora sem pagar. O incêndio resultou em 680 pessoas feridas e 242 mortes.

      ANA AUGUSTA: Nessa tragédia, o apoio psicossocial foi dedicado principalmente a amparar os pais e familiares no reconhecimento e traslado dos corpos, que foram levados para o ginásio do Centro Desportivo Municipal da cidade, o CDM. A equipe também auxiliou na organização dos velórios.

      RAFAEL REVADAM: E ao mesmo tempo em que causam enorme comoção, eventos como esses geram muita curiosidade, principalmente hoje em dia, onde a informação circula muito rápido por causa da internet e das redes sociais. Mas existem atitudes que, além de serem invasivas e demonstrarem uma falta de empatia com a dor do outro, acabam atrapalhando o trabalho de amparo dos afetados. A Melissa Couto contou sobre uma situação dessas.

      MELISSA COUTO: Uma pessoa entrou dizendo que era psicóloga, foi até ahn, o ginásio do CDM, tirou fotos e botou na internet. E aí se formou um outro caos, porque daí, como era quase todas as forças armadas lá, os únicos civis eram os profissionais de saúde, eles foram barrados pra entrar, eu era a única civil que podia circular, né, de psicóloga por ali. Então isso foi muito difícil porque eu tinha que preparar pessoas pra acolherem pessoas, e pra poderem auxiliar no reconhecimento dos corpos, eu não podia levar esses profissionais, esses seres humanos, pra entenderem o que tinha lá dentro e o que eles iam enfrentar, se eles ti teriam condições emocionais de acompanhar, né, um pai, uma mãe, um irmão no reconhecimento dos corpos

      NATALIA OLIVEIRA: Quando a gente vai ao supermercado, a gente não encontra mais essas pessoas, no ponto de ônibus, nas igrejas que a gente frequenta, nunca mais a gente vai ver e o pior de tudo é a gente conviver com as famílias dessas pessoas porque em cada rua, em cada bairro, nas escolas, em todos o lugares eles fazem falta porque eu não vejo mais a Juliana, mas eu vejo o seu Geraldo que é pai dela e a dona Ambrosina que é a mãe, eu vejo as irmãs, os irmãos, vejo os filhos que ela deixou… Então, assim, isso é muito… muito difícil e principalmente a gente não mede dor porque a dor maior é a minha porque eu não sei sentir a sua dor. 

      ANA AUGUSTA: Pra quem fica, é difícil lidar com a ausência daqueles que não serão mais vistos. Toda perda gera um luto. E o luto não é um processo com início, meio e fim, cada um vive de uma maneira, e no seu tempo.

      LETIERE FLORES: O luto é um processo de fases que têm a negação, a revolta, a barganha, a retomada da vida e a aceitação. Porém, a pessoa enlutada não necessariamente vai passar por todas essas fases. Cada indivíduo elabora o luto de uma forma singular. Mas também não podemos negar, né, de que a razão da morte pode ser um fator que potencialize os sintomas do luto, principalmente nesse caso né, se tratando de morte inesperada e coletiva.

      RAFAEL REVADAM: Essa é a Letiere Flores, psicóloga formada pela Universidade Luterana do Brasil. Amiga de vítimas da Kiss, ela foi convidada para ir à boate no dia da tragédia, mas não foi.

      ANA AUGUSTA: A Letiere desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso sobre os psicodiagnósticos dos sobreviventes da Kiss. Ela teve acesso aos prontuários de pessoas que foram atendidas no serviço Acolhe Saúde, criado pela prefeitura de Santa Maria para oferecer apoio psicológico após a tragédia.

      LETIERE FLORES: Eu consultei 148 prontuários às cegas, e os CID que eu mais encontrei foi transtorno de estresse pós traumático, depressão misto ansioso e depressão.

      ANA AUGUSTA: CID é a classificação internacional de doenças…

      LETIERE FLORES: Também encontrei 35 tipos de sintomas, os quais mais apareceram foram alteração de sono, ansiedade e medo. E também 8 hipóteses diagnósticas. O que mais teve em evidência foi transtorno de estresse agudo. Então, para chegarmos a essa conclusão de resultados dos psicodiagnósticos, foi relacionado o CID mais as hipóteses diagnósticas com base nos sintomas apresentados por eles, totalizando 19 psicodiagnósticos possíveis. E o que mais esteve em evidência novamente foi  transtorno de estresse pós traumático, o transtorno está relacionado a vivenciar diretamente o evento traumático, testemunhar pessoalmente o ocorrido com outras pessoas, saber que ocorreu com familiar ou amigo próximo, ser exposto de forma repentina ou extrema a detalhes aversivos do evento. Então, os dados encontrados puderam auxiliar na compreensão de que eventos críticos podem gerar impactos sim em pessoas afetadas por esse tipo de evento.

      RAFAEL REVADAM: Esses resultados da pesquisa da Letiere mostram que o impacto das grandes tragédias na saúde mental tem consequências a longo prazo, algo que pode durar meses ou anos após o evento. Por isso, o acompanhamento psicológico deve ser contínuo e duradouro.  

      ANA AUGUSTA: O serviço Acolhe Saúde foi ampliado e agora se chama Acolhe Santa Maria, e segue oferecendo atendimento psicológico para familiares de vítimas e sobreviventes do incêndio da Kiss. Já no acidente da Chapecoense, como a maioria das famílias não era da cidade, a equipe do apoio psicossocial direcionou o atendimento dessas pessoas para suas cidades de origem. 

      RAFAEL REVADAM:

      E em Brumadinho, pais, filhos e cônjuges das vítimas têm direito a consultas com psicólogos e psiquiatras. O serviço é oferecido pela Vale, empresa responsável pela barragem que rompeu.

      ANA AUGUSTA: Essas tragédias foram consideradas crimes, mas seus processos continuam em aberto. A lentidão da justiça traz uma sensação de impunidade, o que pesa ainda mais na saúde mental dos envolvidos, como nos explicou a psicóloga Melissa Couto. 

      MELISSA COUTO: O processo de luto, ele tem um trâmite de que algumas coisas elas precisam acontecer pra que ele seja elaborado seguindo os seus processos elaborativos mesmo né, do tempo, das reações. Não haver uma responsabilização por algo que foi tão sério e tão grave, sem sombra de dúvidas afeta diretamente a saúde mental das famílias, dos sobreviventes, e de todos nós que vivemos isso juntos. Então assim, a responsabilização não diminuiria a dor de ninguém porque o  que foi perdido,as pessoas que foram perdidas, elas não voltam, né, isso é irreparável, mas de alguma forma, quando existem pessoas que respondem por aquele dano causado a alguém, isso de alguma forma traz um pouco mais de serenidade, de de paz pras pessoas, porque de alguma forma é como se aquilo fosse realmente reconhecido né, como algo que foi grave, como algo que foi severo e irreversível.

      RAFAEL REVADAM: Para tentar agilizar os processos e não deixar os crimes impunes, os familiares e amigos das vítimas das diferentes tragédias se juntaram e criaram associações e grupos de apoio. Em Brumadinho, foi criada a AVABRUM, Associação dos familiares de vítimas e atingidos pelo rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão. A Natália faz parte dessa associação e contou um pouco sobre o trabalho deles.

      NATALIA OLIVEIRA: Antes de ter essa associação, criou-se a Comissão dos Não Encontrados, onde a gente conseguia reunir diretamente toda semana com os bombeiros, com o IML, a polícia civil pra atualização de listas, pra dar informações sobre os encontros né… E isso vem até hoje, estamos aqui né… Esse grupo foi maior, as pessoas foram encontrando seus familiares e foram saindo né.. pelo processo natural de cada um viver suas etapas do luto. A Associação, ela tenta o tempo todo, a gente tenta cobrar por justiça, nós estamos acompanhando todos os processos, né. Que na verdade a sensação que a gente tem hoje é de muita impunidade durante os dois anos, porque não tem ninguém na cadeia. A gente sabe que é uma coisa que vai levar tempo, mas a gente tenta manter essa bandeira da justiça. Da prisão dos responsáveis porque o principal motivo da gente ter montado essa associação foi pra gente tentar de alguma maneira honrar a morte dos que foram, porque estatisticamente eles são só números, oficialmente são 270, a gente fala.. nós consideramos 272 porque havia duas grávidas, mas a gente tenta fazer um  marco pra que essas mortes não tenham sido em vão. 

      ANA AUGUSTA: Entre as conquistas da associação está o plano de saúde para os pais das vítimas. Eles continuam lutando para que os irmãos também tenham este direito. 

      RAFAEL REVADAM: Também existem associações relacionadas às tragédias da Chapecoense e da Kiss. Em Santa Maria, há ainda um grupo criado por amigos das vítimas, o Kiss: que não se repita, que começou nas redes sociais. 

      ANDRÉ POLGA: Eu perdi duas amigas né, na tragédia, na verdade uma colega e uma amiga. Uma amiga de infância que não morava aqui em Santa Maria na época, e uma colega de faculdade que cursava jornalismo, mas como os cursos eram similares a gente era colega em algumas disciplinas. É… como a mãe da minha amiga não morava aqui em Santa Maria, ahn… durante o acontecido, ela veio a se mudar mais ou menos um ano depois, a minha forma de tentar representar a família, de uma forma ou de outra, a família dela era estar junto dos familiares.

      RAFAEL REVADAM: André Polga criou uma página no Facebook e um perfil no Instagram para dar voz aos familiares das vítimas e não deixar que a tragédia caia no esquecimento. 

      ANDRÉ POLGA: E quando eu acompanhei essas pessoas durante o ano de 2013, naquela busca por respostas, ahn… naquela centena de manifestos que teve naquela época que foi a ocupação da câmara de vereadores, foi os atos que tiveram na frente da prefeitura e em outros locais da cidade na soltura dos réus é… eu via que quando a mídia local divulgava alguma coisa sobre sobre essa luta, eh, as pessoas, não que ainda não seja recorrente mas naquela época era mais, eh jogavam n comentários de forma negativa dizendo que, o mesmo que ainda dizem, que tinha que deixar os mortos descansar, que os familiares eram contra o desenvolvimento da cidade, que não adiantava mais, que que as vítimas já tavam podres debaixo da terra, que não adiantava gritar, que lugar de de mãe era em casa chorando, e eu, refletindo sobre tudo isso, pensei o que que a mídia tá fazendo que não tá conseguindo mostrar o real o real lado dessas pessoas, o real lado da luta dessas famílias. Então a, a página surge a partir daí, ela é uma rede de apoio que surge dentro do Facebook, depois a gente ingressou no Instagram, pra tentar mostrar o outro lado dessas pessoas, de uma forma diferente, uma forma, o lado de dentro na verdade né, o que a mídia não mostra. Então a rede ela surge a partir dessa necessidade de mostrar a luta dessas pessoas, de mostrar a realidade dessas pessoas, de um outro lado, pra sociedade conseguir entender né, o porque essas pessoas tavam fazendo esses atos.

      NATALIA OLIVEIRA: A gente descobre que quando a gente não tem outra saída, quando você não tem outra opção, o único caminho que eu tenho é ser forte. Porque eu vou parar de lutar e vou pôr a minha mãe pra ir pra uma reunião? Eu vou pôr minha mãe pra ir pro IML, pra ver restos mortais das pessoas? Pra discutir, pra ver o que que pode fazer, para agilizar todos os processos? Eu vou pôr meus filhos, eu vou pôr os filhos da minha irmã, vou pôr meus irmãos? Então assim, é uma estrada que eu tô percorrendo, claro que é por escolha, mas também porque eu acho que minha irmã era uma pessoa muito especial, que tinha muita empatia com as pessoas, carinhosa, simpática, solidária, e tem hora que eu penso num propósito maior e, talvez, eu esteja sendo usada, e talvez ela não tenha sido encontrada porque precisa de ter pessoas que consigam fazer essa luta. Eu tenho certeza que os últimos momentos da minha irmã, ela não preocupou em correr e salvar. Se ela teve algum tempo, ela preocupou em salvar o próximo. Porque isso era característica dela. Eu, se tivesse lá, eu ia correr, não ia nem olhar pra trás, agora, a Lecilda, eu tenho certeza que ela ia olhar para as pessoas e ia tentar proteger todo mundo.

      ANA AUGUSTA: Mas e quem cuida de quem cuida? Como fica a saúde mental dos profissionais que oferecem apoio psicológico nesse cenário de desastres? Melissa Couto falou que essas pessoas também precisam de apoio.

      MELISSA COUTO: Existem duas coisas primordiais né, pra gente exe-exercer o autocuidado, a primeira é fortalecer a rede de apoio. Então assim, se tu não tiver uma família que te ampare, que te apoie, que te acompanhe, que te dê suporte, é praticamente impossível tu realizar esse tipo de trabalho. E se tu não cuidar da tua saúde mental no sentido de saber que a gente só pode cuidar do outro se a gente cuida da gente primeiro também, então assim, existem coisas essenciais e primordiais né que é um psicólogo, manter em dia a sua psicoterapia, saber que é um ser humano também, porque é muito fácil se adoecer. A gente fala que tem uma frase que diz assim “Reconhecer e não negar”, ela serve pra gente também, reconhecer o que a gente está vivendo, o que a gente está atendendo, e não negar o tamanho que isso tem. Nenhum de nós é super-herói, não somos anjos de Deus que viemos pra cá, somos pessoas.

      ANA AUGUSTA: Mas apesar de todo sofrimento e tristeza, ela diz que o trabalho é recompensador.

      MELISSA COUTO: E eu costumo dizer que as pessoas acham que quem presta um trabalho como o que eu presto, ganha, as pessoas ganham com o meu trabalho, e na realidade é exatamente o inverso né, eu ganho com isso porque, tu pensa, na pior, no pior momento da vida de uma pessoa, no pior sofrimento dela, ela abre a porta da da vida dela, da casa dela, e te permite que tu possa acolher a pior dor que ela está vivendo. Isso é de uma grandiosidade, de uma magnitude, que só quem pode viver isso junto com essas pessoas é que entende o quanto ganha, o quanto aprende, o quanto ressignifica as suas próprias dores, os seus próprios temores. Quando tu ouve desses pais “Eu não tô lutando pelo meu filho, porque o meu filho já se foi. Eu tô lutando pra que o teu não tenha que passar po isso.” Então ó, já me emocionei viu… Então… Tem um autor que fala de luto, o Colin Parkes, ele tem uma frase que eu uso sempre nas minhas palestras que diz assim, a dor é do tamanho do amor que a gente sente, só não é capaz de sentir dor quem não é capaz de amar, portanto, todos sentimos né… humanamente impossível não sentir. Então as mães disseram muito que quando eu disse isso pra elas fez todo o significado, que aquilo que, tava doendo tanto só podia doer porque era do tamanho do amor que elas tinham, então que elas tinham todo direito de sentir, porque era o tamanho do amor delas. 

      RAFAEL REVADAM: Esse foi o quinto episódio do Casa de Orates. Ele foi apresentado por mim, Rafael Revadam, e pela Ana Augusta Xavier. Nós também participamos da produção, junto com a Roberta Bueno. 

      ANA AUGUSTA: As músicas usadas neste programa são da YouTube Audio Library. A revisão do roteiro e a coordenação são da professora Simone Pallone, do Labjor/Unicamp, e os trabalhos técnicos de Rafael Revadam e Octávio Augusto. 

      RAFAEL REVADAM: E se você quiser saber mais sobre o trabalho das associações e dos grupos de apoio citados neste programa, vamos deixar os links na descrição. 

      ANA AUGUSTA: Assim como as famílias afetadas pelas tragédias tratadas neste episódio, muitas outras também estão vivenciando o processo de luto por causa de perdas decorrentes da pandemia. Aqui no Oxigênio falamos sobre isso no episódio 99, Memórias traumáticas e no episódio número 100, Despedidas, da Série Quarentena. 

      RAFAEL REVADAM: A nossa série, Casa de Orates, também tratou desse tema, no episódio sobre saúde mental na pandemia. É o programa 121 do Oxigênio, Alerta de tsunami. Os links de todos esses episódios também estão na descrição.

      ANA AUGUSTA: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

      RAFAEL REVADAM: E não esqueça de deixar a sua opinião sobre este episódio comentando na plataforma de streaming que você usa. Até a próxima!

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      Os episódios do Oxigênio citados no programa são:

      #99 – Temático Memórias: Episódio 2 – O Trauma

      https://oxigenio.comciencia.br/99-tematico-memorias-episodio-2-o-trauma/

      # 100 – Quarentena ep. 5 – Despedidas

      https://oxigenio.comciencia.br/100-quarentena-ep-5-despedidas/

      #121 – Série Casa de Orates – ep. 4 – Alerta de tsunami

      https://oxigenio.comciencia.br/121-serie-casa-de-orates-ep-4-alerta-de-tsunami/

      33 min
    • #125 – Tá em alta – ep. 2: Tecnologia

      A série Tá em Alta aborda assuntos ligados à inovação, tecnologia e empreendedorismo, e nesse segundo episódio fala sobre tecnologia. E sobre isso, a Thais Oliveira fez uma retrospectiva histórica, na verdade pré-histórica, pra falar da origem da tecnologia.

      Quem vai ajudá-la a tratar do tema, mais especificamente sobre a relação entre a tecnologia e seu impacto na vida das pessoas, é a Daniela Osvald Ramos, professora e pesquisadora do departamento de comunicações e artes da ECA-USP.

      Ouça o novo episódio e acompanhe toda a série por aqui ou pela plataforma de  podcast de sua preferência.

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      Roteiro


      Thais Oliveira: Olá, pessoal. Sejam bem-vindas e bem-vindos ao segundo episódio do podcast Tá em Alta.

      Meu nome é Thais Oliveira e nesse podcast, nós pretendemos tratar de assuntos relacionados à inovação, tecnologia e empreendedorismo de uma forma simples e explicativa.

      O nosso objetivo é falar sobre assuntos que tão muito em alta e são muito debatidos em escolas, universidades e até na tevê, mas muitas vezes são tratados de uma forma superficial.

      A nossa ideia é pegar esses assuntos e discutir, na prática o que eles significam.

      No nosso segundo episódio, nós vamos falar sobre tecnologia. Tecnologia é uma palavra que tá em alta atualmente, mas que na verdade nunca saiu de cena. 

      E por isso nesse episódio, eu vou comentar não só sobre como as tecnologias mudaram o mundo, mas também comentar sobre as suas aplicações na sociedade e falar um pouco também sobre as suas relações com a ciência.

      Pra começar o assunto, eu trouxe a origem da palavra tecnologia. Ela vem do grego, techné, um verbo que significa fabricar, produzir, ou construir que se une ao sufixo logia que também vem do grego logus, que quer dizer razão. Então, tecnologia significa a razão do saber fazer.

      Não é novidade que a tecnologia está em todo nosso redor, e ela está presente desde a idade da pedra, moldando as relações sociais, econômicas e até políticas do homem.

      Para nós conhecermos um pouco sobre esse desenvolvimento tecnológico, eu convido vocês para fazermos uma viagem no tempo.

      Nosso ponto de partida são os períodos paleolítico e neolítico, que duraram de cerca de 2,7 milhões de anos até 4.000 anos atrás. Nessa época a tecnologia tinha somente o objetivo de atender somente as necessidades do homem nômade.

      E esse homem nômade, ele não usava a tecnologia com base em pesquisa ou conhecimentos científicos, como a gente pode imaginar, né? Mas ele usava a partir experiências do dia a dia.

      E aí, ele criava lanças, machados, coisas para ele subsistir. Quando o homem se fixou na terra, ele passou a desenvolver outras ferramentas, como o arado e a roda.

      E a roda pode ser considerada também uma inovação. Se você quiser saber quando uma tecnologia, um equipamento, enfim é de fato uma inovação, você pode conferir o primeiro episódio da série Tá em Alta que fala sobre inovações. 

      Dado o recado, vamos seguindo aqui na nossa viagem no tempo. O próximo período que a tecnologia se firmou foi na idade média, já no regime do feudalismo, que era um regime rural que se baseava na forte obrigação entre servos e senhores feudais.

      A tecnologia nessa época esteve presente dentro dos feudos através dos artesanatos e o desenvolvimento tecnológico que aconteceu nessa época foi a partir dos teares manuais e das máquinas de costura.

      Só que como a gente sabe pelos registros históricos, o sistema feudal começou a fracassar e, assim, essa atividade artesanal que era realizada dentro dos feudos migrou para as cidades, e é dentro das cidades que a tecnologia começa a ter um objetivo diferente. Isso porque ela começa a ser mais atrelada a relações sociais e econômicas.

      Tudo isso se tornou mais forte lá por volta de 1650 quando doutrinas como iluminismo, absolutismo e mercantilismo resultaram na primeira revolução industrial. E esse é um grande marco para a tecnologia porque foi na revolução que ela viveu seu grande salto, o trabalho artesanal que começou lá nos feudos e depois migrou para as cidades foi totalmente substituído pelo uso das máquinas nas grandes empresas.

      E toda essa mecanização só foi possível porque a tecnologia proporcionou a mudança do uso da energia hidráulica, que era obtida a partir da água, pro uso da energia que movimentava as máquinas a partir do vapor, que usava o carvão como matéria prima.

      A mecanização, provocada pela tecnologia, não só mudou o tipo de… o tipo de energia que se usava na época, mas também causou uma maior produtividade para as indústrias e grande avanço do desenvolvimento científico e tecnológico.

      E essa revolução marca o tempo em que a tecnologia realmente se torna parte do sistema capitalista, isso porque esse sistema percebeu que as tecnologias emergentes tinham capacidade de proporcionar soluções para se produzir e vender mais.

      Até aqui eu falei como a tecnologia foi importante desde a idade da pedra, depois nos feudos como ela foi usada no artesanato, e aí esse impacto que a tecnologia tem quando ela realmente se encontra com o capitalismo. 

      Mas, assim como tudo eu tenho que ser um pouco crítica sobre essa análise social da tecnologia. A revolução de fato trouxe consigo um grande progresso técnico e econômico, mas nós não podemos esquecer que ela também trouxe um impacto social negativo para as pessoas. Isso porque nós sabemos que elas trabalhavam em condições insalubres e em longas jornadas de trabalho.

      Como vimos até aqui que não é possível falar de tecnologia sem analisar todo esse contexto social, eu convidei e professora e pesquisadora do departamento de comunicações e artes da ECA-USP, Daniela Osvald Ramos, para comentar sobre essa relação entre a tecnologia e o impacto tanto daqueles que a produzem quanto daqueles usufruem da tecnologia.

      Daniela: A relação entre tecnologia, o impacto de quem produz ou usufrui dela, a gente pode entender isso a partir das referências culturais daquela determinada população que tá em contato, né, com o avanço da tecnologia, os impactos que ela causa, então nesse grupo social. A gente vive num país com a desigualdade social. Pode ser então que um dos impactos da tecnologia nesse país seja aprofundar ainda mais a desigualdade social porque culturalmente as referências sociais que se tem são essas. A tecnologia sozinha não causa, não impacta nada. Ela impacta a partir de usos que se faz dela, a partir dos hábitos e dessa referência história, e cultural, política, econômica, social. 

      Thais: Voltando à nossa viagem no tempo, vamos ao século 20, quando a ciência e a tecnologia se aproximam mais do que nunca.

      A ciência como forma de se explicar o que se há na natureza se uniu à tecnologia, que como vimos é a aplicação das técnicas, e ferramentas de forma prática.

      Durante esse século, o sistema capitalista está mais desenvolvido e a tecnologia deixou de ser apenas um fator de produção, ou seja, uma ferramenta para o aumento da produtividade e do acúmulo de capital.

      Durante esse século, as empresas começaram a investir mais no setor de pesquisa e desenvolvimento e como resultado disso os cientistas que trabalhavam nas empresas começaram a ser homenageados até com o Prêmio Nobel.

      Um desses cientistas foi o físico-químico Irving Langmuir. Ele trabalhava na General Electric com lâmpadas incandescentes e foi homenageado com o Prêmio Nobel de química em 1932 a partir de suas descobertas no campo. 

      Um pouco mais tarde, com um olhar mais apurado agora para a ciência, após a segunda guerra mundial, os países industrializados começaram a investir em projetos gigantes de ciência de ponta.

      Como aceleradores de partículas, no estilo do Sirius, o nosso brasileiro recém inaugurado, e o projeto de mapeamento do genoma do DNA, realizado de forma colaborativa com cientistas de vários países.

      Essa época foi tão marcante que recebeu o nome de Big Science, a grande ciência.

      Mas, voltando pra área da tecnologia, e longe dos países desenvolvidos, na década de 70 surge um novo conceito para abranger as tecnologias não convencionais, que são aquelas que tem foco em resolver problemas sociais e ambientais. Enquanto as tecnologias convencionas são aquelas que nós comentamos que tem objetivo desenvolver um produto visando lucro, por exemplo.

      Mais tarde essa tecnologia foi chamada de tecnologia social, de acordo com o ITS Brasil, o instituto de tecnologia social, esse tipo de tecnologia é aquela desenvolvida ou aplicada como solução para melhoria na condição de vida e inclusão social.

      Apesar de ela levar o nome social, a ideia é que essa tecnologia possa apresentar soluções não só para comunidades carentes e pobres, mas também propor usos mais sustentáveis e compartilháveis para qualquer camada da sociedade. 

      A primeira tecnologia considerada social foi a roca de fiar, instituída pelo líder indiano Mahatma Gandhi.

      Isso porque na década de 20, quando a Índia ainda era dominada pela Grã-Bretanha, Gandhi usou a roca como um instrumento de valorização dos costumes tradicionais e de inclusão social dos indianos.

      Ela é considerada a primeira tecnologia apropriada no mundo com um objetivo de desenvolvimento social.

      Se a gente for falar de exemplos nacionais, uma prática disseminada por todo o país são as cisternas comunitárias. Elas são muito úteis em locais que se chove pouco, e onde se faz necessário o estoque de água.

      Então, ONGs, redes de apoio, e comunidades implantam essa tecnologia, captando água da chuva que se acumula nos telhados das casas e criam um sistema de distribuição para toda a comunidade.

      E é muito interessante que as pessoas não se beneficiam somente do produto dessa tecnologia, mas elas fazem parte da construção da cisterna, elas querem acompanhar o funcionamento dela, e elas também acabam desenvolvendo as relações sociais entre os membros das comunidades.

      E nesse contexto, eu gostaria de perguntar para a professora Daniela: professora, como você vê a importância das tecnologias sociais em suprir as demandas de regiões precárias? Pelos exemplos que nós vimos aqui, do Gandhi e dessa relação colaborativa das cisternas, você acha que elas também são instrumentos de educação?

      Daniela: Sim, eu acho que a tecnologia social, ela pode atuar como um instrumento de educação. É, e até a gente pode pensar na engenharia reversa da tecnologia social que é aprender sobre as necessidades daquela comunidade para conseguir desenvolver, implementar, prototipar, testar determinada tecnologia social, né? Então, e introduzir essa nova tecnologia social nessa comunidade. O que é uma maneira de educar também, então eu acho que educação, ela se relaciona com tecnologia social desde o ponto de vista da implementação dela em entender pra quê que ela serve a partir de quem a estará usando e também a partir do momento em que ela é utilizada como implementá-la em conjunto,  como é que ela vai ser adotada por essa comunidade em questão. 

      Dando um salto para o agora, em qual momento tecnológico nos encontramos?

      Desde a década de 1990, vivemos a fase da ética ou da sustentabilidade. Ela é marcada por um questionamento do uso da tecnologia com o foco na acumulação de capital e nas consequências desse sistema para o meio ambiente.

      É nessa fase que surgem as ideias em como conciliar o crescimento econômico com a preservação da natureza, e isso resultou no chamado desenvolvimento sustentável.

      Com o objetivo de provocar mudanças mundiais, os governos promoveram eventos como a Conferência Rio 92, um encontro das Nações Unidas em que os países começaram a discutir sobre como eles enfrentariam os problemas causados pelas emissões dos gases do efeito estufa.

      Esse encontro é uma retomada de um primeiro evento que aconteceu em Estocolmo, em 1972 e foi ele foi inclusive um combustível para o surgimento das tecnologias sociais que eu comentei há pouco.

      Apesar das diversas convenções, os países ainda não conseguiram diminuir de fato as emissões desses gases e impedir, por exemplo, a extinção de espécies de animais.

      Professora Daniela, na situação em que o planeta se encontra, existe alguma tecnologia realmente limpa e se sim, é possível usá-la de forma sustentável para reverter as consequências de séculos de incentivo ao consumo e produção sem limites?

      Daniela: Sobre o uso de tecnologias limpas, eu acho que isso vai depender de um design sustentável pra essa tecnologia, né? Então, seria uma produção em conjunto com a área do design, porque pensar uma tecnologia é de certa forma desenhar o uso, ter de antemão uma visão sobre o impacto e como minimizar se pode ser negativo ou não e, de novo, em que cultura ela está inserida, em que tipo de sociedade essa tecnologia está inserida. Então, eu acho que é possível pensar se uma tecnologia é limpa se houver um design social pra isso. 

      Thais: Bom, nesse episódio nós fizemos uma viagem pelo tempo, olhamos o poder da tecnologia de impactar as relações sociais e mudar o mundo. 

      Compreendemos que ela não é guiada somente pelo avanço da ciência e do conhecimento, mas também por interesses sociais e econômicos.

      E apesar de esse fator econômico ter deixado de herança um mundo de produção sem limites, vimos que ainda é possível pensar em tecnologias e sistemas que sejam sustentáveis.

      Ah, e se você quiser saber mais sobre os assuntos tratados, você pode conferir os artigos que eu peguei como referência, anota aí:

      Tecnologia: Buscando uma Definição para o Conceito, de Verasto, da Silva, Miranda e Simon.

      Análise da Evolução da Tecnologia: Uma Contribuição para o Ensino da Ciência e Tecnologia, de Hayne e Wyse.

      E por último, The Objectives of Technology Policy, escrito por Keith Pavitt.

      Esse trabalho foi escrito, produzido e editado por mim, Thais Oliveira, e faz parte do Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização de Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp.

      E tem orientação da professora Simone Pallone.

      Eu espero que vocês tenham gostado de conhecer mais sobre esse lado social da tecnologia.

      Nos vemos no próximo episódio, um abraço e até mais!

      16 min
    • #124 – Leitura de fôlego ep. 4: Utopia – o sonho que antecede o pesadelo?

      A perfeição pode ser um problema. Utopia e distopia não são tão diferentes assim. Uma sociedade perfeita é um perfeito pesadelo. Essas afirmações (que podem parecer desconcertantes à primeira vista) são discutidas neste quarto – e último – episódio da série Leitura de Fôlego. Carlos Eduardo Ornelas Berriel tem se dedicado a estudar as utopias literárias há mais de 20 anos e, nesse episódio, ele conversa com a gente sobre esse assunto.

      Leitura de Fôlego é uma série sobre literatura para o Oxigênio. Quem está à frente desse projeto é a Laís Souza Toledo Pereira, com supervisão e edição de Simone Pallone e trabalhos técnicos de Gustavo Campos e de Octávio Augusto Fonseca. Quem ajuda na divulgação do podcast é a Helena Ansani Nogueira.

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      Laís: Oi! Eu sou a Laís Toledo, e esse é o quarto e último episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura no Oxigênio.

      Carlos Berriel: Uma sociedade perfeita são perfeitos pesadelos, porque ela elimina aquilo, a última coisa a ser eliminada do mundo, que é o indivíduo. Pode eliminar tudo, menos o indivíduo, porque, se você eliminar o indivíduo, aí já está tudo eliminado, não tem mais nada.

      Laís: Utopia. Essa palavra, inventada a partir do grego, quer dizer “não lugar”, “o que não está em lugar nenhum”. A gente fala de utopia normalmente pra se referir a um lugar ou a uma sociedade onde tudo é perfeito. Ou também para se referir a uma situação que tende a não se realizar, um sonho inalcançável. Então, por que será que uma sociedade perfeita seria um perfeito pesadelo? Por que ela eliminaria os indivíduos? Nesse episódio, a gente vai conversar sobre a utopia, que já nasce cheia de contradições e ambiguidades e que não é assim tão diferente da sua filha mais popular hoje em dia, a distopia. Quem conversa com a gente sobre esse assunto é o Carlos Eduardo Ornelas Berriel. Ele é professor e pesquisador do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, da Unicamp. Faz mais de 20 anos que ele tem se dedicado ao tema das utopias literárias. Ele é fundador e editor da Revista Morus – Utopia e Renascimento e dirige o Centro de Estudos Utópicos da Unicamp, chamado U-TOPOS. O Berriel também é membro de várias sociedades científicas internacionais voltadas para o problema utópico e tem se dedicado à tradução, ao estudo e à publicação de utopias italianas.     

      Laís: A gente tem esse uso cotidiano da palavra utopia, de situação perfeita ou inalcançável, mas o Berriel me contou que, pra quem estuda esse tema, a utopia ainda está em definição.

      Berriel: A utopia é um campo de reflexão atual. Nunca se estudou tanto utopia como agora. Na verdade, a utopia começa a ser estudada só no século XX e é mais ou menos por etapas; assim, tem uma época em que se estuda e depois se larga. E, de uns trinta anos pra cá, é uma fase de grandes estudos sobre utopia. E muita produção, muito centro de pesquisa, publicações, traduções. Nunca se estudou tanto, o que é interessante.

      Laís: Apesar de os estudiosos desse campo estarem promovendo várias discussões para tentar definir a utopia, o Berriel, que é mais ligado à área da literatura, falou sobre a visão dele de utopia como um gênero literário, um tipo de texto. 

      Berriel: Eu vou dizer o que eu acho. Eu acho que utopia é um gênero literário, que tem determinadas características muito específicas. É um gênero literário que nasce com a sociedade moderna, a sociedade burguesa. E ela tem, enquanto, digamos assim, características de gênero, a utopia é muito próxima ou é mesmo uma sátira, é uma sátira política. Ao ser uma sátira, ela tem uma característica desse gênero, que é um gênero antigo, que se renova, que se refaz, como os gêneros literários vão se refazendo com o tempo, atendendo às demandas de cada época. A sátira tem por característica ser um gênero de períodos de grande fratura histórica, de grandes transformações sociais, como, por exemplo, a sátira; ela tem uma ligação direta com a crise da sociedade romana.

      Laís: A sátira como um tipo de texto surgiu na Roma Antiga, e o Lucílio, que nasceu por volta de 180 a.C., é considerado seu criador. A palavra satura tem a ver com um tipo de bandeja cheia – saturada – de frutas. O autor da sátira imitava outros gêneros: é como se ele misturasse em uma mesma obra (bandeja), vários gêneros literários (frutas) diferentes. Isso acontece porque, como disse o Berriel, o chão da sátira é uma crise social, uma rachadura na crosta histórica; é como se um mundo estivesse acabando e outro ainda estivesse nascendo. E, na beira desse abismo, o escritor ainda não podia inventar um gênero novo; então, ele imitava e misturava gêneros “mortos”, gêneros de um mundo que estava acabando.         

      Berriel: O satirista está na margem histórica nova, mas ele usa materiais literários da sociedade velha, ou da comunidade velha. Isso dá uma espécie de sabor de uma coisa irônica, uma coisa relativamente falsa, de um riso no canto da boca, que é o riso do cachorro, de onde vem o cinismo, de cinus, que é cachorro, e que é a sátira. Toda sátira tem um elemento de duplicidade, de um certo riso disfarçado. E eu acho que a Utopia, quando ela nasce, com o Thomas Morus, em 1516, quando é publicada (ela já vinha sendo escrita antes), ela é claramente uma sátira. Ela é uma sátira, no sentido de que é uma reflexão sobre a nova sociedade. 

      Laís: Quando o Berriel fala do nascimento da utopia, ele está se referindo a um livro chamado Utopia, escrito pelo Thomas Morus. Lembra que eu disse que a palavra “utopia” tinha sido inventada a partir do grego? Então, foi o Morus, que não era grego e sim inglês, que criou essa palavra. E ele não só criou a palavra, mas também criou a utopia enquanto esse tipo de texto literário, que descreve uma sociedade supostamente perfeita em todos os sentidos. Mas, assim, esse texto não simplesmente descreve essa sociedade – o que poderia acontecer em um tratado político, por exemplo –, ele faz isso por meio de uma ficção, de uma história inventada. Bom, mas vamos falar agora um pouco mais sobre esse livro, que já na sua época fez sucesso e serviu de modelo para as utopias que vieram depois. Então, como o Berriel estava falando, a Utopia do Morus seria uma espécie de sátira com uma reflexão sobre a nova sociedade que estava surgindo… 

      Berriel: Que nova sociedade é essa? 1516, navegações, descobertas, descoberta do Novo Mundo, desenvolvimento de uma nova economia, que é o capitalismo mercantil, uma nova classe social que começa a tomar conta da sociedade, que é a burguesia, mercantil, bancária. Então, o Thomas Morus é um homem que se situa, um intelectual, um escritor, que se situa bem dentro desse novo mundo. As descobertas, as navegações, uma nova economia, o surgimento do Estado moderno. Estado moderno no caso da Inglaterra, mas em outros países também. E o Thomas Morus está dentro desse quadro de grande convulsão social. Ao mesmo tempo em que ele é uma pessoa, portanto, que absorve os novos elementos históricos que estão chegando pra ele, assim como uma avalanche (você imagina viver naquela época). E ao mesmo tempo ele tem o olhar conservador, na medida em que ele lamenta intrinsecamente o desaparecimento de certos elementos da sociedade feudal, da comunidade feudal, que é justamente a comunidade. 

      Laís: E o que seria essa comunidade que estava desaparecendo?

      Berriel: A comunidade, então, é uma forma de vida coletiva que não é regida pelo dinheiro, mas é regida por uma tradição. 

      Laís: O que é diferente da sociedade burguesa que estava nascendo naquela época; nela, as relações entre as pessoas eram mais utilitaristas, mais focadas nos indivíduos, o que, por um lado, é bom, porque a pessoa passa a ter liberdade pra buscar outros vínculos, mais baseados no interesse dela do que em uma tradição. Mas, por outro lado, essa mudança gerava um problema central dentro da Utopia, que é o descarte, o abandono, da população…  

      Berriel: Porque a comunidade, embora ela seja dura, áspera, cruel, tenha os dominadores e os dominados, dentro da comunidade todo mundo tem o seu lugar. É uma estrutura bastante hierárquica e todo mundo tem um lugar dentro dessa comunidade. Se você for refletir mais detidamente, aquilo que o cristianismo imagina que seja o céu é a sociedade feudal, a comunidade feudal. Tem uma hierarquia onde existem os nobres, os cavaleiros, Deus acima de tudo, e vem descendo em uma hierarquia muito cuidadosa até chegar ao homem comum, até chegar ao mais humilde dos servos, que é um valor para a igreja, a servidão, todo cristão tem que se declarar servo como se fosse uma grande coisa. 

      Laís: Então a comunidade feudal estava desaparecendo na época em que o Morus escreveu a Utopia. E, no caso da Inglaterra, onde ele morava, esse desaparecimento era muito acelerado pelo surgimento das manufaturas de tecido.

      Berriel: O campo antes era dividido em lotes, em que os camponeses podiam, longamente, por gerações, trabalhar e tirar o seu rendimento, tirar a sua subsistência, e tudo isso vai desaparecendo pra transformar a Inglaterra em enormes pastagens de ovelha pra atender à demanda de lã das cidades manufatureiras. Esse processo, que é o processo de desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra, destrói a comunidade, que era aquilo que era a própria forma do poder da igreja católica. É um mundo novo. Então, o Thomas Morus é um homem do mundo novo, mas que lamenta o desaparecimento da estrutura fundamental feudal, porque a igreja católica, não é que ela existiu ou foi forte na Idade Média, a igreja católica é a Idade Média. Eu estou exagerando, mas é com um sentido didático; toda a estrutura, toda a visão de mundo, o modo como a igreja católica vê as coisas é a comunidade feudal. E ela está desaparecendo.

      Laís: Com o desenvolvimento do capitalismo, a igreja católica não iria se sustentar se ficasse do mesmo jeito. Isso porque, como disse o Berriel, ela era uma tradução das relações feudais; enquanto o protestantismo ia passar a ser a expressão religiosa da burguesia. Bom, então o Morus – que inclusive foi canonizado, virou santo – mesmo que criticasse os problemas da igreja, como a corrupção e a ociosidade de alguns religiosos, ele estava preocupado com o fim do feudalismo no país dele, porque os camponeses estavam sendo expulsos do campo, eles estavam perdendo o lugar (ainda que injusto) que eles ocupavam antes. Com isso, acontecia um aumento da pobreza e da criminalidade; muitas pessoas eram condenadas à morte por cometerem crimes como roubo. Essa é a questão do descarte da população, que é central na Utopia. 

      Berriel: Então, na minha leitura, o Thomas Morus escreveu a Utopia pra discutir esse fato. É um livro extremamente contraditório. É próprio das utopias essa contradição, porque ela tem elementos muito novos. Essa reinvenção da sátira que o Morus faz na Utopia é um grande movimento literário, porque é uma apropriação dos antigos, mas com chave nova. E, além de ser uma chave nova, é um elemento interessante, porque a sátira, perdão, a Utopia, como uma sátira nova, surge praticamente de modo contemporâneo ao surgimento do romance. O romance é também um gênero burguês. Só que o romance é um gênero burguês que não lamenta a perda do passado, não necessariamente lamenta. A Utopia lamenta. A Utopia é muito contraditória. 

      Laís: Então, enquanto gênero literário, a utopia seria justamente essa captura de um momento de grande transição da sociedade e também de mudança das formas literárias. Mas não é só isso…

      Berriel: Agora, a utopia é a percepção de um desenvolvimento histórico, uma reflexão sobre um desenvolvimento histórico, e que projeta uma sociedade inventada que pode ser solução para os problemas, porque a utopia está num grande diagnóstico. É um diagnóstico dos problemas sociais. E, ao mesmo tempo, oferece o fármaco para os males sociais, de uma forma ficcional, na forma de uma narrativa. Isso configura um gênero, no meu ponto de vista.

      Laís: A Utopia do Morus, assim como algumas das outras utopias que vieram depois, era movida por um desejo de criticar a sociedade da sua época e também de propor reformas, mesmo que provavelmente os escritores de utopias não acreditassem que aquela sociedade que eles estavam descrevendo, inventando, fosse realizável. Por isso, as utopias costumam ser datadas, porque são bem ligadas a problemas históricos específicos. Além disso, como já disse o Berriel, elas são também contraditórias, ambíguas… Essa característica já aproximaria as utopias das distopias, que são narrativas que descrevem sociedades perfeitamente imperfeitas, ou sociedades perfeitas em seus defeitos.

      Berriel: Eu acredito que a distopia seja um galho do tronco da utopia, porque, em grande parte, o procedimento, o material da distopia, ele já está na utopia. De que forma? A utopia, digamos, as grandes utopias, as principais que foram sendo escritas, que ficaram, iluminaram a reflexão política, não só política, a reflexão ética, como grandes elementos para a discussão dos movimentos sociais, das formações dos diagnósticos. As utopias têm um problema grave, marcante, que é o seguinte: o utopista, quer dizer, o autor da utopia, ele oferece uma solução, um modo de organizar a vida. Então, as utopias inventam uma sociedade completa. Completa no sentido de que elas preveem como as pessoas vão morar, como elas vão trabalhar, como elas vão casar, como elas vão morrer, como elas se relacionam com a ciência, com a natureza, com outros países. É completa. Essa é uma exigência, digamos assim, das grandes utopias, das utopias clássicas, é fazer um desenho completamente suficiente do que seria uma sociedade. Ela funciona inteira, não está faltando nada.  

      Agora, o modo como as utopias fazem isso, já na Utopia do Morus, que é a primeira, depois na longa sucessão de dezenas ou centenas de utopias que foram escritas depois, normalmente elas têm essa característica de que elas já nascem prontas. Isso é uma grande questão. Muito atual, eu diria.

      Laís: O utopista escreve, então, uma narrativa em que ele expõe as ideias dele sobre um mundo perfeito, completo. Já dá pra ver um problema nisso, se a gente pensar que a ideia de perfeição normalmente é diferente pra cada pessoa: o sonho de alguns pode ser o pesadelo de outros. Só que o problema da perfeição não para por aí…   

      Berriel: Aquela, por exemplo, sociedade da ilha de utopia, do Thomas Morus, não nasceu de um desenvolvimento natural daquela sociedade, que a população foi vivendo a sua história, errando, acertando, corrigindo etc., refletindo… Não é. Simplesmente, praticamente do nada, chega uma pessoa, com um exército, que é o rei Utopus, com uma constituição já definida nos mínimos detalhes. E essa constituição, essas leis que ele traz são perfeitas, tidas como perfeitas. E, se elas são perfeitas, a perfeição é um problema grave, porque a perfeição significa congelamento da história, porque, se é perfeita, você não pode aperfeiçoar. 

      Laís: Na Utopia do Morus, que é localizada em uma ilha, qualquer problema do mundo real que você possa imaginar, na economia, nas relações humanas, enfim, qualquer problema, já está solucionado. E ele está solucionado antes de qualquer coisa, não pela experiência das pessoas, mas por uma lei fixa, racional, sem defeitos.

      Berriel: E aquele modo de operar, tido como perfeito, não pode ser aperfeiçoado, você não aperfeiçoa o perfeito. Ao mesmo tempo, aquela lei não tem defeitos que possam ser corrigidos, porque, sendo perfeita, ela não tem defeitos. Então, aquela sociedade, que é, na ficção, um outro lugar, o lugar que não é aqui, o sentido elementar da palavra utopia, mas é também um tempo congelado, porque, consequentemente, como está tudo perfeito, não pode ser mexido. Você não tem história. A história eliminou. E, se você elimina a história, você elimina os indivíduos, porque os indivíduos eles são histórias, histórias individuais, que se misturam e formam histórias coletivas, histórias dos povos, histórias das populações, histórias dos vários lugares. Na utopia não existe história. 

      Laís: A nossa individualidade depende da nossa história, da passagem do tempo, das nossas experiências, de conflitos, dos nossos erros, dos nossos enganos… E na utopia não tem nada disso. Como a história é eliminada, o tempo fica congelado em uma sociedade que é tida como perfeita; é como se as pessoas vivessem em um eterno presente. A gente pode perceber isso inclusive na forma como o texto é escrito.

      Berriel: Quando você lê uma utopia, não tem personagem. Só tem funcionários. Você imagina aqueles funcionários com uma bata branca, uma cara plácida, trazendo a sabedoria perfeita. Uma coisa horrível, né? Isso é, fala assim, “olha, que maravilha, uma sociedade perfeita”. Uma sociedade perfeita são perfeitos pesadelos, porque ela elimina aquilo, a última coisa a ser eliminada do mundo, que é o indivíduo. Pode eliminar tudo, menos o indivíduo, porque, se você eliminar o indivíduo, aí já está tudo eliminado, não tem mais nada. 

      Laís: A história é substituída na Utopia por uma espécie de hiper-racionalismo. O Estado tem, de antemão, soluções racionais pra todos os complexos problemas humanos.

      Berriel: E, de fato, na utopia você não tem as doenças, não tem fome, não tem guerra, não tem epidemias, você não tem uma série de coisas, porque todo o Estado funciona que é uma maravilha, às custas da própria alma da história, que é o indivíduo. Portanto, a utopia, a primeira utopia, já é uma distopia, mas só que será preciso os séculos passarem para que se tenha essa outra visão. 

      Laís: Então, agora, vamos ver um pouco melhor o que é uma distopia. 

      Berriel: Bom, em parte já está dito, a distopia é uma forma de sociedade, de Estado, tida como perfeita; e, na verdade, é uma forma absoluta, não estou querendo falar a palavra totalitária, mas é um Estado que tomou conta de tudo, e que também a primeira coisa é a eliminação do indivíduo. O indivíduo, com a sua atividade, seus problemas, as suas indagações, é o problema que precisa ser eliminado dentro das distopias. Mas a distopia tem uma outra característica, aí pegando as distopias bem concretas, e podemos falar até de coisas atuais, como Black Mirror, ou a história da Aia, são coisas bem atuais, que o que é que a distopia faz? Ela pega a nossa sociedade, que está cheia de problemas, e detecta um único problema, detecta um problema central. E esse problema, que existe na realidade, esse problema que afeta a sociedade, dentro da ficção da distopia, ele se torna grande demais, ele ganha um tamanho maior do que tem na realidade. 

      Laís: Vamos ver, então, essa questão com o exemplo de Black Mirror, uma série britânica que começou a ser exibida em 2011 e hoje em dia está disponível na plataforma de streaming Netflix. Ela já tem 5 temporadas, e cada episódio conta uma história diferente, que se passa em um presente alternativo ou em um futuro próximo. E o foco da série é abordar as consequências imprevistas que as novas tecnologias podem ter nas nossas vidas. Então…  

      Berriel: Black Mirror todo mundo tem esse trequinho aqui.

      Laís: O Berriel está falando do celular.

      Berriel: Isso é um problema. As relações sociais, as relações humanas, as relações intelectuais (nós estamos aqui no Black Mirror, nós dois aqui, certo?). No caso dessa série, a questão ética, essa é a questão central, a questão ética que envolve a vida cultural, a vida social, a vida afetiva, que está sendo gravemente afetada pelo espelhinho preto, ganha, no caso dessa série, uma dimensão maior do que é na realidade, mas essa é a função da arte, é distorcer. Lembra do deus Dionísio, que só vê a realidade quando está bêbado? Essa é a forma da arte ver a coisa, não como ela é, mas qual o tamanho que a realidade ocupa dentro das coisas. E essa é a função da arte. É colocar lentes. A arte tem que distorcer para dar o tamanho real das coisas. Isso é o Dionísio. E, no caso, só pegando essa série Black Mirror para dar um exemplo, pega uma questão, que é a interferência das coisas da internet nas relações humanas. Eu não sei se eu vi todos os capítulos, eu fiquei apavorado, eu ficava mal vendo aqueles capítulos. Eu me lembro muito particularmente de um. 

      Laís: O Berriel comentou sobre o episódio “Queda Livre”, que é o 1º da 3ª temporada da série. Esse episódio se desenrola em um mundo onde as pessoas se avaliam o tempo todo em um aplicativo. Cada um pode ter uma nota máxima de 5 estrelas; e essa nota, que é visível para todos, influencia muito a vida das pessoas, inclusive em um nível bem concreto, tipo uma oportunidade de trabalho ou o acesso a locais ou a serviços, o que pode ser dificultado ou facilitado, dependendo da nota de cada um. Nesse contexto, muitas das interações acabam sendo pautadas pela vontade de agradar os outros, para, assim, ser bem avaliado e ter mais oportunidade naquela sociedade. Aí, enfim, a protagonista do episódio encontra um jeito de aumentar a nota dela rapidamente, mas, pro azar ou pra sorte dela (eu acho que pra sorte), a estratégia dela acaba não dando muito certo…

      Berriel: Isso é uma coisa que de fato existe. Claro que a série coloca num nível, né… Então, eu acho que essa série é muito boa, gosto muito dela, ao mesmo tempo me sentindo muito mal com ela, porque ela percebe uma coisa, que é uma enorme fetichização das relações humanas. Eu percebo, por exemplo, em pessoas que eu conheço, a enorme solidão das pessoas que têm 3 mil amigos virtuais. Eu acho isso aí um grande problema, um grande problema ético, um grande problema civilizacional, eu acho que nós estamos em um buraco terrível e tudo isso faz parte, dessa coisa de você mediar as relações através de um objeto. 

      Laís: O Berriel deu outro exemplo desses objetos que estão no meio da nossa relação com as outras pessoas ou com as coisas do mundo. Uns 20 anos atrás, ele estava morando em Florença, na Itália, e, quando apareceram as câmeras digitais, ele percebeu uma mudança na atitude dos turistas que viajavam pra lá…

      Berriel: Até então as pessoas, os turistas, que viajavam por interesse cultural, tal… elas iam e ficavam um tempão olhando as obras de arte. Olhando ali o David de Michelangelo, por exemplo. E, então, era uma relação direta entre o fruidor da obra de arte e a obra de arte. Essa relação é muito exigente, muito cansativa; você contemplar uma grande obra de arte por um bom tempo te exaure, porque tira as melhores energias que tem em você, porque ela está te jogando pra cima. A partir do surgimento dessas maquinetas, aconteceu uma coisa muito estranha, e eu ficava observando, eu passava todo dia por ali, pela região central e tal, e eu passei a observar que as pessoas não conseguiam mais olhar as obras, mas elas olhavam a imagem na câmera digital. Então, você está ali, pelo amor de deus, se é pra ver imagem, você pode ver em casa, não é? Não precisa viajar, mas as pessoas não conseguem ver, porque mobiliza a estrutura da pessoa, a grande obra de arte abala a estrutura da pessoa, e quem sobrevive se eleva a um nível humano mais alto. Mas eu via aquelas pessoas, que estavam ali na frente da obra, e tinham que ficar olhando uma imagem, que ainda por cima é uma mercadoria. Esse é o processo de fetichização. E eu acho que isso é um elemento distópico. 

      Laís: As novas tecnologias estão criando um mundo novo; a gente está vivendo uma daquelas rachaduras históricas, como o Morus viveu na época dele. Só que, se a Utopia foi uma resposta do Morus pra essa situação, hoje em dia a gente tem buscado outras respostas… 

      Berriel: As utopias, se são a ideia de construir uma sociedade maravilhosa, ninguém acredita nisso, isso nunca foi verdade. Só que hoje nós sabemos que isso não é verdade, que nenhuma sociedade será construída por engenheiros.  As sociedades, elas podem ser benévolas, elas podem ser democráticas, isso significa um reconhecimento contínuo dos enormes problemas que jamais desaparecerão. A democracia é o livre trânsito das contradições, e não a resolução delas por uma autoridade hiper-racional. 

      Laís: Inclusive, o Berriel contou que, no século XX, nenhuma utopia foi escrita. Ele considera que a última utopia positiva é de 1890, do escritor e artista, William Morris; ela se chama, na tradução brasileira, Notícias de lugar nenhum – ou uma época de tranquilidade. Nessa história, que se passa em uma Londres do futuro, as pessoas se livraram da sua escravidão mental, elas são amáveis e, uma coisa importante e “utópica” pro Morris, as pessoas têm bom gosto. Então, se hoje a gente não é mais capaz de pensar em uma sociedade perfeita, pro Berriel, a distopia (que começou a aparecer lá pro final da Primeira Guerra Mundial) é agora a grande questão, o grande gênero da atualidade. Ela ajudaria a gente a se conhecer e a entender melhor esse novo mundo onde a gente vive.

      Berriel: As grandes distopias que nós temos, nas últimas décadas, filmes, principalmente… Blade Runner. Você assistiu Blade Runner, né? Blade Runner É uma espécie de Frankenstein, a história de Frankenstein atualizada né. E você tem essa questão de que as criaturas mais humanas são justamente as máquinas, são os robôs, os replicantes. É uma sociedade inteiramente fetichizada, a vida evaporou; a vida, em um sentido não biológico, mas em um sentido da alma, ela evaporou e se transfere aos objetos. E as distopias têm sido a forma quase insuperável de refletir sobre essas questões. Então, pensar hoje em dia em uma sociedade perfeita, nós não somos mais capazes. Então, as pessoas que estão preocupadas com o grave intervalo histórico que nós estamos vivendo, elas não conseguirão manter essa prática de crítica, de busca, de compreensão, sem uma leitura, uma assistência às distopias. Elas são a nossa salvação, né?! 

      Laís: E a gente chegou ao fim desse episódio, em que a utopia apareceu como um sonho que antecede o pesadelo, e a distopia como uma salvação pra gente refletir sobre os nossos problemas atuais. Seria muito Black Mirror pedir pra você avaliar esse episódio com 5 estrelinhas? Eu estou brincando! Mas, se quiser fazer algum comentário ou sugestão, procura a gente no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). Ou no Instagram e no Twitter, é só buscar por “Oxigênio Podcast”. Ah, se quiser falar direto comigo, meu e-mail é [email protected].

      O roteiro e a narração desse episódio foram feitos por mim, Laís Toledo. Os trabalhos técnicos foram feitos pelo Gustavo Campos e pelo Octávio Augusto, da rádio Unicamp. A edição do roteiro e a coordenação do Oxigênio são da Simone Pallone. Até mais!

      36 min
    • #123 – Tá em alta – ep. 1 – Inovação

      O primeiro episódio da série Tá em Alta trata sobre inovação. No programa, foi discutido seu significado, quando de fato um produto ou empresa pode ser considerada inovadora e quais são os tipos e categorias de inovação que são encontrados tanto na rotina das pessoas quanto na indústria. O podcast contou com a participação da Eliza Coral, especialista em gestão estratégica de inovação e gerente executiva do Instituto Euvaldo Lodi de Santa Catarina, que apresentou exemplos de inovação que não tenham relação com o meio digital como a rede Starbucks e explicou como que o “inovar” pode ocorrer de forma individual.

      13 min
    • #122 – Escuta Clima – ep. 4 – Vulnerabilidade: as vítimas das mudanças climáticas

      No episódio anterior, descobrimos como a desigualdade social afeta determinados grupos urbanos durante a iminência de um desastre natural. No episódio de hoje, vamos identificar quem faz parte desses grupos mais vulneráveis e como os eventos extremos no Brasil afetam suas saúdes e os colocam em risco de morte. É importante lembrar, também, que tais eventos de ordem climática são intensificados pelo aquecimento global e ficarão mais fortes e frequentes a cada ano. 

      A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pelo programa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

       

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      Roteiro

      Camila Ramos – A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas, que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Esse é o artigo 196 da atual Constituição brasileira.

      No episódio anterior e a primeira parte do tema de Vulnerabilidade, que você encontra nessa mesma plataforma que nos ouve agora, vimos que a desigualdade social é um fator determinante da vulnerabilidade humana frente ao risco de um desastre natural.

      O Alberto Najar, que é sociólogo e pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, resume bem o assunto:

      Alberto Najar – Risco e vulnerabilidade são conceitos que só podem ser compreendidos levando em consideração diferentes contextos histórico-sociais e as diferentes disputas de paradigmas das áreas científicas que as desenvolveram. Portanto, dependendo do ponto de vista, sob risco podem estar grande parte das populações e das comunidades que vivem em situação de vulnerabilidade, principalmente em grandes centros urbanos. A exposição ao risco ou a existência de vulnerabilidade é produto dos modelos econômicos que prevaleceram desde a metade do século XX, e que acentuaram as desigualdades econômica e sociais, aumentando a pobreza e expulsando significativa parte da população para as periferias urbanas, áreas essas que foram gradativamente ocupadas de forma desordenada, o que gerou não apenas problemas ambientais de diversas ordens, mas também a intensificação de situação de risco geradas por ameaças ou processos naturais, que são potencializados pelos eventos extremos decorrentes, por exemplo, das mudanças climáticas”.

      Camila Ramos – Também vimos no episódio anterior que existem diversos estudos voltados a descobrir quem são as pessoas sob risco. Como é o caso da pesquisa conduzida pela Regina Alvalá e colaboradores, que estimaram com base em análise para 825 municípios do Brasil que a cada 100 habitantes, nove viviam em áreas de riscos de desastres.

      A Regina é pesquisadora e coordenadora de Relações Institucionais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, e foi uma das entrevistadas.

      Essas pesquisas ajudam a subsidiar a gestão de riscos e respostas a desastres e são relevantes para subsidiar, também, políticas públicas que têm o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população e são extremamente importantes para tornar uma cidade mais resiliente. Afinal, os eventos climáticos extremos estão ficando mais intensos e frequentes a cada ano, intensificados pelo aquecimento global. Como indica o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

      Então, no episódio de hoje iremos continuar o assunto de Vulnerabilidade, identificando quem são as pessoas que vivem em áreas sob risco de desastres no Brasil e como esses eventos afetam sua saúde e suas vidas. Assim, vamos ouvir novamente os pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas, que são a Regina Alvalá, o Alberto Najar e a Gabriela Couto, que é doutoranda do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do INPE e pesquisadora associada do Cemaden.

      Teremos, também, a participação da bióloga Júlia Alves Menezes, que é pesquisadora do Laboratório de Análises e Desenvolvimento para a Sustentabilidade do INPE e pesquisadora de Estudos Transdisciplinares em Saúde e Meio Ambiente da Fiocruz. E da enfermeira Rhavena Santos, pesquisadora do Instituto René Rachou da Fiocruz. Ambas pesquisadoras do INCT sobre Mudanças Climáticas.

      Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do INCT Mudanças Climáticas. É vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, e é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas.

       

      [Vinheta do podcast Escuta Clima]

      Camila Ramos – Notícias sobre os impactos causados por desastres naturais já viraram rotina. Você deve se lembrar de algum evento extremo que aconteceu no último ano, certo?  

      Não é difícil encontrar exemplos, já que esse 2020 foi um ano atípico em muitos aspectos. Vamos ver alguns: a temporada de furacões no oceano Atlântico teve um número recorde de ciclones, tempestades tropicais e furacões. Alguns deles ocorrendo simultaneamente, o que não é comum. O verão no polo norte, especificamente a região da Sibéria, na Rússia, foi o mais quente da história, fazendo as temperaturas alcançarem quase 40ºC. Já no Brasil, podemos citar as chuvas extremas no Sudeste em janeiro e fevereiro e o ciclone bomba no Sul, em junho. Ou ainda, mais recentemente, a onda de calor repentina que atingiu todo o território brasileiro em outubro passado. 

      Esses eventos podem parecer parte do pacote de desgraças de 2020, mas é preciso reconhecer o quanto o nosso estilo de vida moderno está contribuindo para intensificar as alterações no clima. E as ações contra a natureza estão retornando para nós, afetando nossas vidas e nos colocando em risco de morte. A Júlia Menezes comenta sobre isso:

      Júlia Menezes – As mudanças climáticas podem produzir impactos, sim, sobre a saúde humana por diferentes vias. Uma delas é a forma direta, principalmente na materialização de óbitos. Os óbitos, eles também são muito comuns em eventos extremos de grande intensidade, grande energia, como furacões, vendavais e tempestades. Porém, muitas vezes, os impactos da mudança do clima, eles se manifestam de maneira indireta, com a alteração gradual e permanente que vai sendo observada no regime de chuvas, na temperatura e na umidade que acabam por interferir nos ecossistemas e na interação entre os componentes dos ecossistemas.

      Camila Ramos – Apesar dos desastres deflagrados por ameaças naturais e as mudanças climáticas não escolherem suas vítimas a dedo, é preciso entender que há grupos sociais que serão mais impactados por um evento extremo que outros grupos. E a Regina Alvalá dá um visão abrangente sobre essas pessoas mais vulneráveis: 

      Regina Alvalá – Em termos gerais, crianças, mulheres, mulheres grávidas, idosos, pessoas portadoras de deficiências, desnutridos e pessoas comprometidas ou imunologicamente comprometidas são particularmente vulneráveis ao aumento da gravidade e da frequência de desastres relacionados ao clima, como as tempestades, as ondas de calor, deslizamentos de terra, alagamentos, inundações, secas, principalmente nos países mais pobres e em desenvolvimento. O principal contribuinte para a vulnerabilidade é a pobreza e suas consequências comuns, como desnutrição, falta de moradia, moradia precária e mesmo a miséria.

      Camila Ramos – Dentro dessa perspectiva que considera a desigualdade social como fator determinante para situação de risco em nível individual, o pesquisador Alberto Najar também apresenta sua visão sobre a vulnerabilidade estrutural, ou seja, as condições que levam um coletivo a uma maior insegurança frente a um desastre: 

      Alberto Najar – Os grupos populacionais mais vulneráveis sob essa perspectiva, os mais atingidos por esse quadro dramático é a população negra. Do total de brasileiros e brasileiras que vivem abaixo da linha de pobreza, eles representam 72,7%, 38,1 milhões de pessoas vivendo em situação de grande restrição material. Num recorte por sexo, mulheres pretas ou pardas são 27,2 milhões. Baixa escolaridade, poucas oportunidades de emprego, acesso apenas aos piores postos de trabalho, falta de acesso à infraestrutura de serviços de saneamento (em especial o esgotamento sanitário e coleta de lixo), forte segregação urbana, discriminação por cor de pele e sexo, formam, entre outros tantos problemas, a matriz da vulnerabilidade brasileira. A estrutura de desigualdade brasileira atinge, seletivamente, quatro grupos populacionais: negros, mulheres, crianças e idosos, indicando quatro recortes principais na estrutura social: cor de pele, sexo, idade, todos controlados pelo rendimento.

      Camila Ramos – Quando falamos de gênero, as mulheres são as mais vulneráveis. É o que diz o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, de 2015. O estudo diz que as mulheres, por serem associadas ao trabalho doméstico pela sociedade, tendem a permanecer em suas casas ou tomar para si a responsabilidade de cuidar de crianças, idosos ou doentes durante a iminência de um desastre. Além disso, por ganharem um salário menor, terem menos oportunidades de emprego e, muitas vezes, um grau de escolaridade menor em relação aos homens, as mulheres acabam tendo menos recursos para se recuperarem após um desastre. A Gabriela Couto explica essa relação entre gênero e os impactos dos desastres ambientais:

      Gabriela Couto – Os primeiros sinais de gênero como uma importante categoria de análise para entendimento de processos sociais relacionados a desastres têm na sua origem a alta taxa de mortalidade de mulheres e meninas em situação de desastres. O terremoto na Guatemala de 1976, o terremoto de 1992 no Egito, o devastante ciclone no sul da Ásia em 1991 e o tsunami na Indonésia de 2004, caracterizam todos pelo maior número de mortes entre as mulheres. […] As desigualdades de gênero também são reconhecidas como importante elemento de vulnerabilidade de mulheres e meninas, em situação de desastres. Alguns autores sustentam a hipótese de que a vulnerabilidade de gênero está relacionada apenas à categoria da ameaça natural. Eles afirmam que em certos tipos de desastres, mulheres e homens têm propensão diferenciada para assumir risco, onde os homens seriam mais propensos do que as mulheres a arriscarem-se, portanto, serem as maiores vítimas de desastres. Mas, as altas taxas de mortalidade e as desigualdades no pós desastre levaram grupos de pesquisa de todo mundo ao desafio de tentar responder a importantes questões: São as mulheres mais vulneráveis? Por quê? Quais as dimensões de gêneros estão associadas às consequências de desastres? Quais outros fatores relacionados ao gênero aumentam ou podem contribuir para a redução da vulnerabilidade? No rol das respostas está o reconhecimento de que o impacto de desastres é sensível ao gênero na medida em que papéis, responsabilidades e oportunidades estão associados a homens e mulheres de formas desiguais.

      Camila Ramos – Conhecendo quem são as principais vítimas, vamos entender melhor os impactos dos eventos extremos mais recorrentes no Brasil e o que pode ser feito para garantir uma melhor segurança para a população.

      As chuvas torrenciais que causam alagamentos ou deslizamentos de encostas são muito comuns no Brasil. Um exemplo aconteceu há 10 anos, em 2011, quando uma intensa precipitação no Rio de Janeiro causou a pior tragédia climática da história do Brasil. Deixando cerca de 900 mortos, centenas de desaparecidos e mais de 20 mil desabrigados.

      Esses eventos acontecem de forma repentina e, muitas vezes, não dá tempo da população ou dos agentes da defesa civil agirem de forma rápida e eficiente, o que impacta as comunidades em risco de diferentes formas, como explica detalhadamente a Rhavena Santos:

      Rhavena Santos – A população pode ser acometida diretamente por esse evento, por exemplo, por meio de destruições de casas, perda de familiares, ou mesmo indiretamente, quando essas enchentes e inundações elas atingem estruturas físicas de saúde (hospitais, ambulatórios) e vão prejudicar respostas do município, da localidade a esse evento. Então isso prejudica a assistência à população nesse momento de crise. Essas diferenças, elas são sentidas também nos impactos ambientais posteriores a um desastre e podem ampliar, por exemplo, condições de vulnerabilidade que já existem naquela localidade. Os desastres vão interferir na dinâmica das doenças de um território e podem prejudicar, a qualidade da água que está disponível para aquela população, para consumo humano, podem gerar impactos sobre a saúde que engloba tanto doenças de veiculação hídrica quanto transmitidos por vetores, prejudicar a disponibilidade e o acesso a alimentos, levando a impactos sobre o estado nutricional da população. 

      Camila Ramos – Dentre as doenças que a pesquisadora falou, podemos citar a leptospirose, que é causada por uma bactéria transmitida pela urina de roedores e pode estar presente na água das enxurradas. Ou ainda a dengue, febre amarela, zika e chikungunya, que são transmitidas pelo nosso já bem conhecido mosquito aedes aegypti. Ele se aproveita do acúmulo de águas paradas para proliferar. As enchentes criam esse ambiente favorável pro mosquito.

      E não podemos deixar de falar das doenças mentais. A população vítima de desastres pode apresentar quadros de ansiedade, depressão e transtorno pós-traumático, assim como pode passar pelo luto devido à perda de familiares.

      Para minimizar os impactos de um desastre, é preciso gerar informações e levar esse conteúdo para as comunidades e governantes. A Rhavena, que estudou o fluxo de dados sobre saúde após enchentes e enxurradas em Minas Gerais, explica essa questão:

      Rhavena Santos – Mas qual que é o papel da informação nisso tudo? A informação, ela é um recurso estratégico que deve ser administrada corretamente para poder contribuir, para poder maximizar essa qualidade da tomada de decisão e para desenvolvimento individual, coletivo e social das organizações. É muito importante que os governantes, sociedade civil organizada, tomadores de decisão, formuladores de políticas eles tenham a informação na hora certa para tomar as decisões assertivas.

      Camila Ramos – Ainda existem barreiras entre os pesquisadores e a informação. Por exemplo, é preciso desenvolver um modo de aglutinar todos os dados para fazer um levantamento nacional que seja confiável e eficiente, e são essenciais mais investimentos nessas pesquisas. Além disso, é necessário que os registros dos desastres sejam feitos por aqueles que atuam neles, como os agentes de segurança e defesa civil, para que sejam notificados de modo qualitativo e não quantitativo quem são as vítimas. Ou seja, é preciso identificar a idade, gênero, cor da pele, renda, nível de escolaridade, onde moram e com quem, e por aí vai… 

      Ou seja, temos que conhecer a pessoa em vez de somar mais um número no documento geral de mortos, feridos e desabrigados. É o que a Gabriela tenta fazer em sua pesquisa:

      Gabriela Couto – Sobrevivência e recuperação de afetados por desastres são elementos primordiais na obtenção de conhecimento que indiquem novas formas de lidar com situações de desastres. Quais capacidades humanas podem ser fortalecidas? Que estruturas precisam ser melhoradas? Onde que deve ser investido recurso? Onde órgãos de defesa e gestão podem ou devem atuar? Olhar para a vulnerabilidade se faz importante. E já existe conhecimento de quais são os principais fatores preditores de vulnerabilidade a desastre, mas ainda é mais importante conhecer as capacidades ou a falta delas as quais precisam ser fortalecidas, precisa ser investido recurso humano, social e econômico que possibilite um planejamento para gestão de risco de desastres de forma mais integrada e que combine ciência, educação, saúde, segurança, meio ambiente e proteção.

      Camila Ramos – Em resumo, é preciso ter respeito e empatia pela população vulnerável e entender suas necessidades para, assim, criar políticas públicas mais eficientes e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.

      Existe outro evento extremo de ordem climática no Brasil que causa impactos significativos na saúde da população. São as secas. Já falamos delas no episódio #111, intitulado Rios Urbanos e Conta-gotas.

      As secas atingem mais intensamente a região semiárida do Nordeste, um local que tem baixa pontuação no Índice de Desenvolvimento Humano, comparada com outras regiões do Brasil. E a população tem uma qualidade de vida também pior do que em outras regiões. A Júlia explica quem são essas pessoas:

      Júlia Menezes – No semiárido, há uma construção histórica de vulnerabilidades sociais, econômicas e ambientais, que reduzem a capacidade de resiliência e adaptação da população. Meu estudo, do semiárido, observou que as maiores vulnerabilidades estavam associadas à população com menor nível de instrução, menor renda, com mão de obra, principalmente, empregada na área agrícola, que dependiam da produção familiar, da agricultura familiar no caso, e com baixo acesso à água encanada. Então, essas eram as principais condições observadas nos municípios de maior vulnerabilidade no que se relacionava às secas e a saúde nessa perspectiva da saúde como um conceito amplo.

      Camila Ramos – Esse estudo que a Júlia comentou trata da relação entre as secas e a saúde humana, que, assim como as enchentes, causam diversos agravos, principalmente em comunidades mais vulneráveis.

      Júlia Menezes – O que se sabe sobre a seca e saúde é que a seca atua sobre os sistemas ecológicos, econômicos, sociais e culturais e pode causar danos e prejuízos significativos às condições de vida das populações que estão expostas à seca, como, por exemplo, deficiência no fornecimento de água para higiene, para alimentação, prejuízo na agricultura e pecuária, pode acarretar migrações populacionais, incêndios florestais, degradação da qualidade da água com problemas que repercutem na saúde de maneira geral.

      Camila Ramos – Ou seja, as secas podem facilitar o surgimento de doenças específicas. E como exemplo podemos citar os quadros de diarreia, hepatites A e E, cólera, desidratação e desnutrição. Ou ainda, podem promover o aumento de casos de doenças vetoriais, como a dengue, novamente, já que o mosquito encontra um bom local para proliferação nas cisternas e reservatórios de água.

      Relacionar certos agravos de saúde diretamente com as secas é difícil, já que elas acontecem de forma lenta e não dá pra determinar o seu início e fim com exatidão. Há um consenso entre os pesquisadores sobre o prejuízo de saúde decorrente da má qualidade da água e do menor acesso à alimentação, bem como outros fatores relacionados às secas, como o calor intenso. Essas consequências também podem impactar na saúde mental da população, como explica a Júlia:

      Júlia Menezes – Os casos desse tipo de doença, como depressão, ansiedade, estresse também já foram observadas em população vivendo com extremos de seca, mas não há ainda nenhum estudo que comprove diretamente essa relação para o semiárido brasileiro, justamente por ser difícil associar a seca a agravos de saúde. Mas, internacionalmente, vários estudos já se debruçaram sobre essa relação entre doenças mentais e seca e encontraram alguns agravos como esses que eu citei principalmente nas zonas rurais, devido às incertezas que uma seca prolongada pode gerar para a produção da agricultura familiar, para a percepção econômica que aquela família pode ter daquela produção que vai ser impactada pela seca.

      Camila Ramos – Atualmente existem planos nacionais que procuram diminuir a vulnerabilidade frente aos impactos dos eventos ligados às mudanças climáticas. Um exemplo é o Plano Nacional de Adaptação, que é parte da Política Nacional sobre Mudança do Clima, criado em 2016 pelo governo federal junto à Organização das Nações Unidas. O objetivo é identificar as pessoas sob risco para definir ações de adaptação e resiliência. A Júlia, novamente, explica a importância de iniciativas como essa: 

      Júlia Menezes – Então, no caso do semiárido, por exemplo, pesquisas focadas em adaptação já demonstraram a importância de se avaliar a vulnerabilidade em relação aos impactos futuros da mudança do clima, sendo que o foco dessas avaliações devem se dar sobre as iniquidades sociais atuais, que a gente observa hoje, e das práticas ambientais insustentáveis que acabam aumentando os impactos das secas. Então, o fenômeno da desertificação, do uso inadequado do solo para a agricultura… Tudo isso com o advento da seca e a mudança do clima que tende a tornar a seca um evento mais comum e mais intenso no futuro, pode aumentar a vulnerabilidade das populações. 

      Camila Ramos – A pesquisadora mencionou um tema relevante em sua fala, que é o manejo e uso do solo. A agricultura e pecuária extensiva, as queimadas, a degradação de florestas e a extração ilegal de madeiras são problemas persistentes no Brasil e causam consequências terríveis, alterando o clima e intensificando os desastres naturais de que falamos hoje.

      Mas essas discussões ficam para outro episódio. Por isso não deixe de acompanhar a série de podcast Escuta Clima. Ouça também os episódios anteriores, que estão disponíveis nessa mesma plataforma que você está nos ouvindo agora.

      Eu sou Camila Ramos. E este é o Escuta Clima. Um podcast sobre pesquisas relacionadas ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas. Este podcast é apoiado pelo Programa Mídia Ciência da FAPESP. Este projeto de jornalismo científico, está sendo desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Unicamp. E é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. Tem a supervisão científica da pesquisadora Simone Pallone de Figueiredo e jornalística da pesquisadora Susana Dias. A trilha sonora foi desenvolvida pelo Lucas Carrasco, que tem apoio do PIBIC, do CNPq. A edição do podcast é feita pelo Octávio Augusto Fonseca, da Rádio Unicamp, com apoio do Gustavo Campos, que tem suporte da bolsa SAE. A divulgação nas redes sociais é feita pela Helena Ansani Nogueira. A locução da vinheta é de Bruno Moraes. 

      25 min
    • #121 Série Casa de Orates – ep. 4 – Alerta de tsunami

      No quarto episódio do Casa de Orates, falamos sobre como a pandemia do novo coronavírus afetou e está afetando a nossa saúde mental. Os especialistas alertam para um tsunami de transtornos mentais decorrentes desse caos que estamos vivendo e que tem despertado inúmeros sentimentos difíceis de lidar, como medo, raiva, estresse e solidão.

      Além do medo da doença, a pandemia nos trouxe inúmeros desafios, como o trabalho remoto, a suspensão de aulas e de atividades presenciais, a deterioração da situação socioeconômica com perda do emprego ou redução de salário, entre muitos outros.

      Conversamos com Caio Maximino, professor de psicologia experimental da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, que integra o Núcleo de Estudos Psicossociais em Saúde da universidade, e com Rosana Onocko, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e coordenadora da residência multiprofissional em saúde mental.

      Eles falaram sobre os efeitos do distanciamento físico na saúde mental e deram dicas do que fazer se percebermos que a sobrecarga de emoções está nos afetando. Também lembraram dos profissionais que são mais afetados emocionalmente pela pandemia e explicaram as possíveis razões que levam algumas pessoas a furar a quarentena e a negar a relevância do coronavírus.

      Esse episódio contou com sonoras dos telejornais da TV Cultura, da TV Brasil, da Record e da Bandnews, e foram retiradas de seus canais no YouTube. Os depoimentos são de amigos e familiares, que contaram um pouco do que viveram durante a pandemia. 

      O episódio “Cientistas e filhos em tempos pandêmicos” citado neste programa está disponível em: <https://oxigenio.comciencia.br/104-tematico-cientistas-e-filhos-em-tempos-pandemicos/>. 

      Algumas sugestões de serviços de apoio psicológico são:

      • Página do Facebook Cuidando de você na pandemia, disponível em: <https://www.facebook.com/cuidandodevocenapandemia>
      • Humanidades 2020, vários psicólogos se uniram para construir um canal de atendimento aberto e direto. Os voluntários do projeto disponibilizam seus números de telefone e quem quiser ser atendido pode falar direto com eles por WhatsApp. Ana Luiza Novis, (21) 99609-9346, e a Laura Machado, (21) 98820-6989, são as psicólogas responsáveis.
      • Plantão Psicológico Online do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Atendimento em Psicologia da Universidade Metodista (NEPAP). Disponível em: <https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScg2WAK8OMqeZpamhTZgistWkz2bU5vpsciwI6p9cWorWzB3g/viewform>.
      • O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Disponível em: <https://www.cvv.org.br/>.
      • Créditos da imagem: Mark Harpur (@luckybeanz/Unsplash)

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        Roteiro

        ROBERTA BUENO: Oi. Antes de começar eu preciso dar um recado: nesse episódio, a gente vai tratar de temas sensíveis como luto e perda de pessoas queridas. Então, se você não se sente confortável com esses assuntos, talvez esse episódio não seja para você. 

        Manchetes

        Informação importante: a OMS acaba de declarar pandemia por causa do coronavírus! Quem tá acompanhando e tem mais informações é a editora internacional aquí da Band News, Beatriz Ferreti. Fala Beatriz!

        Olá, boa tarde! Estamos de volta com o Governo Agora. A Organização Mundial de Saúde declarou hoje pandemia do novo coronavírus. Segundo a a OMS, são mais de 118 mil casos da doença no mundo.

        O avanço do coronavírus pelo mundo fez a Organização Mundial da Saúde declarar a doença como pandemia. Segundo a OMS, o número de infectados, mortes e países atingidos deve aumentar…

        ANA AUGUSTA: No momento em que escutou esse anúncio, lá no dia 11 de março de 2020, você imaginou tudo o que viria pela frente? Eu, com certeza, não. Trabalho na Unicamp e, quando as atividades presenciais foram suspensas, um dia depois desse anúncio, eu até comentei com meus colegas “ah, dia 30 a gente tá de volta”. Eu tava tão otimista que naquela mesma semana ainda viajei pra despedida de solteira da Ane, aquela minha amiga que vocês conheceram no primeiro episódio da série. 

        ROBERTA BUENO: Hoje, quase onze meses depois, a gente sabe o que aconteceu. Na verdade, o que ainda tá acontecendo. Nossa vida virou de ponta-cabeça. Diminuímos os contatos sociais, começamos a usar máscaras, nossa casa virou lugar de trabalho, estudo, comida, descanso – tudo junto e misturado – redobramos os cuidados com a higiene – quem aí não se pegou lavando pacote de batata palha?

        ANA AUGUSTA: Sem falar na preocupação em ficar doente, de passar o vírus pra outra pessoa sem saber, a incerteza do que vai acontecer amanhã…. E pra piorar, uma crise política no meio da maior ameaça de saúde do século! É pra tirar qualquer um fora do eixo. Todo esse caos acabou nos trazendo muitos sentimentos difíceis de lidar, como medo, raiva, estresse, solidão… 

        ROBERTA BUENO: Especialistas alertam para um “tsunami” de problemas de saúde mental devido à pandemia de coronavírus. E sim, a gente sabe que tá todo mundo cansado de ouvir falar da pandemia. Quando planejamos a série Casa de Orates, esse episódio nem existia. Mas não tinha como deixar esse assunto de fora. Eu sou Roberta Bueno.

        ANA AUGUSTA: E eu sou Ana Augusta Xavier, e o programa de hoje é sobre o que a pandemia vem fazendo e ainda vai fazer com a nossa cabeça.

        ROSANA: As pessoas também têm diferenças, eu vou chamar assim, na sua capacidade de lidar com a adversidade, né. Tem pessoas que são mais fortes, tem pessoas que são mais flexíveis, tem pessoas que precisam de um mundo mais ordenado pra aguentar é… os trancos da vida, então cada um viveu a partir do que essa pessoa costuma viver, né, e muitas famílias se viram enfrentando desafios extras né, que são por exemplo, volta ao convívio de pais e filhos que já não conviviam, porque os filhos tinham saído de casa e voltaram, ou a situação socioeconômica muito deteriorada por causa da perda do emprego e da redução de salário de algumas pessoas, então de fato é… tratam-se de sofrimentos  que vem como de fora pra dentro, podemos dizer assim né, que não tem a ver com a forma da pessoa viver mas como é conviver com aquilo que de fato foi uma sobrecarga imensa né, pra todos nós, né, de alguma forma.

        ROBERTA BUENO: Essa que você ouviu é a Rosana Onocko, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e coordenadora da residência multiprofissional em saúde mental. Ela disse que todos nós estamos sobrecarregados na pandemia, mas, é claro, alguns mais sobrecarregados que outros. 

        ANA AUGUSTA: Como é o caso de muitas mulheres, que acumularam o home office, o cuidado das crianças que não estão indo pra escola, e os afazeres domésticos. Nós falamos um pouco sobre isso no episódio “Cientistas e filhos em tempos pandêmicos”. A gente vai deixar o link dele na descrição. 

        ROBERTA BUENO: E essa sobrecarga tem afetado até o nosso subconsciente. O Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez um estudo que avaliou sonhos de 67 pessoas antes e durante a pandemia.

        ANA AUGUSTA: Ao contarem os sonhos que tiveram durante a pandemia, as pessoas utilizaram mais palavras ligadas à “raiva” e à “tristeza”, e termos parecidos com “contaminação” e “limpeza”. Você também já sonhou que estava sem máscara no meio de uma multidão?

        ROBERTA BUENO: Para os pesquisadores, os sonhos podem ser um alerta de sofrimento mental durante períodos de estresse. E os sonhos durante a pandemia confirmaram isso, refletindo o medo da contaminação, as mudanças importantes na rotina e o distanciamento físico.

        ANA AUGUSTA: Caio Maximino é professor de psicologia experimental da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Ele integra o Núcleo de Estudos Psicossociais em Saúde da universidade. O seu grupo de pesquisa já estudava como o isolamento podia afetar comportamentos, mas trabalhava com modelos animais. Com a chegada da pandemia, o Caio e sua equipe resolveram expandir esse estudo para o comportamento humano.

        CAIO: Então surgiu a ideia da gente tentar entender um pouquinho melhor algumas dessas questões sobre a saúde mental nesse momento da pandemia, e aí a gente resolveu iniciar uma pesquisa sobre, sobre isso, né. 

        Tentar entender a relação entre o comportamento social, os elementos sociais e psicossociais e o funcionamento cerebral né. Se por um lado, as relações sociais, as relações interpessoais, a proximidade com os outros, os afetos, podem ser protetores, por outro, a sua ausência poderia ser uma coisa, que seria uma espécie de fator de risco pra uma série de transtornos.

        ROBERTA BUENO: O objetivo do estudo era avaliar se a solidão estaria relacionada com o aumento de casos de transtornos mentais na população.

        CAIO: Então, primeira coisa que a gente observou, que as pessoas que estavam em maior isolamento apresentavam maior sofrimento psicológico. Segundo, que isso era sim, em grande parte, explicado pela solidão, tá. Então pessoas que estavam mais, em maior isolamento, se sentiam mais solitárias e esse se sentir mais solitário produzia esse sofrimento psicológico.

        ANA AUGUSTA: E como diz o Caio, o isolamento social é muito complexo. Não dá pra negar que ele trouxe um impacto na saúde mental. Mas isso não significa que a saída seja romper o isolamento. 

        CAIO: O isolamento, ele é um isolamento físico, não precisa ser um isolamento social, que a sociabilidade está muito além das pessoas que estão do teu lado. E tentar buscar aquelas saídas que são, acima de tudo, saídas que não são individualizantes.

        Então, construir uma rede de solidariedade em que se possa conversar sobre essas questões, não é meramente buscar suporte social no sentido de conversar com os amigos, mas conversar com os amigos sobre isso, né? Amigos, família, etc. Pode ser um elemento fundamental.

        Saídas que não são, “preciso cuidar da minha saúde mental, então vou pra rave não sei aonde”. E evitar também essas falsas assimetrias. “Eu tô trabalhando”, enfim: a gente trabalhar com redes de solidariedade de apoio mútuo. Essas redes de solidariedade de apoio mútuo são: rede de atenção psicossocial por um lado, e as redes que você mesmo cria, que você mesmo constrói. Se não conseguiu criar, não conseguiu construir, não tem um problema, crie e constrói de novo. 

        DEPOIMENTO 1: Eu moro sozinha já, há muitos anos, e… e nunca imaginei que eu ia ter que ficar tanto tempo sozinha mesmo né, igual eu fiquei nessa quarentena, na minha casa. É… Lá em meados de março, quando a minha empresa estipulou o home office é… eu me vi tendo que fazer tudo sozinha em casa, que eu sempre tive alguma ajuda, ou eu comia fora, ou eu tinha o o .. uma ajuda de alguém pra arrumar a casa e eu de repente, como todo mundo, é… tive que fazer tudo sozinha. Então quando eu vi é.. eu tava ficando muito cansada a semana inteira é… no início eu tava indo bem, mas de repente eu percebi que eu comecei a ter insônia, que era uma coisa que eu nunca tinha tido na vida, eu sempre tive um sono muito bom e muito fácil e isso me levantou um pouquinho uma bandeira amarela assim, né, que que tá acontecendo. Aqueles encontros de Zoom né, ajudavam, com os amigos, então eu acabava tendo com quem compartilhar um pouco durante esses encontros mas no dia a dia eu não tinha. Não tinha aquela troca diária do trabalho, aquela troca diária com o pessoal da academia, então é… o dia a dia ficou muito complicado de compartilhar né, as coisas e as angústias que tavam surgindo naquela pandemia. E aí teve um momento é.. que eu resolvi encontrar algumas amigas que também moram sozinha, A gente passou dois dias juntas e no dia seguinte que eu cheguei em casa e dormi eu não tive insônia, e foi impressionante assim. É… eu nesse momento, é, eu entendi muito bem o valor do outro na nossa vida né, de quanto o outro, o social, o quanto ter uma companhia é importante pra pra gente né. E aí, teve um outro momento que foi foi bem bem crítico durante a pandemia que foi quando eu decidi me mudar. Eu morava num apartamento de quarto sala, e como eu ficava muito tempo em casa, tudo começou a me incomodar, então o calor começou a me incomodar, é… o espaço pequeno, pra ser um espaço de trabalho e casa, começou a me incomodar, e eu resolvi procurar um lugar maior. Só que dessa vez eu tive que fazer a mudança sozinha, não podia ter nenhuma ajuda né. Então é… eu resolvi fazer mesmo assim, achei que ia ser, ia tirar de letra, mas um dia antes da mudança eu vi que não era bem assim. Eu tive uma crise de ansiedade, eu eu tive uma crise de choro que só parou uma semana depois. Foi uma crise que eu não sabia o que fazer, de medo, de insegurança, e nesse momento eu não tive outra alternativa a não ser pedir ajuda. Aí eu pedi ajuda profissional né, com a minha terapeuta que me ajudou bastante nesse momento e pedi ajuda pros amigos, que acabaram se oferecendo e correndo um certo risco pra pra poder me ajudar nesse processo de mudança, e foi é… inexplicável a ajuda deles, o quanto foi bom pra mim a ajuda deles, que nao sei nem se eu conseguiria fazer sem eles, então mais uma vez eu que vi a importância do outro na nossa vida né. 

        ROBERTA BUENO: Para algumas pessoas, falar com os amigos e familiares pelo computador ou celular não resolve o problema. Falta o contato físico, o abraço, o olho no olho, o sorriso. E quando esses elementos faltam por muito tempo, a tristeza e a ansiedade vão crescendo.

        ANA AUGUSTA: Na minha conversa com a Rosana Onocko, eu perguntei quando a gente deve procurar ajuda profissional, como um psicólogo, pra nos ajudar a enfrentar a solidão e todos os sentimentos que surgiram durante a pandemia. 

        ROSANA: É, a linha divisória Ana é bem, bem tênue né, então eu diria assim, que a pessoa que tá sofrendo muito, na dúvida, procure algum espaço de ajuda porque aí o profissional que o receba vai conseguir orientar se se trata de iniciar um tratamento, ou se esse é simplesmente às vezes um espaço de desabafo, contenção, que a pessoa precisa, né.

        ANA AUGUSTA: Isso aconteceu comigo. Não dei conta de aguentar tudo sozinha e fui procurar ajuda durante a pandemia,  depois de quase dez anos sem acompanhamento psicológico.

        ROBERTA BUENO: E se você acompanha a gente, sabe que eu já fazia terapia antes da pandemia, porque contei um pouco da minha história no segundo episódio. A única diferença é que, por conta do distanciamento social, minhas sessões tão acontecendo de forma virtual. 

        ANA AUGUSTA: Os atendimentos virtuais são permitidos pelo Conselho Federal de Psicologia desde 2018, mas se popularizaram mesmo agora, com a pandemia. Vários canais de escuta e acolhimento psicológico online foram criados pra ajudar as pessoas a enfrentarem o período de isolamento e todas as suas consequências. 

        ROBERTA BUENO: A maioria desses serviços é gratuita, e a gente vai deixar o link de alguns deles na descrição do episódio, pra quem tiver interessado em buscar ajuda. A Rosana nos contou que o pessoal da Unicamp também se organizou pra oferecer espaços de apoio.

        ROSANA: Durante o tempo agora da pandemia aqui na Unicamp a gente construiu vários dispositivos de escuta e de acolhimento virtual,  eu sou do departamento de saúde coletiva né,  alguns desses é espaços de cuidado foram organizados conjuntamente com o pessoal do departamento da psiquiatria para os trabalhadores, especificamente para os trabalhadores do HC e do CAISM, e a gente, pela nossa residência também organizou um serviço telefônico, por ligações a cobrar, pras pessoas que estão em casa, ou esperando resultado de teste ou suspeitando que estavam com covid e tavam com muito medo e tal… e alguns desses atendimentos acabaram se desdobrando em atendimentos que ficaram ajudando as pessoas a transitar o processo do luto né, que também foi uma questão que apareceu muito.

        ANA AUGUSTA: O luto… Todos nós acabamos vivendo algum tipo de luto durante a pandemia. Mas o luto relacionado à perda de entes queridos foi ainda mais dolorido nesse tempo, já que os rituais de despedida mudaram. Os velórios foram reduzidos ou cancelados e muitos enterros aconteceram sem o acompanhamento dos familiares e amigos. 

        ROSANA: O Freud dizia que o luto era um trabalho, ele chamava assim “o trabalho do luto” então se ele usou a palavra trabalho é porque havia todo um processo a ser transitado pra que a gente possa aceitar né, a ideia de perder alguém ou algo muito querido. Ah, o mais grave claro sempre se deu sobre as pessoas que perderam seus seres queridos, mas teve também situações de luto de pessoas que perderam o emprego, que perderam vida social, que perderam rede de amigos, indiretamente essas são outras formas de luto. E e a sociedade, a cultura humana inventou todos esses rituais, vai variar, e agora depende das religiões, das crenças de cada pessoa, mas assim, em qualquer e toda sociedade humana você percebe que existem rituais para o luto, né, para se despedir dos entes queridos que morre, e essa tradição, essa possibilidade de suporte, de cuidado, que é comunitário, que é afetivo da rede de afetos de todas as pessoas se viu totalmente é… reduzido. Então a capacidade de nos apoiar, de construir conosco, a nossa resiliência pra atravessar essas experiências tão difíceis se viu muito diminuída.

        ROBERTA BUENO: Sozinhas e distantes, algumas pessoas começam a negar essa realidade da pandemia. Muitas, porque estão dominadas pelo medo. Já outras, usam a negação para justificar atos inconsequentes.

        ROSANA: É um tipo de reação ao medo, eu nego. Tem um perigo e eu o nego né. Mas aí quando eu nego eu não tomo os cuidados, então eu tô tirando do medo a sua única função útil, a única função útil do medo é ele me proteger, só fica muitas vezes, respostas mais maníacas, mais exageradas, então a gente tem visto festas, pessoas que parecem que estão em uma euforia, em uma alegria que você fala “do que que estão alegres?” quem pode estar tão alegre e ter tanta vontade de comemorar o quê? Por mais que você tenha tido sorte, a sua família não tenha perdido alguém, quem é capaz de tá muito feliz olhando ao redor e vendo quase 200 mil mortos, uma vacina que não se sabe quando vai chegar né, uma omissão das autoridades gritante, então assim, não é possível ser feliz nessas condições a não ser que seja uma reação meio maníaca, assim meio negadora.

        ANA AUGUSTA: E talvez seja por isso que tem muita gente furando a quarentena, fazendo festas clandestinas e aglomerações desnecessárias. E o pior, elas não se sentem culpadas por isso. Isso tá estampado na quantidade de postagens nas redes sociais, mostrando festas e viagens. Uma enxurrada de fotos e vídeos de pessoas se divertindo em plena pandemia.

        DEPOIMENTO 2: Eu sinto que sou um acúmulo sem válvula de escape e que, ao mesmo tempo que me sinto preenchido, não sei ao certo se tudo o que me transborda é necessariamente o que quero ou preciso.

        As redes sociais me perturbam demais ultimamente. Acho tudo muito fútil, mas vira e mexe to rolando a tl do Twitter ou do Facebook.. Evito ao máximo abrir o Instagram porque tenho a sensação de que tudo ali é fake ou que eu to vivendo numa realidade paralela. E que tá tudo bem ali não ser real, sabe? Aí minha distração tem sido jogar, fico horas refugiado em mundos que, pelo menos, eu sei que não são reais. Porque eu sei que não tô 100% mentalmente. Eu reconheço que qualquer passo em falso pode me jogar no limbo da depressão de novo. E eu não quero isso. Tanto que se estou assistindo uma live, por exemplo, e começam assuntos pesados, como hate, visões estereotipadas, atritos… Eu saio, é uma escolha. Então, prefiro não consumir pra me manter equilibrado. Eu tô tentando não consumir atritos, sabe? Não consumir ignorância, não consumir tragédias.. Eu sei que é errado pq é a realidade, mas no momento eu não tenho outros assuntos e outras maneiras de aliviar essa carga negativa. Não sei se tô errado, mas eu tô fazendo o possível pra ficar bem.. Peguei o costume de todo final de semana arrumar meu quarto, deixar limpo, sabe? Acho que isso renova o ambiente.. De tentar não dormir a tarde pra manter uma rotina de sono, ver o dia.. Isso também tem me ajudado. Então assim, eu to tentando me cuidar, sabe? Porque o pouco que conquistei nos últimos meses, o pouco de estabilidade que conquistei, não quero perder.

        ROSANA: Não tem um traço de cuidado né, de amorosidade, de compaixão, de empatia né, pelas pessoas que de fato tem que trabalhar, pelas pessoas por exemplo, da minha área da saúde estão esgotadas, as pessoas dos serviços de saúde estão exaustas né. Os governos têm dito que não tão conseguindo não vão conseguir agora na segunda reabrir leito porque não tem equipe. Conseguir o aparelho é fácil agora, o problema é conseguir equipe pra fazer aquilo funcionar, os seres humanos também que tem que trabalhar né.

        ROBERTA BUENO: No começo da pandemia, os profissionais da saúde estavam sendo tratados como heróis. Teve até uma campanha chamada “Aplausos na Janela”, que foi convocada nas redes sociais pra homenagear quem tá na linha de frente do combate à covid.

        ANA AUGUSTA: Hoje em dia, o esforço dessa classe parece não ser mais tão reconhecido. Pra Rosana, os profissionais da área médica vão ser os mais afetados mentalmente pela pandemia. Mas eles não serão os únicos. 

        ROSANA: Tem colegas nossos trabalhando pela saúde do trabalhador com a saúde mental das pessoas que trabalham nos cemitérios. É um trabalhador que geralmente é muito pouco olhado né, e… é aquele pedaço do trabalho que a gente não gosta de ver né. As pessoas que ficaram é… na linha de frente por exemplo, da limpeza, da faxina, do lixo, morrendo de medo na hora de pegar as coisas sabendo que nem sempre todo mundo tem tido cuidado de condicionar os resíduos. Então assim, eu acho que a gente tem que prestar muita atenção aos trabalhadores menos qualificados porque eles têm sido menos protegidos né, e e e às vezes são os mais esquecidos né, e são… os trabalhadores do transporte público, que não puderam parar, em momento algum, e que fica num ambiente às vezes, enfim, mais cheio de gente do que deveria estar.

        ROBERTA BUENO: Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, a FGV, com 613 agentes penitenciários espalhados pelo país mostrou a presença de profissionais despreparados e abalados emocionalmente para lidarem com a pandemia. 73% dos entrevistados relataram ter a saúde mental afetada neste cenário. 82% também informaram aumento de tensões e 87% conheceram algum colega que foi diagnosticado com a covid-19.

        ANA AUGUSTA: E as demandas desses trabalhadores que sofreram e continuam sofrendo muito, nem sempre vão aparecer nos serviços de saúde mental… 

        ROSANA: Algumas dessas questões vão aparecer nos serviços de atenção primária, vão aparecer nos cuidados, porque, se manifestam como exacerbações por exemplo de uma hipertensão, ou descontrole de um diabetes, uma dor inespecífica, ou transtornos do sono, ou transtorno de ansiedade mais leve que que acabam aparecendo na atenção primária porque são sintomas muito inespecíficos, então as pessoas nem sempre conseguem direcioná-las né para o campo da saúde mental, e aí haverá com com certeza uma sobrecarga da atenção primária e uma necessidade da atenção primária de tá também atenta e qualificada para poder fazer ou a assistência e o cuidado, ou o encaminhamento bem construído né, dessas pessoas.

        DEPOIMENTO 3: Eu sou agente penitenciária e durante todo esse período da covid-19 foi bem complicado, tanto no meu trabalho quanto pessoalmente. No meu trabalho nem tanto com o contato com os apenados, porque eu trabalho numa penitenciária masculina, porque a gente não tem contato tão próximo com eles, mas sim com os colegas, porque nós tiramos plantão de 24 horas, então a gente tem contato ahn… durante a alimentação no refeitório, nos alojamentos que nós dormimos, então fica bem complicado não estabelecer um contato tão próximo. Logo no início a gente tava bastante assustado, toda a equipe, quando principalmente surgiu um primeiro caso suspeito entre os colegas, porque a gente não sabia como manejar isso ahn… quem teve contato com esse colega, aí isolaria todos os colegas daquele plantão? Isso ficaria bem complicado pro serviço, já que também não são muitos agentes né, mas aquele caso era, deu negativo né, não era covid. E eu, agora no final do ano, contraí a covid, acredito que também que tenha sido no meu trabalho porque, logo depois que eu contraí eu fiquei sabendo que outros colegas, na mesma época tavam apresentando sintomas, e… essa doença, na verdade, além dela debilitar o nosso físico, ahn eu entendo que ela debilita também o nosso psicológico, porque, quando eu descobri que eu tava com a covid, eu fiquei muito nervosa de ter passado para os meus pais, principalmente, que estão no grupo de risco, mas não só eles né, mas todas as pessoas ali que eu convivi nos dias antes de eu ter certeza que eu estava né, depois do diagnóstico, então eu fiquei muito muito nervosa mesmo, porque eu não queria prejudicar ninguém. E a gente acaba sentindo uma culpa, como se de fato nós fossemos culpados por transmitir o vírus, e isso que eu, ahn, não fiz nenhuma aglomeração, não fiz festa no final de ano, durante todo esse ano eu só trabalhei mesmo porque, como meu trabalho é essencial digamos, é, segurança pública, ahn a gente não pode parar né, então eu não pude parar mesmo de trabalhar, mas só aí com certeza eu já tava me expondo bastante né. E não só quanto tu contrai a doença, mas sim durante todo o tempo né, que fica aquela angústia de será que eu vou pegar, será que eu não vou pegar? eu tô com sintoma, será que eu peguei? e bah, eu peguei e eu tava com fulano e fulano, meu deus, e se eu passei pras pessoas? 

        ROBERTA BUENO: Independentemente da profissão, todos nós estamos sentindo ou vamos sentir os impactos da pandemia na nossa saúde mental. Mas também é fato que ela trouxe à tona as desigualdades que vivemos no nosso país, de classe social, de gênero, de cor. Os mais vulneráveis, novamente, são os que sofrem mais. 

        ANA AUGUSTA: E como sociedade, precisaremos buscar maneiras que nos ajudem a curar todas as feridas que esse período nos deixou.

        ROSANA: Eu tenho pessoalmente insistido muito também, que nesse processo todo ter a articulação da saúde com a cultura. Em que sentido eu tô dizendo isso, é que acho que nem todas essas, esses é… reações que a gente vai ter precisarão necessariamente de tratamentos clínicos, ou de remédios, ou de intervenções clínicas mais específicas, mas sim precisarão de espaços de elaboração. Então nós vamos ter que poder criar muitos espaços culturais, no sentido não de entretenimento né, … não no sentido assim de uma cultura que eu digo, só da diversão, mas de espaços de elaboração, das pessoas poderem escrever, ler poesia, ver filmes, é, ter rodas de conversa, rodas de samba, o que seja, que permita que cada um de acordo a sua é… ao que lhe agrada mais em termos culturais e a suas, a suas origens, é, possa ter algum espaço do, onde junto com outras pessoas possa elaborar esse período tão tão tenebroso que a gente tá vivendo. 

        ROBERTA BUENO: Esse foi o quarto episódio do Casa de Orates. Ele foi apresentado por mim, Roberta Bueno, e pela Ana Augusta Xavier. Nós também participamos da produção, junto com o Rafael Revadam. 

        ANA AUGUSTA: As músicas usadas neste programa são da YouTube Audio Library e as sonoras dos telejornais são das emissoras TV Brasil, Record e Bandnews, e foram retiradas de seus canais no YouTube. A revisão do roteiro e a coordenação são da professora Simone Pallone, do Labjor/Unicamp, e os trabalhos técnicos de Rafael Revadam e Gustavo Campos. 

        ROBERTA BUENO: Este episódio teve depoimentos de amigos e familiares, que contaram um pouco do que viveram durante a pandemia. O jornalista Renan Oliveira fez a locução do segundo depoimento e os demais foram narrados pelos próprios personagens. Também falamos de serviços de escuta e acolhimento psicológico. Os links estão na descrição do programa.

        ANA AUGUSTA: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

        ROBERTA BUENO: Você pode deixar a sua opinião sobre este episódio comentando na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!

        29 min
      • #120 Leitura de fôlego ep. 3 – Capitu e suas herdeiras? Personagens femininas silenciadas

        Neste terceiro episódio da Série Leitura de Fôlego, Lúcia Granja, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, fala sobre sua pesquisa relacionada ao silenciamento da mulher em obras literárias brasileiras. Os autores estudados têm um perfil muito semelhante, são, em maioria, homens, brancos, e vivem no Rio de Janeiro e em São Paulo. Através de seus personagens homens, em geral os narradores das histórias que ao contarem sobre algum conflito pelo qual passam ou passaram, tentam omitir a voz da mulher em relação ao acontecimento narrado, sem muito sucesso. Lúcia vem estudando esse tema há quase 30 anos e neste podcast ela conta para a Laís Toledo, algumas passagens de obras importantes, e vai analisando justamente esse aspecto encontrado na literatura brasileira. 

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        Laís Toledo: Oi! Eu sou a Laís Toledo, e esse é um episódio da “Leitura de fôlego”, uma série sobre Literatura pro Oxigênio.

        Laís: Um homem e uma mulher formam um casal. Por algum motivo, acontece um conflito entre eles, e esse relacionamento acaba. O homem, depois, resolve contar esse conflito. Com isso, ele procura dar um novo significado pra própria vida e, ao mesmo tempo, silenciar, omitir, a voz da mulher em relação ao que aconteceu entre os dois. Mas, de alguma forma, a voz dessa mulher consegue escapar e aparecer na história… A Lúcia Granja, que conversa com a gente nesse episódio, percebeu que esse modelo de narrativa se repete em algumas importantes obras literárias brasileiras. Partindo do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, a nossa conversa passa por Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Raduan Nassar até chegar a um escritor contemporâneo, o Marcelo Mirisola. A Lúcia é professora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL da Unicamp. Ela pesquisa principalmente a obra do Machado de Assis; em especial, as crônicas desse escritor e as relações entre Literatura e Jornalismo na produção dele. 

        Laís: A Lúcia propõe essa análise sobre o silenciamento feminino como uma linha de força na ficção brasileira. Ou seja, como um tema recorrente. Ela desenvolveu essa análise a partir do conhecimento que tem sobre o Machado de Assis e a partir também de pesquisas didáticas que ela vem fazendo há quase 30 anos para oferecer disciplinas, na universidade, sobre Literatura brasileira. Pra começar a conversa, então, eu pedi pra Lúcia explicar essa leitura que ela faz.      

        Lúcia Granja: Eu acabei percebendo que existe pelo menos um modelo inicial que vai se desdobrar no século XX em termos de romance:  um homem que narra o conflito amoroso (um homem, portanto, que é um narrador personagem), que, depois de ter vivido uma situação traumática de conflito amoroso, vai falar desse conflito e isso seria o romance. Portanto, é um romance autobiográfico. E, nesse caso, existe um processo duplo, que é o processo de silenciamento da mulher, que é o par amoroso desse homem, mas às vezes essa mulher, de alguma maneira, ela recupera um espaço de fala dentro desse relato, que seria o relato unilateral de um homem. Isso vai se transformando ao longo do século XX e vai mudando de romance para romance. 

        Laís: Para essa análise, a Lúcia selecionou alguns romances, entre outros que poderiam ser incluídos nesse modelo. Eu pedi pra ela comentar sobre essas escolhas.

        Lúcia: Eu pensei em Dom Casmurro como um paradigma de início, porque Dom Casmurro inaugura o século XX. Dom Casmurro chegou ao Brasil em janeiro de 1900, embora ele tenha sido publicado em 1899 pelos editores Garnier em Paris, ele chegou ao Rio de Janeiro em janeiro de 1900. Então, a partir de Dom Casmurro, o paradigma se estende pra Graciliano Ramos, São Bernardo, depois, de uma maneira muito mais complexa, Grande Sertão: Veredas, mais tarde, Um copo de cólera e, depois, eu acabei abrindo para um romance absolutamente contemporâneo, de um escritor que se chama Marcelo Mirisola, e que se chama Hosana na sarjeta, o romance. Então, a ideia é, na realidade, falar desse silenciamento feminino e de como isso, no conflito amoroso, cria uma linha de narrativas dentro da Literatura brasileira. Então, acho que uma linha de força, porque nós estamos diante de narradores homens que narram o conflito amoroso. E por que que é o homem que narra o conflito amoroso? 

        Lúcia: Aí eu vou pra um dado empírico que é o seguinte. Tem uma professora da UnB que tem feito muita pesquisa sobre quem são os escritores brasileiros. Essa professora é a Regina Dalcastagné. Ela tem feito uma pesquisa extensiva, de romances entre 1990 e 2004. Na verdade, eu estou com dados um pouco antigos da pesquisa dela, porque a pesquisa continuou, mas eu acho que as porcentagens não mudaram muito, não. E a pesquisa que ela fez mostra que os autores brasileiros (eu acho que não só brasileiros, mas ela está focada nos brasileiros) são na maioria brancos (90%), homens (70%) e a maioria deles mora no Rio de Janeiro e em São Paulo (arredondando 50% no RJ e 20% em SP), desses que são homens e brancos, que daria 70%.

        Laís: Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè, eu vou deixar na descrição do episódio o link de uma entrevista que ela deu em 2018 para a Revista Cult, chamada “Quem é e sobre o que escreve o autor brasileiro”. Bom, mas voltando para o tema do episódio, a Lúcia partiu desses dados sobre o perfil do escritor brasileiro – homem, branco e do eixo Rio-São Paulo – para desenvolver a sua análise.

        Lúcia: É um dado muito interessante da Literatura contemporânea, mas que não pertence apenas à Literatura contemporânea. Quer dizer, a adoção do ponto de vista masculino por esse narrador que narra o conflito amoroso tem por detrás a própria autoria masculina. Então, foi pensando nisso também que a pesquisa dela me deu forças para acreditar que existe uma relação entre essas duas coisas, entre autoria, entre criação de um relato ficcional autobiográfico e a projeção, dentro desse relato, de dados da nossa sociedade, que são dados evidentes. A nossa sociedade é uma sociedade onde a organização privada da família foi estruturada à moda paternalista, de maneira paternalista, onde existe um chefe de família que é responsável, que se dedica a, enfim, organizar tudo que acontece dentro dessa família, com dominação. Então, aí também evidentemente, além da dominação que submete os dependentes, existe uma dominação masculina, que impera no seio da família. E de uma certa maneira, dentro das relações entre homem e mulher, por mais que elas tenham mudado ao longo do tempo.   

        Laís: Pra gente entender um pouco melhor como essas personagens femininas são silenciadas (e também como as vozes delas acabam aparecendo de alguma maneira), eu pedi pra Lúcia começar apresentando o caso de Dom Casmurro, do Machado de Assis. Nesse episódio, a gente vai falar um pouco mais sobre esse romance e, depois, passar mais rápido pelas variações desse modelo de narrativa nas outras obras selecionadas pela Lúcia.

        Laís: O enredo de Dom Casmurro é bastante conhecido, mas, só pra lembrar rapidinho: o livro é narrado por um homem, o Bento Santiago (também chamado de Bentinho ou Dom Casmurro), que, quando já está mais velho, resolve escrever sobre a própria vida. Ele fala das dificuldades que teve para se casar com a sua vizinha Capitolina, a Capitu. E, depois do casamento, ele acha o próprio filho muito parecido com seu melhor amigo e desconfia que a Capitu o tenha traído.

        Lúcia: Em Dom Casmurro, o que que acontece? Os ciúmes crescentes do Bentinho, não vamos aqui discutir, porque seria longo demais, a culpa da Capitu, se a Capitu traiu ou não traiu o Bentinho, mas os ciúmes crescentes, quer a Capitu tenha traído ou não, levam-no a tomar decisões unilaterais. Isso que eu acho que é o mais importante dentro dessa questão do silêncio e do silenciamento.

        Laís: Então, vamos ver mais de perto o momento em que o Bentinho comunica para Capitu essa decisão unilateral dele, a decisão de colocar um fim no relacionamento, exilando a Capitu na Europa. Essa cena aparece no capítulo 138 do livro, chamado “Capitu que entra”. 

        Lúcia: É um momento crucial em que ele já está decidido a acabar com aquilo. Bom, ele tinha tentado dar café envenenado pro filho, ele mesmo estava pensando em ingerir aquele veneno que ele havia comprado no dia anterior, mas tem um lance muito interessante, que ele vai dizer assim pra gente:

        Dom Casmurro (narrador): Quando levantei a cabeça, dei com a figura de Capitu diante de mim. Eis aí outro lance, que parecerá de teatro… 

        Lúcia: Essa cena toda que vai se passar entre eles é muito teatral. Aí, ele vai dizer, a Capitu queria saber o que que estava acontecendo, tinha um conflito ali, a criança estava chorando. Aparentemente, ela foi atraída pro escritório do Bentinho pelo choro do filho, e ele vai dizer assim, o Bentinho, narrador, narrando seu conflito amoroso:

        Dom Casmurro (narrador): Desta vez ao dar com ela, não sei se era dos meus olhos, mas Capitu pareceu-me lívida. Seguiu-se um daqueles silêncios, a que, sem mentir, se podem chamar de um século, tal é a extensão do tempo nas grandes crises.

         

        Lúcia: Quer dizer, o silêncio é a expressão da crise pro Bentinho. E aí ele continua:

        Dom Casmurro (narrador): Capitu recompôs-se, disse ao filho que fosse embora, e pediu-me que lhe explicasse…

        Bentinho (personagem): Não há o que explicar. 

        Capitu: Há tudo; não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. Que houve entre vocês?

        Laís: Ezequiel é o nome do filho deles; nome que foi escolhido em homenagem ao melhor amigo do Bentinho, que se chamava Ezequiel Escobar.

        Lúcia: Aí, então, o Bentinho vai perguntar se ela não ouvira o que ele disse, e ela vai responder que ouviu justamente o choro, rumor de palavras, tal, e o Bentinho vai finalmente jogar na cara dela que acha que o Ezequiel não é seu filho. Aí vem essa parte bem teatral da cena: 

        Dom Casmurro (narrador): Grande foi a estupefação de Capitu, e não menor a indignação que lhe sucedeu, tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro […]. Mas, haja ou não testemunhas alugadas, a minha era verdadeira; a própria natureza jurava por si, e eu não queria duvidar dela. 

        Lúcia: Ele está falando da semelhança que ele alega existir entre o Ezequiel e o Escobar. 

        Dom Casmurro (narrador): Assim que, sem atender a linguagem de Capitu, aos seus gestos, à dor que a retorcia, a coisa nenhuma, repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar.

        Lúcia: Então sem atender a toda aquela expressão da Capitu, que era uma expressão muito teatral: a linguagem, os gestos, a dor que a retorcia. Então, ela está falando, ela está se mexendo, ela está se contorcendo de dor. Quer dizer, tem uma expressão da Capitu por todos os meios, ele apenas repete “Ezequiel não é meu filho”. E aí, justamente, quando a Capitu consegue se recompor, ela vai lhe perguntar o que é que lhe deu tal ideia.

        apitu: Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande, Bentinho, fale! Fale! Despeça-me daqui, mas diga tudo primeiro. 

        Bentinho (personagem): Há coisas que não se dizem.

        Capitu: Que se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.

        Dom Casmurro (narrador): Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.

        Capitu: Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais!

        Bentinho (personagem): A separação é coisa decidida. […] Era melhor que a fizéssemos por meias-palavras ou em silêncio; cada um iria com a sua ferida.

        Lúcia: Da parte dele, ele quer resolver tudo em silêncio. Nem que os gestos dela, que a dor dela, que as palavras, que o que ela diz naquele momento, seja grande, seja expressivo, no momento mais dramático da relação deles, ele fica em silêncio e diz isso pra ela: “a separação é coisa decidida, e há coisas que não se dizem” e ela vai dizer “que não se dizem pela metade”. Mas o que que acontece? Embora ela exija dele a explicação, essa explicação não vem. Ou vem por meias-palavras, como ele mesmo vai dizer depois. Significa que o silêncio dele impõe à Capitu um silenciamento. E a separação é coisa decidida, mas não é só a separação que era coisa decidida, a forma da separação também era coisa decidida. Ele exila a Capitu. A Capitu vai morar na Suíça, ele finge para os contemporâneos dele que ele vai todos os anos à Europa ver a família, e não. Quer dizer, existe, na verdade, tanto uma atitude e uma decisão unilateral dele e que ele impõe da forma mais silenciosa possível quanto a condenação ao exílio que ele também promove em relação à Capitu e ao filho que ele supõe que não seja dele.

        Laís: Então, quando o Bentinho se nega a conversar com a Capitu sobre a suposta traição dela e já decide como vai ser a separação dos dois, como se dissesse “esse caso não é da sua conta”, ele estava silenciando a Capitu; ou seja, o silêncio dele impediu que ela se manifestasse naquela situação de crise no relacionamento deles… Ah, acho que é bom comentar que narrador e autor são coisas diferentes. Quer dizer, essa situação de silenciamento feminino não significa que o Machado (ou os outros autores que também vão aparecer no episódio) estivesse automaticamente defendendo uma sociedade patriarcal; ele estava falando dessa sociedade. E eu acho que é até possível dizer que essa situação foi criticada, já que, apesar do silenciamento imposto com sucesso nessa cena do capítulo 138, a Capitu, ao longo do livro, aparece de forma inclusive poderosa, nas dúvidas que o Bentinho narrador deixa escapar, quando se lembra do seu passado e conta a sua história. Ele – que decidiu, sozinho, exilar a Capitu – parece querer convencer o leitor de que foi traído, mas, ao mesmo tempo, parece que ele quer convencer a si próprio de que tomou a decisão correta. Através dessas dúvidas de um velho deprimido, casmurro, é como se a voz, a versão da Capitu aparecesse no romance. 

        Laís: Bom, acho que deu para ter uma ideia da leitura da Lúcia sobre a questão do silenciamento feminino em Dom Casmurro, o romance que ela escolheu como um ponto de partida para observar essa questão, que aparece e reaparece na Literatura brasileira. Agora, vamos avançar uns 30 anos e ver o caso de São Bernardo, um romance do Graciliano Ramos, publicado pela primeira vez em 1934. Esse livro é narrado pelo Paulo Honório, que, assim como Bentinho, quando está mais velho, escreve um livro sobre sua própria história. Ele conta as dificuldades que passou na vida e os meios (até ilegais e violentos) que ele usou para comprar a sua fazenda, chamada justamente São Bernardo. O Paulo Honório conta também sobre o seu casamento com a Madalena. Ela seria a mulher silenciada nessa narrativa.  

        Lúcia: Em São Bernardo, nós vamos ter uma comunicação explícita com a forma de Dom Casmurro. Então, esse narrador atormentado, que conta, que faz uma autobiografia, porque ele precisa aprender alguma coisa a respeito da história dele por meio daquela autobiografia. E ali ele vai mostrar como, de novo, o ciúme e, na verdade, o machismo dele foram protagonistas no silenciamento progressivo que ele impôs à Madalena, do qual ela sai, não como a Capitu, de uma forma submissa, mas ela sai pelo suicídio. Quer dizer, ela impõe-se um silenciamento que é um silenciamento que não pode calar, porque, depois que uma pessoa se suicida, a gente tem que falar sobre aquilo, sobretudo se esse sujeito está no centro da atitude que a Madalena tomou. Então, ela vive uma relação com ele, ele é um fazendeiro, controlador, dentro desse esquema patriarcal da sociedade brasileira, e com atitudes paternalistas em relação à mulher e à família, e ele vai impor, então, esse silenciamento a ela, por meio da opressão. O Bentinho vai ficando deprimido, ele não, ele se torna muito agressivo, ele oprime realmente.

        Laís: Agora, vamos avançar mais um pouco no tempo, para 1956, quando o João Guimarães Rosa publicou o livro Grande Sertão: Veredas, narrado pelo ex-jagunço Riobaldo. Esse personagem conta a história da sua vida para um senhor e fala bastante sobre o amor que sentia por outro jagunço, chamado Diadorim. Mas, perto do fim do livro, o Riobaldo revela para esse senhor que o Diadorim era, na verdade, uma mulher. O Riobaldo só descobre isso depois da morte do Diadorim, e o leitor só vai ficar sabendo disso no final do livro.

         Lúcia: Depois um outro narrador que vai fazer um relato autobiográfico para tentar ressignificar a sua vida é o próprio Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas. Ali, qual que é a questão? Tem várias questões ligadas ao silenciamento nesse romance. Primeiro, o amor deles em vida, dele e do Diadorim, que, na verdade, era Diadorina, ele ficou não dito, ficou não expresso, não realizado, ele ficou silenciado. Pelo menos é o que ele conta pra gente no fim.

        Laís: Bom, essa é uma questão relacionada ao silenciamento nesse livro, mas a Lúcia destacou outros pontos. 

        Lúcia: Depois, a gente vê que o silenciamento é muito mais complexo, porque ele é um silenciamento da própria mulher, por vontade do pai da Diadorina, que era o Joca Ramiro, e por obediência dessa filha ao pai. Não se sabe se só por obediência da filha ao pai ou se realmente por uma vontade de adotar uma identidade masculina. Então, a gente tem ali o silenciamento da mulher que já foi praticado, depois, o silenciamento dessa mulher dentro de uma vida inteira como jagunça e o silenciamento da relação amorosa dos dois que só vai se revelar com a descoberta da verdadeira identidade de gênero dela, depois da morte. Então, é um caso bastante complexo também. A gente pode talvez dizer que tudo fica circunscrito ao não dito. As coisas acontecem de maneira que jamais elas são explicitamente declaradas, nem mesmo a própria identidade da pessoa numa relação tão próxima, como a Diadorina tem, e o Diadorim, portanto, tem com o Riobaldo; e depois o que acontece é que essa relação é totalmente sufocada. Daí o relato de 600 páginas, que equivaleria a um relato de 3 dias, em que ele tenta, como narrador masculino fazendo um relato autobiográfico, colocar em ordem a vida e a cabeça dele.

        Laís: O Grande Sertão: Veredas, como a Lúcia disse, é um romance longo e a sua leitura não é simples. A linguagem do livro é experimental, o enredo é cheio de personagens, e não segue uma ordem linear, ele segue uma ordem da memória. A própria questão do silêncio e do silenciamento é mais complexa nesse caso e poderia ser desdobrada. Mas agora vamos passar para o penúltimo livro que será comentado neste episódio, um livro bem mais curto, com cerca de 80 páginas: Um copo de cólera, do Raduan Nassar. Um copo de cólera é uma novela, o que, dizendo de forma simples, é um tipo de texto maior que um conto e menor que um romance. Ele foi publicado pela primeira vez em 1978 e é centrado no relato de um encontro e de uma briga de um casal.

        Lúcia: No Copo de cólera, existe um esquema aparentemente cíclico, são 7 capítulos e esses 7 capítulos formariam um ciclo de vida. Se a gente for ver, tem uma relação com o Gênesis, com cada dia da criação. E no sétimo dia aparece a voz da mulher. Quer dizer, esse ciclo é ao mesmo tempo fechado e interrompido, porque a mulher retoma a palavra no sétimo capítulo. Tudo que é contado no primeiro capítulo, e a história que se desenrola durante os seis capítulos contados pela voz masculina (que também está ressignificando aquela relação e contando na primeira pessoa), no sétimo capítulo vai, aparentemente, ser recontado pela voz feminina. Então, ela vai justamente recontando tudo o que a cena inicial do primeiro capítulo, ela aparece refeita pelo ponto de vista feminino no sétimo capítulo. É exatamente a mesma cena; inclusive, os dois capítulos chamam “A chegada”. Então a gente vê aí que a mulher toma ativamente a voz no romance. A ela é concedida pelo homem, mas ela toma a voz no romance. Esse homem é uma espécie de criador, como uma espécie de deus da criação, só que a mulher fala de maneira ativa no sétimo dia.

        Laís: Vamos ouvir aqui o comecinho do primeiro capítulo, “A chegada”, que seria a versão do homem, o narrador principal da história. A edição citada aqui foi publicada pela Companhia das Letras.

        Um copo de cólera (homem): E quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão pra que eu entrasse com o carro, e logo que saí da garagem subimos juntos a escada pro terraço, e assim que entramos nele abri as cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com nossos olhos voltados pro alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e só foi mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?”…

        Laís: Agora, vamos ouvir o comecinho do sétimo capítulo, que também se chama “A chegada”, mas que seria a versão feminina da história. Percebam as diferenças entre cada versão:

        Um copo de cólera (mulher): E quando cheguei na casa dele lá no 27, estranhei que o portão estivesse ainda aberto, pois a tarde, fronteiriça, já avançava com o escuro, notando, ao descer do carro, uma atmosfera precoce se instalando entre os arbustos, me impressionando um pouco a gravidade negra e erecta dos ciprestes, e ali ao pé da escada notei também que a porta do terraço se encontrava escancarada, o que poderia parecer mais um sinal, redundante, quase ostensivo, de que ele estava à minha espera, embora o expediente servisse antes pra me lembrar que eu, mesmo atrasada, sempre viria, incapaz de dispensar as recompensas da visita, e eu de fato, pensativa, subi até o patamar no alto…

        Laís: O homem diz que o sol estava se pondo. A mulher fala que a tarde já estava escura. Ele conta que, quando chegou, era aguardado pela mulher. Já ela diz que ele que estava à espera dela. Nesse trechinho, já dá pra perceber algumas diferenças entre as versões, as vozes, de cada um… Bom, mas vamos ver agora a situação do último livro comentado pela Lúcia. É um romance de 2014, Hosana na Sarjeta, escrito pelo Marcelo Mirisola.

        Lúcia: Em Hosana na Sarjeta também uma relação amorosa com um sujeito muito complicado leva uma mulher ao suicídio, que é a Paulinha. Paulinha Denise. E a voz da Paulinha Denise é introduzida novamente no romance. A voz que, na verdade, ela não teve, que tudo foi contado pelo ponto de vista masculino e de uma forma bastante preconceituosa, cheia de julgamentos, mas, ao mesmo tempo, como uma pretensa forma de declarar que houve realmente um envolvimento amoroso entre esse narrador e a Paula Denise, que é uma mulher totalmente diferente dele. Ele é um escritor e ela é uma menina da periferia de São Paulo. E daí todos os preconceitos, ela seria brega, ela não seria instruída, mas, de qualquer maneira, houve uma relação verdadeira entre eles, segundo o que ele tenta narrar. A voz dela volta por um bilhete de suicídio. E esse bilhete de suicídio passa a ser um núcleo muito importante, um núcleo inclusive de transformação e de mudança do teor de reflexão desse sujeito dentro do romance.

        Laís: Essas narrativas têm uma “moldura” parecida, são todas histórias em que um narrador homem conta o seu conflito amoroso, tentando silenciar a voz feminina, mas as vozes das mulheres conseguem escapar e aparecer na narrativa, cada uma de uma forma diferente.

        Lúcia: Logicamente que esses romances que eu elegi não são os únicos. São romances em que eu reuni justamente o que eu chamei de uma linha de força dentro da Literatura brasileira, que é esse problema do homem que narra e que tenta ressignificar a sua vida e silenciar a mulher. A voz da mulher escapa e entra nessas narrativas. Ou pelas dúvidas do Bentinho, ou também porque o Paulo Honório está atormentado, ou pela revelação final e pelo tormento que o Riobaldo vai passar pelo resto da vida, ou retomando a narrativa, ou por meio de bilhetes, de carta suicida, como é a da Madalena. Quer dizer, a voz da mulher reaparece, ela entra, ela encontra espaço, no relato desse narrador masculino.  

        Laís: O silêncio do fim desse episódio está chegando, mas espero que essa conversa continue ecoando por aí. Você se lembra de mais algum livro que segue esse modelo? Ou de algum que apresenta essa questão do silenciamento a partir de outra perspectiva? Deixa um comentário pra gente. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter também, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

        Laís: O roteiro e a narração desse episódio foram feitos por mim, Laís Toledo. Os trabalhos técnicos foram feitos pelo Gustavo Campos e pelo Octávio Augusto, da rádio Unicamp. A edição do roteiro e a coordenação do Oxigênio são da Simone Pallone. As vozes dos personagens dos livros, na ordem em que aparecem, são de Oscar Freitas Neto, Bruna Alves Schievano e Diogo Rossi Ambiel Facini. Até o próximo “Leitura de Fôlego”! 

        Link para a matéria da Revista Cult (2018) “Quem é e sobre o que escreve o autor brasileiro”, com entrevista da professora Regina Dalcastagnè:

        https://revistacult.uol.com.br/home/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autor-brasileiro/ 

         

        Créditos de som:

        “Calisson”, Confectionery.

        “Minutes”, Pacha Faro.

        “Lobo Lobo”, El Baul.

        “Haena”, Cloud Harbor.

        “Min”, Sketchbook 2.

        “Milkwood”, The Cabinetmaker.

        “Lemon and Melon”, Onesuch Village.

         

        Todos do Blue Dot Studios (https://www.sessions.blue/)

        32 min
      • #119 – Escuta Clima – Ep 3: Vulnerabilidade: desigualdade social e estruturas urbanas

        A alteração climática tem um forte componente que é a ação humana e que afeta direta e indiretamente sua própria espécie. No entanto, a forma que cada pessoa é atingida pelos desastres naturais causados e intensificados pelo aquecimento global é muito diferente. A vulnerabilidade é um fator determinado pela desigualdade social e isso fica claro ao analisar as estruturas urbanas, um fator decisivo para indicar se o indivíduo vai sobreviver ou não em um evento extremo. Essa é a primeira parte do tema Vulnerabilidade Humana frente às Mudanças Climáticas.

        A série Escuta Clima é produzida pela Camila Ramos e está ligada ao curso de Especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Unicamp. O projeto tem o objetivo de divulgar as pesquisas e pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas (INCT-MC) e é apoiado pela bolsa Mídia Ciência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

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        Camila Ramos – “Twister”, “O dia depois de amanhã”, “O impossível”, “2012”. Você já assistiu algum desses filmes que retratam desastres naturais? É um tema que Hollywood adora e não vou negar que também amo esses filmes. Prendo a respiração nas cenas tensas e até choro nas cenas dramáticas. Mas morro de rir com a falta de realismo e com os efeitos especiais de qualidade questionável.

        Se no cinema esses eventos extremos provocam emoções que vão da tristeza ao riso, no mundo real a situação é um pouco diferente. Furacões e tornados, terremotos e tsunamis e erupções vulcânicas acontecem de uma forma muito mais cruel, triste e devastadora que na ficção.

        Você consegue se lembrar de algum exemplo de desastre que tenha ocorrido realmente? Para mim, os tsunamis que atingiram a Indonésia em 2004 e o Japão em 2011 foram os mais marcantes. Mas ao longo dos meus vinte e quatro anos, muitos desses eventos ocorreram, causando perdas humanas e materiais principalmente em localidades mais empobrecidas.

        E saiba que a perspectiva pro futuro não é nada boa nesse sentido. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas de 2014 indica que os eventos extremos de ordem climática estão ficando cada vez mais intensos e mais frequentes. E o principal motivo é o aquecimento global. 

        Esses desastres causam muitos danos ao meio ambiente, às estruturas urbanas e, principalmente, levam milhões de pessoas à morte ou à situação de fragilidade. 

        Sabemos que uma parcela da população é muito mais vulnerável que outros grupos. E isso é provocado, principalmente, pela desigualdade social. Por isso, dependendo da localidade em que os eventos extremos ocorrem, o impacto para a população e para a economia são muito diferentes. Por exemplo, no Brasil, a cada 100 habitantes de uma cidade, nove vivem em áreas de risco. Esse dado é de uma pesquisa feita pela Regina Alvalá, que é uma das entrevistadas do episódio de hoje. Ela é pesquisadora e coordenadora de Relações Institucionais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o CEMADEN.

        Outra pessoa que vamos ouvir é o Alberto Najar, que é sociólogo e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz.

        Eu conversei também com a Gabriela Couto, doutoranda do Centro de Ciência dos Sistemas Terrestres do INPE e pesquisadora associada do Cemaden.

        Eu sou Camila Ramos e você está ouvindo o Escuta Clima. Um podcast para divulgar as pesquisas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas. É vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, e é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas.

        [Vinheta do podcast Escuta Clima]

        Camila Ramos – É muito comum ouvir o termo desastre natural, seja pela mídia, na política ou em conversas do dia a dia. Mas nem sempre o termo correto é este. Isso porque há uma diferença entre desastre natural e risco natural. Como diz a Regina: 

        Regina Alvalá – Risco é uma possibilidade de dano, não significa desastre. O desastre é um risco que se concretizou, sendo que sua intensidade depende de condições de vulnerabilidade e interação com as ameaças.

        Camila Ramos – Para ficar mais claro do que estamos tratando, vamos lembrar de um desses eventos. O vulcão Etna, que fica na Sicília, na Itália, é um dos mais ativos do mundo e no seu entorno há diversas cidades. Então, os habitantes dessas cidades e vilas estão constantemente sob a ameaça de uma erupção vulcânica e existe a possibilidade desse evento causar danos materiais e perdas de vidas. Consequentemente, esses moradores vivem sob o risco de um evento natural.

        Caso o vulcão Etna entre em erupção de fato e cause danos, perdas de vidas e se a comunidade tiver que parar suas atividades para lidar com esse cenário devastado, isso configura um desastre.

        No Brasil, ameaças de enchentes e secas são as mais comuns e as mais preocupantes e que, muitas vezes, se concretizam em desastres. Mas a maneira com que cada cidadão sente o risco e é atingido pelos desastres é bem diferente. Essa diferença é medida pela vulnerabilidade, que está intimamente ligada à desigualdade social.

        O Alberto Najar conta um pouco sobre esse conceito:

        Alberto Najar – O indivíduo vulnerável é aquele que poderá sofrer danos, mas não necessariamente. Porém, ele é mais suscetível. E por quê? Porque uma vez que possui desvantagens socioespaciais, não alcança patamares mais elevados de qualidade de vida em função de sua condição fragilizada. Portanto, risco e vulnerabilidade são conceitos que só podem ser entendidos associados a diferentes contextos históricos e sociais. Podemos, portanto, assumir que risco é uma condição da sociedade contemporânea e vulnerabilidade, uma condição dos indivíduos inseridos nesta sociedade.

        Camila Ramos – A vulnerabilidade é medida por meio das condições de moradia, renda e, até mesmo, por características pessoais como idade, cor da pele e gênero. Vamos falar desses aspectos no próximo episódio. Então não deixe de conferir!

        Mas agora, precisamos entender porque as estruturas das cidades favorecerem umas pessoas enquanto deixam tantas outras em situação de risco.

        O Brasil tem uma grande quantidade de cidades pequenas. No entanto, uma boa parte da população está concentrada nas capitais e nas regiões metropolitanas. 

        Vejamos alguns dados sobre isso. Segundo um levantamento deste ano do IBGE, 22% dos habitantes estão concentrados em apenas 17 municípios. O que dá mais ou menos 46 milhões de pessoas. Isso é mais que toda a população do Canadá. Aliás, temos hoje 49 municípios com mais de 500 mil moradores.

        Regina Alvalá – Portanto, o Brasil se caracteriza por um crescimento urbano desordenado e a urbanização, muitas vezes, ocorre sem a disponibilidade dos serviços essenciais, bem como por migrações internas.

        Camila Ramos – É bem isso que a Regina falou. No Brasil, apenas 53% da população têm acesso a coleta e tratamento de esgoto. Mais de 39 milhões de pessoas não têm abastecimento de água e mais de 17 milhões não dispõem de coleta de lixo, como mostram os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2018. Sobre eles a Regina comenta:

        Regina Alvalá – Há uma grande concentração de população nas capitais, grande contingente de pessoas vivendo em periferias, o que implica em demanda não somente de políticas de redução de pobreza, mas também de políticas de habitação, de saneamento básico, de aprimoramento no setor de transportes, entre outros. Uma vez que as cidades e a sociedade em geral podem ser significativamente impactadas em razão do aumento de eventos extremos de clima. Como os níveis de risco aumentando em razão de fatores como as alterações climáticas, pobreza, falhas de planejamento e gestão do ordenamento territorial, degradação dos ecossistemas e ainda mais recentemente, com os impactos da pandemia afetando as populações mais carentes, o risco de desastre representa um grande desafio à capacidade humana de se proteger e resistir. 

        Camila Ramos – Ou seja, a ocupação muito desigual do espaço, a questão da renda e a desigualdade social estão sempre no cerne dos maiores impactos dos eventos climáticos e mesmo de outros eventos, como estamos vendo atualmente as consequências da pandemia de Covid-19. Os mais pobres são sempre os que mais sofrem. 

        A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE de 2019 mostrou que mais de 13 milhões de pessoas viviam em condições de extrema pobreza no Brasil em 2018. As pessoas tinham uma renda de até 145 reais por mês. Você consegue imaginar como é possível sobreviver só com esse dinheiro?

        O Alberto fala um pouco sobre essa questão:

        Alberto Najar – No Brasil, o problema da vulnerabilidade está fortemente ligado a uma desigualdade social dramática. Uma desigualdade persistente e vergonhosa conforme assinalado por diversas pesquisas. A maior dificuldade para a sua redução está apoiada nos valores das experiências civilizatórias brasileiras: elitismo, mentalidade escravocrata, hiperexploração da força de trabalho e violência com as classes menos favorecidas. Por conta disso, equacionados através de políticas públicas, essa questão assemelha-se a nossa dissolução, a nossa despessoalização, passo que tem se mostrado dificílimo para nós como nação. Nós aceitamos com razoável tranquilidade que boa parte de nossos compatriotas vivam miseravelmente e criem seus filhos e filhas nessa condição.

        Camila Ramos – É impactante essa fala do nosso entrevistado, principalmente o finalzinho em que ele diz como aceitamos a desigualdade gritante que temos no país. Ok, nem todo mundo aceita. Nós do Escuta Clima não aceitamos, assim como muitos pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e instituições, que estão sempre estudando maneiras e soluções para diminuir a vulnerabilidade humana.

        Em 2010 a Organização das Nações Unidas, a ONU, criou a campanha Construindo Cidades Resilientes, que tem o objetivo de criar metas regionais para diminuir o risco e a vulnerabilidade. A Campanha mostrou que em uma cidade resiliente os impactos de um desastre seriam minimizados, porque a população moraria em áreas seguras, teriam governos locais competentes, preocupados com uma urbanização sustentável, que estariam prontos para agir e diminuir os impactos antes, durante e depois de um evento extremo.

        Nesse cenário, a população teria informações suficientes sobre os riscos a que está sujeita e seria capaz de responder a tempo no caso de um desastre iminente. Essa é uma visão muito bonita e necessária, mas que ainda está longe de se tornar realidade na sociedade brasileira atual. E sobre isso, a Regina comenta: 

        Regina Alvalá – Ainda que no Brasil muitas cidades tenham aderido à Campanha, tenham se inscrito na Campanha, não significa que elas estejam resilientes, uma vez que se faz necessário definir ações e prioridades na área de gestão de riscos de desastres, inclusive adotando ações para a construção da percepção de risco pelos gestores e população locais.

        Camila Ramos – Para construir essa percepção pública de risco que a Regina falou, o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais criou o Projeto Cemaden Educação, do qual a pesquisadora faz parte. O projeto, que foi criado em 2014, é desenvolvido em escolas nos locais ameaçados por desastres socioambientais e tem o objetivo de levar para as comunidades informações sobre os riscos que elas enfrentam.

        Nas atividades, a equipe da Regina utiliza métodos contemporâneos de educação e técnicas de divulgação científica. A própria Regina explica melhor a iniciativa: 

        Regina Alvalá – O foco desse projeto é que cada escola tenha a oportunidade de se tornar um espaço de pesquisa, de produção do conhecimento, de monitoramento, e mesmo de gestão participativa de intervenções para a mitigação dos riscos. Metaforicamente, chamamos de Cemaden micro local. Incentiva, portanto, a utilização criativa de novas tecnologias da informação e comunicação entre as comunidades escolares para atuarem em 3 eixos. O primeiro deles, Ciência Cidadã, que seriam pesquisas e a disponibilização dos resultados em rede.

        Camila Ramos – O segundo e o terceiro eixo são Compartilhamento das Informações e Articulação da Comissão de Prevenção de Desastres e Proteção da Vida, que é chamado de COMVIDAÇÃO (escrito tudo junto, remetendo a ideia de “com vida” e, ao mesmo tempo, à convite à ação). Esse último envolve não só as escolas, mas também os moradores, a defesa civil e outros atores para a gestão participativa de intervenções nas comunidades para prevenção de risco de desastres. 

        Aliás, “prever” é uma palavra importante nesse assunto. É necessário não apenas identificar as áreas de risco, mas também monitorar essas regiões e o clima sobre elas para diminuir os impactos de um evento extremo sobre os habitantes. Pesquisas que têm esse objetivo ajudam a melhorar a metodologia e os dados dos alertas de desastres, que são outras formas de promover a sustentabilidade urbana e salvar vidas. Novamente vamos ouvir a Regina, agora sobre os alertas.

        Regina Alvalá – Sistema de alerta precoce constitui em uma ferramenta bastante valiosa para auxiliar as autoridades que trabalham redução de risco de desastres. Para garantir a eficiência de um sistema de alerta precoce, é necessário incluir informações sobre o risco, assim como garantir o monitoramento ininterrupto dos riscos que afetam várias áreas suscetíveis nos municípios. Assim, no caso de uma emergência de desastre, um alerta precoce pode ser disseminado, comunicado àqueles que estão preparados para recebê-lo, incluindo-se entre eles os gestores, tomadores de decisão e a comunidade afetada.

        Camila Ramos – Esse sistema foi implementado no Brasil em 2011 e hoje os profissionais de diversas áreas trabalham para melhorar os alertas, para que sejam mais precisos e deem mais tempo para a população agir e ser atendida. Além disso, é importante saber quais regiões podem sofrer mais danos e quais populações precisam de mais suporte emergencial, como ações de bombeiros durante uma enchente, por exemplo. Como a Regina comenta:

        Regina Alvalá – Os dados associados à previsão de riscos são essenciais para alertas precoces eficazes que permitam ações focadas na redução de perdas de vidas. O conhecimento da população em risco no Brasil, pode contribuir para a identificação das áreas mais críticas que requerem ações prioritárias de resposta, como, por exemplo, aquelas com maior presença de idosos, com crianças e maior concentração de moradores em domicílios sem saneamento, por exemplo, que são indicadores de vulnerabilidade.

        Camila Ramos – Por isso, os estudos de avaliação da vulnerabilidade são fundamentais tanto pro sistema de alerta, quanto para qualquer outra política pública ou medida de mitigação dos riscos.

        Os pesquisadores do INCT sobre mudanças climáticas trabalham em estudos que têm o objetivo de analisar a vulnerabilidade dos municípios brasileiros quanto aos desastres naturais e as alterações climáticas são fortemente consideradas na hora de propor medidas e estratégias de adaptação e mitigação dos riscos da população. Mas esses estudos, apesar de serem importantíssimos, ainda são difíceis de serem desenvolvidos.

        É por isso que nesse último bloco vamos ouvir uma nova voz, que é da Gabriela Couto. Ela é doutoranda do Centro de Ciência dos Sistemas Terrestres do INPE e é pesquisadora associada do Cemaden. Ela comenta que a falta de dados sobre as vítimas de desastres é o primeiro desafio, porque hoje não se sabe, com certeza, qual a idade, o gênero, a cor da pele, a renda e o grau de escolaridade delas.

        Gabriela Couto – Os dados dos afetados por desastres são um número. Um número que não qualifica, não identifica quem são e como sofrem diferencialmente as pessoas em situação de desastres. 

        Camila Ramos – A Gabriela tem razão. As notícias sobre tragédias geralmente trazem apenas números. O deslizamento de terra, que aconteceu em 2011 na região Serrana do Rio de Janeiro, é conhecido como um dos maiores desastres naturais do Brasil. Afinal causou cerca de 900 mortes, deixou 200 desaparecidos e mais de 20 mil desabrigados. São esses números absolutos que a Gabriela está falando. Afinal, quem são essas vítimas?

        Outros desafios para identificar essas vítimas, de quem a Gabriela fala, são o baixo investimento e a difícil comunicação entre instituições que produzem esses dados, que na opinião de Regina são fundamentais para realização das pesquisas nessa área mais sociológica relacionada aos riscos e desastres.

        Regina Alvalá – Embora muito tenha sido feito para disponibilizar informações confiáveis e atualizadas que contribuam para definir estratégias para gestão dos riscos climáticos, há, certamente, a necessidade de investimentos e levantamento de dados e informações que contribuam para identificar a vulnerabilidade da população em todo o país, uma vez que ainda se observa a descontinuidade de apropriações de informações ao longo do tempo, falta de formação para alguns municípios e estados, assim como a dificuldade de homogeneizar as informações de diferentes bancos de dados de abrangência nacional. Soma-se a esses entraves a governança descontinuada, a necessidade de melhorar a integração de gestores públicos, academia e sociedade civil, a demanda por informações atualizadas e mais bem comunicadas a gestores e sociedade civil em âmbito municipal. 

        Camila Ramos – Apesar das barreiras encontradas por pesquisadores, diversos estudos tiveram sucesso em construir uma identificação da população vulnerável. Os resultados dessas pesquisas são de fundamental importância para assegurar a vida da população. Como a Gabriela comenta:

        Gabriela Couto – Identificar os mais vulneráveis, levando em consideração as condições sociais e econômicas preexistentes, e principalmente, diversificar (?) os mais afetados é fundamental para que se possam se construir estratégias para a redução de riscos de desastres. A geração de dados como esse nos permite não só identificar os mais afetados, os mais vulneráveis, mas também, quais são ou podem ser os principais recursos humanos e qual tipo de capacidade existem nos diferentes grupos para que se possam construir espaços mais seguros e resilientes às situações de desastres.

        Camila Ramos – Estamos chegando ao fim do episódio, mas quero reforçar que essa é a primeira parte do tema vulnerabilidade. Na segunda parte, vamos mostrar os resultados de outros estudos realizados no INCT sobre Mudanças Climáticas por pesquisadores que ouvimos hoje e outros que vão falar sobre vulnerabilidade e a saúde humana. Então, não deixe de acompanhar a série de podcast Escuta Clima.

        Ouça também os episódios anteriores, que estão disponíveis nessa mesma plataforma que você está nos ouvindo agora.

        Eu sou Camila Ramos. E este é o Escuta Clima. Um podcast sobre pesquisas relacionadas ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Mudanças Climáticas. Este podcast é apoiado pelo Programa Mídia Ciência da FAPESP.

        Este projeto de jornalismo científico, está sendo desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Unicamp. E é uma seção da revista ClimaCom e Rede de Divulgação Científica e Mudanças Climáticas. Tem a supervisão científica da pesquisadora Simone Pallone de Figueiredo e jornalística da pesquisadora Susana Dias. A trilha sonora foi desenvolvida pelo Lucas Carrasco, que tem apoio do PIBIC, do CNPq. A edição do podcast é do Gustavo Campos, que tem suporte da bolsa SAE/Unicamp. A divulgação nas redes sociais é feita pela Helena Ansani Nogueira e a locução da vinheta é de Bruno Moraes. 

        E se você gostou do Escuta Clima, compartilhe com quem você achar que também vai gostar.

        23 min

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